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História

Educador no Eremim

História de: Gilmar Santos da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/11/2014

Sinopse

O educador Gilmar Santos da Silva é um pernambucano que migrou com a família para Osasco quando tinha oito anos. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, Gilmar relembra passagens de sua infância em Rio Formoso, as dificuldades da família e a decisão do pai em buscar novas condições de vida no estado de São Paulo. Fala da dificuldade de adaptação, principalmente em relação ao seu sotaque, que era motivo de chacota entre os colegas da escola. Gilmar conta como ingressou no Eremim aos 15 anos para fazer atividades educativas e culturais. Lembra sua trajetória de aluno, os cursos que fez e sua atuação como educador do projeto. Finaliza falando da gravidez inesperada da namorada e do filho que tiveram juntos. 

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História completa

O meu nome é Gilmar Santos da Silva. Eu nasci em Rio Formoso, Permanbuco, dia 8 de junho de 1984. Meus pais são Arnóbio Ferreira da Silva e Maria do Carmo Santos da Silva. Eles nasceram em Rio Formoso também. O meu pai, ele era cortador de cana. Como morava lá em Formoso, ele começou a trabalhar com oito anos de idade por conta de ter perdido o pai muito cedo, uma família de 15 irmãos, era muita gente pra minha avó estar sustentando. Então ele foi praticamente obrigado a procurar alguma coisa realmente pra ganhar dinheiro pra sustentar também os outros irmãos. A minha mãe sempre foi dona de casa, dona do lar, sempre cuidou da gente. Em Formoso, o nome do bairro que a gente morava era Cossocó. A minha casa era de taipa, de barro. Morei dois anos nessa casa até mudar pra outro espaço, até minha mãe conseguir um terreno, até fazer a casa, construir, nessa eu morei lá por dois anos. Meu pai conseguiu comprar um terreno com todo o esforço dele cortando cana, tudo. Com a ajuda de alguns amigos, ele construiu a casa. Ela tinha eu acho que três ou quatro cômodos, não era de reboco, era de tijolo mesmo, era de telhado, não era de laje, era telhado como a maioria das casas lá eram assim de telhado e tijolo mesmo. O bairro se chama Olho D’Água. Olho D’Água II. Eu gostava muito de brincar de bolinha de gude, pião, pião que meu pai fazia na época, ele cortava, fazia os meus piões, ele me ensinou. Na época não tinha carrinho, na verdade era lata, a gente pegava lata de leite, de óleo, emendava uma na outra com arame e saía arrastando. Isso era o carrinho que tinha na época lá. Essas eram as principais brincadeiras. E futebol também.

Eu estudava lá em Pernambuco. Até hoje quando eu vou lá, eu vejo a escola, estudei em duas escolas, que uma era Paulo Guerra e outra era Silvério, lembro até hoje o nome das escolas. Agora, da sala de aula não lembro tanto, da sala de aula mesmo não lembro muito. Lembro mais de alguns passeios que foram feitos. Que nem na época era: “Vamos passear no Sítio de Siqueira”. O que é Sítio de Siqueira? É um local onde tinha uma bica, enfim, minha mãe fazia meu lanchinho, fazia tudo pra ir pra esse sítio. Agora de aula mesmo não lembro muito. Teve a professora Neuza. Acho que era Neuza, professora que depois de muitos anos que eu vim reencontrá-la em Pernambuco quando eu viajei, vim reencontrá-la.

Na adolescência eu ficava incomodado com as atividades que eram realizadas nas escolas. O professor chegar na escola e praticamente falar: “Toma a bola, pode jogar”. Eu acho que não é isso. Eu queria mudar, queria fazer outras coisas. Queria mudar essa realidade. Eu acho que eu estou conseguindo depois de alguns anos desenvolver isso lá no Eremim, não nas escolas. Porque os educandos que estão lá no Eremim têm muita diferença dos educandos que estão na escola hoje, eles sabem muita coisa, sabem muita coisa mesmo.

Meu cachorro, o nome dele era Lobão. Eu adorava esse cachorro, esse cachorro acompanhava meu pai lá para o corte de cana. Quando meu pai chegou em casa e falou que ele tinha falecido, porque tinha uma pista, tinha as estradas, são estradas que cruzam praticamente o Nordeste, então ele falava pista lá. Foi cruzar e o carro atropelou. Chegou e falou assim que o Lobão tinha falecido, chorei tanto. Peguei um outro cachorrinho, mas não era a mesma coisa.

