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História

Edwiges, marisqueira com muito orgulho

História de: Edwiges da Silva Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/08/2013

Sinopse

Nesta conversa Edwiges fala sobre sua família e sua infância em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Deste período da sua vida. De modo especial destaca a figura do avô. Ela nos conta como foi e é a sua vida na região da costa do sol. E, ao longo da conversa, detalha como aconteceu sua paixão pela pesca e pelo mar. Narra o seu engajamento na luta em defesa da sobrevivência da pesca artesanal e discorre sobre o declínio da pesca artesanal na região, a ausência de políticas públicas para os pescadores artesanais, descaso do Ibama e degradação ambiental. Narra os caminhos que levaram-a se tornar bombeira civil em aeródromo.

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História completa

P/1 – Edwiges, pra começar eu gostaria que você falasse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Edwiges da Silva Pereira, estou aqui na Praia do Peró. Eu nasci no dia 30 de março de 1972.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – Maria José da Silva Pereira e Pedro Pereira Damião.

 

P/1 – E dos seus avós?

 

R – Apolinária Moreira da Silva, João Paulo Moreira da Silva.

 

P/1 – O que os seus pais fazem?

 

R – Hoje meus pais estão aposentados. Mas o meu pai já foi operador de lancheiro e nos momentos de lazer ele pescava. Isso quando eu morava em Arraial do Cabo, há 20 anos.

 

P/1 – E os seus avós, você sabe?

 

R – O meu avô era agricultor e pescador, morador de São Pedro da Aldeia.

 

P/1 – Descreve como são seus pais?

 

R – Os meus pais, eu tenho muito orgulho deles [emocionada]. Desculpa, nesse momento eu estou numa fase muito difícil, a saúde do meu pai. Mas é um homem que me tornou essa pessoa hoje, graças a Deus sou muito respeitada onde eu moro. Eu tenho sensibilidade totalmente com a natureza, que eu aprendi isso dos meus avós e dos meus pais. Hoje, como vocês já estão sabendo do que eu faço, eu tenho cuidado com a preservação, isso é muito importante pra mim e está sendo passado na minha geração, que é a minha filha. Eu tenho muito orgulho, o melhor eu tenho pra falar deles.

 

P/1 – Como que era a casa que você morava quando criança?

 

R – Graças a Deus meu pai sempre foi um homem muito trabalhador. Uma casa boa, sempre morei em beira de praia, tive essa sorte. Talvez seja isso a oportunidade de eu sempre ter esse cuidado, sempre amar o mar.

 

P/1 – E como era a rotina da sua família?

 

R – Dia de semana trabalho, final de semana de lazer, ia pra casa dos meus avós que era uma roça, eles moravam num lugar de roça, bastantes agricultores. Geralmente os finais de semana eu passava com meus avós, meus pais e meus avós.

 

P/1 – E o que você fazia de lazer?

 

R – Ah, quando estava na casa dos meus avós eu subia em pé de árvore, pegando frutas, indo pra lagoa pegar camarão com meu avô, ele morava também próximo à lagoa em São Pedro da Aldeia, né? Sempre assim. E os finais de semana, quando estava na praia do Pontal, com os vizinhos que eu tinha, são pessoas que já morreram, a China e o Osnério, junto do meu pai a gente tirava marisco na beira da pedra, puxava rede na Praia do Pontal, os lances, que em Arraial do Cabo a gente chama de lance. Dessa maneira, durante a semana estudava e no final de semana essas boas oportunidades.

 

P/1 – Tem algum costume na sua família, que vocês façam alguma coisa juntos?

 

R – Café da manhã [risos]. Café da manhã e almoço, a gente sempre... a minha família sempre foi uma família muito unida, almoço junto, junto de amigos, a gente sempre foi uma família que recebeu as pessoas bem. Café da manhã, até o dia de hoje, eu chego do meu trabalho, ligo pra casa: “Já tem café pronto?”. Eu não moro na casa da minha mãe, por isso eu tô falando, e a gente vai pra lá tomar o café da manhã.

 

P/1 – Como que é esse café da manhã?

 

R – Eu levo da minha casa o que tem, a minha mãe e a minha irmã trazem da casa delas. Eu tenho um amigo que é muito querido na nossa família, se chama Gordo, apelido, o nome dele é Edimar, ele sempre vem, e daí traz. “Olha, eu fiz uma coisa bem legal”, aí leva. A gente toma o café junto.

 

P/1 – Você falou que tem irmã. Você tem mais irmãos?

 

R – Não, eu só tenho irmãs, tenho mais três irmãs. E, na verdade, três sobrinhas, duas sobrinhas e a minha filha, que é uma família com bastante menina. Só duas, uma irmã teve dois filhos e uma outra irmã minha teve um casal. Eu e a Keli tivemos meninas.

 

P/1 – E o que você e as suas irmãs faziam para se divertir quando eram crianças?

 

R – A gente ia pra Praia do Pontal, puxava lança com a minha mãe, era a maior diversão. Isso eu já tinha seis anos de idade. Na verdade, se pendurava na rede pra ganhar o peixe, que a gente não aguentava puxar a corda, se pendurava. E brincávamos de boneca, tudo o que é natural de crianças, que hoje é diferente, por influência da internet, a gente brincava. Subia em pé de goiaba, fazia comidinha, aquela coisa toda de criança. Na praia fazia cozido de peixe. Eu e minhas amigas, a gente fazia fogo no quintal, sempre tinha alguém mais velho, que era eu e uma outra amiga, a Luciana, e a Ana Lúcia, e a gente fazia comidinha, era normal mesmo. Brigava muito com os meninos [risos], uma guerra, mas tudo muito normal.

 

P/1 – E quem eram essas crianças que brincavam com você?

 

R – Ceia, que eu cheguei na Vila Industrial da Álcalis com quatro anos de idade. Em menos de um mês eu conheci a Juceia, uma grande amiga que eu tenho até hoje, sou madrinha dela de casamento. Ana Lúcia, Graziele, tinha a Gláucia. Hoje a Gláucia, eu não tenho mais contato com ela. Tinha muitas amigas que hoje eu não tenho mais contato.

 

P/1 – Elas eram também daqui?

 

R – Não, todas eram de Arraial do Cabo. 

 

P/1 – Quando você morava lá.

 

R – É. Eu vim pro Peró com 20 anos de idade, 20 pra 21 anos de idade.

 

P/1 – Então a sua infância inteira  foi lá em Arraial do Cabo.

 

R – É.

 

P/1 – Elas então eram moradoras lá de Arraial do Cabo.

 

R – Todas da Vila da Álcalis.

 

P/1 – Quais são as lembranças que você tem da praia? Na infância?

 

R – Ah, muita riqueza. Hoje a minha tristeza é disso não acontecer mais, mesmo sendo em Arraial do Cabo, fartura demais de peixe. Eu lembro dos barcos encalhando de tanto peixe que a rede estourava, aí eles chamavam a traineira, porque eles escavam o barco, hoje eu já entendo isso, eles escavam os barcos e a gente ajudava. Os peixes caíam que as ondas batiam e os peixes derramavam do barco. A gente pegava aqueles peixes todos dentro d’água à noite, era cheio de pescador com lanterna e tal. Aquele sufoco que o pescador passa quando o peixe está caindo, saindo da rede ou de dentro do barco. Muita fartura, essa é a lembrança.

 

P/1 – E na juventude?

 

R – Também. Até os meus 20 anos eu aproveitei bastante isso em Arraial do Cabo. Eu já tirava marisco nessa época porque eu aprendi. Eu pescava sozinha de molinete. Na Praia do Pontal, do lado assim, tinha um canal, que a gente chamava de valão, mas era água limpa que entrava e saía do mar, a gente pegava muito parati, muito parati mesmo porque eles encalhavam. Quando a maré estava seca eles encalhavam nas valas que tinham junto das pedras. A gente pegava muito peixe, aí chegava todo contente em casa: “Ah, tô levando uma comida, uma carne”. Era muito bom.

 

P/1 – E você falou que você aprendeu a pegar marisco, né? Como você aprendeu a pegar marisco?

 

R – Erradamente, com faca, lá na Praia do Pontal porque eram pedras assim, a maré era bem seca, era no raso. Alguns vinham com areia porque lavava, lavava e tirava. Hoje eu faço bem diferente. Aí, eu tirava esses mariscos porque era muito rico o costão da Praia do Pontal. 

 

P/1 – E você comercializava esse marisco?

 

R – Na época não, tirava pra comer, pra fazer cozido pras minhas amigas na fase de adolescência, de jovem, e pra dentro de casa, pra minha mãe fazer comida. A gente tinha liberdade, era próximo a minha casa a praia, a gente podia ir com as amigas, não tinha perigo, ia e voltava. A gente levava linha, pescava, trazia peixe. Eu aprendi a pescar na minha infância, da infância pra adolescência.

 

P/1 – E como era com o seu pai? Você acompanhava ele na pesca?

