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História

Emoção ao entrevistar o Rei Pelé

História de: Wagner de Oliveira Prado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/12/2013

Sinopse

Ao narrar sua história de vida, Wagner fala sobre a origem humilde dos pais e como foi incentivado desde cedo a estudar. Recorda os jogos de futebol nos campos de várzea da Zona Norte de São Paulo e como começou a torcer pelo Corinthians. Fala sobre as escolas em que estudou e os empregos que teve antes de escolher a profissão de jornalista. Com nostalgia lembra da participação do Brasil em Copas do Mundo e o encontro que teve com o ex-jogador da seleção alemã Paul Breitner, em 2006. Por fim, relata a emoção que teve ao entrevistar Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos.

 

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História completa

Meu nome é Wagner de Oliveira Prado, nasci em 9 de outubro de 1960, em São Paulo. Meu pai é Benedicto da Silva Prado e a minha mãe, Alzira de Oliveira Prado. Ambos nascidos também em São Paulo. O meu pai, ele era gari, que é uma palavra que nunca se usou dentro da minha casa, a gente sempre falou “lixeiro” e a minha mãe era passadeira de roupa. Minha mãe começou a trabalhar eu tinha 13 anos e a minha irmã, 11 anos. Meu pai, um camarada bravo, mas uma figura muito marcante na minha formação, um cara perseverante e que me passou um valor que eu trago até hoje. A minha mãe, uma figura muito doce, mas em certos momentos muito impositiva, extremamente carinhosa e que tinha uma paixão por rádio.


O bairro que cresci é o Jaçanã, a Vila Nilo e era um terreno com três casas. A casa da frente era a casa onde vivia a minha avó, dona Lazinha, olhando o terreno de frente, do lado direito, a casa da minha madrinha, Benedita, Ditinha e à esquerda, nos fundos da casa da minha avó, a nossa casa, onde morava Benedicto, Alzira, eu, o filho mais velho, Wagner e a Glay, a minha irmã. Casas extremamente simples. O futebol entrou na minha vida só com dez anos de idade, eu digo: “Só com dez anos”, porque eu comecei a jogar futebol na escola já perto dos dez anos, oito, nove anos de idade, eu comecei a jogar na escola, no primário ainda. Era aquela coisa de sair para o pátio na hora da recreação e aproveitar aqueles dez, quinze minutos de intervalo, os meninos jogando bola. Meu pai gostava de futebol, mas meu pai era ruim de bola. Ele torcia para o Santos Futebol Clube. Ele acompanhava, mas não era uma coisa que fazia parte daquele cotidiano dele, de ser um torcedor que acompanhava tudo. Isso, eu vim ter por parte do meu padrinho, Nelson, que era mecânico e negro, mas torcia para o Palmeiras. Meu pai, até os meus dez anos, nunca havia me levado a um jogo de futebol, do Santos. O Santos jogava na Vila Belmiro e para ir para Santos na década de 60 não era essa facilidade que é hoje, e jogava no Pacaembu. Meu pai nunca havia me levado a um campo de futebol, quem me levou foi o meu padrinho, no Palmeiras e Corinthians, agosto de 1971, no Morumbi. Meu pai foi junto, mesmo não sendo um jogo do Santos. Primeira vez eu entrando num estádio, Morumbi… Foi uma coisa maravilhosa de ver aquele mundo de pessoas e foi ali que eu me defini corintiano para desespero do meu padrinho, que com certeza, me levou para que eu passasse a ser um torcedor do Palmeiras também. Foi simples e foi mágico! Por acaso, o meu pai fazia um bico na Federação Paulista de Futebol, como rasgador de bilhete, rasgava bilhetes de papel, tinha uma urna, a pessoa chegava, entregava, rasgava o bilhete e jogava na urna. Ele passou a fazer isso e ele perguntava: “Vai ter jogo do Santos, quer ir ao jogo do Santos?” e eu: “Não, não quero ir ao jogo…”, “Quer ir ao jogo do Palmeiras?” “Não, não. quando tiver do Corinthians, eu posso ir?” “Está bom, vai no do Corinthians”, e ele nem protestou nada, nunca falou nada, acho que respeitou a minha opção. Passei a ir a jogos do Corinthians e a primeira grande sensação assim, como corintiano, primeiro… talvez, primeiro prazer, no futebol foi 1972 Corinthians e Palmeiras, Morumbi, Corinthians campeão da Taça do Povo.


