Busca avançada



Criar

História

Elaine e suas quarta-feiras sagradas

História de: Elaine Pereira Silva Macedo de Souza
Autor:
Publicado em: 13/05/2020

Sinopse

Responsável pela estruturação de grande parte da empresa que trabalha, Elaine Souza conta sobre sua experiência em logística e desenvolvimento profissional dentro de uma empresa do ramo da comunicação. Relata as dificuldades que existem quando uma equipe não presencia os frutos do próprio trabalho e explica como isso é um fator crucial para existir confiança. Além disso, conta como é importante dar importância a cada funcionário, principalmente o voluntário que, para ela, é um dos instrumentos vitais para o bom funcionamento de uma empresa que promove ações sociais.

Tags

História completa

P/1:  Elaine, você poderia dizer seu nome completo, data de nascimento e local, por favor?
R: É Elaine Pereira Silva Macedo de Souza, nascida em 14 de fevereiro de 1975, em São Paulo.

P/1:  Qual é o cargo que você ocupa e a função que você desempenha no CDI [Comitê para Democratização da Informática]?
R: Coordenadora de logística e voluntariado, tendo como missão coordenar o programa de voluntariado do CDI São Paulo, a campanha Mega Ajuda, que é a campanha de arrecadação de computadores, e a distribuição desses equipamentos pra toda a rede CDI e pra criação de EIC[ Escola de Informática e Cidadania]  aqui em São Paulo.

P/1:  Como foi que você entrou em contato com o CDI?
R: Na verdade eu não entrei em contato com o CDI. Eu estava disponível no mercado de trabalho e eu era filiada ao Catho e a Ancham encontrou meu currículo no Catho e me convidou pra uma entrevista. Até então eu nunca tinha ouvido falar do CDI.

P/2:  Conta como é que foi esse processo aí.
R: Bom, eu sempre trabalhei no segundo setor e faço trabalho voluntário há muito tempo. E eu tinha interesse em fazer alguma coisa no sentido profissional também, remunerado, no terceiro setor, para a área de cidadania, alguma coisa nesse sentido. Então eu estava querendo migrar pro terceiro setor. Quando eu recebi um convite da Câmara Americana que era pra trabalhar num projeto de cidadania da Câmara Americana, fui fazer a entrevista e eu gostei do projeto, falei “Ah, por que não?” E aí foi onde eu fui inserida o CDI.

P/1:  Você foi contratada?
R: Isso.

P/2:  Mas foi via Ancham?

R: Via Amcham. Até então eu demorei uns dois ou três meses pra saber que eu estava trabalhando para o CDI. Que até então meu contrato foi com a Amcham. Demorou um pouquinho, era um processo meio que diferenciado, ainda o CDI tinha um vínculo muito grande com a Amcham no sentido até a contratação era via RH da Amcham. Então não foi falado o que é que era o CDI em si, né? Eu conheci algumas EICs, conheci alguns locais, mas até então não tinha claro que eu estava trabalhando para o CDI.

P/1:  E como foi assim, você acompanhou então um pouco a Instituição, essa passagem da Amcham pra Instituição mesmo, de um escritório mais do CDI de São Paulo, né, mais autônomo.

R: Bom, pelo que eu saiba, houve uma parceria entre a Câmara Americana de Comércio de São Paulo e o Comitê para Democratização da Informática, dada a campanha Mega Ajuda. E aí, qual que era a contrapartida disso? Era que a Câmara Americana financiasse um coordenador regional, que na ocasião era o Fernando Nogueira, que entrou na Câmara em fevereiro. Passados alguns meses, o CDI conseguiu projetos que pudessem financiar outras pessoas e começou a ampliar a equipe. Então foram contratadas 3 pessoas pra equipe na ocasião. Era eu, a Fernanda, e a Luciane. A Fernanda era coordenadora de projetos, e a Luciane coordenadora pedagógica. E com o tempo, passados uns dois, três meses que vieram mutirões e eventos, eu fui entendendo o que é que era o CDI, o que é que era esse projeto em si. Não sei se ficou claro.

P/2:  E a mudança Amcham, das relações que o CDI assumiu vocês mesmo, como é que foi isso?

R: Eu acredito que com a mudança do presidente da Câmara Americana começou a haver mudanças na relação entre CDI e Amcham. Eu acho que algumas foram pela mudança do presidente, e outras coisas, o próprio desgaste da relação mesmo. E com isso, o Fernando Nogueira que ficava num prédio separado da equipe. E aí em novembro, outubro, já estava com uma equipe bem maior. A gente começou a se apropriar mais o que é que era o CDI, o que é que a gente estava fazendo ali, como é que nós estávamos. Cheguei lá em setembro, na virada pra 2002 que veio o lançamento do dia Inclusão Digital, que aí você começa a incorporar mais o que é que era o CDI, o que eu estou fazendo ali, o que é essa questão da Inclusão Digital. E essa relação foi mudando aos poucos. Não foi assim: “Ah, deixamos de ser agora CDI-Amcham e viramos CDI.” Não, eu acho que foi em doses homeopáticas mesmo. Talvez não era claro, nem pro CDI, nem pra Amcham, qual que era o papel de cada uma e onde que as coisas se casavam. E aí foi se reestruturando um departamento de Cidadania dentro da Câmara Americana e delimitando papéis e funções, benefícios e contrapartidas nessa relação.

P/2:  Mas no começou você era contratada da Amcham?
R: É. Eu tinha um contrato com a Amcham.

P/2:  E quando mudou o contrato?
R: Em novembro de 2002.

P/2:  E como foi?

R: Não, novembro de 2002 eu ainda fui pro CLT com a Amcham. Eu mudei pro CDI em junho de 2003, foi. Porque aí definitivamente a Amcham não queria mais ninguém do CDI no seu quadro de funcionários. Existiam eu e outras pessoas. Inicialmente as pessoas eram contratadas pelo CDI, mas quem representava legalmente o CDI aqui em São Paulo, como a gente não tinha uma personalidade jurídica, era a Câmara Americana. Então as pessoas eram contratadas pela Amcham. A partir de 2003, a coisa foi ficando cada vez mais clara. E aí a Câmara Americana começou a se posicionar sobre o que não queria mais, que é queria que separasse as coisas. Quando foi em junto de 2003, aí houve essa separação.

P/1:  Essa separação implicou em alguma mudança na sua função dentro do trabalho que você fazia, não?

R: Não. Só mudou a questão da forma de contratação, mas a função não.

P/1:  As relações...

R: Porque, mesmo tendo um contrato com a Amcham, eu sempre respondi diretamente a quem representava o CDI São Paulo. Então, antes meu chefe direto era o Fernando Nogueira, que era o Coordenador Regional CDI São Paulo, passou a ser depois Rodrigo Alvarez, depois a Juliana Gandini, depois voltou o Rodrigo Alvezrez. Sempre eu respondia ao CDI, nunca respondi à Câmara.

P/1:  Como era a situação do trabalho que você encontrou quando você entrou? Como você encontrou essa área dentro do CDI para a qual você foi contratada?

R: Na verdade ela não existia.

P/1:  Ela não existia?

R: Ela não existia, porque o CDI São Paulo inicialmente o forte era a Mega Ajuda aqui em São Paulo. A partir do momento que conseguiu captar recursos pra manter novas pessoas na equipe, foram contratadas duas espinhas dorsais do CDI, que é a área Pedagógica e a área de Projetos. Então se contratou uma pessoa para a área Pedagógica e uma pessoa para a área de Projetos. E uma coisa que o CDI São Paulo já tinha muito forte era a questão de voluntários para a questão técnica de manutenção. Então o coordenador regional da época queria um coordenador de voluntários. Por qual motivo? Para coordenar as ações de Mega Ajuda e criar um Programa de Voluntariado dentro do CDI.

P/2:  Tá, então a finalidade a gente tem 3 caminhos pra te explorar aqui: tem voluntariado, a Mega Ajuda e o que pra gente foi o que está mais claro, que é o depósito. Como você encontrou o material armazenado? Qual era a situação que você viu quando chegou lá?

