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História

Em busca de um sonho

História de: Marco Antônio Pinheiro Machado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Infância no Rio Grande do Sul. Formação em Geologia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Participação em movimentos contra a Ditadura Civil-Militar. Início da carreira na Petrobrás, no final da década de 1970. Mudança para o Rio Grande do Norte e posteriormente para o Rio de Janeiro. Mestrado em Estratigrafia. Participação no Pré-sal. Casamento. Filha. Sonhos.

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História completa

Projeto: Petrobras

Entrevistado por: Márcia de Paiva e Morgana Mazeli 

Depoimento de: Marco Antônio Pinheiro Machado

Local: Rio de Janeiro

Data: 23 de Julho de 2009

Realização: Instituto Museu da Pessoa

Código: MPET_PRE_SAL_HV012

Transcrito por: Denise Yonamine

Revisão por: Isabela Rangel Fraga Burgo

 

 

 

P/1 – Marco, queria começar a entrevista pedindo para você dizer o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.


R – Meu nome é Marco Antônio Pinheiro Machado, nasci em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 19 de dezembro de 1956.


P/1 – Como é o nome dos seus pais?


R – Dulfe Pinheiro Machado Filho e Lourdes Consuelo de Azevedo Pinheiro Machado.


P/1 – E conta pra mim: o que eles faziam ou fazem? 


R – Meu pai faleceu há uns 12 anos e era engenheiro agrônomo, funcionário público, trabalhava no Ministério da Agricultura. Minha mãe é dona de casa, estudou até o Secundário, né, também é artista plástica amadora [risos].


P/2 – Além de mãe.


R – É, além de mãe.


P/1 – E você tem irmãos, Marco?


R – Tenho cinco irmãos.


P/1  - E nessa escala aí?


R – Todos homens, eu sou o segundo na escala.


P/2 – Cinco homens?


R – Cinco homens.


P/1 – Como eles se chamam?


R – Dulfe, o mesmo nome do pai, né, eu, Ricardo, Paulo, Carlos e Yuri, em homenagem ao Yuri Gagarin [risos].


P/2 – Nasceu no início de 1960? 


R – O último nasceu em 1970.


P/2 – 1970?


R – É.


P/1 – E me conta um pouco: como foi a sua infância lá em Porto Alegre?


R – Eu tive uma infância privilegiada, diferente do tempo atual, né, nas décadas de 1950 e 1960, então, basicamente morei em casa todo o tempo em que permaneci em Porto Alegre, saí de lá com 19...22 anos. Eu morava perto do centro, em uma casa relativamente grande que meu pai construiu, numa rua que não tinha saída e era na frente de um morro. Era como se morasse no interior, dentro da capital, perto do centro, um lugar muito privilegiado. Tive uma infância muito livre, muito solta, fui criado na rua assim, praticamente, né, em uma época que não existia violência e que as pessoas eram mais amigas e tal.


P/1 – E quais eram as brincadeiras que você fazia?


R – Normais, né, me lembro de bola de gude, jogar taco, futebol, soltar pipa, a gente chama de pandorga, né, soltar pandorga, essas coisas...


P/2 – Como é o nome?


R – Pandorga!


P/2 – Pandorga? Essa eu nunca tinha escutado.


R – É, mas basicamente era futebol de rua, brincadeiras assim.


P/1 – E era com o seu monte de irmãos ou com os amigos da rua?


R – A gente tinha muitos amigos de rua, né, basicamente a vizinhança. Então, foi uma infância muito rica e muito legal.


P/1 – Marco, o que você lembra dos seus primeiros dias de escola?


R – Dos meus primeiros dias de escola? Bom, me lembro de várias coisas... Me lembro dos poucos colegas, mas a gente vai esquecendo... Me lembro do primeiro dia que fui a escola, no Jardim de infância [risos] e me lembro de algumas coisas boas, festas na escola e tal.


P/1 – E qual era a escola que você estudava?


R – Estudei todo o primeiro grau no grupo escolar Marechal Floriano Peixoto.


P/1 – E era perto de casa?


R – Era perto de casa,  no bairro Floresta, em Porto Alegre.


P/1 – Na época da escola, você tinha uma matéria preferida?


R – Não, eu não tinha, eu era muito relapso, como é que se diz, moleque, né, então, durante todo o meu período escolar fui muito dispersivo, com exceção da faculdade. Na faculdade eu endireitei, porque era uma coisa de responsabilidade, eu precisava. Mas, não tinha uma predileção por nenhuma disciplina no Primário, né? Pelo menos no primeiro grau, mas, nunca tive dificuldade, sempre corria atrás no final do ano e passava.


P/1 – Você falou que era muito dispersivo, muito bagunceiro também, isso rendeu algum castigo na escola, alguma história, alguma arte que você tenha feito?


R – Ah, sim, claro, sempre tinha, mas era coisa pequena. Eu não era um terrorista, era uma criança normal, mais alegre assim só, divertida.


P/1 – Você teve algum professor que tenha te marcado?


R – Sim, mas eu não me lembro, né, pessoa tal que dizia alguma coisa assim, mas não lembro o nome, né. Foram poucos assim, umas duas ou três professoras, disso eu estou falando da infância, bem no início do Grupo Escolar mesmo.


P/1 – E aí mais pra frente, nas séries mais adiantadas, há alguém que você se lembre?


R – Há vários, né, não vou citar nomes, mas teve várias pessoas que até hoje eu lembro com satisfação. Mas, não destaco ninguém. Ah, desde o secundário até a faculdade houveram muitas pessoas, então, se eu tiver que falar de um vou ter que falar de uns dez, vou ficar o dia inteiro falando.


P/2 – E iam os cinco irmãos pra mesma escola?


R – Não, porque meu irmão mais velho nasceu no mesmo ano que eu, a gente tem menos de um ano de diferença, né, depois, o outro tem dois anos. Os três primeiros eram na mesma escola, mais ou menos uma escadinha assim, os outros já foram pra outras escolas, escola pública todos eles, né? Quer dizer, a maioria, os mais velhos foram pra escola pública, os mais novos já foram pra escola particular, porque o ensino já estava... era difícil ter um ensino bom na escola pública tipo na década de 1970, né, com a ditadura, que sucateou o ensino público.


P/1 – E como você era na juventude, assim, adolescente, como era seu grupo de amigos?


R – Ah, eu era um cara que tinha várias turmas, era muito bem relacionado, tinha turmas na escola, praticava esporte, né, jogava vôlei, então, tinham várias turmas. Me dava com os amigos do meu irmão também, pois tínhamos a mesma faixa etária, né? Então, tinha muitos amigos.


P/1 – E o que vocês costumavam fazer pra se divertir?


R – Bom, nessa época aí que eu estava falando, mais a juventude assim, já estava na farra mesmo [risos]. Mas a gente se divertia mais na parte esportiva, né, festa era em fim de semana e tal.


P/1 – Festas em boate?


R – Não, boate eu só comecei a frequentar depois dos 18 anos, praticamente, porque eu era muito pequeno, desenvolvi minha formação física com 16, 17 anos, então, era barrado em cinema [risos]. Eram mais festas, festinhas, essas coisas, né? Furava festa de clube, isso era uma coisa que a gente fazia muito, era, como é que diz, era um desafio para a gente, saía de noite e ia furar bailes nos clubes tradicionais de Porto Alegre. Isso era uma grande diversão [risos].


P/2 – E o que vocês ouviam nas festinhas?


R – Ah, todo aquele acervo das décadas de 1960 e 1970.


P/2 – Rock?


R – É, principalmente rock.


P/1 – E como foi a sua escolha pela Geologia?


R – Pela Geologia? Bom, como eu falei, morei numa rua que era muito peculiar, né, na frente da minha casa existia um terreno baldio enorme, era como se fosse um campo. E logo ali tinha a minha rua, tinha uns 50 metros de um banhado do campo e um morro enorme, hoje está tudo pavimentado com um edifício, né? Então, tinha um morro enorme chamado Ricaldone, que é um acidente geográfico, na realidade, é uma falha geológica, né? Então, quando eu era criança, a gente brincava naquele morro e eu e meus irmãos fomos percebendo toda a constituição daquele morro, onde tinha mais vegetação, a variação do terreno, onde era mais rochoso. Aquilo era diferente e começou a nos interessar, tanto que o meu irmão mais novo é geólogo também, da Petrobras [risos], posso até indicar para ele vir aqui confrontar o meu depoimento...


P/2 – Como é o nome dele?


R – Ricardo Pinheiro Machado. Ensinei tudo pra ele [risos]. Então, ali a gente pegou esse apego, né, e o meu pai também é das Ciências da Terra assim, viajava muito, levava gente pra viajar e a gente tinha uma coisa com a terra em geral, com esse tipo de atividade. Me lembro que uma vez, no Ginásio, um colega meu tinha um irmão mais velho, que eu conhecia também, que já estava estudando Geologia, né, uma vez, eu vi um trabalho de geologia e fiquei fascinado. Pensei: “Ah, que legal esse negócio!”, quer dizer, eu descobri a minha vocação com uns 12, 13 anos, por aí [risos].


P/1 – Desde essa época, você já sabia que era isso?


R – É, foi bem antes.


P/2 – Em relação ao trabalho que você leu, você tinha 12 anos na época?


R – É, por aí, mas não foi um trabalho em si, eu já tinha aquela curiosidade, né, tinha outras coisas também, que agora estou me lembrando. No primário, me deparava, às vezes, com um texto ou com alguma coisa que falava sobre carvão, sobre recursos minerais e me interessava, né? O próprio petróleo naquela, como se diz, eu vivi numa época em que a gente pegou os respingos da campanha do petróleo, então, a Petrobras já era um ícone, algo que todo mundo gostava na época. Ainda, havia uma refinaria que tinha sido recém-inaugurada no Rio Grande do Sul e eu me lembro que... Estou me lembrando das coisas, bem história mesmo, né? Lembro que quando era muito pequeno, a gente fez uma visita escolar na Petrobras e eles explicaram como se formava o petróleo,né?


P/2 – Lá na Alberto Pasqualini?


R – Na Alberto Pasqualini, eu me interessava por isso, né? Agora, o clique assim foi quando eu vi um trabalho de geologia, como se fosse um tema de casa, né, e pensei: “Pai, isso é o que eu quero fazer! Se eu quiser estudar um dia, quero estudar isso aí”. Foi mais ou menos assim.


P/1 – Ah legal. Marco, você falou que seu pai era engenheiro agrônomo, que vocês tinham um envolvimento com a terra e viajavam muito. Que viagens eram essas? Pra onde vocês iam em a família?


R – É, meu pai tinha uma atividade que era previsão de safra, né, então, ele viajava por todo o Rio Grande do Sul, conhecia todas as cidades do Rio Grande do Sul e levava os filhos mais velhos, uma coisa que hoje é inconcebível, pô, o cara ia trabalhar e levava o filho? Levava, na boa, não tinha nenhum gasto maior. Isso quando eu tinha assim uns 10, 12 anos e conheci todo o estado do Rio Grande do Sul por meio dessas pequenas viagens, de uma semana, naquela época era uma aventura, porque não tinham estradas boas, né? A gente ficava dias viajando na lama, no barro, com uma rural willys, era muito interessante e chegava nas cidadezinhas pequenas e tal.


P/2 – Seu pai trabalhava como consultor ou ele trabalhava para alguma firma?


R – Meu pai era funcionário público do Ministério da Agricultura, fazia previsão de safra.


P/1 – Marco, voltando para onde a gente estava, lá na sua escolha pela geologia, como foi a faculdade, onde você estudou e onde fez vestibular?


R – Uma determinada hora da vida a gente tem que escolher o que a profissão, né, e tinha que fazer o vestibular como tem que fazer até hoje, era dificílimo na época. Meu pai era funcionário público e era perseguido porque era do Partido Comunista, então, ganhava pouco, cortaram o salário dele, né? Então, a gente sentia aquela coisa dentro de casa que precisava sair para trabalhar para ajudar, entendeu, era uma família de classe média, mas a gente tinha dificuldades, porque eram muitos filhos e tal. Acho que eu e meus irmãos tínhamos incutido aquilo, que a gente tinha que passar no vestibular numa escola pública e já sair de casa pra ficar independente. Pelo menos, eu tinha essa coisa e  queria ser independente e tal. Então, eu, que era um estudante relapso, naquele ano fiz um projeto pra passar no vestibular, que era muito difícil mesmo. Aí, o velho fez um sacrifício, a gente fez cursinho, na época, eu fiz com o meu irmão, porque já estava empatado na escolaridade com ele. Meu irmão mais velho passou em Agronomia e eu passei em Geologia na UFRGS [Universidade Federal do Rio Grande do Sul]. Na época, fiz o curso em quatro anos, era a última turma que fazia o curso em quatro anos, então, me formei muito rápido,  com 21 anos. Foi uma faculdade muito boa, o curso foi muito interessante, né, bons professores, tinha muita saída de campo. Então, revistei aquelas cidades que tinha conhecido, só que dessa vez a gente ia pro campo mesmo. Foi uma escola, foi muito bom, conheci grandes camaradas até hoje, uma história muito rica.


P/2 – Deixa só eu te perguntar, desculpa interromper, como foi essa ligação do seu pai com o Partido Comunista? Ele passava isso pra vocês também?


R – É, meu pai não era um político público e nem clandestino, mas era um cara muito profissional, né, então, ele não envolveu diretamente a gente como outros amigos dele faziam, os filhos com 16, 17 anos já eram militantes. Ele passava à nós toda aquela ideologia pura do marxismo, mas a gente não se envolvia em política, né? Então, fui criado num berço de esquerda,  porém com toda liberdade, sem nenhuma imposição de ideia. Eu tinha muitos livros, a minha mãe também lia muito, então a gente foi criado com um caldo de cultura de esquerda. A minha formação é de cultura universal, literatura universal, né? Então, depois que ele morreu, fui descobrir muitas coisas, que ele era tão profissional que não passava pra gente. Ele tinha uma vida paralela, de política clandestina no Partido Comunista, algumas coisas a gente sabia, lógico, né, mas outras coisas eu fui saber depois. Até quando eu saí de casa, quando veio a abertura e eu voltava pra casa nas minhas folgas, conversava muito com ele, que me dizia muitas coisas. Mas, muitas coisas eu fiquei sabendo depois, pois ele não me disse, por ter aquela coisa de proteção a informação e tal.


