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História

Eletrodomésticos em Santos

História de: Hélio Cesário Cardoso
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/02/2005

Sinopse

Descrição dos pais. Pai português, mãe empregada doméstica. Estudos de Contabilidade e trabalho em banco. Organizou a carteira de cobrança da empresa Discopa. Fala de vários produtos, em especial eletrodomésticos. A indústria brasileira e a evolução de costumes e de tecnologia. A montagem das lojas Domus para ele tocar. Venda das lojas Domus para a Casas Bahia. Abertura de sua primeira loja, a Denovo. Descrição de vitrines e estratégias de marketing. O comerciante em analogia ao surfista esperando a onda. Considerações sobre o centro da cidade e outras áreas em desenvolvimento.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
O meu nome é Hélio Cesário Cardoso, eu nasci em Santos em 10 de junho de 1932.

FAMÍLIA
Nome dos pais e descrição da atividade profissional Papai chamava-se Olympio Cesário Cardoso, português de nascimento, e mamãe Elydia dos Santos Teixeira, brasileira. Eu não conheço a história, mas papai não foi o primeiro nem foi o último português que veio para o Brasil, era moda os portugueses virem para cá. Papai veio bem jovenzinho, bem menino. Era um sonho de todas as pessoas que normalmente viajam para cá. E trabalhou com o pai num restaurante no interior, depois virou leiteiro, leiteiro que entregava de porta em porta.

COMÉRCIO
Trabalho do pai como leiteiro Em Ourinhos, no interior do Estado de São Paulo, o pai tinha um restaurante lá, era muito menino, trabalhou lá. E depois veio para cá, onde inicialmente trabalhou como cobrador. Eu lembro que tinha uma foto dele como cobrador, da antiga General Electric, que tinha uma filial em Santos. Mas depois resolveu ter seu próprio negócio, e passou a ser leiteiro. Tinha um caminhãozinho de leite e entregava de porta em porta. E foi assim que eu surgi, porque a mamãe era empregada doméstica da casa que ele servia. E desse caminhãozinho ele acabou partindo para uma casa maior, e ainda acabou virando distribuidor de leite. Quer dizer, ele já não vendia de porta em porta, ele já trazia do interior uma quantidade muito grande, 40, 50 latões de leite, naquela época era muita coisa. Um latão de leite tem 50 litros. Então, ele vendia na época 2.500 litros de leite. Isso aqui em Santos. Esse leite vinha de Rincão, Estado de São Paulo. O leite, para viajar, ele previamente era pasteurizado e congelado. Então, ele chegava aqui ainda congelado, em latões de 50 litros. E aqui a gente, então, vendia picado. Numa padaria comprava dez litros, num bar, quinze litros. Nós tínhamos também um estabelecimento que vendia também leite. Vendia picado. E a família toda trabalhava no laticínio, trabalhava papai, trabalhava mamãe, e eu também.

EMBALAGEM
Vasilhame de leite Não se engarrafava leite naquela época. Você vai estranhar porque eu contando a história ninguém, acredita. O hábito no começo não era esse. As pessoas iam comprar leite e cada um levava uma leiteira, uma vasilha. Então você tinha uma medida, você media um litro de leite, virava, as pessoas traziam uma vasilha. O vasilhame de leite surgiu mais adiante, com a implantação de usinas. Aí com usinas, aí o leite passou a ser engarrafado e vendido por garrafa. Eu também peguei essa época. Mas no início ele era vendido realmente por caneca, meio litro de leite. Punha numa vasilha, numa panela, e a pessoa ia embora. Curioso, não é?

FAMÍLIA
Descrição do cotidiano da casa do avô Avós? Ah, conheci. Conheci bastante meus avós. Sabe por que eu conheci bem? Porque eu sou o neto mais velho. Então eu conheci bastante. Olha, talvez eu acabe até chorando, porque a minha descendência é muito humilde. Meu avô era balanceiro na Companhia Docas, lidava com as balanças. E tinha muitos filhos, dez, 12 filhos, vida difícil. Eu lembro naquela época a pobreza era mais digna, não eram miseráveis. Tinha um chalezinho, economizava, a mulher passava a roupa para fora, criava galinhas, tinha uma horta. E tudo isso ajudava na economia doméstica. Então, apesar de pobres, tinham uma vida bonita, criou os filhos todos. Eu era o neto mais velho. Eu lembro com muita doçura do meu avô, porque na época, isso fazem muitos anos, normalmente as pessoas não tinham acesso a aprender a ler, a escrever, e o vovô sabia. Vovó não, vovó era analfabeta. Mas o vovô, ele sabia ler e escrever. Me ensinou muitas vezes, homem tranqüilo. Olha como são as coisas diferentes de hoje: eu me lembro bem, mas bastante bem mesmo, vovô morava na rua Paraíba número 19. A rua Paraíba é uma travessa ali da Francisco Glicério, próximo da Bernardino de Campos. Hoje tem um posto de gasolina ali. Então, tinha um chalezinho lá. Ele trabalhava no Armazém 19, muito longe dali. Então, para economizar passagem de bonde, ele vinha a pé do Armazém 19 até a rua Paraíba, que é muito longe. E eu lembro, curiosamente, que quando a minha avó estava com o almoço pronto, muitos filhos, a mesa posta, com muita simplicidade, e o meu avô despontava na linha da máquina, que é um pouquinho distante, mas da casa dava para ver a linha da máquina. Quando ele aparecia na linha da máquina, a minha avó já preparava o prato dele, prontinho, porque ele não podia perder tempo. Ele chegava, ele era um homem muito tranqüilo, muito silencioso, espetacular o vovô. Ele sentava, baixava a cabeça, tomava aquele pratinho de sopa, quietinho, não falava nada, comia. E o hábito, a minha avó punha uma banana do lado do prato de cada um, uma banana. Ele acabava de almoçar, comia a banana, ele saía, dava uma voltinha, assim, fora da cozinha, no terreno, comia a banana, botava o chapeuzinho dele, e ia embora. Porque ele tinha que voltar para o trabalho. Para economizar a condução. Acredita nisso? Beleza, né? Agora eu sempre fui o neto predileto, o mais velho, a minha avó, o que os meus tios não comiam, eu comia. Ela fazia um ovinho, sabia que eu gostava de azeite, um azeitinho. E os outros ficavam olhando de olho comprido. Primeiro neto

MORADIA
Descrição da casa de infância Eu não morava ali. Eu ia lá às vezes de visita. Eu morava na rua Carvalho de Mendonça que não é muito longe, mas eu ia lá de vez em quando. Era o queridinho da vó, ficava lá. Lembro mais da casa da minha avó que da minha casa. Eu era muito pequenino. Mas da minha avó eu lembro mais, porque eu estava sempre na casa da minha avó. Eu tenho uma irmã, que é mais nova do que eu.

INFÂNCIA
Brincadeiras de criança A infância era muito pura, a gente brincava com qualquer coisinha. Jogo de pedrinha para jogar, ia na praia. A praia ali pertinho da rua Paraíba era um passeio e tanto ir até a praia, era muito interessante. Passeava, brincava, naquele tempo tinha muito terreno, tinha muita goiabeira, muitos frutos, ia para cá, para lá. E um pouquinho de futebol. Brincadeiras muito simples. Naquele tempo não se tinha cinema, raramente se ia no cinema. Quando eu era maiorzinho, eu lembro de ir ao cinema. Eu ia no antigo cinema Cine Campo Grande, era na Rua Carvalho de Mendonça, perto de casa. Então, eu não sei a moeda qual era, talvez um mil réis, você gastava 70 centavos para entrar para ver a matinê, e 30 centavos que sobrava dava para comprar um gibi velho, que vendiam na porta do cinema, e tomar um sorvete do seu Leonel, que tinha uma sorveteria defronte ao Cine Campo Grande, que depois mudou para Cine Ouro Verde, e hoje não existe mais.

