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Em busca das origens

História de: Lucia Wong Desbrosses
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2022

Sinopse

Lucia fala sobre sua infância no Rio de Janeiro, seu trabalho na Varig em Hong Kong, sua família e sobre sua pesquisa de mestrado sobre a imigração chinesa no Brasil .

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História completa

(00:34) P/1 – Oi, Lucia! Tudo bem com você? Bom dia! 

R – Tudo certinho.

(00:43) P/1 – A gente vai começar pelo básico: qual é seu nome, local e data de nascimento? 

R - Eu me chamo Lucia Wong. Nasci em São Paulo, aos 27 de outubro de 1979.

(01:03) P/1 - E qual é o nome dos seus pais?

R - Meu pai se chama Daniel e minha mãe se chama Ada.

(01:14) P/1 - E o que eles faziam ou eles fazem?

R - Eles são aposentados hoje, mas o meu pai foi dono de pastelaria, de restaurante. Ele trabalhava no comércio de comida. 

(01:33) P/1 - Tinha algum costume que era só da sua família, alguma coisa que vocês comemoravam em casa? 

R – Não. Em casa… A casa dos meus pais é uma casa ‘desritualizada’, sem rituais. O único ritual que a gente tem é principalmente o Ano Novo, porque o Ano Novo, no Rio de Janeiro, tem o Réveillon, tem os fogos de artifício, então é o momento de reunião - mas isso hoje, atualmente. Quando eu era pequena, quando era mais jovem, a loja do meu pai funcionava quase 24 horas, era direto, então, no Natal e no Ano Novo, a gente costumava comemorar com os funcionários. Tinha a ceia de Natal e a ceia de Réveillon, junto com os funcionários.

(02:43) P/1 – E quando você era pequena, eles te contavam histórias?

R – Não, Grazielle, eles não contavam histórias. A grande questão desses imigrantes trabalhadores que vieram para o Brasil em busca de melhores oportunidades de vida [é] que você vê uma história de descendentes desses imigrantes muito autoeducada, porque meus pais trabalhavam muito. A loja, como eu disse, ficava quase 24 horas aberta - eram três, quatro turnos. E então a gente... Não, meus pais não tinham tempo de sentar para contar as coisas.

(03:41) P/1 - E de onde são seus pais? 

R – Meus pais são da região do sul da China, da região de Cantão, que a gente chama hoje de Guangzhou ou Guangdong.  

(03:55) P/1 - Você tem irmãos?

R – Sim, nós somos cinco. Eu tenho uma irmã mais velha e quatro irmãos mais novos... Três irmãos mais novos.

(04:07) P/1 – Você consegue descrever a casa onde você passou a sua infância?

R – Grazielle... (risos) É uma pergunta muito difícil porque sou filha de imigrantes e a história desses imigrantes, sobretudo os chineses, é uma história de busca de melhores oportunidades. Eles saíram da China pra ter melhores oportunidades; chegaram ao Brasil, no Rio de Janeiro. Primeiro chegou meu tio, depois meu pai e eles ficaram no Rio, depois foram para São Paulo, depois vieram para o interior de São Paulo: Ribeirão Preto, Campinas, Americana, Osasco. 

Uma casa que eu tenho uma lembrança mais nítida e duradoura, porque eles ficaram bastante tempo nessa cidade, é de Americana. Meu pai e meu tio, eles tinham uma pastelaria em frente à Estação Fepasa de Americana. E a gente morava numa casa de bairro, brincava na rua com os vizinhos… É onde eu tenho maior lembrança de infância, por conta dos vizinhos e por conta dos meus primos.

(05:36) P/1 - E o que você gostava de brincar, quando criança? Você tinha alguma brincadeira favorita?

R – (risos) Eu cresci com meus primos mais velhos, então eu tenho lembrança...  Eu gostava de bonecas, mas eu não tinha aquela coisa de ficar brincando de boneca. A gente brincava muito de coisa na rua, de queimada, de autorama, de soltar pipa, de fazer aviãozinho, apostar corrida, de brincar de carrinho. (risos)

(06:19) P/1 – Então, você brincava bastante na rua com os vizinhos. Você tinha muitos amigos em volta?

R – É, era um bairro bem gostoso. E era um bairro onde acho que passava ônibus a cada cinco horas... (risos) Então, não tinha carro na rua, a gente brincava muito na rua mesmo. Chegava da escola e brincava na rua, pegava a bicicleta, depois tinha jogo de futebol no campinho. A gente brincava muito com os vizinhos.

(06:58) P/1 - Nessa época de criança você já tinha algum sonho do que você queria ser, quando crescesse?

R – Não, eu não tinha. Como os meus pais, a minha família toda é comerciante de pastelaria, a gente tinha uma vida dentro desse comércio muito forte. A a pastelaria abria de domingo, então todos os domingos a gente saía em família para almoçar, mas na volta a gente passava na pastelaria, para ver se estava tudo bem. Se precisava de alguma coisa, passava na pastelaria; se tinha algum aniversário, era salgadinho da pastelaria. Como o trabalho dos nossos pais, meu pai, meu tio, era muito voltado a isso, o nosso universo era muito dentro disso e nas férias eu passava muito tempo na pastelaria. 

