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Em muitas ações, todas as lutas, mas cuidando da ancestralidade

História de: Miriam Leirias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/12/2017

Sinopse

Miriam - dona Miriam - tem uma história familiar complexa: muitos irmãos; pai velho e mãe jovem; um pai dedicado e, paradoxalmente, distante. Explica-se: já idoso, esse pai tinha verdadeira obsessão por ensinar - desde alfabetizar até como se comportar - e fazia questão de estar presente na alimentação e cuidados médicos dos filhos; não obstante, não dava carinho, não conversava, não contava histórias, não se chegava - era severo no ensinar e repressivo no educar. Quando a filha mais insubordinada de “seu” Valério foi sobreviver e cuidar dos outros, tal como a Miriam bíblica, coragem disposição e experiência não lhe faltaram. Afinal, havia passado pelo movimento estudantil no pior da ditadura. E cuidar, no seu caso, significou ativismo, militância, se importar com, lutar por, defender negros, mulheres e trabalhadores. Depois foi cuidar de suas raízes, de sua ancestralidade. Buscou as origens do velho pai, até numa tentativa de decifrá-lo. Sonha publicar tudo isso e lançar na São Félix onde ele nasceu. Propõe até um pacto com o tempo, a finitude de todos nós, para cumprir essa missão antes de morrer.

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História completa

Nasci em Natal, Rio Grande do Norte, num dia de São Elesbão, 27 de outubro, do ano de 1944. Por conta disso, se fosse feita a vontade de meu pai, muito provavelmente eu me chamaria Elesbina e não Míriam, nome bíblico a que se associam histórias lindíssimas de sobrevivência, e de salvar também - num contexto de encantamento. Por sorte, minha mãe estava atenta e fez prevalecer sua vontade: Miriam.


Meus pais, ao se casarem, carregaram filhos - ele, um casal; ela, uma filha - para a nova família porque eram ambos viúvos. E tiveram oito filhos. Ele, para aquele tempo, já era velho - 53 anos - e ela, praticamente uma jovem, quase da idade da filha dele. Quando eu nasci, meu pai já tinha 68 anos.

 

Meu pai tinha orgulho daquela família, acho que justamente por essa diferença de idade entre ele e minha mãe, e cuidava muito da gente. Às vezes saía com três crianças, cantarolando, o que era muito bom. Porém, existia também a questão da distância que se formava, porque ele não conversava, não contava histórias, era muito exigente, até repressivo, demonstrando enorme pressa em ensinar tudo, tudo, tudo para a gente. Tínhamos que praticamente aprender todas as tarefas de casa, desde acender o fogo - era carvão, na época - tirar a mesa com esmero, até se comportar e falar direito. Ele se incumbia de alfabetizar os filhos, cuidar da saúde - numa base naturalista, à base de ervas, chás - e da alimentação, controlando o consumo de carne e direcionando para legumes e folhas. Mas tudo isso com muita severidade, muita pressa - ele parecia saber que não dispunha de tanto tempo - debaixo de muita pressão e nervosismo. Minha mãe costumava dizer: “O meu velho é muito importuno”. Eu, diante dessa situação, mesmo sendo pequena, já era meio que insubordinada, o que era simplesmente inadmissível.

 

Teve um dia em que eu pensei: “Porque esse homem não morre?”. Eu acho que isso repercutiu em mim depois.

 

Meu pai foi, seguidamente, militar, faroleiro e comerciante. Sempre ganhou bem e tínhamos, pode-se dizer, abundância em casa. E deixou separado um dinheirinho da aposentadoria     para a minha mãe comprar uma casa boa, em sua falta. Só que ele entregou para um parente administrar e o resultado não foi o esperado. Resultado: depois que ele faleceu, minha mãe só conseguiu comprar uma casa de taipa lá em Ceará-Mirim, um lugar mais tranquilo e onde morava a irmã dela. Acredito que, apesar da idade, meu pai ainda tinha vigor para viver bem mais. Ocorre que o filho dele, do primeiro casamento, Paulo, uma pessoa estudiosa - um médico negro na Bahia, onde ele morava, o que não era tão comum - e dedicado a uma medicina social, foi vítima de um desastre aéreo. No mesmo dia em que meu pai soube do acidente e morte desse filho, ele teve um AVC. Morreu pouco depois.

 

Em Ceará-Mirim, graças a um esforço da minha mãe, eu fui estudar num colégio de freiras. Até cogitei tornar-me uma delas, mas foi “fogo de palha”. Logo arranjei um namoradinho e, veja, dentro do movimento estudantil. Aí a trajetória se acelerou: fui para Natal (quer dizer, voltei, não é?), fiz a Escola Normal e, como já se anunciava no horizonte educacional a alfabetização de adultos pelo método Paulo Freire, fui participar de um programa, digamos assim, análogo, denominado De Pé no Chão Também se Aprende a Ler. Era uma iniciativa da Prefeitura ou, mais especificamente, do prefeito que revolucionou Natal - Djalma Maranhão - que a ditadura afastou, prendeu e ele nunca mais pode retornar. Mais tarde, quando estava entrando na faculdade - eu fiz Pedagogia primeiro, depois é que fiz Psicologia - eu acabei participando da alfabetização de Paulo Freire, mas camuflada sob outra denominação de projeto, porque aí já estávamos em plena ditadura militar.

