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Em defesa dos direitos humanos

História de: Rodolfo Konder
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/10/2005

Sinopse

Em seu relato, Rodolfo Konder relembra momentos marcantes de sua trajetória de vida, seus relatos de trabalho nos principais jornais e revistas do Brasil, e principalmente a influência da ditadura militar e a censura em seu trabalho. Recorda a morte de Vladimir Herzog e seu impacto na sociedade. Fala também do tempo que trabalhou como Secretário da Cultura na gestão do Maluf.

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História completa

Primeiros encontros

Eu cheguei na “Visão”, eu fiquei 1969 e 70 na “Realidade”, aí em 1971 eu fui para a “Visão”. Eu cheguei à “Visão” e conheci o Miguel Urbano, que me levou para me apresentar o Pimenta. Miguel Urbano Rodrigues. Português, PCB, mas, PCP. Extremamente sectário stalinista convicto. Depois foi embora para Portugal e dirigia o “Diário”, em Lisboa, que era o jornal do Partido Comunista Português. E aí eu fiquei conhecendo o pessoal da redação, o Vladimir Herzog, o Marco Antônio Rocha, o Luiz Weis, já estavam lá. E o Vlado logo se aproximou de mim, porque, primeiro, tínhamos assim uma leitura muito parecida de certas coisas. Nosso apreço pelos italianos, Antonio Gramsci, socialismo de face humana, essas coisas. Ele pensava de maneira muito parecida com a minha. E ele me via discutir com os outros lá, porque era uma redação pequena, e todo mundo de esquerda ali, então não tinha muito sigilo, nada. Ele se identificava muito comigo quando me via discutir com Miguel Urbano, com outros também sectários. Até que um dia, ele tomou a iniciativa de me dizer que queria entrar para o partido. E eu carreguei esse peso na consciência. A iniciativa foi dele. Eu não o convoquei, não o mobilizei, não o recrutei, como a gente dizia, ele quis entrar. Isso deve ter sido em 1972, talvez. Entre 71 e 72. Fazíamos algumas reuniões, mas o PCB era contra a violência, era contra a luta armada, tínhamos posições extremamente moderadas, cautelosas, até no exercício da profissão.

