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História

Em águas muito rápidas

História de: Gisele Gurgel Dias de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/03/2020

Sinopse

Infância e adolescência na Vila Saúde. Trajetória como bailarina e surfista profissional. Carreira de designer. Participação na construção e fechamento da empresa de cosméticos Oriflame no Brasil. Ingresso na empresa multinacional de embalagens Tetra Pak, em 1999. Especialização e experiência em Marketing. Casamento. Mudança para Goiânia. Área comercial. Retorno a São Paulo. Sustentabilidade e responsabilidade social. Celebração de cinquenta anos de história da Tetra Pak.

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História completa

 

P/1 – Bom dia, Gisele.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Você poderia falar o seu nome completo, data e local de nascimento?

 

R – Meu nome é Gisele Gurgel Dias de Souza; (risos) eu nasci em São Paulo, no dia 19 de outubro de 1971.

 

P/1 – E qual a sua função hoje, na Tetra Pak?

 

R – Hoje eu sou gerente de Marketing da área de lácteos – cuido das categorias de leite longa vida, creme de leite, leite condensado, aromatizado, fermentado. (risos)

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Cecil Dias; minha mãe, Adriana Maria Gurgel Dias. (risos)

 

P/1 – E eles nasceram onde?

 

R – Minha mãe nasceu em Jaú [SP] e meu pai em Diamantina [SP].



P/1 – E qual era a atividade deles?

 

R – Meu pai era gerente do Banco Econômico, mas aposentou-se um pouco cedo – hoje ele é aposentado. Minha mãe é do lar – sempre fez várias atividades, mas a maior delas era cuidar dos três filhos, levar-me ao Balé, ao Inglês, à escola... (risos)

 

P/1 – E eles moravam onde quando se casaram?

 

R – Primeiro eles passaram uma certa dificuldade – eu nasci na fase boa, porque sou a última dos três filhos. Eles moravam numa casinha na Saúde, sempre naquela região; depois de muitos anos, compraram uma casa numa vila, onde eu nasci, cresci e passei minha vida. Casei-me e continuei morando na vila, na casa da minha avó – que era na mesma vila. Eu adorava aquela vila. Infelizmente, tivemos que vendê-la, mas eu falei que, um dia, eu compro aquela casa de volta. (risos)

 

P/1 – Ela fica na Saúde?

 

R – É, na Saúde.

 

P/1 – E os seus irmãos, são mais velhos ou mais novos?

 

R – Mais velhos. Eu sou a caçula.

 

P/1 – Você poderia falar o nome deles e a atividade?

 

R – Meu irmão é falecido; o nome dele era Cecil Dias Júnior, igual ao do meu pai. Minha irmã, a Cristiane, hoje é dona de uma imobiliária; trabalha com venda de imóveis na região da Saúde – falam que é a melhor vendedora do bairro! (risos)

 

P/1 – Como foi a sua infância e a sua adolescência nessa região? Como era essa região antes?

 

R – A minha infância foi na vila, gostava muito da vila; minha avó morava na vila, eu tinha primas que iam sempre lá. Minha infância sempre foi muito tranquila; fui uma criança tranquila, obediente, mas adorava inventar! A coisa que eu mais gostava de fazer era ficar no telhado das casas – eu era uma macaca! Pulava de uma casa para outra, andava quase o quarteirão inteiro só pelos telhados; quando minha mãe via, eu estava presa no quintal de uma casa e tinha que pedir para alguém me liberar. (risos) Essa era eu, vivia assim; odiava pôr roupa; sempre de chinelo, calcinha sem blusa, pulando de telhado em telhado aos sete anos de idade. Eu gostava de brincar de escalar, de subir – brincadeira de moleque; casinha não era comigo! Meu irmão eu perdi cedo e minha irmã casou-se quando eu tinha catorze anos, então minha adolescência foi só com meus pais; eu surfava – meu tio é surfista até hoje, meu irmão era e eu, com onze anos, comecei a surfar. Minha pré-adolescência foi na praia: meus pais tinham casa na praia, nessa época eu não ficava um fim de semana em São Paulo; na sexta-feira, eu saía da escola – eu já ia com a minha mochilinha – e pegava o ônibus na rodoviária. Meus pais encontravam-me no sábado, porque eu não os esperava, aos doze anos, eu já era independente.

 

P/1 – Você ia sozinha?

 

R – Sozinha, com uma autorização; eu saía do colégio ao meio-dia e ia para a praia – na tarde de sexta-feira, eu já estava surfando.

 

P/1 – E vocês tinham casa onde?

 

R – No Guarujá [SP]. Eu adorava. Isso foi o que eu fiz na minha adolescência inteira. Mas é engraçado porque, apesar desse meu perfil – de ser surfista, acordar às cinco horas da manhã e surfar seis horas por dia –, eu nunca deixei de estudar, nunca repeti um ano na escola; eu estudava em escola particular, sempre fiz Inglês, era bailarina, fui bailarina profissional até os vinte e três anos. Ninguém entendia, eu fazia os dois opostos, sempre gostei muito de teatro também. Então, apesar de ser uma surfista nata, eu fazia minhas atividades durante a semana regularmente; nunca me envolvi com droga, com qualquer coisa ruim que o mundo da praia oferecia. Meus pais estavam sempre na cola, meia-noite em casa, não tinha mordomia, não. Aos quinze anos, eu comecei a concorrer no Circuito Brasileiro de Bodyboard, então era surfista profissional também, além de bailarina. Foi quando eu tive que parar o balé, porque esses campeonatos batiam com os espetáculos de balé e a professora, a dona da companhia de dança, falou: “Ou você surfa ou você dança; não dá para fazer os dois”. Então eu fui surfar e virei profissional no surfe; tinha patrocínio e fiquei alguns anos – uns três anos, eu acho – concorrendo no circuito brasileiro. Nessa época, eu estava na faculdade, ia me formar e comecei a ver que viver de surfe não dava certo; eu via as minhas amigas, as mais velhas, e falava: “O quê? Eu vou ficar vivendo nessa vidinha? Não, eu quero mais. Vou continuar surfando, mas vou trabalhar para poder surfar como prazer e não levar a vida no surfe, porque dinheiro que não se ganha com isso”. É muito difícil ganhar dinheiro no surfe, foi a decisão certa, porque eu comecei a trabalhar, virei uma profissional; eu comecei como designer na área de criação e passava meus momentos no estúdio criando, viajando, ouvindo música. Acho que isso, para mim, foi fundamental no início da minha carreira, porque trabalhou muito a minha criatividade; depois, eu tive a oportunidade de ir para uma indústria montar um estúdio, uma house de criação de embalagens - sempre gostei muito de embalagens.

 

P/1 – Só voltando um pouquinho: antes de entrar na faculdade, em que escola você estudava?

 

R – Estudava no Colégio Santa Amália, na Saúde.

 

P/1 – E quando você foi para faculdade, você foi para...?

 

R – Fui fazer Belas Artes.

 

P/1 – E era o que você queria?

 

R – Era o que eu queria. Sempre quis trabalhar com alguma coisa relacionada à criação. O Marketing, para mim, ainda não tinha tanta referência; na verdade, eu venho de uma família de desenhistas, de criatividade muito apurada. O meu tio foi desenhista a vida inteira e hoje trabalha em Miami [Florida, Estados Unidos], em um escritório de comunicação da prefeitura; ele trabalha com toda a parte de eventos culturais, sinalização de cidades – é ele quem gerencia o escritório de criação em Miami. Eu cresci com ele e ele era uma das pessoas que eu mais admirava; a minha prima é desenhista, meu irmão gostava muito dessa parte, dessa área também, então acho que eu fui um pouco direcionada para isso. Mas, aí, eu descobri o Marketing: quando eu estava trabalhando no escritório de Design, eu fazia muitos trabalhos por fora, freelancer – eu trabalhava de madrugada, fim de semana, pegava vários trabalhos para conseguir algum dinheiro –; então, uma agência indicou-me para uma empresa, que foi quando eu fui para a Chapecó. Na Chapecó eu tive a oportunidade de trabalhar com grandes profissionais, que vieram da Sadia; esses profissionais começaram a falar: “Poxa, você tem o dom para liderar e coordenar, não só para ficar atrás da prancheta”. Eles incentivaram-me a fazer um curso de Marketing, uma pós-graduação na ESPM [Escola Superior de Propaganda e Marketing]; foi quando eu comecei a fazer e eles pagaram todo o meu curso. Eu saí da Chapecó e fui para uma outra empresa, também como profissional da Chapecó, que era ex-Sadia. Ele continuou a pagar minha faculdade. “Você vem, mas eu vou continuar pagando para você.” Eu comecei a trabalhar com a área de Marketing, na parte mais estratégica, saindo um pouco mais do operacional. 

 

P/1 – E você tinha quantos anos quando você entrou na faculdade?

 

R – Eu entrei na faculdade com dezesseis para dezessete anos – no final do ano, eu fiz dezessete. Eu entrei nova na escola, não repeti nenhum ano e entrei cedo na faculdade.

 

P/1 – E você fazia a faculdade e estava fazendo o circuito?

 

R – É. Eu fazia a faculdade, corria o circuito de surf, fazia dança, comecei a fazer capoeira – fui campeã regional de capoeira também – e trabalhava, à tarde, em um escritório de Design. Na verdade, antes de trabalhar em Design, com dezessete anos, eu ia numa agência de propaganda que me deixaram entrar; não ganhava nada, mas eu passava a tarde inteira no estúdio, fazia os meus trabalhos de faculdade e ficava lá, aprendendo.

 

P/1 – Você começou a trabalhar também com dezessete anos?

 

R – É. Na verdade, eu comecei a trabalhar antes, com quinze anos – eu trabalhava nas minhas férias, nas lojas da praia, lojinhas de roupa, para ganhar dinheiro e comprar prancha. (risos) Era um trabalho cansativo: surfava de manhã, ia às quatro horas da tarde e saía às onze horas; a loja bombando, férias de verão na praia, o Guarujá lotado e eu trabalhava todo dia, até no dia de ano novo – no dia 31, eu trabalhava até às onze horas, para fechar a loja e ir embora. Eu não precisava, meus pais tinham uma situação boa, mas nem tanto, eram classe média, e eu sempre quis muitas coisas, então eu punha na minha cabeça: “Eu vou conquistar”. Eu não gostava de ficar pedindo para o meu pai; eu via as dificuldades, então eu falava: “Vou correr atrás”. Eu encasquetei que eu queria conhecer os Estados Unidos e comecei a trabalhar cedo porque eu queria ir; com dezenove anos eu fui, com meu dinheiro, para os Estados Unidos – de mochila, acampando; eu conheci toda a parte da Flórida e outros estados próximos, no Golfo do México. Eu de mochila e acampamento, conheci vários estados, várias cidades, fiquei um mês. Quase que eu não voltei. (risos) Adorei. Sempre que dá, eu volto; gosto muito de viajar.  

 

P/1 – E você gosta muito de ir para lá?

 

R – Muito dos Estados Unidos, adoro.

