Busca avançada



Criar

História

Em busca de justiça social

História de: Elsa Santos Andreolli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/01/2021

Sinopse

Infância em Minas Gerais. Mudança para São Paulo. Formação em Serviço Social. Atuação na prefeitura e em cargos públicos. Justiça social. Empreendedorismo social e missão de trazer mais vida ao dia a dia dos idosos.

Tags

História completa

Estou aposentada, e não sei até quando tenho condições de trabalho, mas enquanto eu tiver condições de trabalho, quero colocar o meu saber a serviço dos outros que precisam do meu saber. Isso eu trago de lá daquela época, trago da minha mãe e trago do meu pai, isso para mim… Eu trago da minha avó. Essa questão de justiça social… A minha avó não era assim: "Eu sou a patroa e vocês são meus empregados", era todo mundo uma família. Eram meeiros, o que eles plantavam, elas vendiam e davam uma parte para ela, e ela vivia daquilo. Ela não morreu rica.

Essa questão de justiça, essa questão do valor humano, essas coisas, eu tenho essa história de vida. Isso para mim é muito forte, muito forte (choro).

Eu trabalhei a minha vida inteira. Então, quando eu me aposentei, falei: "Vou descansar, vou fazer tudo aquilo que queria fazer e não tinha feito". Comecei a estudar inglês, comecei a fazer aulas de dança, comecei a fazer atividade com as amigas, com os amigos, comecei a fazer um monte de coisa que eu não tinha como fazer, porque sempre trabalhei. Mas à medida que comecei a me sentir insatisfeita de não produzir, eu disse: "Vou fazer trabalho voluntário, vou ver umas organizações sociais aqui da região, vou estudar alguma e vou fazer um trabalho social". E aí, eu entrei na internet. Agora eu uso mais, antes eu usava muito pouco, mas comecei a pesquisar uma organização social. Eu vi uma organização social com a qual a gente tinha feito alguns trabalhos lá na Zona Sul, e eu gostava muito da postura e da proposta deles. "Pronto, vou fazer voluntariado para essa organização social".

Fui aprovada e fui participar de um projeto piloto dessa organização social, que era a ideia de… Eles tinham feito um projeto com uma verba do Santander. Aquela organização social tinha feito um projeto do Santander. Naquele momento, eles estavam fazendo um projeto piloto para trabalhar em parceria com a prefeitura com a ideia de, dando certo esse projeto piloto, ser implantado em todo o município. Esse projeto se chamou: "Projeto Acompanhante de Idosos".

Nós até desenvolvemos projetos lá dentro. Eu tive muita dificuldade para construir, mas enfim, a gente foi construindo, construindo e implantou o projeto. Um belo dia, eu descobri que essa médica que era chefe lá… Eu encontrei com ela em um baile da minha academia, porque eu fazia aula de dança, e ela também fazia aula de dança. Eu fazia aula de forró em um outro horário que não era o dela, mas ela também fazia aula de forró. A gente resolveu fazer um projeto com aquela unidade, para fazer atividades aeróbicas com os idosos…

Então, estamos fazendo um serviço preventivo com eles. A gente começou a desenvolver o que chamamos e tem o nome até hoje de aero forró. Não, não era aero forró… Tem um nome. Mas o primeiro nome foi aero forró mesmo. Começamos a dar os passos básicos de forró para aquelas pessoas, e enquanto isso, eles faziam atividades físicas. Fizemos isso em um espaço comunitário que cederam para nós, fazíamos também outro dia em uma pracinha que tinha na frente da unidade… Depois, começamos a fazer uma atividade de organizar o espaço da unidade, que vivia cheia de mato, e a gente começar a fazer uma horta comunitária, com plantas medicinais. Eu comecei a trazer pessoas, comecei a me integrar com outras secretarias que vieram, deram cursos, e deram estrutura para gente fazer a horta ali naquela comunidade. A gente foi crescendo, fazendo aquele trabalho, mas sem perder o foco do trabalho que a gente tinha que fazer, que era na casa dos idosos, que não tinham assistência e que precisam de assistência.