 

R – Eu e minhas amigas, quando era lugar seguro. Ia lá na Praia do Pontal, do lado tem um morro que a gente apelidou de Morro da Bundinha, que ele é bem assim mesmo [risos] parecendo um bumbum. E a gente descia lá, não tinha perigo nenhum. E na Praia do Pontal também, que era perto. Era tipo um cais que tem na Praia do Pontal, e a gente ia de dia, de tarde, final de tarde, pescar com meu pai.

 

P/1 – E como era a pesca na época do seu pai?

 

R – Era pesca de linha que meu pai fazia, e de tarrafa, né? Muito parati que pegava na beira, carapicu, geralmente eram parati e carapicu. As pescas de linha eram peixe roncador, que era muito rico, cocoroca, anchova, a riqueza de anchova lá, nesse cais, era muita coisa mesmo.

 

P/1 – E como eles faziam pra comercializar o que eles pegavam? Como que era?

 

R – Olha, meu pai não comercializava. Isso era para consumo, a gente cresceu comendo peixe, gostávamos. Meu pai salgava, levava pra minha vó. Como graças a Deus meu pai sempre trabalhou, então, a gente tinha as coisas tudo direitinho. A nossa geladeira tinha um congelador grande, a gente armazenava, congelava peixe. Uma parte meu pai escalava, salgava e levava pra minha vó, porque como na roça não tinha geladeira, minha vó gostava de peixe salgado. Era assim que a gente fazia. Dava pros vizinhos também porque era muito peixe, era fartura mesmo.

 

P/1 – Você falou que ele pescava de linha, né? Ele pescava também em barco?

 

R – Não, só barco pra passeio mesmo, com os amigos, de lazer.

 

P/1 – De quem era esse barco, quando ele saía pra pescar?

 

R – Era do seu Sussu, que o nome do filho dele era Tainha, apelido, né? Eu não lembro o nome dele agora, o apelido dele era Tainha, então eles saíam pra pescar nesse barco.

 

P/1 – E você chegou alguma vez a ir de barco pescar com seu pai?

 

R – Não, não, não. A gente teve que vir no barco porque a gente foi escondido nadando e de prancha pra Ilha do Pontal. Eu jamais imaginei que fosse encontrar meu pai lá. Eu surfava na época, eu já tinha meus 16 anos, e a gente tentou se esconder, mas aí a ilha não é tão grande assim e meu pai não deixou a gente voltou porque o mar já estava alto, tivemos que voltar nesse barco [risos]. Foi isso que aconteceu. Foi a primeira vez também.

 

P/1 – E você falou que você pescava de um jeito errado, né?

 

R – É.

 

P/1 – Como que você aprendeu a pegar do jeito certo?

 

R – Depois, maior, vendo o pessoal pescar com cavadeira, aí eu aprendi lá mesmo. A gente mergulhava. Os meus amigos que surfavam pegavam mariscos, cozinhavam na praia pra não ficar com fome, foi onde eu vi e aprendi. E aqui na Praia do Peró, os meus amigos já são totalmente ligados a pesca, o meio deles sobreviverem, ou de comprarem, terem dinheiro pro final de semana, pras bebidas, há uns dez anos até os dias de hoje continua assim. Então eu vim aqui, aprendi a mergulhar e a tirar marisco de mergulho aqui na praia do Peró. Isso eu já vinha fazendo aqui. A partir de 2002, por aí.

 

P/1 – Explica um pouquinho sobre essa técnica de pescar mergulhando, como que é? Como você faz?

 

R – É mais difícil porque você tem que ter o fôlego. Mas fora disso, em 2001, como foi? Já tirávamos marisco, eu era casada e acompanhava meu marido e meus amigos aqui. A gente foi convidado pra participar da maricultura, isso em 2000, e em 2001 fizemos um curso técnico com o Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], aí a gente teve a técnica de tirar o marisco corretamente, no costão, e foi até pelo Leonardo Zayas, a gente tirou marisco em cima da pedra, com a maré seca. E os meninos já tiravam, né, no mergulho. Só que aí a gente teve uma consciência correta, até o dia de hoje, a gente corrige as pessoas que fazem essa retirada errada, a gente chama aqui, o meio de extrativismo aqui em Peró, até hoje isso é muito, e a gente começou a tirar. Eu aprendi a tirar na cavadeira, como fazer o certo. Então você prende o fôlego, mergulha, a força toda no braço, e nas pernas, pro impulso, pra retirar o mexilhão embaixo d’água. Em cima da pedra é tranquilo, mas embaixo d’água exige um esforço maior até por causa da maré.

 

P/1 – E você falou que era de Arraial e mudou pra cá. Como era aqui a Praia do Peró quando você chegou?

 

R – Muito rica em pescado também, muito rica. Eu moro a sete minutos da praia, então eu sempre frequentei. Eu surfava na época, essas coisas, já tinha uma filha, a Taísa. Cheguei aqui eu tinha 21 anos de idade, a minha filha já ia fazer um ano de idade, em novembro de 1993, era onde eu vinha surfar. Nessa época não estava pescando ainda, mas à noite meu pai vinha pra cá e tinha lança na beira da praia, até o seu Tico era o pescador na época aqui e eu ajudava a puxar as redes aqui. Dei continuidade, era uma coisa que eu amava fazer na praia. Aí de Arraial do Cabo eu dei continuidade de fazer na Praia do Peró. 

 

P/1 – E quando você sai pra pegar marisco, quando você vai pegar, com quem você vai, como que é?

 

R – Geralmente eu vou com José Walter, que tem o apelido de Tim, que é maricultor amigo meu desde quando eu morava em Arraial do Cabo, a gente estudava na mesma escola. O Sandro, Carlão, Rafael, meu ex-marido que é um grande amigo meu hoje, Cinho.

 

P/1 – Mas vocês vão todos juntos?

 

R – Geralmente, às vezes três, dois, todo mundo junto combina quando tem Festival de Marisco, a gente forma uma grande equipe, retira e divide, porque aí é pro consumo do consumo, é armazenamento. A gente vai, já vamos começar esse trabalho agora, todo ano nós fazemos isso.

 

P/1 – E como vocês fazem? Como vocês se organizam em relação a equipamento que precisam levar, como que funciona?

 

R – A gente geralmente leva lenha, lata, panela, às vezes, levamos fogareiro e o gás, dependendo de como a gente vê as condições do mar. O mar está tranquilo, vai ser mais rápido e não deixamos lenha, nem nada. Fazemos isso, mas tem todo o cuidado porque têm locais na pedra que podemos fazer isso, cozinhamos na pedra, toda a casca jogamos no mar pra não ficar nas pedras porque sabemos que fica mal cheiro. E é ruim porque no outro dia temos que estar aqui novamente pra fazer esse serviço, temos esse cuidado porque no mar ela vai se espalhar, não vai armazenar em um local somente, por causa até das correntes marinhas. Então, a gente tem todo esse cuidado. E esse marisco, alguns que não tiram pro festival vende aqui mesmo. Até o dia de hoje eu vendo marisco, é uma soma que eu faço no meu orçamento.

 

P/1 – E como é quando vocês vão em dois, três? Como que é a divisão dos custos, da venda?

 

R – Tudo igual. Geralmente não vendemos, armazenamos pro festival. Dividimos tudo. Quem está com a grana compra e depois divide tudo. Aí quem compra, se quiser ficar com o marisco fica a parte do marisco em dinheiro, dessa maneira, sempre todo mundo chega a um acordo.

 

P/1 – E quando é o festival?

 

R – O festival, não estou com a data agora porque foi mudança de governo, geralmente acontece sempre no final do mês de abril, com início de maio, termina sempre no primeiro dia de maio, Dia do Trabalho. Isso há seis anos, vai ser o sétimo festival esse ano.

 

P/1 – E quanto tempo vocês ficam pescando?

 

R – Geralmente a gente faz isso, em um mês, de 18 dias. Capturamos marisco já desconchado, cada um, 100, 120 quilos de marisco. No ano passado eu tive a oportunidade de pegar 120 quilos de marisco desconchado, outros colegas pegaram 180, 160. Eu não peguei mais até por causa do meu trabalho, mas a quantidade, pra comida que eu faço, que depende desse marisco, 120 quilos eram suficientes, mas não foi, eu tive que comprar mais 60 quilos.

 

P/1 – E com relação ao tempo, quanto tempo vocês ficam na água pra conseguir fazer a captura do marisco?

 

R – Geralmente limpando chegamos aqui em torno de sete horas da manhã e vai até cinco, cinco e meia, por causa do mosquito. A gente se organiza, temos metas de tirada porque já temos conhecimento até pelos cursos que fizemos, e experiência própria de retirar marisco. Cada saco a gente sabe quanto tempo que cozinha e desconcha. Então fazemos uma base por aí, o que a gente retira um dia pra dar tempo. Aí quando tem mais gente, retiramos mais marisco e vai dar o tempo certo pra vir embora pra casa porque no outro dia já temos que fazer isso novamente.

 

P/1 – Você falou dos cursos. Como que vocês se organizam pra fazer esses cursos? Como você teve acesso?

 

R – Ah, isso foi até por causa de um projeto. O Roberto e o Francisco, que eram da maricultura nesse período, foram até o Sebrae, apresentaram um projeto, eles achavam interessante porque já tinha esse projeto em Angra dos Reis e aí a gente (áudio cortado).