 

P/1 – Você falou que foi para a Chapecó e da Chapecó foi para...?

 

R – Da Chapecó eu fui para uma indústria chamada Oriflame – uma empresa sueca de cosméticos – e fiquei três anos e meio; eu fui com uma pessoa da Chapecó, um superintendente que foi para lá e convidou-me – eu fui a primeira funcionária depois dele; quando ele saiu, eu fiquei sendo a número um. Mas a Chapecó foi uma experiência, para mim, incrível. E era uma empresa vizinha da Tetra Pak; depois eu vim saber que ela tinha um perfil muito parecido de gerenciamento e de cultura por ser sueca. Não sei se é por ser sueca ou se pelo dono da Oriflame ser fã da Tetra Pak, porque eram muito parecidas as coisas. A Oriflame ia entrar no Brasil, então não tinha nada: eu lembro que a minha primeira mesa era uma mesa igual àquela, com um baita computador, em um escritório pequenininho. E nós tínhamos que construir a Oriflame no Brasil. Eu participei de toda fase estratégica, da iniciativa de trazer toda a cultura da Oriflame e estabelecer toda a parte de logística de uma empresa de venda direta de cosméticos; nós montamos um escritório perto da Avenida Paulista, na Alameda Campinas com a Joaquim Eugênio de Lima. Eu participei, inclusive, da decoração. Nós tínhamos que fazer catálogos, todo o material para divulgar a empresa aqui no Brasil, toda a parte de estratégia, treinamento, as primeiras reuniões; com a Oriflame, eu tive a oportunidade de viajar o Brasil inteiro: nós fazíamos eventos de lançamento e de demonstração de produtos nos melhores hotéis no Brasil; eu saía na segunda-feira e voltava quinta-feira ou sexta-feira para São Paulo. Semana sim, semana não, eu passava viajando e dando treinamento para trezentas pessoas. Eu realizava-me, porque subia no palco, toda maquiada, e tinha que convencer sobre o que era venda direta com sistema de marketing de rede. Não sei se vocês já foram a uma reunião dessas, no estilo da Amway: você tem que convencer as pessoas e eu tinha esse papel. E tem que ser uma coisa meio teatral.

 

P/1 – E não foi difícil sair de uma empresa estruturada para uma que estava no início?

 

R – No começo, sim; foi muito difícil, trabalhava muito e eram poucos funcionários no início. Depois, eles elegeram um presidente, que hoje trabalha na rede Shopping Iguatemi – é vice-presidente dessa rede –, ele é uma pessoa incrível, com uma experiência, uma educação, um conhecimento, ele fez Harvard. Ele era uma pessoa muito inteligente e diretamente com ele foram contratando gerentes de logística, gerentes comerciais – mas, no começo, era eu e ele. Nós construímos um escritório onde eu escolhi desde a cadeira até o carpete, além de montar o catálogo, definir como iam ser as reuniões, como íamos fazer as apresentações, tudo – comunicação, assessoria de imprensa –; não tínhamos funcionários, então construiu-se tudo, inclusive a contratação, com a ajuda de pessoas de fora – tinha chilenos, suecos – que vinham e passavam toda a estrutura da empresa para que se reproduzisse no Brasil. Já tinha uma estrutura, mas tínhamos que traduzir todos os manuais, todo o material de vendas, de comunicação. Foi uma experiência inédita, fora que trabalhar com cosmético é maravilhoso: os lançamentos eram com grandes maquiadores, modelos famosos, eram eventos bem fashion. E eu tinha que organizar tudo isso com pouca verba. Não tinha essa de contratar agência. Eu contratava os fornecedores diretamente. A agência era eu. Como eu tinha facilidade de criação, de mexer com programas gráficos, eu lembro que os folhetos de promoção e materiais internos eu fazia diretamente no Pagemaker, no Corel Draw – não contratava agência, não. Eu tinha um cara que me ajudava, que era meu parceiro nos bicos que eu fazia de estúdio, e, quando eu precisava finalizar algum arquivo, ele mandava para a gráfica e fechava. Mas era eu quem desenhava tudo no computador, porque eu pensava: “O tempo que eu vou brifar, eu mesma faço aqui”. Hoje, eu não consigo, não dá mais tempo de fazer isso porque o meu trabalho mudou bastante.

 

P/1 – E você ficou lá quantos anos?

 

R – Fiquei três anos e meio. Eu fui a primeira funcionária e a última. 

 

P/1 – Nossa.

 

P/1 – A empresa fechou?

 

R – A empresa fechou, infelizmente. Por uma decisão estratégica-corporativa do cluster América Latina, eles decidiram fechar a operação no Brasil, que era a mais nova. Teve uma questão de aumento de taxa cambial, taxas de importação, e todos os produtos eram importados – o principal drive da empresa era vender produtos de alta qualidade a preços competitivos. Nossa referência eram os preços como os da Avon, que eram menores que o da Natura; nesse momento, teríamos que ser maior que Lancôme, então não tinha mais significado e resolveram fechar. Eu era gerente geral, como eles chamavam, e tive que fazer todo o material de fechamento, assim como eu fiz todo o material de abertura da empresa, só que de forma secreta e sigilosa. Eu lembro que eu trabalhava das dez à meia-noite e nenhum funcionário poderia saber; era uma informação que quando saísse, teria que estar tudo pronto estruturalmente, para que conseguíssemos levar a informação até o final. Uma fase muito triste, porque todas aquelas reuniões de convencimento para plateias enormes, no Brasil inteiro – era o meu rosto que estava lá. Eu falei: “Como eu fiz isso, eu vou dar a mensagem final”. Eu lembro que nosso evento final foi no nosso último escritório – um escritório belíssimo, lindo, com um paisagismo maravilhoso – com todas as melhores revendedoras do Brasil, numa reunião que fazíamos, e eu passei a informação que íamos fechar.

 

P/1 – Deve ter sido muito duro.

 

R – É. Mas, pelo menos, eu tive a oportunidade de falar. Souberam por mim, mas foi muito duro. A choradeira foi grande, foi a pior situação da minha vida. Eu saí dessa empresa e falei: “Eu não quero trabalhar mais em nenhuma empresa do segmento de vendas diretas”. Muitas empresas vieram atrás de mim, porque eu fazia muitos cursos, dava palestras nessa área de marketing de rede, comecei a especializar-me – e é difícil, em alguns segmentos, que falem bem. Eu lia muitos livros, fazia muitos cursos e muitas empresas vieram atrás, mas eu não quis – tanto é que eu participei do processo de seleção da Tetra Pak. Foi uma pena, joguei um monte de conhecimento dessa área fora, mas eu decidi mudar de área.

 

P/1 – Quando você saiu, você foi para a Tetra Pak. Você já a conhecia?

 

R – Não conhecia. Conhecia a Tetra Pak de nome, no mercado, mas eu nunca tinha tido nenhum contato forte com ela. E a Oriflame pagou-me até que eu me colocasse no mercado, independente do escritório fechar; eu tive esse apoio, mas foram três meses só, porque eu comecei a participar do processo de seleção da Tetra Pak e aqui estou.

 

P/1 – Antes de entrarmos nesse processo de seleção – você é casada?

 

R – Sou.

 

P/1 – Você poderia falar o nome do seu marido e o que ele faz?

 

R – Meu marido é Cláudio Teixeira. Ele é fotógrafo e o conheci com quinze anos – uma das fotos mais bonitas que eu tenho foi a primeira que ele tirou de mim; foi aí que eu me apaixonei por ele. (risos) O Cláudio é do Guarujá, é da praia, caiçara; eu ficava surfando e ele ficava atrás de mim o tempo todo: “O que é que esse cara quer comigo?”. Nossa história é muito longa – vamos fazer, nesta semana, treze anos de casado, mas estou com ele há vinte anos. Temos uma filha linda, que é a Lara, de três anos, que demorei bastante para ter; a nossa história é uma história bastante louca, porque o Cláudio é uma pessoa que teve muita dificuldade na vida, uma pessoa que passou fome, passou necessidade e só foi reconhecido pelo pai com catorze anos, que foi quando ele começou a estudar, a viver, a ter uma educação – antes ele era uma criança largada. Eu o conheci na praia e o que mais chamou-me a atenção nele foi a sinceridade; ele falou assim: “Olha, não tenho nada...” – eu lembro até hoje – “...não tenho nada, mas eu amo você e eu quero ficar com você o resto da minha vida!” (risos) Estou dentro – é tão difícil!

 

P/1 – Aos quinze anos?

 

R – Aos quinze anos. E foi muito difícil, porque teve todo aquele preconceito, a famosa garota de classe média com o caiçara. Minhas amigas do Guarujá falavam: “Você vai namorar com esse cara?”. Encontrei vários preconceitos na frente, mas eu passei por tudo isso. O maior deles foi quando eu casei; eu amo meu pai, só que ele era duro na educação – e acho que ele estava certo, porque se não fosse assim, eu não tinha batalhado tanto. E ele falou: “Você quer casar, você casa; só que a caixa de conta está aqui. Eu vou passar para o seu marido”. “Mas eu não tenho como pagar!” “Então, se vira...” Casamo-nos quando eu tinha vinte e um para vinte e dois anos e fui morar na casa da minha avó, na vila da minha mãe. (risos) Mas aí eu conquistei tudo, trabalhando juntos, os dois unidos, buscando; ele é uma pessoa com boas intenções, o amor era forte e, graças a Deus, hoje eu estou na Tetra Pak.

 

P/1 – E ele é fotógrafo?

 

R – Ele é fotógrafo.

 

P/1 – O processo seletivo: você ficou fazendo processo seletivo na Tetra Pak por quanto tempo? Foi longo esse processo?

 

R – Não foi muito longo, acho que em menos de vinte dias. Eu fiz umas duas, três entrevistas; acho que, com o profissional que estava lá, tivemos uma certa empatia. Eu lembro-me até hoje da primeira entrevista, com o diretor de RH, o Gilberto Balista, onde eles passam uma apresentação, um case para você fazer; eu fiz aquele case – eu tinha vindo da Oriflame e estava craque de falar em público, em convencimento. Eu gosto muito de falar, de conversar, não sou nem um pouco tímida nesse ponto; acho que eu fui muito bem na entrevista. E minha experiência na empresa da qual eu vinha – multitarefas, fazer tudo, acesso a todos os níveis da empresa – contou bastante; eu passei e acho que eles não tiveram muita dúvida porque a resposta foi muito rápida. Praticamente na minha entrevista, a pessoa que estava, que era o diretor de Marketing, falou: “Por mim, está ok”. Não teve muitas etapas. Acho que foi legal.

 

P/1 – E isso foi em que ano?

 

R – Foi em 1999. 

 

P/1 – E foi no escritório de São Paulo?