R: Olha, na verdade a gente começou a mexer com estoque, eu comecei a assumir a área de estoque, porque até então eu não era responsável por essa área, eu ficava mais focada na parte de voluntariado. E como existiam várias ações que o CDI São Paulo ia assumindo e não tinha pessoas pra fazer, eu acabava fazendo. Então, por exemplo, às vezes coordenar um evento externo, um evento interno, porque eu vim de empresas que faziam eventos, então eu tinha experiências. E com a entrada do Rodrigo Alvezresz, se eu não em engano em setembro de 2002, a equipe do CDI passava por um momento de conflito, de dificuldades internas, tanto que a maior parte da equipe foi modificada, né, e esses conflitos até então eram muito velados. Aí eles vieram à tona. E eles vieram à tona bem no momento da saída do Fernando e da entrada do Rodrigo. E um dos problemas que nós estávamos enfrentando era como montar a escola. Então a gente tinha 8 Escolas de Informática da Cidadania pra inaugurar aqui em São Paulo. O que representava pra nós o número de máquinas? 80 máquinas. E o coordenador de manutenção da época não tinha nenhuma máquina no estoque pra montar essas Escolas. Então o Rodrigo preocupado: “E agora, o que é que nós fazemos?”. A gente começou a trocar algumas idéias e eu disse: “Olha, nós podemos potencializar os voluntários pra que eles façam isso.” “Isso é possível?” Eu falei: “Claro que é possível. Vamos lá.”. “Então eu vou pedir pra que você apoie diretamente a área de manutenção pra atender essa demanda.” Em 11 dias úteis, a gente tinha 115 máquinas no estoque, ou seja, superamos, ultrapassamos a necessidade. E aí ele ficou surpreso, ele percebeu que na verdade era só uma questão de se programar. Ele, ao entrar na equipe, a gente sabe que sempre que muda o gestor ele começa a observar a equipe, ver: “Essa é, essa não é a equipe que eu quero. Essas são ou não são as pessoas que eu quero continuar trabalhando.” Então ele acabou se questionando com relação ao coordenador de manutenção. Ele pediu pra que eu ajudasse a área de manutenção a se estruturar. Porque na época na existia um fluxograma, não existia um descritivo de cargos e funções, o que é que eu estou fazendo aqui. Tinha um – eu não sei se posso usar essa palavra, - mas um pouco meio que amador mesmo. Sabe aquela coisa de fazer por fazer? “Vamos fazer que vamos fazer.” Então eu me aproximei da equipe, na ocasião tinha o Daniel Cuca, o Thiago Mixida, que era o coordenador de manutenção, técnico, o Fagner, que está conosco até hoje, uma pessoa que contribui muito com a equipe, e o Claudemir, que era um ex-interno da Febem [Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor].

P/1:  Quatro pessoas?
R: Eram quatro pessoas na equipe.

P/1:  No estoque?

R No estoque, que a gente chamava de área de manutenção, hoje já não se chama mais. Aí o Rodrigo pediu pra que eu apoiasse de uma forma mais próxima, pra que se estruturasse essa área. Então a gente passou a apoiar, a verificar o que é que está acontecendo, conhecer as pessoas, saber como é que elas estavam se relacionando. Então inicialmente já ficou muito nítido pra mim que havia um conflito naquela equipe e que existiam aqueles que tinham potencial pouco explorado e aqueles que falavam assim: “Não, eu sou melhor do que você, e eu que deveria estar aí.” Então tinha uma questão de clima interno a ser trabalhado. E tinha também uma questão de comprometimento com a causa do CDI. Tanto que aquelas pessoas que a gente sentiu que não tinham comprometimento com a causa do CDI acabaram saindo. Ou por livre e espontânea vontade, ou por outra razão que a gente veio a desligar. Então eu fui ao estoque para conhecer. Até então a gente tinha essa quatro pessoas. E eu tomei um susto. Sinceramente eu olhei aquele lugar e eu quase chorei. Eu falei: “Gente.” Os computadores  estavam armazenados em um banheiro onde caia água, tudo embolorado, não tinha luz elétrica, não tinha luz natural.. Eu falei: “Como é que pode?” E o que mais me preocupou, como eu gosto muito de valorizar a pessoa humana, é que as pessoas estavam trabalhando num ambiente como aquele. Eu me neguei a fazer um mutirão naquele espaço. Eu falei: “Não, eu não faço mutirão aqui. Eu acho que se eu fizer um mutirão aqui, o voluntário nunca mais volta. Vamos mudar isso.” Então começamos a fazer um trabalho de como mudar o ambiente. E aí começou todo esse processo. Aí nós já estávamos em janeiro de 2003, já tendo feito um registro fotográfico de todas as áreas do estoque. Naquela ocasião a gente já tinha três espaços separados pro estoque. Tinha a Ação Comunitária, que era um espaço da segurança da Câmara Americana. Tinha um espaço, esse era o pior, era a Rua da Paz, 2100, era um lugar assim em ruínas mesmo. E o outro era a parte que ficava espalhada pelo escritório do CDI. Então, chegando em janeiro, já com esses registros fotográficos prontos, uma das coisas que eu achei que foi o marco pra mudança: a área de manutenção, até então o CDI tinha uma equipe grande já e a área de manutenção era vista como o problema. Todos os problemas estouravam ali. Então todos os erros e todos os desacertos, era responsabilizada a manutenção. Então eu me vi diante de dois grandes desafios, um era estruturar a área em si e aqueles estoque, e a outra era fazer uma mudança de paradigma, ou seja, mudar a imagem. Porque a equipe tinha esse estigma, então as pessoas acreditavam que o problema era a manutenção. Então a gente começou a vender essa idéia pra equipe. Uma coisa que ajudou muito foi a construção em equipe mesmo. Cada um coletando: “O que é que você gostaria que tivesse, o que é que você gostaria que fosse evitado? Como é que a gente poderia fazer isso?” E aí um dos marcos foi o planejamento estratégico do CDI São Paulo, foi feito por toda equipe. Essa foi a primeira vez que isso aconteceu dentro do CDI São Paulo. Uma das coisas até que surpreendeu o Rodrigo na época, enquanto coordenador, é que no momento em que ele estava fazendo o planejamento estratégico do CDI de 2003 e apresentando pra nós o de 2002 pra ver o que é que a gente fez e não fez, ele descobriu que a equipe inteira não conhecia o planejamento estratégico. Então isso foi um marco, ele tomou um susto. E pra nós também foi uma coisa interessante. A área de manutenção foi também pela primeira vez trazida como um tema de planejamento estratégico. Uma vontade de toda a equipe de ter uma área de manutenção melhor. Aí eu acho que duas coisas que contribuíram muito com isso através desse tema: manutenção no planejamento, se destacou da equipe, pela escolha da própria equipe, na ocasião eu não era coordenadora dessa área, mas a gente, independente de quem coordenava aquela área, a equipe escolhia uma pessoa que achava que deveria cuidar daquele tema e cuidar pra que as coisas acontecessem. Então a equipe escolheu que eu, na ocasião, representasse o tema manutenção e fizesse valer aquele planejamento. E no Conselho do CDI São Paulo, foi também escolhido, destacado, um conselheiro pra ser o padrinho de cada tema. E por felicidade do destino o conselheiro padrinho do tema de manutenção era alguém que eu já tinha um relacionamento muito próximo, porque ele se dedicava muito aos mutirões, ele era uma pessoa maravilhosa, então a gente tinha contato muito positivo, então houve uma sinergia aí. Tanto do querer, do desejo de transformar alguma coisa, como sincronia de personalidades mesmo. Então começamos a conversar e ver o que é que a gente podia fazer e não podia fazer.

P/2:  Quem é?

