Busca avançada



Criar

História

Rio de memórias

História de: Ailton Alves Lacerda Krenak
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/03/2008

Sinopse

Povo Krenak no território brasileiro. Vida na aldeia. Aventuras na floresta. Aprendizados para a vida adulta. Brincadeiras com sabugo de milho, balaios, pescaria e pegando carona no carro de boi. Encontro de pajés. Memória. Concepções do tempo. Territorialidade. Chegada do homem branco no Vale do Rio Doce. Perseguição e genocídio do povo Krenak. Migração para o Paraná. Viagem de caminhão. Identidade. Construção de casas de madeira.  Esforço de Krenak para retornar para sua terra. Trabalho para conscientizar o seu e os outros povos indígenas sobre os seus direitos. Festival de cultura indígena “Festivelha” em Rio das Velhas. Ambientalismo. Exílio.

Tags

História completa

Meu nome é Ailton Alves Lacerda Krenak. Krenak é a minha família indígena, o meu povo, que vive na divisa de Espírito Santo e Minas Gerais. Nasci em 1953, numa das localizações que o pessoal da minha região atribuía o nome do córrego ou do rio. Se você estava na margem, falava “no rio tal”, se estava na cabeceira, dava o nome do córrego. Nasci num córrego que chama Itaberinha, na bacia do Rio Doce.

Eu podia descrever coisas da infância que me passaram, mas acho que a descrição do evento que aconteceu tem importância simbólica. Agora, profundamente importante mesmo é o que ele deixou em mim.

Quando eu era pequeno e andava com aqueles balaios, enfiando na beira da água, subindo o igarapé, tinha vegetação que caía e tampava tudo. Eu ia por ali, batendo a peneira. Os meninos lá: “Papapa”, batendo pau e espantando os bichos. Daquelas beiradas de barranco, a gente podia dar a sorte de pegar uma traíra bacanona, mas também podia sair uma cobra, uma sucuri, um bicho. Então, a gente estava treinando nossa inteligência e a nossa capacidade pra lidar com complexidade, com desafio.

Minha vida de menino foi cheia de aventura porque eu estava no meio dos meus seis irmãos, 50 primos e um monte de tias. Esses camaradas todos eram como nossos parentes mais íntimos. A gente estava tudo perto um do outro e se anoitecesse podia dormir na casa da tia Preta, da tia Maria, de qualquer um, na casa dos seus primos, da sua mãe, da sua avó, dos seus tios. Se você tivesse em trânsito, no lugar que tivesse, não era estranho comer na casa dos seus parentes, era sua casa também. O dia nem bem amanhecia, a gente já estava aproveitando a primeira luz pra sair plantando, pegar boi, cabrito, cavalo, ir para os currais, onde pessoas estavam tirando leite das vacas pra beber na hora.

Se você está andando com um cara e ele quebra o braço ou a perna, você pega a tala de bambu, deixa o cara bem quietinho, esticadinho. Quebra ovo e põe aquela coisa de gema no cara, enrola e deixa ele lá preso até ter uma salvação mais decente. Por enquanto a salvação é aquilo ali. É tala, enxofre, azeite, o que desse na cabeça. Eventualmente passava algum feiticeiro por perto e mandava a gente socar uns coquinhos num... Estou tentando lembrar o nome, porque usam pra tirar o óleo, fazer sabão... Cutieira! Pegava a cutieira, quebrava aqueles coquinhos, juntava o unguento, batia com folhas, umas ramas mágicas, enrolava tudo aquilo no camarada pra salvar ele. Geralmente sarava. Às vezes o cara crescia e ficava com o braço meio torto porque o médico não costurou direito (risos). Mas esses meninos que cresceram junto comigo, a maioria deles viveu assim. Aventuras incríveis mesmo.

A maior parte desses meninos, os que não morreram à bala, nas guerrilhas lá do sertão, morreram com doenças da vida. No embate da natureza é assim mesmo.

A gente andava pisando na pedra, no chão. Ia por dentro da água metendo o pé e sabia se o fundo era de matéria orgânica que estava podre, o material que estava ali, aquelas coisas que caíam: de folha, de mato, se tinha areia debaixo, se era uma laje de pedra, a gente ia pegando toda essa sensação. Era o nosso pé que ia lendo o chão. Se a gente metia na “estrepe”, numa pedra, num pau que furava, estava aprendendo. Então, nós aprendemos tateando o mundo, a terra. Sentindo o cheiro do mato, dos bichos.

