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História

Em alto-mar em Macaé

História de: Maury da Conceição Pacheco
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/05/2020

Sinopse

Em sua história, Maury compartilha suas memórias sobre sua trajetória profissional, fala de sua família e de sua grande paixão pela pesca. Ele ainda dá, ainda, seu olhar perante ao crescimento da cidade onde morou desde seu nascimento, Macaé.

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História completa

P/1 – Bom, Maury, primeiro gostaria de agradecer por nos receber.

R – É um prazer!

P/1 – Nos encontramos lá no Mercado de Peixe [risos].

R – Viu como é que são as coisas? Isso tudo acontece porque tem que acontecer.

P/1 – Muito obrigado, viu?

R – Na minha opinião, eu acho que acontece quando tem que acontecer. As coisas acontecem assim, né?

P/1 – É verdade [risos]. Bom, é uma questão de identificação, por favor, nos fale o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

R – Maury da Conceição Pacheco, 20 de dezembro de 1934.

P/1 – Nasceu em?

R – Nascido em Macaé, na Praia do Forte, antigamente era Praia do Forte. Eu tomava muito banho também, hoje já é meio poluída.

P/1 – Praia do Forte é um bairro?

R – É aquele quartel aqui.

P/1 – Mas hoje não é mais bairro?

R – Ali agora é Praia das Conchas, não tem nenhuma concha na praia porque a praia é pequena. Quartel tomou conta de toda ela ali, porque quartel sabe como é, né? Aqui, por exemplo, na Rua da Igualdade ali, ali é tudo casa de sargento, tudo quartel, até lá no cemitério, pertence tudo ao quartel.

P/1 – Tudo residência de militares.

R – É, tem aqui de sargento, tem onde antigamente era a enfermaria grande, um prédio muito grande, entendeu? Eu até vendia bolinho lá [risos], criança, né? Era onde eram escolhidos os soldados, faziam a seleção. Depois com o tempo, que passou para lá, ficou aquele prédio muitos anos, um prédio grande, rapaz, tinha cada quarto. Meu tio Abel, ele fazia embarcação lá dentro, ele tinha muito conhecimento com os oficiais daí. Porque antigamente não tinha poste de cimento, nem de terra. Ele ia no mato e tirava uns postes grandes, para hastear bandeira rapaz, aí levava para lá e botava aquilo para poder hastear bandeira. Eu me lembro até hoje. E fazia barco ali dentro, naquela parte aí.

P/1 – Legal! Olha, eu vou perguntar bastante sobre a sua vida, mas vou começar pelos seus pais, pode ser?

R – Pode.

P/1 – Qual o nome dos seus pais? Conta um pouco sobre eles.

R – Meu pai chamava-se Álvaro de Alcântara Pacheco. Era trabalhador, trabalhava em tamancaria, fazia tamanco, depois da tamancaria foi fazendo tamanco comum, porque antigamente só se usava tamanco, né? Tamanco... fazia o Tamanco de Porto, que era o português, era todo fechado assim na frente. Depois de um certo tempo passou a fabricar sandálias. Mas em 1959 ele faleceu, ele faleceu um ano antes de eu casar. Eu casei em 1960, ele faleceu em 1959. Minha mãe chamava-se Maria da Conceição de Almeida, não, Maria Almeida Pacheco, não tinha Conceição. Conceição ela botou, devido a Nossa Senhora da Conceição, nos filhos. Então ela botou tudo... Maury da Conceição Pacheco, e minhas irmãs, que são mais seis, um irmão e mais seis irmãs, essas outras moram duas no Rio e o resto mora aqui. E a minha mãe era de casa, aquela vida de pobre, né? A gente tinha que trabalhar desde os dez anos, doze anos, foi quando eu comecei a trabalhar. Mas minha pescaria eu não parava, não. Hoje fica aqui, ó, porque o pedacinho de terreno que eu tinha ali eu fiz uma quitinetezinha, aluguei em cima, aquela cozinha. Quem fez até foi o meu filho, quando ele era solteiro ele fez lá em cima quitinete, tem uma areazinha em cima e fizemos a cozinha, aí acabou o meu pedaço e meu material está aqui, esse é o caniço que eu pesco, três braços, tá vendo? Três braços, o caniço que dura um ano, assim ele dura menos, mas ele dura um ano e cinco meses. Ele já rachou os pés porque bate um pouco do sol, mas ele ainda aguenta tirar um peixinho de uns quilos, sete, oito, até de dez eu já tirei ele, até dez quilos eu já tirei ele.

P/1 – A pesca sempre esteve presente na sua vida?

R – A pesca sempre esteve presente, sempre esteve. Robalo, lá no rio. Ali no rio onde servia o robalo, antigamente você chegava na Rua da praia, naquela murada que tem ali, ali você tinha mais de cem pescadores de caniço pescando robalo, dava muito robalo. A gente pescava piava viva, ia buscar piava nesse riozinho, ou camarão, e dali a gente vinha pescar ali, mas dava muito robalo, muita coisa. E tinha os pescadores de robalo que eram canoinhas pequenas, um pescador só. Matava muito robalo, um bichão grande assim, dez, 12, 15 quilos, dependendo do tipo do robalo, tinha o peva, o peva é a fêmea, essa é menor um pouco, quatro quilos, cinco quilos, por aí. E a ____ dá até 18 quilos, cada um desse tamanho assim. E agora a pescaria de robalo é dentro do quartel, o pessoal pesca lá no penachozinho, aqueles camarõezinhos tudo feito de… o pessoal compra tudo em São Paulo, compra aí também. Só de molinete também. Antigamente só tinha caniço, vara de mão assim, agora não, é tudo só molinete. Eu tenho, meu molinete tá ali, até se você quiser eu vou pegar ali para te mostrar.

P/1 – Depois vamos ver sim.

R – Molinete que tem mais de 50 anos.

P/1 – Eu vou retomar um pouquinho pra história da sua família um pouco. Eles já eram de Macaé? Eles nasceram aqui ou eles vieram de outro lugar?

R – Olha, a minha mãe era filha de português, mas eles vieram juntos, quase criança ainda, de Portugal pra Macaé. Aí foi costureira também, costurava um pouco, tinha que trabalhar, né? Depois que casou, aí já fica mais difícil porque na época mais antiga você quase não via seus pais, na família dele, essas coisas. Mas eu lembro bem do meu avô, que quase não gostava de mim, gostava do outro, do primo Cleber, que era o pescador que eu falei para você que morreu no mar pescando, né? Meu avô gostava mais dele, mas eu não esquentava não, eu era moleque novo, mas não esquentava não, nem me preocupava. Mas o outro ia lá e ele já aprontava comida, rede, tudo, pinto calçudo [risos]. Ele tratava o outro, né, o meu tio era uma dama, o pai desse. O filho dele é Abel de Almeida Araújo, irmão de minha mãe, aquele é uma dama, aquele tá no céu, aquele tá muito bem, muito bem mesmo.

P/1 – E como foi essa questão do acidente no mar? Como foi essa história?

R – É, teve um acidente. Saiu uma reportagem grande na televisão. Não aconteceu comigo porque nesse dia eu estava trabalhando. Eu trabalhava na segurança nessa época e eu comecei trabalhando de segurança em 1970, né? Trabalhei no Banerj [Banco do Estado do Rio de Janeiro], depois em 1982 que eu passei pro Banco do Brasil porque o governador Brizola na época tirou toda a segurança particular e botou a PM. Aí eu vim pro Banco do Brasil, que é onde tinha vaga, e fiquei ali até 1987, quando me aposentei. Então nessas folgas, eu trabalhava em escala, na segurança, e quando eu estava de folga, trabalhava à noite, chegava de madrugada e a gente saía daqui cinco horas da manhã, quatro e meia, que ele era pescador, ele era profissional. Eu sempre fui amador, né? Mas eu já adorava desde criança, aí nós íamos pescar. Nem lembro quantos anos faz, mas já faz bastante tempo já. Ele saiu para pescar anchova que eu falei, que ele pescava com varesco, fazia o varesco, você pescava com umas 50 braças de linha, 120, por aí, o anzol. Naquela época você não pescava com penacho como se pesca hoje, hoje tem o penacho, tem a colher. Naquela época a gente cortava pele de porco, raspava, ela ficava branquinha, aí você cortava desse tamanhozinho assim, parece uma sardinha, é assim, uns pedaços miudinhos assim. Aí você metia no anzol, anzol 615, branco de pata, não era argola, antigamente era mais anzol de pato, aí você botava ali, amarrava, chegava assim e passava uns 30 metros da pedra, entendeu? 30 metros da pedra você passando na Ilha de Santana, lá atrás, você ia passando e jogando varesco, batia lá na pedra, você ia puxando. Era muita anchova, dava muita anchova ali, muita coisa. E nesse dia ele foi sozinho, foi na parte da tarde, foi e não voltou mais. Aí começou todo mundo a ficar desesperado procurando, procurando, procurando. Saiu uma reportagem grande na televisão, que tinha um monstro, aquele negócio todo, foi mais reportagem que sumiu, e quatro dias depois, mais ou menos, meu irmão foi reconhecer ele lá no mar do norte, diante de Rio das Ostras, Costa Azul. O barco deve ter, eu, muita experiência com ele lá, quando ventava vinha muita onda, a onda batia nas pedras lá atrás e volta, a resposta. E eu tenho a impressão que o motor, ele gostava muito de motor usado, ele vinha e ajeitava o motor dele todinho. Mas quando você está pescando você tinha que matar, bater devagarinho para você poder varejar e puxar. E ele só trabalhava em pé, para lá e para cá, o mar vinha e ele não estava nem aí, era só nas pianas que ele manobrava mesmo. Eu acho que o motor parou de repente, falhou ou parou, ele desceu, era um barquinho de seis metros, ele que fabricava o próprio barco dele, o pai dele fabricou muito barco, ele fabricava e eu ajudava ele também a fabricar quando tinha tempo, né? E nesse meio tempo que o motor deve ter parado, ele desceu para ver, veio o mar e jogou o barco na pedra. A parte do motor sumiu, o motor agarrado, agora a outra parte que ficou, é assim, né, fez assim. A outra parte, quando acharam, foi uma porção de dias, foi para lá procurar, procurar, procurar, o barco estava todo esfolado isso aqui assim, ó. Quer dizer, foi na pedra que deve ter esfolado. Acharam pedaços e ele acharam em Rio do Norte, o corpo dele, Cléber de Almeida Araújo. Ele só pescava sozinho, eu pescava muito com ele, arrastava muito camarão, nós íamos lá fora atrás da rede, era 80 braças de corda de cada lado da rede, que é chamado de balãozinho, a rede para camarão é chamada de balãozinho, é um funil. Ela tem as portas para cá assim, na lama, então tudo o que está na lama vai jogando para dentro da rede, a rede, já pegamos muito mar bravo lá, muito sudoeste fortão.

