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História

Em alto mar ou em terra firme, sentimos falta da tal normalidade

História de: Antônio José de Souza Simões
Autor: Thalyta Pedreira de Oliveira
Publicado em: 12/07/2021

Sinopse

Antônio José Simões faz um relato paralelo em relação às atividades de seu trabalho na Petrobrás e sua vida pessoal. Trabalhando embarcado em plataformas de petróleo por quase dez anos, em Fortaleza, ele fala de sua sensação de isolamento social nas plataformas, longe da família e dos amigos e, até mesmo, da falta da rotina do dia a dia, de não poder retornar à casa ao final da tarde, após cada dia de trabalho. Após quase uma década atuando em alto mar, mudou-se para Mossoró, exercendo atividades operacionais relacionadas às plataformas, mas “em terra”. Lá, realizou seu sonho de estudar e concluir um curso de graduação. Participou também, ativamente, no movimento sindical. Pela sua perspectiva, o relacionamento entre os trabalhadores e a empresa foi mudando ao longo dos anos, tendo mudado para melhor.

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História completa

Projeto: Memória da Petrobrás Depoimento de: Antônio José de Souza Simões Entrevistado por: Elodí Aleburg São Paulo, 15 de fevereiro de 2005 Realização: Museu da Pessoa Entrevista: RNCE_CB003 Transcrito por: Écio Gonçalves da Rocha Revisado por: Cristiane Yayoko Ikenaga Fernandes P – Boa tarde. Eu queria que o senhor começasse a entrevista falando para a gente seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R – Boa tarde. O meu nome é Antônio José de Souza Simões. Eu nasci no dia 2 de agosto de 1961 em Fortaleza, Ceará. P – Antônio José, como e quando você entrou na Petrobrás? R – Eu entrei através de concurso que foi realizado em 1982. Fiz o concurso em 1982, mas só fui chamado em março de 1983. P – Você fez concurso para que? R – Para a função de operador. P – E aí você fez concurso aqui para Mossoró? Para onde? R – Não, eu fiz em Fortaleza, o concurso para trabalhar em regime offshore lá em Paracuru, Ceará. P – Paracuru. E como foi isso? Você ficou quanto tempo lá? R – Bem, em 1983 eu fui chamado. Fiquei lá exatamente de 21 de março de 1983 até 15 de março de 1994. P – E o que que era ser operador? O que que você fazia? R – Como operador offshore você trabalha na estação de óleo, em alto mar. Lá, são águas rasas. As plataformas de Paracuru ficam na faixa de 45 quilômetros da costa. A profundidade média lá é de 45 metros, águas rasas. O operador é responsável pela produção de petróleo na plataforma. Lá, eram na época, oito plataformas e havia revezamento, trabalhando em regime, inicialmente, de sete dias e folgando outros sete. Depois, trabalhava 14 por 21. P – Trabalhava 14 dias e 21 de folga? R – Com 21 dias de folga. P – E eram oito plataformas? R – O total lá são oito plataformas. P – Mas aí você trabalhava em uma ou em todas? R – Geralmente você trabalhava em uma plataforma, passava um tempo, depois você ia para outra. Dependendo, você poderia passar um, dois, três anos em uma plataforma, depois ir para outras plataformas. P – E o que que você achava de trabalhar embarcado? R – Eu achei muito estressante. (PAUSA) P – Então, para a gente retomar de onde a gente parou, você estava falando para a gente da sua trajetória profissional nas plataformas. Você estava falando que era muito estressante esse dia a dia de trabalho, por quê? R – Como a gente sempre costumava dizer por brincadeira, você estava sempre... você trabalhar na plataforma de petróleo, é como se você estivesse em uma prisão. Você sai em uma condicional, passa 14 dias em casa e depois volta para a prisão novamente. Você está em uma plataforma, às vezes, tudo bem. Nossas plataformas no Ceará são plataformas pequenas, você tinha às vezes 200, 300 pessoas e você sentia como se estivesse sozinho em uma ilha deserta porque o isolamento é grande em relação, principalmente, à família. Você só tem contato por telefone. Perde todo o contato, só simplesmente contato por telefone. Então, esse isolamento da vida diária, da sua família, dos seus amigos, dos seus parentes é completamente diferente. Você está trabalhando isolado deles