P/1 – E proteção talvez por vocês também.


R – Ele era um agitador profissional [risos], to brincando.


P/2 – Mas, ele tinha um pouco de proteção por vocês...


R – Exatamente, porque ele separava muito bem, ele sabia fazer com competência, porque a família era a coisa mais importante pra vida dele, né? E essa atividade política dele era uma coisa assim, como é que se diz, incontrolável, ele era um político, além de outras atividades que ele tinha na vida, tinha um papel pra cumprir, entendeu? Ele foi até candidato uma vez, em 1974, para deputado federal e quase foi eleito, já estava ali no início da abertura e tal, foi muito legal, uma época da campanha. Nessa época, eu estava fazendo vestibular, então foi um ano muito interessante, pois a gente ajudava na campanha política dele e viajava de novo e tal. Agora penso assim, pô, foi uma época...


P/2 – E ele foi despedido em que ano, você consegue se lembrar?


R – Despedido?


P/2 – É.


R – Não, ele nunca foi despedido...


P/2 – Foi afastado?


R – Não, ele nunca foi afastado, é o seguinte, a ditadura esfacelou o Partido Comunista, esfacelou mais ou menos a cúpula, que era do comitê central e continha pessoas com papel de dirigentes, né? Meu pai não estava numa posição desta na época e eles começaram a perseguir mais a linha dura do partido comunista, que depois se esfacelou em outros grupos de esquerda. Então, eles deixaram mais ou menos de lado esse pessoal que era da linha mais pacífica, a qual se posicionava de acordo com o Luís Carlos Prestes. Ele era amigo pessoal do Prestes, que já esteve várias vezes na minha casa, conversei com ele e tal. Então, mais tarde meu pai teve um papel mais importante, foi chefe do partido no Rio Grande do Sul, mas não foi perseguido fisicamente, foi no serviço público, porque aí cortaram o horário integral dele e de uma hora para a outra o salário caiu na metade, então, ele teve que correr atrás, fazer bico na rua, essas coisas. Por exemplo, teve uma época da minha vida em que eu e os mais velhos sentíamos assim que havia um permanente medo dentro de casa, existia uma tensão, no sentido do velho vai ser preso a qualquer momento. Quando ele fazia essas viagens, a gente ficava com medo e a minha mãe incentivava que fosse alguém com ele, porque podia ser sequestrado ou algo assim.


P/2 – Vocês tinham noção do que estava acontecendo?


R – Perfeita noção, mas existia sempre uma tensão assim de que algo ia acontecer. Só que a gente era criado naquela ilusão, que existia em toda esquerda no Brasil, inclusive na minha casa, de que a coisa ia mudar daqui a dois, três anos: “O movimento operário, os trabalhadores, isso aqui vai mudar!” E a coisa foi se eternizando, né?


P/2 – E quando foi essa redução do salário dele?


R – Foi depois do AI-5 [Ato Institucional n° 5], quando endureceu o regime.


P/2 – Em 1968?


R – É, em 1964 ele teve que fugir de casa, inclusive um tio meu foi preso em 1964. Tem até uma curiosidade, em 1964, se eu me lembro direitinho, eu tinha uns seis, sete anos e o meu irmão, que tinha uns sete anos, chegou em casa dizendo: “Pai, um colega meu disse que a polícia esteve na casa dele te procurando”. Esse coleguinha era da rua, só que ela não tinha saída, continuava, então era difícil de encontrar a nossa parte da rua, era a parte nova da General Neto, onde a gente morava, em Porto Alegre. Aí, o velho ensacou, a minha mãe disse: “Ah, estão te procurando...” Então, a gente fugiu de casa, pegou as malas, só que naquela época a gente fugia pra casa dos parentes. No início do golpe foi uma desorganização, só depois o aparato militar e de inteligência começou a fazer as coisas “bem feitas”. Então, a gente ficou uns dois, três meses na casa de tios, a família se separou e tal, depois, meu pai, que tinha muitos amigos do Ministério e em altos escalões, conseguiu voltar a trabalhar.


P/1 – Marco, você falou que soube das histórias do seu pai...


R – Então, não tem nada de petróleo aqui, vou falar só de política [risos].


P/2 – Não, é que faz parte da sua história e faz parte da história do Brasil.


P/1 – Você falou que soube das histórias do seu pai até depois que ele veio falecer, como você soube?


R – É, algumas coisas eu soube depois, mas não foram importantes, digo, agora eu não estou me lembrando,digo assim: “Poxa, por que que o velho não falou esse troço, né?”, mas não me lembro o que exatamente.


P/1 – Mas como você acabou sabendo dessas coisas...


R – Não são coisas importantes, tá? Tu estás levando para um lugar...


P/2 – Não, ela está perguntando se você soube por acaso ou se você foi pesquisar...


R - Não, não, foi por acaso. Vou te dar um exemplo, uma vez, ele foi, quando teve o governo Collares, no sul, pelo PDT [Partido Democrático Trabalhista], ele tinha saído do PCB [Partido Comunista Brasileiro], que virou um partido reformista, cujo foco não era a revolução, era uma coisa burguesa, democrática e tal. Aí, ele foi para uma linha do Prestes lá do PDT, o Brizola ainda era vivo, lógico, então, ele colaborou com o governo do PDT no Rio Grande do Sul, primeiro governo do PDT sendo presidente de uma estatal, a CORLAC [Companhia Regional de Laticínios e Correlatos], algo coisa assim. Era uma fábrica de laticínios, trabalhava com leite, fazia requeijão e era estatal. Era muito bem quista, tinha uma tradição, fazia um bom produto e ele teve uma experiência fantástica como presidente dessa companhia, né? Ele tinha experiência, era muito competente como administrador, só que na parte financeira ficaram com os diretores do PDT e ele deixou correr, aí veio uma lama, ele foi envolvido no negócio, houve uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] e ele foi chamado na Assembléia para depor. Fui com ele, fiquei impressionado, pois quando ele chegou na Assembléia todo mundo se derreteu pra ele, elogiou e tal. Pensei que ia ser um bombardeio, né, ele era conhecidíssimo de toda a classe política, não só de esquerda, mas de direita. Isso foi uma coisa que me surpreendeu, não sabia que o meu pai tinha uma expressão pública tão grande, porque ele tinha uma militância desde a década de 1940, né, então ele formou e ajudou muita gente, era muito conhecido regionalmente. 


P/1 – Marco, como foi fazer faculdade nesse período da ditadura?


R – Olha, no período da ditadura tu dizes?


P/1 – É, sua faculdade...


R – Foi de 1975 a 1978, me lembro que houve uma passeata grande que a gente participou em 1975, mas, na época, estava no finalzinho e a gente tinha uma briga na parte política estudantil, era contra os Decretos-Lei n° 477 e n° 288, me lembro agora que eram dois decretos-leis que cerceavam a liberdade estudantil. Tive até uma pequena militância no diretório, fui vice-presidente duas vezes e tal. Mas foi tranquilo assim, a grande perseguição aos estudantes já tinha passado, foi entre 1968 e 1973, então, não havia perseguição política, né? Os líderes estudantis se manifestavam livremente, a gente desrespeitava todos os decretos, se reunia e todo mundo falava, sabíamos que havia espiões, mas ninguém dava bola, tinham os famosos espiões, informantes do SNI [Serviço Nacional de Informações], você via aquele colega que estava sempre nas reuniões e não falava nada [risos]. Mas, do ponto de vista da repressão assim, não houve muita, foi tranquilo, a repressão grande talvez ocorreu numa geração anterior a minha.


P/2 – Mas, não era esquisito ter um sujeito na sala de aula que todo mundo desconfiava, não era desagradável?


R – É, a gente desconfiava até de alguns professores. Mas acabava se acostumando, né? [risos].


P/1 – Você mencionou esse corte no salário que  seu pai teve e que isso fez vocês quererem trabalhar...


R – É bom que eu vou contar pra minha filha, eu nunca falei essas coisas pra ela [risos].


P/1 – E que isso fez você e seus irmãos terem uma vontade  de trabalhar e de ajudar e tal, quando foi o seu primeiro trabalho? Foi só na Petrobras?


R – Não, meu primeiro trabalho é interessante, foi logo que entrei na faculdade, em 1975, eu tinha 18 anos. Trabalhei no IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], mas não fui contratado. Fui contratado pra fazer um trabalho, um censo econômico, foi o meu primeiro trabalho na vida, que durou quatro, cinco meses. Era um bico assim, a gente fez um concurso fácil, contrataram muita gente e eu fazia o censo. Pegava uma pastinha, deram um cursinho pra nós, censo econômico, quer dizer, você ia em lojas e em fábricas de determinado quarteirão e preenchia um questionário. Um questionário complicado, porque era econômico e tal, trabalhei durante uns quatro meses. O segundo trabalho foi um estágio na prefeitura de Porto Alegre, que tinha um setor muito pequeno de Geologia, porque Porto Alegre está situada num delta, né, delta do Guaíba, a gente chama, né? Então estavam fazendo trabalhos ali de urbanização e precisavam de uma assessoria geológica, em termos de geomorfologia de terreno e tal. Tinha um geólogo que trabalhava ali, Paulo ___, gente fina… Eu não me lembro, não vem ao acaso, mas consegui um estágio com ele, né, eu e mais um colega e trabalhei durante um ano e meio até me formar, dava até um salariozinho legal. Esses foram os dois trabalhos que eu tive. Bom, a Petrobras, naquela época, no final do ano visitava as universidades federais e fazia uma propaganda. Uma propaganda não, ela queria captar gente, então fazia assim palestras, levava o pessoal do Cenpes [Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello], os geólogos de posto pra explicar como era o trabalho, pra tentar atrair as pessoas para fazerem o concurso. Na época eu não queria ir pra Petrobras, eu tinha um espírito assim muito aventureiro, queria aproveitar tudo aquilo que a profissão podia me dar na juventude, aproveitar as coisas que eu gostava, conhecer o Brasil e viajar muito, né? Então eu achava que o tipo de atividade que a Petrobras fazia como geologia não me interessava, isso achava na época, né, depois vi que era um engano até, que estava equivocado, que o que me interessava era mineração, por exemplo, ir no mato, conhecer a Amazônia. Eu tinha um fascínio, todo brasileiro tem que ir um dia pra Amazônia e tal, eu queria conhecer a Amazônia como geólogo mesmo, trabalhei na mineração, né? Hoje, acho que seria um equívoco, a grande maioria dos colegas meus que foram se arrependeu, pegaram doença, trabalho duro, mal pago, né? De repente, eu peguei o caminho certo. Mas, na época, o mercado estava fechando. Aliás, eu tinha feito vestibular para Geologia não só por vocação, mas porque era uma profissão muito atraente do ponto de vista financeiro, tinha um mercado muito bom. Quando me formei, esse mercado se inverteu, né, aquele boom do milagre brasileiro já estava terminando, a inflação já estava grande, a economia do país como um todo estava indo mal, né? Então eu até vacilei, quer dizer, aí resolvi fazer o concurso da Petrobras, que o mais importante para mim era arranjar um emprego e ter minha vida independente. Aí fiz o concurso e passei, mas passei assim com um pé atrás, achando que eu ia trabalhar dois, três meses e não ia gostar, né. Fiz o concurso e fui trabalhar, comecei a minha vida profissional na Petrobras em Natal, no Rio Grande do Norte.


P/1 – Em que ano foi isso?


R – Foi em janeiro de 1979.


P/1 – Aí você prestou concurso pra geólogo e trabalhou lá em Natal. Qual foi o primeiro trabalho lá?


R – É, bom, a história é igual a de todo mundo que esteve aqui, né, tem uma história parecida. A gente chega, é um estudante verde assim, vinte e poucos anos de idade, se o cara tem uma namorada, casa naquele ano, né, eu não, custei, mas normalmente é assim. Cheguei em Natal, era uma cidade muito pequena,  bem provinciana, tinha um cinema só, por exemplo. Não tinha livrarias, elas ficavam dentro de mercadinhos. Era uma cidade bem pequena mesmo, muito diferente daquele meio em que eu vivia, mas muito legal, porque tinha praia e tal. A gente chegava lá, a Petrobras dava uma passagem e no que você assinava o contrato ela dava um salário de gratificação, então dava todas as condições para a gente. Aquilo ali já te impressiona, né?


P/2 – Pra você se instalar?


R – Pra se instalar, em dois, três dias ganhava um salário que era um salário de gratificação, né? Só que na época a gente ficava ali dois, três dias, éramos apresentados pro chefe e aí ficava a cargo dos colegas da turma anterior, pessoas que tinham um ano a mais de experiência só. Só que um ano de experiência na Petrobras, naquela época, era uma vida, se aprendia uma barbaridade de coisa, então a gente pegava algumas dicas e ia direto pra sonda de petróleo, pras plataformas de petróleo, ficava uns 15 dias direto nas plataformas, né? Ficava como estagiário ali, então meu começo foi esse aí. Na época, a gente trabalhava um ano como estágio, então ficava umas temporadas na plataforma e umas no escritório.


P/2 – Você não chegou a fazer nenhum curso? Não houve aquela passagem pelo curso?


R – É, nesse primeiro ano a gente fazia um curso muito bom, mas era informal, eles chamavam, por exemplo, sobre determinada matéria da Geologia do Petróleo, da Indústria do Petróleo, que a gente precisava saber, de engenharia, chamavam grandes pessoas, personalidades da empresa que iam lá, davam palestras. Esse curso de formação que eu tive de um ano não tinha nome nenhum, mas era um estágio que tinha períodos de prática e períodos de teoria, era um curso de altíssimo nível, de gente da Petrobras, os melhores profissionais que passavam a experiência para a gente. Depois, tinha um curso de formação que a gente chamava, né, que eu fiz com quatro anos de empresa aqui no Rio que é o CAGE [Campanha Nacional de Formação de Geólogos], é um curso de seis meses em você dá uma reciclada, né? Ele tem o mesmo nível de um curso de mestrado, é condensado.


