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História

Em luta pelo povo do Velho Chico

História de: Marina da Rocha Braga
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/02/2009

Sinopse

Nascida em 1957 em uma comunidade rural de Casa Nova, na Bahia, à beira do Rio São Francisco, Marina da Rocha Braga nunca se conformou com as injustiças que via acontecer em sua região. Com os estudos que realizou para se tornar professora, incentivados pelos pais lavradores, ela ganhou força e consciência para militar a favor da população do semiárido, contra os grandes projetos que, desde a construção da Barragem de Sobradinho, continuam a ameaçar o Velho Chico. Desde 1979, Marina segue nessa luta com o respaldo da Comissão Pastoral da Terra, da qual se tornou coordenadora. Em seu depoimento, ela conta como a história desse movimento se entrelaça com a da sua própria vida e revela opiniões importantes sobre as obras de transposição do rio.

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História completa

Sou Marina da Rocha Braga, nasci a 3 de março de 1957, em Casa Nova, aqui no Estado da Bahia. Nós somos uma família de 15 irmãos. Oito mulheres e sete homens. Eu nasci numa comunidade da zona rural que hoje chama Riacho Grande. Nós somos família de agricultores. Até os cinco anos de idade, eu vivi sempre lá. Depois eu fui estudar no município de Sento Sé, aqui pertinho de Sobradinho, onde eu fiquei dos cinco anos de idade até os 12 anos. Eu fui para estudar o primário. Eu fui adotada por minha tia, e ela era professora no município de Sento Sé. Eu fui com ela. Na época das aulas, eu ficava em Sento Sé. Depois eu fui estudar na cidade de Casa Nova, no ginásio. Terminei o magistério, depois eu retornei para a minha cidade para dar aula. Eu dava aula, fui professora no local durante três anos. Depois, eu fui para a cidade novamente, quando eu fui concursada. Eu sou professora estadual. No ano de 78, aí eu fui trabalhar em Casa Nova como professora, magistério da primeira à quarta série.

Depois, continuei trabalhando como professora e também participando dos movimentos sociais. Participei da fundação do quarteto dos trabalhadores. Naquela época, foi importante, era uma luta importante. A gente passou por muitos momentos difíceis, minha família era muito pobre. Tempo para estudar era complicado. A gente estudava na cidade. Principalmente a partir da quinta série, não tinha escola no interior. A gente tinha que estudar na cidade. Então, a gente passava um monte de dificuldade para estudar, já que meus pais ficavam na roça, e nós morávamos na cidade para estudar. Mas uma coisa boa é que nossos pais, lá da nossa comunidade, os únicos pais que colocaram os filhos na escola foram os meus, porque meus pais achavam que, já que eles não tinham a possibilidade de oferecer outra coisa como herança, a herança que eles deixavam para a gente era a educação, a formação até o magistério, até o segundo grau. Mas, pelo menos até o segundo grau, só um filho que não quis, foi embora e não conseguiu terminar o segundo grau. Mas todos os outros estudaram, e depois a gente foi se virando para fazer a faculdade.

Eu adoro ser professora. Se todo mundo soubesse o poder que a educação tem, muita coisa já havia mudado, e eu acho que contribuí nisso, no processo de mudança do município onde eu moro. Às vezes, tinha hora que eu dava aula para 1500 alunos e eu nunca deixei de atuar dentro da sala de aula como eu atuo fora, no movimento social. As mesmas questões que a gente discutia, debatia no movimento social, eu também discutia esses assuntos com os alunos na escola. Muitos alunos hoje estão na militância, e eu acho que eu contribuí nesse processo. O pessoal está assumindo o seu papel de cidadão, cidadã. Eu acho que eu contribuí nesse processo, eu acho que a educação tem que ser isso. Eu aprendi muito com Paulo Freire. Paulo Freire trabalhou muito aqui conosco na diocese de Juazeiro. A gente teve vários momentos com ele, ele ajudou a gente. Sempre procurei trabalhar nessa perspectiva, de ser, trabalhar a construção do conhecimento junto.

A maioria de todo mundo lá em casa é professor, sejam as irmãs, sejam as sobrinhas, sejam os sobrinhos. Primeiro, uma das coisas é que a opção que tinha naquela época para estudar era ser professora, fazer magistério. Mas também parece que a nossa família gosta disso. Não só eu, mas todo mundo gosta de ser professor (risos). Hoje, nós temos, nas escolas lá do município, quase toda escola tinha alguém de minha família, minhas irmãs. Nós somos oito mulheres, nós somos oito professoras.

