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Em terras além mar

História de: Clarisse Diniz e Paiva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2013

Sinopse

A entrevista de Clarisse Diniz e Paiva foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 07 de novembro de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Nascida na pequena aldeia de Vila Meã, Portugal, Clarisse começou a trabalhar desde cedo, no campo, cuidando de crianças e como doméstica. Veio para o Brasil junto com o seu tio a procura de trabalho e melhores condições de vida. É aposentada e vive bem em São Paulo.

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História completa

Meu nome é Clarisse Diniz e Paiva, nasci em 30 de março de 1933, numa aldeia muito pequena de Portugal chamada Vila Meã, concelho do Carregal do Sal, distrito de Viseu, que fica na Beira Alta, perto da Serra da Estrela. Meus pais trabalhavam no campo, minha mãe era de casa, do lar, mas também ajudava meu pai no campo. Nós éramos sete irmãos, eu sou a mais velha de sete irmãos. Eu ajudei a criar meus irmãos. Eu ajudei a criar, fui à escola, tudo, depois comecei a trabalhar muito novinha. Quando eu saí da escola, com 12 anos, eu já comecei a trabalhar pra ajudar em casa, porque nós éramos uma família pobre. No tempo de semear milho era milho, no tempo de semear cevada era cevada. Cada tempo tem uma temporada de plantação de sementes pra gente semear na terra pra nascer. O milho, tudo isso. Plantávamos cebola, batata, tudo. Tempo da vindima, tempo de podar as videiras. Primeiro podavam as videiras, depois as videiras iam crescendo, as raminhas iam nascendo, tinha que sulfatar as videiras, com a bomba nas costas e fazia assim pra sulfatar. Depois chegava o tempo das vindimas, a gente pegava os cachos, carregava aqueles cachos na cabeça com uma cesta, levar para o lagar, pra formar vinho. Então cada época do ano em Portugal tem uma coisa pra fazer. Eu carreguei muito coisa na cabeça. Muita, muita, muita. Eu era novinha, saí da escola com 12 anos, eu já comecei a trabalhar. Fazia tudo, meu amor. Fazia tudo. Até as pessoas diziam pra minha mãe: “Ana, cuidado com a tua filha, que ela é muito nova, ela pode se machucar, pode estragar a coluna”. Mas eu gostava. Sempre gostei de trabalho. E sempre gostei do serviço, de trabalhar. Sempre, graças a Deus. Sempre teve isso comigo. Então tu carregavas coisa na cabeça. Quando comecei a pensar em trabalhar mais para ganhar a vida, foi nessa época que meu tio falou assim pra mim se eu queria vir com eles para o Brasil. Aí eu falei: “Ah, tio, vou, mas eu tenho que ir lá e falar com meus patrões” “Então está bom. Então vai lá, fala com teus patrões, depois vem, porque nós temos que tratar dos papéis”. Naquela época, dava muito trabalho pra tratar da papelada pra vir para o Brasil. Tinha que ter carta de chamada. Mas eu não precisei de carta de chamada porque eu vim com eles, eu vinha como empregada deles. Então não precisei de carta de chamada. Era uma autorização. Tipo uma autorização, como essa pessoa vem trabalhar pra esta pessoa que está chamando-a. Que nem meu marido quando veio, ele precisou dessa autorização que esse senhor que estava aqui no Brasil estava chamando-o pra vir trabalhar no comércio dele. Vim num navio enorme. Era um navio inglês antigo, que naquela época já tinham navios mais modernos. Já tinham dois navios, o Vera Cruz, que era português, e o Santa Maria, que também era português, eram navios mais modernos. Mas eu não calhei de vir nesses navios, eu vim num inglês. Eu vim num navio inglês, que já era assim, um pouquinho mais velho, mais acabado, mas era enorme. Um navio enorme. Tinha salão de festa, tinha piscina, tinha tudo, só que não era tão moderno. Ficávamos sentadas vendo quem estava na piscina, uma hora íamos pra um lado, outra hora íamos pra outro. Andávamos pra cá, andávamos pra lá, jogávamos carta, jogávamos baralho. Íamos almoçar num salão enorme, pra comer o café, o almoço assim, tudo. Mas fazer, não fazíamos nada. Quando eu cheguei a São Paulo foi o seguinte, esses meus tios que me trouxeram foram na Penha, nesse meu tio José, que morava na Penha. Eu fiquei na Penha com eles. Essa parte foi um pouquinho difícil, porque eu era muito envergonhada, eu era muito acanhada. E esses meus tios que me trouxeram para o Brasil, meu tio Cristiano, minha tia Alice, eles foram lá pra Jabaquara. Eles tinham tido uma padaria pra lá, foram lá pra Jabaquara. De cara eu não gostei, é uma cidade grande. Lá em Portugal quem morava na cidade não saía na rua de qualquer jeito, não. De sapatinho, de sapato, bem vestidinho, bem arrumadinho. Mesmo eu que era empregada, uma comparação, nós saíamos na cidade pra comprar, falava lá “a praça”, a praça é tipo de um sacolão, que tem verduras, tem fruta, tem carne, tem tudo ali. Falava “a praça”. Mas a gente se arrumava bonitinha, bem arrumadinha, com sacola, uma sacolinha de acordo, bonita, sabe? Íamos à praça, a gente anotava o pedido que a patroa falava, queria isso, queria isso, queria isso, vínhamos trazendo tudo pra cá. Mas bem vestidas, muito bem arrumadinhas. Foi a primeira coisa que eu reparei aqui: chinelo Havaiana nos pés. Eu falei assim: “Nossa!”. Achei o povo muito mal arrumado, muito mal vestido na rua. Foi a primeira impressão que eu tive. Fui trabalhar numa padaria. Eu fazia de tudo lá. Ajudava minha tia na casa. Ajudava de tudo, fazia tudo. Cozinhava, lavava, passava. Porque a casa era pegava com a padaria, sabe? Então fazia de tudo. Fiquei uns meses. Fiquei uns meses ali. Depois, essa minha tia tinha duas sobrinhas da família dela, filhas de uma irmã dela, trabalhavam numa fábrica de colchas, de colchas de cama, essas duas meninas. Então elas me arrumaram serviço nessa fábrica de colchas, pra eu ir trabalhar lá. Eu vim para o Brasil com meu tio e com a minha tia, eles que me pagaram a passagem, eu tive que pagar a passagem pra eles. Cheguei aqui, minha filha, com o meu trabalho, com o meu suor e paguei a passagem para os meus tios, tudinho, tudinho, mandei dinheiro para os meus pais. Mandei dinheiro para os meus pais, juntei um dinheirinho, solteira, fiz o meu enxoval de casamento, tudo com o meu dinheiro. Tenho enxoval até hoje, feito com minhas posses, com meu poder, com meu dinheirinho.

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