P/1 – Você lembra de uma dessas que você passou?

R – Ah, nós passamos um perrengue, ele conhecia muito o mar também, né? Desde novo, desde criança que a gente sempre gostou de pescaria. Mas trabalhou também, trabalhamos juntos em loja de ferragens. Mas ele olhou para a parte do sul aqui, lá dentro d’água, tem aquela barra preta assim, ele falou: “Olha Maury, vamos embora porque vem um temporal feio e vem muito vento”. Estava tudo bem, o tempo normal assim. Aí meteu a mão na rede, 80 braças de corda não é moleza, não, são 160 braças, é de cada lado pra rede vir aberto. Aí meteu a mão, quando ia chegando a rede quase na borda do barco caiu o vento, deu aquela ventania, nós botamos para cima, fomos botando, muito camarão, muita coisa, camarão vermelho, dava muito camarão vermelho. A gente vendia naquela época a 50 centavos o quilo, mas matava muito camarão, muita coisa. Aí viemos, paramos na Ilha de Santana, entramos na beira da praia e ficamos esperando um pouquinho, mas o vento não passava, não. E no sudoeste o mar vem assim, rodando, não vem aquela onda de nordeste, de leste, que vem de frente, mas aí ele perguntou: “E aí, vamos embora ou vamos ficar aqui? ” “Você que é o dono do barco, você que sabe”. Ele conhecia bem o mar. Aí viemos assim mesmo, o vento, o cara tem que saber trabalhar o leme, mas onde não adianta porque esses barcos pequenos normalmente são boca aberta, não tem convés, né? Ele é assim, ó, só tem o banco e não tem o convés em cima, aquele forro, que a água bate e escorre. Ela batia e ficava, mas o esgotador não dava conta. O esgotador a hélice puxa um cano por baixo, a pressão dela vai rodando e vai puxando a água toda do barco, então ela não entra, só sai. Mas tinha que tirar com água também. Tiramos com a lata, aí chegamos tranquilo. Chegamos aqui a água estava barrenta, empoeirada, a beira do cais, aquilo ali era tudo limpo não tinha aquela cobertura lá, mas chegamos bem.

P/1 – Como o senhor aprendeu a pescar?

R – Eu aprendi normalmente porque o meu pai pescava. Meu pai pescava quando tinha folga. Chegava nessa praia que você viu, a Praia da Imbitiba ali, que não tinha nada daquilo, não tinha aqueles quebra-mares ali. Eu era moleque novo e a gente ia para lá com umas linhas, não tinha nem linha para pescar, era uma linha de algodão encascada, tingida com aroeira. Tem uma árvore de aroeira, se você tirar a casca dela e tingir, não tinha nylon para você pescar. Aí nessa praia a gente matava muito peixe, até lá dentro da Petrobrás mesmo, você entrava direto, não tinha Petrobrás, não tinha nada. Matava peixe, muita pescada, muita corvina, muito caçãozinho pequeno assim. Hoje você não encontra mais nada, nada por aí. Nada, nada, nada.

P/1 – O senhor consegue nos descrever como era o bairro aqui? As ruas, como era essa praia?

R – Eu vim ali da Praia do Forte para cá, eu devo ter vindo com uns três anos, mais ou menos, ou quatro. Meus pais falavam que eu saía da casa engatinhando para dentro d’água, né? A praia era tranquila. Então aqui, é o que eu te falei. Aqui não tinha rua, esse pedaço todo que eu te falei, lá da praia aqui, onde tem o Hotel Imbitiba ali, ali era um areal aí na frente, não tinha aquele cais de proteção, e não tinha os quebra-mares, que foram colocados depois pela Petrobrás, quando ela começou a vir para cá, entendeu? Ali quando o mar ficava bravo, sabe o que acontecia? Aquela praia, principalmente aqui nessa rua, da Rua do Sacramento para lá, que é o mar mais aberto um pouco, aquilo lá também bate lá do canto da Petrobrás, o mar passava ali por cima assim, caía dentro do cemitério e enchia, o cemitério todo cheio d’água. A gente corria para lá para ficar esperando, ficar esperando. Porque mesmo depois que fez o cais, aquele cais de proteção, a água vinha por cima e corria tudo para lá pro canto, baixada assim, água caindo, aquele piso d’água. A Petrobrás chegou, começaram a dragar ali na frente com rebocadora, dragaram, fizeram o levantamento e chegaram à conclusão que tinham que fazer os quebra-mares pro mar parar, pra não vir mais. E realmente, fizeram aquilo, quer dizer, fizeram também por presente, fizeram e o mar parou. Mas mesmo assim, quando o mar tá bravo, ele vem cá em cima ainda. Aí ele vai juntando na Rua do Sacramento até a Igualdade, que é a última, ele vai trazendo areia lá de baixo, vai trazendo, trazendo, aí a areia fica quase paralela ao cais, entendeu? Mas como o cais é bem alto ali, por causa da altura do terreno, você vê lá, e realmente, esse cais foi rebaixado agora, recente, que essa firma, a Delta, né, começou a rebaixar, eles acharam que os turistas iriam olhar melhor, iriam ver Santana melhor e tal, que aqui é alto, e foram rebaixando. Inclusive eu cheguei, aqui, eles iam rebaixar mais aqui, aí eu falei com o engenheiro, não sei quem é, que trabalha de capacete, estava tudo marcado em tinta aí eu chamei: “Meu amigo, por favor, vocês vão rebaixar essa parte aqui também? ” “Vamos”. Eu disse: “Se você rebaixar vai criar problema porque vocês não conhecem como eu conheço, não”. Aí ele olhou: “Mas por quê?” “Porque acontece isso, já tem os quebra-mares, mas o mar, quando vem zangado mesmo, ele vem com tudo, ainda vai jogar areia por cima aí”. Aí, desmarcaram lá e cortaram só daqui. Você vê que ali na Sacramento tem um pedaço cortado assim, mas eles lotearam e foram rebaixando para lá. Rapaz, o mar é uma coisa tão violenta, tão violenta. Pesquei ainda atrás do Forte, teve um mar muito bravo aí, que chegou, arrancou o marisco todinho que tinha lá atrás, todinho, raspou tudo, do fundo, de tudo. Tinha uma pedra, uma pedra que eu e um amigo meu que é um pouco mais velho do que eu, o nome dele é Natanael. Uma pedra que a gente passava por cima que tinha um valãozinho lá atrás, a gente sempre passava por cima daquela pedra, quando o mar amansou, nós fomos passar, cadê a pedra daqui? Uma pedra, parecia um tabuleiro, mas dessa altura assim, ó, um tabuleiro grande assim. Daqui lá no carro e mais um pouco. Olha, o mar arrastou a pedra mais de 50 metros, por cima das outras pedras, que ali era um valão por onde a água entrava no mar, foi arrastando aquilo, arranhando tudo, foi lá no canto do paredão. O quartel tem um paredão grande lá atrás que aquilo foi feito pelos escravos, precisa ver que coisa linda aquele paredão, uma coisa linda mesmo lá atrás. Aí bateu ali e quebrou tudo. E muita pouca gente notou, nós notamos porque nós estávamos sempre lá atrás pescando, né? E hoje ele já não pesca mais porque ele não tem mais condições, mas eu ainda vou lá atrás, ainda pesco tudo ainda.

P/2 – E o que o senhor consegue pegar lá hoje ainda?

R – Lá hoje eu pesco muito sargo-de-dentes e de beiço. Já tenho até apelido, pescador de sargo [risos]. Carnaval, no carnaval principalmente, uma semana antes do carnaval eu peguei dois, três quilos, quatro, dois, um e meio, e perdi um enorme, que devia ser um peixe de uns dez ou 12 quilos que a linha estourou. Eu aguentei, foi, foi, foi, firmei, coloquei o pé e pá, estourou a linha e ele foi embora. Mas no carnaval matei peixe sábado, domingo. Na segunda-feira eu estava muito cansado e não fui, fui sábado, domingo e terça-feira de carnaval. Nesses três dias matei dois peixes, cada dia, matei seis peixes ainda, muito peixe para o carnaval [risos].

P/1 – Mas o senhor vai sozinho pescar?

R – Lá tem sempre gente pescando robalo. Eu só tenho um amigo meu, o Zico, tem apelido de Zico, que pesca lá comigo, que pesca também no caniço. O molinete meu mesmo está parado, conforme eu te falei, tá parado há mais de 20 anos.

P/1 – Deixa eu te perguntar uma coisa. Você chegou a pensar em viver a vida como pescador, a trabalhar com isso?

R – Não, eu nunca pensei. Nunca pensei mesmo.

P/2 – Por que?

R – Eu gostava muito de pescaria, mas não tinha aquela vontade de sair pro mar, pescar, aquela coisa toda, que é aquilo de pescador, o pequeno pescador. Até o grande hoje tá difícil, hoje tá difícil até para os grandes. E é uma vida muito sacrificada, você tem que acordar todo dia de madrugada, três, quatro horas, dependendo da pescaria. Pescaria de rede vai lá fora, bota a rede, chega no outro dia você tem que ir, acorda de madrugada. Você vai um dia à tarde e no outro dia você vai lá quatro horas da manhã, acorda e vai para lá. Às vezes o mar tá bravo, você não pode pegar rede, é aquele problema todo. Aí eu nunca tive vontade. Mas pescar eu pescava, ia pra Ilha de Santana, eu pescava lá a noite toda, pescaria lá é de marimbá. Marimbá, não sei se você conhece, é um peixinho que dá aqui, dois quilos, mais ou menos, ele é todo branco, clarinho, com uma pinta preta na cauda assim, ó, marimbá. Tem aquela pinta bonita assim. Também na pescaria a gente começou cinco horas da manhã e só voltava pra casa, na época não tinha luz ainda [risos], lá na Ilha de Santana não tinha luz. Hoje você vê o farol lá rodando, não sei se você já reparou o farol, lá na Ilha de Santana, aquela ilha que faz assim. Agora é a Marinha que está tomando conta, não pode mais nem desembarcar lá. Aí o farol era a querosene, o pessoal ia lá em cima no farol, aquilo por dentro é uma coisa que parece ouro, brilhava antigamente. Inclusive o meu tio Abel foi remador, foi funcionário do DHN [Diretoria de Hidrografia e Navegação], departamento nacional de ilha, se não me engano, eles que limpavam lá, mas era civil. Aqui tinha um vizinho que era civil, já faleceu também. Aquilo era um brilho, aí foi indo, foi indo, e começou a vir a Marinha tal, esse negócio todo. Aí o cabo que estava aí era muito amigo da gente, aí continuava indo porque para muita coisa ele dependia da gente. Mas agora até a lancha, a lancha de uns dez metros a gente não tem mais, a Marinha acabou tudo, fica lá direto. Não tinha casa lá, se você prestou atenção lá tem uns apartamentos, na Ilha de Santana, aquela que faz assim, ela vem assim, ó, faz assim, é a Ilha de Santana. Na ilha não tinha casa, era um barracão no meio do mato, ficava lá. Lanterna a querosene, e o farol também existia, mas era tudo a querosene. Tinha um burro que levava as latas de querosene, que vinham de barco, chegava lá, descarregava na praia, aí botava no burro e o burro sabia o caminho, levava lá em cima [risos]. Aí tinha um faroleiro lá para receber. E assim vai tocando.

