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Em busca de Sonhos

História de: Débora Soares Beirão
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 12/06/2021

Sinopse

Infância na periferia de Salvador. Deixa família, amigos e um potencial namorado quando se muda para Campinas. Oito anos depois volta para sua terra natal e reencontra seu amor de infância, com quem continua junto. Relatos sobre a experiência como aluna em cursos promovidos pelo Avante e Walmart.

História completa

Projeto Instituto Wal-Mart – Memória dos Projetos Sociais Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Débora Soares Beirão Entrevistada por Márcia Trezza e Giselle Rocha Salvador, 20 de setembro de 2007 Código: IWM_HV010 Transcrito por (não consta) Revisado por Augusto Gonçalves Barbosa P/1 – Então, pra começar, você pode falar seu nome completo, local e data de nascimento. R – Meu nome é Débora Soares Beirão, nasci dia 31 de agosto de 1979, Salvador, Bahia. P/1 – Débora, qual o nome do seu pai e da sua mãe? R – Gilberto Castro Beirão e Luzia Maria Soares. P/1 – Você pode falar um pouquinho do seu pai? O que ele fazia, ou faz? R – Meu pai era pintor. Faleceu agora dia 25 de agosto. Ele não é meu pai, é meu avô. Fui registrada pelo meu avô e minha avó. Porque na época a minha mãe era muito nova, eles diziam que ela não teria responsabilidade. Tanto que eu brinco com minha avó dizendo assim pra ela: “Por que a senhora me registrou? Eu pedi?” Porque eu digo sempre a ela que a herança dela, que ela é minha mãe. Ela diz: “Eu não sou sua mãe”. Eu digo, “É sim. Porque a senhora que me registrou, entendeu?”. Aí ela fica brincando comigo: “Eu não sou, eu não sou”. “É sim, eu não pedi pra senhora me registrar, a senhora que quis”. Aí, são eles que me registraram, me criaram, me deram minha educação. Meu avô foi uma pessoa excelente e minha avó é tudo pra mim. Ela é meu mundo, minha vida. Sem ela eu não sei o que seria de mim. P/1 – Seu pai, ele sempre foi pintor? R – Sempre foi pintor, a profissão dele. Pintor profissional. P/1 – Que lembranças você tem, Débora, de quando você era pequena, com ele? R – Ah, lembranças boas e também ruins. Gostava muito dele quando nos acordava, eu e meu primo, seis horas da manhã, pra ir à praia. Dizia que era sempre bom. E naquele frio ter que tomar banho. E quando chegava em casa era sempre ovo cozido, meio cru, que dizia que era bom pra saúde. E fruta-pão, que ele cozinhava e dava a nós com manteiga. Então, a fase ruim dele era quando ele começou a beber, brigar com minha avó, a xingar nós, entendeu? Era uma fase muito ruim. P/1 – Ele levava vocês à praia? R – Levava todo dia de manhã, seis horas da manhã, antes de ir à escola. Dava tempo de ir à praia. Voltava pra tomar banho pra ir pra escola, sete horas. Ele sempre fazia isso. P/1 – Ele nadava com vocês? R – Nadava. Sempre entrava com cada um. Era uma vez de cada. Era eu e mais dois primos meus. Sempre uma vez de cada. Pegava na nossa mão, levava, tomava banho. Ele dizia que tinha que tomar, era sagrado aquilo ali pra ele. Todo dia. P/1 – Vocês moravam perto da praia? R – Mais ou menos. P/1 – Que bairro era? R – Aqui na Centenário. Aí nós sempre íamos na praia de Ondina. Todo dia de manhã na praia de Ondina. Ele gostava muito daquela praia. P/1 – E depois você ia pra escola? R – Da praia ia pra escola. E, na escola, minha avó, minha mãe, trabalhava como cozinheira. Na escola aberta do Calabar. Ela trabalhava como cozinheira lá. Tanto que ela se aposentou por lá mesmo. P/1 – Sempre trabalhou na mesma escola? R – Sempre trabalhou na escola aberta de manhã e à tarde ela trabalhava na creche, que era do mesmo lado, era colada com a escola. P/1 – E você comia a comida que sua avó fazia na escola? R – Isso. Eu já ficava direto, praticamente. Ia pra escola, quando saía da escola ia pro lado, que era a creche. De lá eu vinha pra casa. P/1 – E almoçava lá. Que lembranças você tem daquelas coisas que ela cozinhava? R – Ah, almôndega com macarrão [risos]! Era muito gostoso. Almôndega com macarrão. Até hoje eu lembro disso. Não só eu, como muitos que estudaram, sempre falam. P/1 – E você diz que sua avó foi tudo pra você? R – Foi, não. Ela é tudo pra mim. P/1 – Que coisas, assim, que quando você era criança você lembra que ela fazia pra você? R – Minha avó, praticamente ela fazia tudo. Sempre do horário do café da manhã estar perguntando: “Débora, você tomou café?”. Quando eu chegava na escola: “Você tomou café?”. Ia com café lá pra mim. Almoço, na educação, sempre falava: “Isso não é certo, isso está errado, e tal”. Uma pessoa que sempre, nos erros, ela tava ali dando conselho. Entendeu? Às vezes nós criticávamos: “Ah, a senhora fala demais, a senhora é isso”. Mas nós sabemos que é sempre pro nosso bem. Que mãe nunca dá conselhos ruins. P/1 – E a sua mãe morava com vocês também? R – Morava. P/1 – Ela era bem novinha quando teve você? R – É. Então por isso que minha avó passou a me registrar. P/1 – E você tem irmãos? R – Tenho. Tenho duas irmãs, uma se chama Lucivone e a outra Vanessa, a mais nova. P/1 – E conviviam também nessa época? R – Convivemos todos juntos. Tanto que eu criei uma... Logo depois de mim, não, depois de um ano veio a outra. Depois veio Vanessa, a mais nova, que eu passei a criar até os quatro anos, que depois eu tive que viajar. Quando eu fiz uns quinze anos. P/1 – Você lembra de brincadeiras da infância? Além de nadar, né? Que era muito bom, provavelmente. R – Claro, pular corda, brincar de elástico. Colocar dois paus dentro de um pneu, jogar óleo dentro do pneu e sair andando, que todo mundo dizia: “É coisa de moleque”. Jogar bola, adorava jogar bola na rua. Tanto que minha mãe quando passava, os meninos falavam: “Vem dona Luzia!”. E eu saía correndo, porque se ela me pegasse ali, Ave Maria! Todo mundo dizia que futebol era coisa de homem. Antigamente piorou, né? Que mulher não podia jogar futebol. Era uma discriminação. Agora que tão aceitando por causa da seleção brasileira. Mas por isso! Antes, menina, quando eu não via, eu tomava cada guarda-chuvada na cabeça! Que eu já sabia que era ela. Eu nem olhava pra trás, saía correndo. P/1 – Suas irmãs também iam jogar futebol? R – Ah, minha irmã mais nova passou no começo a jogar. Mas parou também, parou. A única que gosta até hoje sou eu! Amo futebol. P/1 – E você lembra de alguma história dessa época, assim, de você ficar jogando na rua? Alguma história engraçada? R – A maioria das minhas histórias era quando minha mãe me pegava. Tinha vez que meus amigos me avisaram. Tinha vez que eles queriam ver aquilo, eu sair correndo. Então eles ficavam quietos e um falava pro outro: “Lá vem dona Luzia, vamos deixar ela pegar hoje”. Eu sempre ficava de costas – em vez de ficar de frente pro lugar que ela saia no horário da creche, ficava de costas. Quando eu via, era só guarda-chuvada na cabeça e menino rindo da minha cara. E no outro dia eu fazendo a mesma coisa. Quando eles estavam de bom humor, eles me ajudavam: “Olha, vem sua avó ali, viu?”. Eles não falavam minha mãe. “Vem sua vó ali!”. Saía correndo. Que eu sabia que se ela me pegasse ali, era guarda-chuvada certa. P/1 – Você continua morando sempre nesse bairro que você nasceu? R – Moro. Sempre nesse bairro que nasci. P/1 – Até agora você mora lá? R – Até agora moro lá. P/1 – Mas você disse que teve uma fase que você viajou. R – É, eu viajei pra São Paulo quando eu tinha 15 anos. Dia 3 de setembro de 1995. No dia dos meus 15 anos, que a minha mãe soube que um rapaz pediu – a minha mãe verdadeira – pra namorar comigo, na porta, tal e tal. Então minha avó não aceitava aquilo, dizia que eu era muito nova, que eu tinha que estudar, não sei o que... Então, por ela não aceitar, ela me fez uma proposta de ir pra São Paulo. Eu era louca pra conhecer São Paulo, doida mesmo! Eu disse: “Ai, eu vou pra São Paulo”. Aí ele dizia assim: “Você vai, vai me largar? Agora que a gente começou a namorar a sério, na porta e tal e tal?”. Só que eu descobri que ele tinha ficado com uma amiga minha. Olha o problema! Aí nisso que eu descobri que ele tinha ficado. No outro dia ela me chamou dizendo que tava grávida dele, que eu tinha que largar ele, e tal. Eu disse: “Rapaz!”. Entrei numa situação ruim, que era contar pra minha mãe. Ela já não gostava dele, ainda contando isso, ia ficar chato. Aí eu disse a ela: “Ó, minha filha, quem engravidou foi você, não fui eu. Quem quis fazer isso foi você, não fui eu. Então é um problema seu”. Aí ela: “Ah, mas você tem que largar, tal e tal...”. E isso ficou na minha mente, isso deu motivo pra eu estar decidindo a minha vida. Isso é, vou pra São Paulo, vou estudar, lá vou ter uma vida melhor. E eu estando aqui com ele, pode acontecer comigo a mesma coisa que aconteceu com ela. Aí eu falei pra ele: “Vou embora, vou pra São Paulo, mas só vou ficar um ano. Quando eu voltar nós ficaremos juntos”. Ele disse: “Se você for, não te quero mais”. Eu disse: “Então está bom”. No aeroporto ou na rodoviária, se despedindo, ele falou pra mim: “Quando você voltar, nós ficaremos juntos”. Eu falei pra ele: “Se Deus quiser nós vamos ficar juntos”. Tanto que eu fui, fiquei oito anos sempre ligando. Ele entrou no mundo da droga, da bebida. E eu sempre ligando. E a mãe dele mandava dar o telefone pra ele, pra ele estar me ligando. E nunca dava, eu me envolvi com outras pessoas, mas sempre pensando nele. Ele também se envolveu com outra pessoa, teve uma filha, faleceu. Teve outra, faleceu também. Teve uma que não chegou a nascer. Aí eu trabalhei e tudo... Nesses oito anos eu nunca voltei. Achei que era a hora de voltar. Não sei o porquê eu disse: “Agora eu vou. Agora eu vou”. Meu tio falava: “Você vai pra Bahia fazer o quê? Lá não tem emprego, não tem isso. Você vai fazer o quê?”