Eu já fui pro Japão, Europa, Estados Unidos, América Latina, entrei em lugares que só doidão, só guerrilha mesmo, fui em reunião do Banco Mundial, no Congresso Americano, ONU, CIA, KGB e pra mim não tem importância nenhuma, o lugar mais bacana do mundo que eu já fui, foi dentro daqueles córregos, passar peneira, andar em balaio no lombo de burro, ficar enfiando cana na “engenhoca” com medo de puxar a mão lá pra dentro - os bois puxando engenho, a gente enfiando cana - os nossos tios pegando aquelas vasilhas de garapa, jogando nuns caldeirões enormes, numas fornalhas gigantes que eles botavam um monte de lenha pra queimar e fazer melado, o cheiro de cana moída, de café, da natureza mudando em cada época do ano.

Meu irmão ganhou uma potrinha e colocou o nome de Natureza. Então Natureza criou, ficou linda. Aquela “éguona” bonita comendo e os meninos cortaram, descascaram milho, jogaram aquele monte de palha. Ela ficou lá comendo sabugo. Vi que tinha um monte de palha embaixo de onde ela estava, então peguei uma vara e fui puxar debaixo dela, igual puxa com rastelo. Ela deu um sinal pra mim que não tinha gostado, balançou o rabo, tipo espantando mosquito. Eu passei a vara de novo, ela não teve dúvida, me meteu um coice. Bem aqui na boca do meu estômago. Ela tinha tanta força, o carinha, aquele sacizinho subiu, sem ar, sem nada (risos). Então, o que eu aprendi? O que minha alma capturou da Natureza tão linda? Ela é amiga? Não é minha inimiga. O que ela fez comigo? É igual uma mãe que pega “pow” no pé do ouvido do filho. A natureza me deu um coice na boca do estômago e me ensinou muito mais do que alguns anos de escola, de curso, de treinamento, workshop, oficina e outras asneiras (risos) que se pode inventar.

Por volta de 11 anos de idade, a região que nasci começou a ser colonizada de uma maneira tão violenta.

Com a ocupação de empreendedores, madeireiras, serrarias, colonos, criadores de gado, fazendas, nós saímos meio expulsos dessa região. Foi quando a gente fez a nossa primeira migração.

Quando saímos naquela viagem, parecendo pau de arara, aquela turma em cima dos caminhões, a lembrança que eu tenho é que aquele percurso foi muito horroroso.

Numa madrugada, paramos no quilômetro 26 da BR, na saída de São Paulo pro Paraná. E os adultos, esse meu tio que tinha feito a primeira viagem na frente, um irmão mais velho meu e alguns primos, arrumaram acomodação num lugar alto, onde tinha ainda uma mata misturada, resto de mata nativa com eucalipto - já tinha reflorestamento naquela época - e a família que hospedou nossa turma tinha algum vínculo com esse meu tio, porque deixaram a gente dentro de casa pras mulheres cozinharem. Ficamos com essa turma até os nossos pais começarem a procurar lugar pra morar. Essa peregrinação demorou tempo suficiente pras nossas mães ficarem chorando, querendo ir embora, querendo voltar. Os homens ficavam tristes também, não sabiam o que fazer.  Tentavam arrumar algum trabalho pra ganhar dinheiro e comprar comida. As pessoas que eram donas das casas não queriam arrumar casa pra gente. Meu pai e meus tios arrumaram um lugar e fizeram construções de madeira pra ficarmos morando. Depois os outros primos foram fazendo casinhas, perto também, como uma vila de madeira. E quando vimos que eles chamavam aqueles lugares de barracos, a gente ficou ofendido.

Essas baixarias que o Estado fez contra a gente, que a história provocou contra a nossa família, quase aniquilou a nossa memória. Fisicamente fomos reduzidos a trinta e poucos indivíduos na metade do século 20. Hoje somos 300 pessoas. É muito pouca gente. Mas aprendi também que esse negócio de número, muita gente, pouca gente, muito tempo, pouco tempo, é tudo bobagem. Você pode ter um contingente de milhares de indivíduos que não formam uma comunidade, mas pode ter 10 indivíduos, 3, 15, 20, que formam. Uma comunidade é um conjunto de símbolos, de valores transcendentes ou transcendentais, que são dados pela nossa memória, pela nossa possibilidade de vincular identidades.

Então, nós não morremos e não nascemos igual, por causa da nossa memória. Se não tivermos essas memórias, se elas forem todas plasmadas numa mesma ideia de mundo e de vida, vamos todos ficar no mesmo tom. Fica aquele samba de uma nota só. E a diversidade, a riqueza maior que nós temos, são as nossas diferenças. Quanto mais diferente, no sentido profundo e radical, a gente for, mais beleza, mais vida nós vamos ter. E quanto mais iguais, mais o mesmo molde nós formos, a gente insistir em ser, mais a gente vai correr o risco de empobrecer a nossa potência como expressão da vida, da criação. E vamos ficar reduzidos a um grupo de pessoas em alto risco, qualquer fenômeno, qualquer tragédia leva a gente pro beleléu.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+