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História

Educação, uma oportunidade a ser aproveitada

História de: Welington dos Reis Istrudis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/07/2020

Sinopse

Welington conta sobre sua passagem pela Fundação Bradesco, como aluno e depois como profissional. De São Paulo a Minas Gerais, e de volta a São Paulo, ele retrata detalhes de sua infância e de seu crescimento pessoal e acadêmico. Revela, também, que a educação vinda de profissionais qualificados e dedicados foram uma oportunidade e privilégio dados a ele que o possibilitaram de ser quem ele é, assim como muitos outros casos relacionados à Fundação.

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História completa

P1 – Bom Dia, Welington.

 

R – Bom dia.

 

R – Eu gostaria que você falasse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Welington dos Reis Istrudis. Nasci em 26 de fevereiro de 1977, em São Paulo, capital. 

 

P1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – William Mateus Istrudis e Maria Cida ____ Istrudis.

 

P1 – E eles nasceram onde?

 

R – O meu pai nasceu em Itajubá, divisa de São Paulo com Minas, do lado de Minas. E minha mãe nasceu em Icaraí, na Bahia.

 

P1 – E quais as atividades deles?

 

R – Minha mãe agora é dona de casa, mas ela já foi sindicalista, coordenadora de creche, “n” coisas. O meu pai foi metalúrgico, e agora trabalha na empresa de ônibus como apontador. 

 

P1 – E você lembra dos seus avós?

 

R – Lembro. Lembro mais dos meus avós paternos, com os quais eu convivi mais. Assim, a minha avó com quem... Meus avós paternos são meus padrinhos, foram meus padrinhos. Atualmente meu avô paterno está vivo. Minha avó paterna morreu, e minha avó materna está viva também. Mas eu convivi mais com meus avós paternos. 

 

P1 – E irmãos?

 

R – Tenho duas irmãs mais novas. Eu tenho uma irmã que vai fazer 27 anos, e a outra vai fazer 21. 

 

P1 – E qual que é o seu estado civil?

 

R – Sou casado. 

 

P1 – Tem filhos?

 

R – Não, ainda não. 

 

P1 – E na sua infância, onde que você viveu a sua infância?

 

R – Eu nasci em São Paulo. Cresci em Santo André, no ABC, onde a gente morava numa casa nos fundos da casa da minha avó paterna. E depois, quando eu estava pra começar a estudar, o meu pai havia sido transferido de empresa. Ele trabalhava em Santo André, foi transferido pro Sul de Minas. Tinha uma planta lá onde ele tinha que implementar um serviço lá. 

 

P1 – Em Santo André você viveu até quantos anos?

 

R – Eu vivi até os cinco pra seis anos. 

 

P1 – E como é que foi a sua vida lá? Você lembra da sua casa como é que era?

 

R – Eu lembro. Lembro que era bem divertido. Tinha uma garagem grande assim. Embora a gente morasse  numa casa dos fundos, a garagem da casa era bem grande. Tinha os meus primos, eu tinha alguns primos. Eu tenho um primo mais velho e vários primos mais novos. A gente sempre se reunia, brincava bastante. 

 

P1 – Brincava do que, você lembra?

 

R – Ah, a gente… Pega-pega, pique-esconde. Tinha uns pneus antigos que a gente ficava brincando. Tinha aquelas piscininhas de mil litros que a gente também montava no verão. Era um negócio legal. 

 

P1 – Como é que era essa época? Você lembra do local, o entorno da casa, o bairro?

 

R – Lembro, lembro, lembro. Fica entre o Bairro Campestre e o Bairro Jardim, em Santo André. A casa era uma casa grande, longa. Ficava numa avenida que começava onde tinha um viaduto. Então a gente ficava, a casa ficava, de frente pra esse viaduto, mas não encobria toda a vista. Então tinha bastante lugar pra se esconder, pra brincar. O jardim do fundo da casa da minha avó era um jardim legal. Ela tinha umas rosas bonitas lá, era divertido. O piso era daquelas, não sei se é uns ladrilhos quebrados, uns negocinhos assim. Meio que um mosaico, era um negócio legal. E a garagem grande. O lugar onde a gente ficava bastante.

 

P1 – E você começou a estudar lá?

 

R – Não, não comecei a estudar lá não. Quando estava de cinco pra seis anos, foi aí que o meu pai foi transferido. Aí a gente se mudou de lá e foi morar no Sul de Minas. 

 

P1 – E o que, nessa época... Eu queria saber dessa época que você viveu até os cinco anos, se você tem alguma lembrança que te marcou.

 

R – Ah, tanto o meu pai quanto a minha mãe sempre já me incentivaram a estudar bastante. Então viam que eu tinha uma certa facilidade pra entender as coisas etc. Tanto que eu aprendi a ler antes mesmo de entrar, bem antes de entrar na escola. Eu comecei a ler tinha uns quatro anos mais ou menos. Aí eu lembro que eu sempre tinha que arrumar alguma coisa pra ler ou então pra conversar, seja com a minha avó, com o meu avô. E tinha aqueles brinquedinhos onde você fica, aquele de formar palavra, de jogar letra pra lá e pra cá assim. A gente ficava brincando bastante. Eu lia jornal, começava a ler algumas coisinhas de jornal, tira de revista. Então era bastante brincadeira e eu também gostava  tanto de estudar, ler. Ler foi assim uma brincadeira pra mim. Então tinha lá aqueles Velotrol, aquelas motoquinhas lá que a gente ficava brincando também. Eu gostava muito daqueles leites tipo Yakult, aqueles leites fermentado, era bem legal também. Eu lembro bastante dessas coisas, e minha avó que sempre cozinhou bastante, fazia a festa. Ela era o centro da família. Minha avó paterna sempre foi o centro da minha família. Festa de Natal a gente ficava... O meu avô comprava na mercearia, na bomboniére, comprava aquele monte de chiclete, bombom, chocolate. E aí a gente tipo espalhava no chão, o pessoal, a primaiada ficava brigando pra pegar os chicletes, bolacha. Essas coisas assim. Era um negócio legal, era bem divertido. 