R: É o André Lico, uma pessoa que eu acho que contribuiu muito com tudo que aconteceu. Na ocasião, eu queria já inserir as quatro pessoas da equipe no planejamento pra construir junto o que ia ser feito. Porque aí já tinha feito o fluxograma em conjunto, íamos fazer o planejamento. Por orientação do conselheiro na época, ele achou que não. Porque um dos passos do planejamento era uma visão crítica sobre a área. E quando nós fizemos uma visão crítica sobre a área e quais os problemas, a gente percebeu que daquelas pessoas, duas pessoas tinham que ser retiradas da equipe porque elas estavam minando um trabalho. Então ele sugeriu, vamos fazer primeiro essa troca em doses homeopáticas, após essa troca, sim, aí a gente insere as demais pessoas no trabalho de construção. Não sei se eu respondi sua pergunta.

P/2:  Perfeito.

P/1:  Hoje, quem é a equipe com a qual você trabalha?

R: Na área da logística mais ligada à manutenção e à Mega Ajuda, tem o Fagner, o Israel, e o Marcos. Aí, no atendimento da Mega Ajuda e assistência, tem a Érica e a Bia. E tem também a Amanda, que é de um projeto Social de um de nossos parceiros, que é a Price Waterhouse Coopers, veio deste projeto uma pessoa de comunidade de baixa renda, pra dar uma oportunidade que a gente busque alguma coisa. Uma coisa super legal com a Amanda que eu vejo crescimento nítido, ela entrou, não abria a boca. Hoje ela fala mais, se expressa. Ela é a primeira pessoa da comunidade e da família que entra numa universidade. Então isso é uma coisa que eu acho muito importante.

P/2:  De onde ela é?

R: Embu Guaçu.

P/1:  Qual é o papel da Amanda, da Érica e, esqueci o nome...

R: Bia.

P/1:  Bia.

R: A Érica e a Bia, cuidam mais da parte do atendimento ao doador, da coleta de doações, da negociação e busca de captação de doações através de telemarketing, toda a parte de facilitar a relação entre EICs e CDI na parte de distribuir equipamentos e doações. A Amanda já dá mais uma assistência direta ao meu trabalho e mais a questão de voluntariado. Uma que ela está estudando pedagogia também, e a gente quer potencializar esse lado do trabalho dela então ela cuida de fazer atas de reuniões, de facilitar nossos trabalhos e participar das reuniões de treinamento com voluntários.

P/2:  Como é que é, pelo que eu percebi com o Fábio, houve um grande crescimento pessoal dele com o trabalho do CDI. Como é que é feita essa capacitação desse pessoal, esse preparo também do lado humano, não só o técnico?

R: Olha, isso dá pra notar em todos eles. A maior parte da equipe, com exceção do Fagner, está conosco há exatamente um ano. A Bia, a Érica, Israel e Marcos entraram em junho de 2003 conosco, então estão há um pouquinho mais de um ano. E a Amanda entrou em outubro, então vai completar um ano daqui a um mês. Então você percebe um crescimento muito grande. O que eu procurei adotar com a equipe é um trabalho colaborativo de construção conjunta. A gente tem uma reunião semanal. Uma vez por semana, todas as quartas-feiras, a gente tem como um dia sagrado. Tiramos essa tarde de quarta-feira pra trabalhar duas coisas, coisas que a equipe trouxe. A primeira parte, de desenvolvimento pessoal e profissional. E a segunda parte o acompanhamento da nossa parte profissional. O que é que a gente está fazendo, o que não está fazendo, quais são as nossas metas, quais os desafios, aonde queremos chegar, aonde precisamos de ajuda, o que é que está entendido, o que não está entendido. Eu acho que essas reuniões estão contribuindo muito. O próprio clima entre a equipe, aquela coisa de criar um clima de solidariedade e companheirismo mesmo. Então se eu percebo algum “nhe-nhe-nhem”, alguma coisa que eu acho que não devia, coloco todo mundo aqui e “Vamos sentar, vamos conversar. É isso? É isso? É isso? Como é que é?” Então a gente coloca a roda mesmo pra conversarmos. Essa própria forma de tratar faz com que as pessoas vão amadurecendo. Então se eu percebo um “nhe-nhe-nhem”, algum “ti-ti-ti”, “Vamos conversar sobre isso?” E coloco as pessoas no olho-no-olho pra falar mesmo.

P/2:  Mas, coisa prática, mesmo, atividade, assim, o treinamento, por exemplo, ele falou de atender as pessoas, aprender a atender as pessoas, aprender a conversar com os clientes. Como é que é feito esse preparo com eles?

R: Eu sou uma pessoa um pouco autodidata. Então eu tenho muitos vídeos de desenvolvimento profissional. Eu não falei aqui, mas eu trabalho na organização e na venda, enquanto voluntária, então tem toda uma formação ali que influencia muito o meu jeito de ser. E eu procuro trazer isso aonde que é útil, onde é que casa com o CDI. Então esses vídeos de treinamento, eu compartilho com a equipe, então às vezes eu percebo assim, de repente o Fábio não está querendo trabalhar sobre auto-estima. Vamos ver se tem um vídeo, um livro, um texto, alguma coisa? A gente traz, discute isso junto. Ai, a Amanda é muito tímida, como é que a gente pode trabalhar essa timidez? Aí eu vou atrás de alguma coisa nesse sentido. E também peço pra que eles busquem essas alternativas. Então, textos, vídeos, uma outra coisa também muito importante, um modelo de coordenação rotativa nas reuniões. A cada reunião é uma dupla que coordena. Então eles vivenciam também o papel do que é que é facilitar uma reunião. Abrir, fechar, conduzir, facilitar. Então acho que isso faz com que vá se desinibindo também.

P/1:  O telemarketing, eu gostaria que você falasse um pouquinho mais do telemarketing, né, são duas pessoas, o que é que você contou? Por exemplo, elas são período integral? Como é que elas tem acesso aos nomes, quer dizer, elas fazem uma pesquisa? Como é que funciona isso? É todo tempo? É em todos os períodos?

R: Talvez eu não tenha sido clara. Por exemplo, as meninas não são hoje focadas em telemarketing. Elas entraram conosco quase um ano atrás para o telemarketing. Era uma parceria com a New Time onde elas foram contratadas por seis meses pra fazer o telemarketing da campanha Mega Ajuda. Como é que isso funciona? Quando a campanha Mega Ajuda é lançada, nós acionamos um telemarketing que dura seis meses onde a gente busca uma parceria, pega três operadoras de telemarketing e começa a fazer ligações pros nossos parceiros. Então é o mailing do Ethos, Fiesp[Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] e Amcham. Então esses mailings dos próprios apoiadores institucionais da campanha nos indicam e aí a gente começa a contatar essas empresas pra fazer mobilização de doações.

P/1:  E o papel delas, quer dizer, mantendo durante seis meses esse contato?

R: Elas dão continuidade, ou seja, a partir do ano passado, muitas coisas no CDI começaram a se profissionalizar mais e mudar. Até então, por exemplo, nunca a equipe de Mega Ajuda era vista como parte do CDI, hoje a gente já vê como parte do CDI. E aí o que se fazia? Se fazia seis meses um telemarketing,  elas eram dispensadas, e aí quem dava continuidade a esse trabalho? Ninguém. Então a bola ia rodando de novo de mão em mão. Aí eu comecei a trabalhar na ocasião, que precisava dar continuidade a esse trabalho. Então a gente percebeu que sim, era importante. Tinha que ter um pós-telemarketing, um pós-doação, e aí elas cuidam disso.

P/1:  E o que consiste essa pós-telemarketing, pós-doação?

R: Consiste em você dar o feedback ao doador daquela doação que ele fez, qual foi o aproveitamento dessa doação. Nós temos um diagnóstico de tantos vieram em quais condições, dar esse diagnóstico a ele, ter um cuidado no tratamento e no atendimento ao doador, por exemplo, uma carta de agradecimento, um recibo. Depois que você fez um telemarketing, talvez demore três, quatro meses pra empresa vir a ligar. Tem que ter alguém pra atender. Consiste também em ter alguém que abra a porta e te ofereça um café, uma água, ou seja, que tenha um bom atendimento às pessoas que estão dispostas a fazer uma doação.