Eu comecei a ajudar meu pai muito nova, já com nove anos, durante as férias de verão. Eu abria e minha irmã ia no almoço, ou minha irmã abria e eu ia no almoço. Muitas vezes de manhã, quando você abria, não tinha movimento; eu ficava com o pasteleiro, fazia massa de pastel, o via fazendo coxinha, kibe. Minha vida toda de infância foi muito voltada para esse comércio de comida, com essa coisa de restaurante, de cozinha, de mercadoria chegando, de quilos de farinha, sacos de farinha, sacos de açúcar, então eu não imaginava uma profissão outra, eu não pensava em trabalho, porque eu vivia esse trabalho. Eu não tinha essa ideia, não.

 

(08:58) P/1 - Só voltando um pouquinho, essas mudanças foram por causa da pastelaria, novas oportunidades que a sua família foi procurando?

R – Exatamente. Tinha a pastelaria em Americana e aí aconteceu deles terem uma oportunidade de ter uma pastelaria do lado da antiga rodoviária de São Paulo, que ficava perto da Praça da Luz. Eles mudaram para São Paulo, ficaram com essa pastelaria até fecharem a rodoviária antiga. E quando a prefeitura decidiu fechar para mudar para o Tietê, eles fecharam a pastelaria e aí meu pai foi para o Rio, porque ele já tinha uma loja lá e meu tio, posteriormente, foi para o Rio também. 

O Rio de Janeiro também estava numa época de bastante crescimento, porque eu lembro que quando a gente mudou para o Rio foi quando o metrô começou a ser construído, no Rio de Janeiro. E a pastelaria que meu pai tinha, na época, no bairro, era do lado do metrô. Então, era busca de melhores oportunidades, sim.

 

(10:20) P/1 – E quando você entrou na escola, você tem alguma lembrança desse primeiro momento?

R – Sim, eu tenho uma lembrança muito forte da escola em Americana, porque eu era a mais nova, eu tinha cinco anos e eu já estava alfabetizada. A minha prima, que era mais velha... (risos) Ela me ensinava a ler e escrever. 

Quando eu fui para escola, e eu lembro que entrei na escola com essa minha vizinha. Nós temos a mesma idade e a gente ia para a escola juntas, voltava juntas. Até hoje a gente continua tendo um bom contato. 

E depois eu lembro de quando a gente saiu de Americana e foi para São Paulo. Em São Paulo eu tenho uma lembrança muito forte da escola, porque foi quando eu fui, de fato, alfabetizada, com Matemática e Português. Eu tenho uma lembrança muito nítida das professoras. Gostava muito dessas professoras, eram aquelas professoras à moda antiga, mas eu tenho uma lembrança muito nítida das minhas professoras do primeiro, segundo e terceiro ano. (risos)

 

(11:40) P/1 - Você tinha alguma matéria favorita?

R - Sim, Português, sempre foi. Sempre foi, sempre gostei muito de línguas, hoje eu falo várias línguas e o Português sempre foi minha matéria preferida - e depois o Inglês - na escola. 

(12:02) P/1 – As escolas sempre foram perto da sua casa? Você ia a pé, como você ia?

R - Quando a gente era mais nova, todo mundo ia a pé para a escola. Não tinha a coisa dos pais levarem, era muito raro, não tinha isso dos pais levarem. Quando eu morava em Americana, quando o pai dessa vizinha ia pegar a gente na escola, porque coincidia do horário dele sair do trabalho, a gente achava um luxo total. Mas a gente caminhava, andava muito, era sempre... A escola de Americana e de São Paulo eram bem longe de casa. Eu andava, sei lá, uns dez, quinze minutos a pé, sozinha, para a escola. 

(12:56) P/1 - E você ficou até que série, nessas escolas?

R – Então, os meus pais, o meu pai... A gente mudou para o Rio de Janeiro em 1979. Eu estava na quarta série - quarta série hoje é o terceiro ano, né? Eu tinha nove anos.

(13:15) P/1 - Quando você mudou para o Rio de Janeiro, mudou bastante a sua rotina?

R - Sim, mudou a rotina porque, primeiro, Rio de Janeiro é bem mais calor que São Paulo, né? No Rio de Janeiro, no verão, são 36, 38 graus. 

Em São Paulo eu estudava numa escola de freiras e no Rio de Janeiro fui estudar numa escola de padres e o tamanho da escola era diferente. Mas eu gostava, eu gostava muito, porque essa escola no Rio de Janeiro proporcionava atividades, matérias que a escola de São Paulo não proporcionava. Foi uma experiência muito rica, eu lembro de ter tido umas boas lembranças daquela época - apesar de que os amigos que eu mantive são os amigos do pré-primário, de quando eu morava no interior de São Paulo ainda.

 

(14:41) P/1 - No ensino médio você continua na mesma escola ou já mudou para outra?

R – (risos) Ensino médio de novo é um vai e vem, aí eu voltei para morar em Americana - não, no ensino médio não, isso no ginásio. A gente foi para o Rio, mas eu voltei a morar em Americana por alguns anos e aí eu voltei para o Rio de Janeiro, para a mesma escola; já não já não era a mesma turma. 

