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História

Empatia pelo próximo

História de: Catia Hatsuko Kawano Miyasiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2015

Sinopse

Cátia Hatsuko veio de uma família japonesa e, em seu relato conta algumas lembranças de seus avós, relembra a infância difícil em sua casa devido aos problemas psiquiátricos de sua mãe; fala das aventuras com seu primeiro namorado e sua viagem ao Japão, onde começou a frequentar a Igreja evangélica. Hoje estuda Marketing e visita comunidades carentes junto aos seus companheiros de igreja.

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História completa

Eu tenho 36 anos e nasci em Mogi das Cruzes. Meus avós da parte da minha mãe são de Hiroshima e da parte do meu pai de Okinawa. O meu vô da parte da minha mãe veio justamente por causa da Segunda Guerra Mundial, eles conseguiram escapar e vir para o Brasil. Foram para o interior de São Paulo. Ele trabalhou como caminhoneiro. Depois, veio para São Paulo e trabalhou numa cooperativa. Mais tarde ele começou a trabalhar como vendedor de bala, ele fazia balas artesanais e vendia e foi assim até nos últimos dias da vida dele. Casou com minha avó que era mineira, japonesa também, mas nasceu aqui. A parte do meu pai veio pro litoral de São Paulo, onde se fazia plantação de banana.

 

A parte do meu pai manteve a tradição japonesa de Okinawa, já parte da minha mãe o costume brasileiro era mais forte. A questão religiosa da minha vó por parte de pai, as comidas típicas, a gente tem ainda essa tradição, de comer; minha avó faz moti e é muito bom. Meu avô paterno faleceu recentemente. Fiquei um ano cuidando dele, eu pude conhece-lo mais, amá-lo, o tempo trocando fralda, dando banho. Apesar das debilidades, a gente dançava, a gente cantava junto, a gente teve um tempo precioso juntos.

 

Papai e mamãe se conheceram em São Paulo. Eram vizinhos e começaram a namorar. Logo em seguida ela engravidou dos filhos anteriores a mim, um ela perdeu e o outro foi tirado. Ela conta que a minha vó insistiu para ela tirar e isso causou um transtorno muito grande na vida dela. Ela se culpou e aquilo trouxe uma enfermidade mental muito grande para ela. Começou mesmo a se manifestar quando ela teve o meu irmão Marcelo, e ao longo dos anos foi aumentando.

 

Meu pai é eletrônico, trabalhou numa firma, depois se tornou autônomo e é até hoje. Eu falo que ele é um pai herói, um pai e mãe ao mesmo tempo, porque além de sustentar os quatro filhos, conviveu com o problema da mamãe. Ela tinha picos de agressividade muito grandes, palavras chulas, muito ciúmes dele, ele conviveu com tudo isso, praticamente, a vida inteira. Teve momentos bons, a gente passeava um pouco, a gente saía, sempre em família, mas eu tinha aquele problema das brigas, das palavras que machucavam muito. Quando cresci eu me sentia impotente. Eu lembro claramente do momentos onde eu me fechava, tinha uma época que eu queria só dormir. Eu ia na casa das minhas amiguinhas e aquela mãe cuidava, fazia comida, brincava, até puxava orelha, falava: “Filha, você não pode fazer isso. Estou te ensinando” …? Eu ficava assim: “Mas por que eu não tenho isso?”, eu ficava me questionando e começava a ficar triste.

 

Desde pequena me lembro dos ataques da minha mãe. De fazer escândalos, brigas, mas foi mais ou menos com uns 14, 13 anos, que ela começou mesmo a falar muito de vozes: “Tem uma voz que tá falando para mim que eu tenho que me matar. Tem uma voz que tá falando para mim que eu tenho que fazer isso”, a gente passou a compreender que aquilo não era normal. É muito triste você estar dentro de um lar onde é seu porto seguro e você ver essa dificuldade na comunicação. Procuramos um psiquiatra, a princípio. Ela ficou em casa, não conseguia trabalhar. Não tinha sociabilidade. No começo, um pouco. Mas foi perdendo isso, porque aquelas vozes da esquizofrenia passaram a ser o porta-voz de tudo que ela fazia.