P/2 – Logo no início você fez um curso de um ano?


R – É, por isso eu te digo que é um estágio, isso fiz em Natal, com o pessoal do staff mesmo, que era um pessoal muito bem adestrado e treinado, né, mas já com coisas específicas daquela atividade de geologia de poço e de avaliação de formação. Porque tem a parte de Geologia de Petróleo que se divide em grandes ramos, né, tem a parte operacional e a parte de projeto de exploração. Então a gente começa pela parte operacional, que é o geólogo de poço, que vai examinar a rocha e tal, avalia o poço, que é uma outra disciplina muito grande, a Avaliação de Formações, né? Naquela época, a pessoa que ganhava experiência nessa parte operacional ia ou não para a parte stricto sensu, que é a parte em que se estuda uma área e se diz onde vai se localizar o poço, em termos gerais.


P/1 – Eu ia só fazer uma pergunta. Você falou que logo em dois, três dias assinou um documento e aí foi 15 dias pra plataforma, como foi essa sua primeira experiência na plataforma?


R – É, o que me lembro é o seguinte… O tipo de plataforma naquela época era aquela em que se furava uma lâmina de água rasa, né, então eram 30, 40 metros de profundidade e eram plataformas fixas. Elas tremiam muito, porque uma sonda de petróleo é uma fábrica, na realidade, você vai morar dentro de uma fábrica, então é um barulho ensurdecedor constantemente, com uma vibração tremenda, 24 horas por dia. Depois, o seguinte, eram umas sondas que furavam muito rápido, nos primeiros embarques que a gente foi, a gente ficava observando, fazendo perguntas e aprendendo com os mais velhos, mas logo no segundo, terceiro embarque a gente já trabalhava, né? A gente trabalhava em turno de 8 ou 12 horas, combinava com o colega que ia. Aí era uma coisa infernal, não tinha tempo de descanso, porque você trabalhava, comia, ia dormir e depois voltava a trabalhar, era um troço infernal assim. Mas de certa forma era bom porque passava rápido o tempo também, né?  A pior coisa que existe numa plataforma é não ter o que fazer. Então essas duas coisas que me impressionaram, o ambiente hostil, que você acaba se adaptando, depois quando chega em terra você está num planeta estranho, fica olhando meio inclinado: “Não tá tremendo nada, que silêncio é esse?” [risos]. Era um ambiente muito hostil.


P/2 – Marco, lá em Natal, o que vocês estavam fazendo na exploração? Vocês tinham o que, Ubarana?


R – Isso, Ubarana.


P/2 – O que mais? Onde  você trabalhou também?


R – Ali tinha bastante atividade, uma atividade exploratória nas duas bacias da jurisdição do distrito, que eram a Bacia Potiguar - Mar e a Bacia do Ceará. Então já existiam alguns campos de petróleo descobertos, onde se furavam poços de desenvolvimento e áreas onde se fazia exploração, poços pioneiros, né, que são muito diferentes. Quando você vai acompanhar o poço pioneiro, tudo é uma surpresa, quando você faz o projeto de poço, ele tem 20% de chance, digamos, de ter sucesso, de ter petróleo e 30% de chance de ter aquela rocha que você previu, aquela coluna sedimentar, é muito interessante e tal. Poço em desenvolvimento já é diferente, você sabe o que vai encontrar, né. Nos dois a responsabilidade é muito grande. Uma coisa assim que me chamou  atenção também foi da responsabilidade, né, porque você começa a ver que tudo é muito caro. Outra coisa que me surpreendeu também na indústria do petróleo é que tempo é muito mais que dinheiro, é dinheiro ao cubo, então, nós trabalhávamos numa atividade que desde o início era muito cobrada, a gente tinha que ser quase perfeitos, não podia cometer erros, porque é um custo muito grande. Na época, uma plataforma era alugada por 40 mil dólares por dia, hoje são 400 mil dólares, 10 vezes mais, mas, na época, era muito dinheiro. Uma coisa que me impressionou foi isso, a responsabilidade que eu tinha naquele tipo de trabalho, de atividade.


P/2 – Já tinha aquela parte ali de Mossoró também ou estava acontecendo?


R – Não, eu saí de lá, trabalhei um ano, no que saí aconteceu aquele episódio no hotel, né, um ano depois. Mas cheguei a fazer uma excursão de campo com um desses professores bons e a gente já sabia que tinha algum potencial ali, né, porque era mesmo uma bacia que aflorava, né? Logo eu saí de lá, porque trabalhei um ano só em Natal e depois fui transferido pra Macaé no outro ano. Veio aquele boom exploratório em terra, na Bacia Potiguar, eu não participei disso, mas acompanhei aqui no Rio, no staff.


P/2 – Em terra, ainda é a maior bacia produtora?


R – Como?


P/2 – De terra, do Rio Grande do Norte...


R – Não, quando eu entrei...


P/2 – Era a Bahia?


R – Era a Bahia, a Petrobras produzia 150 mil barris por dia, mais ou menos e 80% era na Bahia. Lá se produzia nos campos de Banana e Curimã, se não me engano, pouca coisa assim.


P/2 – Mas já tinha essas offshore?


R – Sim, tinha bastante plataforma offshore.


(troca de fita)


P/2 – Retomando, a sua vinda pra cá foi por causa do final do estágio ou você...


R – É, trabalhei um ano em Natal, mas nesse um ano, foram seis meses efetivamente lá, né, nos outros seis eu fui emprestado pra Bacia de Campos, que estava começando uma grande atividade. Tinham sido descobertos aqueles campos de Garoupa, Badejo, estavam desenvolvendo esses campos. Havia cerca de 20, 30 plataformas, uma atividade exploratória muito grande, né, e tinha pouco geólogo de poço, então os outros distritos começaram a emprestar geólogos novos para serem treinados na Bacia de Campos. Aí, eu fui pra Vitória, na época, estava sendo transferido do distrito de Vitória pra Macaé, peguei essa transferência de Vitória pra Macaé, quer dizer, em janeiro de 1979 eu estava em Natal, em janeiro de 1980 fui transferido pra Macaé, definitivamente, bem no início da atividade em Macaé.


P/2 – O que você está contando é que houve então um esforço exploratório na Bacia de Campos?


R – Que absorveu muita gente do Brasil todo e os novos precisavam trabalhar no poço. Aí, trabalhei durante...


P/2 – Conta um pouquinho mais desse esforço, enfim, como foram ocorrendo as descobertas?


R – Na época em que cheguei, as descobertas dos antigos campos já tinham sido feitas, por exemplo, Garoupa, Badejo, Namorado, esses campos famosos já tinham sido descobertos, aí a gente passou a trabalhar em outras descobertas, né? Houve várias assim, sei lá, Carapeba, várias outros campos, mas eu trabalhava como geólogo de poço. Era uma, como se diz, uma atividade febril mesmo, lembro que a gente embarcava e ficava mais de 15 dias, coisa que hoje é inconcebível em de leis trabalhistas. Ficava, várias vezes, mais de 15 dias na plataforma, porque não tinha quem substituísse, 20, 21 dias, às vezes. A gente não conseguia folgar logo porque tinha que fazer o relatório no escritório, a gente ficava uma semana, não folgava, embarcava de novo, quando chegava no final de um ano, você tinha 100 dias de folga. Cheguei a ter 100 dias de folga acumuladas, né? Até gostava disso, porque, às vezes, tu podia tirar duas férias por ano, dava uma folga, fazia uma viagem grande, só pra dar uma ideia da atividade que tinha. A Petrobras não contratava muita gente por ano, contratava 125, 130 geólogos por ano, né? Não tinha uma demanda muito grande que não era suprida, porque o próprio governo, na época, era do Delfim Neto, o governo fazia muitos cortes e investimentos dentro da Petrobras. Me lembro que até promoções simples de geólogo eles barraram, porque tinha que fazer contenção, essas coisas, era a política do Delfim Neto na época [risos], tá registrado aí.


P/2 – E a diferença que você achou nas plataformas do Rio Grande do Norte pras da Bacia de Campos?


R – Ah, sim, tinha uma diferença grande. Aqui na Bacia de Campos a água era mais profunda, então tinham as famosas semi-submersíveis e os navios sondas, né? Plataforma submersível é um pouco maior assim, mas também jogava bastante e os navios sondas jogavam mais ainda. Havia o famoso Petrobras 2NS3, que eu trabalhei, tem uma geração de jovens que trabalhou, foi o descobridor de Garoupa e tal, então tinha essa diferença, né? Uma coisa que me impressionou muito na plataforma, naquela do início, foi que a primeira plataforma que eu embarquei era operadora, elas eram, não sei se ainda são, operadas por americanos, por gringo, a gente dizia e eles tratavam o peão brasileiro como um cachorro, como escravos mesmos, gritavam, sabe, tratavam mal, aquilo me deixou chocado. A Petrobras sempre teve a fiscalização dela, o engenheiro fiscal que ficava ali, mas o cara não se metia naquele negócio, porque quem contratava o peão não era a Petrobras, era aquela companhia proprietária da plataforma, que alugava a Petrobras, então, o que me chocou foi isso aí.


P/2 – E isso foi mais no Rio Grande do Norte ou aqui na Bacia de Campos também?


R – Mais no Rio Grande do Norte, aqui na Bacia de Campos não, era mais tranquilo. No Rio Grande do Norte, eu não sei se era porque as plataformas eram menores, era uma densidade muito grande, uma tensão maior, era mais perigoso e existia isso aí. Esse pessoal que trabalha como soldador era muito rústico, né, conheci umas figuras incríveis. Por exemplo, tinha um soldador que era português e fiz amizade com ele. O soldador é aquele cara que fica operando uma alavanca que vai controlando a descida da broca, vai furando mesmo, é o cara que fura, né? E o geólogo que trabalhava ali ficava amigo do soldador e esse camarada era um português, fiz amizade com ele. Aí teve uma operação especial no poço, que é um teste de formação que a gente faz quando encontra indício de óleo, você manda parar a sonda e tem toda uma metodologia, um equipamento especial que desce, que o geólogo supervisiona, pra avaliar aquela zona, né? Mas a gente tem que interagir com o engenheiro, principalmente com o soldador, né? Aí eu tive uma discussão técnica com o cara, no calor da discussão começamos a bater boca e eu chamei ele de covarde. O cara se transformou, virou pra mim e disse: “Covarde, eu? Pois saiba que eu participei de chacinas na África!” [risos]. Ele era um soldado mercenário, esse tipo de gente, aí eu falei: “Tá, legal” [risos].


P/2 – E aí em Macaé você ficou também pouco tempo?


R – Não, fiquei quatro anos em Macaé...


P/2 – Quatro anos?


R – É, morei quatro anos em Macaé, na realidade, trabalhei pouco em poço, quer dizer, pouco não, trabalhei dois anos, embarquei bastante, umas 30, 40 vezes. Nos primeiros dois anos trabalhei como geólogo de poço, depois fui convidado pra trabalhar no staff de avaliação de informações, que é uma especialidade da operação. Trabalhei em Macaé todo esse tempo nisso, uns três anos, que a gente supervisiona essas operações de testes de formação, isso que acontece no porto, que eu fiz nessa sonda ou perfilagem de poço. Não sei se vocês têm ideia do que seja perfilagem de poço, você desce umas ferramentas pra tirar um eletrocardiograma do poço, são vários tipos de ferramenta e existe um especialista na Petrobras que interpreta as curvas geradas por esse equipamento que tira todas essas medições dentro do poço, né? Essa interpretação vai dizer exatamente que tipo de rocha e de fluido há lá embaixo, porque não basta só tirar amostra do poço, vem tudo misturado, precisa descer essas ferramentas pra saber exatamente o que tem dentro do poço. Eu trabalhava nesse tipo de atividade, que é a avaliação de formações, trabalhei durante três anos em Macaé com um pessoal assim muito experiente, sabe, depois de quatro anos fui transferido pro Rio de Janeiro e continuei trabalhando aqui já no staff do Rio, né? Trabalhei com João de Deus, que é até hoje é o melhor nessa atividade, alguém que recomendo, é importantíssimo que vocês tragam o João de Deus pra dar um depoimento aqui.


P/2 – Só João de Deus?


R – João de Deus Santos Nascimento, tá, ele tem três anos mais do que eu de Petrobras e é um cara muito interessante para vocês pegarem toda essa parte.


P/2 – Você é um bom contador de história, me conta mais alguma coisa que tenha te marcado nesse período de Macaé, neste trabalho de avaliação, o que foi desafiador pra você?


R – Certo. Em Macaé também a gente tinha uma atividade offshore, né, no mar e no Espírito Santo em terra porque tinha a jurisdição sobre a Bacia do Espírito Santo em terra. Então, era muito interessante, a gente trabalhava em sonda de terra e de mar também, esqueci de falar isso aí. Fiz grandes temporadas no Espírito Santo, assim de quatro, cinco meses de ficar lá supervisionando nessa parte de avaliação ajudando os geólogos de poço que trabalhavam ali.


P/2 – Você preferia algum?


R – A gente prefere trabalhar em terra, né, tem gente que gosta de... eu preferia trabalhar em terra, porque é mais tranquilo, você não está confinado. Então é mais interessante trabalhar em terra, eu gostava.


P/2 – E em relação à sua ideia, desde os 12 anos, de trabalhar com geologia, o trabalho mesmo ali com a Petrobras, você...