Depois, no ensino médio foi diferente ainda, porque aos quinze anos eu fui morar na China. Eu fiquei na China durante dois anos, numa escola de línguas. Eu fui para fazer um curso de verão com minha irmã e meus primos e eu gostei. Perguntei para o meu pai se eu podia ficar e meu pai falou: “Tudo bem”.  Eu fiquei numa escola como internato mesmo, só tinha nessa escola; hoje ela faz parte da faculdade em Cantão, em Guangzhou. Ela era só uma escola de línguas, era uma escola preparatória para quem ia fazer o vestibular; na China as pessoas têm que se mudar para a escola porque, naquela época, [se] você prestava Medicina, tinha duas ou três faculdades, então você tinha que fazer uma preparação, uma escola preparatória, para saber para onde você iria. Você não sabia se você ia, sei lá, para Minas ou para São Paulo, então tinha essa escola preparatória e a escola de línguas. 

Na escola de línguas nós éramos acho que uns duzentos alunos e como eu, descendentes de chineses, vindos de todas as partes do mundo. A gente morava em alojamentos, eram dormitórios com três camas ou às vezes, quem tinha sorte tinha quarto com duas pessoas só. E a gente ficava... O curso de Chinês durava, o curso completo, três anos. Eu fiquei dois anos. 

 

(17:06) P/1 – Tem alguma experiência marcante, nessa experiência que você teve?

R – Sim. Eu tinha quinze anos e era a mais nova da minha turma. Os meus colegas todos eram descendentes de chineses que moravam na Tailândia. Quando chegaram as férias de verão, eu fiquei sozinha porque, como o Brasil era muito longe, não dava para voltar para o Brasil, então os meus colegas me convidaram para ir visitá-los na Tailândia - Tailândia e China era coisa de quatro ou cinco horas de voo. 

Nesse verão eu fui para Pequim também. Peguei um trem sozinha para ir para Pequim; eu tinha quinze anos e pouquinho. Tomei um trem que [a viagem] durava 72 horas e tinha cama, mas era um beliche de madeira, mesmo. Então, você sentava, né? E os chineses já estão acostumados, então eles levam travesseiro na mala; eu não sabia, então eu deitei na minha mochila. 

Nessa viagem de trem tinha um grupo que estava do meu lado, no mesmo compartimento e era num grupo de colegas de trabalho que estavam indo para Pequim, para passear. Eles ficaram assustados em ver uma adolescente,  jovem, viajando sozinha assim. Falaram: “Você não quer ficar com a gente, né? A gente pode fazer passeio juntos.” 

Quando eu fiz essa viagem, em Pequim tinha uma unidade da escola de línguas, igual a que eu estudava em Cantão, então o meu ponto de chegar em Pequim era essa escola. Eu tinha onde ficar, mas eles falaram assim: “Se você quiser, pode passear com a gente”. Então, eu fui fazer os passeios com eles, visitar a Grande Muralha com esse grupo. E esse grupo… Eu tinha quinze anos, eles deviam ter, sei lá, trinta anos. A gente simpatizou tanto, que eles falaram assim: “Lucia, a gente vai prorrogar a viagem. A gente vai passar alguns dias em Pequim e depois nós vamos para a Mongólia do interior” - a Mongólia faz fronteira com a Sibéria, então tem uma parte que é chinesa e uma parte que é russa. “A gente vai para a Mongólia interior, você quer ir com a gente?” Eu falei: “Vou!” (risos) E fui com eles. (risos) 

A gente tomou o trem, foi para a Mongólia e, enfim, tomamos leite de camelo, leite de camelo salgado, uma coisa doida. Essa viagem foi uma coisa assim... Depois eu mantive contato com eles durante um tempo, mas como na época eu não escrevia, nem lia chinês ainda e eles não liam muito inglês... Talvez a gente tenha mantido contato um ou dois anos, mas depois eu perdi completamente contato com eles. Mas foi uma epopeia, essa viagem. (risos)

 

(20:21) P/1 – Eu sei que a sua família é chinesa, mas você está na mistura das duas culturas, brasileiras e chinesa. Você sentiu alguma diferença quando foi para a China?

R - Sim porque, quando eu fui para a China, foi em 1985. E a abertura da China para o mundo ocidental, a economia de mercado e tal... O mercado não, foi quando o Deng Xiaoping fez a política dele de abrir as fronteiras e recomeçar, retomar o negócio com os países estrangeiros; ele fez isso em 1978. Quando eu fui para a China, em 1985, [isso] ainda era muito recente. Tinha coisas na China que aconteciam que eu nunca tinha imaginado que existissem. E como eu era, eu tenho esse meu... Eu tenho as feições chinesas, mas eu não me visto como chinesa, né? Então, olha, isso aqui e isso aqui, na China, você não mostra. Na época todo mundo, até as mulheres, ainda usavam aquelas blusas “Mao”, que a gente fala “com gola Mao”, que era até aqui, cinza. Eu usava roupa de cor; eles não usavam roupa colorida na época, era só o cinza, marrom, a gente usava roupa colorida. Então, quando eu fui, por exemplo, para a Mongólia, eu virava via um monte de criança me seguindo, porque eles achavam exótico essa chinesa diferente e era muito estranho isso. Uma coisa que ficou muito marcada, na estação de trem, quando eu fui comprar minha passagem de trem de Cantão para Pequim, a estação de trem é imensa, uma coisa assim... Não dá nem para comprar aqui, eu não sei nem que monumento aqui eu teria, em São Paulo ou em Brasília, para te dar ideia de comparação de imensidão. Mas era imenso e você tinha os guichês, muitos guichês, com tudo escrito em chinês e filas enormes. Fui fazer a fila para comprar minha passagem e tinha, sei lá, trinta, quarenta, cinquenta pessoas na minha frente, porque a China é hiperpopulosa, então até chegar a minha vez eu fiquei lá uma hora, uma hora e meia, esperando. Cheguei no caixa, no guichê e ela falou... Eu tinha carteirinha de estudante estrangeira e ela falou assim: “A fila para estrangeiros não é aqui”. (risos) Eu perguntava em inglês porque eu não falava muito chinês, aí quantas vezes não brigaram comigo, porque eu tinha feições de chinesa e eu não falava chinês? Falavam um monte de coisa e eu não entendia nada; ia lá, eu fazia fila em outro guichê. Como são todos chineses e eu também sou chinesa, então eu não conseguia identificar qual era a fila de chinês e estrangeiro. (risos) Era muito estranho.