P/1 – Você estava falando dos cursos, pode retomar?

 

R – Pode começar? Então, os cursos. O Roberto foi até o Sebrae, apresentou o projeto, o Sebrae gostou, já havia esse projeto em Angra dos Reis, e em Mangaratiba também, e também já tinha um projeto em Arraial do Cabo. Ele trouxe, apresentou, conversou com a gente porque éramos extrativistas aqui na época, a gente se interessou também, que era um desejo porque a gente sabia que era muita captura de marisco no costão, e o costão estava ficando vazio, então seria uma deficiência pro nosso sustento. Com isso, o Sebrae abraçou a causa, trouxe o Leonardo Zayas pra dar o curso, foi onde aprendemos e até o dia de hoje é assim. Os cursos técnicos, eu já fiz muitas viagens patrocinadas pelo Sebrae e o Ministério da Pesca pra saber toda a técnica nova que está acontecendo dentro da maricultura, e dentro do cultivo, né?

 

P/1 – E como você faz pra estar atualizada dessas formações, desses cursos?

 

R – Eu tenho um trabalho fora, mas eu estou sempre junto, toda vez eles me ligam, comunicam, e eu estou sempre procurando, estou sempre na colônia de pesca, estou dentro do Sebrae, eu estou sempre interagindo com todo esse grupo, não só aqui, em Arraial do Cabo, Cabo Frio, mas em Angra, Parati. No Brasil eu tenho contato com o pessoal em Picinguaba, em Santa Catarina. Eu tenho uma grande amiga, Maria das Graças, que hoje trabalha dentro da Epagri [Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina] e hoje eles trabalham com marisco, embalagem, vendendo pro Brasil todo. Eu faço contato com esse pessoal todo por telefone, por e-mails.

 

P/1 – E vocês, marisqueiros, se organizam junto com os pescadores?

 

R – É, dessa maneira. Porque a maioria dos marisqueiros é pescador também. Então todo mundo vende pesca, joga tarrafa, a gente tá sempre. Até tínhamos uma parceria com os pescadores, ajudava a cuidar aqui da maricultura vigiando. Usava os cordões mexilhoneiros como apoio pra guardar o barco, pra apoiar o barco quando estava pescando, quando precisava se apoiar, quando estava jogando rede, tudo isso. A gente sempre teve uma boa parceria aqui na Praia do Peró.

 

P/1 – O marisco tem diferença nos períodos do ano, pra retirada?

 

R – Tem. A gente fala que em agosto, tipo assim, eu respeito até porque tem o período de defeso que começa, se não me engano, vai de junho até novembro, então é um período de três, quatro meses, que não pode retirar. Até pra eles desovarem, agarrarem no costão e tudo o mais. O período de defeso, como tem a sardinha, tem do marisco, isso é muito importante pra gente. E a gente sensibiliza todo mundo, o pessoal aqui já é sensibilizado quanto a isso, a gente conversa, a gente fala. Muito pescador e marisqueiro levamos até a colônia dos pescadores lá com o Alexandre. Eu e o Alexandre, temos uma grande parceria, que é o Presidente da ______, temos uma grande parceria, somos amigos. E a gente interage isso junto e junto aos pescadores. 

 

P/1 – Você falou da colônia. Conta um pouquinho como é essa relação com a colônia de pescadores, como se dá?

 

R – Quando eu pescava, eu entrei na maricultura em 2001. Em 2003 houve uma separação entre eu e o Rafael, que era meu marido, as minhas dificuldades me fizeram sustentar da pesca. Eu sempre pesquei, eu já sabia desde a Praia do Pontal, puxava rede, sabia ver peixe, identificar cardume, eu aprendi tudo isso em Arraial do Cabo, e trouxe isso tudo pra Praia do Pontal. Eu ajudava muito o seu Tico, ele ia sempre na minha casa: “Pedro, não vai pescar não, Pedro?” “E você, Edwiges, não quer ir pescar hoje? Vamos lá ajudar, vamos puxar uma rede”. E eu vinha. E aí, eu descobri a colônia de pesca através disso tudo, era o seu Chico, na época, que era pescador e ele falou: “Por que você não se filia como pescadora, já que você pesca?”. Era uma novidade, então eu fiz muitas matérias com a InterTV aqui, com a Rede Globo, saí em jornais, tudo isso. Aí, eu fui na colônia, me cadastrei como pescadora porque eu pescava sardinha na época, eu cercava, e eu comecei a conhecer o Emilson, pescador lá de Búzios, que tinha um barco de pesca aqui. O Benedito pescava e um dia, uma noite aqui, comecei a ajudá-los, isso em 2003, e daí fui até 2007 pescando junto com eles, tirando meu marisco e trabalhando dentro da maricultura. A minha vida era aqui na Praia do Peró, nesse período de 2003 a 2007, minha vida era na Praia do Peró, dia e noite. Aí eu cercava, iscava barco, tirava marisco de dia quando tinha maré boa. O Benedito, que trabalhava eu e o Benedito, o barco ficou na responsabilidade nossa aqui, então a gente tava sempre pescando, era o dia inteiro aqui.

 

P/1 – E como era a região aqui nessa época? Tinha muita gente? Quem que morava aqui?

 

R – Aqui eram poucos moradores nesse período, mas existia, hoje tem quiosque novo, eram uns quiosques antigos. A gente vendia os peixes pros barraqueiros, pros donos dos quiosques. Vendia o peixe, marisco, a maioria que a gente pescava vendia aqui mesmo na Praia do Peró pros moradores e barraqueiros aqui. O Jamil, hoje ele acabou pescador, ele comprava o marisco na casca, in natura, porque o turismo do Peró é acostumado a comer marisco aqui na praia. Eu trabalhei muitos anos aqui, seis anos vendendo marisco no carrinho, empurrando carrinho aqui na Praia do Peró, era o Marisco Marinheiro, o famoso marisco da Edwiges e do Rafael. E com isso, essa grande parceria, o seu Chico vinha na Praia do Peró, me viu  pescando, aí houve essa parceria lá na colônia, me cadastrei como pescadora, me sustentei na pesca, recebia defeso, tudo isso, eu trabalhava só com a pesca. E comecei, fui delegada de pesca, fui convidada, sempre tive boa oportunidade. Esse aí é um grande amigo, o Roberto, pescador aqui, sempre me deu um grande apoio aqui na Praia do Peró. Todo pescador brinca assim, né, fala: “Ah, pescador conta mentira”. Eu não, eu odeio mentira, sempre falando verdade, ele é um grande amigo. E com isso eu participei de muitas coisas com seu Chico. Levei muitos pescadores do Peró pra se cadastrar lá na colônia.

 

P/1 – E nessa época você conseguia sobreviver só da pesca, da maricultura?

 

R – É, era da pesca e dos meus artesanatos. Vou mostrar, fazer propaganda dos meus brincos [risos]. Eu sempre aprendi a trabalhar com artesanato de escama, e com conchas de cultivo, que aí a gente já cultiva aqui o coquille. Eu trabalhava com isso, pescava, às vezes, fazia faxina quando tava ruim a pesca, e sobrevivia mesmo da pesca, foi um bom período que eu sobrevivi da pesca, artesanato, pesca, peixe e mexilhão.

 

P/1 – E como você aprendeu a fazer artesanato?

 

R – O artesanato? Foi com o meu ex-marido, Rafael. Ele já era artesão. Eu via as mulheres fazendo na época, era uma questão de mulheres da pesca, da colônia, fizeram um curso de artesanato em escama, não deixaram eu fazer porque eu já era artesã, trabalhava com semente, madeira. Mas como sou curiosa, tudo o que eu via eu conseguia fazer. E aí eu consegui comprar as ferramentas, comecei a fazer sozinha, e eu aprendi. Hoje eu sou capacitadora no artesanato de escamas, só pra você ver, né? Graças a Deus eu capacitei 88 pessoas aqui na região dos Lagos através do IFF [Instituto Federal Fluminense], que tem aqui na divisa de Cabo Frio e Búzios, e estou hoje aí. Eu trabalho, faço artesanato, tiro marisco, não deixo de sobreviver. Eu sempre falo uma coisa que pra mim é muito importante, eu defendo, essa daqui é uma das minhas empresas, sabe, o mar? Eu tiro um bom sustento dela, eu reaproveito o que sai dela, que são as conchas de cultivo, e a escama de peixe, tudo daqui. Essa daqui é uma empresa que não só eu defendo, muitos pescadores defendem, eles tiram o sustento dela.

 

P/1 – E quantas vezes por semana você vai pro mar, pra pegar?

 

R – Todo mês eu venho, têm períodos. Ano passado foi muito ruim a pesca. A pesca aqui tá muito ruim, o marisco não. Agora no final de fevereiro eu já vim aqui e tirei marisco, no mês de março ainda não pude. Até porque o meu pai está doente, eu tive que ir até ele, ele não mora mais aqui, mora em Vitória. Então eu tive que ir lá, e assim mesmo ainda não fiz, mas agora, início de abril eu vou ter que  tirar  mexilhão aqui, até por causa do festival.