. Tinha terminado os meus estudos e eu disse: “Não, eu vou passear, vou ver minha mãe”. Mas ela sempre ia lá. A minha mãe que eu falo é minha avó, viu, gente. Quando eu falar mãe, é avó. R – Como chama a sua mãe? R1 – Verdadeira? Gisele Soares Beirão, fica como irmã [risos]. R – Aí eu voltei. Quando eu voltei, ele tinha acabado de se separar dela. Estava há dias, ele ainda no mundo da droga, aquela coisa mesmo! Então, aí minha mãe chegou pra mim assim, falou: “Ah, rapaz, você vai ficar com um cara desses? Você com essa cabeça?”, tal e tal. Mas eu não achei nem condições de – apesar de eu nunca ter esquecido ele – eu estou mexendo na condição de estar ajudando ele a sair disso. Aí eu chamei ele pra conversar e falei: “Ó, eu fico com você se você largar. Desse jeito eu não fico”. “Você vai ficar comigo?”, “Vou, mas se você largar.”, “Eu não digo que vou largar de hoje pra amanhã, que isso não é assim. Mas aos poucos eu vou largando”. Tá, ele vinha, ficava comigo, aí vinha com cheirinho de maconha. Eu falava assim: “Assim eu não quero te ver, João”. Amanhã ele já vinha com outro cheiro. Sinal que, eu vi nele, que ele estava se esforçando para largar. Aí ficamos juntos. Chegou uma época de minha mãe e ele se baterem frente a frente, de ela dizer: “Você tem que escolher ou eu ou ele, agora”. Já pensou que situação difícil? Eu gostava de minha mãe de uma maneira diferente da dele. Eu olhei pra cara dos dois. “É, você vai ter que fazer isso”. “É, então vocês dois decidem isso aí por mim”. Peguei, larguei os dois lá sozinhos e saí. Já que eles queriam aquilo... Aí continuei numa boa com minha mãe, numa boa com ele. Ela passou a ver ele se esforçar, querer largar, trabalhar. A mãe dele também, uma pessoa ótima, minha sogra. Ave Maria! Minha segunda, minha terceira mãe! Porque minha mãe também é muito gente fina. Então minha sogra é uma pessoa maravilhosa, começou a me ajudar também. Eu conversava muito com ela das situações. “Ah, dona Dica, o que eu faço pra estar ajudando Jodair?”. Aí ela: “Ah, Débora, nós temos que fazer isso e isso”. Dialogamos muito. E eu e ele também, porque em uma situação dessa não adianta brigar. Porque ele e a ex-mulher dele saíram no pau de um tirar sangue do outro. Então não adianta isso. Eu passei a perceber que violência não leva a nada. Então passei a dialogar muito com ele, conversar: “Você tem que melhorar isso, tem que melhorar aquilo”. Aí ele começou a melhorar, trabalhar, tal. Mas tive umas recaídas, amizade e tudo. Então, se juntou um pouco, você já viu: “Ah, uma bebida”. Aí começa. Toma um copo. E aí vai. Tinha recaída, mas hoje em dia, graças a Deus, não faz muito, não faz anos. Mas pelo tratamento que ele resolveu fazer que está dando certo, tudo. Já faz uns quatro a cinco meses que ele está uma pessoa maravilhosa, com outra cabeça, com outro pensamento. Então eu acho que meu esforço está valendo a pena. P/1– Claro. R – Minhas conversas com ele, nós brigamos, depois sempre falo a ele: “Ó, quem tiver errado tem que pedir desculpa. Se não pedir desculpas nunca mais vai chegar a um acordo”. Então nós brigamos, chega a analisar e vê: “Tá bom, eu errei. Então desculpas”. Desculpa. Aí eu também: “Desculpa porque eu te falei aquilo”. Então numa situação dessas, nós conseguimos amenizar tudo, tudo fica bem. Se não tiver diálogo, não adianta. Um tem que ouvir o outro. Tem hora de nervoso, tem. Tem hora de estresse, tem. Quem é que não tem essas horas? Todo mundo tem. Então acho que o diálogo é uma coisa essencial pra tudo. P/1 – Você falou em sua sogra. Vocês chegaram a morar juntos? A casar? R – Olha, até hoje nós não casamos. Ele mora na casa da mãe dele e eu moro na casa da minha mãe. Porque ele pensa em casar e eu também. Mas nós falamos um pro outro: “Nós só vamos casar quando nós tivermos nossa casa. Não adianta nós casarmos e eu ficar morando na casa da minha mãe e você na casa da sua”. Nos finais de semana que eu fico na casa dele. Que moram ele e a mãe dele. Mas também não é certo ela aceitar eu ir morar lá. E nem minha mãe aceitar ele, entendeu? Apesar de que ele ainda não confia muito na sogra. Ele tem ainda uma cisma. Por tudo que aconteceu, ele tem ainda uma cisma muito grande. Então ele não gosta muito de ficar lá em casa. Aí eu que tenho que ir pra casa da mãe dele. Então eu fico lá com ele no final de semana. De segunda a sexta eu durmo em casa. E sexta, sábado e domingo eu fico na casa da minha sogra. Mas pensar em se casar, nós sempre pensamos. Mas por enquanto nosso plano é trabalhar. Ele arrumar um emprego fixo, que ele faz bico, é ajudante de pedreiro. Ajudante de tudo, qualquer coisa que chamar ele, graças a Deus, não faz cara feia, não tem medo do trabalho. O pouco que nós ganhamos, assim, é tudo pra nossa filha. Tudo. P/1 – Vocês têm uma filhinha? R – É, uma filha de um ano e oito meses. Juliana. Então, tudo que nós temos hoje em dia é pra ela. Pensa só nela. O primeiro lugar é dela. P/1 – E como ela é? R – A Juliana é muito danada [risos]. Tem que pegar Juliana ali, senão! Ele que dá muita asa, eu não dou, eu digo: “Quem dá asa à cobra, a cobra voa”. Aí ele briga comigo: “Ô, Débora, tudo você quer brigar comigo!”. Mas eu, ali na rédea curta com ela, porque, hoje em dia, se você não pegar as crianças, elas se soltam e se soltam mesmo. Quando for ver, já voou, não tem como cortar as asas. P/1 – O que ela faz? Que arte ela faz? R – Ah, gosta muito de bater. Se der ousadia a ela, ela bate em todo mundo. Tanto que a tia lá da creche falou: "Mãe, o que está acontecendo com Juliana? Que Juliana está pegando. Tirei de um, Juliana já está grudando nos cabelos de outro”. Eu disse: “Ô tia, ninguém brinca com ela assim, porque eu não deixo brincar de bater. Eu não gosto que brinquem de bater com ela, porque incentiva muito. Agora o que acontece com ela eu não sei. Quando acontecer isso, você pega ela e deixa sozinha num canto sentada pra ver se ela aprende: “Ó, você está aí sentada porque você está batendo nos seus coleguinhas. Não pode! E coloca ela ali sentada”. Ela disse: “Eu posso?”. “Pode, porque aí ela aprende”. Em casa eu vou fazer isso e você faz aqui. Às vezes a avó briga com ela, ela chama de feia. “Vai, sua feia!”. Aí quer bater. “Para, vou pegar o cinto!” Porque a vó mostra o cinto a ela. E ela faz a mesma coisa. Diz que vai bater. Eu falo: “Ô, dona Dica, deixe, não. Porque minha mãe é braba, minha mãe não deixa fazer isso, não”. Minha mãe é antigona, mesmo. A criança tem que passar e falar: “A benção vovó, a benção mamãe, benção titio. Ó, é seu tio, não é pelo nome que pode chamar, é tio. É vovó, é mamãe”. Ela é bem rígida mesmo. Mas a de baixo, ela é mais liberada, aí fica brigando com a vó. Eu falo com ele, com ela e com o pai: “Não deixe! Que depois de maior não tem como consertar. Se deixar agora, já viu”. Aí eles param a conversa, às vezes dá um tapinha na mão. Eu já disse a eles: “Um tapinha na mão não faz mal, não mata ninguém. Não pode bater no pulso”. A pediatra já disse: “Nunca bata em cima da mãozinha da criança que pode partir a veia”. Aí eu disse: “Abra a mãozinha!”. E dá na mãozinha mesmo, pra ela sentir que não pode fazer isso nem com a avó, nem com o pai. Se não, deixar a criança bater no rosto do pai? Quando chegar na rua, ela vai fazer a mesma coisa. Quer comprar um negócio, não pode. Não pode, não pode. Vai dizer que chorou, vou levar porque chorou. Ó, o costume da criança, aí chega em outro lugar a mesma coisa, a mesma coisa, a mesma coisa. Fica chata. P/1 – Débora, vamos voltar um pouquinho na época da escola. Que você falou que a sua avó trabalhava na escola. Que lembranças você tem? Como era a escola? R – Olha, antigamente era muito bom mesmo. Muito bom, porque tinha bastante projeto na escola antigamente. Tinha muito projeto, as pessoas sempre traziam coisas diferentes pra nós estarmos nos interessando em ir à escola: Brincadeiras, teatro. Se passasse de ano, no final do ano ia pra um passeio numa ilha, pra passar três dias, sem pai e sem mãe olhando. Então, ali as pessoas se esforçam em estar estudando. Eu mesmo, quando eu tirava nota ruim, começava a sentar com a pessoa que só tirava nota boa: “Ó, me ajuda nisso aí que eu quero passar, porque eu quero ir nesse passeio”. E quem não passasse, eles não levavam mesmo. Então eram coisas pra nós estarmos se interessando em estudar, a ter nota. E era em livro, não era em computador, não. Que hoje em dia é tudo no computador. Você chega lá, digita, tan tan. Era em livro! Era municipal. Em livro. Então eu sempre estudei na escola aberta: do prezinho à quinta série. Ia pra escola de manhã, à tarde tinha um projeto do Pró-vida, uma associação. Esse projeto nos ensinava, uma hora era capoeira, uma hora era um balé, uma hora era desenho. E ali nós ficávamos o dia todo, almoçava. Então praticamente nós ficávamos o dia todo na escola. Saía da escola, ia pro projeto. P/1 – Você falou escola aberta? O que é escola aberta? É esse projeto? R – Não, escola aberta é uma escola mesmo, que se colocou num bairro. É a escola aberta do Calabar. P/2 – É uma escola específica? R – É, é uma escola que tem dentro do bairro. Hoje em dia ela só vai até a primeira série. Do prezinho à primeira série. Agora