Uma das grandes discussões da fundação da CPT na diocese de Juazeiro foi a partir da barragem, da construção da Barragem de Sobradinho, em 75, quando o bispo da diocese de Juazeiro da época, Dom José Rodrigues, chegou. Então, todo mundo estava saindo, estava sendo expulso da região por conta da Barragem de Sobradinho. Não havia uma organização que garantisse a luta, que colaborasse no processo de as pessoas virem seus direitos, conhecerem os seus direitos e lutarem por eles. Então, os grupos que lutaram pelos seus direitos foram grupos que se viraram autonomamente, sem nenhuma organização formal. Com a chegada de Dom José Rodrigues, ele começou a dar uma cara diferente para a diocese, e uma das coisas que mais fez ser criada a CPT foi essa questão da Barragem de Sobradinho, da expulsão das pessoas da região e também o início dos projetos de irrigação. Disso tudo a gente participou, desse processo de discussão. Desde 79, o bispo me convidou para compor a equipe da CPT, mas era para eu sair de meu local e vir para a cidade de Juazeiro. Eu sempre gostei de trabalhar de forma autônoma, então eu não gosto. Mas aí, dez anos depois, em 89, o pessoal me chamou, eu estava saindo, estava dando um tempo, dando licença da escola, o pessoal me chamou numa época que eu resolvi fazer uma experiência de seis meses. E estou aqui até hoje, efetivamente, vamos dizer, formalmente, na CPT. Mas sempre eu estive, desde a constituição da CPT na diocese, que foi em 77.

A CPT é uma pastoral, ela é ecumênica, é uma entidade de apoio aos trabalhadores e suas organizações. Ela foi criada inicialmente para apoiar os trabalhadores rurais que estavam em dificuldades, perseguição, grilagem de terra, morte de trabalhadores no Norte do país. Mas depois ela foi, logo, se ampliando para todo o Brasil. Então, hoje a CPT é articulada em todo Brasil. Ela é organizada em seis grandes regiões do Brasil, e, aqui, a CPT da diocese foi uma das primeiras CPTs criadas aqui na Bahia. Nossa CPT da diocese de Juazeiro. A CPT é um trabalho que a gente dá apoio aos trabalhadores rurais, inicialmente mais na questão da existência na terra. No início da CPT, ela passou por vários processos. Inicialmente, apoio para os trabalhadores resistirem na terra, a questão da luta contra os grandes projetos, barragens, projeto de irrigação. Mas também foi passando por várias fases o trabalho de luta na terra, por exemplo, para trabalhar na perspectiva de uma produção apropriada. Hoje mesmo, nós trabalhamos aqui uma das linhas de ação nossas, que é a convivência com o semiárido.

A gente atua, vem fazendo essa discussão da convivência com o semiárido, porque o que sempre foi passado, de muitos anos, até nas músicas, nas poesias, nos poemas, era que o semiárido era um lugar, as fotos, as imagens que passaram sempre, a foto de gente morrendo de fome, magro, animal morrendo, seco, burro, que não entende nada, não entende nada, não sabe de nada. Então, é uma imagem negativa do nordestino, no semiárido. A gente vem trabalhando, não só a gente, mas outras entidades vêm atuando, trabalhando nessa perspectiva de mostrar a viabilidade do semiárido, que o semiárido não é isso! Existem esses problemas porque nunca houve política que colaborasse para que as pessoas fossem gente nesse semiárido, que colaborasse com a vida, políticas para gerar renda para as pessoas, gerar alimento, água, produção, que produzisse bem a educação, contextualizasse. Não houve isso!

Para mim, o São Francisco era o São Francisco da riqueza (risos). Eu tenho uma relação muito forte com o Rio São Francisco, bem como os outros ribeirinhos, principalmente aqui em nossa região. Essa relação com o São Francisco é como relação de pai e mãe, de companheiro. A gente viveu, tomou banho no rio. A gente morava, tinha bastante agricultura de vazante, tinha muita fartura, tinha muito peixe. A verdura, a fruta, essa agricultura de subsistência tinha de tudo! Eu vejo o rio como aquele que oferece tudo, a vida para todo mundo. Para mim, perder esse rio é doloroso. Eu não tenho tempo hoje no meu trabalho de estar todos os dias na orla de Juazeiro, na beira do rio, mas, quando eu estou distante, a primeira coisa que eu lembro, quando tem 15 dias que eu estou fora, é da beira do rio (risos). Mesmo não tendo tempo no dia a dia de estar lá. Para mim, é uma coisa muito forte, e não só para mim, mas para todos os ribeirinhos, ribeirinhas.