 

P/1 – Você falou que pra pesca piorou aqui, né? E por causa do mexilhão?

 

R – O mexilhão, o que acontece? Devido ao mar bravo, que ficou aí muitos meses, teve o período de desova, o repovoamento nos costões, e o marisqueiro não teve condições de retirar o marisco. Então por isso costão teve essa oportunidade e ter bastante marisco, justamente por isso, porque ninguém pode. Quando o mar tá bravo não tem como tirar, é um período que ele cresce, normalmente o mar fica duas, três semanas bravo à beça, aí ninguém se arrisca a tirar o marisco.

 

P/1 – E como que acontece pra saber como que vai estar o mar? 

 

R – Ah, a gente vê pela lua, coisa de pescador, período de lua, maré seca, o mar manso, água clara. Tudo isso envolve pra gente tirar o mexilhão.

 

P/1 – E vocês usam algum tipo de tecnologia pra ajudar vocês?

 

R – Não, a gente só usa cavadeira mesmo, pé de pato, uma máscara de mergulho, tudo bem artesanal mesmo, bem simples.

 

P/1 – Você falou que você vendia aqui na praia. Como que era o movimento pra venda?

 

R – Muito bom, se fazia bastante dinheiro todos os dias. O verão todinho eu trabalhava na praia, aí tirava, vendia aqui o marisco fresco. Às vezes, na época eu e o Rafael tínhamos uma lancha, a gente saía de madrugada, tirava o mexilhão na ilha, até pra não sacrificar muito o nosso costão. A gente tinha oportunidade, no barco a gente ia em vários locais da ilha, até por consciência de não retirar num único local. E aqui a gente tem o costão no Peró e na Praia das Conchas, fica depois desse morro. Então, a gente tirava mexilhão nesse local. Aí trazia aqui, o pessoal via a gente chegando, as pedras, muitos desses turistas viam a gente tirando marisco no costão, na pedra, então achava o máximo, chegava aqui e comprava, sabia a procedência, né?

 

P/1 – Você falou que vocês iam de barco. De quem era o barco?

 

R – O barco era nosso mesmo.

 

P/1 – E como vocês fizeram pra conseguir comprar o barco?

 

R – Guardando dinheiro com as vendas do mexilhão e de peixe. O Rafael mergulhava, fazia mergulho à noite, então a gente pegava bastante peixe bom. Aqui, onde nós estamos gravando, a Boca do Siri, o dono antigo, o Fernando, ele comprava muito budião, fazia filé de bodião, os clientes deles eram consumidores de filé de bodião. Então, a gente vendia muito peixe e tinha um preço alto e guardamos dinheiro porque eu trabalhava com artesanato na praia, vendendo mexilhão, a gente tinha material de pesca, tinha rede, tarrafa, a gente guardava todo o dinheiro pra poder comprar o barco. A gente tinha o objetivo de comprar e conseguimos. Aí facilitou mais.

 

P/1 – Quando vocês não tinham barco como vocês faziam?

 

R – Era nas pedras, caminhava todas as pedras que vocês estão vendo aqui, com um saco de marisco nas costas. A gente coloca um saco de cebola cheio, eu ajudava, porque eu sempre aguentei peso, né? Ajudava ele, às vezes a gente trazia quatro sacos, fazia trabalho de formiguinha, deixava, trazia no caminhão, voltava, e assim sucessivamente, até chegar na beira da praia. Trazia de bicicleta, por causa do peso, dessa maneira.

 

P/1 – Você chegou a passar alguma situação de risco no mar?

 

R – Várias vezes.

 

P/1 – Conta uma pra gente.

 

R – Eu cortei, tenho até hoje a cicatriz no braço, tem uma pequena na mão. Essa do braço, o mar me bateu, veio uma onda, eu estava distraída nesse momento, que eu tava pegando mexilhão, meu colega tava tirando mexilhão e eu tava pegando. Eu mergulhava pra pegar o mexilhão que ficava no fundo, veio uma onda, puxou, então ela secou. Quando voltou, ela cheia de espuma, me derrubou e me jogou nas pedras. Com isso, eu me defendendo rasguei a mão, tinha uma pedra pontuda, devia ser o próprio mexilhão, aí deu um corte profundo e eu estava com um saco de marisco na mão porque eu sou leve, sou mais magra, fiquei segurando e batendo. Aí, clamei a Deus, como sempre clamando a Deus, e o senhor me deu esse grande livramento. Eu só cortei o braço, a mão, a perna, alguns cortes na mão. Mas isso aconteceu várias vezes, maré de jogar a gente dentro de garganta, né, que a gente chama as fendas no mar, a gente chama de garganta. A maré vai e volta, de repente, sempre tem uma maré, má sorte, descuido, irresponsabilidade também, a gente não vigiou, a maré jogou a gente dentro da garganta. Mas, graças a Deus estava com cavadeira na mão e deu tempo de empurrar, de apoiar e empurrar o corpo, aí se corta a mão e as pernas na pedra. Várias vezes acontece. E felizmente, acontece, mas a gente nunca corre o risco de bater a cabeça na pedra, até porque o pé de pato nos apoia em nadar pra fora das pedras. Pula, onde a maré seca, rápido você sobe nas pedras, de costa mesmo. Com os anos todos a gente adquiriu manhãs, meios de se safar, dentro e fora d’água.

 

P/1 – Quais são as dificuldades que os marisqueiros têm?

 

R – As dificuldades são essas, às vezes, o marisco está num local de difícil acesso, você tem que pular e aí a gente leva vara de pescaria pra poder segurar o colega pra subir. Porque geralmente, quando tem dificuldade, fica alguém em cima, a gente amarra um saco de marisco, vazio, numa boa, ela fica flutuando na água, você tira o marisco debaixo, joga no saco e quando enche, o que está em cima, fica tirando, puxa o marisco pra cima. E depois, com a vara, o local mais fácil, a gente apoia e o colega sobe. Essa é uma das dificuldades. Mar bravo, às vezes, correntes de maré que leva as boias, a gente bota dois, três sacos, pra aproveitar a dificuldade pra não fazer viagem perdida. São várias dificuldades, lugar de acesso difícil é sempre assim, a gente tem que pular e depois tem toda a dificuldade pra subir. Nadar em lugares distantes pra encontrar uma pedra mais fácil pra subir. Essas são as dificuldades. Às vezes, você nada mais de 200 metros pra chegar, com peso de marisco, na boia, ou na mão mesmo, nadando, cansada, pra poder subir numa pedra.

 

P/1 – E como vocês fazem pra identificar o local de coleta?

 

R – A gente já conhece. Você tem que mergulhar, você pula dentro d’água e vê. Quando a maré está seca, você já sabe que ali embaixo tem marisco, você vê o marisco em cima, mesmo que esteja pequeno, e você mergulha. Então você sai mergulhando pra ver os locais que têm. E aí, cada um vai num local, quando tem vários colegas mergulhando, aí a gente joga pra cima. Sempre fica um ou dois em cima quando trabalha em equipe de cinco, seis.

 

P/1 – Voltando um pouquinho à questão da colônia, você observou alguma mudança a partir do momento que você virou associada da colônia?

 

R – Ah sim, eu sempre somei na colônia, tanto na gestão do seu Chico, do Eli, e agora do Alexandre, né? Tipo assim, sempre participei, representando a colônia até pra ter alguém participante, representando a entidade, em conferências que eu fui. Eu já fui delegada de pesca desde 2004, 2005, 2006 e 2009, como delegada de pesca, como pescadora; em 2009 eu participei como artesã, pescadora e artesã. Eu tive que dividir esse momento até que foram outras pessoas nesse período. Com isso a gente ajuda a trazer, a gente defende a causa, a gente ajudou que viesse recurso, mas tinha muita coisa bem enrolada nessas gestões que eu falei, do seu Chico e o Eli, mas ainda assim conseguimos material pra Feira de Marisco e de Peixe, a gente conseguiu um estande pra venda. Agora, na gestão do Alexandre, as coisas têm sido assim, graças a Deus, bem melhores. Ele conseguiu tirar a colônia de pesca lá do fundo do poço mesmo, lá no fundo, no lamaçal. O Alexandre veio com toda vontade, ele se deparou com pessoas com grandes vontades que aquilo fosse a frente. Graças a Deus eu sou uma delas, o Serginho e a Márcia nunca desistiram. O Luís que tem uma cooperativa também. Então a gente abraçou a causa junto com o Alexandre, e também lutando junto, fazendo pedido junto, eu com a maricultura, a gente se uniu, até que eu falei, o que precisar pode contar. E o Alexandre me faz participar de tudo o que está acontecendo, me leva nas reuniões, a gente está sempre junto. Os maricultores que estão associados lá, a gente tem essa grande parceria, a gente apoia, a gente vai representar. E hoje, a colônia conseguiu conquistar aí com essas empresas petrolíferas, nessas responsabilidades que elas têm, a gente tá conseguindo mudar a história da colônia. 

 

P/1 – Você falou das empresas petrolíferas, né? No caso do marisco, qual o impacto que a presença dessas empresas traz?

