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História

Em busca de um lar

História de: Tânia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/11/2013

Sinopse

Tânia cresceu entre a busca por liberdade nas ruas do centro e as grades dos abrigos da assistência social. Ela tinha três anos quando uma vizinha denunciou sua mãe ao conselho tutelar por conta dos maus tratos causados à garota e seus outro seis irmãos. Após uma sucessão de pais sociais e de lares diversos, Tânia resolveu, por incentivo de uma amiga mais velha, viver na rua em companhia de outros adolescentes, dividindo com eles casas abandonadas – os mocós - que eram, ao mesmo tempo, habitáculo e ponto de consumo e venda de drogas. Tânia consumiu crack, namorou um traficante e chegou a ser presa por conta do envolvimento em pequenos roubos nas ruas do centro da capital. Aos dezessete anos de idade, com a descoberta da gravidez e o contato com o projeto ViraVida, iniciou uma mudança em sua trajetória: largou as drogas e retomou os estudos. Hoje, sonha em dar boas condições para seu filho e suas irmãs.

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História completa

Eu não me lembro da minha casa porque, ainda pequena, fui para o abrigo. Eu devia ter uns três anos de idade. A minha mãe me batia muito e nas minhas irmãs também, mas uma vizinha a denunciou. O Conselho Tutelar veio nos buscar e fomos para um abrigo.


Do primeiro abrigo onde morei não me lembro de quase nada, só que tinha muita grade e que eu era obrigada a ir à igreja. No segundo, onde morei até os doze anos, dormia num quarto com nove camas. Foi um sonho: até então nunca tínhamos tido um quarto, eu e minhas irmãs. Foi lá também que ganhei meus primeiros brinquedos. O que eu mais gostava era de uma boneca pretinha, como eu. Eu tenho até hoje.


Tenho raiva da minha mãe. Quando penso nela, lembro que fazia coisas constrangedoras na nossa frente e escondia drogas na nossa fralda pra vender. Quando eu tinha uns sete anos minha mãe roubou a gente – eu e minhas irmãs – do abrigo, mas ela logo foi presa e nós tivemos que voltar.


Com catorze anos comecei a fugir do abrigo. Nas ruas conheci um monte de gente, achava que eles iam me proteger. Comecei a usar drogas e a fazer coisas erradas, mas a sensação era de conforto, de liberdade. Tinha muita gente comigo. Nós andávamos por aí, íamos no chafariz e fazíamos um monte de coisas. Eu não sabia no que estava me metendo.


Me ensinaram a roubar. Na primeira vez fiz tudo totalmente diferente do que foi combinado. Os meninos puxaram o cabelo da vítima pelo vidro do carro e puseram uma faca no pescoço dela. Fiquei com muito medo, eu falei: “Não rouba, não bate nela!” Mas com o tempo fui me acostumando.


Na primeira vez que fui presa, fiquei 45 dias e não delatei os companheiros. A lei da sobrevivência da rua é assim: não pode contar. Quando cheguei na prisão foi horrível. A comida era azeda e eu chorava o tempo todo. Apesar de tudo, eu queria voltar pra rua; achava que meus colegas eram tudo para mim. Como era menor saí para cumprir pena alternativa, mas fugi de novo do abrigo. Foi então que comecei a usar crack


Conheci uns caras do comando do tráfico e provei minha primeira pedra no dia do meu aniversário de quinze anos. Me aprofundei no roubo e pensei até em fazer programa para manter o vício, mas graças a Deus nunca fiz. Vi minhas amigas vendendo o corpo por cinco reais, mas as pessoas falavam pra mim: “Não faz, porque você vai se acabar.”