P/1 – Você disse que tinha uma relação com o pessoal de lá?

R – Tinha.

P/1 – Qual é que era? Vocês que vendiam para ele?

R – Não, não, era amizade por intermédio do meu tio, ele tinha muito conhecimento e naquela época não tinha a Marinha, era tudo civil que trabalhava lá. Macaé era pequena, não tinha nada, né? Macaé era muito pequena, a gente conhecia todo mundo. Então eu estava sempre na ilha, minha folga era ilha, desde criança, sempre estava lá. Aí, o tempo foi passando e a gente foi até, agora não vou na ilha porque você não pode nem desembarcar, para desembarcar na ilha você tem que pedir uma permissão. Teve uma época ali que quando você chegava de barco assim, a uma distância de 100, 200 metros os caras já estavam lá, fazendo assim: “Volta! Volta!”. Assim, é, chegaram a esse ponto.

P/1 – Foi a Marinha que fez isso? A Marinha que dominou?

R – É, isso aí.

P/1 – Seu Maury, me fala uma coisa. Bom, o senhor viu essa cidade crescer, né? O senhor se lembra quando chegou a luz, por exemplo?

R – A luz, quando eu me entendi já tinha luz. Aqui a Praça da Luz, chamava-se Praça da Luz, é onde hoje o colégio Luiz Reid, você já passou no Luiz Reid? É, hoje tem o colégio Luiz Reid, ali era a Praça da Luz, existia uma casa grande, com motores grandes, motor a óleo, gasolina, que ligava e funcionava ali. Depois foi chegando...

P/1 – Era com diesel, fazia uma...

R – Era com diesel.

P/1 – Gerador.

R – É, era um gerador grande. Tinha muitos pés de fícus, cada pé de fícus enorme, hoje não se vê mais pé de fícus, cada pé enorme assim, tinha muito morcego pendurado, aquelas pencas de morcegos ali, e ali tinha a Praça da Luz. Depois acabou, foi acabando aquilo, aí começaram a fazer o ginásio Luiz Reid, aí eu já trabalhava, isso já foi em 1960, já trabalhava num depósito de sal e cimento, foi quando eu casei com a minha esposa. Ela foi criada na casa de um funcionário da Caixa, que era gerente da Caixa, e ele tinha um depósito de sal no Cabo Frio que era do pai dele, então ele trazia o sal para cá, a gente beneficiava o sal e vendia pro Estado do Rio todo, Estado de Minas, Espírito Santo, mandava sal para todo lugar. Aí fizeram o ginásio, Luiz Reid. O Luiz Reid morava acho que em São Paulo, mas foi enterrado aqui...

P/1 – Até vou retomar essa questão. Você disse que trabalha desde criança, né? Me conta um pouco como foi, você disse que trabalhou em várias coisas, o senhor se lembra de todos seus trabalhos desde criança?

R – Lembro, lembro, não esqueço nada, nada, nada. Minha cabeça, meu computador está funcionando bem mesmo ainda.

P/1 – Que bom [risos]!

R – Olha, eu comecei a trabalhar, eu trabalhei em tanto lugar, criança você já viu, trabalhava aqui, trabalhava ali. Eu já trabalhei, uma vez eu trabalhei numa gráfica que era do tio desse prefeito, não sei se era tio, era parente dele. Mas eu trabalhei um dia só porque ele arranjou um emprego para mim, eu cheguei lá, tinha que ficar em pé, aqueles tipos assim, era um serviço muito parado, aquilo não servia para mim, meu serviço era movimentando. Aí saí dali e fui para onde? Trabalhei no posto de gasolina aqui onde é o Banco Itaú, aqui na Doutor Júlio Olivier, na entrada da Avenida Agenor Caldas, tem um Itaú, ali era o posto de gasolina de Antônio, Antônio Alves Parada era uma pessoa fora de série. Foi professor do Senai, no final ele já era escritor, ele e Antônio Pinto, Antônio Pinto e de Campos. Então eu trabalhei um tempo ali, trabalhava de, olha o que eu fazia, eu gostava tanto de trabalhar lá que às vezes eu dormia até lá no monte de estopa [risos]. Essa época eu era solteiro, novo ainda, moleque, tinha 13, 14, 15 anos. Eu comecei a trabalhar de bombeiro, ajudante de borracheiro, aí fazia ajudante de pintura, lavador de carro [risos]. Lavador de carro, gostava também de lavar carro. E outras coisas. Bombeiro, borracheiro, lavador de carro e mecânico [risos], eu fazia isso tudo, tanto gostava que tinha dia que eu dormia lá, dormia mesmo. Gostava demais. Depois saí de lá. Foi acabando, mas eu saí antes, né? Saí e fui trabalhar na loja de ferragens, a loja de ferragens, o meu primo Cleber, esse que morreu no mar, ele já trabalhava lá. Aí, por intermédio do meu tio, eu fui trabalhar lá. Eu trabalhei, fiquei lá até 1959. Comecei a trabalhar lá em 1948. Mas o patrão naquela época não era moleza, não. Antigamente as lojas que vendiam brinquedos eram lojas de ferragens. Então, no Natal era aquela exploração, né? Chegava fiscal do INSS e dizia: “Vocês podem ir pra rua, vai lá pra rua da praia, volta logo mais”. E a gente adorava. Mas isso me ferrou, na época de eu me aposentar isso me ferrou porque a minha carteira foi assinada lá com muito pouco tempo, aí eu tive que trabalhar muito, trabalhei mais de 60 anos para poder fazer 35 na carteira. De lá eu saí, fui pro depósito de sal e cimento, aí trabalhei lá até 1970, 1969 para 1970. Aí, casei em 1960, em 1970 eu vim, aí eu fiquei lá. O depósito fechou, o chefe que era o dono de lá foi embora também, voltou pra Cabo Frio, aí eu saí e vim trabalhar de segurança, Transportes S/A, Rua Riachuelo, 444, Rio de Janeiro. Aí eu trabalhei no Banerj, 1970. O Banerj não era lá onde é hoje, não sei se você sabe onde é o Itaú lá em cima, na praça lá de cima, Praça Washington Luiz, lá era o Banerj antigo, não era lá, o Banerj era onde é a Galeria Luar, ali dentro do calçadão. Aí nós saímos, nós fomos para lá em 1970, 1974, era a agência do Banco do Brasil lá em cima, aí o Banco do Brasil fez a agência aqui, na praça aqui, aí eles saíram de lá e o Governo do Estado comprou o prédio e fez o Banerj. Aí prepararam tudo, botaram aquela cor verde e branca, que era a cor do estado, os balcões, aquelas coisas todas, aí depois eu saí pro Banco do Brasil quando entrou no governador Leonel Brizola, aí eu vim pro Banco do Brasil e levei mais 18 anos, aí aposentei. Mas o negócio é esse, trabalhando. Depois que aposentei, em 87, mas antes de aposentar eu já tinha arranjado emprego, para você ver que eu gostava de trabalhar, gostava mesmo e gosto até hoje, é que a idade agora... quando eu saí, recebi a carta, eu vim para cá em 1979 porque quando eu fui trabalhar no depósito de sal e cimento, lá tinha uma casinha atrás, meia água, que era um depósito, aí ele preparou lá e eu fiquei lá, e fiquei até 1979. Ele parou em 1970, mas minha casa que tá alugada também, o barracão ali estava alugado, aí eu fiquei lá. Em 1979 eu vim para cá, meus filhos já tinham nascido.

P/1 – Sempre quando foi trabalhando você ficou ajudando a sua família?

R – Ah sim, a gente tinha que ajudar, né? Solteiro tem que ajudar os pais que depois morreram, quer dizer, minhas irmãs foram pro Rio, trabalhar no Rio. Hoje já retornou tudo, só as duas gêmeas, que são mais novas, mais de 60, ficaram lá no Rio. Os outros retornaram para cá, meu irmão também. Aí quando eu me aposentei em 1987, o dia que eu recebi a carta de aposentadoria, eu olhei e disse: “A partir de hoje a coisa está”. No dia seguinte eu fui logo lá na casa de venda de móveis, aí cheguei lá e falei: “Já estou aposentado, que dia eu posso trabalhar?” “Se quiser pode começar hoje”. Aí eu comecei lá, comecei no ramo de móveis. Já estava aposentado, aí quando chegou em 1994 pedi um aumentozinho ao homem lá, o cara era bom para danar, mas na hora que falava em dinheiro... E eu e a outra moça que tinha lá, que é de Campos, a Nandejara, trabalhava lá, conhecia o serviço todo, aí passei a conhecer o serviço todo de móveis. Ele disse que não podia pagar mais um pouco. Eu disse: “Você não vai poder pagar, pô?”. Aí teve um amigo meu que abriu uma casa de móveis, aí já era móveis de madeira, lá já era móveis de aglomerado, pó de serra. Aí o rapaz: “Eu te pago o dobro que ele paga e ainda dou comissão”. Aí eu conversei com o patrão, seu Barbosa era o nome dele. Aí conversei com ele. “Ah, não vai dar, vamos esperar até sábado”. Chegou sábado eu falei: “O senhor vai dar?” “Ah, não vai dar” “Se você me der um aumentozinho pouco, nem precisa chegar onde o outro vai dar”, eu nem lembro mais, eu já estava aposentado. E foi ótimo para mim nessa época. Aí eu vim para outro, trabalhei até 1998, aí minha esposa teve um problema de coração de repente, assim de repente, ela foi na casa da mãe dela, quando voltou pararam o fusca ali e ela estava dentro do carro passando mal, aí saímos, fomos pra clínica. Chegou lá atenderam ela, ela ficou 15 dias no CTI, até melhorar para poder operar. Aí quando foi melhorando, melhorando, em 1998 eu levei um amigo meu que na época trabalhava com o prefeito, Silvio Lopes, nessa época, o cara é Fernando Passiara, morava aqui. Aí eu falei com ele: “Tá acontecendo isso, isso e isso” “Não precisa se preocupar”. Ele hoje está no governo, trabalhando com o doutor Aloísio. “Não precisa se preocupar, amanhã cedinho, seis horas, a ambulância tá lá na Clínica São Lucas com médico, enfermeiro, preparados para levar sua esposa pra Campos”. Maravilha, né? Como é que eu iria fazer? Eu não tinha condições de fazer. Seis horas eu fui lá, eles chegaram, pegaram, fomos lá pra Santa Casa de Misericórdia em Campos. Levou uns dias lá até, ela operou o coração já faz mais de 14 anos, é, foi 1998, 2013, 15 anos já. Mas ela tá bem, vai no médico só de seis em seis meses só, está controlado.