 

R – A gente vê na questão de algum acidente, né? Derramamento de óleo. Isso já é um grande risco pra gente porque se isso acontecer, já era costão, porque o mexilhão é um filtrador e isso vai prejudicar, vai matar o molusco, vai prejudicar tudo, né? Vai prejudicar todo o costão. O sambaqui, a conchinha pequena que tem aqui, o, esqueci o nome agora, o tatuí, que tá na areia da praia, vai prejudicar tudo, vai prejudicar tudo, no geral. A gente tem um grande medo quanto a isso. 

 

P/1 – Tem outras coisas que prejudicam vocês também?

 

R – Aqui, eu já vou falar sobre a parte dos animais marinhos, né? A tartaruga, eu já vi várias tartarugas mortas na Praia do Peró. A gente identifica que é lixo que vem de grandes barcos, de navios, a gente identifica material que não é de pescador comum, é material que vem de fora. Achamos muito isso na beira da praia. Aqui temos a guarda marítima, que eu também tenho bastante conhecimento com eles, já ajudamos muito eles a resgatar animais aqui, tartaruga, pinguim etc e tal. Então a gente descobriu depois que eram sacos, resíduos de material que não era daqui, não era da beira da praia.

 

P/1 – E com relação ao turismo? Qual é a relação do turismo com a maricultura? É relação de consumo, de impacto com relação a procriação?

 

R – Olha, no período hoje a gente está sem nada dentro da água, esse é o sétimo ano que eu luto pra resgatar a maricultura, a gente tem todo o material dentro da água, que são as poitas, a base, a estrutura da maricultura. Nesse período, como eu e o Rafael trabalhávamos com marisco, os turistas perguntavam o que era aquilo quando a gente tava trabalhando e a gente explicava. Então, foi uma grande parceria tanto com turismo quanto com pescador. Os pescadores aqui ganhavam dinheiro levando o turista até o cultivo. A maricultura é uma cadeia alimentar formidável, então, era uma riqueza de peixes. E o turista chegava lá e via tartaruga, peixe, cardumes embaixo, isso era uma novidade pra eles, né? Foi um período farto de 2002 a 2005, quase 2006, foram anos de fartura aqui na Praia do Peró. Da traineira, da gamboa, que eu sempre tive, fui amiga dos pescadores ali, eu avisava quando tinha cardume, quando o pescador não estava aqui, não tinha barco aqui, eu avisava, às vezes até ganhava parte deles com isso, ganhava dinheiro. O turista ia pescar de barquinho, alugava um barco aqui. Os turistas que pescavam na beira da pedra, os pescadores de beira de pedra. Foram anos de muita riqueza aqui na Praia do Peró.

 

P/1 – E o que você atribui essa mudança? Você falou que era um período de riqueza, hoje em dia não é mais.

 

R – O que aconteceu nesse período, hoje eu identifico assim, que a maricultura hoje faz muita falta. Sempre há vandalismo em tudo quanto é lugar, tem aquelas pessoas que têm a maldade, querem destruir. Foi o que aconteceu. Pessoas que tinham inveja, que não estavam na maricultura, cortavam e roubavam mexilhão, cortavam e furavam boias. E foi tendo uma ressaca. A gente teve uma experiência, foi a primeira experiência, perdemos muito material que arrebentou. Houve uma dificuldade, não tivemos acompanhamento técnico. No início foi bom, mas num período a gente não teve acompanhamento técnico, por falta até de apoio porque na época era a Secretaria de Meio Ambiente, não era muito importante pra eles, tanto a pesca, eu falo isso porque eu vivia da pesca e da maricultura. E com isso, a maricultura acabou, a gente tem dificuldade em colocar dentro da água de novo porque tudo gera recurso, e não tinha mais o lugar pro peixe estar ali se escondendo e se alimentando, com a fartura que era dentro disso, de caranguejo, de outros peixes pequenos. Os maricultores pegaram muito peixe grande, polvo grande, tudo isso ficava ali, se alimentava mesmo, o polvo se alimentava do mexilhão, se alimentava de conchas que ficavam ali. Então esse período acabou, essa fartura acabou, e os peixes se foram também.

 

P/1 – E qual foi o impacto na sua vida dessa mudança?

 

R – Foi assim, meus sonhos sendo interrompidos. O meu sonho sendo interrompido, até hoje. Eu tô lutando até o dia de hoje com isso. Eu não desisti. Já tive momentos de desistir, mas eu falei que não. Uma coisa que é real, que pode acontecer. Já tive uma nova esperança agora, o Alexandre falou, está me apoiando, está abraçando a causa da maricultura. Neste governo eu já identifiquei uma pessoa, o Chico, que está dentro da Secretaria de Pesca, que vai apoiar a maricultura, falou que existe esse interesse, até mesmo do atual prefeito. Eu estou aguardando. É uma esperança que eu estou tendo.

 

P/1 – E como eles podem apoiar? Que ações o Poder Público pode ter pra contribuir?

 

R – Um projeto que eu tenho, de valor baixo, pra comprar, tipo assim, boias e cabos pra gente colocar. Uma meia que só em Santa Catarina, ela custa muito caro, um rolo de nylon, que é onde a gente tem que colocar o mexilhão dentro. A gente tem uma boa parte desse material, mas tem material que só em Santa Catarina se consegue comprar, e nós não temos recursos pra isso. A gente até pediu se ele poderia contratar umas duas pessoas pra estar ajudando a tomar conta do mexilhão, sendo pago pelo município. Eu não sei de que maneira, se isso pode, ele disse que ia ver e estudar sobre isso. Porque nós não temos condições de nos dedicar totalmente à maricultura sem que a gente tenha recursos, né? Todos nós somos mães e pais de família, não temos condições de se dedicar direto aqui dentro, só na praia, sem trazer o sustento pra dentro de casa. Esse é o meio deles ajudarem, abraçando esse projeto, trazendo pra gente,  queremos só o  material pra colocar dentro d’água. E a gente vai fazer um rodízio cuidando da maricultura.

 

P/1 – E quando teve essa diminuição do marisco, você conseguiu continuar sobrevivendo só da maricultura?

 

R – Não da maricultura, mas boa parte foi ainda da retirada do mexilhão. As coisas foram ficando difíceis, eu era bem conhecida na minha cidade, me tornei uma pessoa popular até por ter muitas matérias mostrando eu pescando marisco, falando sobre festival de marisco. A gente tirou aqui da fazenda marinha e fizemos o Festival do Marisco com marisco daqui. Tinha guarda marítima na época, aí a guarda, através de um amigo, eu fui pra guarda municipal, até porque eu estava necessitando de emprego nessa época, no final de 2006 pra 2007, graças a Deus aonde eu chego, chego pra fazer bem, eu gosto de trabalhar bem, onde eu coloco a mão eu faço bem feito, eu tenho muito isso comigo. Graças a Deus, gosto das coisas certas e corretas. E aí, trabalhei bem, desenvolvi bem, fui convidada pra fazer um curso, onde hoje eu estou como bombeira em aeródromo, sou bombeira civil de aeródromo, trabalho contra incêndio em aeronave aqui no aeroporto de Cabo Frio. As minhas folgas, que eu tenho duas folgas, durante a semana eu tenho quatro folgas durante o dia e trabalho mais durante a noite. Então, nesse período eu faço assim, vou em Arraial do Cabo pra fazenda marinha do Pingo, ajudo ele; venho aqui e tiro marisco; às vezes, venho pescar na beira da praia ou nas pedras. Concilio meu tempo fazendo meus artesanatos, concilio meu tempo assim, em nenhum momento, até o dia de hoje, com o meu trabalho, eu deixei de estar no mar.

 

P/1 – Mas houve uma necessidade financeira de você buscar outro meio de sustento?