(23:45) P/1 – E o que te fez voltar para o Brasil? Você comentou que o curso era de três anos, mas você ficou só dois. 

R – Porque eu estava com quase... Eu voltei quando tinha dezessete anos e eu queria fazer o vestibular, estudar. Eu não queria fazer o cursinho, o ensino médio com mais de dezoito anos, então eu preferi voltar, terminar meus estudos para, eventualmente, voltar para a China. 

Quando você perguntou: “Ah, e seu ensino médio?” Eu voltei, fiz o ensino médio depois de voltar para a China e foi quando fui para o cursinho. Eu saí da escola do bairro e também foi uma outra vida.

 

(24:33) P/1 – No cursinho você já tinha... No cursinho não, no ensino médio, você já tinha uma ideia do que você queria fazer? 

R - Sim. No ensino médio que, na verdade, era um cursinho [de] ensino médio, eu queria fazer Relações Exteriores e ser tradutora. 

(24:59) P/1 – Depois esse cursinho, você já entrou na faculdade?

R – Sim, fiz o cursinho no Rio e eu prestei [o vestibular]. Passei para a USP, então eu tinha duas opções. Fui fazer chinês na USP porque, na época, era a única faculdade que tinha língua chinesa, né? Não o chinês como cursinho, como curso de línguas, mas o chinês como graduação.

(25:32) P/1 – E teve algum momento marcante, nessa época de faculdade?

R – Sim, acho que foi quando eu mais senti dificuldades, porque [quando] fui fazer faculdade, eu tinha voltado da China. Eu já era quase adulta, era uma jovem adulta e me identificava muito, até hoje, com a cultura mais do carioca, uma cultura mais falante, mais extrovertida. E quando eu cheguei em São Paulo eu senti muita dificuldade, muita, porque as pessoas são mais fechadas. Eu passava os meus fins de semana sozinha, eu não conhecia... São Paulo é muito grande, em comparação com o Rio de Janeiro, então eu senti uma solidão muito grande.

(26:28) P/1 – Nesse período a sua família estava no Rio ou em Americana? No Rio? 

R – Não, desde que eles mudaram para o Rio de Janeiro, eles ficaram. E quando eu voltei a morar em Americana, eu voltei porque o meu tio tinha vindo para o Brasil, então eu fui morar com ele, porque ele não falava muito bem a língua. .  

(26:52) P/1 – Na faculdade, você fez algum estágio?

R – Na verdade, outra mudança. (risos) Eu fiz faculdade e eu pedi licença, depois de três semestres, da faculdade. Eu tranquei a matrícula e fui para Hong Kong, fui trabalhar em Hong Kong. Eu quis, porque a minha experiência na China tinha sido tão forte que eu queria ver se tinha um jeito de voltar, aí eu fui para Hong Kong, então não fiz o estágio na área, que era a área de Letras. Quando eu fazia a faculdade, eu trabalhava de dia, eu trabalhava numa agência de turismo; quando eu fui para Hong Kong, eu procurei emprego na Varig. E através de contatos da minha família eu consegui mandar o meu currículo direto para a Varig, de Hong Kong, então eu consegui... Quando eu cheguei em Hong Kong não tinha vaga, porque a equipe era pequena, mas eu esperei menos de um mês, uma das funcionárias estava imigrando e abriu uma vaga. 

(28:31) P/1 – E como é que foi morar esse tempo em Hong Kong? Você ficou quanto tempo lá?

R – Eu morei cinco anos em Hong Kong. Foi uma das melhores épocas da minha vida, foi maravilhoso, porque eu já era jovem adulta e que nem você perguntou da parte do estágio, não, eu já tinha um emprego, na verdade. Eu trabalhava. Eu tranquei minha matrícula, comecei a trabalhar na Varig, foi muito rico, todos os meus colegas eram... Não, exceto três. Nós éramos doze na equipe e nós éramos quantos brasileiros? Eu e mais três, éramos quatro brasileiros na equipe. Era uma equipe pequena, nós tínhamos quase todos a mesma idade, então a gente viveu uma época muito boa. E sobretudo foi uma época muito feliz, porque foi quando a Varig abriu um voo direto para Hong Kong, então eu trabalhava na Varig, nessa época. Ver como uma companhia aérea instala, como tudo é feito para você abrir uma linha comercial e depois abrir uma base, porque Hong Kong se tornou uma base… Aí vieram os comissários de bordo e, como eu era a única brasileira que falava português e chinês, eles falavam muito comigo. 

Foi uma época muito bonita, muito bonita profissionalmente, com uma coisa de entendimento com as pessoas, de entrosamento, de entrosamento com a equipe, com a cidade. Como eu falava chinês e português, era muito valorizador para mim, também.