P/1 – O senhor também já deu um susto desses também ou não?

R – Eu já tive mais ou menos. Em 1979 eu fumava muito, eu fumei por 30 anos, fumava duas, três carteiras de cigarro, era muito cigarro. Naquela época no banco aparecia uma cabine blindada, tudo chapa grossa assim e você vivia dentro daquela cabine, tinha o horário de um, outro, e você olhava pela janelinha. Aí teve um dia em 1979, não estava lá muito bem, daqui a pouco comecei a me sentir mal e desci. Aí fiquei assim, assim mesmo, em pé, aí veio aquela crise assim, sem aguentar e aguentando. Aí o gerente veio, a turma muito amiga da gente, aí você é conhecido em Macaé, né, tudo conhecido. “Vamos pro hospital!” “Deixa ver se melhora”, quando eu vi que não melhorava mais, eu falei: “Não dá, não”. Aí tinha um amigo meu lá, Zé Carlos Cabral, o pai dele era pescador antigo, pescava no rio, aí me pegou e levou pro hospital. Me levou, aí ele sentou no banco traseiro do fusca, eu sentei e deitei no colo dele porque já não aguentava mais. Aí veio uma senhora dirigindo, mas não era de Macaé, ela tinha passado no concurso do Banerj, ela veio, entrou dentro do fusca, foi e ele de cabeça baixa, eu de cabeça baixa, quando ela diz assim: “Já chegamos”. Quando ele olhou, nós estávamos sabe onde? Na garagem do Rápido Macaense, linha urbana, lá em cima. Aí ele levantou: “Aqui é o Rápido Macaense! Não, vamos pro hospital!”. Aí falaram: “Não, leva ele no Sandu”, é onde é a Unimed, lá em cima, né? Chegou lá na Unimed, falou o médico, o médico disse: “Ah, isso aí é caso de hospital” [risos]. E estou eu ali sofrendo, né? Aí viemos pro hospital, chegamos no hospital, a entrada é até por trás, né? Eu só vi quando ele estava apavorado, precisava ver como o cara ficou doido, parecia até que era ele. Ele foi correndo, chamou o médico, os olhos dele estavam assim, só vi aquele negócio de branco, vinha do corredor, eu fiz assim, ó, apaguei. Aí o médico falou: “Dá uma injeçãozinha nele”, falou pra enfermeira. Aí pegaram, me tiraram do carro, botaram na maca, aí deram injeção, depois eu levantei. Levei seis dias lá, seis dias no hospital. Aí quando o médico disse: “Eu vou te dar alta hoje”, mas não era o médico que me atendeu, foi outro. Ele disse: “O senhor tá bem?” “Graças a Deus tô bem”. Minha mulher foi lá, aí já tinha me mudado para cá, o outro estava ocupado e vim para cá. Aí quando eu saí na porta do hospital, que lá é alto, ele falou assim: “Seu Maury, o senhor fuma?”. Eu disse: “Fumo, sim senhor. Não fumo muito”. Ele disse: “Olha, se o senhor puder parar de fumar é bom”. Eu falei para ele: “Sim, senhor”, a única coisa que eu falei, “Sim, senhor”. Olha, faz 34 anos, de 1979, 34 anos, desde que eu desci aquela escada nunca mais eu botei um cigarro na boca, nunca mais, ele não me fez falta. Aí o que acontecia? Eu sonhava que estava fumando charuto [risos]. É, eu sonhava sempre que estava fumando charuto, sempre sonhando, sonhei, aquilo me satisfazia e me tirava a vontade, eu nem lembrava mais. E até hoje, graças a Deus, a fumaça hoje me faz mal. O cara fumar aqui, dentro do quarto, eu já tô sentindo cheiro de cigarro que passo até mal, o pessoal passa fumando assim, eu me sinto mal, sinceramente. 34 anos. Mas também eram três carteiras de cigarro. Trabalhar na escala fumava muito, rapaz, a noite toda.

P/1 – Na época não tinham essas propagandas que têm hoje, né?

R – Não tinha propaganda. Mas hoje, hoje eu tenho impressão que caiu bastante. Aí, trabalhei na casa de móveis, aconteceu isso com ela, né? Aí, vim pra casa, fiquei uns dias em casa, tem até uma cadeira dessa de plástico que eu comprei para ela quando ela veio aqui, em 1998. A cadeira eu emprestei a um inquilino meu, tem um rapaz aqui que é solteiro, é técnico em raio x, essas coisas, aí eu emprestei a cadeira para ele, tá lá até hoje. Dali eu saí da outra casa de móveis de madeira, aí fui trabalhar com meu genro. Aí meu genro, nessa época já tinha casado com minha filha mais nova, aí trabalhei uns três anos com ele lá, na terceira idade, depois eu falei: “Não quero mais trabalhar, não, vou pescar mais ainda”.

P/2 – Aí o senhor se dedicou à pesca?

R – Eu já me dedicava, aí depois me dediquei mais ainda. No quartel a gente só pode pescar no sábado e domingo, seis horas da manhã até cinco horas da tarde, mas eu pesco até meio-dia, uma hora, que o sol é muito quente. Ó como eu fico, e eu não uso creme nenhum, não. Aquele sol todo em cima, tem muita gente nova que não faz o que eu faço. Pouca gente com vara assim, só uns dois ou três, o resto é tudo de molinete, procurando robalo. Mata muito robalo. Na semana de carnaval lá saíram mais de 60 robalos. Tem um pescador, só um, matou mais de 20 robalos. Veio um cardume de repente, sabe? Aí depois vai diminuindo, sábado agora só mataram um ou dois. Mas sempre aparece algum. Quer dizer, no rio acabou tudo, aquela poluição que está lá.

P/1 – No rio acabou tudo, aqui na frente...

R – Tudo, tudo. Ali tinha pescador em Macaé que só vivia daquilo ali, de bagre. Botava rede.

P/2 – Só no rio Macaé?

R – Só no rio Macaé, nesse pedacinho, daqui na ponte. Eles viviam só de bagre. Esse pai desse rapaz, Zé Carlos Cabral, o pai dele, seu José Cabral, era pescador. Chegava ali e botava a rede, de tarde, também quase não tinha barco, hoje é muito barco. Chegava de manhã cedo e tirava, rapaz, mas era muito bagre, muita coisa, cada bagre lindo, grande, sem poluição, sem nada. Hoje você vai lá com o canicinho assim, você joga lá, é candicurizinho comendo aquela sujeira, aquilo é uma imundície rapaz, é demais mesmo, muito poluído. A areia ali era branca. Eu quando era moleque, eu tomava banho de rio com dois vizinhos amigos meus lá, no rio ali.

P/2 – E quando que começou a sujar lá?

R – Ah, depois que começou a vir essas firmas, essas coisas para cá, começou essa sujeira toda, né? Tinha uma manilha grande de esgoto que desembocava lá, era um cano de ferro assim, dessa grossura, desembocava onde fica aqueles barcos ali, quase na subida da ponte. Ali quando seca você vê que os barcos ficam tudo de fora aí, é aquela lama toda de quando é maré de lua nova, que abaixa muito, fica tudo de fora, tudo, tudo. Aí começou. A areia ali na beira do cais era clarinha, eu tomava banho naquele cais todinho ali.

P/2 – E quando que essas empresas vieram? Foram nos anos 80?

R – 70 e pouco, Petrobrás veio aí. Meu filho, por exemplo, hoje tem 50 anos, quando a Petrobrás vinha para aí, veio uma empresa que se chamava Tecnosolo. Ela fazia levantamento da maré também. Ele tinha 13 anos, ele estudava e eu arranjei para ele trabalhar lá só anotando a maré. Mas olha, rapaz, à tarde ele ia para lá, pegava a prancheta ali, ficava sentado. Lá era tudo aberto, não tinha nada daquilo. Ele ficava anotando, tantas horas a maré.

P/2 – Quantos anos ele tinha?

R – 13 anos na época. Ele ficava anotando a maré, 40 centímetros, 80, 60 e assim, um metro, vai até um metro e vinte, a maré de lua vai até um metro e vinte.

P/1 – O senhor se lembra bem dessa época quando a Petrobrás veio para cá? Porque hoje ela é conhecida como a cidade do petróleo, aqui, né? Mas o senhor se lembra como foi a chegada de pessoas, qual foi a mudança, como foi esse processo?

R – Ah, a mudança foi muito grande. Eu que trabalhava no banco, nessa época eu estava no Banco do Brasil, a mudança de gente, pessoal de fora, Nordeste, Bahia, tem muita gente ainda aí, mas não tem o que tinha. Muitos aí viraram mendigos, aí passando um tempo o pessoal começou a vir, vir pra Macaé, mas não era como antigamente. Eu, por exemplo, eu fiquei de ir trabalhar na segurança, tinha facilidade de entrar direto, mas fiquei com medo porque tinha família, entendeu? Fiquei com medo de sair para encarar [risos]. Meu filho, por exemplo, hoje trabalha na Petrobrás, é inspetor de segurança, vai só fazendo curso, todo ano ele faz curso, mas ele trabalha, ele quer trabalhar junto com os outros, faz a escala dele direitinho. Agora ele está de férias, mas ele era terceiro sargento aí, aí quando surgiu o curso para segurança, ele fez o concurso, passou, aí pediu baixa ao coronel que está aí, coronel Pedro Paulo. No mesmo dia deu a certidão a ele, deu o canhãozinho dele, que o soldado de bom comportamento leva sempre o canhãozinho de madeira assim. Ele chegou a servir no Forte de Copacabana, que hoje está desativado, né? Ele serviu lá, levou quase um ano no Forte de Copacabana também. Mas ele era sargento temporário, levou quase nove anos, aí passou, saiu, e tá lá até hoje. E já está começando a se aposentar.

P/1 – Nessa época, quando começou a ter esse negócio do petróleo, de vir as empresas, a cidade foi mudando?

R – Ah, isso aí rapaz, isso aí foi mudando assim...

P/1 – Avenida...

R – Tudo, de repente você vê Macaé hoje, é um movimento de trânsito, uma coisa fora. Eu tinha carro e vendi meu carro, eu vendi porque não aguentava mais, você aguentar esse trânsito todo aí. Hoje eu ando de ônibus de graça, quando eu quero ir em algum lugar, a maior parte anda a pé, né? Mas quando vou mais longe e está muito quente eu pego o ônibus, não pago mais [risos]. Mas olha, foi uma coisa de doido, os bancos viviam superlotados.