R – É aquele negócio, eu entrei na Petrobras querendo sair, né? Mas fui ficando, porque é muito interessante. Essa parte, por exemplo, de avaliação de formações, essas ferramentas, achei muito legal, é uma coisa de engenharia, de física que eu gostava também. Então era um mundo novo que se abriu, né, e as pessoas eram muito competentes, aprendi com todo mundo, uma pessoa que tinha um ano a mais do que eu na época sabia uma enormidade. E eles passavam toda aquela experiência para a gente, então existia essa transmissão de conhecimento, era muito legal, foi muito bacana esse negócio, da parte dos colegas mais velhos. Tudo aquilo foi me interessando e geologia sedimentar, que é o campo maior da geologia do petróleo, que não me interessava na faculdade, passou a me interessar, né?


P/2 – Você acha que esse lado também da transmissão do conhecimento de uma pessoa que só tinha um ano a mais que você fazia parte desse ideal de desenvolver a Bacia de Campos, de fazer um esforço conjunto, trazer as pessoas, ou o que era isso?


R – Não sei se vou te responder certo


P/2 – É só uma impressão, porque você tá contando e é uma avaliação a posteriori. De qualquer forma, olhando retrospectivamente, era mais ou menos o perfil de uma cultura da Petrobras também?


R – Exatamente, fiquei impressionado com a competência das pessoas, a responsabilidade, tudo no âmbito da geologia, né, as pessoas imprimiam o trabalho, é uma coisa que eu não imaginava. A gente era muito cobrado também, a minha geração e a anterior, tinha o famoso Carlos Walter, você já deve ter ouvido falar, o diretor Carlos Walter. A gente detestava ele, né, porque ele era... toda a culpa era do Carlos Walter, hoje eu reconheço que ele foi um cara extraordinário mesmo, a Petrobras e o Brasil devem muito à essa pessoa. Ele era muito paternalista, né, e todo cara paternalista, competente e disciplinador tem envolta dele uma corriola de puxa saco mesmo, né? Então, quando chegava à nós era o terror, a minha geração e a anterior a gente trabalhava eram muito cobradas, entendeu? Havia tinha uma cobrança impressionante, se você cometesse um erro, se não tivesse uma justificativa de boa-fé, estava frito, era queimado, demitido até. Você deve ter ouvido falar que o Carlos Walter, em uma época, resolveu fazer um vestibular interno na Petrobras, vocês sabiam disso?


P/2 – Conta.


R – Prova de matemática, inglês, geologia e geologia do petróleo, o cara que fosse mal em qualquer uma dessas, dependendo de quão mal, era demitido, ou era transferido, frito, caía em desgraça, acontecia alguma coisa com ele, né? Então, a minha geração e a anterior começaram a carreira na Petrobras com esse clima. Lembro que quando fui transferido para o Rio de Janeiro, pra trabalhar na avaliação, que era coisa crucial também, você tinha que tomar decisões rápidas e certas, né, e ia ver se a sua decisão foi certa ou não logo ali. Nosso chefe era um cara que era cobrado pelo Carlos Walter e aquilo respingava na gente sempre. Então a gente cresceu profissionalmente nesse clima assim, mas é algo que já passou, no final das contas, eu não sou à favor dessa parte do terror, mas tem um saldo positivo, que é a experiência técnica e profissional que a gente obteve com isso. Dizem que hoje é o contrário, as pessoas fazem as coisas erradas  e não chamam a atenção, né, é o outro polo da coisa. A gente precisa chegar num meio termo.


P/2 – Em relação à sua vinda pro Rio, você quis vir ou foi um convite, como foi?


R – Ah, sim. Eu queria morar no Rio de Janeiro, tinha um fascínio, todo gaúcho tem um fascínio pelo Rio de Janeiro, né. Aí eu morava em Macaé e já passava o fim de semana aqui. Macaé, no início, era muito gostoso, cidadezinha legal, praiana, depois foi se estragando, todo mundo sabe. A cidade inchou, não aplicaram direito os royalties e ficou uma cidade muito ruim de se viver. E, como se diz, a minha meta era trabalhar no Rio, morar numa cidade grande tipo Salvador tal, eu gostava mais do Rio, né, aí recebi um convite pra trabalhar nessa... Já estava trabalhando com avaliação de formações pra trabalhar no Rio. Num staff muito experiente e tal. Aí fiquei.... Bom, deixa eu dar o resumo então.


P/2 – Tá.


R - Deixa eu fazer um resumo. Eu vim pro Rio em 1984, antes eu fiz um estágio de um ano, morando em hotéis em Copacabana, porque já estava em Macaé, mas ficava muito tempo em hotéis, até que me transferiram de vez, né? Aí morei no Rio durante sete anos, trabalhando já, transferido para o staff, e fiz um curso de mestrado no Rio Grande do Sul, dois anos em Estratigrafia. Depois do mestrado, já estava mudando de área, saindo da parte de operação e indo pra parte de exploração, né, que faz um projeto, estuda uma área pra projetar um poço. Então, lá em Porto Alegre, peguei toda essa base teórica de geologia pra poder exercer essa atividade, voltei, acabei casando, conheci a minha, agora, ex-esposa, que também é geóloga em Porto Alegre...


P/2 – No mestrado?


R – No mestrado. Dois anos depois, voltei pro Rio, mudei de atividade e fui trabalhar alguns anos na Bacia de Pelotas. Aí a legislação do petróleo foi se modificando acabou o monopólio, houve um rearranjo de todos os técnicos, foi feito um grande mutirão pra avaliação das áreas. A gente se misturou ali e acabei sendo convidado pra trabalhar... aliás, antes de vir pro Pré-sal, fiz uma campanha na Bolívia de um ano, na região do gás da Bolívia e fui trabalhar no Pré-sal em 2001 quando o Carminatti montou uma equipe e fui no núcleo da equipe. Essa é a minha história, né, de lá pra cá.


P/2 – Vamos por partes. Explica para um leigo, que vai pegar a sua fita aleatoriamente, como é essa parte, que é super bonita, da Geologia da Estratigrafia? 


R – A estratigrafia estuda o empilhamento das rochas, né, mas não é só empilhamento que está em cima, o que tá mais fundo é mais velho do que tá em cima, né. A gente estuda como essas rochas são empilhadas, e se, durante o empilhamento houve paralisação ou até remoção desse. A gente tem que saber isso aí, parece simples, mas você tem que saber de onde vieram os fragmentos, né, o sedimento pra se acumular, como ele se depositou e que agentes depositaram, foi um rio, o mar, o vento? Que agentes? A estratigrafia lida com tudo isso, aí você tem condições de estudar melhor uma coluna de rocha, tudo o que tem no fundo do mar ou da superfície, até o que a gente chama de embasamento, né? Embasamento são rochas ígneas, vamos simplificar as coisas, basicamente são rochas mais duras, ígneas e metamórficas que compõem o assoalho da bacia. É claro que a gente estuda até esse assoalho, no final das contas, outros processos internos da terra. Mas, basicamente, você tem que entender desde o início da formação da bacia, desde o assoalho até o último sedimento que se depositou. Se você entender isso, quando você for pra uma área e tiver conhecimento de algum poço, você consegue desvendar onde estão os reservatórios, onde pode estar acumulado o óleo.


P/2 – Trabalho de detetive?


R – É, trabalho de detetive.


P/2 – Nessa época que você trabalhou na Bacia de Pelotas, como foi essa escolha? Alguém te convidou ou você quis? Você pode escolher?


R – Foi o seguinte, vamos entrar nas picuinhas da Petrobras. Na época que eu estava, eu fui transferido pro Rio, fiquei sete anos trabalhando, isso no final desse período...


P/2 – Trabalhando com a Bacia de Pelotas?


R – Não, antes disso. Olha só, trabalhei em Macaé, já trabalhava como especialista em avaliação de formações, fui trabalhar no Rio, onde trabalhei sete anos, de 1984 a 1991 nessa especialidade. Por volta de 1988, 1989... a Petrobras sempre sofreu reestruturações, né, e houve uma reestruturação, que eu diria que foi a mais malfadada que a Petrobras fez até hoje, em que  acabaram com esse setor de avaliação, que era algo estratégico, um assassinato técnico contra a empresa. O João de Deus pode esclarecer melhor isso, porque ele estava no centro desse furacão. Aquilo me deixou muito decepcionado e preocupado, porque eu já estava naquele esquema, tinha decidido que ia ficar trabalhando na petrobras o resto da vida, né? Já reagi da seguinte forma, bom, o que esses caras... Tem uma parte, não sei se acontece com as outras pessoas, que você está há tanto tempo na empresa e é uma empresa pública, que aí cai a ficha, pô, essa empresa não é desse chefe, não é do Carlos Walter. A empresa é outra coisa, é do governo, né? Então a gente tem a responsabilidade até de afrontar esses chefes e dizer: “Olha, você não é dono disso aqui e tal.” Aconteceu uma coisa dessa, certos gerentes acharam por bem extinguir o meu setor, na verdade, acaba extinguindo a função, porque o setor e é absorvido por outro, fica uma função relegada à segunda categoria. Uma função estratégica, importantíssima, e vai perder milhões de dólares sem perceber, porque você vai cometendo erros. Aquilo que eu falei de passar a cultura pra outra geração vai se perdendo com o tempo, né? E a Petrobras estava há muitos anos sem contratar gente, então teve uma geração de gerentes da que hoje ainda estão em cargos estratégicos, não vou dizer os nomes, que cometeu essa barbaridade, extinguiu o setor de avaliação de formações.


P/2 – Que foi absorvido por qual?


R – Pelo setor de acompanhamento, se for trazer o cara aqui eles vão dizer que não, mas foi o que aconteceu. O Paulo Mendonça tem esse mérito, saiu da Petrobras por causa de ter, quatro, cinco anos atrás, resgatado esse pessoal, né? Então, resolvi mudar de área, fui pro mestrado em Porto Alegre com um projeto em avaliação, mas quando cheguei lá, disse: “Não, não vou voltar a trabalhar com…”. Resolvi mudar mesmo, fiz um balanço na minha vida profissional, né, eu não tinha aquele ambiente de trabalho que tinha antes e resolvi ir pra interpretação. Aí fui, trabalhei um tempo nessa atividade e recebi um convite, porque outro colega  mais velho que eu, que trabalhava na Bacia de Pelotas,  estava indo pra Porto Alegre fazer o mesmo curso de mestrado que eu, então ocupei o lugar dele na Bacia de Pelotas. Só que eu fui e me ofereci, aliás, não fui convidado, tinha um chefe que era meu amigo assim, Renato Siena, chefe do setor de interpretação que estava na Bacia de Pelotas. Fui falar com ele: “Olha, quero trabalhar contigo e tal.” Ele disse: “Ah, tudo bem.” e eu entrei na Bacia de Pelotas. Não fui convidado, eu que me convidei. Trabalhei alguns anos ali, foi muito interessante, é uma bacia, uma fronteira nova tipo Pré-sal, sabe, mas completamente diferente em termos de geologia, que ainda está sendo explorada, é uma fronteira, talvez seja a última fronteira depois do Pré-sal, uma área muito grande, né? Quando entrei já estavam perfurando dois poços, a equipe que eu me encaixei já tinha feito dois projetos de poços estratégicos muito bem localizados, que deram excelentes informações. Cheguei a participar de duas locações, foi muito interessante, a gente não achou petróleo, porque é uma bacia que tem duas vezes a área da Bacia de Santos e foram perfurados uma dúzia de poços. É impossível achar petróleo com tão pouca atividade exploratória, né?


P/2 – Ela tem uma parte na terra e uma no mar?


R – Não, a Bacia de Pelotas só no mar, tá? Mas é completamente diferente da Bacia de Santos, da qual é vizinha, só que entre Santos e Pelotas tem uma barreira, como se fosse uma montanha submersa, né, não submersa na água, enterrada no sedimento, que separa o sal pro norte da parte sem sal da Bacia de Pelotas. Então se tiver petróleo em Pelotas vai ser um outro sistema petrolífero, vai ser acumulação e não vai ter as mesmas razões que estão acumuladas no Pré-sal.


P/2 – O tipo de rocha e de reservatório é distinto também?


R – Pode ser diferente, agora, a gente não sabe se lá tem esse carbonato que estamos produzindo aqui, né, isso a gente ainda não sabe, é pouco estudado. 


P/2 – Mas é diferente da Bacia de Campos também?


R – Existe uma seção equivalente ao Pré-sal, certo? Mas não se sabe como é composta essa seção e não existe sal, entendeu? É complicado, mais difícil. Então trabalhei, sei lá, uns cinco, seis anos até ter esse rearranjo do monopólio, que aí todo mundo se misturou, né? Todo mundo foi trabalhar um pouco na Bacia de Campos e Santos, que precisava fazer um inventário, participei disso aí.


P/2 – Eu queria recuperar um pouquinho isso, foi o Projeto Mutirão?


R – Isso.


P/2 – Queria recuperar um pouquinho porque acho que a gente tem até pouco, a gente fez uma entrevista curta com o Carminatti...


R – É que ele coordenou esse projeto.


P/2 – Pois é, enfim, na época, a gente acabou focando em alguma outra coisa, não lembro o que foi. Eu queria saber um pouquinho sobre como foi esse projeto. Conta para a gente como foi esse Projeto Mutirão, porque eu acho que foi super importante até para o que está aí até hoje.


R – É, mudou a lei,  foi criada uma agência e a Petrobras tinha a obrigação de dar todas as informações pra essa agência, né? Só que a Petrobras, do jeito que trabalhava, assim em distritos, como se fossem várias Petrobras, né? Então a gente teve que fazer, em um curto período de tempo, uma aglutinação disso aí, uma integração dos dados. E reunir uma equipe foi muito difícil, a gente fez um inventário com o potencial de todo o Brasil, só que esse inventário tinha que dizer o seguinte: “Essas aqui são as áreas quentes, essas são mais ou menos e nessas o risco é muito grande”. A gente separou em hierarquias, foi um trabalho de muita responsabilidade, porque imagina as implicações técnicas e políticas disso.


P/2 – Isso durou o que, um ano?


R – Talvez uns dois anos.


P/2 – Mas isso foi uma corrida, a gente pode pensar também. Uma corrida vai abrir e a gente tem que saber o que vai pegar quando tiver uma licitação?