EDUCAÇÃO
Sobre o Externato Santa Rita e a professora Ziloca Eu lembro bem da escola, eu lembro bem, olha, escola, eu devo muito às escolas o meu ensinamento, principalmente à duas escolas: a primeira, que foi aonde eu fiz o curso primário, que era o Externato Santa Rita, da dona Ziloca, agora já faleceu. Era ali na avenida Bernardino de Campos. Eu estive nas duas, uma anterior, depois mudou para uma quadra seguinte, ambas na Bernardino de Campos. Então a dona Ziloca era uma professora muito severa, muito exigente. Eu trouxe até uma foto aí do grupo, ainda tenho amigos que estão vivos aí que estudaram comigo. E eu devo talvez à dona Ziloca, um início sólido, bom, que foi o Externato Santa Rita. Ela fazia festinhas de final de ano, festinhas bonitas, com representações. E eu nunca esqueci de uma particularidade: eu estudei com a dona Ziloca e, naquela época, quando você ia passar para o ginásio, você tinha um exame, chamava exame preparatório para admissão ao ginásio. Hoje acho que não tem mais. Então, meu pai se descuidou um pouquinho, eu estava formado no primário, tinha que ir para o ginásio, e eu fui parar no Colégio Santista, meu pai resolveu me levar para o Colégio Santista, que era o melhor colégio da época. Ele era homem pobre, mas tinha uma leiteria, uma sorveteria já, ele podia pagar, fez questão de me levar para o melhor colégio que havia na ocasião. Era o Colégio Santista dos Irmãos Maristas. Quando ele foi me levar para matricular, o reitor na ocasião disse assim: "Mas o senhor está muito atrasado. O exame preparatório é daqui a cinco dias. Os meninos estão aí há dois meses se preparando. Ele não vai passar. O senhor quer matricular para o exame, tudo bem, mas ele não vai passar." Aí o reitor perguntou para ele: "Em que escola o seu filho estudou?" Eu fico emocionado. "Estudou na dona Ziloca, na Santa Rita." "Ah, na dona Ziloca ? Eu acho que ele passa." Me matriculou. E eu passei. Eu passei. Então veja como era boa a escola, a dona Ziloca , muito severa. E então eu tive essas duas coisas que me ajudaram muito na vida: a dona Ziloca, que foi o início, e depois o Colégio Santista. Eu fiquei no Colégio Santista durante sete anos. Eu fiz o ginásio e depois fiz Contabilidade, quatro anos de ginásio e três anos de Contabilidade. Eu acho que no ginásio, eu nunca fui um aluno excepciona, eu nunca fui bom aluno. Estava lá no meio, na hora do exame eu corria, me esforçava. Eu não era burro, mas eu era lá pelo meio. Mas a formação que o Colégio Santista, que os Irmãos Maristas me proporcionaram, eles mudaram o meu caráter, está entendendo? Havia um ensino religioso. Não importa se é católico, se é protestante, se é evangélico, mas eu acho que a base religiosa nas escolas eu acho que é fundamental. Toda escola deveria ter uma base religiosa. Aquilo me formou, o meu caráter, o meu procedimento, à luz daqueles mestres, que na ocasião eram irmãos maristas mesmo, não eram professores contratados, eram irmãos, de batina. Então, a gente rezava antes de começar a aula, rezava quando terminava, aprendia o evangelho. Assistia à missa todos os domingos. E olha, coisa curiosa, olha a pureza da época. Eu lembro bem de um detalhe maravilhoso, é maravilhoso. Aos sábados tinha confissão, que no domingo tinha a missa, e quem confessava, comungava no domingo. Então, no sábado, quem quisesse confessar se colocava lá. E não havia um confessionário. Tinha um corredor, eram os dormitórios dos irmãos, e o padre ficava recolhido dentro do quarto, ele ficava numa cadeira, ele sentava, abaixava a cabeça, e você ajoelhava ao lado, e dizia os pecados para o padre. Mas olha a pureza. Nós tínhamos naquela época uns formulários, uns papéis dobrados, e lá tinha tudo quanto é tipo de pecados. Vocês acreditam nisso? Impresso. Era um memorizador. Você pegava, olhava, para lembrar o que você tinha cometido. Então, os antecessores nossos, os nossos companheiros, pegavam o lápis e sublinhavam para não esquecer. Então, você via os pecados do outro, de quem passou antes. Não sei bem de quem era. Estava lá, você pegava: "Pô, este cara..." Mas olha a pureza da época. Que coisa linda. Aí você comungava no domingo. Que coisa bonita, não? Então, eu acho que essa fase da minha vida me moldou, me deixou um homem seguro nesse aspecto, sabe, eu não sou um homem desonesto. Não é que eu não queira, eu quero, eu não consigo. Eu não consigo, eu não consigo lesar ninguém. É fruto daquilo lá. Então, eu devo muito à dona Ziloca e eu devo muito aos irmãos maristas na minha formação.

EDUCAÇÃO
Curso de Contabilidade no Colégio Santista Bom, eu quando terminei o curso do ginásio eu passei para Contabilidade. Só que o ginásio era de manhã. Era um uniforme bonito, o Colégio Santista tinha dois uniformes: um cáqui, durante a semana, e outro branco, tem uma foto que eu trouxe aí. Um uniforme lindo, que se usava aos domingos. Usava para ir à missa e usava para os desfiles, para os eventos. Terminado o curso de ginásio, eu passei para a Contabilidade, que eram três anos, só que foi para o período noturno. Eu nunca repeti um ano na minha vida.

TRABALHO
Primeiros contatos com o comércio Olha, eu trabalho desde menino. Eu fui criado atrás de balcão de bar. Papai foi leiteiro muitos anos, depois teve um bar, depois leiteria e sorveteria na Vila Belmiro. E era eu, papai e mamãe. A mamãe abria de manhã, seis horas da manhã, papai fechava uma hora, duas horas da manhã, o estabelecimento. E a mamãe tinha que cuidar do almoço. Então, a mamãe ia cuidar do almoço e eu ficava na caixa, enquanto não ia para a escola. Eu, desde menino que eu trabalho, sempre trabalhei, eu gosto de trabalhar.

EDUCAÇÃO
Curso de Contabilidade Fui fazer Contabilidade porque eu me identifico com muitas profissões. Eu fui fazer Contabilidade como uma opção viável. Papai não tinha meios. Meu sonho na época era fazer, hoje não tem mais, no Instituto Rio Branco, no Rio de Janeiro, carreira diplomática. Isso é o que eu queria. Eu não tinha outra opção, não sei se você está me entendendo. Acho que como eu já estava trabalhando ela me ajudou bastante. Porque esses cursos todos que nós temos são ótimos, mas se você não tiver uma vivência prática é meio complicado. Como eu já trabalhava naquela época, eu aproveitei, e fiz o curso de Contabilidade. EDUCAÇÃO Ingresso na Faculdade de Economia E logo após eu queria fazer o Instituto Rio Branco. Não tinha. A única faculdade que tinha em Santos eu fiz, de Economia. Era a Faculdade de Ciências Econômicas e Comerciais, que hoje é da São Leopoldo, na época era do José Bonifácio, ali na avenida Conselheiro Nébias. Então, eu optei pelo curso de Economia. Não me arrependi não, tive bons companheiros, aprendi bem, me identifiquei bem, gosto da matéria, aplico e tenho muito orgulho de dizer, que eu me julgo um bom economista, dentro do campo empresarial. Me ajudou bastante, a Economia.

TRABALHO
Primeiro emprego no Banco Auxiliar de São Paulo O meu primeiro emprego, depois de trabalhar com meu pai... o sonho naquela época sabe qual era? Meu pai lutava mas não conseguiu, de me conseguir um emprego numa casa de café, como comissário. Porque eles ganhavam muito dinheiro, tinham participações e gratificações monumentais, porque o café na época era a coqueluche em matéria de economia. Os empregados ganhavam muito na época. Mas ele nunca conseguiu. E eu, o que é que eu fiz? Eu, meu primeiro emprego foi como mero auxiliar numa empresa de transportes, trabalhei alguns meses lá, depois mudei para o Banco Auxiliar de São Paulo, que era um emprego melhor. Mas entrei lá para entregar cartas. Imediatamente fui guindado a ser encarregado de cobrança, trabalhei durante um ano, um ano e pouco no Banco Auxiliar, com bons companheiros, aprendi muita coisa.

TRABALHO
Ingresso no Banco Português do Brasil E acabei sendo convidado para trabalhar no Banco Português do Brasil. Tinha um amigo lá, e ficou de me avisar que quando houvesse uma oportunidade ele me levaria para o Banco Português, que era um banco maior, que ele poderia me oferecer um ganho melhor, uma oportunidade de crescimento maior. E eu fui para o Banco Português do Brasil. Então, eu estava no Banco Português, comecei trabalhando na carteira de cobrança, com entrada de títulos, e depois passei para o setor de café. E, curiosamente, o Banco me deu realmente uma oportunidade muito grande. O Banco, pela forma dele trabalhar, uma disciplina rígida, muito organizado, metódico, me fez aprender muitas coisas úteis no dia-a-dia. E na ocasião tinha uma empresa em Santos que chamava-se Discopa, Distribuidora Comercial Paulista, uma empresa muito grande que trabalhava com o ramo de eletrodomésticos e veículos, eles eram concessionários de automóveis, caminhões Chrisler, Plymouth e Fargo, e também o Volkswagen, que na época ninguém sabia falar Volkswagen. Nós chamávamos de carro do povo. Que Volkswagen, em alemão, não sei se você sabia, Volkswagen, wagen é veículo, volks é povo, é veículo do povo. Então, o nome da placa era veículo do povo.