 

R – Foi no antigo escritório da Lapa. Trabalhei lá por um tempo, até que decidiram mudar-se para a Berrini [Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini]; eu era coordenadora de Marketing, que foi a vaga para qual eu passei. As divisões eram bem diferentes: não tinha uma divisão, como hoje, de categorias; eu era coordenadora de Marketing e atendia a todas as áreas da empresa, trabalhando junto com o gerente de Marketing. Também fazia tudo, era bem o meu perfil, fazer as coisas acontecerem de forma rápida, porque eu conhecia muitos fornecedores, tinha muitos contatos. 

 

P/1 – Fornecedores que você conhecia de outras empresas?

 

R – De outras empresas. Sempre tive muito contato com fornecedores por esse meu perfil de fazer produção direta e sempre trabalhar com pouca verba; é um marketing diferente de você ter muita verba, onde você trabalha com agência e a agência terceiriza tudo e ganha as comissões. Eu sempre fui muito econômica nas minhas atividades, então contratava direto os fornecedores, com preço baixo, era muito boa em negociar, em ter custos baixos; consegui fazer coisas legais com um preço menor, então eu tinha muito contato com fornecedor.

 

P/1 – E a sua primeira foi na área de Coordenação de Marketing?

 

R – Coordenação de marketing.

 

P/1 – Conta como era o seu cotidiano de trabalho, o seu dia a dia nesse seu início na Tetra Pak.

 

R – Eu lembro que me falaram: “São três meses de experiência; cuidado com os três meses!” – o diretor gostava de fazer esses comentários. Quando eu entrei na Tetra Pak, eu não entendia como era aquele marketing, porque era uma empresa B to B [business to business] e eu estava acostumada a trabalhar direto com o consumidor. Eu estava numa empresa B to B tendo que pensar B to C [business to consumer], que era pensar no consumidor, mas trabalhando a indústria, sem ter um produto que eu facilmente falasse: “Eu quero te vender este produto. Eu tenho esse produto; se você quiser, você compra”. Eu não tinha o produto na mão, mas eu tinha que fazê-lo, comprar o produto de outras pessoas; eu levei um tempo até entender como era essa ideia de trabalhar o consumidor, sendo da indústria, através dos meus clientes – é uma relação muito rica. Eu falo, sobre o marketing da Tetra Pak, que os profissionais que tiverem a oportunidade de conhecê-lo são privilegiados, porque é uma atividade muito diferente. Eu não conheço, nem nunca ouvi falar, de nenhuma empresa de embalagem, sendo um fornecedor, que tenha um trabalho e uma preocupação tão grande em satisfazer seus consumidores finais através da sua embalagem, da sua imagem, da tecnologia que foi criada. Acho que a maioria dos fornecedores, principalmente no nosso segmento, que é a embalagem, a preocupação é vender embalagem: “Se ela vai chegar no consumidor amassada ou se o produto que está dentro é bom, esse não é o meu negócio. O meu negócio acaba aqui, na embalagem.” Na Tetra Pak, não; aqui, o negócio vai muito além: há preocupação com cidadania, com o social, com a qualidade dos produtos, com o consumidor. Às vezes, se um produto tem um problema de qualidade, nós encaminhamos e preocupamo-nos em ajudar os nossos clientes em resolver. A Tetra Pak é, realmente, uma mãe; é uma empresa na qual eu me orgulho em ser funcionária.

 

P/1 – Você falou que seu primeiro contato com essa realidade do marketing da Tetra Pak foi uma coisa nova para você. O que mais você poderia dizer da primeira impressão que você teve da Tetra Pak quando começou a trabalhar? Além de ter se deparado com essa realidade totalmente diversa da qual você estava acostumada, o que mais te surpreendeu e o que mais compôs essa sua primeira impressão?

 

R – Como todo profissional em início de carreira, eu sempre tive aquele sonho em trabalhar numa grande empresa que você realmente tenha orgulho e que você possa falar: “Eu sou funcionário dessa empresa”. Sinceramente, quando eu entrei na Tetra Pak, nas primeiras entrevistas, por ser uma empresa de indústria, embalagens, eu não tinha certeza que essa era a empresa que eu sonhava; quando eu entrei e comecei a conhecer o mundo da Tetra Pak, a quantidade de informações que ela tem, o tamanho dela dentro do mercado e comecei a entender realmente como era o negócio, vi que ela não perde para nenhuma da área de varejo, de produtos, de bens de consumo como uma Nestlé, uma Unilever, uma AmBev – não perde. Eu surpreendi-me muito com o que eu vi: a preocupação da Tetra Pak com o consumidor, a preocupação dela em termos estratégicos, de conhecer o mercado – eu realmente fiquei admirada. Eu não tinha ideia que era isso tudo que Deus estava dando na minha mão e que, realmente, a Tetra Pak era completa.

 

P/1 – Só para pontuar mais esse seu início de carreira: você disse que era mais business to business essa relação, quer dizer, você entrava em contato direto com outros clientes da Tetra Pak, ao mesmo tempo em que tinha que se preocupar com a imagem do produto desse cliente no mercado. Explica um pouquinho como é que era isso na prática.

 

R – A Tetra Pak, na verdade, serve como uma grande consultoria de Marketing: boa parte dos nossos clientes não tem um departamento de Marketing tão bem estruturado ou acesso a informações como pesquisas e tendências mundiais – a Tetra Pak vai à frente e preocupa-se em trazer essas informações, essas pesquisas, essas tendências. E no nosso trabalho, desde o início, o que surpreendia – e que era muito legal – era que você tinha a oportunidade de ter contato com várias empresas do Brasil, não só no setor lácteo, mas no setor de bebidas, no setor culinário. O meu trabalho, no início da carreira, era ajudar essas empresas a enxergarem oportunidades: mostrar-lhes a oportunidade de produtos, fazer a avaliação estratégica do mercado, ver para onde o mercado estava andando, reuniões com a equipe de vendas, sempre dando suporte na parte estratégica e também realizando ações de forma institucional, com o nome Tetra Pak, que se revertesse em um bem aos nossos clientes. Nós sempre pensamos um tipo de marketing de ação que o mercado não tem: ou você faz a ação para vender o seu produto ou para vender o nome da sua empresa. Mas, vender a sua empresa para que ela resulte em venda de produtos dos seus clientes, é um marketing para o qual eu acho que deveria ser criada uma palavra nova, porque é muito diferente. E essas ações são muito legais, porque você trabalha com vários interesses, contato com clientes de vários tipos, desde pequenas até médias e grandes multinacionais. Esse contato é muito precioso. Eu tive a oportunidade – isso mais recente – em trabalhar com grandes multinacionais na parte comercial e você aprende muito. Você vê que realmente a Tetra Pak, em termos estratégicos, em termos de Marketing, não perde para ninguém.

 

P/1 – Você poderia falar sobre algumas dessas campanhas das quais você participou? Campanhas da Tetra Pak com a função de projetar os produtos de seus clientes.

 

R – Uma campanha que foi muito interessante, da qual eu tive a oportunidade de participar desde brainstorm inicial, foi a campanha das Orelhinhas – troque as orelhinhas. Desde que eu cheguei, eu olhava aquele selo Tetra Pak; eu falei: “Poxa, temos que valorizar a nossa marca e vender mais. Por que não usar a nossa marca, que está em todas as embalagens? Vamos fazer uma campanha de coleção!”. Lembrando-me daquelas campanhas do Açúcar União, de troca de receitas, essa ideia surgiu numa reunião de brainstorm. Fomos em frente com essa campanha e é muito engraçado que, até hoje, eu encontro pessoas que ainda guardam as orelhinhas, porque falam: “Um dia, essa campanha vai voltar e eu vou ter as orelhinhas comigo”. Uma vez, na minha casa, eu achei um copo – isso há três anos atrás – de orelhinhas de leite: “O que é esse copo aqui?”. A minha empregada: “Eu estou guardando porque vai que essa campanha que já teve uma vez, de trocar, volte. Eu estou guardando desde já”. Na minha casa! Tem fornecedor que diz que recebe cartas com orelhinhas dentro até hoje. Esse fim de semana eu estava com um fornecedor e ele falou que vai me dar uma carta ainda, que a próxima que chegar ele manda para mim. Então essa campanha foi muito interessante; eu acho que fortaleceu muito a marca, as pessoas atentaram-se em buscar, em ler o que a Tetra Pak é importante e que ela faz parte, que é uma tecnologia muito mais do que uma embalagem bonita. Isso fora o resultado de vendas para os nossos clientes porque, com a campanha, as pessoas queriam comprar mais embalagens, priorizando a embalagem da Tetra Pak em momentos em que se tinha outras concorrentes no mesmo produto – priorizava-se a Tetra Pak, então o resultado foi muito positivo. Eu gostei muito dessa campanha.

 

P/1 – E campanhas como as que promovem o leite como a Beba Leite ou a do suco, você também poderia falar um pouco delas?

 

R – O Beba Leite surgiu numa segunda fase da minha carreira, quando a empresa foi dividida em categorias e eu estava na categoria de lácteos. O nosso incentivo, nossa campanha, foi o “Beba Leite”, que foi quando lançaram o site, quando fizemos algumas campanhas de crescimento valorizando o consumo do leite, sempre com a preocupação em aumentar o volume médio e valorizar a importância do leite na alimentação. Essas campanhas foram muito legais também. O site Beba Leite teve uma repercussão muito interessante no início. Deixa ver se eu lembro de alguma campanha... Teve a do crescimento, a do dos anúncios que fizemos... A grande campanha institucional da qual eu participei foi a das Orelhinhas; o Beba Leite foi mais a parte de mídia de inserção, não teve nenhuma propaganda. 

 

P/1 – E essas campanhas da Tetra Pak são divulgadas em diversas mídias – na TV, mídia impressa, rádio?

 

R – Depende do objetivo da campanha; sempre o plano de mídia é avaliado conforme o nosso objetivo. Com o Beba Leite nós fizemos muitos cursos de culinária, ações pontuais, ações de comunicação, anúncios em revistas, trabalhamos com assessoria de imprensa, trabalhamos através dos sites, então foram outras ferramentas que nós usamos. A grande campanha institucional com a TV foi a das Orelhinhas; a Beba Leite teve uma campanha de crescimento, que foi quando nós montávamos várias embalagenzinhas, que as pessoas iam com as crianças andando, como se elas estivessem crescendo, com uma régua do crescimento. Mas foi legal fazer campanha de TV, foi uma campanha bem interessante também.  

 

P/1 – Sobre patrocínio: não sei se sua área tem a ver com isso, mas a Tetra Pak patrocina eventos como, por exemplo, o Avon Running. Você poderia falar um pouco desse tipo de patrocínio da Tetra Pak, como funciona e quais foram os que você participou – como área ou como funcionária?