Eu não diria que éramos um clube de intelectuais, mas éramos parecidos. Nos reuníamos para discutir como enfrentar a censura, como contornar os obstáculos, mas não significávamos nenhuma ameaça ao governo. Até depois, quando a democracia voltou e tivemos eleições, o número de votos do PCB foi pequeno. Quer dizer, não é que a multidão estivesse apenas aguardando o momento para tomar o palácio do governo. Não. Só que eles, veja ali, nós temos, primeiro, no plano mundial, a Guerra Fria, a partir dos anos 1950. Depois, 59, a Revolução Cubana. A partir dos anos 60, em resposta aos desafios da Revolução Cubana, multiplicam-se as ditaduras de direita na América Latina. A ditadura de direita no Brasil é claramente uma resposta estratégica, dentro do quadro da Guerra Fria, aos desafios trazidos pela proximidade do socialismo com a Revolução Cubana de 59. E aqui no Brasil a ditadura se implanta, é claramente uma ditadura anticomunista, até porque faz parte dessa lógica da Guerra Fria. Mas, depois, no exercício do poder, começam a surgir divergências entre eles, os militares. E aí surgem duas grandes correntes: uma do pessoal do aparelho de repressão, que tinha poderes especiais, tinha recursos especiais, que não precisava prestar contas, podia entrar na sua casa de manhã, como entraram na minha, às 6h da manhã, sem ordem judicial nem nada, e levar você para o DOI-Codi. E a outra que era o pessoal que chegou à conclusão – era o Geisel e o Golbery – chegou à conclusão de que estava na hora de devolver o poder aos civis, até porque a economia já estava dando sinais de cansaço. Então, começou a promover um projeto que chamava “abertura lenta, gradual e segura”. Só que surgiram atritos claros entre eles. Isso para mim é a raiz de tudo. E por quê? Porque o pessoal da repressão tinha cometido muitos crimes e não queria a abertura, porque sabiam que se viesse a abertura eles teriam que responder pelos crimes. Eles já tinham acabado com as organizações mais radicais da esquerda, mas restava o Partido Comunista, até porque era a mais moderada, a mais tranquila, mas estava ali. Eles, para mostrar ao público que a subversão estava viva, eles vieram em cima do PCB. Essa é a razão clara para mim. Eu até, na época, recorri a um velho provérbio indiano que diz que quando dois elefantes brigam, quem sofre é a grama. Nós éramos a grama. Nós éramos a grama. E havia uma briga entre o grupo da ultradireita da repressão e o grupo mais moderado do Geisel e do Golbery, que, felizmente, ganhou a batalha, mas ganhou a batalha porque eram enxadristas, eles foram movendo as peças ali. Quando morreu o Vlado, aquilo funcionou como um negócio, um impacto muito grande, que deu força ao projeto de abertura do Geisel. Eles inclusive substituíram não o [general] Ednardo D’Ávila, aquela bandidão que chefiava o Segundo Exército, eles substituíram o comando militar em Campinas, mas já preparando as peças para ocupar o comando do Segundo Exército. A tortura contra o pessoal de classe média parou depois que o Vlado morreu, mas eles continuavam torturando os operários, tanto assim que a morte seguinte é do Manuel Fiel Filho. E quando morre o Manoel Fiel Filho, sob tortura, o Geisel aí substitui o Ednardo. Aí eu divulguei, quer dizer, eu tinha feito um depoimento, saindo da prisão, no escritório do [advogado] José Carlos Dias, sobre o que aconteceu com o Vlado lá dentro, falando das torturas, que é uma coisa que nunca tinha se falado assim publicamente, e eu fiz esse depoimento no escritório do José Carlos Dias, na presença do Hélio Bicudo, do Gofredo [da Silva Telles] e de outras figuras. [Este depoimento foi peça importante na ação em que a União foi condenada pela morte de Vladimir Herzog.] Quando o Geisel substitui o Ednardo, a Clarice Herzog e o Fernando Pacheco Jordão foram à minha casa e pediram que eu divulgasse o depoimento. Eu sabia que eu estava frito, mas eu disse: “Está bem, vamos divulgar”. Aí o depoimento saiu nos jornais, teve uma repercussão grande e eu comecei imediatamente a receber ameaças do braço armado da repressão, uma organização que se autodenominava “o braço armado da repressão”. Mas aí eu já estava vacinado, eu já não dormi em casa. Eu não fui apanhado em casa, como da primeira vez.

 

25 de outubro de 1975

Aí depois eu fui para a França e Estados Unidos. Cheguei no dia 23 de outubro e tinha uma recepção essa noite no consulado da Inglaterra, mas eu estava cansado, estava chegando da viagem e daí não fui. Isso podia ter mudado minha vida, porque nessa recepção, o Vlado, o Vladimir Herzog, na presença até da Clarice, ele disse para o Marco Antônio [Rocha]: “Olha, o pai do Markun, do Paulo Markun, conseguiu visitá-lo lá no DOI-Codi e ele mandou um recado, que os nossos nomes estão todos lá e que nós vamos ser presos”. Aí o Marco Antônio ficou em pânico: “Pô, mas só agora você me falou isso, Vlado?”. Aí o Vlado: “Eu achei que não era assim uma coisa tão urgente”. “Claro que é! Imagine!”. O Vlado era meio distraído, aquela coisa. Aí o Vlado perguntou para o Marco Antônio: “O que é que nós vamos fazer?”. Aí o Marco Antônio, olha a resposta: “Vamos procurar o Konder”. Que eu era o comissário do povo, deveria ter a resposta. Não tinha resposta para nada, mas, enfim, eles me atribuíam essa competência. Só que isso foi na noite do dia 23. No dia 24, às seis horas da manhã, tocou a campainha, eu abri a porta, era a polícia e eu fui preso. Não estava nem sabendo que nós íamos ser procurados.