 

P1 – A cidade, você lembra alguma coisa da cidade?

 

R – Santo André?

 

P1 – É. 

 

R – Lembro bastante. 

 

P1 – Como era?

 

R – Ah, eu não sei se aquela área mudou tanto assim. Só ficou muito mais, só passou a existir muito mais prédios lá. Mas tinha um parque muito legal perto, que hoje o nome acho que é Celso Damião. Mas a gente chamava de o Parque da GE, porque é lá perto da antiga GE, da empresa. Então lá tinha bastante banco de areia pra brincar, parquinho. É uma área bem grande. Tem bastante árvore lá dentro. E era onde o antigo Time da Pirâmide ficava jogando. Então às vezes fazia os treinos lá o William, esse pessoal todo. A gente ficava vendo lá, era bem legal também. Hoje não mudou muito assim. Eu acho que só arborizou mais, mas é uma área bem conhecida assim em Santo André. 

 

P1 – E depois como é que foi? Você viveu lá até os cinco anos?

 

R – Isso, cinco pra seis anos. 

 

P1 – Como é que foi essa mudança?

 

R – Ah, assim, a gente encarou como algo que fosse necessário. Afinal, meu pai estava trabalhando, a gente precisava. Ele tinha algo novo a fazer lá. Era  a cidade onde ele nasceu também, a cidade onde o meu avô paterno nasceu. Então a princípio a gente encarou como um negócio legal, como algo bom assim. Mas ao mesmo tempo eu tive que mudar muita coisa, porque talvez não tivesse mais o parque, talvez não ficasse mais tão perto dos meus primos. Então era um misto de “Ah, vamos ver algo novo” e apreensão. 

 

P1 – Como é que era?

 

R – É igual o clima. O clima também era bom pra mim porque eu tive uma série de problemas respiratórios, bronquite, essas coisas. Então era um clima bom, que é bem próximo de Campos do Jordão. Então pra mim era bom, pro meu tratamento. 

 

P1 – Você lembra da casa? Como é que era o lugar pra onde você foi?

 

R – Pra onde eu fui? Lembro. Era uma casa padrão, em um daqueles grandes conjuntos habitacionais. Só que não... Tipo, não era em prédios. Então cada um tinha uma casa. Várias ruas, casas do mesmo padrão. A gente ficava...  O bairro começava e a gente ficava na primeira rua. Tinha umas 20 ou 30 ruas. Perto do rio, onde passava um rio. Perto do morro também, tinha um morro do lado. E tinha um descampado na frente que ligava os outros bairros. Era um bairro mais afastado. Não era um bairro central de Itajubá, era um bairro um pouco afastado. 

 

P1 – E o quê que mudou na infância, como criança? Outras brincadeiras?

 

R – Eu quase nunca tinha visto o mato na vida. Então, árvore eu via no parque. Assim, ver animais, vaca, essas coisas, eu nunca tinha convivido assim, a não ser em circo. Água branca, essas coisas, mas...

 

P1 – Você lembra de algum acontecimento pitoresco assim, você que foi da cidade pra uma cidade menor, mais campo?

 

R – Ah, o pessoal falava muito do meu sotaque porque o pessoal lá fala diferente. Eu também falo diferente pra eles. Então era sempre, tinha bastante disso daí. Mas de um modo geral era legal. A escola onde eu comecei a estudar era perto, então dava pra ir a pé. E era divertido. Às vezes vinha alguém me buscar, às vezes me levava.

 

P1 – Você lembra do seu primeiro dia de aula?

 

R – Lembro um pouco. Lembro que tinha aqueles uniformes que era só um pano xadrez com um bolso na frente e com o nome escrito nele. Sempre reclamavam. Eu reclamava primeiro porque era feio, segundo porque o nome meu sempre foi escrito errado. Eu sempre tive esse problema, sempre escreviam o meu nome errado. Eu já sabia escrever o meu nome, eu já sabia ler. Então eu argumentava bastante. Escreviam com dois ‘eles’, escreviam sem o ‘w’, acontecia de tudo. Meu sobrenome então eu já desisto. 

 

P1 – Como é que era essa escola que você estudou?

 

R – Ah, era uma escola pública.

 

P1 – Municipal?

 

R – Era estadual. Ela era uma antiga casa de fazenda, então tinha muitas coisas adaptadas. Tinha salas grandes e tinha salas muito pequenas. Tinha até um antigo galinheiro que era uma sala de aula, tanto que minha segunda série foi nessa sala. Então tinha problema de chuva, chovia, caia goteira, barulho pra caramba. Mas as coisas se adaptavam. Eu sabia que não eram as melhores condições, mas o pessoal se esforçava bastante. Os professores eram bons, se dedicavam. 

 

P1 – De qual matéria que você gostava mais?