 

(30:35) P/1 – E durante esse tempo que você ficou lá, você chegou a estudar também?

R - Eu estudei, mas fiz cursos noturnos, eu estava ainda tentando buscar uma via. Eu não tinha certeza do que eu queria fazer, continuar fazendo tradução e interpretação. Fiz outros cursos, fiz cursos também ligados à companhia aérea para atualizar os meus conhecimentos, mas nada que fosse ligado nem a Letras e nem ao Chinês. 

(31:16) P/1 – Você ficou cinco anos lá. Quando você voltou, como você se reestabeleceu no Brasil?

R - (risos) Grazielle, nada é tão simples assim! (risos) Quando eu trabalhei lá,  logo depois surgiu uma oportunidade para trabalhar no Carrefour, ainda em Hong Kong, porque o Carrefour… Era época do Plano Real, tinha entrado o governo do... Estava na transição, antes do Fernando Henrique entrar, então tinha muitas oportunidades. O Carrefour tinha um escritório de compras e eles estavam procurando uma pessoa, uma brasileira, para falar português e chinês, para assessorar o diretor brasileiro. Então, eu fui trabalhar - saí da Varig - no Carrefour, com Compras Internacionais. Também foi um período muito rico, porque eu aprendi coisas diferentes do que eu sabia. Eu tinha trabalhado cinco anos em companhia aérea e viagens, no turismo e o mundo empresarial é um mundo diferente. Compras é uma coisa bem interessante, então foi para mim também outro desafio interessante. 

Através de todos esses contatos que eu tinha em Hong Kong… Era a época dos Tigres Asiáticos, então muitas pessoas do mundo inteiro iam para a Ásia. Eu, por conta disso, tinha um grupo de amigos de várias nacionalidades, inclusive francesa, e nisso conheci o meu esposo. Eu comecei a namorar com um francês, deixei Hong Kong e fui para a França, então não voltei para o Brasil direto.

 

(33:30) P/1 – Como foi a sua vida na França? Você se estabeleceu como? (risos) 

R – Então, na França, como eu não tinha a graduação… Nisso, quando eu estava na Varig ainda, eu voltei para o Brasil, pensei em voltar para a USP. No final, eu decidi que eu não ia voltar para o Brasil. 

Quando eu fui para a França, eu passei o diploma que eles precisam para... Eu fiz uma equivalência do vestibular e eu entrei na faculdade lá. Fiz a faculdade para poder ter um diploma francês, para poder me integrar no mercado de trabalho francês. E…

 

(34:17) P/1 – Você continuou? 

R – Depois da faculdade, teve várias coisas na minha vida pessoal e foi muito tempo depois que eu fiz a minha especialização, o mestrado em Compras. Na França eu sempre busquei trabalhar com o que eu tinha trabalhado no Carrefour, então com compras, com importação e exportação.

(34:49) P/1 – Lúcia, como é que foi a sua adaptação na França?

R - Ela foi em vários níveis. Primeiro do clima, porque eu saí do Rio de Janeiro. Depois fui para Hong Kong, que é uma cidade tropical, muito calor também. E você chega num país muito seco, com um inverno. Onde eu morava não era frio, mas era um inverno longo, que durava de novembro até fevereiro, então foi muito sofrido. E foi nessa época que eu vi o quanto era importante para mim morar num lugar quente e perto do mar também. Hong Kong era uma ilha, Rio de Janeiro… A minha referência de cidade é Rio de Janeiro, então foi muito difícil, nesse sentido. Depois foi difícil também porque, quando eu fui para a França, eu já tinha mais de 25 anos, então eu voltei para a faculdade. Os meus colegas de faculdade tinham dezessete anos, então era muito diferente. 

Eu tinha vindo da Ásia, da época dos Tigres Asiáticos, então tudo acontecia na Ásia, principalmente em termos de tecnologia. [Quando] eu cheguei na França, eles ainda usavam telex e o fax ainda era muito muito raro, algumas pessoas tinham. Eu tinha um fax no meu computador, mandava fax pelo computador; eles achavam isso uma coisa de outro mundo, porque eles ainda tinham um aparelho fax que você colocava, para passar. 

As telecomunicações em Hong Kong são muito avançadas. Em Hong Kong você está andando na rua, de repente você vê um poste com telefone. E aí você podia telefonar, porque a ligação local era gratuita. E, mesmo quando você ligava de um orelhão, era um dólar de Hong Kong e você ficava a noite inteira falando. [Quando] cheguei na França era complicado telefonar, era muito caro, então era uma coisa muito... 

Foi muito estranho. Em termos de comida também, porque o francês come muita manteiga e muito creme, laticínios, iogurte e queijo. E eu, como boa asiática, não tenho as enzimas que digerem o laticínio. (risos) Para mim foi sofrido, não tinha muita verdura porque não é um país tropical, então você tem alface... Bom, foi muito, muito estranho. E os franceses... Eu falava francês porque comecei a fazer francês quando eu estava na faculdade, eu já fazia francês. Então, eu falava francês em Hong Kong. 

Ah, sim, você perguntou o que eu estudei. Eu estudei francês, eu sempre quis. Quando eu estava na faculdade eu me apaixonei pelo Gérard Depardieu e eu falei assim: “Nossa, eu tenho que assistir, eu tenho que ver os filmes dele na língua original!” Em Hong Kong eu continuei e, quando eu cheguei na França, eu não tinha muita dificuldade nesse sentido, mas o jeito de pensar francês é muito diferente. 