TRABALHO
Mudança de emprego - Ida para a Discopa Então, nós recebemos a visita no banco de um gerente do escritório dessa empresa, da Discopa, chamava-se Ynel Alves de Camargo, um homem extraordinário, excelente professor, hoje está aposentado. Ele foi presidente da Federação dos Contabilistas, um homem extraordinário. Teve uma escola aqui durante muitos anos. E o Ynel estava procurando uma pessoa, porque ele não conseguia organizar o crédito-cobrança da Discopa, e foram convidar lá um senhor, chamava-se Antônio, um português, estava lá há muitos anos, para ele dirigir a carteira de crédito-cobrança da Discopa. O português ficou com medo, primeiro de largar o banco. Estava lá há muitos anos, ganhava bem, trocar o certo pelo incerto, mesmo ganhando mais, mas correndo risco. Ele ficou com medo. Então, ele diz: "Olha, tem um menino aqui atrás, muito bom, fala com ele." E eu fui convidado para uma entrevista, fui chamado. O superintendente da Discopa na época chamava-se Antônio dos Santos Carvalhal, já faleceu. Homem inteligente, forte, questionador, opinativo, ele discutia sempre, contra ou a favor, ele estava sempre do outro lado. Mas era uma barreira, ele era terrível. Muito inteligente, um homem maravilhoso, viu? Aprendi muito com ele. Ele me chamou para uma entrevista. E disse assim: "Olha, nós temos um cargo aqui. Eu tenho um crédito-cobrança, eu tenho um monte de problemas, preciso organizar a carteira, quero saber quanto tem, se bate com o registro de duplicata, se bate com a contabilidade. Quero saber quem está devendo, quem está atrasado, o que eu tenho de duplicata disponível para descontar nos Bancos, para fazer dinheiro, aprovação de crédito correta. Tal cláusula o senhor faz? Porque ele viu eu muito menino, eu tinha nessa época 19 anos. 19 anos para tomar conta de uma carteira de crédito-cobrança que aprovava venda de caminhão, de automóvel, era uma empresa grande. Isso foi em 1951. Aí ele começou a fazer um monte de perguntas para mim. "Olha, eu preciso disso, disso e disso. Você faz?" Eu digo: "Eu faço." "Olha, mas eu preciso também que tenha na minha mesa todo dia posição do que está disponível, carteira, tal. Você faz?" "Eu faço." "Eu quero saber o que tem disponível para descontar com o bancos, o senhor faz?" "Faço." "Quero saber o que está perdido, o que está inadimplente, cliente que não paga. O senhor faz?" "Faço." Tudo que ele perguntava eu dizia que fazia. Aí ele terminou a entrevista assim: "Olha, você está dizendo que faz tudo, tudo que eu te falei agora você diz que faz. Se você não fizer eu te mando embora. Eu posso te admitir, se você fizer é ótimo. Você faz?" Eu digo: "Eu faço." "Se você não fizer eu te mando embora, vamos deixar bem claro." "Tudo bem, se eu não fizer você me manda embora." Aí fomos acertar o salário. Ele me ofereceu um valor menor do que eu queria. "Não, eu pedi para o senhor tanto." "Não, mas eu só posso pagar tanto." "O senhor não vai me mandar embora se eu não fizer? Eu vou fazer o trabalho que o senhor está me pedindo, mas eu não aceito o que o senhor quer me pagar. O senhor tem que pagar o que eu pedi para o senhor. Então, o senhor procura outro. Mas eu faço. Pode me mandar embora. Mas eu faço." Ele me admitiu. Eu entrei nessa empresa em 27 de fevereiro de 1951. Eu fiz uma carreira lá de quase 13 anos. Comecei como encarregado de crédito-cobrança, depois passei a gerente de compras, gerente comercial, e depois ele me transformou em diretor comercial, deixei de ser empregado. E na hora de sair ele ainda queria me segurar, mas eu fui embora. Aí fui ter a minha própria empresa. Essa empresa era um exemplo, era um colosso de uma empresa. Tinha um porte muito grande, tinha muitos funcionários, oficinas completas não só de veículos como também de aparelhos domésticos. Vendia. Ela era basicamente a maior do mercado. Como organização, não tinha nada igual. Eu acho que a desculpa foi uma Universidade do Comércio em Santos. Tinha lá o Carvalhal, um homem muito bom, o Ynel, que era um homem muito competente também. É de grata lembrança. Os profissionais que tinham lá eram todos excepcionais, todos.

AVALIAÇÃO
Avaliação da carreira profissional Você vê, eu entrei lá em 51, no comércio, completei 50 anos de comércio agora, em 2001. Aprendi muito. E criei amor ao comércio maravilhoso ali, muito grande mesmo. Eu fiquei na loja muito tempo, fui gerente da parte comercial, muito tempo na loja. Lá eu fiz comércio, fiz crédito, fiz cobrança, fiz propaganda, fiz parte financeira, fiz tudo lá.

TRABALHO
Descrição dos departamentos da Discopa Bom, nós tínhamos na época dois setores, de veículos e outro, curiosamente, o nome é feio, chama-se veículos e não-veículos. Esquisito, né? Devia chamar Departamento de veículos e artigos domésticos. Era de veículos e não-veículos. Eram duas divisões. A divisão de veículos não era minha, a minha divisão era de não-veículos, que eram os aparelhos domésticos. TRABALHO Descrição do Departamento de Veículos da Discopa Mas eu cheguei a atuar também no setor de veículos, principalmente no setor de peças. Eu cheguei a comprar peças para o setor. Tinha peça, tinha balcão de oficina, tinha oficina, não só de veículos, também de aparelhos domésticos. Para consertar geladeira, fogão, televisão, máquina de lavar roupa. Hoje o que a gente vê, que é muito comum, você vai reclamar um televisor, eles te indicam uma assistência autorizada, a Philco, a Philips, a Sharp, qualquer empresa, a LG. Você liga para uma oficina especializada e ele te atende. Naquela época não era assim não. Cada firma que vendia seus aparelhos era obrigada a ter peças sobressalentes daqueles aparelhos, algumas peças, as principais, e um laboratório, uma oficina completa para atender os aparelhos. E muitos aparelhos eram importados, porque nós não tínhamos uma indústria nacional fluente naquela época. A indústria nacional de eletrodomésticos surgiu depois. Nós tivemos duas fases em eletrodomésticos no Brasil, antes de Juscelino Kubitschek e depois de Juscelino Kubitschek, quando o país começou realmente a se industrializar. Mas então acontecia coisas muito interessantes. Você tinha um laboratório para atender o televisor, o TV pifava, o oscilador vertical fechava, ficava uma listinha só, assim, aquilo era uma coisa simples, hoje nem tem mais. Mas trocar o transformador também é fácil, é tirar um transformador e pôr outro. Sabe o que a gente tinha que fazer? Pegava o transformador velho, acredite se quiser, punha numa máquina, desmontava o núcleo, sobrava o bobinamento, que era todo isolado entre os fios e betume, para não pegar umidade. Aí você desmontava aquilo, punha num carretel, numa máquina, contava as espirais para desmontar, de cada fase do transformador, verificava a bitola do fio. Então, você tinha a bitola, tinha o número de espiras de cada fio e as etapas. Aí você pegava um carretel com a mesma bitola de fio, colocava o núcleo na máquina, ia enrolando, pelo mesmo número de espiras, fase por fase. Depois colocava um betume para isolar o transformador, as pontinhas, e montava num televisor. Era trabalho para você ficar quatro, cinco, seis horas para trocar uma única pecinha de um televisor. Já imaginou isso? Geladeira, eu vivi esta época que eu vou falar. Eram produtos importados, hoje uma geladeira quebra, você vai, compra um trinco novo, vai lá, põe o trinco. E ainda o pessoal reclama que demora dois, três dias, às vezes não tem, tem que vir da fábrica, o cliente reclama: "Que absurdo O senhor não tem um trinco?" É normal, o trinco gasta de vez em quando. Tem que mandar vir da fábrica. Demora três, quatro dias, está lá o trinco. Naquela época, quando quebrava um trinco, por exemplo, a Frigidaire tinha um trinco junto da porta, que era uma alça, você puxava, ele quebrava às vezes. Sabe o que tinha que fazer? Você pegava o trinco velho, você fazia uma fôrma de argila, fazia aquela fôrma pelo trinco velho, derretia o metal, jogava na fôrma, fundia uma peça igual, tirava a peça, lixava, polia, cromava, remontava o trinco e colocava na porta. Isso era o eletrodoméstico naquela época.