e depois de um certo tempo que você volta é que vai vê-los. E você vai ter um ritmo de vida diferente da vida das pessoas que você conhece. Então, isso faz com que você tenha uma vida muito estressante quando você trabalha. Eu sempre falo que um dos piores dias é o dia anterior ao embarque e o último dia na plataforma, que são as duas piores ansiedades que temos. Isso é um desgaste muito grande que leva muita gente a sair, a pedir para sair. Inclusive, eu pedi para sair. Em 1992, eu pedi para sair e fui trabalhar no escritório, lá em Fortaleza, na parte administrativa, na base, porque eu não aguentava mais essa vida de embarques e desembarques. P – Isso foi em 1992. Então você ficou mais ou menos dez anos embarcando? R – Precisamente nove anos. P – Nove? E aí você pediu para mudar para essa área administrativa. O que que você passou a fazer nessa área, em Fortaleza? Como você passou a ver seu trabalho, essa mudança? R – Eu passei a dar apoio ao pessoal das plataformas, apoio com material, com alimentação, parte de todo o apoio logístico das plataformas. Essa parte de diversão, filmes, conserto de equipamentos, de televisores, apoio às plataformas. Eu fiquei trabalhando nessa parte. E, na vida, é como se tivesse dado um salto qualitativo muito grande porque você volta, como se diz, à normalidade da grande maioria das pessoas que você conhece. Trabalhar de segunda a sexta e, às cinco horas da tarde, está em casa. Dormir em casa e no outro dia, ir trabalhar. Finais de semana em casa. Pegava os feriados em casa. Final de ano em casa. Natal, nas festas, em casa. Diferente daquela rotina que você vivia no mar. Então, para mim, foi um salto de qualidade muito grande, de vida, apesar de que, financeiramente, você sai perdendo porque você... P – Dá muita diferença? R – Muita diferença. Você perde metade do salário porque, trabalhando lá embarcado, ganha os adicionais inerentes ao serviço, que você perde quando vai para terra. Você perde 50% do seu salário, mas você ganha em qualidade de vida, que não se paga. P – Claro. E aí você ficou de 1992 até que período nesse trabalho em Fortaleza? R – Até eu ser posto em disponibilidade que, na época, era comum colocar em disponibilidade. Meu serviço não era mais necessário lá, e eu tive que ir atrás de um outro local pra trabalhar. Aí, em março de 1994, apareceu essa oportunidade para vir para Mossoró e eu vim para cá. P – Então você ficou pouco tempo trabalhando nesse apoio logístico? Foi de 1992 a 1994? R – Exatamente. P – E por que que o seu trabalho não era mais necessário? P – Questões administrativas, político-administrativas. Aí é mais no âmbito interno da Petrobrás, que não tem uma explicação lógica. Nem eles dão uma explicação lógica, nem se conhece a explicação lógica. Simplesmente é isso. Você não é mais necessário aqui, estão reduzindo pessoal. Justamente foi nessa época que, praticamente de 1994 até 2000, que houve redução de pessoal dentro da Petrobrás. E reduzindo postos dentro das unidades, dentro dos setores, e com isso, eles me colocaram em disponibilidade porque também eu não era oriundo de lá do administrativo, eu era oriundo de... eu era operador de petróleo. O meu local de trabalho era na parte operacional, e não, administrativo. Então, reduzindo o pessoal administrativo, praticamente aquele pessoal que não era alocado, não ficou no administrativo. P – E aí em 1994 você conseguiu vir para Mossoró. Quando você conseguiu essa transferência? Você veio trabalhar em que? R – Foi necessidade de pessoal mesmo, aqui na área. O campo de petróleo crescendo, e eu, como operador, o pessoal disse: “Nós estamos precisando de operadores no campo de petróleo do Campo do Amaro”. Aí eu vim fazer uma entrevista, conhecer a área, acabei sendo aprovado e ficando para trabalhar na parte operacional, que é da minha mesma área, só que sendo em terra. P – Em terra. Aí você se mudou para cá? R – Isso. Aí eu me mudei para cá. P – E a sua qualidade de vida? R – Foi bom. Minha qualidade de vida... P – É porque você, de certa forma, conseguiu unir duas coisas, a sua profissão e o trabalhar em terra, certo? R – É, mas aí você também tem que ver por outro lado. Você sai