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História

Em defesa do consumo responsável

História de: Maluh Barciotte
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2017

Sinopse

Nesta entrevista Maluh Barciotte fala com carinho da lembrança da vó durante a infância, os tempos da escola e o surgimento do interesse pela Biologia, carreira que seguiu após a graduação. Enquanto pesquisava para o doutorado, sobre minimização de recursos, começou a trabalhar na CETESB, onde teve contato direto com a questão do meio ambiente na época em que ocorreu a ECO 92. Focada em trabalhar com educação e consumo, montou com colegas o Instituto Kairós, que atua com a questão do consumo consciente em escolas.

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História completa

Eu nasci no Alto da Mooca, em São Paulo, capital, dia primeiro de junho. Tive uma infância muito gostosa, fui criada muito com a minha vó, que era a melhor pessoa que eu já conheci na minha vida, acho que tudo que eu faço tem a ver com a figura dela. Ela se casou aos dezesseis anos, casou com o meu avô que morava numa colônia italiana na fazenda, então, costumes e culturas muito misturadas. A brasileira, pois a família era de Minas, mas com a cultura italiana muito forte, muito afetiva. Aos oito anos de idade, uma vez, eu vi uma peça da Clarice Lispector, onde tinha uma frase que eu me identifiquei muito. Eu já olhava para o mundo, e queria consertá-lo. Achava que os adultos, em geral, precisavam de alguma coisa, que tinham certa incoerência naquilo que se falava, que se fazia, como sociedade. Então, desde pequena, eu achava que eu queria ser educadora ou professora, alguma coisa assim, adorava escola, achava que a escola era um ambiente de troca, assim como hoje. Eu sempre muito de pessoas, desde criança, eu lembro quando a gente viajava, eu via as casinhas ao longe, com as luzinhas acessas e sempre ficava pensando: “que criança será que nora lá?”, como eu queria conhecer aquela criança, então era uma coisa que me deixava feliz só de imaginar.

E essa percepção de unidade, eu acho que sempre me acompanhou. Eu digo que tenho um pensamento sistêmico desde esses meus oito anos de idade e assim, eu conseguia ver o todo e as coisas encaminhadas e as relações. Inclusive, fiz curso normal, nunca dei aula para pequenos, mas eu fiz a escola normal e a questão de ir fazer uma faculdade de Biologia foi muito intuitiva, mas tinha a ver com esse meu pensamento sistêmico, eu tive um professor de citologia, um cara maravilhoso, chamado Renato Basile, que a aula dele era quase uma aula de teatro, era apaixonante. A coisa do pensamento sistêmico veio, de fato, com o livro que ele nos apresentou, chamado “Fantasma da Máquina”, que falava já dessa visão holística e da visão sistêmica. E foi isso que sempre me apaixonou na Biologia. Por conta disso, eu fui fazer um mestrado em Biologia, aliás, eu acho que a questão da célula, pra mim, célula é poesia, porque célula é a unidade que configura a vida e a vida é poesia. Depois, eu vim trabalhar nessa visão, até hoje eu trabalho com essa visão.

A Biologia não estava aí desde criança. Eu queria ser professora, acho que eu queria ser o que eu sou hoje, que assim, não é só ser professora, eu queria passar adiante aquilo que eu aprendia. Essa tomada de decisão foi muito doida, porque eu fazia a Escola Normal, que era meio fraca, aí dei uma sorte muito grande, porque eu e uma amiga fomos aos dezesseis anos, procurar cursinhos para fazer com bolsa.  Então um menino lá falou: “Vocês já fizeram inscrição no Equipe para fazer exame de bolsa?”, a gente nunca tinha ouvido falar do Equipe, não fazia parte da realidade do bairro que a gente morava. E o melhor ano da minha vida foi o ano do cursinho, porque o Equipe era a abertura de possibilidades, a abertura de outro mundo, um mundo muito mais político, um mundo de reflexão, de olhar para o sistêmico.

Depois de me formar, eu entrei nesta estrada muito cedo, me formei com 21 anos e entrei no mestrado direto. Eu ainda era uma criança, mas comecei a fazer estágio já durante a faculdade na Biologia, no departamento de Biologia com pessoas fantásticas, fiz um pequeno projeto com moscas domésticas, olha que interessante! Em seguida, fiquei grávida da minha filha, aí achei melhor dar um tempo. Quando a minha filha estava já com uns dois anos, um pouco menos, eu falei: “Vou fazer o meu doutorado”, mas acabou que eu por acaso, passei na faculdade de saúde publica e encontrei um ex-aluno de Biologia que ia fazer o doutorado, então ele e o professor me convidaram: “Por que você não vem fazer um doutorado aqui?”.