PRODUTOS
Eletrodomésticos Olha, no eletrodoméstico, nós tivemos muitas fases, fases de ouro de venda. Quando eu comecei no eletrodoméstico, em 51, 52, eu vou falar uma coisa que vocês não vão acreditar. Conhece geladeira de gelo? Não sabe nem o que é? Sabe o que é? Não tinha geladeira elétrica, uma pessoa ou outra que tinha geladeira elétrica. O que é que era a geladeira de gelo? Era um armário de madeira, forrado com folha de zinco, em cima tinha uma portinha, embaixo umas prateleirinhas, tudo de madeira. Aí tinha um geleiro que passava o caminhão todo dia em casa, vendia uma pedaço de gelo, você punha lá no compartimento de cima, enrolava em jornal, em pano, para conservar o gelo, não derreter. E os pratinhos com a comida você punha embaixo, para ficar aquela temperatura fresca. Não havia geladeiras no Brasil, só importadas. Fogões, na época, que esse fogão que é tão fácil, tem até acendimento automático, não existia fogões no Brasil. Os fogões eram a carvão, tinha a querosene, sendo que o querosene tinha com um acessório chamado torcida, que era com amianto, e tinha também um gazeificado, que era mais evoluído, era querosene marca Jacaré, que era o melhor que tinha, que não entupia. O gás começou a aparecer mais tarde, não havia suficiente, tinha fila para você conseguir um bujão de gás, e quatro, cinco, seis anos para conseguir um fogão a gás. Você ficava na fila quatro, cinco anos. Então, você tinha que comprar um fogão a querosene, de torcida, então eram fogões desse jeito. Depois surgiram fogões mais evoluídos, que gaseificavam o querosene. Mas eram muito ainda problemáticos, porque o querosene às vezes entupia a agulha, e ele parava de funcionar. Então, nós tivemos fases fantásticas no eletrodoméstico. Quando saiu o fogão a gás foi uma fase maravilhosa, se vendeu horrores. Tivemos a fase do colchão de mola. Quando começaram a surgir os colchões de mola, vendia colchão de mola fantasticamente. Curiosamente, o cliente chegava na loja para comprar um colchão de mola mas não sabia o que queria. "O senhor trouxe a medida?" "Ah, eu não trouxe." "O senhor mede?" "Ah, mas eu não sei medir." Você tinha que mandar uma pessoa em casa. Ele não sabia medir. "É só medir o vão da cama." "Ah, é bom mandar alguém lá." Tinha que mandar medir. Porque as camas na época não estavam assim tão padronizadas como estão hoje. Então, você tinha que mandar medir a largura, o comprimento, para fornecer o colchão de mola. Tivemos fases áureas. Colchão de mola, fogão, o gás engarrafado depois. A máquina de costura também foi uma fase maravilhosa. O que se vendia de máquina de costura era fantástico. Hoje não se vende mais, se compra roupa feita. O alfaiate está em desuso, a costureira também. A roupa é mais barata, mais moderna, tecidos exclusivos. Mas naquela época não. Então, todo mundo comprava uma máquina de costura. Tivemos uma fase também muito boa. E o sofá-cama? A fase do sofá-cama também foi esplendorosa. Não havia pessoa que não comprasse um colchão, um sofá-cama, uma máquina de costura. Este foi o início do eletrodoméstico. Uma venda maravilhosa. E não havia nada importado. Na época a gente conseguia alguns produtos importados, mas muito pouco. Você tinha alguns produtos. A geladeira era importada, fogão era importado, televisão era importado, máquina de lavar roupa era importado e ar condicionado também era importado. E era difícil de conseguir licenças de importação, o governo travava, tinha falta. Sabe como a gente conseguia alguns produtos às vezes, na Discopa? Quando a pessoa viajava para o exterior, ele tinha direito a trazer quatro peças com o passaporte. A gente procurava as pessoas que vinham do exterior, eles já sabiam. Eles traziam porque sabiam que chegava aqui, vendia, por bom preço. A gente comprava as quatro peças dele e vendia na loja. Você comprava 20, 30 passaportes, eram 120 peças. A primeira geladeira nacional produzida surgiu bem tarde. Era das pequenas. Tinha na época uma geladeira nacional de muita má qualidade, que era a Clímax. Chegaram a usar palha de arroz com betume para isolar a geladeira. Ela trabalhava com gás sulfuroso e compressor aberto. Não sei se você sabe o que é compressor aberto, é aquele que trabalha com correia. Hoje não se usa, é compressor selado. É mais silencioso, dá menos problema para vazar gás, e muito mais eficiente. Naquela época era compressor aberto com correia. Então a correia laceava, vazava o gás pelo retentor, o gás sulfuroso era perigoso, que era mal cheiroso, e dava muita reclamação. Uma das primeiras geladeiras que nós tivemos aqui no Brasil foi a Clímax. Chamava-se Indústria Pereira Lopes. Era em São Carlos. E hoje está aí uma indústria maravilhosa. O fogão elétrico nunca foi muito usado no Brasil. A propensão aqui sempre foi para fogão a gás. Curiosamente, porque no exterior usam muito, nos Estados Unidos, o fogão elétrico. Aqui sempre teve, a distribuição de energia sempre foi inicialmente muito falha. Agora estava boa, mas sempre foi muito falha. Nunca decolou. Eu tenho a impressão que o público tem um pouquinho de preconceito pelo fogão elétrico, tenho essa impressão. Nunca tivemos uma produção grande de fogão elétrico. Tem o microondas aí.

TRABALHO
Ida para a Domus como sócio minoritário Eu não resolvi sair. Eu estava muito contente lá, muito satisfeito. É que um grupo resolveu abrir uma empresa de eletrodomésticos Estava em grande expansão na época. E estavam procurando um expert em eletrodoméstico. E eu estava lá, porque eu na Discopa, veja bem, eu cheguei a diretor mas eu não era sócio. Eu tinha uma porcentagem como diretor, mas não era sócio. Eles me ofereceram para a ser sócio da Domus, com uma porcentagem pequena, mas tornado sócio. Então, eles me ofereceram 10% da sociedade para que eu viesse implantar a sociedade. Então, os sócios capitalistas fundaram, entraram só com o dinheiro, e eu como a parte que ia trabalhar, que ia operar. Então, em 1963, 27 de agosto de 63, eu saí da Discopa para fundar a Domus. Eu já tinha um know-how grande, tinha uma clientela, eu conhecia muita gente, conhecia os fornecedores, eu tinha tudo para emplacar. Então, foi assim que nasceu a Domus. Ela abriu para o público no dia 9 de dezembro de 1963, uma loja bonita. Ficava na rua General Câmara, 34. No centro da cidade. Eu estou hoje bem pertinho, mas não é Domus.

SANTOS
Descrição do centro O centro era fortíssimo. O centro, tudo que havia de comércio, de importante era no centro da cidade. Na época o Gonzaga começou a despontar. É uma área mais bonita. Mas o poderio econômico estava aqui na cidade, e ainda está. Porque nós temos o que? A Receita Federal, temos a Receita Estadual, temos o correio. A rede bancária mais forte está toda aqui, os comissários de café estão aqui, os despachantes estão aqui, as pessoas que vivem do porto estão todas aqui, de modo que o centro da cidade tem um potencial muito forte. Não é mais o mesmo. É uma conseqüência natural. Não é o centro que caiu, foram outras áreas que floresceram. Isso acontece no mundo inteiro, é uma conseqüência natural. Foi se alastrando o comércio. Hoje tem bairros aí com o comércio muito forte. Vicente de Carvalho cresceu uma barbaridade. O comércio de São Vicente era muito pequeno, evoluiu muito, a Praia Grande está uma maravilha, uma cidade bonita, cresceu bastante. A Ponta da Praia agora nasceu lá um shopping novo. Isso é uma conseqüência natural. É o desenvolvimento, a cidade foi se espalhando. Quer dizer, as pessoas se queixam muito do centro, o centro ainda guarda um bom potencial. Não é mais o mesmo? É lógico que não é, nem vai ser mais. Pode você estancar o processo, pode melhorar, mas voltar ao que era nunca mais. Mas é uma boa área. Eu tenho raízes no centro, tenho muito amor. Eu acho o centro muito bonito. Nós tivemos alguns problemas também, que atrapalharam, problema de segurança. Os comerciantes têm muita culpa também, os meus companheiros descuidaram de suas lojas, desanimaram, foi indo de pai para filho, o filho queria outra coisa. Então, os motivos são muitos, prostituição, insegurança, falta de cuidado com o estabelecimento, as pessoas perderam o bonde do progresso. Senão esse processo não estaria tão avançado como está hoje. Tem que ter lojas bonitas, bem cuidadas, funcionários adequados, porque a cidade é muito bonita. Mas tivemos uma fase muito ruim aí também do governo municipal. E ainda não está como a gente quer. E atrapalhou bastante.