 

R – Ah, sempre fui mais voltado pra matemática em geral. Então...

 

P1 – Exatas?

 

R – Isso. Mas eu tinha facilidade de leitura porque afinal eu tinha aprendido em casa. Então, enquanto as outras pessoas, os outros alunos estavam tentando aprender a ler, eu estava... Às vezes tinha atividade só pra mim mesmo, pra mim e pra uma ou outra pessoa que já soubesse ler talvez. Então muitas vezes eu acabava dormindo bastante na classe. eu dormia muito. Tinha várias vezes que minha mãe tinha que me buscar porque eu estava dormindo.

 

P1 – Ah, eu ia perguntar como é que era o seu dia-a-dia lá na escola. 

 

R – Não, era... Isso era bem engraçado porque eu tinha um tratamento que estava fazendo e tal e eu tomava bastante remédio, bastante remédio que causava sono. Então, se a aula não era muito interessante, lá estava eu capotando na sala. 

 

P1 – Qual o período?

 

R – Qual o período? Foi, acho que começou na parte da tarde, depois de manhã. O pré e a antiga primeira foram à tarde. Foram à tarde? Foram. E depois de manhã, até a segunda série. 

 

P1 – E você lembra, você teve um único professor? 

 

R – Um em cada ano, né? Sim. 

 

P1 – Teve algum professor que te marcou?

 

R – Ah, tem uma professora. A professora do pré-primário era uma pessoa bastante dedicada. E muito tempo depois ela ainda perguntava pra minha mãe: “Olha, como que está o Welington, como ele está? Eu sei que ele está se dando bem, ele está trabalhando e tal”. Então isso até alguns anos atrás ela ainda perguntava pra minha mãe. E é uma professora que compreendia que às vezes o fato de eu estar dormindo na classe não era indisciplina. E entendia que a intenção era aprender bastante coisas novas. Então ela sempre incentivava isso, mesmo que desse algum exercício a mais, desse algum trabalho a mais. Então foi uma professora que eu diria que...

 

P1 – Você lembra o nome dela?

 

R – Acho que é, era Maria Estorina Almeida, se não me engano. 

 

P1 – E como é que era o seu desempenho na escola como aluno?

 

R – Graças a Deus, sempre bom. 

 

P1 – Gostava de estudar?

 

R – Sim, bastante. 

 

P1 – E lá você estudou até...

 

R – Até a segunda série. 

 

P1 – Até a segunda série?

 

R – Isso.

 

P1 – E depois?

 

R – Depois foi quando eu entrei na fundação de lá, na Fundação Bradesco de lá, na terceira série. Entrei na terceira série. 

 

P1 – Como é que foi  pra você essa mudança?

 

R – Bom, meu pai conhecia a escola porque a fábrica onde ele trabalhava era a 200 metros da escola, perto do Distrito Industrial. Então ele conhecia, via a fama da escola, porque ela é famosa até hoje. E meu tio, irmão da minha mãe, creio que ele ou estudou ou trabalhou no Bradesco; então já ouvia falar na fundação. Era uma escola diferente. Ele se esforçava pra tentar me colocar lá, eu e minha irmã, minha irmã do meio. Então ele se esforçava pra fazer isso. Eu lembro que teve uma vez, foi quando ele foi e falou: “Nossa, eu consegui e tal”. Que ele tinha conseguido primeiro pra minha irmã, pelo que eu me lembro, mas pra mim ainda não tinha conseguido. Aí acabou encaixando e conseguiu.

 

P1 – E o quê que você sentiu de diferença de uma escola pra outra?

 

R – Ah, a estrutura. Eu acho que...

 

P1 – Você lembra do seu primeiro dia de aula na escola da Fundação?

 

R – Não quanto às imagens assim, mas quanto ao dia-a-dia da escola era totalmente diferente. Então você tem mais condições. Você tem maior atenção. Você tem maior infra-estrutura. 

 

P1 – Como é que era a rotina? Chegava lá...

 

R – Bom, acho que eu comecei estudando, de manhã? Eu acho que foi de manhã. Acordava bem cedo, porque a fundação ficava de um lado da cidade e eu ficava do outro lado da cidade. Então, era um ônibus que eram uns 40 minutos, 30 a 40 minutos. Eu lembro que acordava muito cedo, ia pra lá e era... Geralmente no inverno você fica com muito sono, e muita neblina também e tal. Era puxado mas ao mesmo tempo era bastante divertido. 

 

P1 – Chegava lá e ia direto pra aula? Tinha um lanchinho? Como é que era _______?

 

R – Não, acho que o lanche era no meio da aula. Então você tinha sempre um lanche no meio da aula. Então era o que? Começava às 7:00. Acho que 9:00, 9:15 tocava o sinal, aí tinha um lanche. Depois voltava e ficava até 11:30. Depois, com o passar do tempo, foi até meio dia mais ou menos. 

 

P1 – E as atividades paralelas às aulas tradicionais?