não vai mais até a quinta. Antigamente era até a quinta série, agora só vai do pré à primeira série. P/1 – E esses projetos continuam? R – Não, acabaram todos. Todos. P/1 – O que você gostava bastante de fazer? Você fazia o quê? R – Eu gostava de tudo: da merenda, do almoço, capoeira. Porque era tudo bem organizado, a alimentação da criança, o horário, tudo certo. De manhã tinha o cafezinho, depois o lanche, depois o almoço. Então era tudo certo. Tinha hora de atividade escolar, hora de atividade educativa. Então, gostava de tudo, não tinha do que reclamar. Hoje em dia, por isso que eu falo, ali está precisando de muitas melhoras. Hoje em dia as crianças dali estão se voltando muito pro lado da droga, praticamente. Acha que aquilo ali que vai dar futuro a eles. Eu vejo criança que tem pai que trabalha, tem mãe que trabalha, tem sapato, tudo, e está roubando. Que necessidade essas crianças têm de estarem roubando? Se os pais estão trabalhando pra dar pra eles, só pra eles estudarem? Não tem necessidade nenhuma. Então está faltando mais coisas ali no bairro, pra estar pegando essas crianças, colocando numa atividade boa. Porque o que falta ali é atividade pras crianças. P/1 – Por que você acha que eles estão se envolvendo com roubo, essas coisas, Débora? Você já falou um pouquinho. R – É tipo assim, eu acho que não está tendo algo pra eles verem na frente deles. O que ele está vendo ali dentro é só isso: Drogas. Pra ele usar aquela droga, o pai e a mãe não vão dar dinheiro. Então ele vai fazer o quê? Roubar. Aí começa a se viciar em outras piores, começa a roubar de dentro de casa. Às vezes, bater até no pai, na mãe pra tomar. O que está acontecendo hoje no mundo inteiro. As crianças matando pai e mãe pra tomar o dinheiro, para estarem usando droga. Então é isso que está faltando, algo pra eles estarem vendo. Porque eles estão focados muito naquilo. P/1 – Você falou que tinha atividades que você gostava muito. Mas tinha também professores que fizeram a diferença? R – Hoje em dia ela ainda trabalha, é a professora Nilza. Ainda trabalha na Escola Aberta, ela é bem antiga também. E tem a professora Ademar. Hoje em dia, eu a vi há um ano atrás. Umas pessoas muito esforçadas para estarem ali. Principalmente a professora Nilza, que está até hoje na associação, ajudando, se dedicando. Todos os problemas que ela tem de coração, que ela podia muito bem já ter saído. E está ali ainda, cuidando da educação das crianças. Então são pessoas que ficaram muito na minha mente. P/1 – Sua filhinha estuda nessa creche? R – Agora ela está na creche. Nessa mesma. P/1 – E você estudou até ir para São Paulo? R – Eu estudei nessa escola até a quinta série. Na sexta e sétima, terminei o estudo em São Paulo. P/1 – Em Campinas? R – Em Campinas. P/1 – E você foi para Campinas porque tinha parentes lá? R – Dois tios, uma tia e um tio. E tenho primos. P/1 – E como foi essa viagem até Campinas? O que você lembra? R – O que eu lembro de lá? P/1 – Indo pra lá, no caminho. R – As paisagens lindas, lindas, lindas. Aquela paisagem. Os morros, as montanhas. Porque eu fui de ônibus, passei três dias e duas noites. Então cada paisagem é mais linda do que a outra. Só o que eu lembro de lá são as paisagens. Os morros, as montanhas, neblina. Uma coisa maravilhosa, aquele verde com aquele branco, assim, misturado. É muito lindo. P/1 – E o que você pensava nessa viagem? Você foi sozinha? R – Não, fui com minha mãe. P/1 – Ah, você falou que ela tinha te levado. R – É, ela me levou dizendo que era só um ano, acabei passando oito. P/1 – Você ficou oito anos porque você quis? O que aconteceu nesse tempo? Conta pra gente agora esses oito anos em Campinas. R – Esses oito anos, agora, que eu coloquei na minha mente que eu tinha que terminar meu estudo. Se eu fosse voltar, tinha várias maneiras de voltar. Várias maneiras, boas e ruins. Porque têm, como as meninas falam, esses caminhoneiros que você se enfia no carro: “Ah, vou embora hoje” – tem dia que passa isso na nossa mente – “vou largar tudo, quero ser feliz com minha família”. Apesar de que, lá eles também são minha família. Mas eu aqui na Bahia, isso é tudo pra mim. Minha família daqui é tudo que eu pensava. Então não consigo me acostumar a nenhum outro lugar. Então na minha viagem, eu pensava muito nisso. “Não, tenho que ficar aqui. Tenho que terminar meu estudo, tenho que trabalhar, tenho que conquistar alguma coisa.” Mas lá também é que nem aqui. Todo mundo fala: “Ah, lá você vai ter emprego fácil!”. Não é nada fácil não. Quem pensa isso, está pensando totalmente errado, que vai chegar em São Paulo, vai achar emprego, vai achar isso. Tudo é difícil, é tudo a mesma coisa. Se você se esforçar lá, você acha que dá? Vai ter que se esforçar o mesmo tanto que está se esforçando aqui. Às vezes até mais, porque lá em São Paulo exige mais. Exige mais estudo, mais tecnologia, mais inteligência. Tudo, tudo mais. Pra você conseguir um emprego lá, tem que ter uma bocada. Alguém pra te botar lá dentro. Senão, não conseguia. Eu mesmo consegui o Franz Café, de atendente, mas meu primo trabalhava lá, era segurança. Por isso que eu consegui. O outro que eu consegui foi uma escolinha, trabalhei com crianças também. Então, ali eu consegui através de uma colega que trabalhava muito tempo. Quer dizer, se eu não tivesse estas duas pessoas, eu estaria desempregada. P/1 – Você estudou primeiro, terminou o terceiro ano? R – Estudei, terminei. P/1 – E depois começou a trabalhar. R – Não, estudando e trabalhando. Saía do trabalho, ia pra escola, direto. P/1 – A escola era à noite. R – Era à noite. Às vezes, eu dobrava no trabalho. Teve uma época que eu estudei de manhã, porque comecei a estudar à tarde. Então eu dobrava, das três até às seis da manhã. Dali já saía, ia pra escola. E às três horas tinha que voltar pro trabalho. Então é difícil! Todo mundo pensando que é uma coisa fácil, é tudo difícil. P/1 – Quanto tempo você levou essa vida, de dobrar? R – Eu levei quase um ano. Quase um ano. Depois que eu vi que não aguentava mais mesmo, que era muito puxado. Que era uma folga por semana, de domingo a domingo. Então, aí eu pedi pra sair. Que nem pedir minha demissão. Porque não tava aguentando mais. O corpo não aguenta, a mente. É uma coisa muito puxada. P/1 – Seu primeiro trabalho foi em São Paulo, em Campinas? R – Foi. P/1 – E foi onde? R – No Franz Café. P/1 – Ah, o primeiro foi lá? R – Não, aliás, minto, desculpa. Foi de vender livros de culinária de porta em porta. P/1 – E como foi essa experiência? R – É uma coisa que eu não desejo a ninguém. É o que eu digo, eu não desejo isso a ninguém. Porque é um trabalho ruim. Porque tinha de subir a ladeira. Eles nos deixavam num lugar, “então, vocês têm que fazer essa área toda”, nós duas. Gente! Tinha umas ladeiras, umas subidas, naquele sol quente! Tinha vez que o meu nariz até sangrava por causa do sol na cabeça. E na hora de parar para almoçar, era todo dia mortadela com pão e refrigerante. Então tinha que tirar um real de um, um real de outro. Pra nós comprarmos um refrigerante de dois litros. Que eles não davam almoço. Era só 20%. Cada livro que nós vendíamos, eram dez reais, tirava só dois reais pra nós, com o transporte. Isso quando vendia. Então acho que é uma experiência muito ruim, eu não desejo a ninguém. Então o que eu puder ajudar minha filha, em estudo, eu vou estar. Porque eu não quero que ela passe o mesmo que eu passei. P/1 – Mesmo vendendo os livros você continuou estudando? R – Continuei estudando. P/1 – Você não parou nunca? Nenhuma vez? R – Não, não parei nenhuma vez. Até repeti de ano. Teve uma época que tive que fazer supletivo, é horrível, eu não desejo a ninguém, não quero isso pra minha filha. Porque não aprende nada. Eu falo a todo mundo: “Gente, supletivo é a pior coisa que tem”. Minha irmã está aí, tem 16 anos, parou de estudar, eu disse: “Não vá fazer supletivo. Não vá estudar à noite, porque é um dos horários que não ensinam nada”. Eu sinto muita falta de não ter terminado tudo pela manhã ou pela tarde, porque eu perdi muita coisa. P/1 – Como era a escola? Você tem lembranças da escola? R – Tenho, Mário Natividade, uma escola muito legal. Diretora rígida, professora rígida. Tinha caderno negro, então. P/1 – O que era isso? R – Na escola, se você assinasse duas vezes aquele caderno, por fazer arte, você poderia ser expulsa pelo conselho da escola. Porque é o aluno que não serve pra estar ali. Era uma escola muito rígida, aquela escola. À noite não, à noite a escola era liberal. Quando eu fui pra noite, eu disse: “Eu estou no paraíso!”