P/2 – E veio muita gente do Nordeste então?

R – Veio! Daquela área lá da Bahia então, veio muita gente, muita gente.

P/2 – E esse pessoal foi criando raiz onde, na cidade? Onde eles começaram a morar, construir as casas?

R – Ah, isso aí eles vinham naquela base, só tem serviço, tá aberto serviço à vontade, eles vinham naquela base, acho que moravam até muito mal, mas muitos se deram bem.

P/1 – Mas esses bairros novos, esses bairros tipo Barra, Malvina, eles que foram abrindo?

R – Brasília.

P/1 – Foi nesse período que começou a...

R – É, eles foram se espalhando para todo canto, né? Todo canto. E assim foram até. Hoje, por exemplo, é difícil você conseguir fazer embarcado, hoje tá difícil. Olha, foi uma loucura, foi uma virada assim, hoje você vê Macaé, a maioria é gente de fora, população hoje é gente de fora. Muito estrangeiro, muito gringo.

P/1 – Teve muita gente que foi embora com isso? Daqui? Seus amigos, familiares?

R – Não, não. A gente geralmente sai assim, mas para perto mesmo, para lugar mais tranquilo, mais sossegado. Mas foi uma loucura. Mudou de repente.

P/2 – Para quem é da cidade, o senhor acha que teve boas mudanças?

R – Num certo ponto eu acredito que sim, foi bom que deu outra vida à cidade, muito dinheiro, né? Muito dinheiro, muito comércio, antigamente não tinha esses comércios todos que têm hoje, antigamente não tinha nada disso. Hoje não, hoje o comércio.

P/1 – Antigamente tinha uma avenida principal só com os comércios, como era?

R – Sim, era Avenida Rui Barbosa, o calçadão.

P/1 – Você lembra de algumas lojas que existiam e hoje não existem mais?

R – Ah, bastante, tem muitas lojas hoje. Lojas de ferragens que tinham lá acabou tudo, agora tem outras, mas não é. Ainda tem uma muito antiga ali, do velho Alfredo Mussi, era parente do prefeito anterior. Hoje um filho só que toca, o outro tem outra loja, mas fora do centro. Essa de Alfredo Mussi, no calçadão, eu já trabalhava na Eurico Coelho, era Loja de Ferragens Eurico Coelho, o pai dele, Alfredo Mussi, os filhos trabalhavam. Teve um que se formou, Carlinhos, até morreu agora recentemente, se formou médico, foi prefeito de Macaé, e os outros ficaram. Outro faleceu também, aí ficou uma loja aqui. Diz agora que ele vai parar, já tá na época de parar. Muito movimento, mas isso aí é a Rua Direita que eles chamam, era a rua principal. Antigamente botava uma placa, fechava a rua, para poder namorar, de sábado e domingo, aí botava carro, pouco carro, era naquela base. Depois o comércio foi se expandindo, se expandindo, se você ver hoje o comércio, essas ruas transversais, a Teixeira de Gouveia, que é a rua paralela ao calçadão, é muito comércio, muitas firmas. Firmas rapaz, isso aí, eu, como macaense desde criança, que andava isso tudo, hoje eu vou te falar, Macaé eu quase não conheço mais para fora da cidade. Na época que eu trabalhei em casa de móveis eu saía, entregava muitos móveis, comecei em 1994 e fui até 1998, eu que entregava móveis nesses bairrozinhos que já estavam se formando.

P/2 – Quais?

R – Cavaleiros. Cavaleiros já era formado, era tudo fazenda antigamente. Depois do viaduto para lá era tudo fazenda, tinha umas casinhas embaixo do viaduto, o resto lá pra baixo. O bairro da Glória, tem outro mais em frente, aquilo tudo começou pouco. Hoje você vai no bairro da Glória, você vê que aquilo ali é um movimento danado, aquilo ali era tudo, não tinha nada também, não tinha nada no bairro da Glória. Tem outro lá também que eu não me lembro o nome agora. Tem um lá perto da lagoa também, depois da lagoa, esqueci o nome. Tudo aquilo se encheu, hoje eu não conheço. Se eu for entrar naquele bairro hoje eu não conheço, não conheço nem a passagem, onde eu ia. Hoje é uma coisa fora de série.

P/1 – O senhor tocou no assunto desse lazer de antigamente, fechar a rua, pessoal ficar namorando...

R – É, fechava a rua.

P/1 – Quando o senhor era mais novo?

R – Era mais novo.

P/1 – Como era isso aí? Onde que eram os lugares, tinham festas? O que era?

R – Justamente. O calçadão, você conhece o calçadão?

P/1 – Sim.

R – Ali no calçadão é a Avenida Rui Barbosa, a gente só fala, é a Rua Direita, né? Ali é que passavam os carros, mão para lá e mão para cá. Depois foi passando o tempo e foram botando só uma mão, porque já não tinha mais condições, né? E então chegava sábado e domingo eles fechavam aquilo ali, uma parte, né, para você ficar namorando tranquilo. Tinha o cinema que era muito movimentado, hoje não tem mais cinema, tem lá no shopping, lá em cima, né? Nunca mais fui ao cinema. Também, depois da televisão.

P/2 – E lá na Rua Direita tinha gente que tocava música? Tinha um bailinho lá?

R – Tinha. Aqui tem uma banda de música, a Lira dos Conspiradores, e a Nova Aurora lá na Rua Direita, que é o calçadão, era uma banda, né? Antigamente era bom, juntava, ia na praça, uma semana ia um, ia outro, eles tocavam tudo. Naquela época, né, mas hoje acabou tudo, você vê eles ali, mas nem vejo mais eles saindo para tocar.

P/1 – O senhor conheceu sua mulher ali? Como o senhor conheceu sua mulher?

R – [risos]. Minha mulher, eu conheci minha mulher assim. Ela era nova, tinha 16 anos quando eu conheci, eu já tinha 21. Ela tem 73 anos, eu tenho 78, cinco anos. Uma vez eu vi ela indo, foi pro carnaval com a irmã que era mais velha, ia a irmã e o noivo. Mas eu gostava de brincar nesse mesmo salão, onde era o Cinema Santa Isabel, lá em cima, na Teixeira Gouveia. Ali eles tiravam aquelas cadeiras todas do cinema e alugavam pro clube, o baile de carnaval ali era uma coisa fora de série.

P/2 – No cinema Santa Isabel?

R – No cinema. Eles tiravam a cadeira de todo o cinema e faziam um baile de carnaval. Todo ano aquela época tinha isso. Aí uma vez eu vi ela ir para lá, eu vi uma morena, novinha, ir para lá, aí chegou lá eu entrei também porque eu gostava de lá, né? Eu e o primo, esse que morreu. Andava junto, nós só andávamos juntos. Aí chegou lá, vi ela dançando, estava lá pulando lá, aí eu fiquei só na minha, não falei nada, não. Mas ficava de olho, vigiando, aí fui deixando [risos]. Você vai ver a história como é que é [risos], a história é interessante. Aí, ela já trabalhava nessa casa que eu falei contigo, ela foi para lá muito nova, né, desse senhor que era gerente da Caixa Econômica. Ele era gerente, mas antes, quando ele estava começando, novo, ele ia a Cabo Frio pegar caminhão de sal, trazia pro depósito, chegava meio-dia em casa, tomava banho, mudava a roupa e ia pra gerência da Caixa, né? E aí, essa menina foi trabalhar lá, essa que é a minha esposa hoje foi trabalhar lá. Aí chegou um dia, a patroa dela mandou ela ir na loja de ferragens comprar uma frigideira [risos]. E eu trabalhava no balcão, já tinha 21 anos, aí ela chegou lá, quando eu olhei eu vi e falei “É hoje”. Aí quando ela chegou: “Eu vim comprar frigideira aqui, seu Sérgio Gil mandou, a esposa dele, dona Vanda”. A frigideira ficava no canto assim das prateleiras, né? Aí levei lá, ela começou a escolher, escolher, eu conversando com ela, tal: “Ah, essa daqui é melhor”, já entendia bem de ferragens, aí comecei logo, aí falei: “Ó, logo mais eu vou lá na sua casa”. Ela toda sem jeito assim, tal, aí ela chegou na casa da patroa dela ela falou: “Ah, o moço de lá falou que vem aqui em casa para conversar comigo”. Aí a patroa dela já me conhecia, né? “Ah, quem é?” “Ah, é aquele branquinho que tem lá”, Aí, “Galego”. Aí começou o namoro.

P/2 – Aí o senhor foi na casa dela à noite?

R – Aí fui lá. Mas naquela época era difícil namorar, naquela época tinha hora, tinha tudo, para ir no cinema não podia ir sozinho.

P/1 – Ah, é? Tinha que ir você, ela e mais uma?

R – É, era assim mesmo! Namorava na frente.

P/2 – Aí o senhor foi lá, conversou com o pai dela?

R – Primeiro conversei com os patrões dela.

P/2 – Ah, com os patrões?

R – É porque ela trabalhava lá. Também, coitada, eles eram muito sacrificados, eles moravam na roça, ela veio e ficou aqui para trabalhar, ela nova com 12 anos, a mãe botou a menina para trabalhar porque precisava trabalhar. Eu, por exemplo, que fui buscar a mãe dele e os outros irmãos, fui na roça buscar eles para trazer para a cidade porque ela trabalhava lá e sofreu muito, sofreu bastante, ali que ela se deu melhor. Aí nós casamos em 1960.

P/1 – O senhor se lembra desse dia?

R – Ah, lembro.

P/1 – Consegue nos contar como foi esse dia do casamento?

R – Lembro, lembro, não esqueço de nada! Eu casei lá na casa dos patrões dela. Então fizeram uma festa grande, mandaram assar peru na padaria, aquelas coisas todas. Aí ele tinha muito amigo da alta sociedade, aí tinha um amigo dele que se chamava, esqueci o nome dele, Maurício, era filho do governador do Estado do Rio. Rapaz, esqueci o nome dele. O homem foi governador do Estado do Rio em 1960. Esqueci o nome no momento. Eles foram para lá, foi aquela comemoração, foi tudo. Aí me deram caixinha, aquele negocinho, aí embrulhei no dia e fui passar minha lua de mel em Campos. O patrão mandou o motorista, a firma era grande, tinha cinco motoristas, cinco caminhões grandes, me levou em Campos num automóvel Chevrolet 54, carro gostoso, mudança na mão, né? Aí me levou para Campos e dentro do carro eu fui abrir o pacotinho e tinha uma latinha de vaselina, assim, tinha uma outra latinha com amendoim torrado, né? E tinha outro pacotinho com as camisinhas [risos]. O cara é Maurício, o pai dele foi governador do Estado [risos]. Um cara bom, já faleceu também. Eu que tô inteiro ainda, tô vivo ainda.