 

R – Houve sim, justamente porque a maricultura foi se desfazendo, o peixe foi acabando. Até mesmo essa condição do peixe, quando havia muita riqueza aqui, o que aconteceu? Vinha muita traineira grande de fora, Santa Catarina, Espírito Santo, então vinham aqui próximo ao nosso costão. A gente denunciou muitas vezes, mas a gente vê uma grande deficiência no Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] nesse período, por não ter condução pra estar aqui, ou lancha pra estar dentro d’água multando, e a gente sofria essa consequência aí. E até o dia de hoje continua assim. Quando aparece peixe, os pescadores aqui lançam rede aqui de espera e não consegue nada. Por quê? Quando tem cardume, como os barcos hoje tem sonar, todo esse equipamento avançado que identifica onde está o cardume, e até mesmo que tipo de cardume, o pescador artesanal ficou nessa deficiência. Os pescadores hoje vêm aqui, não estão mais pescando, pescam, mas pouco peixe. O turista aqui tem que ir pra peixaria pra comprar dos barcos e das traineiras que vão pra fora. Eu vejo que a maioria dos pescadores, que eram os pescadores artesanais que puxavam rede vendendo milho, vendendo comidas na praia, bebida, porque não tem condições de si sustentar mais da pesca. Eu vejo, eu acho uma irresponsabilidade muito grande, né, do Ibama, das grandes autoridades que estão vendo aí, até mesmo a Secretaria de Meio Ambiente do município que sabe, a gente denuncia em todos os lados porque a gente não aceita. Eles têm um período, um local pra ir pescar pra fora, eles vêm bem dentro do nosso costão e retiram o que é de direito nosso? Porque o pescador artesanal tem um limite pra pescar. Se no caso, a guarda marítima aqui nem tanto, mas a Marinha, a Capitania chega aqui e encontra o pescador artesanal fora do período que tem de pesca, da metragem, que eu esqueci o nome agora, desculpa, ele é multado etc.. Mas esses barcos nunca são multados pela Capitania, pelo meu conhecimento. Eu posso estar errada nisso, mas a gente nunca ficou sabendo. Então, tipo assim, essa falta de apoio do Ibama está sendo uma grande deficiência pro pescador artesanal. Eles têm que ter uma responsabilidade maior, a gente sabe aí, dos royalties no nosso município, nenhuma porcentagem desse recurso é retornada à pesca, colônia de pesca. A gente vê um monte de projeto aí que é obrigação compensatória dessas empresas do Ibama pra pesca. A gente vê vários projetos, eu mesmo já conversei, como conversei com vocês, que eu já vi um monte de projeto acabando no meio do caminho, o Ibama não obriga a isso, eu acho uma total responsabilidade dela ir até o final, porque aí está usando o pescador, está usando a comunidade de pesca, é um grande desrespeito. E aí, cada vez mais, pessoas querendo fazer alguma coisa aqui vão ficar desacreditadas. As empresas vão vir, vão contratar pessoas pra falar com a gente, e não vai ter crédito, não vai ser bem recebido, como muitas das vezes não foram. Por quê? Porque não dão continuidade. Eu participei de um projeto, que pra mim foi uma vergonha, eu fiquei um ano e seis meses participando de reunião, nesse período, não ia direto, mas todo mês, de dois em dois meses tinha, pra no final a empresa não ter responsabilidade nenhuma, deixou tudo na mão da Shell, que não fazia parte a Shell. Na época era CGG, então, quem assumiu, apoiou até com os cursos, a maior parte do recurso foi a Shell, não foi a empresa. Por quê? Porque o Ibama não obrigou. Como que uma empresa que vai perfurar o mar, o solo, vai ter uma responsabilidade de oito mil reais? Isso é preço de um equipamento deles, muito mais do que isso, sabe? Então foi um desrespeito comigo e com outros colegas. Eu sou muito triste por isso. Projeto que a Petrobrás mesmo fez, uma estatística, desembarque de pesca na Ponta do Ambrósio, pescadores de camarão, de siri, de peixe de lagoa, seis meses de estatística, isso não existe. Contratou a UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], aí a UFRJ ficou envergonhada. Eu fiquei mal junto à comunidade. Aí tipo assim, um monte de erro. Projeto, eu filmei, trabalhei junto de um documentário também, da Petrobrás, que chegou em nada até hoje. Esses pescadores, esses voluntários, nunca viram filmagem, nem eu. Ocupou o nosso tempo, a gente não ganha nada com isso, vamos como voluntário porque queremos que as pessoas saibam o que está acontecendo, queremos que essas empresas petrolíferas tenham conhecimento do que está acontecendo desse lado, porque ela manda o recurso pro município, o município retorna isso em eventos, em festas, em sei lá em quê, menos na pesca. Menos pra botar um barco pra nos apoiar. Acontecem vários acidentes aí fora. Em capacitação pros nossos filhos. Em recursos de bolsa pra uma faculdade para o filho de um pescador. Que hoje tudo no município é caro. A minha filha quer fazer Engenharia Ambiental, a minha filha é defensora da natureza, ela vem acompanhando isso de mim, do mar, ela tem vários cursos aí, graças a Deus ela é uma pessoa muito interessada. É caro? É caro. Eu não tenho condições, eu vou apelar pro município, pra não sei. Ela tá estudando, eu tô me dedicando ao estudo dela pra ela poder passar numa universidade federal. Tudo isso uma dificuldade não só pra mim, filhos de muitos outros pescadores têm sonhos, querem fazer faculdade, querem ter conhecimento, querem defender, querem bater de frente com essas empresas, que elas estão agindo errado hoje. Então essa é uma grande queixa, eu estou aqui desabafando, que é uma queixa que eu sei que poderia ser diferente. Tem como ser diferente. O Ibama tem uma responsabilidade de vir ver o que está acontecendo, sabe? Vir na comunidade. Porque toda vez quando acontece qualquer reunião, o Ibama, ela não participa. A única pessoa, eu estou sendo injusta agora, tem que lembrar, é a Anísia. Nossa, ela foi uma grande parceira, ela trabalhou, era Presidente do Ibama de Cabo Frio, acho que na região dos Lagos. Eu esqueci o sobrenome dela, a Anísia defendia, ela ia com o carro dela, ela estava em todos os lugares porque ela participava de tudo. Até mesmo com o Alexandre, com o Eli, então ela tava junto ali. Ela: “Edwiges, eu estou aqui abraçando a causa, mas eu não posso fazer tudo, estou aqui sozinha. Eu não consigo resolver tudo. Então, gente, me ajuda, denuncia, fala comigo”. Era a única pessoa que podia ajudar. E ela era de garra mesmo, era: “Eu defendo mesmo, eu amo comer o peixinho que vocês trazem pra mim, eu gosto de comprar, eu estou ajudando”. Então foi a única pessoa, pra mim, representante verdadeira do Ibama, se chama Anísia. Ela trabalhou em Cabo Frio por alguns anos, aí tiraram ela daqui dizendo que Cabo Frio é só lazer, e ela aqui era pega pra capar porque ela não tinha lazer, ela trabalhava mesmo.

 

P/1 – E como se dá essa relação de vocês com o Ibama? Como que ela é estabelecida?

 

R – Cara, o Ibama, eu conheço pela Anísia, o resto eu não conheço mais ninguém. Porque todas as reuniões que aconteciam ninguém participava, ninguém vinha.

 

P/1 – E você falou das empresas de exploração de petróleo, né? Como se dá essa relação com vocês?

 

R – Não damos. Só vocês que têm assim, são contratados pra descobrir o que está acontecendo aqui. Esse contato, quando acontecem as audiências públicas de algumas empresas, geralmente a Petrobrás, infelizmente o pescador vai pra lá comer, porque sempre tem muita fartura de comida. O linguajar dele é totalmente desconhecido do pescador, a gente faz a pergunta e não temos a resposta porque as pessoas que estão lá na frente não sabem o que estamos falando também, são línguas estrangeiras, tanto da parte deles quanto da nossa. A gente nunca tem um bom resultado. Eles mandam pras entidades de pesca, eu recebo, tudo o que está acontecendo, mas e aí? Quando vou numa audiência não sei de nada, não consigo entender. Quando o barco de um companheiro meu está lá fora é expulso como se não fosse ninguém. E lá tem grandes homens que vão pescar, sustento, que têm uma consciência ecológica que não jogam o lixo lá, traz o lixo dentro do barco pra cá, diferente de muitas vezes os barcos de lá jogarem o lixo pro nosso peixe, pra nossa tartaruga estar se alimentando. Então nós falamos línguas diferentes, infelizmente.

 

P/1 – Edwiges, qual é a importância da pesca na sua vida?

 

R – Olha, a importância, da minha sobrevivência, da pessoa que eu sou hoje, no cuidado que eu tenho com o mar. É importante porque eu gosto, hoje ainda, é onde eu pego um alimento sem problema nenhum, sem, como se fala gente? Não precisa de ração, não precisa de nada. Hoje eu como frango cheio de produto químico aí pro frango crescer antes, carne etc. e tal. O peixe não, o peixe é saudável, o meu mexilhão é saudável. Eu tenho conhecimento de tudo o que aconteceu, foi através da pesca. Se hoje eu sou uma pessoa que viajei, tive conhecimento lá fora, tenho conhecimento aqui hoje, tive boas oportunidades, eu agradeço à pesca, agradeço ao mar, que me trouxe um grande conhecimento. Hoje eu tenho uma grande soma na minha vida, justamente por causa do mar. O mar é algo muito importante na minha vida, é de uma grande importância na minha vida. Tenho hoje 40 anos de idade, desde os meus quatro anos de idade eu já ia dentro de uma lagoa, junto do meu avô, que aprendi a pescar mesmo com o meu avô pegando siri, siri pequeno, aquilo, pra criança, né? E vendo meu avô pegando peixe que ficava boiando. Então, desde os meus quatro anos de idade eu tenho esse contato muito importante com o mar, e vai ser sempre até o final dos meus dias.

 

P/1 -  E descreve um pouquinho mais como era esse momento que você saía com seu avô pra pegar siri.