 

R – Ah, teve Educação Física. Lá, essa é uma coisa engraçada também. Como eu falei, eu sou muito mais urbano do que rural. Lá, embora seja uma cidade de porte médio, então na quinta ou sexta série tinha a chamada aula de Técnicas Agrícolas. A escola tinha um pomar, uma granja, uma plantação, e a gente tinha aulas pra cuidar de horta, pra aprender a cuidar do pomar, aprender a depenar uma galinha e assim por diante. Então eram coisas que eu não... Não eram do meu dia-a-dia. Eu acho que só foi enquanto eu estava estudando lá. Mas é uma experiência legal, principalmente pras pessoas que nasceram lá, cresceram lá. Porque muitas vezes a pessoa mora às vezes mais afastado, mora numa, às vezes podia morar numa zona rural ou podia morar numa fazenda, e ela aprendia coisas lá que podia usar no seu dia-a-dia. Não foi o meu caso mas eu acho que todas pra mim são legais. Então eu aprendi a plantar hortaliça. Minha mãe começou uma hortinha em casa e então eu ajudava ela também e tudo. Mas são coisas diferentes. Depois, na sétima e na oitava, aí tinha bastante aula de marcenaria. Então tinha Técnicas Industriais. Tinha bastante atividade. As meninas faziam, eu lembro o nome, era Economia Doméstica. Então aprendia como administrar uma casa, coisas assim. Os meninos faziam aula de marcenaria e as meninas faziam essa aula de economia doméstica. 

 

P1 – Como é que era quando você, um amiguinho ou uma amiguinha de outra escola, quando vocês, cada um contava da sua escola como era, e você contava: “Ah, lá tem horta, tem aula de marcenaria, economia doméstica”. Você lembra de alguma situação assim?

 

R – Não, assim, o pessoal via com bons olhos. Mas, na verdade, muita gente queria entrar na fundação. Como eu disse, é uma escola de referência. Então as pessoas que não trabalhavam lá gostavam, sabiam que isso era feito e a vontade delas era poder ingressar lá, até porque forneciam material. Na fundação se fornecia material, fornecia uniforme, e aí você tinha escola onde a pessoa tinha que comprar o material, comprar a camiseta, o uniforme, e lá você ganhava. Então, pra quem é de baixa renda é fundamental. Isso era bastante importante. Isso atraía as pessoas, as pessoas queriam se matricular.

 

P1 – Você aprendeu a fazer aquele banquinho de madeira?

 

R – Não, eu aprendi a fazer instalação elétrica básica, ligar uma lâmpada, coisas assim. E eu gostava muito de fazer era taco de basebol. Então a gente punha um pedaço de madeira no torno e a gente ficava fazendo taco de basebol. Cadeira não, cadeira eu acho que não tinha coordenação motora pra poder fazer uma cadeira. 

 

P1 – Um banquinho, eles faziam um banquinho. Você conhece o banquinho ________

 

R – Não, não. 

 

P1 – Um banquinho de madeira que eles faziam. Isso começou lá em Conceição do Araguaia. 

 

R – Ah, legal. Assim, cada turma dividia suas equipes e cada pessoa fazia, ou cada equipe fazia algo que achava legal, um projeto que achava legal. 

 

P1 – E além dessas atividades você lembra mais alguma ligada à arte, _____?

 

R – Educação Artística. Tinha professores bons de Educação Artística. Aprendia a fazer desenho, um pouco de, aprendia um pouquinho de história da arte, essas coisas. Fanfarra, então o pessoal tocava em fanfarra ou desfilava em fanfarra. 

 

P1 – Você participou?

 

R – Participei, participei. Não tocando instrumento, mas assim meio que liderando a banda assim.

 

P1 – E lá em Itajubá tinha também Ação de Graças?

 

R – Tinha, é verdade. Tinha sim. 

 

P1 – Tinha? E como é que era lá?

 

R – Ah, fazia-se algo, claro, em escala menor mas semelhante ao que tinha na Cidade de Deus. Então tinha todo aquele ensaio, aquela preparação, aqueles painéis humanos que o pessoal fazia. Era bem, era um evento, né, era um grande evento. 

 

P1 – E Sete de Setembro saía a fanfarra pela cidade?

 

R – Desfilava escola aqui. Tinha o desfile da, que tem o desfile dos militares. Lá tem um batalhão do exército, então tinha o desfile dos militares, da polícia e das escolas. Dentre as escolas, a fundação desfilava também. 

 

P1 – Como é que era a relação da escola com os pais?

 

R – Ah, exigia uma participação. Então, reunião obrigatória. Tinha que ir, se não fosse pedia justificativa, mandava avisar. Quem tinha telefone, ligava o telefone; se não tinha telefone mandava avisar de alguma forma. Então, assim, existia a participação, saber o que se passa, o que nao se passa. Se alguém precisava sair por algum motivo, precisava ser autorizado. Então a participação era bem exigida. 

 

P1 – E além dessa participação como pais de aluno tinha algum trabalho interativo pros pais ou com a comunidade? Você lembra?

 

R – Ah, eu não sei muito. Coisas como o dia das mães, dia dos pais. Eu acho que eles faziam, umas coisas assim no bairro onde a escola ficava, no bairro vizinho. 

 

P1 – Eles ofereciam cursos pra comunidade?

 

R – Tinha o curso profissionalizante. Tinha o Telecurso que eles davam. A minha mãe estudou Telecurso na fundação por um bom tempo. Então a minha mãe fez várias disciplinas do primeiro grau estudando à noite lá. Tinha bastante pai de aluno ou mesmo sem ter relação com a escola, fazendo esse curso Supletivo. 

 

P1 – E você que é aluno da fundação, sua mãe estudou lá, que diferença que você, se houve alguma diferença, com a sua mãe depois que começou a estudar? Como é que foi _________ mesma escola?