Na faculdade foi muito difícil, porque eu estudei em escola de freiras, em escola de padres, onde não te pedem pra ter um espírito crítico e a educação francesa te impõe um espírito crítico. Tive muitas notas ruins, não porque eu não entendia as coisas, mas porque o jeito de pensar é completamente diferente do jeito brasileiro, na educação. Porque aqui, a gente... Eu sou da época que a gente tinha que fazer uma redação por semana: “Ah, faça uma redação das suas férias” e tal. E na França era assim, o professor perguntava assim: “Do texto, o que você entendeu?” E eu recitava exatamente o que ele falou e ele falava assim: “Mas não foi isso que eu pedi”. Ele pedia sempre uma leitura crítica e eu demorei muito tempo para entender isso. Então, foi bem... A mentalidade... Pra mim foi um susto, porque é uma mentalidade ocidental, mas ela é muito longe da mentalidade que a gente tem no Brasil.

 

(39:45) P/1 – Voltando um pouco, como foi ser criada em meio a duas culturas diferentes? Existe alguma semelhança entre a cultura chinesa e a brasileira?

R - Então, recentemente, para um trabalho que eu fiz para CPFL, a gente falou dessa semelhança entre a cultura brasileira e a chinesa. E a semelhança maior que tem entre as duas culturas é a resiliência, porque o chinês também passou muitas dificuldades, mas ele é perseverante. O nordestino é perseverante. O nordestino e o chinês são muito parecidos, porque são migrantes; eles vão buscar oportunidades, eles se propõem a ficar anos longe das famílias para poder proporcionar uma vida melhor. Então, são dois povos muito resilientes e muito perseverantes. 

Dito isso, eu, como filha de chineses imigrantes, eu tive muita dificuldade, porque a gente cresceu no Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro é uma cidade costeira, muito calor. A minha avó falava que a gente, que as roupas que a gente usava eram muito decotadas, ou muito isso, muito aquilo. Você tem um jeito do chinês de analisar, de olhar as coisas, que eu não entendia, quando eu era mais nova. E hoje, pesquisando a China, tendo morado muitos anos na China e Hong Kong, para mim isso não é um problema. Então, quando você fala assim: “Lucia, como era?” Quando eu era jovem era muito difícil, eu não entendia. Eu não entendia meus pais, eu não entendia minha avó, a gente não entendia a mentalidade. E hoje, depois de tudo, essas mudanças todas de países, eu vejo em que pontos eu consigo apreciar a cultura chinesa. 

Hoje eu posso te dizer que eu tenho cartas na manga. Eu tenho cartas na manga onde eu sou chinesa, onde eu sou brasileira, onde eu sou francesa, porque eu sou binacional francesa, por conta do meu casamento. 

O chinês e o brasileiro têm essa coisa da resiliência, da perseverança, do labor, eles não temem o labor. O francês, eu diria que o francês e o chinês têm semelhanças também, porque eles têm essa coisa muito forte com família - o francês, tanto quanto o chinês. O brasileiro, numa medida um pouco diferente, mas para o francês é fundamental a família. Eles trabalham para a família, para o melhor bem-estar da família. O chinês também é assim, as reuniões de família são importantes, estar com a família é importante, preservar os seus idosos é fundamental. A gente também tem isso um pouco no Brasil, o Brasil é uma questão afetiva, mas para o francês e para o chinês é uma questão moral. Tem o afetivo, mas tem a questão moral, aquela coisa de você não poder... Não tem como você deixar os idosos, sendo que eles cuidaram de você antes. Então, uma coisa que vem também... Aqui no Brasil a gente também tem isso, mas a gente tem muito a questão do: “Ah, meus avós e tal”, mas a gente não tem isso como um dever cívico e eles têm isso muito forte.

 

(43:53) P/1 – Como se fosse um respeito aos seus ancestrais?

R – Exatamente, à sua história. Porque, na verdade, é exatamente isso, Grazielle. É que a gente sabe que só conhecendo a sua história que você vai conhecer o seu futuro. E o chinês tem um ditado assim, ele fala: “Para você saber como vai ser o futuro de uma nação, você só tem que ver o passado dessa nação”. Então, é muito forte isso. 

O francês tem muita essa coisa de honrar o passado, de respeitar, de estudar, de entender e de acessar o passado. E então é isso mesmo, é fundamental e isso a gente não tem na nossa cultura brasileira, né? Na nossa política de educação e no nosso entender como civilização, como nação, a gente não entende que a nossa história é fundamental para a nossa construção. Então, sim, passa por isso, mesmo.

 

(45:03) P/1 – Falando em História, é conhecido que a China tem uma cultura milenar. Tem algum conhecimento que foi passado de geração em geração, na sua família?

R - Eu acho que tem a questão dos ancestrais, muito forte, de honrar os mais velhos, de sempre lembrar deles. Na minha família eu acho que o que é mais forte, no global, é a adaptação, a capacidade de adaptação. Porque, como eu disse, meu pai e meu tio chegaram, depois eles trouxeram todo o restante da família. A família toda já mudou para várias cidades, várias casas, vários lugares e tanto eu, quanto meus irmãos e meus primos, a gente não tem uma história de separação, de dor, mas a gente tem uma história assim: “Nossa, nós temos amizades em vários lugares do mundo, em várias cidades.” A gente tem muitas amizades. Para a gente não foi assim, não foi um sofrimento. 