R – É, o governo fez o seguinte: “Olha, vocês façam esse inventário aí e digam…” É claro que a Petrobras, onde já tinha descoberto era dela, mas foi num curto espaço de tempo e a gente tinha que dizer onde é que queria ficar, onde não tinha muita informação, né? Até muitas áreas boas a gente acabou tendo que entregar, porque não tinha justificativa técnica pra ficar. O Carminatti explica melhor essas nuances todas assim, mas basicamente foi isso. A ANP [Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis] chegou e disse: “ o que tem e o que vocês querem? Ah, querem isso aqui e tal.” Não foi bem o que a Petrobras quis, não foi bem assim, teve muita coisa boa, tanto é que foram em leilões que a gente pegou depois, né? Então foi um trabalho gigantesco, num espaço de tempo...


P/2 – Em relação à esse arquivo todo do Projeto Mutirão, vocês ainda dão uma consultada financeira quando tem licitação, quando tem abertura?


R – Não. Isso é tudo muito dinâmico né? Hoje, tudo virou documento histórico praticamente, já foi tudo reestudado, todas essas áreas que examinamos já devem ter sido reexaminadas. Então isso aí é muito dinâmico e fluido, a evolução técnica é muito rápida.  Essas áreas devem ter sido todas reavaliadas.


P/2 – Marco, tem muito disso na Geologia, de olhar de novo pra uma área com  outra perspectiva? É assim?


R – Com outro olhar, é assim sempre, né? E é na mesma época, por exemplo, a gente trabalha em parceria no Pré-sal, então a maioria dos blocos têm três, trabalha a Petrobras, digamos e mais dois parceiros. Cada equipe, cada parceiro tem uma visão diferente da avaliação daquele bloco, isso é muito comum, porque é muito subjetivo, essa é a verdade. A Geologia, com tanto número que a gente trabalha ainda é muito subjetiva.


P/2 – Se você quiser falar já agora, como é esse trabalho em parceria com os... e como você consegue fazer essa coordenação dos três olhares diferentes? Com parceiros diferentes ou com o seu colega na mesa ao lado?


R – Há várias maneiras de te responder, várias nuances, por exemplo, quando a gente foi jogado nesse negócio de parceria, a gente foi jogado muito vulnerável com a queda do petróleo. Então parece que tudo  que eu falei agora parece que: “Ah, espero colher de chá, porque escolheram antes as áreas.” Não foi bem assim, teve muita área que não ficou boa, né, mas existe todo um procedimento de exploração de petróleo quando você faz um consórcio, que a gente não tinha experiência e a Petrobras não estava estruturada pra isso. Vou te dar um exemplo bem prático, logo que abriu esse processo de quebra de monopólio e a gente se emparceirou com as empresas, eu, por exemplo e um geofísico, a gente era gerente de um bloco e fazia múltiplas atividades que não entendia absolutamente nada, coisas burocráticas, financeiras e administrativas, sem falar no idioma. Hoje, tenho alguma fluência em inglês, na época, havia reuniões internacionais e a gente foi jogado nisso sem entender o que os caras falavam, até sobre assuntos que a gente não dominava, fora da parte técnica, entendeu? Fomos ganhando experiência no tranco mesmo.


P/2 – Isso começou quando? Qual é a primeira reunião da qual você se lembra?


R – Em 1999, 2000, por aí.


P/2 – Já?


R – Com a ESSO [ExxonMobil Corporation]. De cara assim e reuniões em Houston assim, que a gente ia completamente despreparado, não na parte técnica, quando chegava a parte de Geologia, isso foi uma outra surpresa favorável, que levei alguns anos pra descobrir, na parte de geologia técnica a gente é muito melhor que eles, por que? Nessa área que a gente tem uma experiência tremenda aqui,  nossa experiência é grande aqui e a nossa formação de Geologia é tão boa quanto a deles, só que a gente é muito melhor pra explorar na margem continental brasileira. A gente tem mais experiência, mais perícia do que eles pra explorar aqui, com certeza. Depois a Petrobras começou a se estruturar aos poucos e começou a treinar gente específica pra essa parte mais administrativa, nessa parte financeira, e a gente começou, eu, por exemplo, pude me dedicar mais a parte técnica. Me lembro que tinha época que eu recebia e-mails dos gringos, dos parceiros e tinha que ficar o dia inteiro só pra responder e-mail de gringo, não conseguia trabalhar, a gente foi jogado nesse esquema de parceria. Agora não, já tá tudo mais tranquilo, né?


P/2 – Foi um aprendizado difícil?


R – Na época sim, era tanta coisa que a gente fazia, trabalhava de fim de semana, fazia muita coisa, a atividade era muito intensa mesmo, tinha pouca gente, eu levava trabalho pra casa, porque eram poucos técnicos pra cuidar de muitos blocos e fazer múltiplas atividades.


P/2 – Hoje, quando você trabalha e tem essa diferença de um olhar, como você ...


R – É o seguinte, existe um jogo, né, porque algo chave na indústria do petróleo é o segredo, a gente tem a nossa experiência, nossa tecnologia, e você tá com os parceiros. O jogo é o seguinte, transmitir o mínimo da sua experiência e obter o máximo da deles, certo? Mas como estamos jogando no Maracanã,  em casa, né, então eles é que tendem a aproveitar mais e adquirir essa experiência. Esse é o  jogo, por exemplo, só mostrar coisas novas pra eles quando é absolutamente necessário pra mudarem uma ideia e a gente convencê-los de alguma coisa. É um jogo, né? Não sei se entenderam.


P/2 – Entendemos, é um jogo muito delicado, né?


R – Muito delicado.


P/2 – Qual é o limite para você passar informações?


R – É um jogo delicado, você passa o que pode, né?


P/2 – Pois é. Isso é uma pergunta pra você também, o que você pode passar?


R – Você pode passar aquelas coisas dentro da área de trabalho, do bloco, da área que você está explorando. Tudo aquilo você pode mostrar se for necessário pra convencer o parceiro à executar uma determinada atividade, é isso.


P/2 – Você me dá um exemplo, que não seja sigiloso,como você, sobre o que...


R – Tá, vou dar um exemplo bem palpável, nós temos um bloco com um parceiro e temos os blocos vizinhos com parceiros diferentes, o bloco A, que é com um parceiro e o bloco B e C com outros parceiros. Aí o bloco A está com um problema, eu preciso furar num determinado lugar que o parceiro não concorda, aí chega uma hora que eu não tenho meios de convencer eles com as informações daquele bloco pra mudarem de ideia. Então cria-se um impasse, se tem ainda um terceiro parceiro, como é o caso, ele vai ser o voto de minerva. É todo um jogo, você tem que sondar pra ver como o outro vai fazer, porque tem uma hora que a coisa vai por voto, entendeu? É uma coisa importante, eu sei que o poço que ele quer colocar vai dar seco e um poço custa 200 milhões de dólares, eu vou perder dinheiro e tempo, mas, tenho que convencer ele sobre as minhas ideias e o cara, às vezes, se faz de louco... Aí têm informações regionais de outros blocos que eu acabo sendo forçado a passar pra ele: “Não, não te preocupes que acontece isso aqui na região, aqui vai ter sucesso”. Tem um limite que eu tenho que dizer pro cara, por exemplo, entendeu? Eu sei que a arte é você evitar passar essa informação pra ele e porque que não posso passar essa informação? Porque daqui a um ano vai ter um leilão de uma área e ele vai usar essa informação, que é estratégica pra concorrer comigo, essa é a raiz da questão.


P/2 – Então tem um lado político muito grande nesse jogo.


R – Tem um lado político, você tem que ser hábil nesse jogo..


P/2 – No geral, há uma certa antipatia, né, nesse trato.


R – Não, isso da antipatia é uma coisa assim, eu tinha esse problema, mas era impessoal, às vezes, a gente briga com o cara, mas azar, depois a gente janta junto e não tem problema [risos].


P/2 – Então essa parte que você trabalhou também estava ligada à Bolívia, no campo de gás. Você chegou a ir pra lá pra Bolívia, como é?


R – Foi interessante ali. Ali foi o seguinte, eles estavam começando aqueles campos de gases gigantes, famosos campos de gases de San Alberto e San Antonio, que, na realidade, apropriaram o volume para aquele famoso gasoduto, o que veio antes do campo de gás. A Petrobras arriscou isso aí e eu trabalhei no início da exploração, né? Fui emprestado, na realidade, fui convidado pela Braspetro, na época, com o intuito de trabalhar tanto na parte de interpretação quanto de acompanhamento do poço. Queriam alguém no poço que tivesse experiência de interpretação, porque ia ficar numa área muito remota e podia tomar decisões, remota assim, não tinha rádio nem nada. Devido à dificuldade de comunicação, tinha que ter alguém com experiência, era experiência que eu tinha, né? A gente ficava um mês no mato,quase numa selva assim, no sub-andino, na boca da Cordilheira, altitude de 1000, 1500 metros. A gente ficava um mês na sonda e em poços muito profundos naquelas montanhas, né, complicados com pressão alta lá embaixo. Algo trabalhoso, interessantíssimo, mas delicado, né? E era um reservatório muito diferente, com a geologia muito distinta.


(troca de fita)


P/2 – Então, Marco, voltando pra sua experiência na Bolívia, conta também como foi lá e o que você estava me contando também sobre esse acidente, como foi?


R – A gente ficava um mês na sonda, uma vez até fiquei 45 dias, não, 40 dias talvez...


P/2 – No meio do mato?


R – No meio do mato, tinha uma estrada de terra, era o seguinte, tinha um rio famoso chamado Pilcomayo, muito importante na Cordilheira, ele corre por uns desfiladeiros enormes, é uma região muito bonita. São desfiladeiros e montanhas, então tem uma estradinha de terra que a gente fazia da sonda pra cidade mais próxima, que devia ser a uns 30 quilômetros, e, às vezes, a gente ia comprar mantimentos. Foi o que eu fiz uma vez, saí com o engenheiro fiscal Prata, que é aposentado e com um outro contratado para a cidade pra comprar mantimentos e tal, na volta, era uma época chuvosa, existe o que eles chamam nos Andes de quebrada. A quebrada é um rio que não é perene, é temporário e na maior parte do tempo é seco, né, então quando começa a chover nas cabeceiras das montanhas acontece o que eles chamam de flash flood, inunda de uma hora pra outra assim, sobe mesmo. Estávamos voltando pra sonda e a gente atravessava esses riozinhos na boa, com caminhonete Toyota, tração quatro por quatro, só que começou a chover e quando voltamos o riozinho que a gente tinha que atravessar pra chegar na sonda nessa zona montanhosa já estava crescido. Aí nós fizemos uma votação dentro do carro: “Vamos passar ou não vamos?” [risos], resolvemos passar, coloquei a tração nas quatro rodas e quando estávamos passando o rio aumentou assim abruptamente o nível, coisa de um metro e meio, dois metros. Aí eu só via a água passando assim por mim, tudo fechado, tapou o carro o rio, né, de uma hora pra outra assim aquela enxurrada de água preta suja. Aí foi aquela coisa: “Vamos sair”. As pessoas foram saindo, eu estava na direção,  o engenheiro que estava do meu lado, o Prata, abriu a porta e quando saiu, foi pro fundo e não voltou mais. Lembro que eu fiquei pensando: “Bá, o cara vai morrer!” Aí eu queria morrer também: “Pô, vou matar o cara que é responsável, né?”. Então a 25 metros a cabecinha dele subiu e foi: “Pá, o cara saiu!” Aí saiu o outro cara também, pensei: “Bom, agora eu tenho que sair, né? Se eu conseguir sair do carro” e me lembro que achava que podia nadar, mas era uma enxurrada tão forte que eu fiquei rodando dentro d’água. Lá dentro pensei que fosse morrer, me deu um troço, mas pensei na hora: “Pô, eu sou muito moço pra morrer!” [risos]. ____ e olha que eu sou ateu, não sou nem batizado, acho por isso eu fui salvo [risos].


P/2 – Um sustão, né?


R – É, a gente achou que ia morrer mesmo, depois a gente se abraçou e disse: “Sorte que estamos vivos!” Foi tão violento que eu e outro colega perdemos a aliança.


P/2 – E o carro?


R – O carro foi jogado, porque era um rio, um afluente que dava nesse Pilcomayo, que estava ali, o medo que a gente tinha na hora era que a gente fosse  parar no Pilcomayo. Já era mesmo, né, o carro foi jogado, foi indo, mas bateu numa pedra assim, num atacão enorme que estava aflorando e ficou, a água passou e ele ficou preso ali,foi salvo depois no outro dia.


P/2 – E Marco, foi a Petrobras que acabou desenvolvendo o gás da Bolívia? Você pode contar um pouquinho sobre isso?


R – Não, sobre essa parte... Eu só participei da perfuração de dois poços, né, na parte de desenvolvimento...


P/2  - Mas vocês que descobriram, né?


R – Não foi uma foi descoberta, o poço, a estrutura que a gente chama daquelas montanhas já tinha sido descoberta, só que o poço pioneiro era muito antigo, né, não tinha ido até a profundidade final que a gente queria. Mas a gente sabia, com certeza, que tinha gás ali, só não sabia que tinha tanto gás como achamos. E a outra estrutura, que é San Antonio, essa que eu falei é San Alberto, na outra estrutura foi poço pioneiro e tal. Mas não participei do projeto deste poço, foi outro pessoal, do staff da Braspetro. Aliás, na época, a Petrobras era parceira da Repsol S.A., tinham outras companhias, a Total Francesa também. Só participei, na realidade, da operação de perfuração, ajudei no acompanhamento geológico do poço e acompanhei um teste de formação de gás, que foi fantástico. Eu tinha experiência de teste de formação e acompanhei o primeiro teste de formação, né, fiquei impressionado porque era muito gás mesmo.


P/2 – O quê que te impressionou? Como é um teste de formação de gás?


R – Era tanto gás que trepidava a sonda e a montanha junto [risos], era impressionante.