Com quinze anos de idade conheci o pai do meu filho, que era traficante. Ele não queria que eu fumasse crack, mas eu fugia dele e ia para a favela, onde me drogava o dia inteiro. O efeito da droga me fazia suar muito, tinha medo, achava que os outros iam me matar e que a polícia viria atrás de mim. Nós nos conhecemos numa sexta-feira, fomos dormir juntos no mocó. No sábado de manhã, ele pediu pra ficar comigo e ficamos juntos por dois anos. Ele roubava mais do que eu e era muito violento, ficava com muito medo dele. A lei da sobrevivência do traficante é assim: não pagou, morreu.


Soube que estava grávida no dia em que sofri um acidente. Bebi, fumei maconha e era tarde, não tinha mais ônibus. Eu vi um caminhão de lixo e subi, peguei a rabeira no caminhão. Estava bem loucona e não sei o que deu em mim que eu me joguei. Caí numa rua que passava carro dos dois lados. Quando acordei estava em um posto de gasolina e todas as minhas amigas em cima de mim. Passei a mão no meu rosto e estava cheio de sangue. Desmaiei, acordei no hospital e o médico me disse que eu estava grávida de duas semanas e meia. 


Esse médico falou que era pra eu ter morrido, disse que o meu filho era um guerreiro desde pequeno e que eu não tinha morrido por milagre, pois a queda foi muito feia. Eu chorei muito e pensei: “Como eu vou na balada? Como eu vou usar droga? Agora uma criança dentro de mim, eu com dezessete anos! Nossa, eu estou começando a vida agora...” Eu chorei muito. A diretora do abrigo foi no hospital e me levou de volta. Eu fui para o meu quarto e comecei a chorar. Eu não acreditei que eu estava grávida. 


Pensei em tirar a criança. Um pouco depois voltei pra prisão de novo porque não tinha cumprido a medida socioeducativa. Fiquei noventa dias presa e quando saí fui pra outro abrigo. Estava com cinco meses, mas ainda não acreditava na gravidez. Nos últimos meses decidi que ia cuidar do meu filho direitinho, prometi para mim mesma não fazer com ele o que minha mãe fez comigo. Fui morar numa casa que acolhe mães e filhos carentes e comecei no ViraVida.


Quando cheguei no ViraVida fiz a entrevista, contei a minha história e passei. Estou no curso faz onze meses. Enquanto estou estudando, o meu filho fica na creche. Ele está com um ano e dois meses, está lindo. No início no ViraVida fiquei tímida, porque era muita gente, todo mundo me olhando, todo mundo me fazendo pergunta... Fiquei com vergonha de dizer que era mãe porque ali na sala eu era a única mãe. Foi difícil no começo, mas o meu filho foi um incentivo para continuar. Ele é a minha vida.


A aula que eu mais gosto é com o professor Pedro. Ele dá aula de solidariedade para a gente. Tivemos que fazer visita numa creche e conhecer as histórias das crianças. Fui num asilo. Eu pensava que a realidade dos idosos era completamente diferente e que eles não iam receber a gente bem, mas não foi assim. Uma idosa me abraçou e disse: “Você vai ser alguém na vida, apesar de tudo o que os outros falam.” Caiu totalmente o conceito errado que eu tinha dos idosos. Das crianças que visitamos eu também gostei muito. Antes eu tinha medo de pegar as crianças deficientes. Fui lá, peguei uma no colo e me senti bem. Se for preciso, vou fazer trabalho voluntário. Eu entendi que solidariedade é ajudar o próximo e me ajudar. Eu tenho que ajudar o próximo e me ajudar, porque a sociedade é solidariedade. Sozinho você não vive, você tem que ter alguém. 


Tenho medo que minhas irmãs menores passem pelo que passei. Converso muito com elas, oriento e falo sobre os perigos da vida nas ruas. Elas moram num abrigo e a gente se vê a cada quinze dias. Explico o que é certo e digo que, se quiserem seguir pelo errado, vão sofrer o que eu sofri.


Sei que não posso mais usar droga. Se usar eu vou ter uma recaída e vou me perder novamente. Eu não quero usar drogas nunca mais, então decidi cortar minhas amizades. As amizades às vezes empurram para o caminho errado. Nem o pai do meu filho eu quero ver de novo, apesar de ainda gostar dele.