E eu resolvi fazer um doutorado, nessa época, eu estava entrando na CETESB, onde eu trabalhei na CETESB e na Secretaria da Agricultura. Eu tinha trabalhado com a mosca doméstica, ai eu fui fazer um doutorado, defendi em 94, sobre minimização de resíduos, uma visão integral, já na época trabalhando com consumo, com educação para o consumo, porque já nesse tempo que eu desenvolvi o doutorado, como eu falei, eu estava na CETESB, na Secretaria do Meio Ambiente, e foi a época da ECO92. O secretario era o Fabio Feldman, tínhamos vários programas na secretaria, programas especiais, o programa que eu estava incluída, fazendo parte do grupo de coordenação, era um programa chamado Consumidor e Meio Ambiente. Eu desenvolvi todo esse meu doutorado sobre resíduo, mas não olhando para o resíduo, não olhando para o lixo, olhando para o não lixo. A gente trabalhava com a questão do consumo sustentável, que eu prefiro chamar de responsável e sustentável. O quê que é responsável? É habilidade, responsabilidade vem de habilidade de responder, então, eu tenho que perceber o cenário e responder de forma afirmativa para melhorar aquele cenário, assim como empresa tem responsabilidade social, as pessoas também, acho que está tudo junto. Então, defendi a tese do doutorado, foi difícil, mesmo na USP, na saúde pública, porque em 94, a banca era de engenheiros, tinham pessoas, muitos trabalhavam com aterro sanitário, que não conseguiam entender o que era minimizar resíduos. Que não é nem reduzir, porque minimizar é reduzir, reutilizar, reciclar, isso era definição de minimização, mas minimizar é assim, você tem 100, você quer o mínimo, não é reduzir: “Eu tenho 100% de lixo, se eu chegar no 90, eu reduzi”, não, mas não é isso que a gente quer. É minimizar, é do 100 ao mínimo, porque resíduo, qualquer lixo é ineficiência do processo, a natureza não tem lixo, porque ela é extremamente eficiente.

O consumo, a gente chama de sustentável, responsável, consciente, só que o consumo nunca vai ser sustentável, responsável, consciente. Por quê? Indo ao dicionário, o quê que significa a palavra consumo? Consumir é usar até acabar, destruir, extinguir. Os exemplos do dicionário: os vermes consomem os cadáveres, o fogo consumiu a floresta. Então, consumir não é usar para o bem viver, consumir é usar até acabar. Então, nesse sentido, estamos sendo completamente eficientes na nossa sociedade de consumo, porque estamos usando até acabar. Enquanto nós não sairmos, não resolveremos a questão da sustentabilidade.

Tem que investir na mobilização, na sensibilização. Você vê algum investimento? Não tem investimento nenhum, alguém já viu algum investimento sério, grande de uma grande cidade ou mesmo São Paulo, na sensibilização da população? Nessa percepção de ampliar o repertorio? Porque o importante é ampliar o repertório pra mim, sensibilizar, mobilizar, capacitar e ampliar repertório. Capacitar os gestores públicos, sensibilizar, imobilizar a população. Então, eu trabalho o tempo todo ampliando repertorio, o meu trabalho é ampliar o repertorio das pessoas e encantá-las para esse universo que é complexo, que é sistêmico e que é apaixonante.

Sai da CETESB em 97, 98, pedi demissão porque é uma empresa de controle de poluição e eu precisava ter mais autonomia, aí eu fui fazer um trabalho, nessa época, antes desses projetos de supermercados de separação de resíduos, o primeiro curso de minimização de resíduos, que eu dei foi na Bienal do Livro em 1992. Nesse momento, a gente trabalhava tentando fazer, buscando fazer parcerias com as empresas para ter coleta seletiva.  Então, eu estava na CETESB ainda, eu conheci o pessoal do plástico, o pessoal do vidro... Então tinha a Abividro, tinha a Plastivida, tinha a Latasa, a Prolata, a Latasa, lata de alumínio, Prolata de lata de aço e, por incrível que pareça, era impossível juntar os materiais para fazer uma coleta seletiva como hoje tem em supermercado, porque os materiais brigavam, sempre por acesso ao mercado, então eram concorrentes e na época. Então a gente conhecia todo mundo, quando eu sai da CETESB, a Prolata tinha um material que eu olhei e disse: “Olha gente, isso aqui não tá condizente”, porque assim, era lindo o folheto, mas era uma cachoeira e tava escrito, linda a água, “Lata de aço preserva o ambiente”. Eu falei: “A foto é linda, mas ela não tem a ver com o que vocês fazem”. E eu sugeri um material fantástico, que eu gosto até hoje chamado “Consumo Responsável e Qualidade de Vida”, que é a parte de cima de uma lata de aço, uma coisa importante, que eu acredito completamente até hoje, a gente trabalhou com esse material, esse material abre e tem um jogo, tem uma roleta e tem um material para o professor e o material para a criança. A partir desse trabalho com as escolas a gente resolveu montar o Kairós, depois de dois anos desse trabalho com o consumo responsável, então foi a primeira ONG, na realidade, que acolheu a questão do consumo responsável.

Pra mim, a melhor forma de exercer protagonismo na vida é aprender a escolher o que a gente come. E se eu vou escolher, de fato, o que eu como, eu tenho que olhar como aquele alimento foi produzido, em que solo ele foi produzido? Ele levou veneno? Ele é transgênico? Se eu puder fazer isso, o alimento orgânico é o que tem, ele foi produzido num solo rico, ele foi cuidado, ele não levou veneno, ele preservou a água, ele regenerou o solo, regenerou aquele ambiente, então é fundamental. Pra eu exercer o consumo responsável, é fundamental que eu parta das minhas escolhas mais básicas. E a principal escolha do dia a dia é a escolha da alimentação, do que eu vou comer, do que eu vou dar para os meus filhos. Eu não posso vender alguma coisa que eu não coma, eu vou dar para o filho do outro o que eu não dou para o meu filho, acho que é uma evolução ética da sociedade. 

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