P/1 – Vivo, pescando...

R – Parei de fumar, graças a Deus, não sinto nada, nada, nada [risos]. Mas é isso. E Macaé é aquela base, conforme eu falei. Lá em Imbitiba não tinha nada, aquilo ali era tudo terra, quem calçou, fez tudo ali, aquela pista toda de cimento, quem fez aquilo anteriormente foi o prefeito Elias Agostinho, ali tem a Avenida Elias Agostinho, hotel também Elias Agostinho, ali foi feito todo no cimento, você vê, aguentou até agora. Ainda quebraram, apertaram aquelas placas de cimento, precisou aquelas brocas grossonas para quebrar aquilo tudo e fazer aquilo tudo outra vez. Não precisava gastar tanto dinheiro assim, é, não precisava, não.

P/2 – O senhor teve quantos filhos?

R – Três filhos.

P/1 – Conta um pouquinho pra gente dos três.

R – Eu tenho o Maurício, que está com 50 anos.

P/1 – Que está na Petrobrás, né?

R – Está lá, foi sargento, trabalhou no comércio, trabalhou com o ex-prefeito Silvio Lopes. Na época ele tinha uma casa de lustre, material elétrico, essas coisas, meu filho novo trabalhou com ele, até os filhos dele são muito amigos dele. Daí ele saiu, estava estudando também, aí foi aquela época que eu arranjei para ele na Tecnosolo, ele foi crescendo, foi estudando, estudando. Chegou a época do Exército ele serviu, soldado, cabo, sargento temporário, que ele nunca gostou do regime, era um soldado exemplar. Até hoje no serviço dele, ele é muito assim, entendeu? Então, dali. Tenho uma filha também, essa segunda que está com 47 anos, essa estava estudando, casou cedo, não quis saber de, é dona de casa. E tem a outra que tem 44, essa é danada. Baixinha também, estudiosa, professora de inglês, trabalha numa firma, na Trans-Hold, teve na Maersk, firma estrangeira. Ela já esteve uma vez na Dinamarca, e esteve a segunda vez, acho que essa Trans-Hold, acho que foi Texas. Texas? Nos Estados Unidos, é Texas, né? Ela foi lá também fazer mais cursos. E ela hoje trabalha.

P/1 – Os três, algum pensou em sair aqui de Macaé, ir pro Rio de Janeiro, São Paulo?

R – Não, não. Nós somos muito unidos, sabe? Uma família muito unida, que isso é muito mais importante, né? A gente está sempre perto, eles estão sempre aí.

P/1 – Eles gostam da cidade?

R – Adoram. Adoram mesmo.

P/1 – Qual seria o lugar que o senhor mais gosta? Eu não conheço nada da cidade, que o lugar que o senhor me levaria para conhecer? Um lugar que o senhor se sente bem, gosta?

R – Olha, eu me sinto bem pescando. É uma tranquilidade fora de série. Aqui eu estou sempre na praia, que eu levo o cachorro de manhã cedo, à tarde eu levo ali, gosto muito daquela parte ali, né? E daqui de casa, lugar tranquilo. Aqui tem a vantagem, carnaval você não ouve aqui, a gente vai, todo ano a gente monta um barracão grande, uma tenda grande, eles contratam uma orquestrazinha de fora, e vai para ali, o Bar dos Idosos ali, né, então a gente vai um pouquinho ali só também, mas não ouve nada, aqui é muito tranquilo.

P/1 – Os carnavais antes eram nos salões e hoje ficam aqui na praia, é isso?

R – É, hoje você não vê mais carnaval de salão, hoje você não vê, acabou. Carnaval acabou. Aqui faz aí até uma hora, duas horas da manhã. Agora deve ter outros aí, vai pro Cavaleiros, lá a farra é muito grande. Mas aqui mesmo, carnaval aqui você não ouve mais nem falar. Eu que gostava muito quando era solteiro, não vejo mais nem falar, deviam falar mais de carnaval de salão, aquela alegria toda. Hoje é muita violência, né? A violência tá geral, muita violência, demais. Isso tudo a gente prefere ficar em casa, tranquilo. Vê na televisão, desfile, também não vejo muito desfile não, eu gosto muito é de futebol, eu vejo muito é futebol. Quinta-feira tem o Brasil, né? Quatro e meia da tarde.

P/1 – Amistoso, né?

R – Amistoso.

P/1 – Eu tô vendo que o senhor está com a camisa do clube

R – Isso aqui é desde criança, a minha família, meu pai já era tricolor quando nasceu. E da geração para cá, minha, todos os filhos que vão nascer é tudo Fluminense, tudo Tricolor. Tinha uma flamenguista que hoje é tricolor também [risos]. E já tinha idade, uns oito, dez anos, era flamenguista. O pai diz que é Flamengo, mas não vê futebol, não vê nada assim, então não é Flamengo. Daí a gente veio: “Então tem que ser Fluminense”.

P/1 – O senhor é daquele que quarta e domingo está vendo a TV, é isso?

R – Ah, é, eu vejo futebol à noite quando tem futebol. Hoje é terça, hoje acho que não tem. Ainda tem o futebol estrangeiro que a gente vê, com a Sky a gente vê qualquer futebol, né, quando está programado. É isso aí.

P/1 – O senhor chegou a jogar também?

R – Olha, eu por exemplo, eu jogava pelada quando era criança, mas nunca quis ser. Tenho um irmão que jogou mais, jogou lá em Friburgo, aquele era bom, aquele chutava e o goleiro tinha que sair da frente porque ele chutava como um cavalo, jogava na ponta direita. E esse meu filho Maurício também jogou muita bola, mas também não levou pra frente, jogou aqui em Macaé, tinha o Marinho, que jogou no Botafogo e depois veio trabalhar na Sony, jogou no Botafogo. Aí ele formou um time de futebol, tinha o Ferrugem, não sei se vocês ouviram falar em Ferrugem. Jogou em Portugal, time profissional. Ele hoje está em Macaé também, é de Macaé. Ele e outros aí. Tem muita gente boa em Macaé que não quis, Macaé tem muito jogador de primeira mesmo, tem uma seleção macaense muito boa.

P/1 – Mas o senhor vai assistir ao Macaé também? Torce pro Macaé também ou é Fluminense?

R – Macaé eu torço para ele quando joga o Fluminense, né? [risos]. Mas sempre tem jogo. Macaé jogou com o Boa Vista, Saquarema, domingo. Mas sempre vem Flamengo, Fluminense, Vasco, quando está programado vem. Mas eu não vou lá, não, prefiro ficar aqui, sossegado, tranquilo.

P/1 – Bom, a gente está encaminhando para terminar a nossa entrevista. Queria saber do senhor, o senhor viu essa cidade mudar, né?

R – Completamente.

P/1 – Tem algum lugar que o senhor sente falta? Que existia antes e hoje não tem mais, que o senhor se lembra e fala: “Poxa, aquele lugar”. Existe? Que você tinha um carinho, ou ia, ou uma loja, ou uma praça...

R – Tinha os amigos da gente, tinha mais amigos que trabalhavam em outras lojas que hoje não tem mais. Hoje, por exemplo, Macaé cresceu tanto, às vezes, você fica sem ver um amigo seu, parece até mentira. Você leva dois, três anos sem ver um amigo seu. Quando eu encontro um, hoje eu encontrei um rapazinho aqui, rapaz modo de falar, já tem mais de 30 anos. Ele é filho de um amigo meu que era Valdir Celi, trabalhou no depósito do sal, contador ali do sal e cimento, que era um depósito grande, vendia cimento pra Cabo Frio, Araruama, Saquarema, aquilo tudo foi feito com cimento que nós comprávamos e mandávamos para lá. Comprava em Campos, Paraíso e mandava para lá. Esse rapaz, esse pai dele, quando esse menino nasceu, ele nasceu com um problema assim aqui na testa, o pai dele toda semana levava ele para o Rio, pra Niterói, para tratar aqui. Hoje eu encontrei ele, ele até me reconheceu. O pai dele morreu eletrocutado, rapaz, o pai dele com o futuro genro dele, que ele tem mais duas irmãs, foram subir para botar uma antena parabólica dessa aí, mas antena bem grande, parece que dois metros de boca, que é medido, né? Aí rapaz, veio uma ventania, jogou a antena em cima de um fio de alta tensão, aquilo bateu, morreu ele e o futuro genro dele, eletrocutados. Valdir Celi. Há muitos anos, há muitos e muitos anos que eu não via o filho dele, fui ver hoje, encontrei ele ali, sem querer. E muitos outros, você leva um ano, dois anos, três anos sem ver a pessoa. Até pergunto: “Pô, você tá fora de Macaé, rapaz? Onde você tá agora?” “Ué, eu tô aí mesmo, tô aí na cidade”. Eu vou muito lá no calçadão, sempre, daí que vejo os amigos, mas leva tempo para encontrar um amigo, leva muito tempo mesmo. É. Porque Macaé cresceu demais, cresceu muito assim, foi crescendo direto. Eu, por exemplo, trabalhava no banco em 1970. O Banerj que fazia o pagamento dos funcionários do Estado do Rio, corpo de bombeiros, DER, professores, tudo, era tudo no Banerj, eu conhecia todo mundo naquela época. Quando começou a vir a Petrobrás foi indo, hoje eu entro no banco, eu não conheço mais ninguém. Converso, mas não conheço, não, é difícil. Aí a gente fica ali no calçadão sentado ali, olhando, e vendo quando passa um amigo para ficar conversando com ele. “Pô, Fulano, você tá sumido! Quanto tempo não vejo você?” “É, mas tô aqui mesmo na cidade”. Mas cresceu muito mesmo, eu entro no banco, se tiver cem pessoas eu conheço dez só. É assim.

P/1 – E como o senhor acha que vai estar a cidade daqui a 20 anos?

R – Daqui a 20 anos eu vou te contar, eu não devo estar mais aqui. Eu pretendo estar, né? Eu quero ir a cem, estou com 78, vai para 98, né? A cidade, até lá, se ainda estiver petróleo está um caos, né? Agora a cidade está crescendo muito conforme eu te falei, aqueles bairros de lá, onde era a fazenda, onde era só mato, hoje é só casa. Eu não conheço mais, não conheço mais. Aqui também tá crescendo muito, Lagomar. Lagomar, tem dias que a gente ouve dizendo que já tem perto de 40 mil pessoas morando. É um bairro grande, está desenvolvendo muito. Dizem que vão fazer um porto aí, pelo menos ouvi a reportagem aqui em São José do Barreto, é aqui pro lado de cá. Aquilo então já viu, cresceu muito, não tinha nada.