LOJA
Pontos fortes da Domus A Domus nasceu no centro. Era o lugar mais forte. O lugar mais forte era o centro da cidade Quando eu abri a Domus depois da Discopa, que era na São Francisco. Primeiro lugar: ela tinha um ponto comercial dez vezes melhor que a Discopa, que estava em um fim de linha. Começa por aí. Segundo, uma mentalidade moderna, mais agressiva. Um padrão de lojas mais moderno, um marketing mais efetivo. A Domus, quando nasceu, nós tínhamos um marketing muito forte.

MARKETING
Considerações sobre a importância do marketing A propaganda, ela não é difícil. Você precisa ser criativo, inventar coisas, estar presente sempre na mídia. Você não pode fazer com que o seu cliente esqueça do teu nome. Às vezes o anúncio parece que não vende nada. Eu acho que marketing, propaganda, é como você fazer uma parede, uma muralha. Cada empreendimento é um tijolinho. Se o tijolinho é bom, ele aumenta a muralha, se ele for ruim, ele distorce a muralha. Então, cada coisinha que você faz é uma somatória de tempo. Isto vai ampliando o teu potencial junto ao consumidor. É atendimento, é postura, padrão de anúncio, é tudo uma sistemática. A forma de atender, de acolher, de falar, tem pessoas que não ligam, precisa treinar a equipe. A loja precisa estar iluminada, a fachada pintada, o muito obrigado, o por favor, um anúncio bem feito. Você não faz um anúncio: "Vamos quebrar o seu galho" Não, precisa ter uma coisa, se você quer um cliente de bom nível, você tem que usar a linguagem que ele gosta de ouvir. Então, tudo isso, ter produtos apropriados.

COMÉRCIO
Definição de comércio Olha, comércio é uma coisa maravilhosa. Para ser comerciante, não basta saber comprar e vender. Comércio é uma mixagem de muitas profissões, de muitas habilidades. O comerciante tem que ter feeling, tem que ter percepção, ele tem que enxergar adiante dos outros.

MARKETING
Definição de marketing para o entrevistado Eu vou dar um exemplo para você, que é muito interessante. O marketing, o que é marketing? Tem tanta definição. O marketing é você pressentir o que vai acontecer, e que os outros ainda não perceberam mas eles vão se engajar neste movimento. Um exemplo bem simples: é como aquele surfista que pega a prancha e entra mar adentro. Ele se coloca na linha do mar, pesquisando o horizonte, ele olha, olha, para saber qual é a onda que ele vai embarcar. Marketing, em parte, é onda. Ou ele embarca na onda certa ou ele embarca na onda errada. Se ele tiver sensibilidade para a coisa, ele percebe o momento exato e a onda exata que ele tem que embarcar. Ele olha, ele refuga esta, aquela, a outra. "É aquela que vem vindo lá. Ele percebe, é feeling. "É aquela." Quando ela chega, ele embarca e vem até a terra. Isto é marketing, um exemplo grosseiro. É percepção, feeling. Isto você tem ou não tem. Eu sinto que eu tenho. Às vezes as pessoas discutem comigo... eu até que agora não discuto muito. Já discuti muito, já fui muito teimoso. Hoje eu fico calado, porque as pessoas às vezes não percebem as coisas. Você está vendo com tanta clareza, que não dá para discutir com o cara. Isso é comércio. Você sente. É a possibilidade de saber o que dá certo e o que não dá certo.

CONSUMIDOR
Perfil atual do consumidor O cliente está cada vez mais exigente. Mas nós temos um código do consumidor. A mídia também está mais modernizada. Ele conhece melhor os produtos que estão no mercado, ele conhece melhor as ofertas de todos os nossos concorrentes, ele sabe mais claramente o que ele quer do que antes. Quer dizer, existe realmente... os filhos também estão mais atualizados. Então, o público hoje realmente é diferente do público anterior, mas no fundo, no fundo, no fundo a coisa não muda muito. O que é que ele procura mesmo? Ele procura, principalmente, segurança, amparo, ele quer sentir confiança, ele quer orientação. Eu acho que a gente tem que entender a pessoa como quem quer prestar um serviço, através de uma venda. Eu não engano ninguém, nunca tive essa hábito. Porque sempre você tem alguma coisa para oferecer para o cliente que vai do encontro da necessidade dele. Você tem que detectar qual é o problema dele, qual é a ansiedade dele, para poder sugerir a coisa de uma maneira absolutamente correta. Às vezes ele entra até com uma idéia na cabeça. Eu não gosto de tirar a idéia das pessoas. Porque quando você tira a idéia das pessoas é meio ruim, porque ele compra o outro aparelho, dá um probleminha, ele te cobra. "Eu queria tal, você me vendeu tal." Então, precisa muito cuidado nesse aspecto. Mas normalmente cabe sempre ao lojista dar uma orientação adequada, vender aquele produto que é melhor para ele. Ele tem uma série de produtos, todos os produtos têm a sua faceta de importância. Apesar de concorrentes, um é mais adequado para uma coisa e o outro é mais adequado para outra. Mas tudo depende da forma de atender, de falar, de se expressar. Eu vou dar um exemplo. Uma época de Natal... bicicleta teve uma fase de ouro, eu cheguei a vender no Natal mais de 5 mil bicicletas.

PRODUTOS
Vendas de bicicletas no Natal 1957, 1958, 1959. Era uma fase de ouro. Vendia 5 mil bicicletas no Natal. Sabe lá o que é isso? 5 mil. Foi uma fase interessante, mas é que eu não tenho tempo para falar de tudo. Mas o vendedor, ele passa o dia todo ensinando. Uns aprendem, outros não. Os bons são sempre os mesmos e os ruins também são sempre os mesmos. O ruim, você ensina, ensina, ensina, e não aprende. Vou dar um exemplinho de como fazer uma venda. No Natal, tinha uma menina, menina esperta, vou falar o nome dela, se ela ver o filme vai lembrar, o nome dela era Ângela. E veio um casal me procurar, ele, a mulher e o filho, queriam comprar uma bicicleta. Então, eu desci com eles na loja para dar uma atenção, que era amigo. "Ângela, ele quer comprar uma bicicleta, aquela Barra-forte..." Aquela era moda. Aí para a Ângela: "Que cores você tem?" Ela falou assim: "Ah, seu Hélio, nós só temos a vermelha." Eu digo: "Filha, você mediu bem o que você falou?" Eu disse para o pai do menino: "Olha, o senhor está com sorte." Eu estou dando um exemplo, que é um exemplo, muito bonito, muito interessante, de como vender e de como não vender. Coisas mínimas, dispersões, de postura. Uma equipe bem treinada vende. Quando não é bem treinada não vende. Então, eu desci com o casal que estava com o filho, queriam comprar uma bicicleta, uma Barra-forte, e eu perguntei: "Ângela, que cores você tem a Barra-forte para o menino aqui?" "Ah, seu Hélio, nós só temos a vermelha." Eu digo: "Como é, filha?" "Nós só temos a vermelha." Aí cheguei para o dono: "Olha, o senhor desculpe, ela não se expressou bem. O senhor está com muita sorte, pelo seguinte: a vermelha é a cor da moda, é a mais procurada, e nós temos exatamente a vermelha, que está disponível, que o senhor deve levar, que é uma cor maravilhosa, que eu tenho certeza que o seu filho vai gostar." Que quando você fala que só tem vermelha, o cara já quer amarela, preta, ou cor de abóbora. Isto ocorreu comigo há pouco tempo, eu estava numa concessionária de veículos, e um amigo estava comprando um carro. E perguntou para ela: "Que cores você tem?" "Ah, nós só temos o prata." Eu digo: "Mas, filha, você tem a cor que é mais procurada, a moda é o prata, e em vez de informar: o senhor está com sorte, nós temos o prata, que é o carro do momento, você fala para ele que só tem o prata Você desmotivou o homem de comprar. Ele já vai querer cor de abóbora"

COMÉRCIO
Definição de uma boa venda Então, isso tudo são coisas muito interessantes, sabe? A venda é uma arte, as pessoas que aprendem, não se precisa enganar ninguém.