Eu lembro de um momento, Corinthians e Internacional de Porto Alegre no Parque Antártica, não sei… eu era garoto, não sei porque eles jogaram no parque Antártica, se uma reforma do Pacaembu, mas isso é década de 70 e o meu pai me levou a esse jogo, eu pedi para ir e quando o Corinthians chegou ao estádio, eu estava no local em que os jogadores iam passar e eu vi o Rivelino. Eu vi o Rivelino, que tinha sido campeão em 70, a primeira Copa que eu vi, que eu vi na televisão, e vibrei muito com aquilo, com nove anos de idade e eu vi o Rivelino chegando e aquilo foi mágico para mim, porque Rivelino fazia magia com aquele pé esquerdo, e a hora que ele passou, eu falei: “Oi Riva”, ele pegou passou a mão na minha cabeça e eu fiquei parado.  Eu fiquei aquilo, o Rivelino tocou em mim, é o Rivelino! Aquilo me encantou, ter visto o Rivelino e o fato de poder ver também no estádio o Pelé jogando. Eu vi o Pelé em campo duas vezes, uma vez, ele fez gol, um golaço contra a Portuguesa no Pacaembu, um chute de voleio lindo, acho que isso é 1973 ou 74, e vi o Pelé num Santos, 4 Corinthians 0 no Morumbi, um dia que o Edu, ponta esquerda, que foi o cara que mais me impressionou quando eu era garoto, que jogava bola, foi o Edu, que tinha uma habilidade incrível. E eu era meio gordinho, assim como o Edu, e o Edu jogava com a meia arreada e eu, toda vez que ia jogar, eu arreava a meia para ficar parecido com ele, embora eu fosse destro.  E aquele jogo, o Edu estava endiabrado, Corinthians quatro… Santos, quatro; Corinthians, zero, foi uma coisa tão assim, assombrosa, o Pelé não fez gol, mas jogou muito, os gols foram de Nenê, o Edu numa cavadinha por cima do Ado, que foi uma coisa! Nenê, acho que fez dois, Edu, e se eu não me engano, o Brecha fez gol.


Foi em 1970, foi quando chegou a televisão em casa, nós não tínhamos televisão, era só rádio.  O seletor de canais era algo que eu criança precisava pegar com duas mãos, por dentro dela tinha válvulas e era fantástico você ver as válvulas da TV acendendo para ela começar a funcionar. Então, você pegava o seletor e virava, quando ligava e aquilo fazia: ‘tuk, tuk…’, era uma… era mágico o negócio. Chegou a TV justamente para Copa do Mundo, que se eu não me engano, a Copa de 70 foi a primeira Copa com transmissão ao vivo pela televisão. E eu lembro que na transmissão, em cima, aparecia “vivo” aqui à esquerda e a gente lia “live”, que é live, e eu perguntava para o meu pai: “O que é que é vivo live?”, e ele falava: “Não enche, deixa eu ver o jogo”.  Reunia a família onde tivesse a TV, e tinha TV na minha casa e na minha avó já havia televisão e por uma questão de hierarquia, vamos nos reunir na casa da minha avó, íamos para casa da frente, todo mundo, para ver o jogo. A TV exercia um papel fascinante, aparecia outras letrinhas, saía um gol do Brasil, ou de qualquer outro time, e aparecia: “replay”, e era em câmera lenta e a gente… saía o gol, a gente saía correndo para o quintal, pegava uma bola e fazia aquela coisa do movimento do jogador chegando, chutava a bola devagarinho para ela, ir bem devagarinho, quem estava no gol imaginário fazia aquela coisa de cair, a bola passando e a gente, às vezes, até dispersava do jogo, para ficar nas nossas brincadeiras. E quando saía um outro gol, corria para TV para ver como foi e fazer o nosso slow motion no quintal. E era muito divertido essa coisa de ver um pouco do Brasil, e depois, repetir o que estava acontecendo na TV.  Eu lembro muito dos fogos.  A gritaria e os fogos, muitos fogos, muitos fogos e depois que acabava o jogo, em algum lugar, ia começar um samba, ia ter música em algum canto para comemorar a vitória e como o Brasil só venceu, foi campeão, então, sempre depois de jogo, começava música em algum lugar. Perto de casa, no campo de futebol, que existia, no Jaçanã tinha um clube, time chamado São Benedito, então, o campo de futebol era a área maior onde as pessoas tinham para se reunir, então, o povo ia para lá, e chegava alguém com uma caixa, um pandeiro, não tinha instrumento de corda não, era uma coisa bem. 