R – A Tetra Pak recebe muitas solicitações de patrocínio, mas não temos uma estratégia muito forte em termos de patrocínio de outros eventos; apesar disso, a Tetra Pak está sempre aberta para ver oportunidades, principalmente em coisas que tenham um fundo social importante – isso é que é interessante: não temos uma estratégia de divulgação da marca em cima de patrocínios, mas temos o coração aberto para patrocinar coisas que realmente tenham objetivos importantes para a atividade social. No Avon Running, que trabalhamos na luta contra o câncer, foi uma dessas oportunidades em que recebemos a proposta, e: “Bom, acho que é interessante”. É uma ação importante de estarmos apoiando como Tetra Pak, sempre pensando mais no lado social do que simplesmente no interesse em exposição de marca. Mesmo porque – é o que eu falo – não somos um bem, um produto de consumo final, de consumidor final, onde você põe o seu produto, está dentro do público – a Tetra Pak é uma marca. Acho que tem muito mais por trás disso quando nós estamos apoiando; tem que ter um interesse, tem que ter uma atividade social importante que realmente tenha a ver com a nossa cultura e os nossos valores, muito mais do que simplesmente um fundo de marketing e repercussão em vendas, porque realmente esse não vai ser o nosso interesse.

 

P/1 – Gisele, voltando um pouquinho para a sua carreira mesmo: coordenadora de Marketing até quando e o que veio depois?

 

R – Não me pergunta datas...

 

P/1 – Mais ou menos quanto tempo você ficou nessa função?

 

R – Eu fiquei na função de coordenadora de Marketing de 1999 até 2001. Acho que porque eu tinha muito contato com clientes, apoiava muito a área de Vendas com atividades de Marketing, numa feira – na Fispal de 2001 –, um diretor comercial de uma regional, na época de Goiânia, chegou para mim e falou: “Você fala, você se dá bem com nossos clientes, você é convincente. Você gostaria de trabalhar na área comercial?”. Eu pensei e falei: “Por que não?”. Conhecer a área comercial era uma grande curiosidade que eu tinha, porque quando você fica só no Marketing, você está vendo muito consumidor, muito mercado. Mas qual o negócio da Tetra Pak, o nosso produto? O nosso produto são as embalagens, a tecnologia, as nossas máquinas de envase. Eu pensei: “Nossa, essa é a oportunidade de conhecer o produto da Tetra Pak, finalmente”. Foi quando surgiu o convite, nessa mesma feira; eu falei: “Aceito!” Só que esse aceito significava mudar de cidade, mudar de vida, mudar de carreira, mudar de área. Meu marido estava fazendo as fotos da feira; eu cheguei para ele e falei: “Cláudio, estão me convidando para ir morar em Goiânia. O que é que você acha?”. “Vamos embora!” Maluco que nem eu! “Você me apóia?” “Vou te apoiar sempre. O que foi que eu prometi quando eu me casei com você?” Eu cheguei para esse diretor regional e falei: “Aceito. Pode falar com o meu diretor”. “Posso falar com o seu diretor de Marketing?” Eu falei: “Pode”. Na mesma feira, eu comecei a feira como Marketing e terminei tomando champanhe como Vendas. Foi muito legal. Ali nós fechamos um pacto. E eu estava saindo da área de marketing e indo para Goiânia, para assumir a área comercial como gerente de vendas na regional, vendendo produtos lácteos e culinários.

 

P/1 – E como foi esse desafio na prática - o que é que você teve que enfrentar chegando em Goiânia?

 

R – Não é fácil uma pessoa de Marketing, com formação em Comunicação, vender máquina de envase. (risos) A primeira pergunta – eu lembro até hoje – do nosso presidente foi: “Mas o que é que você vai fazer em Vendas? Você não é engenheira”. Eu falava: “Nelson, eu vou te surpreender; eu vou usar as ferramentas que eu tenho”. E como vender uma máquina sem ser engenheira? Aí é que eu entendi a pergunta dele! (risos) Eu usei os meus skills, as coisas que eu tinha facilidade em fazer, que era a comunicação, o poder de convencimento, que são as ferramentas de Marketing; conhecendo muito bem as pesquisas, as apresentações. Quando eu tinha que vender uma máquina, eu ia pelo meu lado estratégico, não pelo lado técnico. Foi interessante porque, quando eu cheguei na regional de Goiânia, alguns comentaram depois que eu trabalhava muito em time. E uma coisa que eu gosto é a questão do trabalhar em equipe. Por quê? Se eu não estivesse com um engenheiro da área técnica, um engenheiro de processing ao meu lado, como é que eu ia vender uma máquina? Eu só sabia fazer o discurso estratégico. Então eu comecei a trabalhar muito em equipe. Em todas as minhas reuniões eu envolvia todo mundo, porque era a forma que eu tinha de ocupar aquele espaço que eu não tinha, que era o lado técnico. Aprendi muito, até da parte de manutenção de máquina hoje eu entendo, como fazer um trabalho desses. Mais recentemente, com a equipe da Del Valle, tive um trabalho onde eu tirei uma fábrica que tinha um serviço péssimo de manutenção e enormes índices de perdas e que transformou-se numa fábrica modelo de negócios. Como? Sempre implementando processos, sempre implementando as ferramentas da Tetra Pak, seguindo o que deve ser feito e convencendo as pessoas da fábrica que, se elas não fizessem toda a parte de manutenção prévia, eles iam ter muito mais custos no final. Então muitas reuniões e muitos workshops, eu promovia com inteligência essa parte que não existia, essa parte da conversa. Não adianta você chegar cheia de técnica e falar: “Isso é o que você tem que fazer”. Você tem que ter um convencimento, tem que ter um relacionamento com as pessoas da fábrica, para que elas entendam o que realmente é importante dentro do negócio dele. Eu comecei a trabalhar dessa forma; claro, em alguns momentos eu gostaria de ter sido engenheira, mas em momento algum eu acho que isso atrapalhou muito a minha carreira dentro da área comercial.

 

P/1 – Mas quando você chegou, você teve uma aula de como era essa área?

 

R – Tive uma aula, graças a Deus, temos profissionais muito bons naquela regional. O diretor, o Milton Santos, é uma pessoa com uma experiência, um grande professor; uma pessoa que me dava a informação e deixava eu fazer e aplicar, dava-me liberdade para conduzir o negócio da forma que eu achasse mais interessante. E ele sempre falava: “Já que você é de Marketing, eu quero que você nos ensine a trabalhar diferente”. Ele não me forçou a ser engenheira; ele queria que eu realmente ensinasse a regional dele, que só tinha engenheiros, a trabalhar de uma forma diferente. Acho que esse objetivo eu consegui conquistar ali, colocando algumas ideias, colocando formas, fazendo eventos. Eu lembro que eu fiz um evento com os clientes country (risos): “Todo mundo de chapéu de cowboy, de bota! Vamos lá, vamos dançar!”. Então eu cheguei animando, foi uma fase muito legal da regional, com uma mulher de Marketing – só o fato de ser mulher porque, na época, tinha só mais uma gerente de Vendas mulher; eu era praticamente a segunda e, na regional, fui a primeira. Eu acho que eu consegui colocar ali um ritmo diferente, uma forma diferente de pensar e algumas ferramentas que podem ser usadas na área de Vendas que, de repente, eles não estavam utilizando tanto. Acho que eu fiz uma passagem interessante pela regional.

 

P/1 – E quando você ficou na regional, quantas cidades você visitava? Deveria ter clientes em diversos lugares...

 

R – Diversos lugares, eu viajava muito. Eu lembro que eu chegava a correr mil quilômetros de carro – uma mulher pegar uma estrada em Goiás, onde todas as estradas sinuosas, de mão única, rodando sozinha de carro, realmente o meu espírito aventureiro de surf voltou à tona. Acho que não é qualquer pessoa que conseguiria ter essa coragem, porque realmente é coragem você sair, muitos dias, às cinco horas da manhã – eu pegava o meu carro e, às vezes, ia até Brasília, três horas e meia de viagem; ou ia para Corumbaíba, que eu ia muito, que eram duas horas e meia de viagem. Voltava tarde da noite, às vezes dormia em Caldas Novas. Às vezes, dormia no meio do caminho: teve uma vez que eu saí e tinha um lançamento num cliente; era uma hora da manhã e era férias, período de férias, e essa cidade é muito turística, não tinha mais hotel para dormir – eu parei e dormi num motel, no meio da estrada. (risos) São muitas aventuras – pneu furado, o carro quebrava no meio da estrada, caminhoneiro... Realmente era uma aventura bem desafiadora, mas eu gostava. Saía, pegava aquela estrada, naquela paisagem linda, aquele céu vermelho de Goiás – eu nunca vi um céu tão lindo; eu não sabia que o céu de Goiás era diferente. O céu de Goiás é vermelho, é laranja. A chuva vinha em nuvem, que nem nos desenhos animados. Eu lembro que eu ficava correndo, acelerava, brecava e falava: “Essa chuva não vai me pegar!”. Eu fugia dela, porque eu via a nuvem vindo e a chuva vindo junto com a nuvem. Acho que a área de Vendas é você conhecer o Brasil, você desbrava mesmo; você pega aquelas estradas, você vai para lugares. Eu lembro de uma fábrica que tinha, que eu pegava catorze quilômetros de estrada de terra fina, que o pó entrava tanto dentro do carro que não tinha lava-rápido que tirasse aquele pó vermelho do carro! (risos). E era muita aventura, tenho muita história para contar de estrada porque eu fiquei de 2001 até agora, início desse ano – 2007 – na área de vendas, viajando, correndo o Brasil pelas estradas afora.

 

P/1 – Boa parte da sua carreira na Tetra Pak foi na área de Vendas.

 

R – Foi na área de Vendas porque eu fiquei dois anos e pouco no Marketing, quando eu fui para Vendas. Agora eu voltei, há três meses, para a área de Marketing de novo.

 

P/1 – Mas sempre em Goiás, sempre na regional?

 

R – Não. Eu fiquei em Goiás em torno de dois anos e meio; em 2003, eu voltei para São Paulo. O mesmo diretor de Marketing que me contratou e autorizou-me a ir para a área de Vendas assumiu uma diretoria comercial. Ele falou: “Eu vou querer você de volta comigo”. Eu falei: “Está bem, vamos ver”. E os meus pais foram falar com ele, porque estavam morrendo de saudade! (risos). Acho que ele ficou tocado. Meu pai está muito doente e acho que ele ficou tocado por isso. Ele falou: “Vou te trazer de volta”. Na minha vida pessoal, às vezes eu falo: “Por que é que eu saí de Goiânia? Uma cidade tão linda, tranquila! Vim voltar para São Paulo!”. Mas não é fácil morar fora e ficar longe da sua família. E meu marido não conseguiu trabalho lá; ele ficava indo e voltando – eu fiquei praticamente sozinha por dois anos e meio. Então, quando ele falou: “Eu vou te trazer de volta”, para continuar na Tetra Pak e na área de Vendas, eu disse: “Um alívio que você baixou no meu coração!”. Mas foi uma pena, porque realmente eu gostava muito do meu trabalho lá, acho que eu estaria fazendo um trabalho bem interessante até hoje. Mas acho que isso pesou bastante, então quando ele falou: “Eu vou te trazer de volta”, eu aceitei de novo e falei: “Claro!”. E eu voltei para São Paulo, para assumir a área de sucos e bebidas – na época, era a área de bebidas e culinários, mas eu fiquei mais ligada à área de bebidas – numa regional em São Paulo, focada no escritório da Berrini. Fiquei até agora, até junho, na última Fispal – a Fispal 2007 – na área comercial; foi no marco da Fispal que eu assumi a área de Marketing novamente.