LOJA
O prazer de trabalhar na Domus Olha, a Domus foi minha vida, a Domus é como um filho. Porque ficar numa empresa que você criou - que eu tinha sócios -, mas o único que trabalhava era eu, os outros eram só capitalistas. Então, era uma empresa que é como um filho, que você cria desde pequenino, moldado nas suas informações. A Domus era uma empresa assim, uma empresa bonita, linda, uma clientela maravilhosa, um sucesso espetacular, muitas lojas, um faturamento espetacular, com um conceito muito bom no mercado. Só tinha um defeito a Domus para mim: eu me julgava na Domus, eu me considerava na Domus um comerciário de luxo, porque eu tinha uma pequena parcela da empresa, eu era sócio, mas eu nem me considerava sócio. Quem tem dez, os outros têm 90, eu era simplesmente um comerciário de luxo. E a Domus era uma empresa vitoriosa. LOJA Dificuldades em conciliar um número grande de sócios Eram várias lojas. Era uma empresa vitoriosa, lucrativa, tivemos fases difíceis, eu comprei alguns imóveis em nome da empresa. Mas morria um, vinha a viúva, vinha o filho, no final juntamos 12, 13, 14 pessoas acionistas, porque era uma S.A. e sempre as pessoas de fora têm uma impressão equivocada da realidade. Você que está lá dentro, no dia a dia, sabe que é uma luta você manter a empresa e conseguir alguma lucratividade. É difícil. Mas as pessoas de fora pensam que você compra por cem e vende por 200, ou vende por 150. "Ah, compra por 100. Vende por 150, ganha 50." Não é verdadeiro. Tem despesas, tem impostos, é bem diferente. Então, os nossos sócios, infelizmente, tinham uma noção, que eu não condeno. Porque eles não viveram a empresa desta forma. E nunca cuidaram da gente procurar ampliar cada vez mais a empresa. Se a empresa fosse totalmente minha na época, eu tinha montado 30, 40 lojas, reinvestindo. Mas... fechava o balanço, todo mundo queria a sua participação, seu resultado, então você esvaziava a empresa. Além de mim eu tinha outros diretores que também tinham honorários, pessoas que na realidade ganhavam honorários mas não estavam lá no dia-a-dia trabalhando, também provoca uma evasão. Mas é uma empresa ótima, meus sócios excelentes. Nunca meus sócios me proibiram de nada. Tudo que eu fiz na Domus foi por alta iniciativa minha, nunca ninguém me proibiu de nada. Porém, a gente tem desconfiômetro. Eu sei a maneira deles pensarem, eu evitava de ter atitudes que não fossem favoráveis ao pensamento deles. Se não eu teria talvez dado alguns passos diferentes. Mas é uma empresa bonita. E, como juntou muita gente, ela ficou difícil de você se manter. Muitas opiniões, muitas divergências, mas estavam todas centradas em mim. Mas a qualquer momento a coisa ia complicar. Então, eles resolveram vender, eu concordei. Eu não queria vender, mas porque é como vender um filho, sabe, para mim. Mas vendemos. COMÉRCIO Montagem da loja própria, a De Novo Vendemos a Domus, cada um pegou a sua parte, eu peguei meu dinheirinho, e comecei tudo de novo. É uma empresa que eu tenho de capital pequeno, pus todas as minhas fichas lá, estou levando a empresa com muito sacrifício. Mas eu realizei um sonho, um sonho tardio. Porque eu inaugurei a De Novo em 1996. Então, eu inaugurei a De Novo com 64 anos. Tarde, né? Mas estou muito contente, eu realizei um sonho de ter uma empresa que eu digo: "É minha." Se eu fizer uma burrada, fui eu quem fiz. Se eu acertar, fui eu que acertei. A decisão é minha. Que é muito difícil, é muito desgastante você explicar aos outros, apesar de serem muito bons, você passar informações. Se é para um ainda vai, agora dez, 12, explicando, é muito desgastante: "Será que ele fez certo? Será que ele fez errado?" Então era muito desgastante para mim. Então, eu hoje, eu estou com o meu sonho realizado. Os meus filhos estão lá comigo, eu tenho três filhos, estou muito contente. Lutando com dificuldades por causa da conjuntura, mas bastante alegre.

LOJA EM REDE
E hoje tenho cinco lojas. Nós temos lojas no centro da cidade, em Santos, temos no Gonzaga, temos no Shopping Praia Mar, lá na Ponta da Praia, na Aparecida, temos em São Vicente, na Praça Barão do Rio Branco, e temos na Praia Grande, na Avenida Costa e Silva. E pretendo abrir em Vicente de Carvalho. O padrão de preços, o padrão de atendimento, os planos são todos os mesmos. Tem cliente que às vezes pergunta se eu vendo no Praia Mar no mesmo preço que eu vendo lá na Praia Grande. O preço é absolutamente igual. É uma lista só, as normas são iguais, não tem cabimento você vender ali em um preço e ali no outro. Não tem. O que você encontra são variáveis de poder aquisitivo, tem uma loja que vende mais em prazo longo, outra mais em prazo curto. Mas não em preço, os preços são os mesmos. Produtos também são variáveis, as áreas que são mais pobres, de menor poder aquisitivo, como é o caso de Praia Grande, São Vicente, que não se compara com Praia Mar, que é uma loja no shopping. Mas são lojas de bom potencial, são lojas boas, de boa venda. Olha, eu me orgulho de uma coisa: nós já tivemos muitas lojas, mas eu hoje, a loja que nós temos lá no Praia Mar, eu reputo, não é a maior, tem lojas muito maiores por esse Brasil afora, mas eu posso lhe garantir com toda segurança que é uma das lojas mais bonitas do Brasil em eletrodomésticos. Ah, é, vai visitar. Uma loja de muito bom gosto, muito bem iluminada, bem arrumada, boa disposição de produtos, vendedores bem treinados, atendimento bom, uma loja maravilhosa, como poucas.

CRISE NO COMÉRCIO
Dificuldades relativas à crise de energia Eu já passei por muitas crises no comércio. Aliás, desde que eu estou no comércio eu vivo uma crise em cima da outra. E, curiosamente, sempre a última a gente acha que é a mais forte. Dá a impressão de que esta é a mais forte. Talvez não seja, mas dá a impressão, porque tem problemas que você consegue neutralizar de uma forma ou de outra, mas falta de energia é complicado, é difícil. Mas eu acho que a fase aguda foi em abril, que começaram a sair as notícias e já passou. As pessoas já estão mais calmas. E vou dizer mais. Dizem que há males que vêm para bem, e o racionamento é um deles. As pessoas, primeiro lugar, aprenderam a economizar. Porque anteriormente elas entravam na loja para comprar uma geladeira, um ar condicionado, nunca ninguém perguntou quanto consome. Quando era um europeu perguntava. Os estrangeiros, eles tinham essa curiosidade, o brasileiro não tinha. Porque também energia elétrica, se a gente analisar bem, ela tem tarifas baixas, ela não é cara. Sabendo usar ela não é cara. Então, havia muito desperdício. Deu uma parada grande em abril, maio, junho. Mas vagarosamente nós estamos reconquistando a confiança do público no uso de aparelhos domésticos. Porque todo esse problema que está havendo agora vai se transformar em argumentos para novas vendas no futuro. As pessoas vão trocar de geladeira, porque a geladeira antiga consome muito, a moderna consome pouco. Ela, por consumir menos, tem uma disposição mais bonita, vai conduzir a uma troca de produto. Ar condicionado a mesma coisa, lavadora de roupa. Então, já está havendo uma venda para substituição de produtos antigos. A mídia mesmo vem anunciando que aparelhos antigos consomem muito, e é verdade. Eu vou dar um exemplo. Está saindo agora um aparelho de ar condicionado que se usa em dormitório de 7.500 btus. Um aparelho de 7.500 btus está saindo agora... o anterior consumia 1.150 wats por hora, o atual consome 770 wats por hora. É um compressor vedativo, muito mais econômico e muito mais eficiente, além de silencioso. Então, vamos fazer uma continha rápida. Há uma economia de 400 wats por hora de consumo. Em oito horas que você usa o aparelho, uma noite toda, são 3.200 wats. Em 30 dias são 96 mil wats, ou seja, 96 kilowats. O kilowat deve passar agora para 30 centavos, há uma economia de 27 reais por mês de energia elétrica. Quer dizer, em seis, sete, oito meses você tem uma economia de quase 200 reais. Paga metade do aparelho quase. Então, as pessoas que têm o aparelho antigo podem trocar. As geladeiras antigas consumiam 400 wats, agora o consumo delas é muito pequeno, são muito econômicas. Então, este mal todo que nos foi causado, está havendo um redirecionamento das necessidades. As pessoas que não compraram estão adiando. Nós estamos estocando necessidades, que elas vão aflorar brevemente e nós vamos recuperar o terreno perdido, e vamos vender muitos aparelhos. Eu tenho convicção plena. É questão de tempo.