Hoje eu me vejo uma mulher completa, eu tenho tudo e mais um pouco. Antes eu me sentia derrotada; agora, não. Apesar de tudo, eu sou vencedora porque eu não me deixei abater. Apesar de dois anos e meio que eu usei crack, levantei a minha cabeça e fui à luta. Agora eu me sinto vencedora, me sinto uma guerreira.

 

Me sinto aliviada de contar minha história e espero que sirva para incentivar outras pessoas. Muita gente diz que não consegue mudar de vida. Consegue, sim! Basta acreditar e ter força de vontade. Basta você querer.

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.


Do primeiro abrigo onde morei não me lembro de quase nada, só que tinha muita grade e que eu era obrigada a ir à igreja. No segundo, onde morei até os doze anos, dormia num quarto com nove camas. Foi um sonho: até então nunca tínhamos tido um quarto, eu e minhas irmãs. Foi lá também que ganhei meus primeiros brinquedos. O que eu mais gostava era de uma boneca pretinha, como eu. Eu tenho até hoje.
Tenho raiva da minha mãe. Quando penso nela, lembro que fazia coisas constrangedoras na nossa frente e escondia drogas na nossa fralda pra vender. Quando eu tinha uns sete anos minha mãe roubou a gente – eu e minhas irmãs – do abrigo, mas ela logo foi presa e nós tivemos que voltar.
Com catorze anos comecei a fugir do abrigo. Nas ruas conheci um monte de gente, achava que eles iam me proteger. Comecei a usar drogas e a fazer coisas erradas, mas a sensação era de conforto, de liberdade. Tinha muita gente comigo. Nós andávamos por aí, íamos no chafariz e fazíamos um monte de coisas. Eu não sabia no que estava me metendo.
Me ensinaram a roubar. Na primeira vez fiz tudo totalmente diferente do que foi combinado. Os meninos puxaram o cabelo da vítima pelo vidro do carro e puseram uma faca no pescoço dela. Fiquei com muito medo, eu falei: “Não rouba, não bate nela!” Mas com o tempo fui me acostumando.
Na primeira vez que fui presa, fiquei 45 dias e não delatei os companheiros. A lei da sobrevivência da rua é assim: não pode contar. Quando cheguei na prisão foi horrível. A comida era azeda e eu chorava o tempo todo. Apesar de tudo, eu queria voltar pra rua; achava que meus colegas eram tudo para mim. Como era menor saí para cumprir pena alternativa, mas fugi de novo do abrigo. Foi então que comecei a usar crack
Conheci uns caras do comando do tráfico e provei minha primeira pedra no dia do meu aniversário de quinze anos. Me aprofundei no roubo e pensei até em fazer programa para manter o vício, mas graças a Deus nunca fiz. Vi minhas amigas vendendo o corpo por cinco reais, mas as pessoas falavam pra mim: “Não faz, porque você vai se acabar.”
Com quinze anos de idade conheci o pai do meu filho, que era traficante. Ele não queria que eu fumasse crack, mas eu fugia dele e ia para a favela, onde me drogava o dia inteiro. O efeito da droga me fazia suar muito, tinha medo, achava que os outros iam me matar e que a polícia viria atrás de mim. Nós nos conhecemos numa sexta-feira, fomos dormir juntos no mocó. No sábado de manhã, ele pediu pra ficar comigo e ficamos juntos por dois anos. Ele roubava mais do que eu e era muito violento, ficava com muito medo dele. A lei da sobrevivência do traficante é assim: não pagou, morreu.
Soube que estava grávida no dia em que sofri um acidente. Bebi, fumei maconha e era tarde, não tinha mais ônibus. Eu vi um caminhão de lixo e subi, peguei a rabeira no caminhão. Estava bem loucona e não sei o que deu em mim que eu me joguei. Caí numa rua que passava carro dos dois lados. Quando acordei estava em um posto de gasolina e todas as minhas amigas em cima de mim. Passei a mão no meu rosto e estava cheio de sangue. Desmaiei, acordei no hospital e o médico me disse que eu estava grávida de duas semanas e meia. 