 

R – Não, acho que não. Assim, eu acho que eles dão, eu penso assim, eles dão oportunidade pra quem quer usar essa oportunidade. Minha mãe sempre quis estudar bem mais, só que ela não teve oportunidade na época. A época que seria a época dela estudar, ela não teve oportunidade disso. A minha mãe morava bem, ela me dizia, morava bem no interior da Bahia. Ela é a irmã mais velha. Ela deixou de estudar pra ajudar a família dela, mas ela nunca… Ela sempre quis e quer ainda estudar. Então quando há oportunidade e a pessoa quer, ela vai. Então minha mãe, eu vejo a minha mãe como um ótimo exemplo disso. Eu acho que se ela não tivesse interesse, ela não teria feito o que ela fez até hoje. Ela, como eu falei, ela foi sindicalista.E la via que o pessoal do bairro aonde a gente morava, via que não tinha muito esporte, essas coisas. Ela fundou um clube. Ela trabalhou na associação de bairro, era Presidente da associação de bairro. Então ela fundou o clube, assim, falando pra um, falando pra outra pra doar alguma coisa .Doar uma rede pro vôlei, doar uma bola. Ela formou isso do nada.

 

P1 – Isso lá em Itajubá?

 

R – Isso. Ela via isso, que a gente... Esse acho que foi talvez um dos impactos da gente ir pra lá. Eu morava perto de um parque e tinha lá infraestrutura: podia jogar vôlei, podia brincar, jogar bola. E lá não tinha. Naquele bairro pra onde a gente foi não tinha. Então ela sempre julgou que isso é interessante, é importante ter atividade pra criançada. Então ela envolvia, ela organizava, chamava os vizinhos, chamava o pessoal. Fundou o clube, fundou a associação. Pedia doação de uniforme, bola etc. Organizava campeonato. Isso foi um bom tempo.

 

P1 – Você participava?

 

R – Participava, participava bastante. Então ela sempre quis evoluir e se envolver. Então sempre que pôde, ela fez isso. 

 

P1 – E essa oportunidade dela ter estudado na fundação você achou que foi importante pra ela?

 

R – Foi pros anseios dela. Então ela, como eu falei, ela quis, ela sempre quis estudar, mas ela não tinha oportunidade pra tanto. 

 

P1 – Esses cursos eram pra comunidade ou só pra pais de alunos?

 

R – Não, não, pra comunidade. O fato dela ser minha mãe era coincidência. 

 

P1 – E a sua turma? Você lembra da sua turminha dessa época como era?

 

R – Muito pouco, que realmente faz tempo, mas... Eu, principalmente nos últimos anos, sétima e oitava série, aí tinha um pessoal mais organizado. Era um pessoal que, eu lembro que era um pessoal bem mais criativo, por assim dizer. Então tinha aqueles jornais falados, a gente organizava coisa pra caramba. Tinha que fazer um comercial. Tinha que organizar negócio de fazer comercial, fazer atividade mesmo de jornal. Tinha que pesquisar notícia, saber como falar a notícia, isso nas aulas de português. Então, era bastante legal. O pessoal se enturmava bastante. E nessa época também tinha atividades relacionadas ao esporte. Então quem gostava de fazer bastante educação física, praticava certo esporte e tal. Embora nunca fosse o meu forte assim, eu jogava handebol. Então, eu joguei dois, três anos lá. Eles organizavam os times, tinha campeonato inter-escolas. Então, cada um ficava na atividade que mais se encaixava. 

 

P1 – Lá em Itajubá você estudou até qual série?

 

R – Até a oitava. Terminei o primeiro grau, voltei pra cá porque...

 

P1 – Pra cá, pra onde? Pra Santo André?

 

R – Pra São Paulo. Voltei pra São Paulo e meu pai já estava pra cá. Meu pai já havia voltado. Minha mãe mora em Itajubá até hoje. 

 

P1 – Você se formou lá então?

 

R – O primeiro grau lá. 

 

P1 – Como é que foi a formatura, você se lembra?

 

R – Não foi bem... Não houve formatura. Havia até uns certos conflitos lá que não havia formatura. Julgava-se que a formatura era no segundo grau. Mas a gente organizava uma festa, mesmo não dentro da escola. Mas tinha a colação de grau. Não tinha a festa, não era a formatura. 

 

P1 – Welington, e essa questão da disciplina na Escola Bradesco lá da fundação?

 

R – É grande. 

 

P1 – Como é que era? Você lembra de algum caso assim pra você descrever, que tenha ligação forte com a questão da disciplina?

 

R – Tentar matar aula era difícil. Tentar matar aula era bem difícil.

 

P1 – Era? Porque?

 

R – Ah, tinha os inspetores, tinha uma estrutura que não te deixava fazer isso. Mas como tinha muita atividade, a gente estudava de manhã e tinha atividade à tarde. Então às vezes ficava na escola o dia todo, acabava ficando na escola o dia todo. Se tivesse dinheiro pra ir pra casa de ônibus e voltar a pessoa ia, almoçava e voltava, mas se não ela ficava lá. 

 

P1 – Comia lá?

 

R – Comia lá. Assim, era limitado, não era todo mundo que podia, mas quem justificasse poderia. Algumas vezes eu fazia isso, não era tão raro assim. 

 

P1 – E a biblioteca, você lembra da biblioteca dessa escola?

 

R – Lembro. Grande, organizada. Ela era bem organizada. Embora ainda fosse a organização baseada em fichários, não tinha nada informatizado na biblioteca. Estava começando a fazer. Mas era, você tinha bastante livros pra você, não só didáticos mas livros de leitura, livros policiais, romances policiais, literatura em geral. 