 

O Paulo Freire já tinha feito então a experiência em Angicos, já tinha sido vitoriosa, e ele vinha para expandir para todo o estado. A gente teve treinamento [...] também de consciência do povo [...], que não era esmola, era política pública de alfabetização de adultos.

 

Bom, mas aí eu já estava plenamente identificada com o movimento estudantil e coisas começaram a acontecer, como a prisão do meu namorado, em Recife, delatado por um parente, e a minha decisão de me afastar da Juventude Estudantil Católica, onde não tinha tido até então nenhuma ação, mas tinha nome clandestino. O que me levou a essa decisão foi, claro, o recrudescimento da repressão - amigos sendo presos e torturados, outros sendo mortos com métodos cruéis - mas, principalmente, a percepção de que, se eu não tinha coragem de tratar de um dente, como seguir para a luta armada? Eu não estava preparada.

Resolvi, nessa época, passar férias no Rio e, de lá, vim para São Paulo - hoje eu sei, definitivamente. O namoradinho tornou-se marido, o primeiro filho nasceu em 1971, no auge dos chamados anos de chumbo. Fui trabalhar no magistério.

 

Eu, depois, quis me separar [...] Eu queria coisas que, naquele momento, não tinha, ou era… fiz outra faculdade, a Psicologia.

 

Eu não exerci a Psicologia no seu formato individualista, mas social. “Fui militante do sindicato e foi muito boa a minha agressividade. Então, quer dizer, a gente lutar por paridade dentro da categoria, dentro da direção da CUT, da direção do sindicato, parece tão besta mas era, minha Nossa, eram brigas… E muito bom. Animava também. Animava.

 

Em meio a essa militância - movimento das mulheres, movimento negro - eu reservei uma parte do meu tempo para refletir sobre o meu pai, assim tão de proibir, de impedir, de reprimir, e tal. E me aprofundar, talvez, em suas origens e segredos - porque eu percebia que havia segredos, abafados pelos mais velhos. Tipo assim, supostamente filho de uma escrava com seu dono.

 

Então, esse ativismo todo a que eu me entreguei, de repente me desperta e me direciona para a condição dos escravos, dos negros, das mulheres, e como tudo isso produzia distorções, situações hoje inaceitáveis e naquele tempo consideradas absolutamente naturais. E aí, quando eu vi, já estava lidando com a minha ancestralidade que, de certa forma, estava a exigir uma investigação. A questão da identidade do meu pai, de desvendar seu temperamento, me impulsionaram a sair em busca das origens. Então eu fui à luta, fui em busca do que precisava ser desenredado. Fui buscar elementos que se encaixassem em exíguas informações que eu levava. Fui em Cartórios, fui em igrejas, fui atrás de registros de nascimento, de certidões de batismo. Descobri coisas estranhas: documento em que o nome da mãe dele, meu pai, não era o que sempre se soube que seria o nome de nossa avó paterna - e que, inclusive, é o nome de minha irmã mais nova, justamente em homenagem à avó. Então, tinha o nome de outra mulher e não constava o nome do pai dele, nosso avô paterno. Seria o meu pai um filho natural? Fui pesquisar sobre filho natural, descobri um livro lindíssimo sobre isso, de Camilo Castelo Branco. Que, sendo filho natural, não conseguiu evitar que a filha fosse para a roda dos enjeitados. E meu pai conseguiu assumir, cuidar, dar nome e sobrenome a tantos filhos. Aí ampliei um pouco a investigação: foquei nos sobrenomes - Leirias, Menezes…

 

Nessa busca, cheguei a uma senhora, que podia ser minha avó, e que reagiu muito mal à minha pesquisa sobre a ancestralidade, alegando que “o passado passou”. Depois compreendi que, por trás daquela reação estava o medo - e talvez a vergonha - de reabrir feridas e voltar a sentir a dor da escravidão.

 

Bom, mas nesse ponto da batalha percebi algo surpreendente:

 

Aí eu percebi que o nome do pai dele aparece nos documentos da gente, não no dele. É como se ele tivesse se dado; ao se dar o avô, ele se deu o pai.

 

E agora eu me vejo diante do desafio de contar essa história, de reproduzir os detalhes dessa trajetória, de tentar dar a esses fantasmas as vidas que eles tiveram. Tento aprimorar minha escrita fazendo cursos e já pensando em aplicar os ensinamentos de oficinas e o recurso da revisão de texto. Mas existe um custo para tudo isso e rendimentos limitados, de forma que sempre demora um pouco para finalizar. Às vezes, para contar essa história tento buscar inspiração em personagens que eu mesma criei para meus contos. O objetivo é realizar o sonho; o sonho é lançar o livro que conterá toda a saga na terra natal de meu pai.

 

Meu medo é morrer antes de fazer e ficar tudo assim para os filhos: “Ah, o que vou fazer com isso aqui? Ah, coitadinha da minha mãe”. Isso eu peço, quero negociar com o tempo. 

 

 Editado por Paulo Rodrigues Ferreira


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