Quando eu vim para o Brasil com os meus filhos, para o meu filho mais velho foi um grande sofrimento, porque fazia onze anos que ele estudava na mesma escola, com os mesmos amigos. E eles falam de transplantação, eu transplantei o meu filho, eu tirei, eu o desenraizei’ de onde ele estava e eu o trouxe para o Brasil. Enquanto que eu e meus primos, a gente não sente esse desenraizamento, talvez porque a nossa família seja desenraizada, num certo sentido. 

 

(47:11) P/1 – Voltando um pouquinho para a França, quanto tempo você ficou lá?

R - Quase dezessete anos. Bastante tempo.

(47:22) P/1 – A adaptação do seu filho você quis dizer da França para o Brasil, né? 

R – (risos) Sim porque, como eu disse, teve várias mudanças na vida pessoal. Eu me casei, eu tive filhos e eu vim para o Brasil. Voltei para o Brasil tem só nove anos, então meus filhos já eram nascidos; meus filhos são todos nascidos na França e eles chegaram alfabetizados no francês. Foi todo um movimento inverso, para eles.

(47:59) P/1 - E você tem quantos filhos?

R – Três.  

(48:04) P/1 – E quais os nomes deles?

R – Gabriel, Cloé e Matias. 

(48:14) P/1 – E como foi a sensação, para você, de ter sido mãe pela primeira vez? 

R – É uma coisa... Ser mãe sempre foi um sonho. E como eu fui mãe na França, foi muito interessante, porque na França eles pensam a maternidade de uma outra forma. No Brasil eu tenho muita impressão que, muitas vezes, principalmente as jovens, não pensam ser mães; elas são mães, elas se tornam mães, porque o acaso faz com que [se tornem]. Na França isso é muito construído, porque o lugar da mulher é muito mais marcado, principalmente na vida profissional. O trabalho na vida da mulher é fundamental, então elas pensam muito a maternidade, a maternidade é planejada. 

Para mim, a maternidade sempre foi muito desejada e eu vivia um embate muito grande com essa coisa da vida profissional e da vida familiar. E como eu não tinha mãe, avó, tia do meu lado, eu me apoiei muito em livros ali, muita coisa sobre psicologia de criança, de bebê, de como estar. Eu pensei muito a maternidade e para mim, foi uma experiência... É uma das... Acho que é o top três das experiências mais ricas da minha vida.

(49:59) P/1 – Você comentou, que você está no Brasil há nove anos. E quando você começou a fazer o mestrado? E sobre o que é o tema, também?

R - Nós voltamos para o Brasil em 2012 e eu comecei a fazer a pesquisa, comecei a pesquisar sobre imigração chinesa no começo de 2019. Consegui entrar no mestrado, ingressar agora em 2021, por conta de percalços burocráticos, enfim. Como tem prazo, não consegui ingressar mais cedo. Mas foi interessante porque, desde então, eu tenho feito a pesquisa. 

Eu comecei a pensar nessa pesquisa porque, quando eu voltei para o Brasil, eu sempre... Quando eu voltava, sempre falava assim: “Poxa, não tem história, não tem estudo sociológico sobre a imigração chinesa”. E por ter crescido no meio de imigrantes chineses que chegaram antes dos anos sessenta… Esses imigrantes viveram histórias: o crescimento do Brasil com Kubitschek, viveram hiperinflação, viveram a democratização. Eles têm umas histórias que eu ouço da família, até mesmo a história da construção de Viracopos. Na época, Viracopos ia ser o aeroporto, não ia ser Guarulhos e, por questões de negociações entre partidos e política, ficou Guarulhos. E que Viracopos... Enfim, essas histórias achei muito interessantes, porque elas eram contadas por imigrantes e eu falei: “Nossa, é uma parte da história que brasileiro não conhece também, porque eles não viveram isso, né? E também por não ter estado [lá], se você não está em Campinas não vai saber muito da história de Viracopos.” E eu pensei, falei: “Nossa, precisa registrar isso”. E aí eu comecei a pensar a pesquisa e esses chineses já têm oitenta anos. Então, foi assim que eu comecei a pensar em registrar o que eles contavam de quando chegaram. 

 

(52:42) P/1 – Essa sua pesquisa, pelo que eu notei, é mais história oral, né? É difícil encontrar documentação sobre imigração chinesa no Brasil?

R – É, porque é difícil... Como eu falei da minha pesquisa, pensei em entrevistar essas pessoas que já têm oitenta anos hoje. E foi começando a pensar essas entrevistas que eu vi que muitos deles tinham familiares chegados antes de 1950. E aí eu pensei: “Puxa, mas essa história ainda não está registrada. É melhor começar antes, então”. 

Começando antes, você tem poucos documentos. Tem poucos documentos sim, tem pouca bibliografia. Tem documentos, mas eles são informais. Por exemplo: o Arquivo Nacional tem milhares de documentos dos chegados do começo do século XX, mas não é uma coisa formalizada, eles têm muitas coisas ainda a serem formalizadas.

 

(54:12) P/1 – Agora a gente está indo para a parte final da entrevista e são perguntas mais pessoais...

R - Mais pessoas ainda? (risos)

(54:22) P/1 – (risos) Não, mas para saber mais o seu hoje e o futuro. A gente queria saber quais são as coisas mais importantes para você, hoje?