VITRINE
Importância da arrumação da loja Arrumação de loja é coisa que eu mais fiz na minha vida. Eu sou sempre insatisfeito com a arrumação. Eu até tenho sido muito crítico. Eu lembro de uma loja que eu inaugurei na Ana Costa, ainda outro dia encontrei o ex-gerente tomando uma caipirinha, brincando, chamava-se Hugo Brandi, ele contou a história. Que virou a noite toda, coitado, ele, o pessoal arrumando a loja, para inaugurar no dia seguinte, tudo arrumadinho, tal. Eu cheguei lá uma hora antes do coquetel, pichei, meti o pau e tudo, mudei tudo. Quer dizer, realmente eu não fui educado. Eu tenho mania de mudar a loja, modificar a loja. É que hoje é mais difícil. Mas eu viro a loja do avesso constantemente. Rodízio de acordo com a época, a temperatura, o anúncio do concorrente. O comércio tem que ser muito rápido. O concorrente está fazendo um anúncio hoje, você tem que rebater no dia seguinte, fazer uma oferta para neutralizar, trazer para a porta, ou tirar da porta. Fazer com que ele se destaque, o produto. A vitrine é importante. É que hoje há uma dificuldade de espaço para vitrines. E existe uma técnica hoje, a não ser em shopping, em lojas de rua, em transformar a loja numa vitrine. Quer dizer, você entra e encontra as arrumações de uma maneira correta, que realmente vende. O produto bem arrumado, bem exposto, ele vende.

PRODUTOS
Eletrodomésticos Era muito difícil. O início do eletrodoméstico, ele foi penoso. Porque as pessoas tinham um pouquinho de descrença nos aparelhos. Os primeiros aparelhos, é uma coisa curiosa, é interessante. Na época da máquina de costura, nós tínhamos máquinas tradicionais, aquele cabeçote com móvel de cinco gavetas, com aquele pedal embaixo, coisa bem antiga. E a gente pretendendo inovar, nessa empresa que eu trabalhei, a Discopa, nós importamos umas máquinas moderníssimas americanas, o nome era New Home. Uma máquina bonita, um gabinete reto, elétrica. A outra não era elétrica, era pedal. Lindona, espetacular, um desempenho bom Olha que coisa interessante. Pusemos a máquina na loja. E nós tínhamos um vendedor, um senhor antigo, o apelido dele era "Pé de anjo". Ele teve uma loja muitos anos de máquina de costura, o seu Abreu. A viúva dele está aí até hoje, viúva não, a filha. "Seu Abreu, o que o senhor achou da máquina New Home?" Novo lar, né? Ele olhou a máquina, olhou, olhou: "Isso não vende." Máquina para vender é aquela Singer, com volante (caiado?), aquele cabeçote tradicional. "Isso não vai vender." "Mas como, seu Abreu, que não vai vender? É uma máquina elétrica, moderna, bonita. Olha fechadinha. Uma mesinha. O preço é pouca coisa acima." E nós demos risada do seu Abreu. "O seu Abreu está por fora, está velho." E, para nossa surpresa, foi um encalho total. Você vê que as pessoas lutam ainda contra o que é novo. Hoje não, hoje é diferente. Naquela época vendia o tradicional. Era o volante raiado, aquela máquina preta, com aqueles decalques todos dourados, aquelas flores. Vendia aquela e não vendia a outra máquina. Nós chegamos a ter na época... não tinha máquina de lavar roupa nacional, mas teve uma indústria que lançou. Tinha uma máquina chamada Prima, olha só, era máquina de lavar roupa e lavava louça. Ela tinha um tanque que lavava roupa, e tinha um cesto que você punha os pratos, você punha lá dentro, ligava a máquina... Uma coisa horrorosa, lavar roupa onde tinha gordura. Chegamos a ter um tipo de máquina assim. Mas a indústria nacional demorou, mas aos poucos foi evoluindo, e depois do Juscelino tivemos muitos aparelhos bonitos. Naquela época, por exemplo, televisão era uma dificuldade para você vender. Você vendia um tevê, nós não tínhamos as subestações que temo hoje. Então, em São Paulo, a TV Tupi, eu lembro do primeiro televisor que nós tivemos na loja a Antártica punha o guaraná lá, o guaraná da Antártica, sentava 20 pessoas à noite para ver televisão, 20, 30 pessoas, punha a cadeira, olhando aquele guaranazinho lá, parado. Encantados, de ver uma imagem que vinha de São Paulo. Então você, para vender um tv, a imagem era ruim, a recepção era péssima, não tinha subestação, você tinha que montar antenas, como tem uso nos telhados. Cada tv que você vendia, ia um cara com o equipamento completo, antena, cano, fios, isoladores, punha antena. Ele carregava um booster para ver qual era a posição correta. Mudava a antena daquela ponta do telhado, depois para a outra. Virava, o outro ficava lá embaixo: "Está bom, vira" E, no final, para pegar umas fagulhas lá e assistir mal. Você vê que época difícil de se vender. Rádio, para se vender, as pessoas levavam em demonstração. Máquina de costura também. Ninguém comprava um rádio e mandava para casa. Você mandava em demonstração. Ficava uma semana o rádio, para experimentar, depois o vendedor voltava: "O senhor gostou?" Para ver se tirava o pedido. Era difícil. Eu mesmo, quando era mocinho, a primeira geladeira elétrica que foi fabricada no Brasil foi a Multibrás quem fez uma delas aqui em São Bernardo, e mandou uma geladeira, mandaram duas para Santos. Uma na casa de um chefe do escritório, a outra foi para a minha casa. Uma geladeira bonitinha, engraçadinha, de seis pés cúbicos. Ficou em casa, funcionou bem, na hora de levar a geladeira embora eles ofereceram: "Olha, as duas geladeiras, vamos fazer um preço especial, está em sua casa. O senhor quer ficar com ela? O senhor paga x, fica com ela." Meu pai foi contra. "Está louco As crianças aí vão ficar chupando gelo, vai ficar todo mundo doente. Manda embora essa geladeira." E não ficamos com a geladeira. Um tio meu comprou a geladeira e ficou com ela. Veja o preconceito que havia na época para todos os aparelhos. O ar condicionado, por exemplo, que diziam que as pessoas ficavam doentes, quem tinha ar condicionado eram médicos e classes mais abastadas, que tinham um conhecimento melhor. O povo propriamente dito passava calor mesmo, não usava ar condicionado. Hoje qualquer pessoa compra um ar condicionado. Era uma época bem diferente. Nós não tínhamos TV a cores, era curioso. A gente vendia uma tela de plástico, com elástico, você punha na frente do TV, chamava-se telecolor. Era um plástico, ficava um furta-cor...