de uma cidade grande, uma capital, Fortaleza, para vir para uma cidade do interior. Fortaleza, com dois milhões de habitantes para uma cidade com 200 mil habitantes. Então, há esse contraste. Mas também eu pude, aqui, realizar... não seria um sonho, mas cumprir uma faculdade, estudar. Até hoje eu continuo estudando, fazendo curso superior. Vamos dizer que a minha qualidade de vida continuou. Manteve-se. Alguns aspectos tiveram melhoras. Nesse aspecto, eu consegui cumprir meu curso superior. P – Que é o que? R – Ciências Sociais, que eu ainda continuo fazendo. Eu concluí o bacharelado e, agora, estou fazendo licenciatura. E nesse aspecto eu acho que melhorou. Agora, por outro lado, você tem uma cidade bem menor, com menos recurso, com falta de lazer, com falta de... com algumas coisas que faltam, que tem nas grandes cidades, ___ na parte de lazer, de diversão, de bons médicos, bons colégios para os filhos. Então, tudo isso você sente a diferença, apesar de hoje, a cidade de Mossoró ter crescido. Nesses últimos dez anos que eu já estou aqui, completou agora 11 anos, está completando 11 anos, houve uma melhora muito grande, mas você não compara com uma cidade, com uma capital que tem outros recursos. P – E aí, nesses 11 anos de Mossoró você trabalhou como operador? R – Isso, continuo como operador. P – Qual que é a diferença, no trabalho, de estar na plataforma e estar em terra? Muda muita coisa? R – Sim, claro. Muda muita coisa. O serviço de terra é um serviço mais tranquilo, é um serviço, vamos dizer, que requer menos qualificação. É um serviço de menor qualificação. É menos arriscado, porque quando você está em uma plataforma, você está sentado em cima de um barril de pólvora com o pavio apagado. Qualquer hora alguém pode acender. E aqui não, aqui você não tem essa preocupação. Então, é um trabalho mais tranquilo. Fora que também é um regime administrativo, que você está todos os dias em casa. Cinco horas da tarde você está em casa sem nenhum problema, diferente da plataforma. P – E são mais ou menos 20 anos que você está na Petrobrás? Você entrou em 1983? R – São 22 anos. P – 22? R – Dia 21 de março. P – Isso. Nesse tempo todo, quais são as suas lembranças marcantes do trabalho? Você tem alguma história que você queira contar para a gente, uma história interessante ou engraçada? R – Assim... não. Marcante para mim... você não pode contar só a parte de trabalho porque você tem trabalho e, também, a parte de luta, de trabalhador. E eu acho que para mim, a coisa marcante na Petrobrás, foi minha primeira greve na Petrobrás. P – Tá, então vamos para isso. Você está falando de greve. Você é filiado ao sindicato? R – Sim. P – Você se filiou quando? R – Em 1983. P – Ainda no Ceará? R – Isso, ainda no Ceará. P – E aí você chegou a assumir algum cargo? Como é que foi essa sua trajetória no sindicato, lá no Ceará? R – Não, lá no sindicato do Ceará eu nunca participei, apesar de ter participado de uma eleição para diretoria de sindicato, mas a minha chapa não ganhou. Mas eu sempre fui militante lá. Participei sempre ativamente, mas principalmente a partir da minha primeira greve, que foi a greve em novembro de 1988, foi a primeira greve da minha vida porque eu comecei a trabalhar em 1980. Fora de 1980, eu comecei a trabalhar e entrei no mercado de trabalho, mas a minha primeira participação em greve foi em 1980, a primeira greve que eu participei na Petrobrás. P – Em 1988? R – Em 1988, isso, em 1988. Entrando em 1983, já sindicalizado em 1983, mas a primeira greve foi em 1988. Então, isso foi um ponto marcante na minha vida, na minha trajetória como militante sindical. P – E por que que foi marcante? O que que aconteceu? Para que que era essa greve? R – Essa greve era campanha salarial de 1988. Ela foi marcante porque foi a primeira. Eu nunca tinha participado de uma greve. Fui considerado, na época, como cabeça do movimento. Estava trabalhando embarcado. Na época, eu estava como supervisor. E, na época, como supervisor era concurso interno, eu estava estagiando. E por essa participação aqui nessa greve, perdi o cargo de supervisão. Então eu acho que para mim foi marcante por isso, porque foi todo em _______. P – Mas você perdeu, como assim? Foi uma punição? R – É, foi uma punição porque como eu estava ainda na fase de estágio, ainda não tinha sido efetivada a minha homologação como supervisor. Aí, depois da greve, o concurso foi anulado. Então, foi uma espécie de punição para quem participou da greve. Então, acho que para mim, isso foi um pouco marcante dentro da empresa, que eu posso considerar assim, como dessa trajetória desses 22 anos, como marcante, seria isso. P – Mas e de 1988 pra cá, como é que foi a sua atuação? Você passou a assumir algum cargo? Em que momento? R – De diretoria do sindicato? Não. Aliás, só quando eu vim para cá, em 1994. Na última eleição aqui para diretoria de sindicato, me convidaram para ser diretor. E eu estou como diretor, de 2004 até 2006 eu estou como diretor. P – Mas e você pode me comparar sobre os momentos de luta lá no Ceará e aqui no Rio Grande do Norte? Como que é essa mobilização do sindicato lá e aqui? R – São coisas distintas porque lá você tem as plataformas e tem um local só de embarque. Então você pode mobilizar com mais facilidade. Você tem a parte administrativa. Lá, nós temos também uma fábrica de lubrificantes, que é a Lubinor, que você mobiliza lá na frente da fábrica. A parte administrativa também, é mais fácil. E as plataformas que você tem um local de embarque, que é na cidade de Paracuru, você mobiliza o pessoal lá. Então, fica mais fácil você mobilizar o pessoal para os movimentos. Diferente daqui porque é muito disperso. Aqui você tem muitos campos de petróleo, que são espalhados por todo o Estado. Fora os campos, você tem estações isoladas, tem sondas de perfuração, sondas de produção, que você tem muita dificuldade de como mobilizar esse pessoal porque são poucos dirigentes liberados. Então, você não tem mobilidade para sair fazendo uma mobilização em todas as unidades. Você faz, geralmente, nas maiores, nas principais. Você consegue abranger um número maior de funcionários. P – Mas, no geral, esses funcionários são interessados pelo movimento sindical? R – Sim, são. Dependendo também da época, dependendo do que se está brigando. Então, se você briga... Quando tem a parte financeira, então, sempre tem uma mobilização maior. A parte financeira... quando mexe no financeiro, sempre há uma mobilização maior, há um interesse maior em participar. Quando o interesse não pega muito na parte financeira, então, já há uma dispersão maior. Mas, no geral, há uma boa aceitação do pessoal, um bom trabalho do pessoal. P- E, para a gente terminar essa parte de sindicato, eu queria te perguntar como que o senhor vê essa relação entre o sindicato e a Petrobrás? R – Hoje eu considero que a relação está bem melhor. É uma relação mais amigável. Há uma abertura maior pra conversação, apesar de não poder dizer isso, que as coisas estão mais fáceis, que nós estamos conseguindo. As nossas reivindicações estão sendo atendidas com mais facilidade. Mas, pelo menos, há uma abertura, um diálogo maior, de melhor qualidade, que você consegue pelo menos chegar e propor, e tentar algum acordo com mais facilidade. Ser aceito, ser recebido, ser bem recebido pela diretoria, pelos gerentes, sem aquela coisa que era antigamente de tentar desmoralizar o pessoal do sindicato, desmoralizar os diretores. Hoje, não. Há um respeito maior dessa parte da diretoria da Petrobrás com os diretores sindicais. P – Certo. A gente está finalizando a nossa entrevista agora. Eu queria saber o que que o senhor achou de ter participado do Projeto Memória e de estar aqui, dando o seu depoimento. R – Eu acho interessante porque os trabalhadores também têm que ter a sua memória, não só a empresa, a Petrobrás em si. Mas o trabalhador também tem que dar o seu depoimento e dizer aquilo que sente, mostrar que trabalhador não é só ali como uma peça de reposição da empresa. Ela faz parte, ela trabalha, ela luta, ela é quem constrói a empresa, é quem está lá com o seu sangue, com o seu suor, que faz essas empresas crescerem. Os trabalhadores estão aí para mostrar que também são patrimônio da empresa. Ok? P- Só isso. Muito obrigado. R – Nada. FIM DA ENTREVISTA
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