Busca avançada



Criar

História

Em busca da independência

História de: Karina Royas Marques
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/01/2021

Sinopse

Infância em Santos. Gosto pela leitura. Interesse pelos estudos. Graduação em Direito. Concurso público. Desafios por ser mulher em uma área anteriormente dominada por homens

Tags

História completa

Eu me lembro claramente de eu ter tipo, 15 anos, estar começando a despertar aquele meu lado assim de vaidade e não sei o que, aí a minha mãe falava: "Filha, eu só vou te falar uma coisa, seja independente. Estude e trabalhe pra você se garantir, pra você não ter que depender de ninguém. Não interessa a profissão que você vai escolher, mas seja independente". Então tipo, não pare de trabalhar porque casou, não pare de trabalhar porque engravidou, sabe? Continua na estrada.

A minha mãe era uma pessoa super antenada, super a frente do tempo dela. Ela usou calça comprida quando mulher nem sonhava em usar calça comprida, e as que usavam eram taxadas de guerrilheiras, maconheiras, sei lá, esse tipo de coisa. Então ela foi uma mulher inspiradora. E sempre em movimento, sempre se atualizando, nunca parou. Mesmo aposentada abriu uma empresa de consultoria, que ela gostava daquela área. É e sempre foi, e sempre será a minha inspiração, a minha mãe.

Eu me lembro perfeitamente, a prova foi em fevereiro, fui num domingo em fevereiro, a prova do concurso. Foi assim, uma das madrugadas que mais choveu em Santos, se você procurar acho que fevereiro de 94, teve uma madrugada de sábado para domingo que alagou Santos, alagou. Começou a vazar água do forro pelo meu ventilador de teto, nunca vi aquilo na minha vida. Começou a voar água, o meu quarto inteiro, o meu computador... Assim, os meus livros, que era o que eu tinha de mais precioso.

Eu fiquei com água, tipo assim, uns três ou quatro palmos de água, o meu carpete, minha mãe arrancou o meu carpete depois, porque ficou um cheiro, minha rinite atacou. E aí eu falei: "Mãe, eu acho que eu não vou. Não tem condição", porque choveu a madrugada inteira e a prova era tipo, sete horas da manhã. E o meu colégio era o Primo Ferreira, que era na Vila Belmiro. Que é aqui perto. Eu tive um Escort na época, carteira nova, e eu fiquei um pouco com medo. Eu não dormi nada.

Nunca foi fácil, nunca. Isso é assim. Então eu falei com a minha mãe, sem dormir, a casa alagando, a cidade inteira embaixo d'água. Aí eu falei: "Mãe, eu acho que eu não vou". E aí a minha mãe ficou falando assim: "É, filha, é verdade, porque eu acho que você vai correr um risco desnecessário, né? Deixa pra lá, é uma pena, você pagou a inscrição, você tá bem preparada... Poxa o negócio aqui na cidade, um negócio legal então né, a Naíla pagou pra você, fez tudo pra você. Mas eu acho melhor pela sua segurança".

Aí sabe quando você para um pouquinho, aí você olha e você fala: "Quer saber?", eu acho que é nessa hora, quando tudo fala para você não ir, não fazer, é nessa hora que eu vou. Porque sou brasileira, eu. Eu falei "quer saber? Eu vou nesta merda".

Aí fui prestar o concurso, sem dormir, cansada, nervosa e aí foi toda uma epopeia para eu chegar, que se eu contasse para vocês... Gente a cidade, o meu carro quase fundiu o motor. Porque a cidade estava embaixo d’água.

O barulho da água, da perna fazendo uma força para chegar. E eu falava: "Gente, o que é isso que eu estou fazendo? O que é isso que eu estou fazendo?". Eu com medo de pisar em algum buraco, em alguma lata... Sei lá, xixi de rato, sabe aquelas coisas que você fica pensando? Em cair num bueiro, cortar meu pé, sabe assim? Aí eu tirei o sapato, porque eu ia perder, tirei sapato e fui descalça. Com a calça arregaçada até aqui. Agarrada na minha mochila, eu totalmente ensopada, aí consegui chegar no Plinio Ferreira, o índice de abstenção foi grande, pelo menos do meu colégio.

Então assim, em Santos caiu aquele diluvio, mas nos outros lugares não. Então foi bem legal, foi bem concorrido. E a prova foi uma prova que depois nunca mais eu vi uma prova igual.

A minha amiga que fez tudo pra eu fazer a prova não passou (risos). Nossa, na época eu fiquei muito chateada, coitada. E ela ficou bem chateada também.

Uma das minhas primeiras experiências, que eu fiquei assim, tão chocada, foi que um senhor, porque ele era um senhor, hoje já é falecido, mas ele chegou pra mim e falou assim: "Você não vai durar aqui. Eu não dou um ano pra você não estar mais aqui. Você não vai aguentar, isso aqui não é pra você. Você não tem ideia do que é isso aqui, você não devia estar aqui". Ele falou assim. Depois a gente cresce e vai entendendo, como é que foi o concurso público, como é que conseguiam fazer o concurso público de 94, porque eles fizeram concurso público. Então, assim, eles não queriam, eles queriam que aquilo passasse de pai para filho, entendeu? Eles não queriam que fosse aberto para o concurso público, principalmente para mulher entrar, entendeu? Eles achavam que aquilo já era garantia para a prole deles. E aí caiu por terra. Até porque a maioria dos filhos deles não conseguiram passar na prova. Então era aquilo: "Eu não deveria estar ali", "Eu não vou durar". Tinha toda uma conotação não só de ignorância, de preconceito, era uma coisa mesmo de raiva, de inveja. Aquele senhor principalmente porque o filho dele não entrou.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+