P/2 – Conta mais um pouquinho.


R – Ali está um dos melhores poços de gás do mundo talvez e eu tive essa chance de acompanhar um teste desse. Pra mim era interessante, porque era uma atividade que eu tinha acompanhado, já tinha acompanhado testes desse tipo na Bacia de Campos e l na Bacia do Potiguar, mas não naquela envergadura.


P/2 – Parece o que, que vai explodir tudo?


R – É, parece um avião, parece que você tá do lado de um Boeing assim, em relação ao barulho, sabe? Só que tem aquela chama, uma chama de 15, 20 metros, de noite, fica queimando aquele gás que é um teste, dura poucos dias, né, é um negócio, eu podia ter trazido essas fotos aí, esqueci.


P/2 – Você pode mandar essas fotos por email, que é bacana e a gente deixa lá no acervo.


R – E as linhas congelam porque o fluxo de gás absorve, tem um processo, não sei se exotérmico ou endotérmico, absorve energia, congela as linhas. Então fica tudo congelado,  é interessante, adiante há uma chama grande, treme, aquele barulho [risos].


P/2 – Aí você voltou da Bolívia já pra Bacia de Santos?


R – Não, ainda trabalhei um pouquinho na Bacia de Campos e um ano depois teve uma reestruturação, hã, foi dado ao Carminatti um ativo, na realidade um grande setor, né, na época. Não me lembro o nome, hoje é ABS, e ele começou a reunir uma equipe, convidou o Gerson Luis Dias, que era um dos chefes imediatos dele, né, e ele montou a equipe que eu tive o privilégio de participar e que fez todas essas grandes descobertas na Bacia de Santos, trabalhando nesta área do Pré-sal.


P/2 – Você, que pegou isso desde o início, conta pra gente como foi esse processo de conhecimento, vocês já tinham uma noção?


R – Me lembro o seguinte, vou te contar com um fato, eu trabalhava com um colega, o Cupertino?, na Bacia de Santos, né, geofísico, hoje é gerente, e ele foi destacado com outro colega o Milani, pra examinar umas áreas que a ANP ia colocar pra leilão. Eram quatro blocos gigantescos adjacentes, que depois a gente chamou de cluster, porque o gringos chamavam. Esse grupo, principalmente Milani e o Cupertino, tem um outro geofísico, o chefão, seu apelido é Esteves.


P/2 – Como é o nome do chefão?


R – Esteves, que está emprestado, acho que na Braspetro. O Luis Gamboa você também tem que chamar, que agora tá comigo no Pré-sal e também participou do início, foi um dos primeiros caras que veio para essa área. Lembro que o perguntei para o Cupertino, que trabalhava comigo: “E aí, como estão essas áreas?”, porque chamava a atenção de todo mundo. Eram umas áreas muito grandes, numa zona de água ultra profunda, né? E a gente pegou aquelas áreas e começou a correr, tipo a correr o mundo, mas correr o mundo é ir nos Estados Unidos pra arranjar parceiros internacionais pra participar do Bid II, né? Porque eram áreas de risco altíssimo, falei: “E aí, não está está interessante lá, parece que só tem rift e muito sal”. Rift, na realidade, é a seção Pré-sal, a gente chama de rift também, né? A experiência que a gente tinha de rift no Brasil era mais em terra, que é o caso do Recôncavo, mas poços com produtividade baixa, quando tem aquele cavalo de pau, o poço não vem com a energia própria da formação, do interior da terra, tem que puxar. No mar, em água ultra-profunda você tem que ter um poço com altíssima produtividade, tem que produzir por si próprio, tem que ter uma energia suficiente pra subir e muita coisa, né? E esse tipo de rift de reservatório não é muito produtivo, então a gente considerava uma zona de risco, né? Mas eram áreas onde tinham estruturas muito grandes e a gente conseguia cuidar do que tinha, visualizar estruturas grandes. Aí teve o bid e a gente conseguiu abocanhar esses, na época eram quatro blocos adjacentes, que são os blocos oito, BMS-8, nove, dez e onze. Em cada bloco a gente tem mais ou menos mais dois parceiros. E há parceiros em comum em alguns blocos, têm Shell,  Repsol, tem a BG, que é Britânica, a Galp e a Partex, de Portugal.


P/2 – Bartex?


R – Partex. Aí depois do leilão, quando a gente ganhou essas áreas, houve a concessão, né, obteve por, como se diz, por lance que a gente fez. Na época, já eram caros tal, de 10 a 50 milhões de dólares de bônus, com promessa de poços pra perfurar, é assim que você abocanha um leilão, né? Você chega e coloca num papel lacrado o que você vai fazer naquele bloco e dá um bônus pro governo, a gente ganhou quatro blocos. Aí você tem um prazo pra explorar aqueles blocos, né, quando a Petrobras comprou esses blocos, teve uma equipe que avaliou se valia a pena, né, que primeiro visualizou esse blocos do Pré-sal, foi a minha equipe.


P/2 – Isso foi em que ano?


R – Foi no ano de 2000, né, então o pessoal tem esse mérito de chegar e chamar a atenção dos gerentes: “Ó, vale a pena, vamos bidar?”.


P/2 – O que é bidar?


R – Bidar significa dar o lance pro bid. Bid é o termo em inglês pra leilão, certo? E a gente conseguiu abocanhar. Aí eu entrei, eu e a minha equipe atual, pelo menos mais uns três ou quatro que ficaram lá, a gente entrou quando a Petrobras conseguiu a concessão, pois ela teve que se reestruturar pra fazer uma equipe, né, com certa experiência e quantidade pra poder explorar aquilo ali. Aí j a Petrobras já estava se estruturando melhor pra enfrentar as parcerias, né? Não naquela época que eu falei, já tinha passado uns dois anos, a gente estava mais estruturada pra isso. Então já tinham pessoas especializadas pra tratar da parte financeira, burocrática e eu e os outros geólogos, fiz a parte técnica, né? Lembro que quem convidou pra trabalhar foi o ____. Quem começou fui eu, o Desidério Pires da Silveira, que é geofísico e trabalhava comigo na Bacia de Pelotas. Na realidade, uma das primeiras pessoas a serem contratadas fui eu, o Gerson chamou eu e o Desidério, a gente topou trabalhar, sem problemas. Ao mesmo tempo, foi o Luis Gamboa, então fui eu, Desidério Pires da Silveira, Luis Gamboa e Marcos Bueno, foram esses quatro. Depois veio o Edmundo Yung, que saiu da Petrobras e foi trabalhar na OGX [Óleo e Gás Participações S.A.], depois veio outras pessoas, o Adriano, o Gil, até que a gente fez uma equipe. Levou uns três anos pra fazer uma equipe mais ou menos forte e com uma quantidade ideal de duas, três pessoas por bloco. 


P/2 – Como foram esses primeiros trabalhos? O que vocês fizeram?


R – Como a gente pegou uma área muito grande e os blocos todos adjacentes, na época, o Gerson e o Carminatti, que eram os gerentes e ambos muito competentes, pois já tinham uma larga experiência na exploração na Bacia de Campos, tiveram a grande ideia de fazer um trabalho regional. Deram essa incumbência pra gente, os geólogos, de fazer um mapeamento com os dados que existiam ali, né, uma malha de linhas sísmicas para a gente interpretar, fazer um trabalho regional pra tentar entender como é o sistema petrolífero ali, mas não no Pré-sal, em toda a seção. E a gente começou a usar a experiência que tinha em Campos e nos poços da parte rasa da Bacia de Santos pra tentar descobrir o que a gente podia encontrar. A gente elaborou modelos geológicos, é fascinante, porque é uma área imensa, você acaba usando várias disciplinas pra chegar, integra várias disciplinas, Geoquímica, Geofísica, Estratigrafia, entendeu? Geologia Sedimentar como um todo, vários ramos da Geologia do Petróleo pra integrar e montar um modelo. Até fazer a primeira perfuração, aí com o primeiro poço, a gente ia tentar ir o mais fundo possível pra conhecer toda a geologia.


P/2 – A partir dessa primeira avaliação vocês fizeram o que, amostragem?


R – As etapas foram, vou tentar resumir, você quer o resumo pra um leigo ou pra um técnico?


P/2 – Faça de uma forma que alguém que não é geólogo entenda.


R – A gente fez o seguinte, pra fazer esse trabalho, as áreas eram adjacentes e a gente já sabia mais ou menos, já que estavam as grandes estruturas, quer dizer, lugares onde tinha mais chance de ter petróleo. Mas pra fazer uma coisa muito boa a gente precisava fazer uma nova campanha de sísmica, então a gente fez o que se chamava na época de o maior 3D do mundo. O que é 3D? É uma aquisição sísmica por navios especiais muito densa, em que o navio percorre uma reta de 100 quilômetros e vai dando tiro, né, essa fonte de sônica ela bate lá embaixo e a onda sonora, que tem uma fonte que manda o efeito do eco, e os geofones que chamam os seus receptores vão... Você faz uma linha de 100 quilômetros, depois o navio se afasta só 25 metros e faz outros 100 quilômetros, imagine só, numa área de 60 por 60 quilômetros quadrados, então ele ficou mais ou menos oito meses fazendo isso. Depois disso, aquela massa de dados é processada em supercomputadores e entregue pra gente, que gente interpreta esses dados. Após ter interpretado esses dados, aliado com todo aquele conhecimento que há do resto da bacia, integrando todas as coisas, a gente chegou e disse: “Olha, aqui e aqui tem chances de ter petróleo”, isso é o resumo da coisa, né? O primeiro poço, por exemplo, que a gente furou, que foi o Parati,  foi um poço que é o URJR 607D, no bloco dez, um poço que começou no final de 1994 e terminou em 1996, durou um ano e meio pra furar. O objetivo principal dele não era o Pré-sal, era o Pós-sal, aquelas areias turbidíticas na ____, que a gente via na sísmica, né? Só que a gente aproveitou pra depois de atravessar as areias dar uma desviada com o altinho que a gente viu no Pré-sal, e nesse altinho a gente encontrou indícios de hidrocarboneto, depois lá no fundo encontrou até... Conseguimos produzir o hidrocarboneto leve, óleo leve.  Aí o Parati, este poço, coincidiu com o tupi, na época o tupi tinha começado a furar, logo depois quando o tupi entrou na zona de óleo, então foram dois resultados extraordinários na mesma semana. Com esses dois poços a gente descobriu que o objetivo principal não era o Pós-sal, era o Pré-sal, esses dois poços foram chaves, né? E o Tupi era uma estrutura muito grande que a gente furou no flanco dela, do ladinho assim pra ver, não era o melhor lugar, mas entrou. Não vou te explicar tecnicamente porque que a gente escolheu. Existia uma dúvida muito grande se teria mais óleo nas adjacentes do Tupi e tal, se o reservatório ia ser melhor ou pior. Então o grande estardalhaço na imprensa foi quando a gente falou do segundo poço, o Tupi, que a gente furou dez quilômetros de distância e ele deu resultados muito melhores que o primeiro, né? Aquilo confirmou que a coisa era séria. Em resumo, a gente fez um trabalho regional com esse 3D, que eu falei, essa aquisição muito grande, densa que chama de 3D, que era o maior do mundo na época, né. Com esses dados, a gente já delimitou onde é que iam ser as estruturas. Até hoje a gente está perfurando essas estruturas descobertas nessa época, que faz uns cinco, seis anos, pra você ver como demoram as coisas, né? Há cinco, seis anos a gente descobriu essas estruturas e ainda tá furando e encontrando óleo nelas.


P/2 – Vocês ainda estão seguindo esse mapeamento gigante?


R – Esse mapeamento gigante. É claro que depois você refina em algumas áreas, pega esse dado e reprocessa, mas é aquela aquisição antiga, né? 


P/2 – Reprocessa ou refaz a sísmica?


R – Reprocessa. Depois a gente adquiriu os outros bids, acho que o bid três, os blocos adjacentes que são o 21 e 22, onde a Esso furou os dois poços secos, né, e um outro bloco, o 24, onde tem a acumulação de júpiter.  Um ano depois, houve um outro bid e a gente abocanhou áreas adjacentes a isso aí, só que não estava nesse 3D, aí já fizemos aquisições especiais pra...


P/2 – Qual foi a hora que vocês tomaram um susto e falaram “Puxa!”?


R – Ah, a gente toma susto toda hora, porque essa parte de exploração é uma coisa assim, vai pra uma montanha, depois vai pra um vale... Uma coisa interessante no Pré-sal é que o processo fundador é da seguinte maneira, vou dar uma ideia pra vocês. Você chega numa área e quando começa a interpretar, as coisas são grandes, aí você refina a interpretação e elas diminuem, quando você fura diminui mais ainda e quando testa diminui mais. Aqui no Pré-sal é diferente, as coisas ficam ao contrário, o que você acha é maior do que a gente imaginava [risos], essa é uma característica do Pré-sal. Vou te dar um exemplo de um susto, quando a gente começou o mapeamento antes de chegar o 3D, a gente não tinha ideia onde era o topo do sal, hoje a gente sabe que tem uma camada de dois mil metros de sal, né? Então a gente mapeava o refletor sísmico, que, na realidade, não era o topo do sal, a gente achava que... vou dar uma ideia. O sinal sísmico do topo do sal, hoje qualquer geólogo vê uma seção sísmica. Você sabe o que é uma reflexão? É quando aquela onda vai, bate numa camada muito dura, com uma densidade diferente das rochas adjacentes, a onda volta e aquilo depois de processado a gente chama de reflexão, dá um sinal muito forte. O topo da camada de sal dá esse sinal muito forte, só que tinham outros sinais fortes abaixo da camada de sal, hoje em dia a gente sabe porque, já que o sal ele é fatiado também, é estratificado. Basicamente, porque a gente tem dois tipos de sal, anidrita, que é muito dura e a halita, que é o sal de cozinha,mais mole, né? 


P/2 – Você pode repetir os nomes?