R – Hoje, para mim, o que é fundamental é educação. E acho que a gente está vivendo um momento muito crítico da história do país. É um momento muito crítico em todos os sentidos, porque a gente saiu de uma ditadura, a gente foi para a democratização, depois tivemos um crescimento econômico que foi lá para o... Que subiu bastante e hoje a gente voltou para um ponto já visto há dez, vinte anos. 

Eu penso que o único jeito do Brasil se tornar uma nação do futuro, como a gente sempre ouviu falar, quando eu era pequena, é realmente educar. Educação é fundamental, educar o brasileiro. Isso, para mim, é o primeiro ponto, para mim é fundamental e eu falo muito com os meus filhos sobre isso. O segundo é a conclusão da minha pesquisa. A minha pesquisa, para mim, é fundamental, porque hoje... Ainda ontem eu estava lendo um trecho sobre a história do... Um artigo do Boris Fausto, onde ele fala dos imigrantes e os imigrantes orientais no Brasil são os libaneses e sírios, que todo mundo chama de “turcos” - e eles não são turcos - e os japoneses. Os chineses, nós não chegamos em números... Nem organizados, como chegaram os japoneses e nem em números grandes, né? Não foi uma leva, o japonês chegava por milhares, em barcos. Os chineses vinham em dezenas, centenas, e apesar disso, tem chineses no Brasil e esses chineses têm uma história, então para mim é fundamental, essa pesquisa é fundamental. 

Eu não sou a única que estuda a imigração chinesa, nós somos um grupo dentro da USP. No Brasil inteiro tem muitas pessoas que se interessam por essa parte da China. E para mim é fundamental que essa história seja mais conhecida, que seja mais divulgada na sociedade brasileira. Então, esse é o segundo ponto. 

E o terceiro é... Tomara que a gente consiga, que os meus filhos consigam ainda ver, enxergar a Amazônia. Para mim a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal… Eu espero que a natureza seja tão resiliente quanto é o nordestino, quanto é o brasileiro. Que ela consiga se repor. 

 

(57:43) P/1 – E quais são os seus sonhos para o futuro?

R - São esses, Grazielle: educação e chances iguais para todos. Eu acho que a gente está vivendo em... A gente está olhando as coisas de um modo muito centrado em si, no Brasil. E eu acho que o mundo, acha que uma sociedade só vive bem quando ela vive junto. E acho que esse viver junto não tem que, necessariamente, você ficar abraçando todo mundo na rua, mas pelo menos ter um mínimo de respeito e consideração pelo outro, porque o outro, a alteridade, vale tanto quanto você e ela também constrói, junto com você. Todo mundo se levanta de manhã para ir trabalhar, todo mundo sua a camisa em níveis diferentes, em níveis de educação, em níveis de possibilidades diferentes, mas acho que o intuito está ali. Então, eu não vejo por que ter tantas disparidades no Brasil por conta disso e desrespeito. 

Para mim, esse é o meu maior sonho em relação ao Brasil, mesmo. Porque, quando eu vivia fora, eu vi, eu consegui antever, eu consegui enxergar um pouco desse Brasil, que seria o ‘Brasil do Futuro’ que eu vi, desde muito pequena. E durante uma década, uma década ou um pouco mais, eu consegui ver que o mundo inteiro, no mundo inteiro as pessoas tinham orgulho do Brasil. Quando teve a Copa do Mundo e eu estava em Hong Kong, era muito engraçado, porque eu tomava o ônibus para ir trabalhar e era todo mundo ligado: “Mas vocês viram o Brasil? Vocês viram?” Naquela época era o Bebeto, o Bebeto e o Romário que estavam no... “Ah, Brasil...”. 

O Brasil é um país que é olhado pelo mundo, muitas vezes, é olhado por muitas pessoas no mundo inteiro e quando a gente está no Brasil, a gente não tem noção disso, porque a gente é um país continente. Mas quando você vai lá para fora, para você ter uma ideia, na China eles conhecem a Escrava Isaura e a Lucélia Santos é super conhecida na China, então é uma das novelas mais... O meu sonho é que a gente retome esse caminho de progresso e de orgulho, mas não orgulho da bandeira, sabe? Orgulho de ser o que a gente é, com todas as miscigenações e os povos que constituem esse país, não é só um povo.

(01:00:56) P/1 – Por último, como é que foi contar sua história?

R - É muito estranho. (risos) Porque eu que tô... (risos) É estranho estar do outro lado do... (risos) Porque geralmente eu que faço isso para a minha pesquisa, eu que pergunto. Mas é, ao mesmo tempo, interessante, porque eu sou filha de imigrantes e os imigrantes não contam essa história desse jeito, porque eu já sou uma outra parte, né? Por exemplo: entre os imigrantes, nós somos os brasileiros: “Ah, os brasileiros, são brasileiros”. É muito interessante, (risos) foi uma experiência bem, bastante... Me toca, fiquei tocada com isso. (risos)

(01:01:52) P/1 – Que bom! Então, eu agradeço, em nome do Museu da Pessoa e em meu nome, muito obrigada pela sua entrevista!

R – Obrigada você, Grazielle. Vai ser um prazer, tô curiosa em ver o trabalho que vai ficar, o resultado do trabalho. Mas obrigado por esse interesse também pela imigração chinesa e, claro, faz parte de todo um projeto, mas é assim, né? Aos poucos a gente vai construindo um caminho para chegar lá. Obrigada pelo interesse! 

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