 

R – Eu vou me emocionar de novo porque o meu avô foi uma grande pessoa, é um homem que eu falo até o dia de hoje, eu nunca vi uma pessoa que tinha a herança de Deus, o amor. Porque meu avô era uma pessoa muito especial, era um homem formidável, tudo de melhor existia no meu avô. Na minha família eu era a neta bem querida dele, assim, que ele tinha paixão. Não que não era com as minhas irmãs, mas comigo a gente tinha essa ligação muito boa assim. Toda vez que ele ia pescar, isso eu morava em Baixo Grande, saí de lá com quatro anos e vim pra Arraial do Cabo. Ele ia pescar siri em gancho, uma madeira com um galhinho assim virado, era tipo um ganchinho e a gente segurava. Ele jogava a tarrafa, eu ajudava, o peixe ficava batendo assim e eu pegava, e eu não tinha medo, era curiosa, sempre fui muito curiosa. Aí ele pegava, eu via o siri assim. Uma vez eu levei pra minha irmã, que ele me ensinava a segurar assim, a minha irmã colocou o dedo pequenininho, o siri agarrou o dedo dela, chorando, meu avô foi, apertou, aí teve que quebrar a apuã porque não soltou, deu um corte horrível no dedo da minha irmã. Todo final de semana meu avô ia de bicicleta de São Pedro da Aldeia pra Baixo Grande, que era perto. E a gente pescava siri, pegava peixe, camarão. Ele me ensinava assim, na areia a gente via o olhinho do camarão pra fora, botava a mão assim. Eu lembro que eu espetava a mão, pegava camarão pequena, né? Era muito engraçado, eu jogava porque eu sentia cócegas [risos]. Era uma relação muito legal. A minha mãe, de manhã cedo, os pescadores que batiam a rede na lagoa deixava de manhã aquela sobra da água com limo dentro do barco. E nisso, só ficava muito camarão, carapico pequeno, e a minha mãe pegava e levava pra casa. Então eu cresci gostando de pescar, vendo tudo de pesca, desde pequena, dos meus quatro anos de idade. Sempre morei em beira de lagoa, lá em Baixo Grande, em Arraial do Cabo morei perto, a dez minutos do mar, e aqui eu moro a sete minutos da beira da praia.

 

P/1 – E qual você acha que é a importância da maricultura pra comunidade?

 

R – Pra comunidade? A riqueza do repovoamento do costão. A chamada, eu digo que chama os peixes, o atrativo dos peixes. E a responsabilidade que aqui, eu também não lembrei de falar, eu fui vice-presidente da associação dos moradores de bairro, então eu tinha essa responsabilidade de estar comunicando tudo o que acontecia aos moradores, aqui na praia, nas casas. Eu moro aqui já há 20 anos, então eu tenho bastante amigos. Isso tudo a gente passava pra eles terem esse cuidado, da importância que era a maricultura. Eu fazia reunião e chamava moradores e pescadores daqui, então, esse cuidado aconteceu, né? Até hoje eles perguntam: “Quando vocês vão botar a maricultura pra funcionar? Tá faltando peixe, a gente tá querendo ir na praia puxar uma rede, vir cheia de peixe”. Eu falo: “Estou aguardando isso aí, também estou esperando”. Então essa é a relação, e esse cuidado, isso é importante, a maricultura de volta é importante pra comunidade de que aqui tem muito extrativismo. Muita gente se sustenta do mexilhão aqui na Praia do Peró, muita gente mesmo.

 

P/1 – Você falou da sua filha, né? Você chegou a ensinar sua filha?

 

R – A tirar. Minha filha mergulha hoje, ela não sabe ainda tirar de mergulho, mas ela já sabe tirar marisco de cima da pedra, ela vai comigo. Às vezes, eu mergulho e jogo marisco pra ela, na pedra. Ela está sempre ajudando junto com meus amigos, ela vai, conhece várias ilhas aqui, que eu já levei ela de barco pra conhecer. Ela falava: “Pô, só você que vai, eu não conheço”. Então minha filha conhece tudo aqui. Já ajudou muito a puxar rede, sabe pescar também. Ela, mais nova, a minha irmã ia muito pra Arraial do Cabo, e aí pegava e pescava lula, peixe, tudo de barco. Barco do nosso amigo Liliu. Desde nova minha filha também vem acompanhando isso, pescaria em mar, pescaria em pedra comigo e meus amigos.

 

P/2 – Edwiges, como é que é ser mulher no meio de tanto homem? Na pesca, maricultura, mexilhão, como é ser mulher em um ambiente que tem...?

 

P/1 – É, como é ser mulher num ambiente com tantos homens?

 

R – É, com muitos cuidados, mas sempre fui uma pessoa de bom caráter, eu sempre me pus com muito respeito. Em primeiro lugar, o respeito que você dá, e os homens te comparam como homem, mas não existe um preconceito. Não vi ainda no meio dos pescadores preconceito porque tudo o que eles sabiam fazer eu fazia também. Tinha força pra puxar rede, força pra tirar uma âncora da água, força pra jogar uma rede, mergulhava, tirava a rede e ficava agarrada em pedra, não havia muita diferença. A diferença estava no sexo. Quando eu estava iscando o barco, eu sempre me mantive em postura, de bermuda, nunca me mostrando, até porque é homem, tem que haver esse respeito e assim que funcionava. Então, nunca dei motivo pra um pescador me dar uma cantada e eles não falavam palavrão. Eu imagino que eles ficavam meio bravos, eles queriam fazer xixi e tinham que pular na água pra eu não ver nada. Porque às vezes quando iscava barco até de noite, então, os caras: “Puxa vida, fala com ela pra sair daqui, por favor, eu preciso fazer xixi”. Aí eu pulava pro barco e eles ficavam atrás do casario que eu não via, porque eu também sabia o que ia acontecer se o cara fosse pular à noite dentro d’água? Por minha causa? Eu sabia, então tinha todo esse cuidado. Mas eu sou uma mulher muito orgulhosa por isso, a minha filha tem muito orgulho disso, toda a minha família, né? Assim, eu apareci na época muito na mídia, mostrei o potencial que a mulher tem. Hoje, você vê mulher fazendo de tudo. Eu também sei fazer muitas outras coisas também que é homem  quem faz. Esses serviços que hoje eu estou, no contra-incêndio em aeronave, trabalho com linha de mangueira, são serviços bem pesados, que eu diria que são pra força masculina, mas não só eu, como outras amigas também, somos mulheres de garra mesmo, e pra mim não existe preconceito. Eu sou uma mulher muito orgulhosa por tudo o que eu faço até o dia de hoje, e o respeito que eu tenho de todas essas pessoas.

 

P/1 – Tem outras mulheres fazendo esse tipo de atividade? Você encontra outras mulheres?

 

R – Com certeza. Dona Sônia, esposa do Roque. Na mesma época que eu pescava, Sônia já pescava há muitos anos antes de mim, com seu Roque. Pescava em traineira, pescava aqui na praia, em Cabo Frio, no Peró, eles tinham barco em Cabo Frio, têm até hoje, aqui na Praia do Pontal. Outras mulheres em Baixo Grande, ali na Ponta do Ambrósio. A Taninha, tive a oportunidade de conhecê-la. Outras pescadoras que iam de barco pescar camarão, arrastar. Conheço muitas mulheres no segundo distrito, ali na gamboa, em vários lugares eu conheço muito. Mas assim, que pescava dentro de barco, puxava rede, era eu e dona Sônia que eu conheci nesse período todo. Eu sei que em Itaperuna, eu estive em Itaperuna no ano passado, conheci um monte de mulheres pescadoras que jogam rede, que elas pescam de barco dentro dos rios lá, muitas mulheres.

 

P/1 – Em geral quando você vê mulher relacionada a pesca que tipo de atividade ela está exercendo?

 

R – Ela está pescando. Muitas são companheiras de seus esposos, pescam com seus esposos. E lá em Itaperuna, eu já vi as mulheres indo sozinha, ela e outras, equipe de mulheres, mesmo, indo de barco.

 

P/1 – A gente falou da sua filha, ela também é mulher, você gostaria que ela seguisse o tipo de trabalho que você faz?

 

R – Olha, com toda deficiência que está acontecendo hoje, eu sei que ela vai estar sempre perto, eu estou apoiando ela totalmente nessa nova etapa que ela quer, até me ajustando, ela quer ser engenheira ambiental e eu estou lutando muito pra que isso aconteça na vida dela, até pra ela não sofrer grandes consequências que eu sofri. As grandes dificuldades que houve eu não desejo isso pra ela, mas ela vai estar sempre respeitando o pescador, ela vai estar sempre respeitando o mar, que isso, cada vez mais ela vai adquirir mais conhecimento, vai estar apoiando o pescador junto dessas grandes empresas aí.

 

P/1 – E que tipo de dificuldades que você passou, que você não gostaria que ela passasse?