. Porque de manhã e de tarde você tinha que estar ali, e tinha aqueles alunos que faziam arte e você não podia dizer nada, quem foi. Porque você era cagueta. E você podia apanhar até, lá fora. Então era uma escola muito rígida, lá. P/1 – Você fez amigos lá? R – Fiz, muitos amigos. Muitos. P/1 – Tem umas histórias dessa escola? R – Tem uma história de uma amiga minha: como eu já tinha assinado por bater em um aluno, assinei uma vez no caderno negro. Aí eu, uma vez, eu e ela pulamos o muro. Não, eu e a outra colega pulamos o muro, e aí essa amiga minha vinha vindo. Só que a diretora tinha visto só a blusa de frio das pessoas que pularam o muro. Aí essa colega minha: “Ah, já que você tem uma assinatura no caderno, tome a minha blusa, vamos trocar de blusa”. Aí trocamos de blusa, ela ficou com a minha e eu fiquei com a dela. Quando eu entrei, eu passei direto. E a diretora pegou aquelas duas, por causa da blusa de frio. Pra eu não ser expulsa da escola. Aí eu expliquei pra mãe dela, a mãe dela me deu a maior regulagem, que não foi ela, e tal. Aí ela falou: “Não, mãe. Eu fiz isso por amizade. Senão a tia dela vinha aqui, ia brigar, ela ia embora e tal”. Então ela fez isso por amizade. Eu gostei muito do que ela fez por mim. P/1 – E os namorados lá? R – Ah, namorado foi pouquíssimo [risos]. Namorei pouco lá, não pensava muito por motivo de estar pensando no daqui. Ó, quanto tempo eu perdi! P/1 – Que paixão! R – É, paixão. Foi paixão à primeira vista. É o que eu falo a ele e ele fala pra mim também: “Nós dois, foi paixão à primeira vista”. Ele fala até hoje: “O que Deus uniu, o homem nem ninguém separa”. Inclusive nós brigamos, tudo. Aí eu falo sempre a ele: “Ó, uma coisa que eu não aceito é traição. Então se você me trair uma vez é a mesma coisa de estar me perdendo”. E ele fala a mesma coisa pra mim: “Se você me trair uma vez é a mesma coisa de você estar me perdendo”. O que passou, passou. Então nós não lembramos mais. Mas o namoro lá foi pouquíssimo. Teve uma vez que eu namorei. Porque foram duas pessoas ao mesmo tempo. Mas só de beijo mesmo, largava lá, tchau, tchau. Não ficava com ninguém, assim, não. Teve um só que foi sério. Aí comecei a namorar firme com esse. Ele era até baiano. Aí, por ele ter condições boas, minha tia achava que era a pessoa certa pra eu estar namorando, estar casando, tal e tal. Ele se precipitou, começou a comprar fogão. Quando eu cheguei na casa dele – ele alugou uma casa – quando eu cheguei lá, já tinha fogão, cama. Aí eu perguntei a ele pra que aquilo tudo. Aí ele falou: “Pra você vir morar junto comigo”. Eu disse: “Não, não vou morar junto com você e você não vai morar comigo”. Ali nós terminamos tudo, minha tia brigou comigo, minha família de lá. Porque era um rapaz certo, um rapaz trabalhador. Então, já viu, né? Mãe, família, quando é certinho, aí... Mas eu não gostava dele! Eu vou ficar com ele sem gostar? Eu não acho certo ficar com uma pessoa sem gostar. Aí eu acabei terminando tudo, fui me afastando. Eu sei onde ele trabalha, ele me vê de vez em quando, a gente conversa, mas ele lá e eu cá. P/1 – E pra se divertir? Você tinha alguma atividade? R – Lá tinha muito pagode, eu gosto muito de pagode. P/1 – É, que gostoso! R – Só era ruim porque era tudo pago, um absurdo. Era difícil ir no show de pagode às vezes, porque custava 40, 50 reais. Então, pra você entrar nesses lugares fica difícil. Então! Adorava baile funk. O baile funk era muito gostoso, os rap, tudo. E aí minha prima saía, dizia a minha tia que ia dormir na casa da minha outra prima. Às vezes, uma vez, eu e ela queríamos ir num show dos Racionais. Nesse dia não sei o que aconteceu, minha tia deixou nós duas de castigo. Aí nós: “Não! Nós temos que ir nesse show. Como nós vamos fazer?”. “Ela dorme tal hora, nós já temos que deitar pronta.” Aí deitamos já prontinha, nos cobrimos até aqui. Ela foi lá no quarto, olhou: “Estão dormindo”. Ela dormia. Na pontinha do pé, saímos, trancamos a porta. O baile funk foi até seis horas da manhã, nós sem percebermos, quando nós vimos, já estava claro. Porque lá dentro você não tem noção do tempo, do horário. E era difícil sair de relógio. P/1 – Eram os Racionais? R – Era, era show de rap dos Racionais MC. Aí nós fomos, tal. Às seis horas da manhã, o cachorro dela acordou. Aí eu olhei pela cortina e disse: “É, Nestor está ali. Qualquer coisa que der na porta ele late. É qualquer coisa, um pezinho assim, ele começa a latir. Aí nós começamos a tremer. E agora? Só que pro nosso quarto, onde nós dormíamos, tinha uma janela que ia direto pro quarto. E lá tinha um corredor, pra ela vim de lá pra cá até ela ver... Eu disse: “É, o único jeito”. Deu uma virada, deu duas, eu disse: “É agora”! Nós duas vamos ter que entrar correndo, pular a janela sem barulho e se cobrir”. Aí nós rezamos. “Pai Nosso, meu Deus do céu.” Rezamos, rezamos, rezamos. Pedindo a Deus pra ela não descobrir e tal. Respiramos fundo, ela disse: “É agora!”. Eu disse: “É”. Abrimos a porta, tiramos a chave. Entramos correndo. O cachorro: “au au au au”, batemos a porta, pulamos, nos cobrimos e fingimos que estávamos dormindo. Ela foi lá, olhou tudo: “Quem que está aí, cachorro, quem que está aí?”. Olhou, olhou, olhou, foi lá no quarto olhou nós duas lá, bonitinha, aí quando ela saiu, nós começamos a dar risada [risos]. Aí começamos a tirar a roupa e jogar debaixo da cama. Por um trisquinho ela não nos pegou. Mas se ela pegasse, Ave Maria! Meu Deus do céu! Não sei quantos meses! Porque tudo pra ela – se tirasse nota ruim nós não saíamos, e obedecíamos. Se tirasse, mas nesse dia era um show muito importante pra nós, era nosso sonho conhecer o Racionais. Então, naquele dia – que nós só ouvíamos de rádio, de rádio. Esse dia foi incrível, esse dia nós fizemos isso, essa loucura. E, graças a Deus, deu certo. Ela só veio saber depois de anos, que nós já... Aí nós contamos a ela. “Mas meninas, vocês fizeram isso?” P/1 – Dá vontade de mandar essa história pros Racionais. Você foi à São Paulo, capital, alguma vez? R – Fui uma vez só, mas foi muito rápido. Eu não lembro. Ah, fui que eu tinha que viajar com uma colega minha, pra ilha, pra uma praia, que a mãe dela estava doente. Eu não lembro o nome, com ngela. Mas eu saí do metrô, entrei no outro. Isso aí foi uma coisa muito rápida, não cheguei a andar em São Paulo mesmo. P/1 – Como foi quando você chegou no metrô? R – Ah, uma sensação diferente, porque o daqui faz “bru bru”. Nós sentimos que estamos dentro do trem, ali. O de lá não, uma coisa rápida, demorou um segundo você já está saindo de um, entrando em outro. As pessoas se batendo, uma coisa diferente, sensação diferente. P/1 – Na estação eu digo, assim, quando você chegou. A primeira entrada, na primeira estação, assim. R – Ah, muita gente, viu? Muita gente. Jesus! Ali criança, você tem que amarrar no seu braço, senão você perde. Porque entra um, sai outro. Muita gente mesmo. P/1 – Por isso você tinha saudades da sua Bahia? R – Ah, acho que é isso. Mas a Bahia é gostoso, sem comparação. Vários lugares pra você ir, várias coisas pra fazer de graça. Tem pagode de graça. Todas 0800! Então, lá era difícil ter um 0800. Quando tinha, lotava. P/1 – Agora você falou em pular a janela e eu lembrei de quando você pulou o muro da escola. Para que vocês pularam o muro? R – Nós pulamos o muro pra ir embora. Pra matar aula. Só que a diretora viu, aí ela gritou. Quando ela gritou, nós tivemos que voltar. Senão ela ia ficar sem ver, mas ela sabia de que sala eram aqueles alunos. Porque era a única sala que estava em educação física. Então, na sexta A, então eu disse: “Vamos embora, que vai ter só mais uma aula e as outras duas não. Então pra que nós vamos ficar aqui?”. Então quando nós fizemos isso, minha colega tinha ido em casa, então ela tava vindo. Aí foi que nós fizemos a troca e elas nem perceberam. P/ 1 – E vocês de vez em quando saíam da escola, matavam aula e iam fazer o quê? R – Ah, ficava conversando, às vezes eu ia pra casa. Como eu trabalhava de tarde, dormia um pouco. Chegava em casa, dormia mais um pouco, que acordava muito cedo. Faziam, se tivesse um trabalho nós já resolvíamos ali. “Olha, você faz minha parte aí, porque não vai dar pra eu fazer.” Então nós ficávamos mais conversando, conversava muito. P/1 – E aí, Débora, quando você resolveu voltar pra Bahia. Como foi essa decisão? R – Gente, foi uma decisão muito difícil, porque eu sabia que ali ia mudar tudo. Aí, quando eu disse pra minha prima: “Claudia, eu vou pra Bahia”. Aí nisso tinha falecido o esposo dela, acho que foi dia 7 de setembro. P/1 – Da sua tia? R – Da minha prima. Foi uma pessoa dez pra mim, que me acolheu na casa dele e me respeitou muito. Porque é difícil um homem respeitar uma mulher. E ele ali. Nossa, sempre que eu falava com ele, falava: “Você é meu pai”. Porque um homem assim, uma prima trazer uma outra pra dentro de casa, sempre o homem abusa, olha de um jeito, sente. A mulher sente quando o homem está olhando ela de um jeito diferente. E ele não, ele me tratava como uma filha que eles não tiveram. Que eles tiveram dois filhos, Juliano e Júlio César. Então eles me trataram como a filha que eles não tiveram. Tanto que minha prima falava assim: “Você é minha filha”. Ela sempre me chamava de minha filha, até hoje ela me chama. Ela é bem mais velha, então ela dizia assim comigo. Eu falava assim com ele, que ele seria o pai, ficava sempre no lugar do meu pai. Porque tudo que era dos filhos dele era pra mim. Tudo meio a meio. Não tinha nada de um a mais, um a menos. Se comprasse um sapato, tinha que comprar pra ela também, se comprasse uma roupa. Porque quando eu cheguei lá, eu não fui trabalhar. Fui estudar. Então ele me ajudou com livros. Muitos livros que precisou comprar. Ele foi uma pessoa dez pra mim. Uma pessoa que eu sempre vou guardar no meu coração. É ele. E lá, minha prima também foi uma mãezona. O que minha mãe não me ensinou aqui, ela me ensinou lá. Eu acho, assim, quando uma menina começa a fase de uma adolescência, pra virar uma mulher, você tem que começar a ensinar as coisas do mundo a ela. Não pode esconder, porque amanhã ou depois nós vamos descobrir de uma maneira que já é tarde, não tem como resolver aquele problema. Então ela me ensinou muitas coisas. Como conversar sobre virgindade, sobre quando perder uma virgindade: “Olha, nunca perca a virgindade com homem por ele querer. Os dois têm que