Com oito anos vim para São Paulo.  O emprego que meu pai conseguiu foi de ajudante de encanador, não é lá essas coisas, o salário era pouquíssimo. Minha mãe conseguiu um terreno, ficou indo na prefeitura sempre e perguntando: “Olha, tem tal espaço em tal lugar, X lugar lá que tem um espaço que dá pra fazer uma casa”. Ficou indo lá várias vezes, várias vezes, tanto que um dia chegou um rapaz chamou pra medir o terreno. Conseguiu construir a casa com o mesmo processo lá de Pernambuco, com a ajuda dos amigos. Eu cheguei numa semana, na outra já fui pra escola. Fui pra escola com muita vergonha, principalmente por causa do sotaque que às vezes quando você chega, é algum nordestino chegando aqui em São Paulo as pessoas já começam a dar risada. Eu nem respondia a chamada, porque a primeira vez que eu respondi a chamada eu falei: “Presente”. A sala toda começou a dar risada. Toda, toda e depois nem consegui mais responder a chamada. Quando chamava Gilmar eu levantava o braço. Era isso. Eu era muito tímido mesmo.

Eu brincava muito na rua, soltava pipa, jogava bola, bolinha de gude, essas coisas também na época tinha aqui em São Paulo. Depois era escola e Eremim, escola e Eremim direto. Isso eu tinha 15 anos. De 15, 16, 17 anos eu comecei a sair mais um pouco. Depois que eu entrei na Eremim tive outros amigos. Ah, vai ter festa em tal casa? Então vamos pra festa. Vai ter a quermesse, vamos pra quermesse. Essas fases.

O Eremim é o seguinte, eu sempre gostei de esporte, de atividade física, no bairro colocaram algumas faixas que ia ter um projeto envolvendo esporte. Eu vi essa faixa, falei: “Mãe, me inscreve porque eu quero fazer, quero fazer”. Isso eu estava com 15 anos, mãe foi, eu fui junto com ela, fiz a inscrição. A gente fazia a inscrição e esperava chamar e esperar chamar era por carta. Chegou carta pra um vizinho, chegou carta pros meus primos, mas não chegou pra mim. Eu falei assim: “Eu não vou entrar, eu não vou fazer”. Depois passou uma semana chegou a carta lá na minha casa, e aí que eu conheci a entidade, o Eremim, na época, o projeto. Era um grupo de jovens. Era mais atividade focando mesmo as modalidades esportivas. O curso que eu fiz era monitor esportivo e recreativo. Isso foi em 99. Fiz atividade de fundamentos de basquete, de voleibol, de natação, de handebol, de recreação. Porque eu tive vários professores naquela época. Tive aula de ética, deixa-me ver, tive aula até de cabelo, de maquiagem, mas não eu, na época as meninas. Pra poder se arrumar, porque também tinha o foco do trabalho também. Como a pessoa não vai se vestir, mas vai se apresentar pro mercado, pra uma entrevista, enfim. O que eu me recordo é isso. Começou acho que com 35, depois foi pra 25 jovens. Algumas pessoas foram entrando e depois foi saindo. Tinha vários módulos. Cada módulo era um profissional, era um educador. O grupo era o mesmo de jovens. O grupo ficou por um ano e meio junto esse grupo. Até fechar todo o curso. O Gilson Trindade foi um educador especial, professor de basquete, ex-jogador também de basquete. Foi um que eu lembro como se fosse hoje, ele falou pra nunca desistir daquilo que a gente realmente quer. Ele falou quando ele saiu do projeto, quando parou de dar aula pra gente. Não sei o que eu estaria fazendo hoje se não fosse o Eremim. Não sei. Lógico que eu tinha esse objetivo de fazer uma faculdade, de ser professor de educação física, mas já que apareceu o Eremim, não que foi um facilitador, mas foi pra decidir realmente que eu quero isso.