 

P/1 – E você voltou onde você tinha começado, lá atrás...

 

R – Voltei para minha essência. Eu acho que, às vezes, as pessoas não entendem por que a área comercial, na Tetra Pak, é uma área muito valorizada – e acho que realmente tem um valor tremendo. Eu admiro demais o pessoal que trabalha nessa área, o trabalho que fizemos e o que eu aprendi. Eu não seria uma profissional de Marketing completa se eu não tivesse passado pela área comercial, se eu não tivesse conhecido o verdadeiro produto da Tetra Pak. Eu acho que uma coisa é você pensar em vender o produto dos nossos clientes e no consumidor; outra coisa é conhecer o produto da sua empresa. Nunca posso perder esse foco, senão eu vou estar fazendo uma miopia; agora eu conheço o nosso produto e eu sei o que está por trás disso tudo. Então acho que, para a minha carreira dentro da Tetra Pak, foi fundamental; acho que todo profissional de Marketing deveria entrar como coordenador, ir para a área comercial e um dia voltar, senão ele não vai conseguir conhecer a essência da empresa por completo. 



P/1 – Porque, às vezes, mistura-se o produto Tetra Pak e o produto do cliente.

 

R – É. Você perde a referência e acha, às vezes, que está vendendo um leite – a preocupação é com o leite aromatizado ou uma bebida –, mas, na verdade, nós estamos querendo vender a nossa tecnologia, nós queremos vender nossa imagem, queremos vender mais máquinas, mais embalagens. É muita coisa por trás, então tem que tomar muito cuidado na forma como você vai oferecer isso para o consumidor, se isso vai resultar em mais vendas para o nosso negócio – isso que é importante: ter a ideia do que é o nosso negócio, o que é importante para gerar a rentabilidade da empresa, para gerar faturamento para a empresa. E, na área de vendas, eu estava sentindo a necessidade de voltar para minha essência; por mais que eu usasse essas ferramentas no meu dia a dia, tinha muitas atividades nas quais eu não usava e eu sentia essa necessidade; foi quando, praticamente, eu gritei: “Tirem-me daqui!” (risos). Eu falei: “Eu preciso voltar”. Eu tinha clientes muito importantes, foi uma mudança difícil; eu tinha muita responsabilidade, tinha um carinho muito grande pelos clientes e acho que eu não conseguia sair até por isso, eu sentia-me a mãe deles – eu cuidava, eu sabia de tudo. Eu falava: “Quem vai ficar no meu lugar? Quem vai dar essa atenção? Quem vai tocar esse negócio?”. Mas acho que para crescer, temos que nos livrar um pouco das correntes. Tem muito profissional bom na Tetra Pak e dá para fazer o mesmo trabalho.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar uma coisa: na área de Vendas, você vende, mas não acaba ali essa relação? 

 

R – Não.

 

P/1 – Porque tem toda essa questão da manutenção e tem a parte de alugar também as máquinas, não tem?

 

R – Na área de Vendas nós não somos vendedores de embalagem, tiradores de pedidos – é uma área muito diferente. A área comercial da Tetra Pak é muito rica: você vende o negócio – e o nosso negócio com o cliente é uma relação de longo prazo porque, a partir do momento que eu coloco uma máquina de envase na planta dele, que eu vendo uma ideia de que ele vai ter um produto importante para o faturamento da empresa dele, eu vou estar lá todos os dias, todas as semanas, falando com ele. Eu não vou simplesmente vender e ele que ligue para a defesa do consumidor se ele não estiver satisfeito; eu vou estar lá todos os dias, vou estar vendendo embalagens todos os dias, fazendo com que o negócio dele dê certo – e o sucesso do nosso cliente é o nosso sucesso, porque, se ele não tiver sucesso no produto que ele colocar no mercado com a nossa embalagem, com a máquina, com toda a ideia que fechamos com ele, eu vou ter problemas. Eu invisto junto, porque as máquinas têm várias relações comerciais, nós também investimos na máquina, nós alugamos – enfim, nós estamos investindo junto com esse cliente. E ele precisa ter sucesso. Então o maior papel do gerente de Vendas é fazer com que nosso cliente final tenha sucesso no negócio dele; se ele tiver sucesso, eu também vou ter. É uma relação sempre indireta, pensando sempre no resultado final. O gerente de venda tem um trabalho que dizemos ser o de um ombudsman: está sempre conversando, resolvendo todos os problemas; ele é o canal direto da empresa, porque a Tetra Pak é um mundo informações, de departamentos, de serviços. O nosso cliente tem que ter a nossa imagem, a imagem do gerente de Vendas, como uma pessoa que vai realmente ajudá-lo e oferecer vários caminhos para solucionar qualquer dificuldade que ele tenha. Então nós somos a cara da empresa – e isso é uma responsabilidade. Você é a cara da empresa, então qualquer coisa que você faz, positivo ou negativo, você é a cara da empresa. Eu aprendi muito nessa passada pela área comercial, a ser a cara da empresa. Qual é a cara da empresa? Eu mudei, eu aprendi a comportar-me, eu aprendi a vestir-me, eu aprendi a falar, eu aprendi muitas coisas porque realmente eu tinha que ir. Eu não era mais a Gisele: eu era a Gisele da Tetra Pak. E é assim que eu atendo o telefone todos os dias: “Gisele Gurgel Tetra Pak” – é o meu sobrenome agora. (risos). Então tem que tomar muito cuidado.

 

P/1 – E quando você voltou para São Paulo, você continuou viajando pelo Estado?

 

R – Continuei. Eu voltei para São Paulo na área de bebidas, mas atendia praticamente todo o Brasil. O escritório é aqui, mas por ser uma categoria pequena, você não tem a questão da regional, que você atende aquela região geográfica. Com algumas mudanças de departamento – entra gente, sai gente – eu acabei atendendo praticamente todos os clientes da área de bebidas, que foi uma experiência incrível. Eu atendia o Sul, atendia a região de Minas Gerais, atendia São Paulo, interior, atendi Goiás, Mato Grosso, Nordeste, agora eu estou tendo a experiência com alguns clientes do Nordeste, na área de lácteos, em Marketing. É muito bom você olhar para trás e ver quanta experiência eu tenho dentro dessa empresa. Eu já tive oportunidades de pensar em sair, mas eu falei: “Que pena jogar isso tudo fora...” – eu já fiz isso uma vez, em outro emprego. Eu acho que essa questão de você ter essa experiência, essa bagagem, faz com que você comece a pensar no seu papel como cidadã do mundo. Qual o meu papel? Realmente eu não posso ficar jogando fora experiências, meu conhecimento – eu conheço muitos clientes. Eu acho que hoje eu poderia facilmente trabalhar em qualquer regional – iria atender o negócio da Tetra Pak em qualquer parte do país. 

 

P/1 – E, de quando você entrou até hoje, qual teria sido o seu maior desafio na Tetra Pak? 

 

R – Eu sou uma pessoa muito exigente comigo mesma; meu maior desafio é sempre ser reconhecida e conseguir entregar um trabalho de qualidade. A Tetra Pak é uma empresa muito exigente, muito difícil, muito complexa; acho que o meu maior desafio é conhecer e atender ao interesse da empresa. Acho que é um desafio comigo mesma – é maior do que qualquer um.

 

P/1 – Gisele, teve algum momento de crise desde que você entrou na Tetra Pak? Algum momento em que alguma coisa necessitou de uma atenção especial da empresa para que algo fosse resolvido, teve algum momento mais marcante nesse sentido?

 

R – A Tetra Pak é uma empresa muito grande, tem uma expressão muito grande no mercado. Não falo em crises de saírem em jornais, mas todas as semanas nós temos um incêndio para apagar. (risos) Nós apagamos incêndios toda semana – não é nada fácil. Tem que ter um equilíbrio, um profissionalismo muito grande para estar trabalhando na Tetra Pak. Nós assumimos muitas crises, até dos nossos clientes, nós somos muito parceiros, então imagine o número de clientes que nós temos e coisas acontecem. Eu tive, na área comercial, por exemplo, muitos problemas com fábricas: acho que a maior crise que nós podemos ter é, em uma fábrica de leite, uma máquina parar, porque você joga o leite no ralo e isso dói muito no nosso coração. Uma máquina parada é produto perdido e embalagem que deixamos de vender; pode parecer uma coisa pequena, mas para nós é uma das maiores crises que pode existir – e isso sempre estamos enfrentando. A Tetra Pak é muito ágil e rápida para resolver esse tipo de problema, mas temos constantemente crises assim. 

 

P/1 – Eu queria fazer uma pergunta com relação ao SWiM [Supporting Women in Management]: você conhece, a que ele se propõe e qual a sua efetividade dentro da empresa?

 

R – Eu faço parte do SWiM, mas não sou uma participante muito ativa, até pela minha atividade dentro da empresa – eu não consigo fazer muito atividades paralelas, participar de muitas apresentações. Eu acho muito interessante essa valorização do papel da mulher dentro da organização, se bem que poderia ser uma coisa mais natural, não precisaria ter um programa – a minha opinião sobre isso não é muito positiva, acho que você não deveria me perguntar... (risos) Eu acho que não precisaria ter um programa – é que nem deficiente, essas coisas: acho que não tem que ter programas de cotas. Mas o que eu posso dizer do SWiM é que eu fiz parte de um programa bem interessante, que é o Diversity – vamos falar das coisas positivas –: eu fiz parte de um programa, o Diversity, onde eles escolhem algumas mulheres de algumas áreas da empresa para estarem trabalhando um pouco mais, acompanhando um pouco mais a carreira dessas pessoas. Com isso, temos a oportunidade de fazer como se fosse um sistema de seleção, para te conhecerem, identificarem seus pontos positivos e negativos de uma forma bem aberta e proporem cursos e treinamentos, onde você tem mais dificuldade ou não. Então a empresa está apoiando você nesse sentido e, também, identificar se você está na área certa ou não. Não vou te dizer que foi resultado tão direto desse Diversity, mas uma coisa que eu fiz no começo do ano nesse programa foi realmente mostrar minha vontade e meu interesse em voltar para a área de Marketing – e cá estou. (risos)

 

P/1 – Você voltou e o que você está fazendo agora? Essa volta, como é que foi?