P/2:   E como é que está essa rede de relacionamentos?

R: Ela é muito positiva. Uma coisa que eu vejo como um forte da Mega Ajuda é que os doadores geralmente sempre voltam a doar. Muitas vezes o doador que doou na primeira edição, doa na segunda, na terceira, na quarta; doa mais de uma vez no ano. E uma coisa super bacana que eu senti muito de perto esse ano,  como a Érica e a Bia deram continuidade ao processo, não simplesmente foram embora, elas já tem uma relação mais próxima com o doador. Então eles já sabem com quem estão falando e elas também. Isso é super importante, ter continuidade no trabalho. Porque mais do que tudo, uma organização é feita de pessoas. E aí, cada vez que você liga é um, não cria um vínculo no relacionamento, né?

P/1:  Entre os doadores, qual é a proporção, não sei se você tem essa idéia de indivíduos, empresas?

R: Olha, o ano passado, essa última edição foi a maior edição de doações de pessoas físicas, foram 114, 116 pessoas físicas doadoras.

P/1:  Agora, isso corresponde em porcentagem?
R: Aí eu já não tenho isso de bate-pronto pra te dar. Mas se você precisar eu posso pegar isso. Tanto de empresas quanto de pessoas físicas, eu tenho.

P/2:  Tá, uma outra coisa pra gente já quase fechar a coisa do depósito, pelo que a gente percebeu, vocês viraram um modelo a ser seguido na rede.
R: Um-hu [sim].

P/2:  Conta mais ou menos como ocorreu isso, esse reconhecimento.

R: Ta. Depois que a gente fez todo aquele diagnóstico, e a percepção de que alguma coisa precisava ser transformada, até então, na Câmara Americana, e pela própria equipe do CDI São Paulo, a gente muitas vezes era vista como um lugar que estava incomodando, cheio de computador usado, velho e sucatas. Então, a primeira negociação de sucata que nós fizemos, eu conversei com o Rodrigo e falei assim: “Olha, o estoque precisa, e área de manutenção, precisa melhorar. Só que o problema, ela precisa de recursos. E se nós utilizássemos esse recurso?”. Porque lendo o material da Mega Ajuda, eu detectei que estava escrito que os equipamentos que não fossem aproveitados, que fossem sucatados, seriam reaproveitados em benefícios na hora de uma negociação para a logística da campanha Mega Ajuda. Eu falei: “Vamos fazer isso”. Então a gente começou a trazer recursos materiais pra Mega Ajuda, pro estoque, através da negociação de sucatas. Então a gente, ao negociar o equipamento, quando ele era sucatado, a gente transformava isso em recurso. Então, por exemplo, através dessas negociações vieram prateleiras de aço, vieram bebedouros, coisas simples. O que eu percebi, não falei lá atrás, cobrava-se um resultado mas não se tinha nem recursos humanos, nem recursos materiais pra dar esse resultado. Ou seja, a gente estava sonhando com caviar e mal sabia fazer feijão com arroz.

P/2:  Mas como era essa negociação? Vocês trocavam por coisas? Vocês vendiam e do dinheiro... como é que era?

R: Há diversos modelos. Teve um modelo onde nós negociávamos a troca dos equipamentos sucatados por dinheiro e esse dinheiro trouxe a compra da prateleira, ou trouxe a compra de um equipamento pra fazer manutenção, ou de uma ferramenta. E outra que a gente trocava por coisas. Então eu falava do escambo por equipamento sucatado. Então por exemplo, “de repente você tem uma empresa, um contato fácil pra me trazer cadeiras, e se eu for comprar cadeira, ela é muito cara. E essa sucata é interessante pra mim, vamos trocar?” A gente começou a fazer isso. A partir desse momento a gente começou a amadurecer, começou-se a perceber que muitos erros, muitas pedras pelo caminho encontradas, outros comitês estavam encontrando também, então a gente começou a trocar informações sobre o que é que a gente estava fazendo aqui. E aí, cada vez que um Comitê vinha visitar o estoque e ver a organização em si, “Poxa, isso é legal, também quero fazer isso.” E aí começamos a trocar informações entre nós de como fazer isso acontecer.

P/1:  Também nessa área, quer dizer, chegam muito as demandas de computadores chegam nessa área, não é?
R: Sim.

P/1:  Quer dizer, então é isso que eu queria saber, essa demanda de computadores, isso chega aqui na CDI São Paulo? Ou é centralizado na matriz? Ou isso tem um registro no computador, que a todo momento você pode entrar e ver que tem demanda por tantos computadores, ou disso? quer dizer, como é que se lida com essa demanda? Quem centraliza essas informações?

R: A matriz. Quando um comitê regional precisa de computador, isso eu estou falando de Brasil, muitas vezes fora do Brasil fica mais caro. Então o CDI São Paulo distribui equipamentos para o Brasil. Então cada Comitê regional que precisa de um computador, ou que vai abrir uma EIC, alguma coisa assim, passa a demanda, essa necessidade pra matriz, e a matriz consolida essas informações e passa pra nós. Ela diz: “Olha, comitê tal precisa de computador, pode liberar. Ok.” E aí ela usa alguns critérios pra liberar ou não esses equipamentos. A própria capacidade de crescimento, a própria qualidade do trabalho, etc.

P/1:  Das EICs.
R: Isso. Agora, pro CDI São Paulo, aí a área de projetos já passa diretamente pra nós porque nós já estamos aqui juntos, né, e aí a partir do momento que a gente recebeu essa demanda, a gente começa a distribuir os equipamentos.

P/1:  Eu acho que uma outra coisa importantíssima é a questão do voluntariado,  né?
R: Sim.

P/1:  Então, é isso, quer dizer, saber como é que vocês lidam com essa gestão dos voluntários, quer dizer, como é que é esse processo? Vocês têm um registro, um banco de dados?
R: Olha, eu confesso a você que o programa de voluntariado do CDI São Paulo ainda não é o que eu almejo. Eu quero mais. E acho que nós devemos querer mais. O que acontece é que cada gestor tinha uma visão diferente, então o primeiro gestor que me contratou na ocasião, ele tinha a visão de voluntário é bombeiro, ele serve pra tudo. Precisou de algum problema, chama um voluntário. O segundo tinha uma dificuldade com voluntário: “Voluntário atrapalha. Não sei se voluntário vai ajudar.” Aí veio o terceiro. E claro que essas visões foram mudando com o tempo, né, o terceiro.

P/1:  E foi marcando, né?
R: Marcando muito a minha estadia aqui no CDI. Eu acho que contribuiu muito com isso. Então eu acho que no primeiro eu não conseguia aplicar nem implantar um programa de voluntariado em nenhuma outra área que não fosse a de manutenção. Por que? Porque havia uma resistência interna. Ou seja, a gente sabe que toda vez que tem que implantar um programa de voluntários, existe uma resistência interna, até por mau esclarecimento, dúvida, “Esse pessoal vai tomar o meu cargo. Será que voluntário é isso?” Ou confusão de que voluntário é mão-de-obra barata, e que não tem nada a ver com isso. Com a terceira gestão, na ocasião da Juliana Gandini, eu acho que foi onde a gente teve um salto no que tange a voluntariado. Por que? Porque ela já tinha uma visão muito parecida com a minha com relação ao voluntário. Voluntário é alguém que agrega valor, não é mão-de-obra barata, ele pode ajudar, sim. E o gestor, é muito importante pra que ele contribua pra que você consiga implantar alguma coisa. Isso a gente sabe. Então foi a primeira vez, o ano passado, mês de abril, que eu consegui fazer uma capacitação e gestão de voluntários pra toda a equipe do CDI São Paulo. Falando o que é o trabalho voluntário. E aí surgiram as demandas. Foi a abertura de que nós precisamos de voluntário.