R – Anidrita e halita, predomina a halita, mas essa anidrita está em camadas finas de 10 metros, 15 metros no meio da grande massa de halita, certo? Quando você vê o processamento sísmico, você vai ver as reflexões fortes que são as anidritas, tá dando pra entender? A primeira reflexão forte é a primeira anidrita, que mostra o topo do sal, então a gente viu aquela primeira reflexão e várias outras reflexões embaixo. Só que a gente interpretava a primeira reflexão como se fosse uma areia com óleo, né, em termos gerais. Quando a gente furou o poço do lado, uma situação parecida na nossa área mostrou que ali era o topo do sal, então a gente levou o maior susto, porque pensou: “Puxa vida, não é a areia que a gente achava que era o grande reservatório, é sal!” Aí o que sobrou pra gente agora? Sobrou o Pré-sal, é o rift, né? O que estava acontecendo? É aquela coisa, isso só podia acontecer com a Petrobras. A gente estava furando na Bacia de Campos poços nessa área e parecidos com sal, a Bacia de Campos é muito parecida com a Bacia de Santos nesse aspecto tá? Diferente da de Pelotas, como eu falei pra você, né? Nessa época a gente teve essa decepção, pô, a gente achava que tinha areia Imagina só, tudo a gente interpretava como, o topo do sal como areia, que é o melhor reservatório pra óleo que existe, interpretava como se fosse areia e era sal, e agora? O que vamos fazer com isso? Por sorte, já estávamos descobrindo, na realidade, o Pré-sal foi descoberto na Bacia de Campos e no Espírito Santo. Poços na Bacia de Campos e no Espírito Santo atravessaram o Pré-sal e encontraram esses carbonatos micro neolíticos que condizem com zonas de interesse. Quando a gente chama de zona de interesse é que é muito interessante e pode vir a ser comercial. Só que esses poços nunca tinham sido testados, nunca se fez aqueles ensaios, como eu falei que se fez na Bolívia pra colocar o óleo pra fora, afim de saber se tem o óleo mesmo e saber qual é a produtividade. Aí nós pensamos: “Opa, se tem alguma coisa lá a gente viu e comparou, tem aqui também!” Então a gente voltou os olhos pro Pré-sal, né, mudou todo o nosso... Só que a gente já tinha feito um trabalho regional desde o fundo da bacia até o fundo do mar, então a gente tinha tudo pronto, tínhamos toda a estratigrafia, já estava tudo pronto por causa desse trabalho regional. Não teve nenhuma correria, foi simplesmente mudar o foco e todo o trabalho que a gente tinha feito valeu e é válido até hoje, a gente simplesmente mudou o foco. Começamos a considerar o nosso objetivo principal não mais o...


P/2 – O pós-sal.


R – O pós-sal e não sobrou nada porque tem tanto sal que não resta nada de sedimento, então mudamos o foco pro Pré-sal. Foi assim que o negócio começou, depois veio uma descoberta atrás da outra, né?


P/2 – A primeira então foi Parati.


R – O primeira descoberta foi Parati, no Bloco 10, a segunda foi Tupi.


P/2 – Enfim, tem vários. Esse reservatório do Pré-sal tem uma diferença, você pode falar um pouco, que ainda não é tão conhecido de vocês.


R – Hoje, a gente avançou muito no conhecimento disso, né? Mas é um reservatório que ninguém conhecia, vou lhe dar exemplo prático assim. Quando a gente descobriu Tupi e terminou de furar Tupi, a gente reuniu os técnicos envolvidos pra saber como avaliar aquele poço. Isso significa que você perfurou o poço até a profundidade final prevista, aí entra aquele pessoal que avalia e diz: “Olha, é nesta rocha que está o óleo.” Muito bem, o que a gente vai fazer agora? Vamos testar esse intervalo aqui, só que a gente não estava sozinho, estava com dois parceiros na época, a Galp e a BG. Lembro que nós fizemos uma reunião internacional por meio de videoconferência e na época o Carminatti estava preocupado: “A gente não tem muita experiência com reservatório, vamos ver a experiência deles.”  “Tudo bem, vamos ver a experiência deles.” Vou resumir pra vocês, a gente tinha uma visão de como avaliar aquilo e qual era a expectativa completamente diferente da deles. E tendo uma visão diferente, você tem um procedimento a recomendar completamente diferente, que se chocava com os nossos parceiros. Bom, conseguimos convencê-los de que a nossa visão era otimista, porque nossos especialistas viam que o reservatório era de baixa porosidade, mas tinha um potencial pra ter altíssima produtividade.


P/2 – Pra reter?


R – Para poder produzir. Os gringos não, vieram os especialistas deles do Oriente Médio recomendando que fizéssemos umas operações arriscadas e caras, que é estimular o poço direto, porque aquele tipo de reservatório não ia produzir naturalmente, nós entramos em choque com eles. Conseguimos ganhar a discussão e tivemos razão, o primeiro teste o de Tupi, que produziu muito bem, né? Isso é um exemplo...o que você tinha perguntado mesmo?


P/2 – Tinha perguntado desse conhecimento também e você que vocês avançaram.


R – A partir daí a gente começou a tirar testemunho, sabe o que é? Um testemunho durante a perfuração é a broca, que vai perfurando e esmigalhando a rocha, trazendo a lama que circula, aqueles detritos. Testemunho é quando você interrompe sua perfuração e desce uma broca especial, que vai cortar a rocha e preservá-la integralmente, sem esmigalhá-la, além de trazê-la para a superfície. Você pode tirar testemunho de 18, 20, 30 metros. A gente começou a testemunhar os poços, outra maneira de tirar a rocha preservada de lá é com esse equipamento especial que tem uma broquinha que desce, posiciona onde você quer, corta lateralmente uma amostra lateral do poço perfurado. Quer dizer, depois de Tupi, a gente já furou uns dez poços, já fez todas essas amostragens, vários testes e conhece bastante os reservatórios, né? Depois os nossos chefes, o Breno e o Gerson, tiveram essa visão na frente e colocaram toda a tropa de choque do Cenpes, que é muito boa, pra nos ajudar a contar a história geológica dessas rochas. Porque elas eram daquele jeito, como se depositaram, que processos geológicos imprimiram porosidade ou não nessa rocha. A gente até foi pro exterior, para estudar com parceria, com especialistas na Alemanha principalmente, nos Estados Unidos também, principalmente na Alemanha, pra estudar essas rochas e reservatórios.


P/2 – Já existia algum estudo sobre essa rocha?


R – Muito poucos.


P/2 – Em algum lugar do mundo?


R – É, e não existe um análogo. A gente fez muitas excursões pelo mundo, pra África, pra Shark bay, na Austrália, Omã e outros lugares, Argentina, pra gente ver análogos antigos e recentes. E não tem um análogo igual ao nosso, né? Há campos de petróleo no mundo que produzem isso, mas não exatamente igual ao nosso, o tipo de organismo, de microbial que fez as concessões carbonatadas daquele jeito, como do reservatório, não existe no mundo um análogo igual, existem parecidos, né? Hoje eu acredito que a gente tá bem na frente dos parceiros sobre isso, porque a gente está em todos esses blocos, né, não tem nenhum parceiro que esteja em quase todos os blocos, e a Petrobras tá na frente nessa pesquisa, avançando nesse conhecimento.


P/2 – E por que é errado chamar a camada do Pré-sal?


R – Não é errado.


P/2 – Não?


R – Não, pode chamar.


P/2 – É?


R – É.


P/2 – É que eu ouvi algo assim de um geólogo.


R – Pode chamar de camada Pré-sal.


P/2 – Pode chamar de camada?


R – Pode.


P/2 – Será que é um termo pra jornalista?


R – Não, pode chamar de camada Pré-sal.


P/2 – Porque camada teria uma definição geológica de uma forma, é um conceito geológico distinto do que é.


R – Não, não tem problema não [risos].


P/2 – Então vou chamar de camada de Pré-sal. 


R – A camada de Pré-sal que produz, né, porque o Pré-sal é tudo que veio antes do sal. Tem a camada de Pré-sal que produz, que não tem problema, porque realmente é uma camada.


P/2 – Uma outra informação que eu ouvi é que essa sísmica 3D você teria aperfeiçoado pra poder ter uma visibilidade melhor.


R – Isso.


P/2 – Por isso que com o tempo… você sabe me falar alguma coisa sobre isso também?


R – Essa sísmica 3D é uma corriqueira na indústria do petróleo. Hoje, não tem problema, o que foi impressionante foi o tamanho dessa sísmica de 3D que a gente aplicou, entendeu? Quer dizer, foi um gasto, até que não foi muito cara na época, né, foram 50 milhões de dólares. Mas você gasta depois em processamento e tal. Então não tem nada demais o 3D, você faz no mundo inteiro, é corriqueiro, só que a área dela é que foi muito grande, né? Acho que nunca se fez um trabalho regional com uma sísmica desta, assim sem precedentes, isso é a verdade.


P/2 – Então foi esse tamanho, dimensão e esse...


R – Que propiciou esse estudo regional. Quando você tem a chance de trabalhar num negócio desse, você tem condições de visualizar todos os campos de petróleo interrelacionados, tem uma vantagem fantástica em relação aos parceiros, porque vê tudo integrado. Atualmente, a gente já tá na frente deles no conhecimento disso, porque temos essa visão, entendeu? Cada um pagou a área que levou, né, nós não pagamos sozinhos essa área e mesmo nesse trabalho regional eu sou pago pelas parcerias, pelo trabalho lá. Mas cada bloco, aliás, cada parceria paga aquilo que tem no bloco, isso foi fatiado depois. Nós da Petrobras tivemos a chance de fazer esse trabalho integrado, isso  é uma vantagem pro resto da vida, né?


P/2 – E qual é a etapa que vocês estão agora?


R – Estamos terminando os planos de avaliações, que é o seguinte, esse bid teve essa característica, esses blocos tinham um período exploratório de oito anos e esse período tinha dividido em três fases, em cada fase você é obrigado a fazer uma atividade mínima. A primeira fase, era interpretar essa sísmica, cada fase são dois, três anos. A segunda fase era furar dois poços, digamos e a terceira era furar mais três poços. Então a gente está no meio dessas fases. Quando você efetua descoberta, você vai pra um outro tipo de tratamento, não responde mais a fase, é plano de avaliação, vai para a ANP: “Olha, descobri e quero essa área, porque essa descoberta me garante que tem óleo, pode me garantir que tenho óleo aqui.” Aí a Agência analisa seu pleito e você ganha aquela área, mas não tá mais nas fases do período, está no plano de avaliação. O que é o plano de avaliação? Você diz pra Agência: “Olha, tenho essa área aqui de influência e vou furar mais dois poços.” A agência replica: “Não, não quero que você fure mais um. “Tá bom, vou furar mais um”. Tem que negociar isso com a Agência. Nós estamos terminando os planos de avaliação.


P/2 – Mas por que a Agência tem...


R – A Agência tem interesse em você investir o máximo pra melhorar o conhecimento e evitar a predação das coisas, entendeu? Porque normalmente o que as empresas fazem é gastar o mínimo pra pegar o máximo. A Agência tem uma filosofia que é ter o conhecimento e aproveitar o máximo, não interessa o quanto você gaste, ela quer que você gaste e invista, até desperdice dinheiro, porque é conhecimento que ela vai apropriar. É o conhecimento geológico que depois tem um benefício pra exploração mesmo não sendo ali, em outras áreas. Agora, a empresa quer gastar o mínimo e levar o máximo, entendeu? Então quando a gente leva um plano pra Agência, normalmente todas as empresas, não só a Petrobras, quer o mínimo de esforço pra não se comprometer, porque durante o plano de exploração você pode se arrepender... e é obrigado a... a Agência, entendeu? Vou te dar um exemplo, você faz uma descoberta no meio desse período, aí vai na Agência e diz: “Olha, eu vou furar quatro poços aqui.” A Agência responde: ‘Tá legal, vou te dar três anos pra declarar comercialidade ou não.” Aí eu furo um poço, furo o segundo e dá seco, digo: ‘Olha, não me interessa mais furar o terceiro poço.”  A Agência afirma: “Negativo, vai furar sim.” Porque pra ela interessa a informação daquele poço, não é ela quem vai gastar e nem o governo, é a empresa. O jogo é o seguinte, é você pedir pra Agência Internacional do Petróleo o mínimo de esforço, pra não se comprometer muito, essa é uma jogada. Eu posso falar isso, porque é um jogo aberto, não tem problema nenhum. Então queria fazer um plano de avaliação, se comprometer com muito poço e durante o plano de avaliação, e aí ter que ser obrigado a gastar, né, aí tem que negociar com a Agência e tal e ela pode dizer: “Negativo, tem que furar”.


(Troca de fita)


P/2 – Vamos voltar então, você ia complementar...


R – Estamos na fase do final dos planos de avaliação, né? Esse plano de avaliação, por exemplo, tem blocos que a gente fura dois poços, tem hora que a gente fura quatro ou cinco, às vezes, até mais do que se comprometeu com a Agência.Às vezes, essa é a verdade, na maioria dos planos de avaliação nós estamos furando até mais do que a gente prometeu. Há casos em que a gente acaba tendo que furar menos, porque dá resultados ruins, porque a parte da exploração tem disso, né, altos e baixos. O Pré-sal não é um bilhete premiado, não tem óleo em toda parte, essa é que é a verdade.


P/2 – Essas informações dos poços que vocês furam vocês repassam pra ANP também?


R – A gente é obrigado, toda coisa nova, a informação que a gente dá é que está, inicio do poço, o projeto do poço eles têm, tem que mandar pra lá, se for furar um poço tem que mandar. Quando se encontra indício, eles recebem diariamente todas as informações geológicas do poço, a ANP tem todas as informações, essa é a verdade. Aí é você que diz se tem uma descoberta ou não. Pra ter descoberta é um critério muito simples, indícios de carboneto e confirmar esse indício que, na realidade, são os fragmentos que vem na lama com indício de óleo, né? A gente vê o óleo ali, ou no detector de gás e mais um método que seria por perfis, você mostra que tem hidrocarboneto e isso é uma descoberta, não precisa saber a produtividade. Com isso, você pode pedir um plano de avaliação. Agora, pra declarar comercialidade é mais complexo, você tem que mostrar um plano de... porque interessa à agência, que quer saber quanto o Brasil vai produzir daqui um tempo, aquelas coisas todas, né?