 

R – Eu estou tocando duas áreas: uma dessas áreas é nova da empresa, que é gerente de canais, relacionado a canais de distribuição, varejo, entender um pouquinho do varejo. A Tetra Pak tem interesse em aproximar-se do supermercadista, das lojas, das associações de supermercados, então eu estou tocando essa área. E fui, recentemente, convidada – questão de dois meses – para assumir a área de lácteos, que a pessoa que estava foi para a área comercial, ter a minha experiência – fizemos uma troca. Eu estou indo para assumir e ajudar a tocar a área de Marketing Lácteos – para mim, é um grande orgulho. Quando você perguntou em desafio, eu acho que o meu maior interesse dentro da Tetra Pak era ser gerente de Marketing, principalmente na área de lácteos, que é o maior negócio da empresa; então é um grande orgulho, eu sinto-me muito honrada em estar assumindo essa área e pretendo dar o máximo de mim, fazer o possível para surpreender e para atender às necessidades da empresa, porque acho que esse era o meu primeiro grande sonho dentro da Tetra Pak – cuidar da área de lácteos, que é maior negócio, a área mais importante da empresa. E eu sempre gostei muito de beber leite! (risos) Eu falava para a minha mãe: “Um dia eu vou trabalhar com leite!” – é engraçado. Então eu cuido dessas duas áreas, a área de Canais de Varejo e Marketing em Lácteos. A área de Canais de Varejo eu vou estar deixando em breve para alguém que vai estar substituindo-me e vou ficar apenas na área de Lácteos. E na área de varejo eu tive a oportunidade de lançar um grande programa nacional, que se chama Desperdício Zero; é um programa de treinamento sobre as nossas embalagens e sobre a nossa tecnologia nas lojas de supermercados. Temos o objetivo de estar treinando mil e quinhentas lojas este ano – vai dar muito mais, porque nós já treinamos quase oitocentas agora em outubro. Está sendo um programa super-requisitado por todas as associações de supermercados; temos o apoio da maior das associações brasileiras, que é a ABRAS [Associação Brasileira de Supermercados], e está tendo uma repercussão muito positiva. 

 

P/1 – Como funciona?

 

R – Eu lembro-me da minha amiga, Brigitte Keul, que trabalhava direto com os supermercadistas – eu sempre a admirei muito pelo relacionamento que ela tinha com essa área e não tinha ninguém para substituí-la nesse programa. Nós queremos aproximarmo-nos e o maior objetivo é garantir que a nossa embalagem fique no ponto de venda íntegra, sem estar amassada – que ela seja valorizada. Então esse programa é um treinamento muito simples, muito básico, para falar para os promotores e para os gerentes de área das lojas dos supermercados como eles devem cuidar dessa embalagem para que vendam mais: se ele deixar de amassar, se ele deixar de perder o produto pelo fato de amassar a embalagem, ele vai vender mais. Então é uma espécie de conscientização da importância que tem aquela embalagem, toda a tecnologia que está por trás. Nós temos dezenove meninas que estão em nove cidades do Brasil; elas recebem as agendas e fazem também um ativo em lojas de supermercados. Elas vão com flip chart, com todo o material e montam um treinamento – toda a experiência de marketing de rede vem à tona! Montam um equipamento quick training e fazem em quarenta minutos o treinamento, passam o material impresso para o pessoal, dão um certificado com a assinatura do pessoal da ABRAS, Associação Brasileira de Supermercadista, e da Tetra Pak – que é o mais importante –, além da valorização e do incentivo, porque o supermercado é uma área muito carente. Eles não têm esse tipo de serviço, uma empresa que vá lá, dê um treinamento dentro da loja, no chão do supermercado – isso não existe. Então essa foi a ideia: “Vamos lá para o flip chart!” – coisa do treinamento de Amway (risos) – “Monta aqui! Tem que ser convincente!”. E falar para o supermercadista a nossa mensagem, que é que a nossa embalagem tem que ser tratada com carinho, que ela é reciclável, que ele vai vender mais se ele cuidar e tomar os cuidados necessários, porque a exposição para o consumidor é fundamental. Por trás, nós estamos garantindo a nossa marca, a nossa assinatura, que é a Tetra Pak, no ponto de venda. 

 

P/1 – Gisele, a área de lácteo no Brasil conversa muito com as outras de fora do Brasil, do mundo? Vocês conversam?

 

R – Temos um relacionamento internacional muito forte. Todos os dias têm gerente de Marketing do Brasil inteiro ligando, pedindo cases, trocando informações. Eu ligo para eles também. Temos uma intranet, que é o Orbis, que tem muita informação de produtos, de lançamentos em outros países; quando vamos mostrar um produto para um cliente, queremos algo que tenha dado certo – e os cases são muito importantes: “Fiquei sabendo do case nas Filipinas, que foi lançado numa embalagem menor e que está dando certo, não canibalizou a outra. Manda esse case! Como está? Está legal, está dando certo? Vou mostrar aqui no Brasil”. Fazemos muito isso, troca de experiências, troca de informações e visitas. Recentemente, tive um pessoal da Bulgária, de outros países, países que, às vezes, eu nem sei onde fica! Eles vêm para fazer integração, para conhecer o Brasil, o que é outro orgulho para nós: o Marketing no Brasil é uma referência mundial; é um dos departamentos mais estruturados que tem na Tetra Pak. Trabalhar no Marketing no Brasil é realmente um orgulho, uma referência profissional muito valorizada. Temos essa troca e a demanda de informação é muito grande. Às vezes, eu não dou conta de responder tanto e-mail pedindo case.

 

P/1 – Dá para você falar um pouquinho do porquê desse diferencial do Marketing brasileiro?

 

R – O grande diferencial de quando eu entrei no Marketing para hoje é que, quando eu entrei, era um gerente de Marketing e eu de coordenadora, cuidando de todas as categorias; tinha a área de pesquisas e tinha a área de desenvolvimento de produtos. O Marketing – acredito que a partir de 2001 – dividiu-se em categorias e montou-se equipe para a categoria de Bebidas e Culinários; equipe para categoria de Lácteos; equipe para Product Diversification, que é uma área nova, que nem existia – que é valorizar o nosso produto: o que é que vem de fora, o que é criado, o que é lançado; equipe de Serviços, que cuida só de feiras e eventos. Antes, eu fazia tudo; então, começou-se a dar foco. As pesquisas que nós compramos sempre tiveram a preocupação do Marketing no Brasil – desde a época em que o Eduardo Eisler fazia parte do Marketing Brasil -; essa preocupação com os números, em analisar o mercado, cuidar da parte estratégica do nosso cliente e o suporte que damos, não é todo país que tem essa estrutura. Tem países que nem têm pesquisa de mercado, não têm essa preocupação de B to C, como eu falei; muitas empresas, mesmo dentro da Tetra Pak, ainda cuidam do negócio de forma institucional. Esse diferencial do institucional e da estratégia, que é o Marketing que a Tetra Pak Brasil faz, dada a estratégia do negócio das categorias dos produtos que ele põe no mercado, é um grande diferencial. Muitas empresas param no institucional – por isso é que a Tetra Pak Brasil é uma referência há muitos anos: porque ela trabalha dessa forma. 

 

P/1 – Com relação às iniciativas ambientais, você citou há pouco que a embalagem da Tetra Pak é cem por cento reciclável. Eu queria que você falasse sobre essa preocupação que a Tetra Pak tem com as questões ambientais: quais são as ações que ela desenvolve nesse sentido? 

 

R – A Tetra Pak Brasil também é, mais uma vez, referência mundial de meio ambiente e reciclagem das nossas embalagens. Eu lembro que, quando eu entrei, engenheiros recém-formados diziam para mim: “A sua embalagem não é reciclável!”. Eu ficava doida! “Como, não é?” E eles tinham razão. Era uma coisa muito nova, recém-criada no Brasil – a maior parte da tecnologia foi desenvolvida aqui, o que é mais um motivo de orgulho. Mas as pessoas não têm total conhecimento. Hoje, graças ao trabalho do pessoal do Departamento do Meio Ambiente, a informação já está muito mais difundida; acho que a consciência do Brasil também mudou bastante. Hoje, minha filha aprende reciclagem no maternal, toda hora tem que mandar embalagens para ela fazer atividades de reciclagem. Então eu acho que a Tetra Pak foi uma vencedora por desenvolver, por pegar o boi pelo chifre e falar: “Já que não tem tecnologia, eu vou criar”. E conseguiu. Hoje, a solução da reciclagem está totalmente resolvida: cem por cento da nossa embalagem pode ser reciclada. Acho que temos que trabalhar muito forte ainda na parte de comunicação sobre o meio ambiente; o pessoal faz muitas atividades na área ambiental com escolas, com os coletores, com o pessoal que trabalha na base da reciclagem. Falar para eles que não é só as outras embalagens, a nossa também pode ser reciclada e que ele pode ganhar dinheiro; é uma atividade de valorizar o produto, a nossa embalagem, para que o coletor vá pegar a embalagem. Temos muitas atividades, principalmente nesse ramo, com escolas; esse ano começaram a fazer atividades de uma forma mais promocional: eles estão fazendo o circuito do cinema para difundir a questão das reciclagens, fizeram exposições fotográficas, estão começando a sair um pouco só da parte educativa para ir um pouco para o promocional. Acho que temos que falar, temos que promover; por mais que pareça ser uma atividade sociocultural, temos que divulgar e fazer promoção em cima de que a nossa embalagem é reciclável, para que a massa de público possa ter acesso a essa informação. Acho que isso começou no final do ano passado; este ano, vamos estar fazendo atividades promocionais usando a reciclagem – nas nossas atividades de Marketing também: falar de sustentabilidade, que é fundamental – parece que está na moda agora, os supermercados estão falando que todas as embalagens têm que ser ambientalmente sustentáveis. Temos que aproveitar esse gancho e divulgar ao máximo, para que ninguém mais, recém-formado de uma faculdade de Engenharia, venha falar que a embalagem da Tetra Pak não se recicla.

 

P/1 – Aproveitando isso que você falou sobre comunicação: existe algum meio de comunicação entre a Tetra Pak e os seus clientes? Vocês têm algum tipo de publicação, alguma coisa nesse sentido, Gisele?

 

R – Temos; nós temos a Tetra Pak News, que é uma revista que vai para os nossos clientes e todo mundo participa da pauta. A cada dois meses, rola um e-mail e nós temos a oportunidade de divulgar ações, de lembrar de coisas que estamos fazendo para colocar na Tetra Pak News, nem que seja uma pequena nota para que o nosso cliente tenha acesso a informação. Só que a maior fonte de informação para o nosso cliente é a área comercial, que está todo dia com ele, comunicando; na minha época de gerente de Vendas, eu sentia muito essa necessidade. Às vezes, coisas simples dentro da empresa não chegam para o cliente de forma efetiva, então o gerente de Vendas tem esse papel também, de estar levando informações e valorizar o que a Tetra Pak está fazendo no trabalho. Por exemplo, esse Desperdício Zero que eu falei, no lançamento que organizamos, eu convidei todas as assistentes de vendas regionais para participarem, para que elas pudessem levar a informação para o nosso cliente sobre o que era o programa; e muitas das demandas de onde devem ser feitos os treinamentos vêm dos nossos clientes. Nossa comunicação tem que ser muito rápida, muito próxima. Então temos essa revista, que é o nosso veículo oficial de contato com o cliente e temos a área comercial, que sempre está levando informações. Além disso, a intranet onde eles fazem o pedido, também é um canal de comunicação, bem como o nosso site – o www.tetrapak.com.br –, além de outros que nós criamos, como o Pratique Leite, o site do suco. Temos vários veículos de comunicação para que o cliente tenha acesso, mas o mais efetivo é o pessoal, não tem jeito, porque você esperar ele ler uma revista ou entrar num site é diferente de você chegar e conversar. É o que eu falo – eu usava as ferramentas, usava muito: usar as ferramentas de comunicação para encantar o cliente, para ele falar: “Poxa, a Tetra Pak é realmente uma empresa diferente”.