P/1:  Essa capacitação, só pra gente entender, foi para o CDI São Paulo? A equipe?
R: É, a equipe do CDI São Paulo. Pra que a gente pudesse implantar um programa, todos os integrantes dessa equipe na ocasião foram capacitados. “O que é que é o voluntário? Como ele pode me ajudar?“ Fizeram até uma reflexão,  foram 16 horas de capacitação sobre “Ele vai agregar valor, ele não vai? O que é que ele pode fazer? o que é que ele não pode? Aonde que as coisas se somam.”. Foi um resultado super positivo. Aí pela primeira vez a gente conseguiu inserir voluntários nas demais áreas de uma forma mais presente. Só que depois parte da equipe tem um problema que às vezes é muito rotativo, as pessoas dentro do CDI. Então as pessoas que foram capacitadas, a maioria saíram, aí entraram outros, então você volta à estaca zero. E é o processo de novo de capacitar essas pessoas. Um outro momento que eu vi o CDI São Paulo ter um destaque em voluntariado foi num encontro em 2002, onde a gente apresentou lá a questão de voluntariado. Eu acho que é uma coisa que pode ser muito mais trabalhado no CDI. Ou seja, o trabalho voluntário é super importante, ele traz um impacto tanto pra organização que a tem, quanto pra sociedade. E ele tem que ser mais visto. Eu acho que tem um pouco dessa carência ainda. Cultura e etc.

P/2:  E como está sendo feito o aproveitamento deles na rede? Ou só no CDI São Paulo? Na Rede EICs, na Rede CDI...

R: Na Rede CDI, eu não saberia te dizer. O que eu sei te dizer, por exemplo, uma coisa super positiva. [PAUSA] Alguns Comitês regionais, após esse encontro e apresentação de programa de voluntariado pra Rede CDI, passaram a me procurar. A gente passou a trocar figurinhas. Então Campinas veio pessoalmente até o CDI São Paulo participar de uma reunião de introdução ao voluntariado, ver como é que a gente faz isso. E aí a gente começou a trocar material. E Pernambuco também fez isso. Pernambuco começou a trocar materiais, pedir indicação de bibliografia, pedir indicação de onde pudesse fazer cursos e etc. Então eu acho que foi um momento legal pra rede. No CDI São Paulo, o forte, eu não tenho dúvidas disso, do voluntariado está na manutenção ainda. Por exemplo, se não fosse o trabalho do voluntário a gente não conseguiria atender a Rede CDI. Ou seja, nós temos um técnico na equipe contratado. A gente não conseguiria distribuir tantos computadores ao ano se não fossem os mutirões Mega Ajuda, se não fosse o Laboratório de Manutenção, que era um dos nossos sonhos de consumo, que foram concretizados, que era ter um lugar pra fazer essa manutenção, né? Então eu acho que isso é uma coisa que tem que ser muito valorizada e reconhecida. É perceptível. Uma coisa que me surpreendeu também ao vir pro CDI com relação ao voluntariado, que eu faço trabalho voluntário há muitos anos, e eu sempre vi muito mais mulheres fazer trabalho voluntário. E quando eu cheguei no CDI, a maioria dos voluntários eram homens. Eu fiquei: “O que é que ta acontecendo aqui? O que é que aqui tem de diferente?” E aí eu vi uma relação: a tecnologia da informação, ou seja, hoje as mulheres já estão fazendo curso de técnico de manutenção, mas há 3 anos atrás, talvez isso não fosse tão assim. Então a gente percebe que o maior número de voluntários são os homens. Isso eu acho interessante também de observar.

P/1:  Como é que vocês gerenciam? Você tem uma lista?Vocês convocam?

R: Nós temos um banco de dados de voluntários cadastrados que nos procuram. Aí como é que é feita a introdução deles dentro do CDI? A gente faz uma reunião de introdução ao voluntariado. Nessa reunião, que tem uma duração de duas horas e meia, nós apresentamos o CDI institucionalmente e fazemos uma reflexão sobre o trabalho voluntário. A gente vai lá pra década de 30 começando a contar a história do trabalho voluntário. Como é que ele surgiu no Brasil, Por que é que ele surgiu? Quais foram os momentos de enfraquecimento e de fortalecimento do trabalho voluntário? E aí vai provocando nas pessoas essas reflexões. Até mesmo a questão do voluntariado moderno, ou seja, não é aquele que faz por fazer ou que só tem boa vontade, tem que ter profissionalismo, dedicação, compromisso. Feita essa reflexão, aí a gente oferece as áreas do CDI e as oportunidades. E aí é que eles são inseridos no CDI pra ser voluntário.

P/2:  Você tem claro essas áreas? Dá pra você falar aqui pra gente?
R: As áreas em que ele pode atuar?

P/2:  É.
R: Ele pode atuar em todas as áreas do CDI São Paulo. Ele pode atuar na área de projetos, ele pode atuar na área pedagógico, na área de comunicação, na área de manutenção, na área de voluntariado, e na parte administrativa. O que acontece é que às vezes a área ainda não está muito preparada pra receber o voluntário, e aí ele acaba não ficando muito tempo. Acho que até já está no momento da gente fazer de novo aquela capacitação. Porque como as pessoas saíram e houve uma troca de equipe, o outro que foi capacitado é quem não está aqui. Então eu acho que isso acabou impactando também.

P/1:  Atualmente, os voluntários estão na área de manutenção e alguma outra também?
R: Existe um voluntário na parte pedagógica. Em comunicação tinha, agora já não tem mais também. Então ele acaba não ficando, eu sinto o momento de fazer um trabalho mais próximo também com as áreas pra gente ter essa permanência do voluntário. Pra que ele se sinta contribuindo e agregando valor ali. Às vezes ele acaba tendo ações mais pontuais, um evento, alguma coisa assim, aí ele vai lá e atua ali. Também não é o forte do trabalho do CDI, ações pontuais.

P/2:  É que você falou do Laboratório. Quais as conquistas que você acha que nesse tempo, na sua atuação primeiro na logística e de voluntariado, que você acha que foram marcantes?
R: Pra mim?

P/2:  É.
R: Bom, pra mim foram marcantes ver um quadro do estoque e virá-lo 380º. Isso é um fato assim que é motivo de orgulho. É gostoso. Uma outra coisa também muito positiva foi ver a capacitação pra equipe, pra mim foi uma coisa que deu muito prazer. Porque eu tinha uma frustração interna de, “Eu vim aqui pra fazer uma coisa e as pessoas estão tendo resistência. Será que vocês querem fazer isso, ou não?” Então era um momento em que se abriu pra fazer e que eu vi os resultados positivos surgindo, me trouxer satisfação também. O próprio clima que hoje tem na equipe eu acho que é um momento marcante e é uma conquista que foi dada dia-a-dia. Eventos como o Dia da Inclusão Digital são momentos inesquecíveis. A própria estruturação do Mutirão Mega Ajuda também, cada vez mais ele vai se profissionalizando e tendo mais um formato, é um momento marcante de conquista. Na área de manutenção, os recursos materiais que não existiam e que hoje existem, traz satisfação. A existência de um Laboratório, então por exemplo, hoje a gente faz menos mutirões porque a gente tem o Laboratório. Antigamente a gente só tinha o mutirão pra fazer manutenção. Hoje não. Hoje a gente tem o Laboratório que dia-a-dia vai fazendo aquele trabalho de formiguinha.

[PAUSA]

P/1:  Então o que eu queria perguntar é sobre a gestão de voluntariado, né, porque é uma coisa nova no Brasil e aqui tem uma experiência interessante. Então eu queria saber como você também se formou nisso, né, como você desenvolveu essa metodologia. Talvez um pouco da sua experiência como voluntária.

R: Quando eu era criança eu frequentava a Igreja Metodista. Então a gente já fazia, desde de 7, 8 anos, trabalhos voluntários em comunidade de baixa renda. Então eu já trazia isso comigo e eu sempre gostei muito. Depois, quando eu completei 20 anos, eu entrei no CVV, que tem hoje 42 anos de existência.