 

P1 – Atendia bem a necessidade?

 

R – Atendia, atendia bem. Assim, eu não me recordo muitas vezes de eu não ter algo ou em casa ou na biblioteca da escola. Então muitas coisas eu consultava em casa e muitas coisas eu consultava na biblioteca da escola. Eu não lembro de ocasiões em que o que eu precisava procurar não estivesse lá. 

 

P1 – Você lembra, você sabe se essa biblioteca era aberta à comunidade, se alguém tivesse interesse em estudar alguma coisa?

 

R – Eu acho que pra consulta sim. Eu acho que até pra consulta sim. O pessoal do bairro que morava lá do lado, eu acho que pra consulta sim. Não lembro se emprestava livros pra quem não era aluno ou pai de aluno, mas pra consulta sim. 

 

P1 – Então você terminou e veio pra cá?

 

R – Eu voltei pra cá. 

 

P1 – Voltou pra cá e estudou onde?

 

R – Na Matriz, na Fundação Bradesco. 

 

P1 – Continuou estudando na fundação?

 

R – Na Fundação Bradesco de Osasco, eu pedi transferência. 

 

P1 – Você veio pra cá e foi morar aonde?

 

R – Bom, comecei morando na casa da minha avó materna, em Osasco. Morei por uns seis meses lá. Depois fui morar com o meu pai. Aí era até meio longe. Minha avó morava em Osasco mas meu pai morava na Zona Leste. Então era um caminho bem longo, era dois ônibus, dois, três ônibus, ou dois ônibus e metrô. 

 

P1 – Aqui em Santo André você morou com a sua avó paterna?

 

R – Sim. 

 

P1 – E aí você foi pra Itajubá, voltou e foi morar com sua...

 

R – Morei com minha avó materna por seis meses, por um tempo. 

 

P1 – E como é que foi? Você lembra como é que foi? Você chegou aqui, foi morar com a sua avó, voltando de uma cidade menor?

 

R – Não, assim, na verdade o que eu não gostava era da cidade menor. Durante as férias, eu sempre voltei pra cá. Do primeiro dia de férias até o último. Então eu gostava, eu sempre gostei de São Paulo em geral, de Santo André em particular. Então eu sempre gostei daqui. Tinha a família, tinha o pessoal que ficava comigo, tinha os amigos meus também. Então, durante as férias, eu aproveitava e vinha pra cá. Então, não foi um choque. Na verdade, era algo normal. Não era tão normal ficar muito com a minha avó materna. 

 

P1 – Quando você vinha passar férias, você vinha passar férias com essa avó em Osasco?

 

R – Não, com a minha avó paterna. 

 

P2 – E, só voltando um pouquinho. Antes de você vir pra cá, no final, lá quando você ainda estava em Itajubá, você já era adolescente, né? O que vocês faziam lá pra se divertir, pra sair?

 

R – Bom, eu não saía muito porque eu não tinha muitas condições pra sair muito. Mas quando sobrava um ou outro dinheiro eu ia numa matinê, numa danceteria, em alguma coisa assim. Tinha bastante festa junina, quermesse. Tinha os eventos estudantis também, evento esportivo, essas coisas. Itajubá é uma cidade legal porque tem muita escola, muita faculdade. Então tem a Faculdade de Engenharia Federal que está entre as melhores de Engenharia Elétrica. Então é uma... Sempre é uma cidade muito estudantil, tem muita gente jovem. Embora seja uma cidade de interior, tem muita gente jovem. Muito público que está lá durante as aulas e sai quando as aulas acabam. Então tem muita gente, muito giro de pessoas. A gente ia em bastante evento assim, tanto evento esportivo quanto cultural: show, essas coisas. 

 

P1 – Então, voltando aqui pra Osasco. Como é que foi a sua adolescência aqui em Osasco, como é que foi?

 

R – Bom, Osasco mesmo eu fiquei muito pouco tempo. Eu fiquei muito tempo mais com o meu pai, em São Paulo. Fiquei com ele até, acho que até depois de eu ter terminado o segundo grau. Depois, ainda passei um tempo com uma tia, irmã da minha avó materna. Mas um bom tempo eu acabei ficando com  o meu pai. Ah, era divertido também porque eu morava ali Parque São Lucas, perto ali da Vila Prudente. Então ali é perto da Mooca, que é perto de algumas danceterias assim. O meu foco era bastante... Eu não tinha muito tempo que eu ficasse livre porque, afinal, eu já estava trabalhando. Como eu falei, desde o primeiro ano, eu passei a trabalhar na fundação. Então, ficava o dia todo trabalhando, à noite estudando. Então, em casa eu ficava muito pouco. 

 

P1 – Mas voltando um pouquinho. Osasco, quando você foi pra Osasco, você tinha quantos anos?

 

R – 15. 

 

P1 – 15 anos. Aí você foi estudar na fundação?

 

R – Isso. 

 

P1 – Como é que foi? Você sentiu diferença da escola da fundação de Itajubá pra escola da fundação de Osasco?

 

R – Tamanho, o tamanho. O modelo era o mesmo. 

 

P1 – O modelo de ensino?

 

R – Sim, o modelo de ensino era o mesmo. Embora tivesse mais cursos, tinha muito mais gente.

 

P1 – Aqui?

 

R – Sim. E era o curso que eu estava querendo fazer, que era o de Processamento de Dados. Então, eram turmas, assim, o número de turmas era muito maior. 