 

P/1 – Gisele, você estava falando de cliente. O consumidor tem noção de que a Tetra Pak é a embalagem e que o produto é de outro fornecedor, de uma outra empresa? Ou ele confunde isso? Como é que é isso para a Tetra Pak? 

 

R – Não tenho uma pesquisa recente para garantir isso que eu vou falar, então é uma percepção minha: eu acho que o consumidor não tem noção do que é Tetra Pak, assim como eu não tinha antes de entrar na Tetra Pak. Tem-se que é uma grande empresa fornecedora de embalagens, ponto. Nós fazemos muitas ações para trazer o consumidor para o nosso mundo, mas as ações, o investimento, o número de ações, o peso dessas ações não é suficiente para que o consumidor entenda plenamente o nosso negócio. É diferente. Só quando ele vem na nossa fábrica e vê é que ele começa a entender o que é o mundo Tetra Pak. Respondendo a sua pergunta, acho que o consumidor não tem dimensão do que é a força da Tetra Pak, qual é o poder que a Tetra Pak tem, qual a responsabilidade que nós temos dentro desse mercado, o consumidor não tem ideia. Acredito que precisamos trabalhar cada vez mais, nunca parar essa área de comunicação; tentar aproximar-se do consumidor até o ponto em que acharmos que é importante para a empresa – “Será que eu preciso ir tão fundo nessa comunicação?” Acho que nós cumprimos, de certa forma, nosso papel nas atividades que temos. E a melhor forma dele entender a Tetra Pak é através do nosso cliente. Você vê hoje, lançando essa campanha belíssima da Parmalat, dos mamíferos: quer coisa melhor, para a nossa imagem, ele entender o que é a nossa embalagem? Ele pode não saber o que é a Tetra Pak, quem é a Tetra Pak, mas ele vai valorizar a nossa embalagem. É o que eu falo: é o limite; até que ponto é importante ele saber quem somos nós ou ele saber quem são os nossos clientes?

 

P/1 – E nesses seus anos de Tetra Pak, você vivenciou casos ou alguma história engraçada? Ou ouviu alguma história engraçada? Você esteve em Goiânia, em São Paulo, na área de Vendas, na área de Marketing – agora novamente. Você tem alguma história, algum caso pitoresco? 

 

R – Fora a que eu já dormi em motel? (risos) São tantas histórias... Lembrar de uma, nossa... Eu vou tentar lembrar de uma em específico. Que tipo de história você quer?

 

P/1 – Alguma coisa que talvez tenha te acontecido, que tenha te marcado de alguma forma em alguma dessas viagens – algum cliente, alguma coisa que tenha saído errado, mas que você conseguiu reverter. Alguma coisa nesse sentido. Depois, se você lembrar, nós retomamos essa pergunta.

 

R – Está bem.

 

P/1 – Alguma curiosidade. Quando você foi para a área de Vendas, o Nelson falou que você não era engenheira; como foi isso depois – ele encontrou com você depois?

 

R – Ele nunca mais tocou nesse assunto. (risos) Agora temos mais duas de Marketing na área de Vendas – então eu acho que ele gostou. (risos)

 

P/1 – Deu certo?

 

R – Acho que deu certo. É uma mudança muito grande de perfil, é uma venda técnica que nós fazemos – e você colocar alguém de Marketing... Mas eu acho que a Tetra Pak está numa nova fase, numa fase de valorização do cliente: o cliente, cada vez mais, tem que ser valorizado, tem que ser compreendido, e, nisso, não adianta você ir só com o aproach técnico. Você tem que ter relacionamento – relacionamento até um limite: não é um relacionamento de ficar amigo dele, frequentar a casa; isso é uma coisa que eu sempre dividi muito bem, eu nunca virei amiga de um cliente, nunca fui na casa de um cliente, mas sempre tive um relacionamento muito grande, de confiança. Acho que eu sempre trabalhei muito na parte ser transparente, e isso ganha confiança. Acho que é uma nova fase que a Tetra Pak está passando, que é a valorização do consumidor, tanto é que nós temos aquele programa de customer satisfaction, em que ele tem que dar nota em todas as atividades da empresa. E isso é importante. Então, o customer satisfaction, nada mais é do que você identificar, dentro do cliente, quais áreas você pode trabalhar, em quais áreas ele está precisando e você dar foco para fazer um projeto, ir em cima. Foi como o que eu fiz naquele cliente, a Del Valle: o foco era a parte industrial, no primeiro ano; fiz um trabalho intenso para resolver todos os problemas de manutenção. No segundo ano, o foco foi outro, foi inovação; no terceiro ano, foram atividades de Marketing. Então o foco migrava. É muito interessante você ver isso, porque aquele primeiro foco morreu; nunca mais se falou numa reunião de problemas de manutenção, de custos altos – ele tinha custos porque não fazia a manutenção devida da forma como a Tetra Pak orienta. Se você conseguir fazer o cliente entender isso tudo, os interesses e as necessidades dele vai mudando e você vai trabalhando para ocupar cada interesse; a cada ano você tem uma nova atividade para identificar e trabalhar dentro daquele cliente. Você não pode ficar fazendo feijão com arroz todo os dias; é um atendimento estratégico ao cliente. Isso é muito a visão de Marketing: é avaliar o mercado e falar: “Qual a tendência desse ano? Qual a estratégia desse ano? O que eu vou aplicar? O que o consumidor está querendo?” (risos) É visão marqueteira. Eu aplicava isso no meu trabalho comercial e acho que é um caminho legal.

 

P/1 – E na vida pessoal, Gisele: com a Tetra Pak, você abriu mão do surfe, deixou de lado um pouquinho ou dá tempo de encaixar também? 

 

R – Não posso falar que foi a Tetra Pak agora a responsável pelo surfe, foi muito mais a gravidez etc. Com a Tetra Pak, a minha vida pessoal continua: meus fins de semana intensos na praia – agora nem tão intensos porque eu passei por uma gravidez, filha pequena e não é fácil você conseguir ir para praia surfar, deixar ela com alguém. Mas eu pretendo, agora que ela está crescendo um pouquinho mais, voltar com mais intensidade. Estou indo todo fim de semana para a praia. Tenho o meu cantinho lá no Guarujá, na praia do Tombo. (risos) O que eu abri mão mesmo foi da ginástica diária à noite; eu tentei fazer na hora do almoço, mas eu não estou conseguindo nem almoçar ultimamente! Está difícil, porque quando eu saio do trabalho, já é tarde para ir para a academia; como eu não vejo minha filha, fica aquela divisão de valores. Não é a Tetra Pak a culpada. 

 

P/1 – Falando de valores: quais são os valores que você percebe na Tetra Pak? 

 

R – Acho que a Tetra Pak é uma empresa muito séria; alguns clientes sempre falam: “Vocês lideram o mercado”. Às vezes, acho que a percepção que, por nós sermos líder, é de ser uma empresa que não tem interesse na satisfação do cliente. Às vezes, alguns clientes acham que nós somos arrogantes, passa-se essa impressão – mas, no fundo, eles sabem que não somos. Acho que a preocupação com o cliente é um valor muito forte; acho que o respeito às pessoas, aos funcionários, sinto muito isso: valorizar o lado pessoal. E vinda dos próprios funcionários – não estou falando de atividades de RH, que isso realmente nem afeta tanto o nosso dia a dia. São mais os profissionais que estão lá. E uma coisa que eu admiro demais é que os clientes perguntam: “Como é que a Tetra Pak consegue contratar tanta gente competente?”. Os nossos clientes admiram os funcionários da Tetra Pak. Eu lembro de um cliente que falava: “Eu preciso contratar alguém. Onde é que vocês contratam? Eu quero alguém com esse perfil”. Não é porque ela contrata pessoas boas; é que ela consegue passar uma cultura de conhecimento tão forte que os profissionais da Tetra Pak crescem. Eu era uma pessoa quando eu entrei; hoje, eu sou outra, completamente diferente – eu até uso salto alto no fim de semana! (risos) Eu só usava chinelo de dedo! Mas realmente nós mudamos. É o que eu falo: eu fui educada, não é uma coisa implantada, imposta pela empresa. É uma coisa natural. Naturalmente, você entra num ambiente de educação, de uma cultura tão forte. Acho que a própria criação da tecnologia que foi feita é uma coisa importante: foi uma quebra essa invenção – a invenção do século passado –; você aprende a respeitar e a valorizar. Então os funcionários da Tetra Pak respeitam o negócio da empresa e valorizam o nosso trabalho, e isso vem de dentro, não vem da empresa para a Tetra Pak; vem do funcionário para a empresa. Esses são os valores fundamentais que eu acho. Os clientes falam: “É todo mundo educadinho, todo mundo fala parecido”. Mas não tem nenhum curso, a Tetra Pak não dá nenhum curso para aprendermos isso; você aprende a valorizar o se comportar. E outra: é o respeito pelo cliente. Nós temos clientes, o nosso maior negócio é o nosso relacionamento com o cliente; nós temos que respeitá-lo, então temos que aprender a nos comportar, aprender a dobrar a perna, aprender a falar bonito. (risos) Antes, eu não era assim, não! 

 

P/1 – Hoje você está na área de Lácteos?   

 

R – Isso.

 

P/1 – Eu queria que você falasse, na sua visão, qual a importância da Tetra Pak para a evolução da indústria alimentícia no Brasil – você, como gerente de Marketing de Lácteos, está apta a discursar sobre isso. 

 

R – (risos) A Tetra Pak tem um papel fundamental, principalmente falando da minha área, o leite longa vida. Como eu disse, boa parte dos nossos clientes não tem uma área de Marketing tão estruturada; então nós temos informações de tendências mundiais, tendências internacionais. Também é nossa preocupação a questão nutricional: nós temos atividades que vocês nem imaginam, desde a preocupação com a merenda escolar até a preocupação com a questão do ferro na alimentação infantil. Nós temos pesquisas sobre intolerância à lactose. A Tetra Pak tem uma parte de inteligência onde nós nos preocupamos não só em vender o produto. A preocupação não é vender o produto, mas sim garantir o crescimento desse produto a longo prazo, esse é o nosso papel. Para exemplificar, nós percebemos que o consumidor está deixando de beber leite; e o leite é o princípio básico dentro da alimentação do ser humano, não só na alimentação infantil. Então o nosso papel, da Tetra Pak, é tentar a levar informações e levar materiais para que o consumidor consiga identificar e voltar a tomar mais leite, através de leites com um apelo mais saudável; um apelo de incrementos a mais, como o cálcio, como o ferro, como os leites especiais que estão aparecendo no mercado. E toda essa tendência foi identificada pela Tetra Pak e nós levamos essa informação para o nosso cliente. Nós falamos: “O mercado está caminhando para cá. Nós identificamos, dentro do mercado consumidor, para onde está caminhando o perfil e ele está consumindo menos leite. Nós precisamos aumentar isso”. Além de ser importante para que ele venda mais – e eu também –, é a nossa responsabilidade com a sociedade, dentro da alimentação. Não podemos nunca perder a referência de que o leite é importante dentro da alimentação; então todas as nossas atividades estão sempre voltadas para isso, para essa comunicação.    