P/1:  Centro de Valorização da Vida.
R: Isso, que é um trabalho que eu gosto muito. E nesse trabalho eu tive a oportunidade de coordenar por 3 anos um posto, então eu tive experiência de trabalho de gestão de voluntariado, de coordenar na prática. Com o Ano Internacional do Voluntariado instituído pela ONU, surge então no Brasil o Centro de Voluntariado. E quando o Centro de Voluntariado de São Paulo começou, eu participei lá também, eu fiz os primeiros cursos de coordenação de voluntariado, os primeiros cursos de formação de líderes sociais dentro do Centro de Voluntariado. Inclusive participei lá como voluntária na época também, dando palestras pra pessoas que é queriam ser voluntárias. Então eu já trazia comigo essa experiência com o próprio CVV que já tem um programa muito bem estruturado de voluntários, na verdade ele tem mais de 2700 voluntários e só funciona com voluntários. E o Centro de Voluntariado também que foi agregando valor, e a própria vida em si. Eu acredito que a minha contratação dentro do CDI São Paulo, se deu a isso. Na verdade precisava se estruturar os mutirões, o trabalho voluntário em si, e precisava-se de alguém que soubesse fazer eventos. E eu trabalhei numa outra empresa, (Promosucesso?), por exemplo, que faz eventos, CONDEX, CONIP [Congresso de Inovação e Pesquisa], CONAE [Conferência Nacional de Educação], entre outros, então tinha uma ponte. E eu vinha trabalhando também com trabalhos no terceiro setor, Eventas, a Primeira Feira do Terceiro Setor, a Primeira Feira de Cidadania, a Primeira Feira de Mostrar e Trabalho Voluntário no Dante Alighieri, então eu participei dessas coisas, então eu acho que essas coisas se uniram. Dentro do CDI, eu acho que tem muita coisa que dá pra se fazer ainda. Tem muita coisa a ser feita ainda. E eu acredito que o trabalho voluntário começa numa organização já instituída, principalmente quando ela já tem a parte contratada e a parte não-remunerada, é sensibilizar o staff profissional. Porque dependendo da mentalidade e da experiência que a pessoa tem com o trabalho profissional, ela tem medo. Sabe aquela coisa: “O Marllon é contratado e eu sou voluntário. Mas e se roubar o meu lugar?” Então sabe essas coisas de insegurança? Então primeiro você tem que fazer uma ponte, mostrar que esse trabalho não é uma mão-de-obra barata, que as coisas vão se somar, que um não substitui o outro. Na verdade a gente precisa dos dois. Por exemplo, dentro do CDI, onde eu sou contratada profissionalmente, eu tenho que estar aqui full time, o tempo todo, das 8 da manhã até as 6 horas da tarde, de segunda a sexta. No trabalho voluntário que eu faço, eu dedico 20 horas, 30 horas mensais que sejam, quer dizer, mas é uma outra linha. Então o trabalho voluntário exige menos dedicação em horas, que eu digo, mas exige muita dedicação de tempo com qualidade também mental, emocional, de interesse, o que é super importante, que você escolha uma organização que você acredite na missão. Isso eu falo muito com os voluntários quando eu faço apresentação de introdução ao voluntariado, até convido vocês pra participarem de uma. Aquela apresentação não é pra quem quer ser voluntário no CDI, é pra quem quer ser voluntário. Por que? Porque ser voluntário no CDI ou seja lá onde for, você vai contribuir com um mundo melhor. É nisso que a gente acredita. Então, vamos dizer, se você acredita na missão do CDI e você percebe que já uma linha nessa missão, nessa visão, nesses valores que somam, então vem pra cá. Se é uma outra coisa que você prefere, então vamos ver qual é a outra coisa que você prefere pra que você se sinta agregando valor de fato. Eu respondi a sua pergunta?

P/2:  Completamente. [risos]
R: Vocês se olharam e deram risada, eu falei:”Será que eu falei bobagem?” [risos]

P/2:  Danada, já está cooptando 3. [risos] E como é que a organização do Mutirão?
R: O Mutirão Mega Ajuda é um evento que acontece hoje 2 dias seguidos, antigamente acontecia só num Sábado. Por que é que ele começou a ter 2 dias? Porque a gente percebeu que dava um trabalho danado, um custo danado, e um dia só, e as pessoas queriam voltar no dia seguinte. E aí a gente fazia dois no mês, né, e aí a gente passou a fazer um no mês, por exemplo, mas que fosse dois dias seguidos. Ele tem a parte de mobilização de voluntários. São os voluntários que nós já temos no nosso banco de dados, tem a parte de mobilização do voluntário corporativo das empresas que são parcerias nossas. Então a gente tem contatos estratégicos dentro das empresas, área de TI e RH principalmente, ou Responsabilidade Social, que multiplicam essa comunicação dentro da empresa. E tem a parte de organização do evento. Eu não sei necessariamente o que é que você quer saber pra que eu possa responder melhor. Então, por exemplo, tem uma linha de montagem onde você vai fazer a manutenção de computadores, o teste, limpeza e embalagem de monitores, teste limpeza e embalagem de teclados, mouse, separação de fios, organizações, deixar o equipamento em condições de ser utilizado dentro de uma Escola de Informática da Cidadania, esse é o objetivo maior, é você consertar o maior número possível de equipamentos num só dia. E ele tem um clima muito gostos, muito animado, tem música, tem o animador brincando. Tem uma coisa que dá prazer mesmo, né? E que as pessoas tem admiração daquele trabalho. E o que acho interessante observar no Mutirão é que ele contribui também diretamente com a questão ambiental. Porque você está fazendo reciclagem de computadores velhos, em muitos casos seriam descartados, às vezes até de forma errada, né, então eu acho que isso também é um dos motivos estimulantes pras empresas doarem pra nós. A gente faz uma reciclagem daquele computador, né? Uma transformação daquilo torna ele utilizável de novo.

P/1:  Talvez você já tenha dito, quantas pessoas você disse que mobiliza (com o Mutirão?)?
R: De 100 a 150 voluntários num Mutirão grande. Quando a gente chama um Mutirão um pouco menor, dependendo do espaço, aí são 70 voluntários. E tem uma participação muito grande.

P/1:  Isso é uma vez por mês?
R: Ele não tem mais acontecido uma vez por mês desde que a gente passou a ter o Laboratório. Porque ele acontecia uma vez por mês quando a gente não tinha o Laboratório já que a gente não tinha outro lugar pra fazer manutenção.

P/2:  Por causa da demanda?
R A demanda era muito grande e a gente não tinha outro lugar pra fazer, então a gente tinha que fazer esse evento. De qualquer jeito,  ele era a nossa única válvula de escape. Hoje não, hoje a gente têm outras alternativas.

P/1:  Então qual é a periodicidade do Mutirão?
R: Olha, esse ano por exemplo, de 2004, não houve nenhum. Vai ter o primeiro agora dia 25 e 26 de setembro. Até por conta da mudança do CDI, porque ele mudou de espaço físico, ele veio pra cá, ele estava se ambientando, se organizando. A gente estava conseguindo atender à demanda do CDI com o Laboratório, entendeu, então não foi necessário fazer o Mutirão.

P/1:  Mas o Laboratório também funciona com voluntários, não é?
R: Também com voluntários, diariamente.

P/2:  Como é diariamente, como é o esquema do Laboratório?
R: Ele funciona de segunda a sexta, das 9 da manhã até as 17 horas, exceto às quartas-feiras no período da tarde, que aí é nosso dia sagrado de reunião de equipe. Os voluntários participam de uma a duas vezes da semana, no máximo quatro horas a cada vez que ele vem. Tem aquele que vem uma vez por semana 8 horas semanais. Aí os voluntários participam, o Laboratório comporta 6 pessoas trabalhando no mesmo momento e ele funciona assim, a pessoa chega, participa, ela já fez a reunião, ela já sabe o que é o CDI, ela quer agregar valor, ela quer trabalhar na manutenção, ela vai lá e contribui. E às vezes o que a gente faz também é pequenos mutirões, que aí não é um Mutirão Mega Ajuda, por exemplo, às vezes eu tenho uma demanda muito grande que só o Laboratório não vai atender, mas de repente eu monto ali umas 8 bancadas no próprio espaço do estoque e chamo um número maior de voluntários, 15, 20 voluntários num sábado pra preparar máquinas também.