Eu morava na Alameda Tietê. Aí fui levado pro DOI-CODI, os caras me tratando amavelmente, mas já na caminhonete me enfiaram um capuz preto. Cheguei lá no DOI-Codi, me obrigaram a tirar a roupa, botar um macacão, não podia ter cinto, nem o sapato podia ter cadarço. Fui fichado e me botaram numa sala de espera com o capuz preto na cabeça e mais algumas pessoas sentadas num banco de madeira em volta da sala. Aí depois veio o Marechal, que era o apelido do carcereiro, me levou pelo braço até o andar de cima. No andar de cima, eu fui colocado numa sala, sentado num banquinho sem encosto, de capuz preto. E o cara começou a me interrogar. Aí eu comecei... É uma situação ridícula. Você tentar argumentar com um capuz preto na cabeça. Aquele papo. O cara dizendo: “Seu comuna de merda, você tá pensando o quê? Que veio aqui pra me fazer perder tempo?”. Aí eu senti que ele se levantou, passou pelo meu lado, abriu a porta e disse: “Marechal, manda vir uma equipe aí e manda trazer a Pimentinha”. Eu digo: “Pimentinha?”. Eu já entrei em pânico, que eu sou um velho macho e não sei qual o destino dessa Pimentinha! Mas a Pimentinha era como eles chamavam a máquina de dar choques elétricos. Aí entraram dois sujeitos, começaram a me dar uns tapas, uns chutes assim. E gritos. Depois, você percebe – que ali você está acuado e amedrontado – mas, eles batem com técnica, nem é para deixar marca, é para dobrar você, para quebrar você. Aí depois montaram a Pimentinha, me obrigaram a ajudá-los a botar os fios nos pulsos e nos tornozelos. E com o fio desencapado eles me davam choques na orelha, no pescoço, nas costas, nos rins. Você só grita. Eles não querem mais saber o que você sabe e o que você não sabe. Eles querem quebrar você. E você, ainda tem o seguinte, você se suja todo, porque perde o controle das funções fisiológicas. É uma situação muito desagradável e humilhante. Aí depois quando terminou essa sessão, o Marechal me carregou para o andar de baixo. Eles foram almoçar, até começaram a discutir o que iam almoçar, onde iam almoçar. Já tinha terminado o expediente. E à tarde eu voltei a subir a escada, com a ajuda do Marechal, mas já para entrar no jogo do gato e rato. “Realmente nós éramos comunistas de uma base...”. Tive que assinar uma confissão do próprio punho, aquele negócio que eles exigiam. Aí voltei para a sala de espera, onde eu fiquei as primeiras 48 horas, isso já no dia 24. Dormimos lá, sentados. O [George] Duque Estrada também já estava lá. E na manhã do dia seguinte, eu vi que o Vlado chegou. Eu já olhava assim por baixo do capuz, e eu o identifiquei pelas pernas, pelos sapatos que eu conhecia bem. Comprávamos sapatos juntos, e ele era muito meu amigo, então eu sabia que era ele que estava ali. Aí logo depois ele foi levado. Passou-se algum tempo, mas ele ficou na sala ao lado da nossa, ele não foi levado pra cima. Ficou na sala ao lado da nossa, por isso depois eu pude ouvir depois os gritos dele. Nós ficamos ali algum tempo e veio o Marechal nos chamar – eu e o Duque Estrada – e o sujeito que o estava interrogando, o torturador, era o Pedro Mira Grancieri, um sargento da Marinha que depois morreu de maneira estranha, deve ter sido queima de arquivo. E ele disse: “Olha, o Vladimir está aí com embromação, então é melhor vocês dizerem a ele para abrir o jogo. Senão, ele vai entrar na porrada”. Aí nós: “Olha, Vlado, eles já sabem que nós tínhamos uma base, quem éramos membros da base, já estão sabendo”. Eu até acrescentei, achando que eu era esperto: “Olha, Vlado, eles sabem, inclusive, que o responsável pela nossa base era o Miguel Urbano Rodrigues”, que o Miguel já tinha ido embora para Portugal. E o Vlado disse assim: “Eu não sei do que vocês estão falando, eu nunca fui comunista, não sou comunista”. Aí o sujeito mandou o Marechal nos levar de volta para a sala de espera. Passou-se mais algum tempo e ele começou a gritar. A gritar primeiro, levando porradas, socos e aquela coisa e depois levando choques elétricos, os gritos são bem diferentes. E eu tinha passado na véspera pela experiência, sabia exatamente o que estava acontecendo. Sabe que inclusive um sujeito ligou um rádio no corredor, supostamente para abafar o barulho e o rádio estava dando a notícia de que o general [Francisco] Franco tinha recebido a extrema-unção.