 

P1 – Qual o período que você estudou?

 

R – Noturno. 

 

P1 – Noturno. E aí você começou a trabalhar?

 

R – Também. 

 

P1 – Trabalhava onde?

 

R – Na fundação.

 

P1 – Na Fundação Bradesco?

 

R – Sim. 

 

P1 – E o quê que você fazia na Fundação Bradesco?

 

R – Trabalhava como contínuo. 

 

P1 – Como é que era o seu trabalho?

 

R – Eu trabalhava junto à diretoria da instituição. Não a diretoria da escola, mas a diretoria da instituição Fundação Bradesco. Então, tinha muito trabalho de pegar documento, levar documento. Seria uma espécie de Office-boy interno. A Cidade de Deus é grande, tem vários departamentos. Então, você tinha que levar coisas de um departamento pra outro. eles ficam em prédios distintos. Então, a gente levava muita coisa de um departamento pra outro, memorando, essas coisas. E eu também trabalhava bastante nos computadores. Tinha alguns computadores lá. Tinha que fazer, redigir um documento, trabalhar com planilha, trabalhar com banco de dados. Então, eu trabalhava bastante com isso. Eu sempre trabalhei muito, desde cedo eu trabalhei bastante com informática.

 

P1 – E como é que foi esse curso? É um curso novo, né?

 

R – Na verdade o curso de Processamento de Dados é antigo. Ele tem um bom tempo. Eu tenho uma gerente hoje, na minha empresa, que ela estudou lá e fez o curso de Processamento há muito tempo. 

 

P1 – Esse curso você lembra qual que era a sua turma?

 

R – Ah, acho que era... Sei que começou, acho que foi Primeiro A, Segundo A, Terceiro A e Quarto B. Assim, tinha duas turmas: A e B. Eu não sei, não lembro se desde o começo estava em turma B ou A. No quarto ano, eu tenho certeza que era o Quarto B. 

 

P1 – Mas eu digo assim, que turma de anos, quantos anos. 

 

R – Ah, ta. Eu sou da turma que se formou em 1995. Quatro anos: 1992, 1993, 1994 e 1995.

 

P1 – Quatro anos esse curso técnico?

 

R – Sim, o Curso Técnico em Processamento de Dados era de quatro anos. Não sei como é hoje. 

 

P1 – E como é que foi, teve formatura?

 

R – Teve, teve formatura sim. Foi bastante legal. Era um grande evento porque tinha a turma de Processamento, tinha a turma do curso chamado Ensino Regular - que era o segundo grau normal, Magistério, Eletrônica, Administração. Então, era muita gente, muita gente mesmo, e muito formando. Realmente era um big de um evento. Foi aonde? Foi no Juventus a formatura. Era um negócio muito grande. 

 

P1 – Como é que era pra você trabalhar na fundação, estar fazendo um curso técnico, um curso de ponta na fundação? Você lembra o seu sentimento como é que era, como é que você se sentia?

 

R – Eu me sentia bastante privilegiado. Por quê? Era um curso muito bom, voltado realmente pra você poder começar a trabalhar. Acho que minha carreira passou a ser delineada mesmo por causa desse curso. Se não fosse por esse curso, muito dificilmente eu teria tido a oportunidade de seguir a carreira que eu tenho. E eu acho que ela é boa. Porque é como eu disse: se você tem uma oportunidade e a pessoa quer pegar, ela pega. Então, era uma oportunidade boa, eu agarrei essa oportunidade e eu me sentia privilegiado por ter isso. O curso muito bem fundamentado. Era um curso técnico, mas que, na verdade, você podia considerar que ele é equivalente ao primeiro e segundo ano de faculdade de uma área técnica, numa área de informática. Então, você tinha muito conhecimento aplicado. Tinha a formação de segundo grau. Uma coisa não dispensava ou minimizava a outra. Você tinha a formação de segundo grau sólida mais a formação técnica. Mesmo no quarto ano, onde na prática deveria ser todo ele só de disciplinas técnicas, era obrigatório ter português e matemática. Então, realmente uma coisa não dispensava  a outra. Era um curso fundamental e pra mim foi excelente. Eu acho que eu não teria como dizer de outra forma. 

 

P1 – E você como aluno da fundação, trabalhando na fundação ali, como é que era? Você participava das festas na Cidade de Deus? Como é que, o quê que você lembra dessa época?

 

R – Bom, assim, os eventos que eram dentro da fundação sim, participava. Feira de Informática, Feira de Eletrônica, era a época das feiras. Cada curso mostrava o que fazia de bom, e sempre tinha uma briguinha de Processamento de Dados com Eletrônica. Sempre um queria mostrar mais do que o outro curso. Eu, como não tenho parentes na fundação, - aqui na fundação de Osasco tem bastante filhos de funcionário do Bradesco -  eu não estou nesse perfil. Mas trabalhava na fundação, e nos eventos que eram da escola. Eu participava bastante. Na Ação de Graças, todo mundo se reunia na época que tinha aqueles eventos de Ação de Graças. Era toda aquela coisa grande, aquele evento grande. Teve uma época que passava na televisão. 

 

P1 – E mesmo sendo do curso noturno você tinha alguma participação naquelas coisas que sai água pra fazer...