P/1:  O Mutirão é fotógrafo? Ele é explorado, entre aspas, em termos de comunicação?
R: É. Nós temos registro fotográfico do Mutirão, sim. Eu posso dizer que já houve mutirões em que ele foi mais assunto pra mídia, pra comunicação, tudo depende de como se trabalha o evento em si. Mas esse é um foco do mutirão também, além de preparar máquinas, é uma forma de mobilizar a sociedade, as empresas, e a mídia pra questão da inclusão digital, com certeza. Ele contribui pra isso.

P/1:  E ele tem impacto nesse sentido?
R: Tem. Ele é notícia, né, ele chama atenção. E até é feita uma sensibilização dos voluntários que estão no Mutirão, “Olha, você não está aqui consertando máquina e nem máquina velha, na verdade você está consertando, está potencializando um equipamento que vai potencializar vidas na comunidade. Porque você vai potencializar a inclusão social.”

P/2:  Tem que ter uma noção mesmo de que o trabalho dele vai seguir, é isso?
R: E isso é motivo de orgulho pros voluntários. É motivo de orgulho. Até, uma experiência que a gente teve de levar voluntários na EIC, pra ele ver qual o trabalho final dele, isso traz um (dever cumprido?).

P/2:  Esse retorno vocês trazem pros voluntários?
R: Sim. Voluntário de manutenção, a gente já fez visitas a EIC, no dia do amigo, alguma coisa assim, e o voluntário tem a satisfação de ver. Muitos querem ver foto, tem aquele orgulho de pertencer e saber no que ele está contribuindo.

P/2:  Tá. Uma outra coisa agora, como é que é feita a distribuição desse material?
R: Como que ela é feita?

P/2:  É.
R: De acordo com a demanda da rede que a matriz passou pra nós e autorizou essa distribuição, nós passamos a contatar os Comitês Regionais pra que ele se mobilize através de transporte que é uma das coisas mais difíceis pra nós, tá, transporte é uma coisa muito cara. Então seria muito interessante se uma empresa de logística, uma mega empresa de transportes nos ouvisse agora e falasse “Oba, vou pagar o transporte pro CDI pra distribuir pro Brasil todo.” O que a gente teve esse ano que foi uma experiência inédita e diferente, mas acho que é legal falar, foi o Carreto da Alegria Digital. Ou seja, nós conseguimos um curso que financiou a entrega de equipamentos pra mais de 12 Comitês Regionais. Então a gente saiu assim com (um Gol?) e um monte de equipamentos pra Rede toda. Porque isso é um outro problema, por exemplo, às vezes o Comitê está precisando do equipamento, nós preparamos o equipamento e ele está disponível, mas você não consegue o transporte. Depende de quem transporte daqui pra Bahia, é caro. E às vezes demora mais do que você gostaria.

P/2:  Mas, por exemplo, você é responsável pra estar suprindo os Comitês Regionais e o próprio Comitê São Paulo. Como é que é feito isso? A demanda daqui e a demanda do Brasil?
R: Na verdade todo mundo pertence à mesma Rede. O que diferencia do CDI São Paulo é que como nós estamos trabalhando junto, nós somos CDI São Paulo, a gente distribui aqui também. Mas a gente atende à demanda de acordo com a existência dela. Não sei se estou entendendo bem a sua pergunta.

P/2:  Não, porque assim, existe alguma separação assim: “Bem, esse é trabalho do CDI São Paulo, a gente atender as nossas EICs.” Ou é tudo passa por você?
R: Não, tudo passa por nós. Tudo somos nós que fazemos. O estoque, a área de manutenção, a logística de voluntariado atende São Paulo e a Rede CDI. É uma coisa só, a gente está junto.

P/1:  Esse cargo seu, Gestão de Logística e Coordenação de Logística e Voluntariado, existe nos outros CDIs também ou é uma coisa daqui de São Paulo?
R: Não. Não existe.O Rio de Janeiro que abriu uma vaga pra contratar uma Coordenadora de Logística e Voluntariado. Como é que isso aconteceu? Já ouviu falar em cargo provisório?

P/2:  Já.
R: Já. Então quando teve a mudança e a saída do Coordenador de Manutenção, e o Rodrigo na época era Coordenador, ele disse: “Elaine, eu vou pedir pra que você assuma provisoriamente a área de manutenção e continue coordenando a área de voluntariado por três meses.” Quer dizer, até fevereiro de 2003. Aí fevereiro de 2003, Rodrigo passa pra matriz e entra a Juliana Gandini. Nisso, a gente começa a trabalhar e não se contrata um novo coordenador, a gente percebe que o CDI enquanto organização estava falhando porque ele estava procurando dois perfis numa mesma pessoa. Uma pessoa técnica, que entendesse muito de manutenção de computadores, e que tivesse um perfil gerencial.

P/2:  E aí não dá.
R: E aí não casava. Então não era necessariamente culpa ou incompetência da pessoa, também você estava querendo muito de um só. Tanto que eu tenho de repente a visão gerencial, mas eu não sou técnica, eu não entendo da manutenção. Eu estou aprendendo um monte de coisa, vou me virando. Mas não tenho essa habilidade também. Aí com a chegada da Juliana ela falou: “Esquece, mais ou menos pra junho, esquece a provisória, você vai assumir as duas coisas. Eu quero que você faça as duas coisas.” Só que tinha uma estratégia aí. O CDI São Paulo, como toda rede CDI, não faz a manutenção nas escolas, não é responsabilidade dele, é responsabilidade da escola por causa do modelo auto-sustentado. Na hora de apresentar o CDI pras instituições, apresentava lá a área de manutenção. E aí as instituições perguntavam: “Peraí, se vocês não fazem manutenção, porque vocês têm manutenção?” E aí tinha um conflito. Então a Juliana pensou assim: “Peraí, se a gente tem a Mega Ajuda, tem toda uma logística, um trabalho de logística muito grande de distribuir pra todo o Brasil, vamos tirar ‘manutenção’ e colocar ‘logística’.” Foi uma questão de nomenclatura mesmo. Ela fez uma fusão entre as duas áreas e perceberam que o nosso maior forte era distribuir equipamentos pra Rede toda e prepará-los pra isso, e fazer esses Mutirões, esses eventos, então ela uniu nisso, não tem esse cargo noutro. Talvez possa vir a surgir, o que eu vou achar ótimo, vou achar ótimo que toda CDI tenha um monte de coordenador de voluntários, potencializadores.

P/2:  Mas por via disso, você na verdade é responsável pela maior parte da equipe que trabalha aqui no CDI São Paulo, de pessoal mesmo?
R: Bom, aí eu já nunca pensei nisso.

P/2:  Mas é.
R: É verdade. Agora o que acontece é que algumas pessoas da área de Projeto e Pedagógico foram desligadas e não foram repostas. E estão em momento de, sabe aquela fase, seleção, contratação, e etc. E a equipe lá também cresceu. De fato eu sei que lá tem 6 pessoas e hoje tem menos. É verdade. Agora existem três ações ali que são muito nítidas, existe a questão de voluntariado, existe a questão de logística pra toda Rede, a Mega Ajuda, e existe a questão de atendimento das EICs aqui em São Paulo. Montar, desmontar, preparar,  atender.

P/2:  Tem algum, nos eventos marcantes, alguma EIC, a montagem de uma EIC que foi marcante, alguma coisa que pegou a equipe, alguma dificuldade?

P/1:  Uma história.

P/2:  Uma história que você acha que essa aí a gente lembra até hoje?

R: Ah, isso, Marllon, pra falar com mais sinceridade e propriedade, teria que ser um dos meninos que fazem a montagem direto. Porque eu não vou lá na montagem, eu sei o que eles me contam, né, por exemplo,  “Aí, aquela lá foi fácil. Aquela lá é super legal. Ixi!, aquela lá é difícil.” Esse tipo de coisa a gente troca idéia do que foi fácil e do que foi difícil. Agora, a emoção da montagem...