querer”. Então sobre gravidez, usar camisinha e tal. Ela sempre falou: “Dé, hoje em dia, tenho dois filhos por burrice da minha mãe. Porque se minha mãe chegasse: “Ó minha filha, nas coxas engravida”. Então, eu não tinha feito aquilo, eu achava que aquilo ali nunca ia me engravidar”. Tanto que ela engravidou virgem. Então ela coloca a culpa do primeiro filho dela na mãe dela. Com razão. Se a mãe dela chegasse e conversasse com ela, ela nunca teria engravidado. Ela engravidou cedo, com 16 anos. Então ela tem esse ressentimento com ela, de estar colocando a culpa na mãe dela. Ela chegou sempre pra mim e pra irmã dela, falava: “Olha, vocês duas, já estão virando mocinha. Vocês duas são adolescentes. Os homens gostam de fazer isso. Quando chamam vocês sozinhas, nunca vão. Vocês, em um baile, em algum lugar, nunca entrem num carro”. Então sempre conversava com nós, dava conselho: “Se quiser perder, chega em mim: Olha Claudia, eu perdi minha virgindade hoje. Eu não vou achar ruim. Use camisinha por causa de doenças”, ela sempre falava. Então uma pessoa! O que nossa mãe não passou pra nós, ela chegou e passou claramente. Tanto que quando uma perdeu a virgindade, chegou lá e contou. Quando eu perdi a minha, também chamei ela, contei a ela tudo. Ela falou: “Agora você tem que ir ao médico, pra tomar remédio e tal. E sempre se prevenir pra não estar engravidando”. Tanto que eu, isso eu agradeço muito a ela, de não ter engravidado cedo, engravidei com 26 anos. Todo mundo dizendo que eu ia ser avó [risos]. Eu não acho isso. Eu acho uma fase muito madura pra estar criando minha filha. P/1 – E o dia do nascimento da sua filha? R – Pôxa, aquele dia foi o dia mais feliz, meu e do pai dela. P/1 – Como foi? Conta pra gente o que você lembra. R – No dia do nascimento, eu lembro que ela não queria nascer. Porque eu tomei... Se você diz: “Você sabe qual a dor de ter um filho?”. Eu digo: “Eu não sei”. Porque eu não tive dor. Eu só fui mesmo porque eu comecei a sangrar. Então é porque estava na hora. Quando eu cheguei lá, fui umas 30 vezes por causa do pai. “Vai logo, se não minha filha...”. O pai me levou tanto pra maternidade que acabou o dinheiro, no dia não tinha dinheiro pra ir. Nós tínhamos guardado o dinheiro do táxi, mas ele me levou tantas vezes que no dia que era pra ir, teve que chamar o vizinho, uma coisa que nós não queríamos. A mãe dele ficava: “Parece até que você que vai ter a filha! Não é ele”. Porque nós não sabíamos o sexo, não deu pra ver. Aí: “Hoje está na hora, tem que ir, esse médico seu está maluco. Se minha filha morrer eu mato essa médica”. Eu disse: “Ô Jodair, não, o médico disse que até tal dia”. “Mas já passou do dia!”. Eu disse: “Não. É, são 15 dias depois ou 15 dias antes”. Nós esperamos. “É hoje”, aí comecei a sentir as contrações. “É hoje! Não, tem que ir agora”. Levava, o médico: “Não, não está na hora”. Olha, num dia só, nós fomos três vezes pra maternidade. A mãe dele já não estava aguentando mais, parecia que ele que ia ter. Quem tava sentindo dor era ele. “Não, Dé, você não está sentindo nada? Minha filha, não está mexendo aí dentro!” Eu digo: “Calma, deve estar dormindo, por isso que não está mexendo”. “Não, vamos lá agora.” Aí vai uma das irmãs dele comigo e ele do meu lado. “Não está na hora, está bem o bebê, olha o coração.” Aí chega de tarde: “Vamos de novo”. Eu disse: “Jesus, Jodair, não tem mais dinheiro pra comprar”. Esse dia, pra eu ir e pra eu vir da maternidade... E agora? Aí vai, tal. De noite, senti as contraçõezinhas, a mãe dele faz um remédio pro bebê e tal: “Vamos porque vai nascer agora!”. Volta. Chegou o dia em que eu comecei a sangrar, cadê o dinheiro pra pegar táxi, pra ir pra maternidade? “Eu vou de ônibus”. Ele: “Não, espera aí que eu tenho que dar um jeito”. E chama um, não pode, chamar outro, não pode. Aquele cara já começou a ficar nervoso, passar a mão na cabeça. Levou pra Sagrada Família. Chegou lá o médico: “Vai ter que ficar, e tal. Não está dilatado ainda, mas está sangrando”. Fiquei lá tomando soro, a noite toda tomando soro. “Está sentindo dor, mãe?”, “Não”. “Está sentindo dor, mãe?”, “Não!”. E o sangue! Fiquei a manhã, até dez horas da manhã tomando soro, aí eles resolveram fazer cesárea. Porque não tinha como ter dor porque o bebê – eles disseram – que era preguiçoso. Mas eu não estou vendo nada de preguiçosa ali. Fizeram a cesárea, tanto que ela engoliu água de parto, porque passou da hora um pouquinho, mais um pouquinho podia ter morrido. Aí fizeram, limparam. Drenaram, só que, quando minha filha foi pro... Eu desci, minha filha não desceu junto, porque ela engoliu água de parto, mas graças a Deus não aconteceu nada! Meu Deus, muito obrigada. Chegou lá embaixo, tô dando de mamar pra minha filha, minha filha tem refluxo; ficou com refluxo. Aí começou a entupir o nariz, se sufocar. Aí eu chamando elas e elas dizendo que não era nada. Depois a médica viu, levou pra cima de novo. Aí ficou lá pra drenar mais, pra ver se passava. Só que ela foi com esse probleminha de refluxo pra casa. Só foi ruim por causa disso. Quase duas vezes ela morreu, aí tive que puxar pela boca, puxar, limpar o nariz dela. Ela querendo respirar e nada! Eu puxando, puxando. Da segunda vez teve que parar no posto pra médica fazer massagem no coração, nas costas, pra poder respirar. E ali a médica passou um remédio que, graças a Deus, ela precisou só tomar um mês, não precisou fazer tratamento nem nada. E hoje em dia está essa menina alegre, forte, corre pra tudo quanto é lado. Foi muita felicidade pra nós dois, tanto pra mim quanto pra ele. P/1 – E aí você voltando pra cá, pra Salvador, como foi essa chegada de volta? R – A chegada de volta foi muito feliz. Nossa, eu me senti em casa! Me senti em casa quando coloquei meus pés, principalmente no bairro que eu moro, que eu vi tudo diferente. P/1 – O que tinha mudado? R – As casas que não tinham, não eram, às vezes era barraca. A casa da minha tia, que era barraca, estava de tijolo. E a maioria das casas tudo de laje, não era. Antigamente era só de telha. E era tudo batido a laje, com outras em cima. Eu disse: “Nossa, estou me sentindo na favela!” P/1 – Antes as casas eram feitas de quê? R – De tábua, não era? A maioria, tinha algumas que era tudo de tábua, não era de tijolos. P/1 – Aí quando você chegou? R – Tudo diferente. Porque onde eu morava não é fechado. Lá em São Paulo tudo aberto, casarão. É diferente de você chegar, tudo fechado, placa. Lá no bairro não tinha placa. Então onde eu moro, agora tem placa, esgoto. Assim, de chão, porque é placa. Tipo, como é que fala? P/1 – Concreto? R – É, tipo concreto. Porque lá em São Paulo é tudo asfaltado. Então é diferente, acostumei lá oito anos pra chegar aqui ver rato, conheci um negócio totalmente diferente. Mas eu me sinto em casa, aqui é a minha casa. P/1 – E o encontro com a paixão? Com o amor? R – Pô, a primeira vez que eu encontrei ele. P/1 – Oito anos sem encontrar. R – Oito anos. Quando eu cheguei, ele estava em Feira de Santana, a mãe dele tinha falado pra mim. Quando nós nos encontramos foi na porta de casa, ele me trazendo uma caixa de bombom com uma flor. Ele me entregando. E uma corrente. Foi. Aí ele me deu. Minha mãe mandou ele sair: “Saia”. E foi aquele escândalo, aquele negócio, aquele processo. O Jodair também não saía da porta dela, que não queria ele comigo. Ele só fez pegar na minha mão, apertou a minha mão e saiu. Depois nós conversamos e voltamos tudo. P/1 – Quando você voltou pra cá como é que ficaram os estudos e o trabalho? R – Desde quando eu voltei ainda não consegui achar emprego. Um emprego, está trabalhando. Os estudos eu parei. P/1 – Você tinha terminado o ensino médio? R – Tinha. Aí aqui eu não consegui nada. Agora que começou o vestibularzinho lá na comunidade. Só que eu não entrei por causa da minha filha. Ela não fica com ninguém, porque ela chora no horário de mamar, ela ainda mama. Então, quando ela chega da creche a primeira coisa que ela fala: “Mãe, peito”. Quer meu peito. Ela acha que aquele lugar ali, onde eu tiver. Então eu falo: “Não, você só vai mamar em casa. Só vai mamar em casa”. “Em casa?” Eu: “É”. Eu estou encaminhando pra tirar ela da mama, só que ela não toma mamadeira nenhuma. Aí fica meio difícil. P/1 – E o trabalho? R – Trabalho, por enquanto não arrumei nada. Não arrumei nada, mas sempre correndo atrás, procurando alguma coisa pra fazer. Ajudo um numa coisa, um em outra, e ganho uns trocados. P/1 – Você gosta de cozinhar? Sua avó era boa cozinheira, como você falou. R – Eu gosto, eu gosto de cozinhar. P/1 – Você aprendeu coisas de cozinha com ela? R – Com ela não, ela é muito estressada. Ela vai brigar comigo se ela assistir. Ela, tem hora que ela fala: “Você não aprendeu isso porque não quis! Você não aprendeu a costurar porque não quis!”