Eu entrei com seis anos na escola, Escola Dona Cirene de Oliveira Laet.  Era um prédio muito simples, apenas de um pavimento, branca, janelas pintadas de azul, uma entrada, portão grande, aquelas pedras meio cor de rosa, tal, pedras grandes, a área para brincar era o pátio da escola, lembro muito que a gente tinha uma ordem que era obedecida assim, de uma forma militar. Eu gostava da escola, nessa fase de criança, era muita novidade, essa coisa do saber, de aprender, era muito bacana. Depois foi Unidade Integrada de Primeiro Grau Júlio Pestana. Eu já tinha que andar de 15 a 20 minutos para chegar. Lembro até que nos primeiros dias, a minha mãe, acompanhou a mim e a minha prima, nós entramos no Júlio Pestana, nem era Unidade Integrada ainda, quando nós entramos era Grupo Escolar do Jaçanã. Até os 15  a diversão nossa era jogar futebol, na escola ou fora dela, tínhamos o nosso time da vila. Havia vários campinhos, no bairro, nós tínhamos o nosso campo, entre a Cirene Oliveira Laet e a linha de trem, um terreno de um senhor italiano, senhor Giuseppe Menella. Campo de terra, terra batida e, ou você aprende a jogar, ou você não aprende, porque era um campo em declive. Era sempre jogo contra outra vila. O pessoal da nossa vila jogava para o nosso time, não existia isso de é nosso e vai jogar.


No colegial eu vou para o Colégio Estadual Eurico Figueiredo, o Cepef, também no Jaçanã. Eu me formo no Júlio Pestana, aquela fase da adolescência, legal e tal e vou para o Cepef. Tomo bomba aos 16, tomo bomba aos 17, sou jubilado. Não dei importância para isso, ligado em outras coisas, tentei aprender, tentei a música. Fiquei dos 19 até os 22 anos sem estudar, ou seja, eu desperdicei, em termos de estudo, cinco, seis anos da minha vida, os três anos que eu bombei, e o período que eu fiquei sem fazer nada, só trabalhando. Comecei a trabalhar aos 14 anos numa indústria de calcados chamada Arcoflex, ela não existe mais, no bairro do Jaçanã. O que eu ganhava era parte para ajudar em casa, e um pouco ficava para mim. Fiquei por dez meses, dez meses eu trabalhei na Arcoflex, até que eu saí.  Queria algo melhor e esse algo melhor surgiu quando eu fui trabalhar pela primeira vez como office-boy, numa empresa chamada CPM Concreto Pré-Moldado, um lugar que aí, deu valor para o meu estudo, pelo o que eu estava estudando, porque eu comecei como office-boy e acabei como auxiliar de escritório. Perco o meu emprego na CPM e recebo uma oportunidade de trabalhar na Sabesp. Entrei em final de 79, entrei com 19 anos. Com 22 anos, eu resolvo fazer o supletivo, fiz um ano e meio de supletivo, saí com 23 anos. Fazer três, quatro meses de um cursinho, fiz o cursinho no Etapa.  Eu queria fazer Jornalismo, porque uma das coisas que eu fazia bem era escrever. O cursinho, faço vestibular e entrei na Fiam.  O que eu queria do Jornalismo? Que eu pudesse trabalhar com esportes, eu nunca me vi um jornalista de politica, nem de economia, nem de ciências, eu queria esportes, porque eu sabia que nos esportes, eu ia ter um prazer em fazer aquilo, Campeonato Mundial de Bolinha de Gude, eu ia estar babando por aquilo, e eu iria viajar, minha grande paixão, conhecer outros lugares. Eu gostei muito de tudo o que eu fiz.