P/2:  Tá, mas qual é a dificuldade que eles apontam, e o que é legal e o que é difícil pra eles?

R: Ta. Por exemplo, às vezes, por mais que a instituição apresentou uma sala bonita pra área de projetos, por isso ela foi aprovada, na hora do vamo ver lá de montar, a infra-estrutura não é adequada, a sala é muito abafada, não tem circulação, não tem entrada de luz, ou não tá com a parte elétrica. Hoje isso já ta resolvido porque aí a gente tem um checklist, e aí a gente só monta se estiver tudo certinho. Mas isso acontecia muito. Ou acontecia da EIC levar o equipamento e não montar a escola. O que eu posso dizer, que pra eles é legal o fato de montar uma escola. Eles têm muito prazer nisso, eles gostam, é aquela coisa de “Puxa, a máquina que eu fiz agora vai ser uma escola, agora vai ser...” E uma coisa que a gente tem feito, que já há uma sincronia maior entre as áreas, até de ter reuniões com a área pedagógica e de projetos, e a gente saber: “Peraí, onde é que ta o meu trabalho? Eu quero saber. Eu estou fazendo um computador pra que? estou fazendo manutenção pra que?” Ou então “Pra que, ou para quem?” E isso é interessante e eles se emocionam com isso também, e eu também, é claro, né?

P/2:  E a maior demanda que vocês tiveram?
R: Foi o Carreto da Alegria.

P/2:  Que distribuiu pra quantos estados mais ou menos?
R: Foram 12 ou 14, eu posso checar esse número e te responder corretamente.

P/2:  E como foi essa mobilização de vocês?
R: Então, por exemplo, me ligaram, véspera de ano novo e de Natal, precisa de 150 computadores pra mandar pra não sei aonde e não sei aonde. “Uh?” Aí a gente trabalha. E uma coisa que eu acho super positiva na equipe, na união, os meninos e eu, a gente cansou de comer pizza à meia-noite. Então, “Tem que fazer máquina? tem que mandar pra rede? Vamos fazer máquina” Então até meia-noite a gente estava trabalhando. Fazendo mutirão, carregando máquina, limpando, embalando, e tal, e isso é uma mobilização muito forte. E aí a gente acaba fazendo brincadeira, ,né, e aí a gente vai brincando. E uma coisa legal também nisso, é que acaba tendo uma união, comprometimento muito forte, aquela coisa de, por isso que é muito trabalhado o “o que é que eu estou fazendo e para que eu estou fazendo, ou para quem eu estou fazendo?” Essa questão da missão da organização. Essa semana nós tivemos uma reunião em que o tema que a gente trabalhou foi a questão da auto-estima individual e de equipe. E a dica na fita era sobre a importância da gente saber a missão da organização.  E a gente percebeu que isso era claro pra todos nós. O que é super importante. Então acho que isso aí é uma emoção.

P/2:  Interessante.
R: Acaba sendo uma festa, a loucura da demanda.

P/1:  Tá bom.

P/2:  Tem alguma coisa aí que nessa entrevista a gente não perguntou, alguma coisa que você acha importante estar falando pra esse trabalho da gente?
R: Olha,  de repente das pessoas que contribuíram com esse processo. Eu acho que o estoque, toda a transformação, ele teve pessoas que contribuíram e muito, e eu acho isso muito importante ser dito. Quando eu vejo: “Ah,  a Elaine fez tudo isso.” Não, não foi a Elaine que fez tudo isso, nós fizemos tudo isso. Então, o (André Alípio?), que eu já citei, que é o Conselheiro que eu achei que foi muito importante a participação dele, teve o Robson da Iron, que é o funcionário de uma empresa que também era conselheiro do CDI São Paulo, que a gente esteve uns 3, 4 dias conversando. O Paulo Ferreira também que era um voluntário, sacava muito de TI. Porque aí, até então, não sei o que era computador. “Ok, vamos sentar pra conversar. Ah Elaine, isso, isso, eu acho que é isso.” E aí a gente foi trocando figurinhas. Eu acho que essas pessoas não poderiam deixar de ser citadas. A própria iniciativa do Rodrigo de dizer, “Ele apóia a equipe.”________ apóia a equipe..” E depois o estímulo da Juliana que depois saiu e voltou a ser o Rodrigo, a confiança dos coordenadores no trabalho foi muito importante. Eu sempre senti, tanto com o Fernando, quanto com o Rodrigo, quanto com a Juliana, uma relação de confiança, onde eu confio no seu trabalho, você confia no meu trabalho, vamos ver o que a gente pode fazer melhor. Então, eu acho que a energia e o gás da equipe pra que isso acontecesse é uma coisa que não pode deixar de ser dito. Bem como essas pessoas chaves que somaram. Tem o Renato também,  um voluntário que ajudava muito em Mutirões animando, coordenando, fazendo acontecer, que eu também acho muito importante fazer acontecer, eu acho que também é importante. Pessoas que marcam a nossa vida também, né, nossa trajetória. Eu acho que sempre vale um obrigado, um agradecimento.

P/2:  E o que é que você achou de estar dando essa entrevista?
R: Ah, uma coisa mágica, né, porque você acaba fazendo uma retrospectiva, depois você vai entrar num processo de reflexão e de autocrítica também, muito interessante. Até acho interessante nossa conversa inicial sobre o que é que é o Museu da Pessoa, e essa história de pessoas, que eu acredito muito mesmo, que as histórias tem todo esse processo, e eu acredito que a vida nossa, em essência, está muito atrelada às relações interpessoais e intrapessoais, que nós temos, né? Então essa coisa da gente ter esse contato, compartilhar experiências, é uma das coisas mais gostosas do mundo. Não é gostoso poder compartilhar? Eu acho que é uma das coisas que me dá mais prazer assim, você poder compartilhar as coisas. Eu brinco, se os meninos me ouvissem falar agora eles iam dar risada, porque tudo eu vou dar exemplo de bolo. Tem graça fazer um bolo e comer sozinho?

P/1:  Você gosta de bolo, né?
R: Gosto.

Todos: [risos]

P/2:  E a iniciativa do CDI estar buscando a memória, o que é que você achou?
R: Acho que é muito bacana, isso é muito legal. É muito legal mesmo. E é até interessante, tem coisa que vocês não perguntaram, né, e aí não compete muito, coisas que poderiam ser cortadas mesmo, mas uma coisa que eu acho interessante, a organização é feita de pessoas. E quando ela é muito rotativa, muitas vezes as histórias se perdem. E infelizmente ou felizmente por outro lado, o CDI São Paulo passou por momentos muito rotativos. Eu já me vi com 18 pessoas, depois com outras 18 totalmente diferentes. Dessas equipes só quem eu vejo já nesses quase 3 anos? É a Rose, depois o Fagner há 2 anos e pouco. Eu acho que isso é uma coisa que o CDI pode trabalhar mais, que é a questão de rotatividade. Porque cria um vínculo, é o tempo, então se a cada 6 meses, 8 meses, muda todo mundo, isso atrapalha um pouco. Eu acho que isso é coisa que a história,  o que vocês estão fazendo, vai resgatar coisas que as pessoas não sabem. Entendeu? De repente quem tá aqui não... Outro dia a gente teve uma reunião de equipe e nós apresentamos as fotos do estoque de um ano atrás, 6 meses, até chegar no agora. E as pessoas ficaram: “Nossa! Nossa! Não sabia que era assim.” Porque as próprias pessoas que estão aqui hoje não sabem. As que sabiam já não estão mais conosco. E de repente as que não estão mais conosco não viram os resultados agora, então eu acho que isso que vocês estão fazendo é muito legal. Vai dar até a oportunidade pra que outros vejam também, né, que as coisas mudam e se transforma pra melhor, né?

P/2:  Então a gente queria agradecer.
R: Cansei vocês?

P/2:  Não, não.
R: [risos]

P/1:  Obrigada pelo depoimento.
R: Obrigada a vocês, pelo prazer de estar com vocês.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+