O Eremim está localizado no bairro do Rochdale, Osasco, São Paulo. É um projeto que foi iniciado em 1999, então está com 15 anos de entidade, completou esse ano. Então faz 15 anos que eu participo, entrei lá na época jovem. O Eremim é um projeto praticamente não financiado, mas seu principal mantenedor é o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, que é idealizador desse projeto. Como lá tinha um clube, então nem todo mundo tinha acesso a esse espaço, pra ter o acesso tinha que ser sócio, tanto que eu fui entrar a primeira vez no clube e realmente aproveitar as atividades e do clube também a partir do Eremim, do projeto Eremim em 99. O Eremim já tinha tentado outras vezes conseguir uma parceria, ser um projeto do Criança Esperança. Tentou várias vezes, não tinha conseguido. No ano de 2012 conseguiu ser do projeto Criança Esperança, nós fomos convidados a participar na época do programa do Serginho Groisman, no Altas Horas, foi todo mundo. Acho que o dinheiro foi para comprar materiais, os materiais pra desenvolver as atividades. Na época quando o Eremim recebeu esse recurso focou muito em comprar alguns materiais pra desenvolver atividades: instrumentos musicais tipo de corda, tipo de percussão. Foram os principais mesmo que foram comprados, que eu lembre foram esses. O Eremim o seu principal mantenedor é o Sindicado dos Metalúrgicos, isso a gente sabe que todo mês vai ter X valor pra conseguir manter a entidade. Agora outros projetos que não são daqui de São Paulo, são de outros espaços, imagina como faz pra conseguir se manter. Então tendo o Criança Esperança é um apoio muito forte, muito grande pra eles. Enfim, eu não sei se esse recurso paga os profissionais, não sei se pode usar, não sei se pode usar pros profissionais, mas em espaço, em materiais acho que dá um super apoio. A gente recebeu a notícia numa reunião de educadores que foi: “O Eremim recebeu, vai receber...”. Isso já era um desejo muito grande do Eremim pra receber o prêmio do Criança Esperança, na verdade o recurso do Criança Esperança e já tinha tentado alguns anos, não conseguiu entrar. Quando conseguiu assim foi uma alegria muito grande pra todos os profissionais que estavam lá, porque é fruto de um trabalho nosso, dos profissionais que estão lá, dos educandos, da coordenação, da direção, de todos. Hoje está com 170 educandos. Já foi mais, mas está com 170 educandos. A faixa etária é de sete, tem uma turma de sete a oito, de nove, dez, tem outra de 11 a 12, de 13 a 14, tem uma turma de 15, 16 e 17 anos.

Eu terminei estava com mais ou menos 17 pra 18 anos, então veio a fase de quartel, de servir o Exército, de tudo. Alistei-me, fiquei um período afastado do Eremim, acho que foram uns seis meses afastado, sem conseguir trabalho, nada. Essa fase realmente difícil. Eu falei assim: “Ah, não. Eu tenho que fazer alguma coisa. Não. Vou lá pro Eremim”. Fui pro Eremim, fiquei um bom tempo na atividade física, mas ajudando como voluntário na época, sem receber nada, custo nenhum. Eu falei assim: “Eu fico. Não tem problema. Fico aqui até completar 18 anos e ver se eu vou servir realmente o quartel ou não”. Foi nessa fase de 17, 18 a 18 pra 19 que eu descobri que eu ia ser pai. Eu falei assim: “E agora, meu Deus do Céu, eu vou fazer o que da minha vida?”. Sem um trabalho fixo e ser pai. Foi onde que entrou minha família, minha mãe, meu pai. E pra falar pra eles que ia ser pai? Eu a conhecia daqui que ela fez parte de outro grupo de jovens que tinha lá do Eremim também, mas nunca ela me deu bola, também nunca imaginei ficar com ela, tudo. Depois que nós fomos pra uma viagem que aconteceu. Ficamos lá, voltamos, eu pensei que ela não queria mais nada comigo e toda história até descobrir que ela ficou grávida. Ficamos namorando três meses. Com três meses ela ficou grávida. Nem chegamos a ficar dois anos juntos. O nome dele é Caíque Giovani, ele está com 11 hoje.

O curso que tinha lá no Eremim era monitor esportivo. Na época veio também o CREF, que era Conselho Regional de Educação Física e pra você atuar nessa área você precisava ter esse registro de professor realmente. Fiquei um ano fazendo cursinho, depois eu prestei na antiga Uniban na época, que era Educação Física mesmo. Eu fiz lá. Próximo da minha casa, ia de bicicleta. Fiz lá onde que eu decidi realmente fazer. Comecei a fazer em 2006. “Educação Física deve ser fácil”. Eu falava pras pessoas, não é fácil, tinha várias matérias: Fisiologia, Cinesiologia, Anatomia. Teve um seminário, lembro-me como se fosse hoje, um seminário que era pra falar sobre os músculos, onde que era a origem e a inserção do músculo. Estou eu lá na frente, comecei a falar, comecei a falar, a professora ficou olhando pra mim: “Meu Deus do céu, o que esse menino está falando?”. Falei um monte de coisa lá nada a ver, mas enfim, depois eu falei: “Agora eu tenho que estudar. Tenho que buscar”.  Tinha a biblioteca da escola, chegava um pouquinho mais cedo, tudo, ia buscar, ia pesquisar. Olha, foi entre os 19 e 20 anos, foi onde eu já comecei a desenvolver algumas atividades lá no Eremim. Ficava acompanhando os outros educadores, mas foi onde realmente eu comecei a desenvolver algumas atividades na parte de educação física. É o meu primeiro emprego remunerado até hoje. Porque eu só trabalhei lá, só lá no Eremim. Além de outros eventos que eu trabalhei também no Cidade Semana como monitor recreativo. 

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