P/2 – Toda essa ideia...


R – Só pra terminar, depois que acaba um poço, a gente dá o resumo, porque pra pedir esse plano de avaliação você dá um resumo do poço também.


P/2 – Então tá. Toda essa ideia que paira, às vezes, no imaginário das pessoas que ficam pensando, enfim, de outras companhias estrangeiras que vão chegar e vão achar na costa, que já é mais afastado, como vai ter um controle, então é bastante fantasioso, porque não é tão simples chegar e...


R – Não é simples não, óleo não está em toda parte, tá? [risos].


P/2 – As pessoas já vêm...


R – Porque saiu aquela coisa de que a zona de Pré-sal, com essa rocha, se estende, vai até a Bacia de Santos, até a Bacia do Espírito Santo. Mas não é em toda essa zona que você vai encontrar petróleo, na maior parte dessa zona tem água, não tem petróleo. O petróleo está em estruturas especiais, né, esse é o trabalho do geólogo e do geofísico, você tem que saber onde é ele vai estar e se a rocha que contém o óleo tem condições boas de produtividade, se tem porosidade boa.


P/2 – Pra reter, fazer um reservatório?


R – Isso, pra reter aquele óleo.  Ainda os poros da rocha que contém o óleo tem que estar conectados, né, e a gente tem dicas pra isso, essa é a tecnologia que a gente tem, temos condições de prever como que vai estar esse reservatório.


P/2 – Também queria te perguntar dessa ideia de que ele vem pela costa e para no Espírito Santo, quem não é geólogo tem uma noção de que ele para? Porque a gente tem a ideia de uma continuidade, enfim.


R – Já é uma continuidade tremenda, né? São 700 quilômetros.


P/2 – Ele para e acaba? Só para a gente ter uma ideia desse desenho da rocha.


R – Para falar a verdade, não sei se continua, em Sergipe e Alagoas tem em terra, né, que é um pouquinho mais em cima e ele continua, acho que continua [risos].


P/2 – Pois é, ele para ou vocês ainda não conhecem pra cima?


R – Os dois, ou ele para ou a gente não conhece, entendeu?


P/2 – Entendi. E eu queria saber quais são os desafios da sua área hoje, o que vocês estão encarando como...


R – O desafio maior é o seguinte, agora com todo esse estardalhaço, né, uma reserva muito grande que praticamente duplica a reserva da Petrobras, a reserva potencial, né? O desafio maior é a gente trabalhar junto com o pessoal da produção. Tentar convencer esse pessoal: “Olha, tem muito óleo lá embaixo, vocês têm que dar um jeito de colocar esse negócio pra produzir.” [risos]. Esse é o grande desafio, têm regiões com estruturas gigantescas, gigantes, grandes, médias e pequenas, certo? O desafio é desde uma estrutura, não só estruturas gigantescas, mas as estruturas médias e pequenas sem comerciais também. A área, como elas estão mais ou menos adjacentes, a arte vai ser essa, tentar comercializar o máximo possível, porque já há estruturas que não são interessantes para comercializar, né? É coisa que a gente ainda vai descobrir, que precisa que ter a famosa tecnologia pra extrair, a gente já tem grande parte dessa tecnologia, mas o grande desafio é esse. Tentar aproveitar o máximo, recuperar o máximo desse óleo da subsuperfície, tá? Só pra dar uma idéia, normalmente o óleo que tá lá embaixo, você consegue extrair apenas 20%, 30%, então o nosso primeiro desafio é tentar melhorar essa recuperação, porque se você melhora, muda esse fator de 30% pra 40%, 45%, são bilhões de barris de óleo acrescentados na reserva do Brasil, O outro desafio, já que você vai ter um polo de produção com toda aquela infra-estrutura instalada de bilhões de dólares, é viabilizar as estruturas menores. Tupi é muito grande, mas tem outras estruturas que são pequenas e necessitam serem viabilizadas. O desafio é comercializar tudo isso, acho.


P/2 – Ainda tem novas fronteiras, você falou da Bacia de Pelotas...


R – Tem a Bacia de Pelotas e as bacias de terra, né e eles vão dar um tratamento estratégico também como o Pré-sal. Tem muita bacia, a própria Bacia do Paraná, que a gente, às vezes, abandona, às vezes volta, pode ser muito explorada.


P/2 – Existe uma pergunta que a gente está fazendo pra todo mundo: na sua avaliação, o que o Pré-sal pode representar para o Brasil em termos de reserva e econômicos?


R – Ah, talvez, mais do que a Bacia de Campos, vou comparar com uma coisa bem simples, porque é um volume muito grande de óleo em pouco tempo que a gente pode ter descoberto, né? Acho que é uma chance muito grande que o Brasil tem, porque todo mundo diz desde que eu entrei na Petrobras o petróleo vai acabar daqui a 40 anos, então já estaria acabando agora, né? Acho que essa matriz energética vai persistir por muitos anos, décadas, mesmo quando o petróleo virar uma iguaria, vai ser muito valioso. Aí ter uma grande quantidade dessa em pouco tempo é uma chance muito grande, né? Por exemplo, qualquer coisa que você fizer com a riqueza que vai gerar será uma transformação muito grande que você pode fazer na sociedade. Só que a gente tem um problema no Brasil, que é fazer andar os projetos sem corrupção, o próprio governo sente isso, não consegue fazer andar, aquelas estradas do projeto de Santa Catarina, Rio Grande do Sul que não saem do papel, né? A gente não consegue essa agilidade com presteza e sem corrupção, vai gerar uma quantidade de riqueza tão grande que podia ser aproveitado. Às vezes, o próprio... aliás, nem precisava de Pré-sal, os royalties que a gente tem recebido dessa produção da Bacia de Campos não são bem aproveitados. Eles se perdem nessas prefeituras, no Estado e tal, entram nesses buracos negros. Então acho que é uma chance de ouro, agora nós temos esse problema, não sei se é só no Brasil que todo mundo fala que é a síndrome do petróleo, todo país que é mais ou menos assim do terceiro mundo, emergente que tem muito petróleo acaba dando tiro pela culatra, né? É uma chance muito boa, mas tem que ser bem aproveitada. O repasse dessa riqueza na sociedade, eu acho certo, aliás, vou te falar, o Lula com essa decisão dele, eu tinha uma opinião do Lula, o achava um imbecil antes [risos], achava o Lula um cara muito legal naquelas primeiras eleições, um cara inteligente e tal, em 1989. Depois, a imagem dele foi se deteriorando, mas ele deu um salto quando tomou essa decisão de tirar as áreas do Pré-sal daquele bid, foi uma decisão corajosa de estadista mesmo, né, coisa rara hoje, esses políticos faladores, de vaselina que a gente tem aí. Ali pra mim o Lula cresceu.


P/2 – O governo deu uma segurada pra resolver, é isso?


R – Não, a decisão que o Lula fez foi a seguinte: tirou do bid as áreas adjacentes ao Pré-sal, ia ter um bid que não me lembro se era o nove. Ele tirou e está dando esse tratamento diferenciado, vamos ver o que vai sair daí. Isso já foi uma coisa de estadista, corajosa, nacionalista, patriótica, uma coisa muito boa que ele fez, né? Por que? O que a lei do petróleo permite? O petróleo é de quem produz, né, então vem uma Shell da vida, uma Esso, mesmo em parceria com a Petrobras, pega aquele óleo e vende onde quiser. O único benefício disso é que ele vai pagar impostos aqui, né, mas o país vai precisar de petróleo. Se o Brasil quiser tirar, não precisa virar uma potência, mas para se desenvolver, precisa de petróleo. Não são só os impostos decorrentes da produção de petróleo não, ele precisa do óleo.


P/2 – Então tá. Queria que você me contasse, você disse que passou por duas histórias, teve a da Bolívia, do rio, e teve uma outra...


R – Eu já contei a da Bolívia, né?


P/2 – Contou...


R – Ah, não, essa foi o seguinte, as sondas, só pra dar uma ideia pra vocês, uma plataforma de petróleo é um lugar muito perigoso pra se trabalhar, né? Me lembro que uma vez eu era geólogo de poço, estava nas cercanias ali das sondas, né, estava num navio sonda...


P/2 – Em que lugar?


R – Na Petrobras 2, NS3 navio sonda.


P/2 – Na Bacia de Campos?


R – Na Bacia de Campos, isso lá por 1980, 1981 e aí... Esses navios têm uns compensadores que são uns pistões que compensam o balanço pra sonda ficar retinha, então o navio balança, mas a coluna de perfuração não balança, então têm esses compensadores, uns pistões. E eles têm uns cabos de aço entrelaçados, aí eu ouvi um barulho de um negócio se rompendo, um cabo daqueles passou do meu lado assim, um cabo dessa grossura [risos]. Ele partiu ao meio assim, é um tipo de acidente de sonda que ia ser, morte instantânea [risos].


P/2 – Você é pagão, mas tem uns santinhos que te protegem, seus anjinhos da guarda.


R – É.


P/2 – A gente vai encaminhando pro final eu queria te perguntar, em primeiro lugar, você se sente pressionado porque é muito trabalho, como está sendo seu cotidiano? O trabalho aumentou com toda essa história do Pré-sal? Ou sempre foi muito trabalho?


R – Sempre foi muito trabalho, né, claro que havia épocas mais tranquilas, mas é muito gratificante, eu gosto muito do que faço, né, é dinâmico, todo dia é uma coisa diferente e a gente vai... nem caiu a ficha ainda, mas se tu pensar bem, estás na vanguarda de uma pesquisa, de algo muito grande, é gratificante.


P/2 – Você acha que a Petrobras chegou onde ela está hoje, como uma das maiores companhias do mundo por quê?


R – É um jargão, mas é verdade, é por causa do treinamento, eu tive uma formação dentro da Petrobras, a massa de conhecimento que foi passada pra mim nesse tempo é muito grande, de altíssimo nível e a gente tá passando isso, né? O segredo é o treinamento mesmo.


P/2 – Capacitação?


R – Isso mesmo, investimento em treinamento, conhecimentos, estudo e tal.


P/2 – Tá certo. O que você gosta de fazer nas suas horas de lazer?


R – Então, tenho vários interesses, gosto muito de literatura e de vinho também, não só de tomar assim. Gosto de ler, gosto de pesquisar sobre essas coisas. Tenho uma coleção de selos, filatelia, vários assim [risos].


P/2 – Hobby mesmo?


R – Hobbies é, mais ou menos isso.


P/2 – Aproveitar também esse tempinho frio para os seus vinhos.


R – É.


P/2 – Aqui no Rio não é Rio Grande do Sul.


R – Eu gosto muito de filme, tenho uma coleção de filmes pirateados da internet [risos].


P/2 – E agora você está casado? Queria saber também se você teve filhos.


R – É, eu casei muito tarde, né, casei quando fui fazer mestrado em Porto Alegre em 1993.


P/2 – Qual o nome dela?


R – Renata Schmidt, era geóloga também. Nós tivemos filho oito anos depois, hoje eu tenho uma filha de sete anos, a Maria Antônia. Depois que a minha filha tinha uns quatro, cinco anos a gente se separou, mas uma separação amigável, numa boa assim, sabe? Estamos há três anos separados, então moro sozinho e ela mora com a mãe perto de casa.


P/2 – E você já passou a sua paixão por geologia pra ela?


R – Não, eu não tenho essa coisa  de… Não tenho nem com time assim, por exemplo, é muito interessante porque toda a minha família torce para o Colorado lá no Rio Grande do Sul, né? A família da minha ex-mulher é ainda mais fanática. E aqui no Rio, ela é carioca, escolheu o Botafogo, escolheu sozinha assim e aí eu dizia pra ela que eu era Flamengo, mas eu tenho simpatia até pelo Botafogo e a minha ex-mulher era Fluminense, então eu achava legal isso aí, cada um tinha que ter um time: “Mamãe é fluminense, papai é Flamengo e eu sou Botafogo.” [risos]. Aí um dia ela falou pra nós que gostava do Grêmio, a minha ex-mulher teve um ataque, né, eu disse: “Negativo, pode torcer pro Grêmio” [risos], que eu acho legal, né? Então, com esse negócio de profissão eu tenho a mesma filosofia, não quero influenciar, não tento influenciar em nada, se gostar tudo bem. Eu não passo essa coisa assim, aliás, eu me interesso por outras coisas além da geologia, entendeu? Mas, acho que estamos em um momento mágico, imagina trabalhar numa equipe que é responsável por tudo isso, é bacana né? E não é muito mérito, é oportunidade, né, a gente tem sorte, é um privilégio estar ali numa hora certa, tem que fazer as coisas certinha e tal, mas é um privilégio estar ali.


P/2 – E é mesmo. Deixa eu te perguntar: tem algo mais que você gostaria de deixar registrado e que a gente não conversou?


R – Eu só queria dizer que eu achei isso aí uma boa ideia, né, quando eu entrei em contato com alguém da Petrobras, porque já me convidaram pra várias roubadas do negócio do Pré-sal [risos]. “Ó, tu vai lá pra fazer um anúncio”, não sei o que lá, chegava lá, eram 500 pessoas, aí vai não sei aonde. Eu já fiquei com o pé... aliás têm colegas meus que foram convidados e estão em dúvida, eu digo: “Vamos lá, achei legal isso aí, uma excelente ideia, muito importante.” Isso é o tipo de coisa típico de país desenvolvido, né, preservar a memória, e não tem coisa melhor do que aproveitar essa tecnologia toda.


P/2 – A gente queria agradecer por você ter vindo, colaborado com a gente e dizer que foi muito bom, muito bacana. Obrigada.


R – Tá.


- - - FIM DA ENTREVISTA - - -


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