A Copa que mais marcou para mim, que mais marcou foi a Copa que o Brasil não ganhou, a de 82. A Copa de 70, eu era uma criança de nove anos, valia mais a questão da farra, até de nem entender bem o que estava acontecendo, uma farra por causa de bola, coisa que ainda nem fazia tanto parte da minha vida assim. Setenta e quatro, eu estou com 13 anos, Alemanha, o Brasil perde, perde eu apanho da minha mãe no primeiro jogo, porque eu faltei na escola para assistir. E nem era o jogo do Brasil, eu faltei na escola para ver a abertura da Copa de 74 que foi Alemanha e Chile.


Às vésperas da Copa de 2006, a Fifa sempre elege algumas personalidades como embaixadores, da Copa. Paul Breitner, era um dos embaixadores da Copa e ele veio para o Brasil para promover a Copa da Alemanha aqui no Brasil. Na época, eu era repórter de uma TV, de um projeto bacana do qual eu participei chamado TV da Gente.  Na entrevista coletiva, eu queria dizer para o Breitner que em 74 eu apanhei da minha mãe por causa dele e do time que ele jogava, daí o tradutor fez assim para mim e falou: “Ele esta dizendo que apanhou por causa de você…”, ele pegou, fez assim, ele levantou, para me olhar, pediu para que eu continuasse falando, eu falei: “Era abertura da Copa…”, e contei essa história e ele me perguntou: “E valeu a pena?”, eu falei: “Valeu muito a pena, foi um jogo difícil”, ele falou: “É, você achou o jogo difícil vendo porque você não estava lá no campo”. As duas entrevistas que eu fiz com o Pelé, assim, aquele momento do nervosismo,  eu perto do Pelé e a minha perna não parava de se mexer.  Eu estava na “Folha da Tarde” e era um outro evento também da Copa dos Estados Unidos, isso era 1993 ou 94, a Copa foi em 94, e o Pelé fez uma coletiva aqui em São Paulo. Eu queria uma entrevista com o Pelé, mas eu não queria falar de ingresso. Eu queria falar de qualquer outra coisa, mostrar um outro Pelé e tal, e ele estava comendo, eu cheguei, fiquei de cócoras do lado dele, ele comendo, ele olhou assim: “Vai ficar aí ajoelhado?”, ele falou, “Não Rei, eu queria te fazer umas perguntas, mas totalmente fora desse contexto de…”, ele falou: “Você pode esperar eu comer?”, a hora que ele falou isso, eu falei: “Vou ter a entrevista com o Pelé” e fiquei a alguns passos, a hora que ele acabou, ele falou: “Vamos conversar”, levantou, e fomos para uma poltrona, ele sentou ao meu lado: “Sobre o que você quer falar?”. Eu não falei uma linha sobre futebol com ele, falamos sobre vaidade, filhos, falamos sobre tênis, que ele gosta de jogar tênis e eu também gosto, não jogo bem, mas gosto. Falamos sobre várias coisas, até sobre a Xuxa a gente falou na época, mas nada sobre futebol. Então, eu levei uma matéria para o jornal que era isso, o Pelé falando sobre tudo, menos sobre bola e eu fiquei muito feliz por ter feito esse trabalho.

 

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