ENTIDADES
Atuação e promoções no Sindicato do Comércio Ah, atividades fora do comércio eu sempre tive muitas, sabe? Até no próprio sindicato, eu talvez seja um pouco sonhador, um pouco idealista. O sindicato, no tempo que o Joaquim Faro Aguiar era presidente, ele me destacou lá para uma comissão de promoções, eu fiz parte muito tempo do comércio. Por sinal ontem na televisão, eu não lembro o nome dele, ele estava cantando no programa da Hebe, está velhinho o cara, não lembro o nome do cara. Então eu tinha algumas promoções no sindicato, eu criei um calendário promocional que nós não tínhamos, das datas que você tinha que trabalhar fora do horário, para poder fazer frente ao público. Que naquele tempo, no Natal, você trabalhava até meia-noite, tinha gente, lotado. Então a gente tinha venda antecipada. Em novembro você fazia campanha de venda antecipada, porque eram muitas pessoas para ficar menos gente para o Natal. Era outra época. Então, eu participei no sindicato desse calendário promocional, e todas as promoções marcantes eu organizei muito tempo lá. E fazia até promoções interessantes, semana da pátria, fazia umas exposições. Isso tudo acabou hoje, infelizmente. Olha, eu lembro que na época dos namorados nós fizemos um concurso uma vez: "O mais belo bilhete de amor". Dávamos uma premiação. Era uma época bonita, galante, muito bonita. Hoje isso está esquecido. Então, no sindicato eu tive esta faceta. E naquela época eu lancei uma campanha naquela época, chamava-se Semana da Cortesia, que era dirigida ao aprimoramento dos balconistas, atendendo melhor os clientes, com mais atenção. Então, fizemos umas faixas: Semana da Cortesia, distribuída pelo sindicato. Fizemos uma campanha bonita durante uns dez dias. Essa campanha, curiosamente, ela serviu de símbolo para uma campanha maior. Eu achei aquilo muito interessante na ocasião, era só no âmbito comercial, para as lojas de comerciais. E resolvi criar uma campanha, eu era rotaryano, passei para o Rotary. E passando para o Rotary passei para toda a comunidade. Quer dizer, passamos para o frentista, para o carteiro, para o bancário, para o funcionário público, para o professor. Qualquer pessoa, em qualquer atividade, em qualquer lugar, na escola, em serviço público, INPS, em qualquer lugar, médico, dentista, advogado, e fizemos então esse concurso, chamava-se "Pratique a cortesia". Foi um concurso bonito, eu já faço isso há 20 anos. É um concurso maravilhoso, em que participam qualquer pessoa de qualquer atividade, e no que consiste? Eu faço dez, 20 mil cartazes, folhetos, faço adesivos para automóvel incentivando a campanha. "Pratique a cortesia. Sorriso, atenção, cordialidade valem muito e nada custam." Incentivando as pessoas à prática da cortesia para um bom entendimento entre todos. Então, esse concurso, eu peguei o apoio também do jornal "A Tribuna", ele publica durante 15 dias um cupom, as pessoas são convidadas a nomear pessoas que foram atenciosas, um frentista, um carteiro, um bancário, um funcionário público. Indico o nome, dá o nome de quem indicou, vai para uma urna. Nós temos tido 15, 20 mil indicações. E junto ao comércio a gente consegue alguns prêmios, um tv, um fogão, secador de cabelo. Então, as pessoas que são indicadas, o maior número de pessoas, recebem um prêmio. Além desse prêmio, a gente faz uma medalha, convida para o almoço, presta uma homenagem no Rotary Club de Santos, um almoço bonito. Convidamos o patrão também, fazemos uma carta ao patrão, cumprimentando por ele ter um funcionário exemplar. Nos bancos também. E ampliamos também, além dessa área toda, para a área escolar. Quer dizer, plantando uma sementinha, o jovem... E na área escolar nós fazemos o concurso diferente. Concurso de desenhos, de colagens, de composições, de frases. Nós fazemos isso na rede municipal. As escolas escolhem os melhores trabalhos. Escolhemos três alunos de cada classificação, e também levamos para o almoço, prestamos homenagem para e escola e para os alunos. Acho que isso tem sido muito interessante, é uma campanha que já tem raízes, e eu acho curioso. Não é dizer que ela resolva o problema. Mas quando você tem um cartazinho no seu automóvel: "Pratique a cortesia", se você quiser ser malcriado com o seu vizinho você sente que ele te puxa a orelha. Quer dizer, ele tem um valor. Para mim foi muito benéfico, e eu acho que para a cidade também. Eu tenho muito orgulho de fazer parte dessa campanha. Fora isso eu faço parte do Rotary há 30 anos, a gente já fez muitas campanhas lá, e estou na área de benemerência na Casa da Esperança, vou fazer 30 anos também que eu sou tesoureiro lá.

BENEMERÂNCIA
Atuação frente a Casa da Esperança A Casa da Esperança é um centro de reabilitação, nós temos 220 crianças lá. É uma casa grande, não é pequena não. Nós temos 80 funcionários. Nós examinamos problemas mentais, físicos, na área de audição, de fala, de locomoção e movimentação. Nós temos uma equipe muito disciplinada, enorme, temos médicos, temos dentistas, temos fisioterapeutas, fonoaudiólogo, psicólogos, temos gente, enfim, de todas as áreas de reabilitação. Além de oficinas para pernas mecânicas, prótese, é uma obra muito bonita. E as crianças nada pagam lá. Foi fundada pelo Rotary. Mas não é o Rotary que mantém não, o Rotary ajuda. Eu sou rotaryano, o Rotary é a base. Mas o povo todo colabora. A Campanha da Cortesia eu faço a cada dois anos, sempre no mês de outubro. Então, em outubro do ano que vem vai ser realizada. Eu não faço anualmente porque eu acho que cansa um pouquinho. Eu faço a cada dois anos. É que em outubro no Rotary é considerado o mês dos serviços profissionais. Então, como é um relacionamento entre as profissões, entre as pessoas, a gente faz em outubro. E próximo de setembro, por uma razão: setembro é primavera, é a época que as pessoas estão predispostas a receber uma mensagem, que é primavera.

COMÉRCIO
Mudanças significativas O que mais mudou no comércio? Mudou tudo. Mudou tudo, tudo. Olha, mudou o sistema de crediário, mudou a informatização, antigamente era tudo na mão. O sistema de propaganda é diferente, os vendedores têm que ser mais especializados e mais treinados. As lojas precisam ter um visual moderno, as mensagens de propaganda têm que ser modernas, atuantes. E mudou principalmente a guerra, é uma verdadeira guerra o mercado hoje. Ninguém quer perder o seu espaço, a concorrência é muito forte, muito grande, é preciso você estar atento, aparar migalhas para sobreviver. É uma época muito difícil.

AVALIAÇÃO
Importância do comércio para o entrevistado Para mim, o comércio é a minha paixão. Olha, ao comércio eu devo tudo. Eu sou o que sou porque eu sou um comerciante. O comércio me fez aprender tudo que eu sei, tudo. A escola foi base, é lógico. Mas eu, hoje, eu acho que o comerciante, ele é um misto, olha, de contabilista, de advogado, de homem de propaganda, de homem de finanças, de promoções, de métodos, de economia. Eu acho que o economista que não tiver essas facetas todas... de matemática, tudo. O comércio é matemática pura. Se você não estiver predisposto a isso, você não pode ser comerciante. Comerciante não é só comprar e vender não. Comprar e vender é uma das etapas.

FILHOS
Descrição das atividades dos filhos Eu casei muito jovem, sabe? Eu casei com 22 anos. Bem jovenzinho. E nós temos quatro filhos. Eu tenho um filho hoje com 44 anos, que é o mais velho. E eu tenho muito orgulho que eu consegui, eu e minha mulher, formar os quatro filhos. A mais jovem é a moça, os outros são todos homens. Ela é formada em Letras, é a única que não trabalha comigo. Trabalhava no Banespa, agora passou para Santander, acabou saindo do banco, vai escolher outro sistema de vida, talvez vá dar aulas de inglês. Os outros meus filhos, o mais velho é formado em Metalurgia. Fez concurso para a Cosipa, ficou alguns anos lá, mas sentiu que não era isso que ele queria, está comigo na área de Informática. É um excelente profissional, muito competente, dos poucos que a gente pode encontrar, é um ás em Informática, é um ás mesmo. Um pouco genioso, mas é um ás. Os outros dois são formados em Administração. Um está comigo na área administrativa propriamente dita e o outro na área comercial. Então estou bem amparado, com os três filhos. Só a filha que não está comigo, mas os outros três estão comigo. A minha mulher é uma pessoa de muito valor, porque a minha mulher é muito compreensiva, não interfere, ela é sobretudo uma mulher que apoia. Eu acho que é muito importante. Muita gente fala na mulher que dá idéias para uma coisa, para outra. A minha mulher, o grande mérito da minha mulher está no apoio moral e religioso que ela nos dá. A firmeza dela, a fé que ela tem, nos mantém vivos.

LAZER
Atividades de lazer: cinema e caminhadas Eu tenho muito pouco lazer. O meu lazer quase que é trabalhar. Hoje eu não trabalho tanto como eu trabalhava antes. Mas eu gosto muito do que eu faço, eu gosto de trabalhar. Mas no meio da semana, o meu lazer é muito pouco. Eu gosto muito de cinema. Mas não vou ao cinema, eu gosto de cinema em casa, através de televisão. Gosto muito de ver noticiário econômico, e gosto muito de praia. De caminhar, de andar. Gosto de conviver com os amigos, bater papo, eu gosto de papos inteligentes, eu gosto.

AVALIAÇÃO
Avaliação da entrevista e de suas origens Falamos tanta coisa, viu? Eu não lembro, assim, de nada em especial. Nós falamos tanta coisa aí, viu? Eu acho que a entrevista foi ótima, é um reexame de vida. Eu tenho certeza que depois em casa eu vou lembrar de coisas que eu não falei, que eu gostaria de falar. Mas uma coisa que me dá muito orgulho, mas muito mesmo, eu não sei se eu falei, mas acho que eu não falei. Falei sim. É que a mamãe era empregada doméstica. Então, eu tenho orgulho de dizer que eu sou filho de uma empregada doméstica. E o meu pai era um homem muito simples. Eu falo isso porque quando eu era jovem... eu falo isso como um tributo ao meu pai e minha mãe... na minha ignorância, eu talvez tivesse vergonha do meu pai e da minha mãe. E hoje eu sinto orgulho.

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