P/1 – Essa casa que o senhor mora, o senhor está há quanto tempo já nessa casa aqui?

R – Aqui, conforme eu te falei, eu fiz essa casa em 56, foi interessante também. Eu gostava muito “visper” [víspora]. Conhece jogo “visper”. Não conhece, não? Tem aqueles cartões grandes assim. Você conhece “visper”? Não conhece, não? Pois é. Aqui em Macaé teve uma época, foi em 1955, 1956, por aí, apareceu um senhor aqui em Macaé, moreno, seu Quinquim, a gente chamava ele de seu Quinquim, era seu Joaquim. Ele era pai de Paulinho, Paulinho jogou no Botafogo, era um jogador bom. Seu Quinquim veio e montou um “visper” ali, em frente ao mercado. Ali era uma empresa de sal também em frente à delegacia ali. E eu, solteiro, eu ia sempre para lá. Aí chegou um dia vai cantar acumulado, ele sempre cantava acumulado. Acumulado tava em 15 contos de réis, 16 contos de réis, era dinheiro para danar. Aí teve um dia que eu subi lá, era quase meia-noite. “Não, agora vou cantar o acumulado”. Acumulado é o seguinte, você tem três cartões ali de “visper”, ali ele cantava cinco pedras, são 90, você tinha que botar cinco pedras assim: uma, duas, três, quatro, cinco. Cinco pedras seguidas, você não podia botar uma aqui e outra lá, no mesmo cartão, tinha que colocar cinco pedras juntas. E nesse dia eu dei sorte. Aí tinha um baiano meu que trabalhava no IBGE, veio da Bahia, tinha uma turma de conhecidos, aí ele disse, o cara era um moreno. “Ô Maury! Maury, você vai dois contos de réis?”. Eu disse: “Vamos, não vai ganhar mesmo, se ganhar...”. Aí, o cara cantava, botei uma, cantou, botei outra, fiz um duque, aí o cara, seu Quinquim, já de muita idade, rodava o globo, ficava rodando e rolando, tal, aí tirava outra, e botei a terceira. Aí o baiano, Aguinaldo, já ficou de olho assim, de caroço em mim. “Ah, seu Quinquim, puxa a boa”. Aí botava a outra, quarta, eu botei. Aí eu disse, “Negócio tá ficando bom” [risos]. Aí começou o nervoso. Gente, rapaz, ficavam 40, 50 pessoas sentadas naquelas mesas grandes com banco e cadeira, né? Aí o seu Quinquim enrolou, aí para tirar a quinta ele voltou, parava o disco, voltava, voltava, falava, falava, conversava. E tinha um quadro, que ele botava a pedra ali no quadro e acendia a luz com os números. Aí rolou, rolou, aí seu Quinquim puxou, quando puxou era a quinta pedra minha. Aí o baiano, o Aguinaldo, ele virou a mesa toda, foi virando a mesa de cartão tudo, né? Só que o velho pegava o cartão e conferia lá, né? Aí eu ganhei 16 contos de réis, era dinheiro para danar, era muito dinheiro. Aí dei os dois contos de réis a ele, ele até casou com uma menina de Macaé, nem sei, depois sumiu, nunca mais o vi também. Aí eu consegui levar. Essa casa aqui é toda feita com aquele tijolo que não entra bala, aquele tijolo maciço assim, desse tamanho, aquele assim, assim. Ela é toda feita daquele tijolo. E depois eu botei uma sorte fora. Quando eu trabalhava no depósito de sal, você vê as coisas, é o que te falo, quando tem que acontecer, acontece sem você esperar. Eu trabalhava lá e tinha uma vendedora de bilhete aqui em Macaé, se chamava Julieta, uma pessoa de bastante idade já, ela tinha uma bolsinha assim pequena, assim, e grande assim. Não tinha mais o “fechecler”, abria e fechava aquilo. Aí ela ia lá: “Ó Maury, vim trazer seu bilhete”. Eu pegava o bilhete e pagava ela o bilhete inteiro. Toda sexta-feira, bilhete do Estado do Rio corria sexta-feira, acho que é na sexta ainda. Ela ia lá, “Seu bilhete”. Aí teve uma sexta-feira que ela chegou, eu estava assim na mesa, no escritório, aí tinha até o motorista lá que já morreu também, Dinão. Aí ela chegou lá: “Ó Maury, hoje vim trazer seu bilhete”. Eu falei: “Hoje eu não quero”. Ela disse: “O quê?” “Hoje eu não quero” “Mas por que você não quer, rapaz, você compra o bilhete toda semana, hoje você não quer?” “Hoje não adianta que eu não quero”. Aí o motorista fala assim: “Pô Maury, fica com o bilhete rapaz, ela veio aqui, tá insistindo, fica”. Eu falei: “Dinão, hoje eu não quero bilhete, não adianta que eu não quero” “Ah, mas não vai ficar?” “Não”. Ela largou em cima da mesa, saiu correndo. Aí eu disse: “Não adianta, hoje eu não quero”. Fui correndo lá, ela andou uns 50 metros, ela estava com a bolsa embaixo do braço assim, eu disse: “Tá aqui, hoje eu não quero esse bilhete, deixa ele aí”. Ela botou dentro da bolsa [risos]. Aí chegou, saiu, quando chegou na Rua Direita, no calçadão, tinha um fusca, que era do doutor Sadi Gomes. Estava um vidrinho assim fechado, só tinha uma folguinha, ela disse que pegou e jogou assim, daí caiu no banco. Para ela receber o bilhete foi uma luta. Quando chegou de tarde o número do bilhete, tum. Aí chegou no outro dia de manhã cedo o motorista ficou doido: “Maury, você não quis o bilhete”. Olha rapaz, falar com sinceridade, eu não tô nem aí, não era para mim. Quem foi, que era sofredor também, aquele lá, é o meu dinheiro aqui. Era 15 mil reais, um negócio assim, 15 mil reais foi a última sorte naquele valor na loteria estadual que hoje nem sei quanto está mais, hoje deve estar muito dinheiro, faz tanto tempo, né? E assim vai. Aí, a coisa acontece quando tem que acontecer.

P/1 – Deixa eu perguntar. Gente, vocês têm alguma questão? Tem alguma coisa que a gente não perguntou, que o senhor queria contar pra gente? Gabriel?

R – Não, se eles tiverem alguma coisa para perguntar, pergunta, que eu não tenho. A minha vida é aberta, é um livro aberto, que é gente pobre, né? Pobre, honesto, pontual. Você vê que eu estava ali te esperando.

P/1 – Foi pontual mesmo! [risos].

R – Eu olhei, já tinha olhado lá para trás, você falou que era capaz de vir a pé, né?

P/1 – A pé?

R – Você falou: “É capaz de eu vir a pé”.

P/1 – De eu parar o carro e ir a pé porque é perto do hotel mesmo.

R – Aqui você saindo aqui só não vai dar. Quando você for pro hotel você pega a Jesuíta aqui, vai embora e entra lá na Agenor Caldas.

P/1 – É aqui já, né?

R – Agenor Caldas você sabe onde é, né? Lá em cima. Você pega a Jesuíta aqui, entra aqui à direita e segue direto. Quando chegar lá nas duas pistas assim, você vai encontrar duas pistas assim, ali é a Agenor Caldas. Aí você sobe e vai sair lá no Lagos Copa.

P/1 – Vai ser tranquilo, acho que a gente tá bem pertinho, né?

R – Ali, aquela pedra do hotel, vocês estão hospedados no Lagos está ali em frente aquelas pedras ali. Naquelas pedras ali se matou muito peixe, muito peixe. Ali tinha, aquela água ali, quando a maré enchia rodava a pedra. Ali você pescava, dava caruaçu enorme, três, quatro quilos. Tinha gente que pescava até amarrado por causa do vento, as ondas vinham muito em cima, ficavam amarrado e matavam muito peixe ali. Eu ia pescar nessa época com caniço pequeno. Matava muito Aracati, tinha arlete, na beiradinha. Depois que fizeram isso tudo aí, esse quebra-mar, essas coisas todas, aquilo secou tudo. Ali no hotel, tem um hotel da frente que era do Sesi, hoje é da Petrobrás, a Petrobrás que está mantendo aquele hotel grande ali, foi aquela fotografia que você viu lá no mercado, aquele negócio quase igual a igreja, ali era o hotel, hoje é a Petrobrás. Aquelas pedras ali você mergulhava, pescava ali, mergulhava dali. Lá do Rodrigo também, lá de dentro onde tem a Petrobrás hoje, o píer, ali você pescava aquilo tudo, dava peixe à beça lá dentro da Petrobrás lá, onde era tudo pedra. Depois que foram fazendo aquilo tudo lá.

P/1 – O senhor sempre pescou para você, né?

R – Ah, sim.

P/1 – Não para vender.

R – Não, não. Sempre para mim. Eu ia com meu primo pescar anchova, matava muita coisa, eu apanhava uma, duas, trazia pra casa e ele vendia para ele. Camarão e tudo. O negócio era pescar, e é pescar ainda até hoje, né? Meu negócio é pescar até hoje.

P/2 – Eu queria fazer uma pergunta. O senhor conheceu muitos pescadores, né?

R – Conheci.

P/2 – Na opinião do senhor, o que o senhor vê de grandes mudanças na pesca nesses últimos anos, principalmente depois dessa entrada da Petrobrás?