. Que ela acha que uma boa dona de casa tem que saber cozinhar, lavar, passar e costurar. Eu não sei costurar. Meu marido sabe melhor do que eu. P/1 – Ah, é? Ele sabe? R – Melhor do que eu. Então ela sempre anda falando: “Você não fez isso porque não quis, não aprendeu isso porque não quis”. Mas adoro cozinhar, eu adoro! Eu gosto de cozinhar. P/1 – E aprendeu como? R – Olhando receita. Gosto de ler receita pra fazer. O motivo hoje em dia pra eu não estar praticando essas coisas é verba, pra ter as coisas dentro de casa. Porque só ela que sustenta a casa. Com o dinheiro da aposentadoria. Trezentos e oitenta reais, para que dá? Pra nada. P/1 – Aposentadoria de quem? R – Da minha vó, da minha mãe. Só ela que sustenta. Então: é eu, meu tio, minha mãe verdadeira e uma sobrinha. Então ela paga água, luz, comida dentro de casa. Às vezes minha tia manda um dinheiro de São Paulo pra ela, por mês. Pra estar ajudando ela, mas pra ela. Mas acaba colocando tudo dentro de casa. Então fica uma carga pesada pra ela. Por isso que eu sempre falo pras meninas: “Muita gente não dá nada na nossa cooperativa, e eu dou tudo. Porque eu sei que vamos conseguir amanhã ou depois alguma coisa. Vamos ter nosso próprio negócio, não tem coisa melhor do que isso”. P/1 – Como vocês começaram essa cooperativa? R – Essa cooperativa começou numa inscrição na biblioteca. Foram selecionadas umas pessoas, aí eu acho que não teve a quantidade certa, aí colocaram outra seleção. Pra selecionar mais pessoas ainda. Eu fiquei sabendo através da irmã da minha sogra. Ela disse: “Está tendo uma inscrição na biblioteca, por que vocês não vão se inscrever?”. Aí fui eu, minha cunhada e minha outra cunhada. Só que minha cunhada não se inscreveu no dia por não estar com documento na mão. Mas também não correu atrás. Porque isso não justifica. Não tem naquela hora, depois trazia. E dali eu passei pra outras pessoas, principalmente amigas, que eu sempre converso à tarde, lá na porta. Passei: “Olha gente, está tendo inscrição na escola aberta pra estar fazendo curso de cozinha, jardinagem”. Aí passei tudo pra elas. E elas não, nenhuma desceu, nenhuma quis descer. Hoje em dia se arrepende, fala comigo: “Me arrependi de não ter entrado nesse curso”. “Chamar, eu chamei. Agora vocês que não quiseram me ouvir, preferiram ficar aí sentadas”. E eu chamei todas, todas que passavam: “Vá lá, vá se inscrever, vá hoje. Vá amanhã, a inscrição vai até tal dia”. Mas nenhuma quis, infelizmente, e se arrependeram. Porque hoje em dia elas estão vendo que é uma coisa boa. P/1 – E quem tava promovendo esse curso? Dando esse curso? R – Que eu sabia era só a Avante e Walmart. Principalmente Walmart, o patrocínio todo é do Walmart. No dia que eu soube que o patrocínio era do Walmart! Tanto que um amigo meu falou: “É, um patrocínio da Walmart é bom, viu? A Walmart é boa”. É, vou entrar. E hoje, minha cunhada trabalha na cozinha da escola aberta, de ajudante do PET. E a irmã da minha sogra fala sempre pra nós: “Não saia desse curso por nada, termine a etapa toda. Se precisar faltar pra ir em tal lugar, vá. Se precisar assistir uma palestra, vá. Porque é muito bom esse curso. Então, o que vocês puderem fazer pra não faltar nada nesse curso, melhor ainda”. Ela sempre dá esse conselho a nós. P/1 – Avante é uma instituição, uma organização? R – Isso, é o nome de uma organização. P/1 – Ela faz outros cursos? R – Que eu saiba tem o Projovem, que elas também estão juntas, acho que o Walmart também. E tem outros cursos. Esse curso do Grãos caiu do céu. P/1 – O curso chama Grãos? R – É. P/1 – Só Grãos? R – Porque Grãos? Quer dizer o quê? Elas estão plantando uma semente, pra essa semente crescer e amanhã dar frutos. Então a Avante só está plantando, está ajudando nós a crescermos. E quem vai dar o fruto somos nós. Porque elas não vão estar sempre com nós. O Walmart não vai estar sempre com nós. Eles estão nos ajudando, como fazer isso, como abrir uma empresa, como ser dono da nossa empresa. Entendeu? Pra amanhã ou depois nós estarmos no mundo afora, e estar divulgando como nós começamos. Por onde nós começamos. Então isso daí, nossa! É muito bom. Tudo que eles provocam nós. Os cursos, tanto psicólogo, tudo. Nós temos tudo. P/1 – Ah, é? Aprende a...? R – Tem formação de grupo; tem psicólogo, tem empreendimento. Tem o curso, como que diz? Esqueci porque nós fizemos lá no Senac. É manual? Não. P/1 – É manutenção? Manipulação de alimento? R – É, manipulação de alimento. Temos o curso de manipulação de alimentos. Tivemos um curso também como nosso espaço deve ser, pra não estar amanhã ou depois fechando. Então, poxa! O que eu tô podendo aproveitar desse curso, eu estou me dedicando. P/ 2 – Todos os dias vocês fazem o curso?. R – Não, nós estamos agora no de empreendimentos. Uma vez por semana, toda terça-feira das 16h às 18h. E agora vai começar o de Formação de Grupo, toda quinta-feira de manhã, às 8h, lá na Escola Aberta. P/1 – Fica o dia todo? R – Não, fica das 8h às 11h. 11h, 11h30. Às vezes nós temos mais assunto pra decidir ali, conversando. Então nós ficamos até às 11h30. P/1 – Faz tempo? Quanto tempo você está lá? R – Vai fazer, se não me engano, oito meses. Que nós já estamos pra fazer um ano. Oito a nove meses, por aí. P/1 – De quanto tempo é o curso? R – Dois anos. Vai fazer dois anos. P/1 – E depois no segundo ano continua esse esquema? R – Depois desses dois anos Avante, Walmart, vão se desligar de nós. Aí vai ser só nós, com nossas próprias pernas. Porque a semente eles já criaram, já estão fazendo crescer e vão fazer brotar, com certeza. P/1 – E quantas pessoas são? R – Eram na base de 50 pessoas, 48 pessoas. É, 50, que era um grupo de manhã de 25 e um à tarde. Fazendo lá no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). Mas era um grupo só, só que era dividido. Agora nós estamos em 24 pessoas. P/1 – Onde é o curso? R – Agora nós estamos fazendo de empreendimento lá na Escola Aberta. P/1 – Você falou no Senac? R – Nós já fizemos a primeira fase, agora já é a segunda. A primeira fase de fazer salgado, doce, nós já tivemos essa fase, como congelar um salgado; como congelar as coisas pra uma festa. No Senac, no laboratório. P/1 – Nesse um ano o que você acha que foi mais importante que você aprendeu? R – Poxa, muita coisa. Principalmente como lidar com as pessoas. Como lidar com os problemas das pessoas. Como lidar com a psicologia das pessoas. Porque eu aprendi, eu percebi que nós não somos iguais, cada um tem um jeito. Então como nós somos um grupo, nós temos que conhecer o jeito de cada um, a possibilidade de cada um, o desenvolvimento de cada um. No que cada um se volta. Então nesse curso, em grupo, eu aprendi muita coisa. Principalmente como entender a pessoa, aceitar a pessoa como ela é. Que é muito importante. P/1 – Isso que você aprendeu, tinha livro que falava dessas coisas? R – Teve, em vários momentos. Principalmente nas aulas de psicologia. Nós sempre conversávamos, um contava o assunto dele, os problemas. Então nós tínhamos que aceitar os problemas daquela pessoa. Porque aquela pessoa é assim, aquela pessoa é daquele jeito por causa de um passado dela. Às vezes está prejudicando aquela pessoa. Então nós temos que estar ali, estudando como ajudar aquela pessoa, pra aquela pessoa esquecer aquilo que foi ruim. Estar sempre alegre, estar disposta ali. Porque ela estando disposta ali, com nós no meio, certamente ela vai dar certo no grupo. Porque nós vamos saber como conversar com ela, nós vamos saber como decidir. Então no grupo de psicologia, que eu estudei muito, de formação de grupo também, que fala muito de cada uma. P/1 – E dos alimentos, da comida? R – Dos alimentos, da comida? Nós preparamos essa parte pra vender. Sempre usando luva, sempre cortando unha, sempre de touca no cabelo. Tem gente que hoje em dia, você passa assim, está vendendo um pastel, não tem uma touca. Não tem uma luva pra pegar aquele alimento. Não está limpo, não está adequado. Então hoje em dia, nós já reparamos. Porque já aprendeu aquilo. Então sabe que aquilo ali passa contaminação pro alimento; contaminado pro nosso estômago. Aí, sempre reparando bastante agora na rua o que comer, onde comer. Às vezes vale a pena você pagar um pouco mais por causa da sua saúde. Que adianta pagar menos e se prejudicar? Amanhã ou depois ter que comprar remédio? Uma coisa muito bacana que eu aprendi nesses cursos, nesses dias, nesse ano, foi o melhor ano pra mim. Porque eu estou aprendendo muitas coisas. Falo pra minha mãe. Não deixo de ir no curso, não deixo de participar por nada. Tudo, tem que estar em primeiro lugar é o curso. Só vou parar de participar se minha filha estiver doente. Porque lógico, eu não vou deixar ela lá. Às vezes até levo ela. P/1 – Ah, é? E aí, tudo bem? R – Tudo bem, ela fica quietinha mamando. Dá pra eu prestar atenção na aula. É melhor do que eu faltar e perder aquilo, chegar na próxima aula: “O que deu? O que aconteceu?”. Ai, fica ruim, eu não gosto de perder aula. P/1 - E do tipo de alimento que eles ensinam, algumas coisas você já sabia fazer? R - O que eu sabia fazer só mais ou menos era coxinha. Coxinha e quibe. Mais ou menos, mas não saiu tão gostoso como eu aprendi lá. De batata, ai que delícia! Olha, gente, é outra coisa. Eu falo pra minha mãe: “Coma aí! Não é outra coisa?”