 

Mesmo quando ela foi internada, porque a gente não estava conseguindo mais lidar com essa situação, a gente tinha momentos bons, eu conversava bastante com ela, ela falava: “Oi, minha filha linda”, “Você é tão linda”. E no dia em que ela veio a falecer, eu olhei para ela e falei: “Mamãe, eu te amo. Te amo muito”, e foi quando ela faleceu nos meus braços. Foi num período que eu voltei do Japão e fiquei mais próxima dela. Eu abdiquei de muitas coisas, de fim de semana, de sair com os amigos para ficar com ela. Mas eu não me arrependo, porque foi o período que ela mais foi amada, que ela se sentiu, realmente, acolhida não só por mim, mas pelos meus irmãos, pelo papai.

 

Na adolescência eu tinha amigos, mas também um medo de me envolver muito com as pessoas e eu gostava de tirar notas boas. Mas eu comecei a namorar, então o dos foco dos estudos fugiu um pouco. E por pouco, eu poderia não ter feito nem o segundo grau, porque pra mim, estava sendo mais importante eu construir uma casa do que estudar. A gente começou a namorar, depois eu fui para Fortaleza morar com ele e com a família. Eu tinha 17, 18 anos. Terminei o segundo grau lá. Foi importante aquele momento, aprendi muito, só que chegou uma hora em que eu quis voltar, ficar próxima da minha família, ele voltou comigo. A gente estava amasiado, depois disso a gente resolveu casar. Fiquei nove meses lá, trabalhei um tempo, também, como operadora de micro, naquela época chamava de micro. Eu aprendi aqui em São Paulo, eu comecei a fazer um curso de computação e eu treinava na casa do meu tio.

 

Voltei para São Paulo com no máximo 18 anos, para a casa dos meus pais. Não foi muito bom, porque mamãe, como já tava com essas crises de esquizofrenia, tinha certas atitudes que não acrescentava no relacionamento, uma porque eu também não estava totalmente correta com a minha atitude, porque você ir para casa dos seus pais vai tirar a privacidade, tanto de um quanto do outro. Foi complicado.

 

Depois a gente buscou uma vida mais independente, moramos de aluguel, sempre com um pouco de dificuldade; mesmo porque nem eu e nem ele tínhamos feito um curso superior, a gente, praticamente, parou a vida para viver isso. E aí, chegou uma fase que eu era muito ciumenta. Eu passei, na verdade, a viver numa redoma, na minha casa. Não que eu não tinha esse convívio com a minha família, mas era mais a minha casa, eu meio que sufocava um pouco ele.

 

Eu aprendi a mexer com Corel, com Photoshop, assim, na raça e passei a trabalhar como arte finalista, trabalhei em gráficas e ensinei ele a fazer isso também. Eu trabalhei muito tempo com gráfica, fazendo criação, design, aí eu fui buscar um pouco mais de teoria, fiz um curso de criação e design. Depois passei a ter um escritório de arte final, e eu ia para as ruas, eu tava em Osasco, eu ia de manhã, voltava à noite com vários pedidos, aí tinha que fazer as artes, mandar para gráfica, depois pegar aqueles cartões de visita, panfletos e entregava. Isso de ônibus, porque não tinha um carro, mas eu era feliz. Nós trabalhamos juntos nesse período. E foi nessa fase que ele conheceu uma pessoa na internet. Nós terminamos. Eu fiquei em Osasco e ele foi embora. Depois para zona leste e ele pediu para voltar e eu dei uma chance, só que eu ainda estava magoada. Eu não tinha, realmente, perdoado ele de verdade. Então, qualquer coisa que a pessoa faz já vira uma bola de nove. Chegou uma hora que eu falei: “Não, não quero mais”.

 

Eu tava com uma crise existencial muito grande, não sabia mais o que fazer, eu tinha uma vontade de morrer. E eu fui para o Japão e papai foi comigo. Minha mãe ficou internada e meus irmãos ficaram aqui. O meu irmão Rafael já estava lá e já tinha mobiliado o apartamento, ele já tava trabalhando e eu consegui um serviço com uma empreiteira. Eu peguei o meu fundo de garantia e paguei a minha passagem. O Primeiro serviço foi muito difícil, porque eu não tinha aquela habilidade, agilidade manual.