R – Rapaz, olha, a pesca mudou muita coisa porque antigamente não tinha barco, era só barquinho miudinho, tudo pequeno. Os barcos que vinham aí fora eram barcos de portugueses, aqueles barcos grandes de pesca, de arrasto grande. Então essa época eu estava sempre na Ilha de Santana, chegavam os barcos lá, barco de 20 metros, 30 metros, eles arrastavam o dia todo e chegava essa hora eles vinham tudo pra Ilha de Santana, com a tuna ancorada em frente à praia, que lá tem uma praia linda, né? Ficava ancorado ali. Aí, a gente saía para pegar o barquinho menor na ilha, os funcionários vinham, os funcionários tinham barco, vinham no barco grande, chegava à noite eles estavam separando os peixes todinhos, separavam os peixes maiores dos pequenos, era mais peixe para dentro d’água do que pro frigorífico deles, né? Aí, nós chegávamos lá. A primeira coisa, eles davam logo café, café com uma rosca grande, davam o que tivesse. Depois dali eles pegavam a pá, faziam com a pá assim, enchiam o barquinho de seis, sete metros de peixe, mistura, o nome era mistura, pescadinha grande tirava assim, assim. Menorzinha assim eles tiravam tudo. Aqueles pescadores levavam, chegava lá salgado, botavam dentro dos barris com salmoura, água e sal, botava ali dentro para curtir, e depois ia tirando. No outro dia se tirava e botava em cima da pedra, o dia todo. Chegava à tardinha você tinha que ir lá tirar tudo pros bichos não pegarem, mergulhão, urubu, essas coisas. Botavam tudo dentro do barril e botava a tampa. No outro dia você ia lá e despejava tudo. Aí você encontrava peixe salgado, tinha gente que salgava peixe naquela época, tinha até firma, hoje você não vê um peixe salgado, uma tainha salgada, que é muito gostoso, você não vê nada disso. Então, aqui depois foi começando. Veio um senhor pra Macaé, veio o filho dele, seu Ginete, não sei se ele pescava lá no Rio, se era pescador. Aqui ele trouxe barco de pesca, barquinho grande, 12, 15 metros, para pescar de linha. O cação, eles iam lá fora pescar cação de linha, chegava lá fora eles matavam cação de 200 quilos, 250 quilos, 100, 150, vinham quatro, cinco dentro do barco, enormes, cada cação dessa grossura assim, e vendia tudo. Ele salgado vendia tudo, eu sei que vendia tudo. Hoje se você sair procurando cação você não acha, aqui, a gente chegava ali e matava aquele caçãozinho assim, esse bico doce, o cação é bico doce. Gostoso, rapaz. Hoje você bate isso tudo e você não acha um. Até lá fora mesmo você não vê mais cação. Antigamente você via cação, via aí na praia. Na Ilha de Santana via cação na praia, assim, atrás de peixe. Hoje você não vê mais, difícil você ver um cação de 100 quilos, 200, eram enormes.

P/2 – E o senhor tem uma teoria do porquê diminuiu assim?

R – Olha rapaz, isso aí, eu acho que...

P/2 – Na opinião do senhor.

R – Na minha opinião, por exemplo, tem muitos peixes aqui que você não vê mais. Tem um peixe chamado salema, que matava muito lá, ele é todo listrado assim, amarelo, azul, aquelas listras assim. Peixe grande, dava uns dois quilos, dois e pouco. Hoje você pesca isso tudo e não mata mais. Pirajica é um peixe que quase não tem valor, é quatro, cinco quilos, é grande assim. Teve um carnaval aqui que eu e esse colega que mora ali, que é mais idoso, nós fomos lá atrás do Forte, nós ferramos 16 peixes daqui, só eu que consegui matar um, desse tamanho, que ela só queria linha fininha, anzol miudinho e uma iscazinha de camarão descascado. Eu só pesco tatuí, essa água aí eu só pesco tatuí, vou apanhar sexta-feira, 80% no royalties. Então a cidade tá formando aí, mas antes não tinha nada. Eu conheci Rio das Ostras não tinha nada, o prefeito de lá hoje em dia, Alcebíades, ele foi funcionário da Caixa Econômica, quando eu trabalhava no Banco do Brasil, ele era funcionário da Caixa Econômica. O pai dele era pescador, lá de Rio das Ostras, não tinha nada, era umas casinhas de palha lá no cantinho do mercado que tem lá, era só aquilo. Hoje Rio das Ostras cresceu, Rio das Ostras começa aqui, ali depois do Parque de Tubos, da Petrobrás, o pontilhão lá em cima, dali para lá já é Rio das Ostras. Se houver alguma batida ali já tem que ser Rio das Ostras. Aí, vem mar do norte, vem aquela área todinha lá já é Rio das Ostras, tudo, tudo. Cantagalo é tudo asfalto, você roda a cidade de Cantagalo e sai lá em Rio das Ostras, é tudo Rio das Ostras.

P/1 – Seu Maury, o senhor tá falando de muita gente que veio, tá crescendo a cidade. Mas essa riqueza que vem com o petróleo, o senhor vê que está chegando pras pessoas? Você vê uma melhora na cidade?

R – O pessoal que trabalha, vem muita gente de fora, muito técnico formado, essas coisas todas, muito estrangeiro, tem muito gringo, essas firmas todas aí, eu acho que no momento eu não sei se tem alguma firma brasileira. Já teve uma aí, rebocador, nem sei se ainda tem alguma, acho que nem tem mais, é tudo firma estrangeira. Você vai pro lado de Escavadeira, aquela área lá, rapaz, é tudo firma estrangeira, firma grande mesmo, muita firma. Muita firma mesmo. A minha filha mesmo, ela trabalha na Maersk, que é dinamarquesa, teve até problema aí com o negócio de vazamento de petróleo na área aí, aquele negócio todo, mas agora já tá resolvido. Mas é tudo firma estrangeira, muito emprego, mas não está como era antigamente. Antigamente tinha muito emprego, hoje a pessoa vem, mas...

P/2 – O senhor acha que num primeiro momento, quando começou mesmo a coisa tinha mais emprego para quem era daqui.

R – Ah, tinha mais oportunidade, mais chance. Agora já está mais difícil. O governo fala que é fácil, hoje para você estudar você estuda, estuda, estuda, você tem seu diploma, mas é difícil de você conseguir, é difícil conseguir um emprego, muito difícil, é difícil mesmo. Quanta gente tem desempregada aí, gente formada.

P/1 – Uma curiosidade. A Petrobrás veio aqui na década de 1970.

R – É, daí pra frente.

P/1 – E era o período do militar, e aqui sempre teve uma presença militar forte, né?

R – Sempre teve.

P/1 – Como foi esse período da Ditadura Militar?

R – Olha, em 1964 que estourou a Revolução por causa de comunista, aquelas coisas foram muito feias. Naquela época os aviões passavam dando rasante lá no rio, passava avião baixinho. Macaé tinha muito comunista. Tinha uma época que, daqui levaram muitos daqui de Macaé pra Niterói, tudo para ameaçar, aquele negócio todo. Depois foi tudo tranquilo.

P/1 – Entendi, mas teve um período de muita agitação.

R – Ah, teve um período que prenderam muita gente lá no Ipiranga, clube lá em cima, na Rua da praia, da beira rio lá em cima. Prenderam muito ali, levaram para lá, faziam guerra, povo ficava apavorado. Mas tinha muitos deles que pensavam o contrário.

P/1 – Mas chegava a ficar uma coisa meio com medo, os moradores?

R – Morador ficava meio apavorado, mas, eles ficavam mais ainda porque família, essas coisas todas, aí complicava um bocado. Mas foi naquela época, hoje não se vê falar nada, hoje é democracia, mudou muito.

P/1 – Bastante, né?

R – É, mudou muito. Tem oficial daí que naquela época foi cassado por causa disso.

P/1 – Eu fico imaginando essa época porque veio um monte de gente de fora, ao mesmo tempo essa questão política, ao mesmo tempo crescendo, e depois estagnada, né?

R – É. Agora a democracia melhorou bastante, nós não vemos nada praticamente assim.

P/2 – Perseguição.

R – É.

P/1 – E depois desse período? 80 e pouco, como foi aqui, você lembra? Também foi fraco?

R – Foi bem tranquilo, foi só Petrobrás mesmo, aquele movimento todo, aquele negócio todo, muita gente, pessoal chegando. Até ir se ajeitando, quem tinha mais condições, quem não tinha... Hoje por exemplo tem muita gente que trabalha embarcado, né? Eles vêm, ficam no hotel, tem uns que não vão em casa, são 15 dias, 14, um dia para embarque e outro para desembarque. Então eles quase não vão em casa, ficam por aí, fica no hotel aí. Teve muitos que vieram, da Bahia, daqueles cantos todos, largaram a família, aquelas coisas, larga a família e depois arranja outra família aqui e pronto, não quer nem saber. Antigamente o cara chegava no banco, recebia, passava ordem de pagamento para lá, essas coisas todas. Depois disso tudo os caras mesmos largaram a família e aí começaram a arranjar a família e ficaram aí, deixaram as outras em dificuldade, né? Que é uma coisa difícil, né, problema mesmo. E assim vai, a vida é essa, a vida é assim.

P/1 – Pessoal, mais alguma pergunta? Vocês estão tranquilos?

P/? – Tranquilo.

P/1 – O que o senhor achou de contar um pouco a sua história pra gente?

R – Ah, adorei. Gostei. Pelo menos contei muita coisa que conforme eu te falo, onde eu passo eu penso, isso aqui era isso, assim, né? Isso aqui, por exemplo, era só mato e hoje tá tudo aí, quarteirão cheio de casa, prédio, essas coisas todas. E todo lugar, Cavaleiros, aquilo tudo lá, era tudo fazenda. Quando eu trabalhei na loja de ferragens, lá ainda era fazenda, 1948, 1949, eu já trabalhava em loja de ferragens. Aquilo lá era tudo fazenda. Hoje é tudo prédio, mais prédio, e continua crescendo, continua crescendo. É bairro para cá, loteamento novo, muitas casas, e vai continuando, então vai embora.

P/1 – E vai continuar mudando, né?

R – Vai. Daqui a pouco uma vai estar ligada a Rio das Ostras, praticamente, né?

P/3 – É. Hoje em dia já está quase já, falta pouco mesmo, né?

R – Falta pouco, falta pouco.

P/3 – Às vezes você pega para ir daqui até Rio das Ostras esse horário agora de seis horas, sete horas...

R – Para chegar lá é difícil!

P/3 – É, você vai andando a dez por hora, né? [risos].

P/1 – Olha só.

R – Eu ia muito para lá, Rio das Ostras, Barra de São João, eu ia de bicicleta. Quando eu era novo eu tinha um amigo, domingo de manhã cedo a gente ia, saía daqui, pegava a bicicleta, ia para lá para a Barra de São João, chegar lá para comer galinha em um conhecido nosso, seu Fred, trabalhou no DER. Mas hoje mudou tudo, mudou tudo mesmo.

P/1 – O senhor de bicicleta, é? Só para passear ali.

R – Só para passear [risos]. Quando não tinha pescaria ia passeando [risos]. E a estrada de barro, era tudo barro [risos]. É no pedal, era tudo barro mesmo. Hoje está tudo asfaltado, tecnologia hoje muito avançada, né? Hoje você tem tudo. Criança hoje tem tudo, você vê criancinha aí com seis anos, sete anos, já com celular, mexendo direto no computador. Eu não sei mexer em computador porque não foi da minha época. Meus filhos todos, meus netos, tudo ligar o computador, tranquilo. É, tenho uma netinha com oito anos, direto no computador.

P/1 – E o pessoal sabe pescar? Seus filhos aprenderam a pescar?

R – Não, meu filho, quando ele era novo eu ainda comprei um molinete para ele, ele viu, ele foi pescar, mas depois foi desenvolvendo e vai mudando, né? Aí, eu pegava o molinete aqui, deixei até ali para você ver.

P/2 – Ah, boa, boa, boa.

P/1 – Cuidado com o fio!

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