. O tempero, como economizar. Como não estar gastando muito. Às vezes nós fazemos uma coxinha, a farinha e já jogamos fora, aquilo é dinheiro jogado fora. Então as coisas que nós aprendemos pra estar economizando, estar ganhando e não perdendo. (troca de CD) P/1 – E vocês têm intenção de terminar o segundo ano? De continuar? Conversam sobre isso? R – Temos. Temos um grupinho, nós conversamos muito sobre isso. Porque nós queremos mostrar pra eles que esse curso não vai ser só um fogo de palha. Vai ser uma coisa que, não só para eles como pra nós, uma coisa que nós queremos, que nós estamos buscando. Que nós achamos, não, que nós vamos conseguir. Com certeza amanhã ou depois a Avante vai estar orgulhosa. E o grupo Grãos vai estar orgulhoso de ter dado essa possibilidade a nós. De ter dado essa ajuda a nós. Porque é o que falta. P/1 – E vocês fazem planos? Esse grupo é de quantas pessoas? R – Olha, são 24. Mas as que mais fazem planos são umas dez. Porque tem senhoras idosas também no grupo, que ajudam muito o grupo. Não ajudam, assim, num evento porque não conseguem ir, mas ajudam cozinhando. Que nem nós teremos um evento amanhã. Aí tem pessoas que não vão poder estar manejando, fazendo os alimentos. Mas tem pessoas que já podem ir. Aí nós separamos: vocês vão vender e nós vamos produzir. Então é um grupinho, aquele grupinho que está conseguindo. Que nem eu falei a elas na terça-feira, teve uma reunião só nossa. Eu disse: “Gente, nós vamos conseguir! Sabe por quê? Nós temos força de vontade. A primeira coisa é a força de vontade. Se não tiver isso, se tiver desânimo, baixo astral, nós não vamos conseguir nada. Mas tendo força de vontade, a gente consegue tudo. Ah, não tem verba? Não tem verba? Vamos fazer uma verba pra nós. Como? Você traz um quilo de arroz, a outra traz o óleo, vamos fazer uma cesta básica e vamos fazer uma rifa. Uma rifa tem cem números. Vendendo a um real, cada um vende cinco, seis, divide os números pra ninguém ficar com muito. Nós vamos conseguir cem reais. É lucro! Vamos colocar a nossa cooperativa de pé. Vamos começar a trabalhar, produzir. Se nós não começarmos a fazer... Nós estamos muito paradas”. Eu disse a elas: “Nós estamos muito aqui, focados aqui. E quando a gente nos largar, nós vamos continuar aqui sentadas?”. Aí uma diz: “Não, é uma boa ideia”. Aí a outra diz: “Eu dou o arroz”. Aí a outra: “Eu dou o açúcar”. Ainda brincaram: “Eu dou o sal”. Eu digo: “Sal não vale. Porque sal é barato, sal é trinta e poucos centavos. Você vai dar três pacotes de sal?”, “Ah, não. Três é muito”. “Vamos colocar uma condição, que cada um, que seja igual pra todo mundo.” Entendeu? Aí eu falei: “Ah, está bom, na próxima terça-feira todo mundo trazendo, pra ir ver o que tem pra colocar na rifa e eu vou dar o número de cada um pra cada um vender. Olha, seu número é de um a cinco, está? Todo mundo coloca aí: um, dois. De um a cinco, colocar o número das pessoas. Pronto, não tem erro. Quando chegar no dia do sorteio, a pessoa vai saber quem ganhou, quem foi que vendeu”. Elas disseram: “É, boa ideia”. Gostaram da minha ideia e tão aí, fazendo a nossa rifa. Eu disse a elas que toda semana, duas vezes por mês, nós podemos fazer uma rifa para arrecadar duzentos reais por mês. Porque dois quilos de alimentos para cada um não vai pesar, por mês. Nós vamos estar arrecadando 200 reais por mês. Já pensou, nós arrecadando 200 reais? Quanto nós vamos ter no final do ano? P/1 – Quando terminar o curso. R – Quando terminar o curso. Porque nós já ganhamos alguma coisa de doações. Já temos fogão, temos um freezer, temos um microondas, temos dois trituradores. Já estamos bem adiantados. O que nos falta comprar? Um botijão. O nosso fogão é semi-industrial. P/1 – Quem doou essas coisas? R – Não passaram. Eu sei que a Avante é que está à frente dessas doações. Foi da Avante mesmo, que ganharam de doação e passaram pra nós. P/1 – E esses equipamentos ficam lá onde acontece o curso? Na sede do curso? R – É, porque a Avante já conseguiu uma salinha pra nós, uma mini cozinha. Só que ainda, pelo curso que eu e as meninas tomamos, ainda não está adequado o padrão. Então não adianta nós estarmos trabalhando, produzindo ali, pra ser fechada. Não adianta. Então nós estamos vendo se a sede que nós estamos não vai ser leiloada, se não vai ter problema nenhum de nós estarmos ali durante alguns anos. Que nós não vamos ter condições de estar pagando aluguel por enquanto. Aí nós estamos vendo tudo isso pra ficar bem legalizado, entendeu? Mas ainda não está em condições de estar produzindo ali dentro. Mas mesmo assim, ainda fazemos um churrasquinho pra vender no pagode, um caldo de sururu, esquenta no micro-ondas ali. Pra conseguir fundos para nossa cooperativa. P/1 – Já estão fazendo isso? R – Já estamos fazendo isso. Tem que andar. Temos fé, mas temos que andar. P/1 – E a proposta agora é de vocês continuarem esse ano e depois já podem formar essa cooperativa. R – Nós já temos a cooperativa. Nós já somos uma cooperativa. P/1 – O curso começou, quando que formou a cooperativa? R – Durante o curso mesmo. Dentro do curso, nós somos já uma cooperativa. Eles estão ajudando-nos a andar. Quando nós tivermos com nossas próprias pernas... Porque nós somos uma cooperativa. P/1 – Ah, está! R – É, somos uma cooperativa. P/1 – E para você, qual o seu sonho agora? R – O sonho de Débora é um sonho que com fé em Deus vai ser realizado. Que primeiramente é o quê? A minha casa própria, um emprego de carteira assinada pra mim e pro meu esposo, que meu emprego vai ser minha cooperativa. E amanhã ou depois, se casar. Que é um sonho nosso. Não só meu, meu e dele, se casar. P/1 – E a gente vai torcer pra isso! Agora, você estava falando antes, que você tem um outro projeto. R – É, eu tenho um projeto mente, que com fé em Deus também, porque tudo tem que colocar Deus na frente. Porque se não for Deus, nós não somos ninguém. Que é um sonho de ter um projeto pras crianças dentro da comunidade. É o que está faltando. P/1 – Como é essa ideia? Que ideia é essa? R – A ideia é colocar esporte na comunidade pras crianças. Crianças, adolescentes, até adultos podem participar. Futebol, capoeira, entendeu? Uma coisa que as crianças pratiquem. Que fique dentro da mente da criança aquilo ali, que a criança esqueça um pouco o mundo. Porque o que nós vemos no mundo hoje em dia é só destruição. Então pra que a criança está vendo aquilo, se focando naquilo, sendo que tem tantas coisas boas que possam colocar na mente dela? P/1 – E você falou que adorava jogar futebol, parece que você continua, né? R – É, eu gosto muito de futebol, adoro esse esporte. Se eu pudesse, eu seria uma jogadora profissional. Estaria lá com a Elaine, Formiga, lá, tudo na seleção brasileira [risos]. P/1 – Você ainda joga? R – Jogo, jogo. Tanto que a Elaine, ela joga aqui no... Como é o nome? Meu Deus! Esqueci o nome. Mas ela é jogadora aqui da Bahia, competi várias vezes contra ela na final. P/1 – Você já jogou em time assim? R – Já, já. Nos Bancários. Ela é dos Bancários, a Elaine. Ali no Campo Grande. P/1 – E hoje você joga ainda num time, assim? R – Jogo. Jogo no Calabar. P/1 – Campeonato? R – Campeonato. P/1 – E seu marido, o que diz disso? R – Sempre me acompanhou. P/1 – Ah, que bacana! Ele gosta também de jogar futebol? R – Ele não pratica. De vez em quando bate um baba, mas ele não pratica. Mas sempre me acompanhou, sempre esteve comigo. Tem um campeonato fora daqui, lá no interior: “Ah, dá pra eu ir?”, “Dá, vamos.”. Se não desse pra ele ir, também não ligava. Eu ia, jogava e voltava. Ele não brigava, não tinha nada disso. Às vezes, só por causa do horário, ficava fazendo um sambinha lá e esquecia do horário. Ele sempre me acompanhou, nunca tive problema. O que ele podia: “Olha, Deo, você está fazendo errado nisso, nisso. Você tem que ficar com aquela ali!”. Ainda me dava dicas, então, é uma pessoa excelente. P/1 – E quem treina você? R – O Valter. P/1 – Quem é o Valter? R – O Valter, ele é uma pessoa especial, um paizão do time. Sempre respeitou todas as jogadoras, em tudo, em tudo. Não importava o que elas queriam ser. Em tudo. Que ele sempre falava que estudar é tudo. “Nunca deixe de estudar pra vir jogar bola”. Ele sempre falava isso pra nós. Bom, aquelas que não estudavam: “Porque chega uma hora dessas? Tava onde? Batendo papo, vagabundeando, tal. Você tinha que estar aqui no horário.” Se for um compromisso sério, tudo bem, ele respeita. Agora, se não for, se ele passava ali e via conversando, aí ele sempre puxava a orelha, sempre dava conselho. Um paizão do time, é ele. P/1 – Ele é morador da comunidade? R – Ele é morador da comunidade. P/1 – E ele tem outros grupos que ele faz trabalho? R – Ele trabalha só com crianças, jovens e adultos. Futebol. O negócio dele é futebol também, apaixonado por futebol. Torcedor doente do Vitória. P/1 – Você torce pra qual? R – Eu sou Bahia. Tanto que ele ontem vestiu a camisa e eu falei: “É, o Vitória iludiu de novo os torcedores dele!”. Ele é torcedor doente do Vitória, toda roupa dele é preta e vermelha. Porque ele é doente por futebol, mas é uma pessoa muito dez, se puder ajudar qualquer um na comunidade, ele está ajudando. Nossa! O que está faltando pra ele mesmo é uma pessoa pra estar junto, pra aquilo subir, sabia? Uma verba. Porque antes, quando ele trabalhava, ele sempre trazia uniforme novo pra nós, sempre com o nome de todo mundo na camisa. Ele tem uniforme lá com o nome de todo mundo. E é tudo pago, é tudo caro. Uniforme, comprava bola nova. Hoje em dia nós não temos bola nova, rede, meião, que é caro e ele não gosta de comprar daquele que fura logo. Ele não gosta, tem que ser meião que dure, ele fala. P/1 – Você falou que ele trabalhava. Onde? R – Ele trabalhava. Quando ele trabalhava, trabalhava na comunidade, na Associação. Ele trabalhava na Associação. Então ali era tudo mais fácil, como se comunicar com as pessoas de fora pra estar pedindo ajuda. Ali dentro era tudo mais fácil pra ele. Porque sempre que vinha uma pessoa de fora: “Ah, tem um time de futebol aqui”. Trazia as pessoas pra ver. Quando iam, uns gringos, umas pessoas assim, ele levava pra ver nós jogando. Pra ver as crianças jogando. Fazia um campeonato do dia inteiro, que começava de manhã, no domingo de manhã e só acabava às cinco da tarde. Então ele sempre conseguia verbas. E hoje em dia ele está desempregado. Mas mesmo assim correndo atrás, se apertando, deixando sempre roupa nova pra nós. “Hoje tem uma roupa nova. Vê se ganha! Aí, olha, roupa nova!”