Uma das coisas primeiras daqui, por exemplo, a construção da Barragem de Sobradinho. Ela gerou impacto não só social, mas também ambiental. Destruiu muita coisa que existia. Destruiu a vida de tudo, desde das pessoas, meio ambiente. Tudo. A questão do peixe, que no início tinha em abundância, e isso desapareceu. A questão dos projetos de irrigação, que a gente sabe que a maioria da água do nosso São Francisco hoje é destinada à irrigação. Junto da irrigação, da tirada de água, vem jogando para o rio a questão dos agrotóxicos. Aqui, na nossa região, são toneladas e toneladas de agrotóxicos que são jogados nesse rio por mês.

Eu sou apenas uma além dos 72, das 71 mil pessoas que tiveram que ser expulsas da Barragem de Sobradinho para dar lugar à geração de energia. A gente passou, foi difícil. Primeiro, porque a forma, que ainda é a mesma de hoje, como a empresa que chegou para construir a barragem. Primeiro, a forma enganosa como está sendo feito como projeto de transposição. Quando foi prevista a construção da barragem para geração de energia, eles queriam que todo mundo saísse da área para dar lugar. Eles diziam que era limpeza da área. Então, limpeza da área, quando você limpa a área você é “coisa”. Sai tudo, inclusive o povo. A forma mentirosa, que é a mesma de hoje de dizer que, em outros lugares, primeiro, que era para o desenvolvimento da região e que, se as pessoas saíssem dali, as pessoas iam viver bem em outro lugar, como é o caso das pessoas que iriam lá para o Projeto Serra do Ramalho, em Bom Jesus da Lapa. Não sei onde eles achavam um projeto produzindo tudo verde, tudo verde, tudo, todo mundo feliz, com casas bonitas. Então, com essa forma enganosa, eles permitiram que muitas pessoas saíssem da região.

A gente teve que mudar a vida da gente toda. Foi uma mudança total. E, principalmente, até hoje as pessoas falam é da questão da convivência, essas relações pessoais, humanas, as amizades, os parentescos. Eu, pessoalmente, quando eu estudava na cidade de Casa Nova, tinha uma praça. Para mim, a coisa mais dolorida foi perder aquela praça (risos). Que a gente sentia, sentava todo dia, às seis horas ia para lá brincar, conversar. São coisas assim que, às vezes, para quem vê assim, acha que não tem significado, mas para as pessoas têm. São simbologias que não se vai conseguindo nunca mais. Hoje é um balneário na região onde eu morava, perto da casa onde a gente morava, um balneário, um lugar de praia. Ali está enterrada muita coisa que era importante para a vida da gente.

E não basta só água, a gente sabe, e o semiárido hoje, o povo do semiárido hoje vive essa situação porque não tem políticas adequadas, não há interesse político e parece que há um propósito de que as pessoas continuem sendo dependentes, para ficarem sempre dependendo do carro-pipa, sempre na hora. Na época que a pessoa precisa, vai lá, dá uma coisinha, faz um “assistencialismozinho” com a cesta básica para as pessoas continuarem sempre desse jeito. Nunca mudam, nunca serão autônomas, nunca. Então, há um interesse disso, das pessoas continuarem, e o projeto de transposição tem a mesma lógica, é a indústria da seca continuando.

Então, o projeto é uma farsa, é uma mentira. Vai beneficiar o agro e hidro negócio, a gente sabe que é para a produção de cana, produção de camarão. São esses que serão beneficiados, são as empreiteiras que vão ser um gasto. Primeiro, que é a questão, é muito recurso investido. No meu entendimento, essas obras vão ser como as outras obras faraônicas que existiram nesse Nordeste, de muitos anos, dizendo que é para resolver o problema da seca, e ela vai ser um elefante branco. Mesmo que termine a obra, vai ser um elefante branco como as demais obras que existem nesse Nordeste. Então, eu não acredito e, por isso, não adianta, eu não vejo nesse projeto nada que favoreça o trabalhador, o povo, as comunidades. A questão, outra coisa, quem vai pagar? Quem vai pagar os custos da transposição é o povo. Depois vem aí na energia. Então, é tudo uma mentira, é uma farsa. Nós não podemos concordar com um projeto desse.

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