 

R – De quando não havia pesca, às vezes não tinha marisco, não dava pra vender artesanato, eu ia ter que fazer faxina, não dava pra ser tudo fácil. Havia essa dificuldade financeira de não poder fazer tudo o que ela estava precisando no momento. Porque ela também sempre aprendeu assim, se tem fartura, existe a parte da economia, e vai ter os momentos, e quando existem as dificuldades vai ter que se prensar e vai ter que ser paciente naquele momento. Então, a minha filha é uma grande amiga que eu tenho, uma grande parceira. Ela hoje vende os meus artesanatos, ela faz artesanato junto comigo. Quando as coisas estão difíceis ela chega: “Não mãe, fica tranquila que eu vou ver o que eu posso fazer. Estou junto com você”. Então, graças a Deus, hoje, a minha vida... até porque eu tenho um salário todos os meses há alguns anos eu não estou passando mais por nenhuma dificuldade. O Festival de Marisco também é uma grande renda que entra no ano, assim, sabe, em poucos dias, que me beneficia, beneficia um monte de gente. Eu trabalho com 11 funcionários, indiretamente eu beneficio 11 pessoas em três dias, que é muito bom, financeiramente pra todos eles é muito bom. Eu vendo bem, se eu ganho bem, quem me ajuda também vai se dar bem.

 

P/1 – Descreve como funciona essa.

 

R – O Festival?

 

P/1 – Essa organização que você faz com essas pessoas, como funciona?

 

R – Eu sou cozinheira, eu cozinho. Eu tenho três cursos pelo Sebrae, que o Sebrae é um grande ajudador, tenho que falar porque tem méritos. O Sebrae me proporcionou três cursos de culinária do mar, da pesca. Eu tenho uma grande amiga, dona Rosa, que trabalha muito bem com frutos do mar também. Então, somos eu e ela como cozinheiras, e tem as ajudantes de cozinha. Tem a minha filha e algumas amigas dela que estão estudando e querem, pra poder, tem uma que faz faculdade, fez a massa de pastel. Tenho um grande amigo que é o Gordo, já citei ele, que fica no meu caixa e junto das bebidas, tenho meus garçons, então tenho uma equipe. Eu fico na cozinha, a minha irmã e o Go que cuidam da grana e do dinheiro, o que está acontecendo e o que está faltando pra comprar. A minha irmã e o Gordo gerenciam isso pra mim. E eu gosto de ficar na cozinha como sempre. Então, eu trabalho com 11 pessoas, 12 comigo, então, não só o pessoal da família, minha filha, meu cunhado e minha irmã, o resto são amigos e conhecidos daqui. E é muito bom.

 

P/1 – Edwiges, a sua filha é jovem. Como você vê que outros jovens também se interessam pela prática da pesca do marisco?

 

R – A minha filha tem muitos amigos, eu vou falar da minha filha. Então ela tá sempre convidando pra estar aqui, pra ir junto, ‘minha mãe pesca, minha mãe mergulha’, então pra jovem isso é muito bom. E aí, já tem os filhos dos meus amigos que também são adolescentes. Assim, é aquela parte de geração, né? Tá passando de geração pra geração, dos filhos dos meus amigos também que são adolescentes, são jovens. E como a gente tem um grupo grande, eu tô sempre junto. O Festival de Marisco envolveu muitos jovens pra isso, então os meninos que trabalham como garçom, todos eles estão agora trabalhando, retirando o marisco, que ganham o dinheiro do marisco e ganham o dinheiro no festival. Com isso, nós ensinamos, a gente capacitou esses jovens, e o que você mais vê nas festas são os rapazes tirando marisco. Rapazes de 20, 23 anos, de 17 anos, tudo tirando marisco aí. E com esse cuidado, que a gente teve a oportunidade de mobilizar e ensinar como é feito.

 

P/1 – Edwiges, tem alguma coisa na sua vida que você teria feito diferente? O que seria?

 

R – O que seria... Eu teria me formado. Eu não tenho faculdade, é uma das coisas que eu tive quase, eu queria fazer Tecnologia de Pesca, mas foi um período difícil na minha vida, financeiramente, que a minha mãe esteve doente e eu não tive condições de conciliar todas as coisas, trabalho, cuidar da minha mãe e fazer um curso técnico. O que eu voltaria, hoje, eu ainda tenho tempo, eu tô nova, mas eu tô tendo nesse momento alguns obstáculos porque eu quero fazer isso pra minha filha, não teria como eu e minha família estarmos fazendo uma universidade agora, então eu tô abrindo mão pra ajudar minha filha. Até que eu tenha outros cursos que me façam ficar profissionalmente por muitos anos, não tenho como ficar sem trabalhar porque tenho vários cursos, vários conhecimentos. Mas uma coisa que eu voltaria seria isso.

 

P/1 – E que faculdade você gostaria de ter feito?

 

R – Seria justamente na área ambiental mesmo, né? Engenharia de Pesca por muitos anos foi um grande sonho que eu queria realizar. Não tive a oportunidade, financeiramente, mas estou passando essa oportunidade pra ela. Mas eu estudo, eu busco muito conhecimento. É uma das coisas.

 

P/1 – E o que é importante pra você hoje?

 

R – Importante? Foi eu ter cultivado a educação que meus pais me deram, ter tido vontade de buscar conhecimento, tanto dentro da área profissional, de nunca ter feito nada errado nos momentos das dificuldades que eu tive na minha vida. Eu encarei o mar, no início eu sofri preconceito, mas eu fui determinada e encarei. Eu tenho muito orgulho da pessoa que eu sou hoje, da filha que eu tenho, da família que eu tenho hoje, dos amigos que eu conquistei.

 

P/1 – Quais são seus sonhos?

 

R – Um dos meus sonhos é ver a maricultura funcionando. Ver aquela colônia de pesca, porque há dez anos eu venho, vi e estou vendo agora, eu quero aquilo funcionando porque eu sei que muitas pessoas vão ser beneficiadas ali dentro. A minha casa que ainda não consegui conquistar, não fiz, é um grande sonho. Ver minha filha formada. Vou lutar muito pra que isso aconteça, já estou lutando. Meus sonhos são pequenos, são básicos, eu sou pé no chão pra tudo, eu quero aquilo que venha me fazer bem. E meu sonho da minha casinha é tudo o que eu quero, uma coisa assim. O meu momento de descansar, eu tenho é meu, eu conquistei. Tive muitas lutas na minha vida, mas eu alcancei. A maricultura, eu quero que isso seja uma herança que eu e meus colegas possamos deixar pros nossos filhos, pra netos, pra esse bairro aqui, esse costão rico, a esperança de continuar peixe dentro desse mar, pra outros jovens, que nunca vai acabar o pescador, eu tenho certeza disso, porque é uma coisa muito boa de se fazer, é um grande lazer, e um meio de sustento muito bom.

 

P/1 – Edwiges, teve alguma coisa que eu não perguntei e que você acha que seria importante falar?

 

R – Eu acho que não. Você perguntou muitas coisas, eu falei das empresas, eu falei de muitas coisas. Uma das coisas muito importante hoje que eu acho, eu ia esquecendo de falar isso, são as estatísticas pra pesca artesanal. Existem muitas estatísticas aqui na nossa região, mas pra pesca de traineira e industrial, mas não tem estatística de pesca artesanal mesmo, pescador que vai pegar o camarão como eu fiz, não houve uma continuidade, do camarão que sai de dentro da lagoa, das espécies, como carapicu que não tem muito valor, mas que sustenta famílias. O carapicu, do parati, do mexilhão, estatística da retirada, porque senão, daqui a pouco não tem mexilhão, não tem cultivo por aqui, em Cabo Frio tá sem cultivo no momento. Uma estatística de desembarque de pesca artesanal, o pescador que vai com um barquinho e volta com seu peixe, que vai à noite pescar a tua lula, o teu peixe, não tem. É necessário acontecer isso, e dessa maneira vai identificar qual o período de defeso dos peixes. Porque o Ibama lá fora, lá no Sul eles estipulam uma data, vai ser a pesca da sardinha, a pesca da anchova, lá no Sul não é igual aqui, as correntes não são iguais, o período, nada é igual. Então, tem que haver um respeito assim, com a estatística de desembarque da pesca artesanal. O Ibama. Os recursos, porque as empresas petrolíferas mandam, de responsabilidade, investir em veículos, lanchas, pro Ibama está aí trabalhando. Porque, pra que existe Ibama, só pra vir pra multar? Geralmente é quando pescador vai pescar num período de defeso de camarão porque não sai o defeso aqui pra região. Então é só isso, prender eles têm como, mas dentro do mar, os grandes, eles não fazem isso. A estatística vai ser muito importante, vai mudar muita coisa, tanto pra lagoa quanto pra praia e pro mar.

 

P/1 – Edwiges, como foi contar um pouquinho da sua história?

 

R – Foi ótimo, estou dividindo uma coisa que sempre me trouxe orgulho, minha vida. Estar participando com vocês, falei bastante, lembrei de muitas coisas. Lembrei de pessoas muito importantes, que são importantes até hoje o dia de hoje na minha vida. Algumas que foram, mas são importantes, têm um lugarzinho guardado no meu coração. Saber que vocês também ouviram histórias muito importantes dos meus amigos, ficaram sabendo de coisas importantes que aconteceram aqui na nossa região dos Lagos, entre Cabo Frio e outros lugares. Muito bom, muito bom ter tido esse momento com vocês, foi prazeroso.

 

P/1 – Obrigada.

 

R – Obrigada vocês, que isso seja uma grande soma pro trabalho de vocês, tá bom? E pra minha vida também, para aquilo que eu tenho desejo que aconteça. Valeu.

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