. E sempre é ele que lava. Nós não levamos nada pra casa. É ele que lava tudo. Ele chega de noite, o horário que ele chega, vai tomar banho, ele já está lá. Você vai, passa na porta dele, está tudo estendidinho, bonitinho. Camisa com camisa, shorts com shorts, meião com meião. Sempre teve um amor tão grande pelas coisas dele. P/1 – E ele tem o time de vocês e tem outro time que ele faz a mesma coisa? R – Tem, tem. A mesma coisa. Às vezes, quando ele está apertado, ele pede 50 centavos pra um sabão. Pra ajudar a comprar um sabão. Mas dificilmente ele pede alguma coisa a nós. P/1 – Tem um time de mulheres e um de homens? R – De homens e tem o futebol das crianças. P/1 – E ele se afastou da Associação por quê? R – Troca de grupo da Associação. Daí o grupo dele acabou perdendo, por pouco tempo, mas acabou perdendo. P/1 – Quem sabe vocês fundam uma Associação de Futebol? R – É, quem sabe. Ia ser um sonho, ali dentro ia ser muito bom. Ia ser muita gente treinando, viu? Tem muita menina habilidosa, muito menino habilidoso, que estão precisando só de uma chance. P/1 – Você também! Você quer falar alguma coisa sobre o que a gente conversou? Ou outras coisas que a gente acabou não tocando? R – Ah, outras coisas, assim, que eu queira falar mesmo. Acho que nós falamos tudo, que é a melhora do bairro. Porque aquele bairro já foi um bairro, poxa, excelente. Porque em todos os lugares existe tráfico. É uma coisa que dentro de mim... Que eu vi desde que eu nasci. Pelo que eu tô vendo agora, que está sendo muito triste. Todos os bairros têm tráfico. Antigamente, os tráficos de antigamente não eram iguais aos de hoje. Hoje, ali dentro, as crianças, jovens, estão se voltando muito pra isso, muita droga, bebida. Então estão esquecendo de viver. Eles estão esquecendo de saber como é ter uma família, saber como é sair com pai, mãe, filho. Hoje em dia você não vê isso. Pai, mãe, filho, com a esposa do lado. Não! Só vê briga, desunião. Tudo entre droga e bebida. Droga e bebida, acabou. Então é uma coisa, tipo assim, muito triste. Porque é uma coisa que eu vivi dentro da minha família, entendeu? Uma coisa que eu vi ali, que a droga está fazendo. A droga está acabando com as famílias hoje em dia. P/1 – Como é isso? Quando você fala que não era assim, o tráfico era diferente? E essa droga, como ela entra na tua família e também, por que as pessoas não saem mais juntas, desse jeito que você fala? R – Diferente. Antigamente, pelo que eu via quando era criança, o tráfico era assim: vinha mais gente de fora pra comprar dentro do bairro. E outra, vizinho não roubava vizinho, filho não roubava mãe, entendeu? Então a droga ficou uma coisa muito visível, todo mundo vê. Então, hoje em dia, qualquer criança pode usar uma droga se ele tiver o dinheiro. E antigamente, os que eram antigos do bairro não deixavam uma criança usar, não vendia pra criança. E agora eles estão vendendo. Se você chegar ali com dez reais, melhorou. “Toma aí, vai.” Uma criança de doze anos está fumando crack, cheirando pó. Nossa! Corta o coração de ver, sabe? É uma coisa muito triste. Acaba aquela criança, praticamente está acabando aquela criança. Porque doze anos é criança pra mim ainda. Aquela criança não vai ter mais adolescência, não vai saber o que é ser mais adulto. Praticamente não vai aproveitar nada da vida. E a vida tem tanta coisa bonita pra nós aproveitarmos. É, nós mesmos, a população, o povo, que está acabando com isso, o povo. Porque se eles bem parar, ver, entender. Eles deveriam, tipo assim, visualizar, ou: “Pra que eu estou fazendo isso? Se amanhã ou depois um filho meu vier a usar isso?”. Eles não tão mais pensando nisso, no filho. Hoje em dia estão fazendo filho à migué! P/1 – O que é “à migué”? R – À migué é: Engravidou, deixa ela lá, ela que se vire pra cuidar. Ou senão às vezes: “Olha, toma aí um remédio, tira!”. Então fica uma coisa difícil de entender, eu não entendo. Eu não entendo de ver uma criança, um adolescente se prostituindo. Poxa, uma coisa muito chata. É uma coisa que eu não quero que a minha filha veja. Se eu pudesse mudar o mundo! É uma coisa que eu não deixaria ela se espelhar. É que nem todo dia eu falar pro meu esposo: “Será que quando minha filha crescer, eu vou ter que dizer que o pai dela foi morto por um bandido ou por um policial? Eu não quero isso pra ela. Eu não quero”. Então eu acho que ele parou, se conscientizou nessas palavras que eu disse, que até hoje ele fala. Não sei o que eu falei a ele que ele fala: “Você falou uma palavra pra mim que parou no meu coração”. Ele sempre fala pra mim, mas eu não sei, porque é tanta coisa que eu falo a ele, tanta coisa que o mundo nos mostra. Poxa! Tanta violência. Hoje o dia o mundo é tão violento. Nosso mundo, o Brasil. É que nem hoje tava falando no rádio: nosso mundo não tem tufão, nosso mundo não tem enchente, nosso mundo não tem vulcão, e é o pior mundo. P/1 – Aí, você falou, tem dois projetos aí pra melhorar esse mundo. R – Com certeza, dois só não, tem vários. Basta nós querermos, darmos as mãos. Porque o que está precisando é nós darmos as mãos, nós acreditarmos que vamos conseguir. Se nós ficarmos esperando de fora, nunca vem nada. Mas se nós damos a mão, um só não consegue, uma ovelha só não consegue, mas um time consegue! Vê se não consegue subir. As formigas pra construírem a casinha delas, não trabalham uma atrás da outra? Se nós fizermos que nem as formiguinhas, uma atrás da outra, vamos seguir, uma assim, olha, na mesma direção, sem entortar. Nós vamos conseguir tudo. P/1 – Só mais uma coisa, Débora. Você falou tudo isso e eu lembrei da Verônica, que a gente entrevistou ontem, que também quer fazer mudanças. Débora, como você vê o futuro? Você e a cooperativa? Mas vamos falar da cooperativa. Como é que você imagina pro futuro? O futuro lá pra frente? R – O futuro lá pra frente é muito sucesso. Sucesso e passar o que nós aprendemos para os outros. É o que eu penso. Isso eu não vou tirar da minha mente nunca. Quando nós conseguirmos aquele espacinho lá, que nós já estamos. Porque todo mundo precisa de alguma coisa pra sobreviver. Nós não podemos estar pensando dar um passo maior do que a perna, que ninguém consegue. Então o que eu penso pra nós é vencermos aquela parte e fazer os outros vencerem também. Como nós pensamos que nós vamos conseguir e nós conseguimos. Colocar aquilo na mente de outras pessoas. Eu sempre falo, eu aproveito tudo de cada aula, sou uma pessoa que presta atenção em tudo, em cada palavra que estão falando. Não só no professor, como nos colegas, como nós estamos conseguindo resolver. Porque amanhã ou depois eu vou precisar disso para resolver esses problemas com outros grupos. Que eu penso em fazer, pra estar abrindo uma cooperativa, ou senão estar junto com nós, até aumentando nossa cooperativa. Trabalhando junto com nós. Porque aquele bairro ali precisa de gente assim. Gente que levante o bairro. Então é o que eu falo. As meninas colocaram: “Por que prestar atenção nessa observação?”. “Porque eu sou assim, eu vou conseguir aqui com vocês.”. Mas lá na frente, meu pensamento, é estar ajudando outras pessoas a se reerguer. As meninas: “É?”. Eu digo: “É, não penso só em mim.”. Eu não penso só em mim. Eu penso em todo mundo. Na comunidade, no jeito das pessoas, pras pessoas estarem, tipo assim, aquelas pessoas mais carentes, mais precisadas, se reerguerem, não se afundando mais, você entendeu? Porque você vê uma mãe está lá embaixo e está ajudando um filho. Ao invés dela estar incentivando aquele filho a se reerguer, e se ela ver que ela consegue, ela mostra pro filho dela. “Não filho, você também consegue. Se eu consegui! Não importa a idade, não importa o tamanho, não importa a gordura, não importa nada. Importa é a força de vontade”. Eu falo todo dia, se nós tivermos força de vontade, nós vamos conseguir tudo. E ali naquele bairro, com esse projeto que eu estou tendo, com essas aulas, com essas coisas que Walmart nos colocou, eu estou sabendo aproveitar muito. Tudo, praticamente. Eu estou sabendo aproveitar tudo, porque amanhã ou depois eu vou precisar pra estar ajudando outras pessoas. P/1 – Muito bom. Muito legal. O que você achou de dar essa entrevista pra gente? R – Ah, essa entrevista foi um desabafo [risos]. Foi um desabafo, achei que isso ia sempre estar em papéis, nunca sair. Um desabafo, nossa, eu adorei! Eu gostei. Então que isso venha a abrir os olhos do povo, incentivar o povo a ver que nada está perdido. Hoje em dia basta nós querermos, nós termos incentivo e força de vontade pra conseguir tudo. Não só pra nós, não só pensar na população, olhar em volta de tudo do mundo. Olhar em volta de nós que temos tantas coisas bonitas e nós não estamos sabendo aproveitar, não estamos sabendo usar. Estamos jogando praticamente tudo fora. Esse país lindo, esse país maravilhoso que é o Brasil, é um mundo. Mas tem muita coisa, gente, que se souber, se nós olharmos em volta, parar num lugar alto, olhar em volta. Quanta coisa linda nós temos que aproveitar! E não se acaba nisso aí. Vamos se erguer, vamos melhorar. Porque tem como melhorar sim. Nada é impossível, basta dar as mãos, basta fazer que nem as formigas. Vamos construir nossa casinha, um atrás do outro, que vamos conseguir. FIM DA ENTREVISTA
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