Começaram a aparecer pessoas com poder aquisitivo para contratar um cuidador na sua casa, mas que não sabiam como fazer isso… Uma visão que eu e o grupo do qual eu participo tínhamos, é que a gente não é contra a casa de repouso, a gente acha que o idoso que se sente confortável para ir para uma casa de repouso, que lá ele dança, faz atividades, conversa com outras pessoas e está bem… Perfeito! Mas o idoso que não quer e vai pela contingência da necessidade familiar… Não fiz um trabalho científico para comprovar isso, mas a constatação era assim, na cara. Quando vinha alguém que precisava do cuidador… A minha equipe era muito boa. Eles se prontificavam a ajudar, a selecionar uma pessoa… A gente se propunha a fazer um plano de cuidado para aquele cuidador fazer. O que ele tinha que fazer todo dia para aquele idoso.

Os nossos cuidadores que circulavam na comunidade, iam na casa de um e de outro, de tempos em tempos diziam: "Dona Elsa, lembra daquela idosa que nós começamos atendendo? Ela foi colocada em uma casa de repouso, entrou em depressão e morreu". Passava um outro tempo: "Lembra daquele idoso? Foi colocado em uma casa de repouso, entrou em depressão, e morreu". Não foram poucos com quem aconteceu assim. Bom, isso era uma dor profunda minha, sabe? Porque quando eu penso nesse trabalho que projetei e que desenvolvo, penso com aquela visão de que todos têm esse direito, quem tem condições econômicas e quem não tem. E aí, naquele momento, eu estava vendo quem tinha condições econômicas, sofrendo de uma situação…. Isso também ficou muito marcado na minha vida.

E quando a gente estava finalizando aquele trabalho, com essa nossa visão de valorizar a dignidade do idoso, valorizar a questão do idoso ter o seu direito de escolha, "Eu quero" ou "Não quero", valorizar a valorização do serviço… E quando eu falo de valorização, estamos falando do serviço prestado, do serviço que estou prestando para o idoso, mas daquele cuidador… Eu tinha as experiências deles já. Ele lá, naquela casa, fazendo aquele trabalho. Aqueles cuidadores, tinham uma equipe, tinha médico, sentavam e discutiam as questões do idoso, davam assistência, tinha enfermeira, tinha auxiliar de enfermagem. Então, para aquelas necessidades, a gente tinha uma equipe que dava sustentação para aqueles idosos.

A maioria é de idosos que estão naquele momento da vida, que às vezes esquece algumas coisas, que às vezes perde o equilíbrio, que às vezes pode cair da sua própria altura, e essa questão de cair da própria altura é um risco muito grande, porque gera… Quando ele cai da sua própria altura, ele faz uma fratura de fêmur, vai para o hospital, pega o risco de ser contaminado lá com outras doenças. Vem para casa, fica em uma cadeira de rodas… A qualidade de vida dele já está quebrada aí. Ser transferido de uma cadeira de rodas para uma cama e de uma cama para a cadeira de rodas é muito difícil, a família não consegue fazer isso com facilidade. Ele fica muito tempo na cama, desenvolve uma escara, vira uma ferida, e esta ferida é uma outra… Onde é que está a sua qualidade de vida? Ele foi para o hospital naquela época e desenvolveu um problema pneumológico. Está com aquele problema e fica muito deitado, então esse problema se agrava. Quer dizer, com tudo isso, acabou a qualidade de vida do idoso, acabou. Pensando nisso, eu resolvi… Eu convidei os meus amigos e só teve uma louca que aceitou, ela é médica sanitarista, mas tem vários… Ela é sanitarista, mas ao mesmo tempo fez saúde mental também, tem vários títulos dentro da medicina. Eu brinco com ela, que ela é mais assistente social do que médica, porque ela tem todas as preocupações. Ela continuou no meu grupo, discutindo, me ajudando, pensando como é, como faço, como organizo. Aquele grupo continuou me dando suporte, mas com outros trabalhos, sem poder entrar no trabalho propriamente dito comigo.

É isso, o que me moveu a ser empreendedora foi colocar o meu saber técnico e a minha experiência de vida a serviço de uma população que necessita desse serviço, com qualidade e humanizado. A gente percebe que quando faz esse trabalho humanizado, a relação da família fica melhor, porque o cuidador familiar é muito sobrecarregado, é muito cobrado pelos outros… Quando entramos na casa e fazemos esse movimento, começa uma relação. Os netos que não queriam mais visitar os avós, porque só eram rabugentos e só reclamavam, começam [a visitá-los]. A gente começa a fazer um movimento, e nosso projeto é esse, atender uma dor de um cliente idoso, atender uma dor de um cliente familiar, e atender a dor de um trabalhador lá na ponta.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+