Esse médico falou que era pra eu ter morrido, disse que o meu filho era um guerreiro desde pequeno e que eu não tinha morrido por milagre, pois a queda foi muito feia. Eu chorei muito e pensei: “Como eu vou na balada? Como eu vou usar droga? Agora uma criança dentro de mim, eu com dezessete anos! Nossa, eu estou começando a vida agora...” Eu chorei muito. A diretora do abrigo foi no hospital e me levou de volta. Eu fui para o meu quarto e comecei a chorar. Eu não acreditei que eu estava grávida. 
Pensei em tirar a criança. Um pouco depois voltei pra prisão de novo porque não tinha cumprido a medida socioeducativa. Fiquei noventa dias presa e quando saí fui pra outro abrigo. Estava com cinco meses, mas ainda não acreditava na gravidez. Nos últimos meses decidi que ia cuidar do meu filho direitinho, prometi para mim mesma não fazer com ele o que minha mãe fez comigo. Fui morar numa casa que acolhe mães e filhos carentes e comecei no ViraVida.
Quando cheguei no ViraVida fiz a entrevista, contei a minha história e passei. Estou no curso faz onze meses. Enquanto estou estudando, o meu filho fica na creche. Ele está com um ano e dois meses, está lindo. No início no ViraVida fiquei tímida, porque era muita gente, todo mundo me olhando, todo mundo me fazendo pergunta... Fiquei com vergonha de dizer que era mãe porque ali na sala eu era a única mãe. Foi difícil no começo, mas o meu filho foi um incentivo para continuar. Ele é a minha vida.
A aula que eu mais gosto é com o professor Pedro. Ele dá aula de solidariedade para a gente. Tivemos que fazer visita numa creche e conhecer as histórias das crianças. Fui num asilo. Eu pensava que a realidade dos idosos era completamente diferente e que eles não iam receber a gente bem, mas não foi assim. Uma idosa me abraçou e disse: “Você vai ser alguém na vida, apesar de tudo o que os outros falam.” Caiu totalmente o conceito errado que eu tinha dos idosos. Das crianças que visitamos eu também gostei muito. Antes eu tinha medo de pegar as crianças deficientes. Fui lá, peguei uma no colo e me senti bem. Se for preciso, vou fazer trabalho voluntário. Eu entendi que solidariedade é ajudar o próximo e me ajudar. Eu tenho que ajudar o próximo e me ajudar, porque a sociedade é solidariedade. Sozinho você não vive, você tem que ter alguém. 
Tenho medo que minhas irmãs menores passem pelo que passei. Converso muito com elas, oriento e falo sobre os perigos da vida nas ruas. Elas moram num abrigo e a gente se vê a cada quinze dias. Explico o que é certo e digo que, se quiserem seguir pelo errado, vão sofrer o que eu sofri.
Sei que não posso mais usar droga. Se usar eu vou ter uma recaída e vou me perder novamente. Eu não quero usar drogas nunca mais, então decidi cortar minhas amizades. As amizades às vezes empurram para o caminho errado. Nem o pai do meu filho eu quero ver de novo, apesar de ainda gostar dele.
Hoje eu me vejo uma mulher completa, eu tenho tudo e mais um pouco. Antes eu me sentia derrotada; agora, não. Apesar de tudo, eu sou vencedora porque eu não me deixei abater. Apesar de dois anos e meio que eu usei crack, levantei a minha cabeça e fui à luta. Agora eu me sinto vencedora, me sinto uma guerreira.
Me sinto aliviada de contar minha história e espero que sirva para incentivar outras pessoas. Muita gente diz que não consegue mudar de vida. Consegue, sim! Basta acreditar e ter força de vontade. Basta você querer.
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