 

P/1 – E a importância das embalagens da Tetra Pak? Falamos um pouquinho da importância da Tetra Pak na evolução do setor. E a embalagem, no mercado, na comercialização de produtos?

 

R – Já dizia a frase do Ruben Rausing: “A embalagem deve economizar mais do que ela custa”. O papel da embalagem da Tetra Pak é fundamental, principalmente agora que as redes de varejo estão, cada vez mais, querendo que você use menos embalagem – essa questão da sustentabilidade, que as embalagens sejam recicláveis. Eu acho que a Tetra Pak tem um papel fundamental aí, porque a nossa embalagem está totalmente adequada à evolução do ser humano, à evolução do mundo nessa questão ambiental. Nós economizamos espaço logístico, na hora de transporte, antes e depois do envase; a nossa embalagem ela é cheia com o produto, ou seja, não tem embalagem sobrando, não é uma caixa que envolve outra – não, é aquela embalagem; o que tem dentro é só o produto, você não tem nada perdido ali, você não tem embalagem extra, mais do que o necessário; fora que ela é cem por cento reciclável. Nós conseguimos resolver esse problema, essa situação, e, hoje, ela tem toda a tecnologia para ser reciclada. Então, dentro do ambiente sustentável, a embalagem Tetra Pak tem um papel fundamental: é uma embalagem totalmente adequada para o futuro, para onde está caminhando a sociedade. Graças a Deus, não temos esse problema para ter que resolver. (risos). Uma coisa a menos. 

 

P/1 – E os consumidores, hoje, como veem os produtos comercializados em embalagens da Tetra Pak? Porque no começo – eu digo há vinte, trinta anos atrás – existia uma desconfiança muito grande, porque não se acreditava que o produto pudesse ter aquela validade sem nenhum conservante, que só uma embalagem, só uma tecnologia seria o suficiente para isso. Hoje, qual o contato dos consumidores com as embalagens?

 

R – Eu acho que hoje o consumidor confia muito mais na embalagem, até pelo fato da imagem que o leite agregou e a questão dos sucos, que veio com muita força. Hoje, a imagem da Tetra Pak está associada a produtos naturais, até pelo leite ser direto da fonte. Então está muito associada ao fator positivo do produto envasado, a respeito do aspecto natural. Mas, principalmente, os consumidores com mais idade ainda têm muito desconhecimento da tecnologia; eles confiam, mas não têm total conhecimento da tecnologia – até é um trabalho que eu gostaria de estar implementando nos próximos anos. Eu estou fazendo isso junto com supermercados, tentando arrumar um pouco a gôndola, colocar elementos que expliquem um pouco mais o que é a tecnologia da Tetra Pak, o que é que está por trás do leite, porque é que ele chega ali sem a necessidade de conservantes. Eu acho que nunca poderemos parar de comunicar isso, para que nunca volte à tona – se bem que agora a informação está muito mais difundida. Mas nós temos ainda regiões geográficas que não têm conhecimento; para eles, o leite longa vida é um produto em que não confiam, como é o no Nordeste, por exemplo; no Nordeste, por uma questão cultural, eles ainda não têm muito acesso ao leite longa vida e, quando têm, não conhecem, têm pouca informação. Essa é uma região que precisamos trabalhar bastante com essa informação, para que eles confiem no produto. 

 

P/1 – E o que você sabe desses cinquenta anos de Brasil da Tetra Pak, que em 2007 foi comemorado? Você sabe um pouquinho dessa história? O que você conhece dessa trajetória?

 

R – Eu acompanho bastante as informações sobre essa história; eu vejo pessoas que estão desde as primeiras fotos, como o senhor Benny, na fábrica, ou informações como “no início, era só um escritório, com poucas pessoas trabalhando; era um escritório praticamente de vendas, até a construção da fábrica”. É uma história de pioneirismo maravilhosa – você introduzir, mudar. O que mais eu admiro – eu falo e penso muito em case – é imaginar, na minha juventude, minha mãe indo comprar leite todo dia na padaria, aquele leite de saquinho que no dia seguinte estragava. E a Tetra Pak revolucionou isso. Você poder comprar uma caixa de leite, ficar uma semana inteira, duas semanas sem ter que ir numa padaria; você poder viver sem ter a necessidade de ficar indo todo dia comprar algum alimento que para você é básico, eu acho que foi uma revolução muito grande. Conseguir entrar no mercado, montar uma fábrica, o investimento que ela fez de início – porque eram poucos clientes. A Tetra Pak sempre investiu e acreditou no Brasil, e conseguiu mudar toda uma cultura, principalmente na região Sul – hoje não sei em qual cidade onde se vai ficar comprando todo dia aquele leite; tem ainda região dos leites pasteurizados, mas é uma revolução porque, hoje, você vai no supermercado e se abastece. É uma tecnologia que realmente mudou todo um hábito –não só um hábito: as padarias, hoje, são minimercados; elas tiveram que se adaptar, então é uma revolução que a Tetra Pak fez em cinquenta anos. Pensa-se: “É tempo para caramba!” – mas não é. É muito pouco tempo pelo que foi feito. Para mim, isso é o que mais marca nessa história: essa revolução na cultura e na forma de usar o leite. Para mim, é uma coisa que marcou muito – na minha história e na história da Tetra Pak. 

 

P/1 – Qual a importância do projeto Memória Cinquenta anos Tetra Pak?

 

R – Eu adoro fotos, adoro scrapbook. Acho que uma coisa fundamental na nossa vida é você conseguir contar a sua história, e nada melhor do que referências visuais, coisas que você pode pegar, tocar e conseguir entender a história de uma forma simples. Numa empresa como a Tetra Pak, você tem elementos: você coleta fatos, dados e informações que, às vezes, podem parecer simples, mas que se perdem no dia a dia – quantas vezes mudamos de escritório e quantas coisas não foram jogadas para trás? Eu acho muito importante uma empresa ter história. Todo mundo tem que ter sua história. E esse projeto é maravilhoso. Estou tendo contato com ele agora e acho que foi uma iniciativa linda, porque você vai ter um acervo, ter informações, você vai conseguir resgatar aquela história para contar de uma forma simples. Porque é a pergunta que você fez: “O que você conhece da história?”. Eu conheço o que veio das informações que eu vi, das pessoas que eu conheci; e se você quiser falar sobre os fatos pontualmente? Eu gostaria de ter um museu da Tetra Pak onde eu pudesse entrar e memorizar cada etapa, cada ano e o que está acontecendo. Eu não sei se isso faz parte do projeto, mas é uma coisa que eu gostaria de ver, um museu para levar o meu cliente e falar: “Olha, nós temos história!”. Eu lembro muito de um cliente, que eu entrei recentemente no escritório dele e, em cada pedaço da parede, tinha uma foto da família, desde a primeira lojinha, que é aquela coisa simples, e hoje é uma dimensão de empresa. Isso se valoriza demais, uma empresa onde você vê uma história dessa. E acho que a Tetra Pak precisa disso: precisa resgatar e precisa colocar de uma forma visível e fácil de se ver a sua história, que é linda.

 

P/1 – Gisele, nós estamos chegando ao final. Você quer falar alguma coisa que nós não tocamos, que não falamos e que você acha que é importante estar colocando?

 

R – Uma coisa que eu acho importante é que estamos em um marco da história da Tetra Pak; esse ano, com o novo presidente – o Paulo Nigro, que está chegando – estamos em um marco de diferença. Há muitos anos o Nelson faz um belíssimo trabalho. Eu gostaria de valorizar, de deixar aqui a minha admiração por ele. Ele é uma pessoa extremamente inteligente, que construiu todo esse império. Eu acho que é uma pessoa que tem que ser valorizada, o Nelson Findeiss; as pessoas admiram demais o trabalho dele. Ele tem aquele jeito diferente de ser e acho que, às vezes, ele não imagina que o admiramos tanto; ele é realmente uma pessoa que tem valor que pela história, tem que ser muito respeitado. E eu acho que, daqui para frente, com a mudança de pessoa, do capitão do barco, tenho muita esperança de que esse navio vai continuar navegando em águas muito rápidas. E temos muita esperança do futuro, do que vai vir, do que vai mudar; acho que temos que guardar esse momento, esse ano de 2007, como uma grande mudança, um marco do que foi uma pessoa que construiu um império, para uma pessoa que está chegando, nova, com boas ideias, com um coração enorme e com uma vontade de fazer e acontecer e não deixar esse barco cair a velocidade. Acho que é um momento muito importante, do qual eu estou podendo fazer parte.

 

P/1 – O slogan da Tetra Pak é “Protege o que é bom”. O que é bom para você, Gisele? 

 

R – O que é bom é minha família, é felicidade. O que é bom é poder continuar feliz, vivendo, crescendo profissionalmente e protegendo a minha família também. Isso que é bom! (risos) Eu acho que esse selo eu posso colocar em mim também. (risos) 

 

P/1 – Você também protege o que é bom?

 

R – Protejo o que é bom.

 

P/1 – Você gostaria de deixar algum recado, uma mensagem para a Tetra Pak, para os seus colegas essa passagem de cinquenta anos? Quer aproveitar esse momento para deixar uma mensagem?

 

R – Acho que a mensagem seria: nós fazemos parte da história dos cinquenta anos, nós estamos aqui e vamos fazer cinquenta anos juntos com a Tetra Pak. Só que nós temos que fazer parte dos próximos cinquenta anos – depende de nós. Acho que temos uma responsabilidade grande para cumprir, para realmente carregar por mais cinquenta anos – e muitos anos a mais que estão por vir – com a eficiência que tivemos nesses anos anteriores. Então, parabéns! Fazemos parte dessa história.

 

P/1 – Para finalizar, eu gostaria que você dissesse o que achou de ter dado o seu depoimento para o projeto.

 

R – Eu gostei muito quando eu fui convidada. (risos) Quando você me chamou, gostei bastante; acho que é um orgulho poder fazer parte da história. Esse vídeo é um resumo das pequenas coisas que se tem dentro da Tetra Pak, alguns exemplos, porque tem muita gente boa, como eu falei, muitos profissionais bons. Eu sinto-me honrada por ter sido escolhida para estar fazendo parte e estar contando um pouquinho dessa história. É um projeto belíssimo, gostei bastante e fiquei muito feliz.

 

P/1 – Então, Gisele, em nome do Museu da Pessoa e da Tetra Pak, nós agradecemos a sua presença, o seu tempo e o seu depoimento.

 

R – Está bem. Obrigada.

 

P/1 – Obrigada. 

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