Aí, tudo cessou: os barulhos, os gritos. Algum tempo depois, veio o Marechal e me pegou de novo – o Duque Estrada dessa vez não foi – porque o Vlado já estava assinando uma confissão do próprio punho, estava muito nervoso, trêmulo, mas já estava fazendo a sua confissão, que, aliás, começava assim: “Fui aliciado pelo Partido Comunista pelo Rodolfo Konder”. Quer dizer, é uma confissão que a polícia ditava, ditou ali para ele, porque nenhum de nós usaria essa expressão “fui aliciado”. Bom, aí ele tinha dúvidas sobre um cara, que era na verdade o Argileu, um velho, um veterano da imprensa, que foi a algumas das nossas reuniões, mas quase nunca aparecia. E o nome dele ainda não tinha aparecido, então no jogo do gato e rato ele tinha sido preservado. Então, eu falei: “Vlado, acho que você está confundindo”. E ele disse: “Era um sujeito de cabeça grisalha, assim, assim assado...”. “Não, acho que você está confundindo com o nosso assistente. Você deve estar nervoso...”. Ele percebeu e disse: “É, você tem razão. Eu estou muito nervoso e devo estar confundindo”. Aí, de novo, o Marechal me levou de volta para sala de espera e, aparentemente, estava tudo resolvido. Só que, é claro, na hora de assinar a confissão, ele teve um momento de indignação. Ele era uma pessoa muito ética. E é um momento difícil, você entregar o papel em que você dá o nome de amigos. É muito chato, eu sei que é muito chato, é um trauma, é um negócio difícil. Ele teve um momento de indignação e pegou o papel – ele já tinha escrito, já tinha assinado. Inclusive o exame da letra confirmava, era a letra dele – mas ele pegou o papel e rasgou e jogou fora. E aí os caras foram para cima dele, não mais com técnica, mas com raiva, porque era voltar tudo à estaca zero. E aí ele foi empurrado e bateu com a base da cabeça no parapeito de uma janela baixa que tinha lá de mármore e morreu do trauma.

 

O enterro

Eu estava muito traumatizado, inibido. Muita gente e eu numa situação constrangedora, porque estava todo sujo e, ao mesmo tempo, aquela coisa, aquela sensação de que: “Vocês estão vivos, seus merdas, e o Vlado morreu”. Quer dizer, você fica mal. Não é um momento que a minha memória registre com muita clareza.

 

Sonhos

Os meus sonhos estão precisando de novos alimentos, novas vitaminas. Porque eu não sei se estou ficando velho, rabugento, mas o fato é o seguinte: eu acho que o mundo está vivendo um período cinzento, marcado por um processo complicado de desumanização... Quer dizer, eu vejo a droga, a violência, os desníveis sociais cada vez mais acentuados, o naufrágio da África. Veja, eu sou uma época em que as lideranças mundiais chamavam-se Winston Churchill, [Franklin] Roosevelt, [Charles] De Gaulle. Agora, você tem como presidente dos Estados Unidos, a única superpotência hoje, o George W. Bush. O George W. Bush, até perguntei outro dia ao [José Aristodemo] Pinotti, que é médico, se não é um caso raro de acefalia em que o bebê sobreviveu e chegou à idade adulta. Porque é, evidentemente, um sujeito que não tem a menor grandeza. E as lideranças mundiais são apenas um aspecto desse processo de empobrecimento, que eu acho que atinge o mundo inteiro. Talvez um sonho, mofino, sei lá, raquítico, já não eram os sonhos que eu tinha quando eu era mais jovem. Eu costumo lembrar que houve uma época em que o grande desafio para mim era mudar o mundo e implantar o socialismo. Hoje, o grande desafio para mim é calçar a meia de manhã. Tenho grande dificuldade pra me curvar para calçar a meia. Agora, acho que ainda temos esse compromisso com a liberdade e com a democracia.

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