 

Depois que papai foi embora eu fiquei com o meu irmão lá. Aí comecei a me envolver com muitas coisas, noitadas, comecei a sair sexta, voltava só domingo. Eu não tinha aquela consciência de que poderia até contrair um problema, uma doença, alguma coisa para mim e isso era mais para me punir. Eu fiquei no Japão de 2005 a 2009. Morei com uma amiga, morei com um rapaz também. Eu comecei a trabalhar numa fábrica de chocolate, na esteira, pegando o chocolate. Mas o primeiro serviço que eu entrei foi pegar os pacotes prontos e colocar dentro de uma caixa, era muito rápido. Eles tiraram duas pessoas quando eu cheguei e me colocaram sozinha. Depois eu fui para a fábrica de rolamentos. Eu saí de lá porque era uma semana de manhã e uma semana à noite. Então, eu fazia das sete da manhã às sete da noite e na outra semana, das sete da noite às sete da manhã. Tinha bônus, você ganhava um extra, mas o corpo sofre.

 

E foi lá que eu descobri que eu tava com pré-câncer no colo do útero, e um certo dia, o meu chefe chegou para mim e falou: “Olha, você tá passando por tudo isso porque você precisa de Deus, por quê que você não vai naquela igreja...”, do rapaz que trabalhava lá na nossa seção. Era uma igreja evangélica. Eu tava namorando com uma pessoa dentro daquela fábrica e eu falei para essa pessoa se ele podia me levar para conhecer. E desde então, eu passei a conhecer, na verdade, quem é a Cátia, porque eu descobri o amor de Deus, foi uma coisa surpreendente de eu ter entendido que independente do que eu sou, independente do que eu faço, tem uma pessoa que me ame incondicionalmente. Isso quebrou os paradigmas que eu tinha há tanto tempo guardado dentro de mim.

 

Eu estava com esse problema do pré-câncer e percebi que foi consequência das minhas atitudes. Aí teve uma palestra num ginásio com o Benny Hinn, e aí, ele falou: “Coloca a mão onde você tem o problema”, aí eu coloquei a mão assim, na barriga e eu comecei a sentir uma coisa esquentar, aí, ele falou: “Você tá sentindo algo esquentar?”, eu falei: “Tô lá no finalzinho, lá em cima”, ele falou: “Você tá sendo curada”, e eu acreditei. Aí eu fui fazer exame e não constou mais nada, nada, nada, nada!

 

Hoje eu faço parte da Comunidade da Graça, e sou líder de uma célula de jovens, que, muitas vezes chegam com muitos problemas, e eu procuro ter empatia por elas, ouvi-las, amá-las e fazer com que elas venham conhecer também esse amor de Deus, e é um trabalho que eu amo fazer. Antes eu tinha um receio de encarar uma faculdade, hoje eu não tenho mais. Eu tô no segundo semestre de Marketing, quero utilizar essas tantas ideias que eu tenho na minha mente para poder promover o impacto social. Moro com os meus irmãos; minha irmã casou e meus outros dois irmãos são sócios junto com o meu tio e o meu primo, eles têm uma empresa de comunicação visual, e papai casou de novo e tem a sua família. Hoje eu ajudo um outro projeto que chama “Além da Rua”, liderado pelo Rafael. Toda sexta-feira a gente vai numa comunidade em Itaquera e faz os alimentos na igreja quadrangular, arroz, faz feijão, salsicha no molho, a gente faz as marmitas e leva para as comunidades. Só que a gente não quer só entregar esse alimento e roupa, a gente aproveita para conhecer um pouco da história da pessoa, para ouvir, para dizer que ela pode, que ela vai conseguir, o quanto Deus a ama.

 

Hoje eu entendo o que é família e procuro explicar sobre comunicação e amor. Eu vejo que tudo isso que eu vivenciei teve um propósito para poder ajudar outras pessoas, para poder entender o que as outras pessoas passam e ter empatia pelo próximo. Isso faz a gente se tornar mais humanos. Eu sou feliz, eu falo que eu sou feliz, a cada dia que passa. Jesus me deu algo que procurei minha vida inteira.

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