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História

Em cima da geladeira havia uma bomboniere

História de: Vinicius Lelli
Autor: Vinicius Lelli
Publicado em: 15/09/2020

Sinopse

Diário de Vinicius Henrique Gomes Lelli, 21 de agosto de 2020. Jornada, dia 3.

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História completa

Foi recente, quando parado na cozinha de casa, com uma das mãos apoiadas em uma das duas cadeiras, que de supetão, um pensamento me assombrou, era algo que, ao mesmo tempo em que me embevecia, me provocava certo choque neuronal. Estático e ainda sendo sustentado pelas costas do assento, sorri, era um riso um pouco torto, um tanto meio sombrio, não quero assustar ninguém tá? nem desapontá-los com uma falsa narrativa sombria, mas esta história não tem nada de lúgubre gente, nada de horrendo e pavoroso, digo, no sentido da ficção de terror (melhor ir melhorando), mas há com certeza momentos nos quais me deparei no mundo no qual eu vivo que, inevitavelmente, não pude mais sorrir, talvez você também, ao menos (e assim espero), presenciou este momento, não sei, espero que não, mas eu e muita gente sim, sei que, pude ver, sentir, ouvir, mais sentir do que refletir sobre tudo que passou e ainda acontece, porém, ainda não precisamos falar sobre isso, quem sabe mais tarde abordo um pouco sobre (essencialmente de forma leve), por hora, voltemos onde parei... ali, imóvel pensava em como seria voltar para casa depois que o grande dia chegasse (há tempos que planejo me mudar, seguir a vida, a minha vida, longe da casa que cresci e amei, longe daqueles que me criaram e hoje, amá-los), pois mesmo em tempos de pandemia, os sonhos e planejamentos não deixaram de colorir meus dias. Meu nome é Vinicius Henrique Gomes Lelli (risos)... meu nome é muito extenso, não? sabia que mal cabe no meu RG? tive que abreviar para caber, tenho 29 anos e moro com meus pais na mesma casa que aprendi a ler, escrever, sorrir e amar. A princípio a casa era de minha vó (mãe de meu pai), depois vendida para meu pai, viemos de um apartamento com 5 cômodos para uma casa com três, vivíamos apertados, mas era aquele velho lance de amor da casa própria sabe? A casa tinha uma casa em cima, mas toda ferrada, parecia aquele poema "A casa" do meu xará Vinicius onde não tinha teto, banheiro, mas tinha chão e o chão dela era o teto da casa de baixo, no qual fomos morar. Demorei anos para crescer, crescer ao ponto de saber que não era alto suficiente para enxergar o que havia em cima da geladeira, dado que sempre quando meu pai chegava em casa do trabalho, ele colocava além da carteira e das chaves, chocolates e doces diversos na parte de cima e eu queria ser alto o bastante para poder comer os doces e chocolates que ali sempre havia, não contei para vocês, mas meu pai era dono de uma Bomboniere, pra quem não conhece, uma Bomboniere é um tipo de loja, um pequeno estabelecimento comercial onde se vendem alimentos, doces, balas, chicletes, chocolates, refrigerantes, cafés, chás, sucos, salgadinhos, salgados, guloseimas em geral, sorvetes, etc, como uma loja de conveniências, vende de tudo, hoje em dia quase não a vemos mais, mas ainda tem, é só procurar. A geladeira ficava na cozinha (lógico Vinicius), mas a cozinha também era a sala (risos), é lá que por quase três décadas me diverti e pude no aconchego dela, com muita vontade de crescer, ser uma criança alegre, feliz e sem preocupações e voltando ao presente, a esse momento onde a morte nos chega sem avisos com o Covid-19, ou pelo menos com o atraso de quinze dias, vejo que ainda hoje a minha velha casinha faz o papel de nos proteger, dentro dela posso trabalhar, comer, ler, assistir séries, filmes, animes, documentários, chorar, espernear, dormir, dançar (mesmo com nenhuma habilidade motora para isso), ouvir música, meditar, exercitar, escrever diário, poema, mensagens no zap, brincar, pentear, dar de comer, fazer carinho no meu cachorro Bigu, pentear minha barba e minhas sobrancelhas, enfim, olhar a cidade da janela do meu quarto. Apesar da quarentena que nos força ficarmos "presos" em casa, não há como dizer que esse "estar" é uma prisão (pelo menos no meu caso), pois aqui, atrás dos muros dela, sinto-me mais parte dela, assim a degusto mais e, ressignificando-a, cada vez mais próxima daquilo que o poeta um dia disse, sinto estar cada vez mais próximo, fugindo do mundo e indo-me embora para uma espécie de Pasárgada dentro de minha própria casa.

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