 

R – Quem tinha disponibilidade sim. Quem poderia fazer alguns ensaios à tarde fazia. Então, naturalmente era o pessoal que estudava mais ou à tarde ou    o pessoal à noite que por alguma razão não trabalhava. Eu não tive muito disso porque afinal eu realmente, como eu falei, sempre trabalhei desde o primeiro ano. Mas onde eu poderia participar eu participava. 

 

P1 – Como é que foi trabalhar na fundação, como é que foi o processo? Você lembra?

 

R – De como eu entrei lá?

 

P1 – É, como você entrou? 

 

R – Bom, eu havia sido transferido. Como eu falei, eu tinha sido transferido da escola de Itajubá pra lá. Eu deveria fazer o vestibulinho só que eu acabei não fazendo porque eu tinha um histórico escolar que me fazia ser transferido sem a realização de vestibulinho. E eu vim referenciado pelo Diretor da escola de lá, acho que era o Sr. Ivanil na época, Ivanil de Castro. Aí fui transferido, aí comecei a estudar. E eles conheciam o meu histórico: que eu nunca tive grandes posses assim nem nada e seria bom que eu pudesse ter um emprego. Muita gente que era filho de funcionário ia e trabalhava, conseguia começar o primeiro emprego. Na maioria dos casos foi lá. Mas eu, como eu não tinha, não era filho de funcionário nem nada, eu conversava com as pessoas, com a supervisora etc, e que falou: “Olha, eu acho que tem um emprego”. Me cadastrei. Você tinha um cadastro pra você, quem queria trabalhar lá no Grupo Bradesco. Quem queria trabalhar lá aparecia. Quando tinha oportunidade, a pessoa ia sendo selecionada e começava a trabalhar. E aí apareceu essa oportunidade pra mim: “Olha, você vai trabalhar na Fundação Bradesco na área da diretoria”. Eu falei: “Olha que legal”. E aí eu falei: “É isso que eu preciso”. 

 

P1 – E foi logo?

 

R – Acho que foi logo. Eu não lembro se foi em Maio. Assim, não foi muito tempo. Foi logo no primeiro ano. Então, eu lembro que foram quatro ou seis meses, e eu já comecei a trabalhar lá.

 

P1 – Como é que foi? Você lembra lá do início?

 

R – Era engraçado porque você trabalhava com os diretores, trabalhava com a Diretoria Executiva. Estava substituindo outro contínuo que passou a trabalhar num outro departamento. Foi promovido, foi trabalhar em outro departamento. Eu lembro que tinha que usar aquelas gravatas. Eu nunca havia usado gravata, aquelas gravatas tricotadas. Então, aquilo ficava meio feio, usar uma gravata normal. Você não tinha uma camisa à altura. E aquilo incomodava bastante, mas era algo que era necessário. Mas depois aos poucos o ____ foi ficando mais casual, mas sempre com todo o respeito e a disciplina. Era um departamento aonde você, assim como outros departamentos, mas era um departamento onde a disciplina era mais rígida. Você tinha um nível de sigilo maior. Você tinha documentos que você não podia ir na área de xerox e falar sobre um memorando que ia de um diretor pra outro. Você não podia ficar comentando muito sobre o seu trabalho em si. Mas era uma área bem legal. Tinha bastante coisa pra fazer. E eu trabalhava junto à secretaria, às secretárias da Diretoria Executiva da fundação. 

 

P1 – Quem eram os diretores na época, você lembra?

 

R – Lembro. Trabalhei com a Denise Aguiar, com o João Calheiro, com o Ricardo Dias, Antônio Peres. Tinha o pessoal da antiga Pecplan, que era a empresa que cuidava da tecnologia de inseminação artificial. Trabalhava também com  a diretoria da Pecplan que ficava no mesmo andar, terceiro andar do prédio do antigo Centrefor. Então, o pessoal conhecia todo mundo. Foi um período muito bom lá. As secretárias estão até hoje: a Miriam, a Débora, Milva. Trabalham lá até hoje. Vira e mexe eu volto lá, pergunto como estão as coisas. Não tenho muito tempo de ir lá, mas quando eu posso eu vou lá, converso com todo mundo. Trabalhei com a Ana Luiza, que foi estendendo as diretorias. Então, eu trabalhei com a Ana Luiza, trabalhei com outras pessoas lá, com as supervisoras das regiões das escolas. E interagia com outros departamentos: Financeiro, RH etc. Mas eu ficava mais tempo era na diretoria mesmo. 

 

P1 – E depois como contínuo você passou a fazer o que?

 

R – Fui pra escriturário. Fui promovido pra escriturário e trabalhava como programador. Era um cargo equivalente de programação. Então, eu fui pro Departamento de Informática da fundação. Eu trabalhava com desenvolvimento, comecei a trabalhar com programação, que era uma das coisas que eu aprendia no curso técnico. Então, uma coisa foi ligando à outra. Você realmente estava aplicando o que você usava. 

 

P1 – Como é que é esse trabalho de desenvolvimento?

 

R – Você tem uma necessidade, você avalia essa necessidade: se ela precisa de um sistema automatizado, um programa que te ajude a cadastrar informações, coletar informações. Então, por exemplo, você tinha feito um sistema que, eu ajudei a fazer um sistema que fazia coordenação de feriados. Você tinha que saber quais eram os compromissos e quais eram os feriados locais de cada escola. Ver quais eram os agendamentos que poderiam ser feitos de eventos ou de reuniões que conciliassem os diferentes feriados locais. Então, era um sistema no qual as supervisoras inseriam os compromissos e aí você tinha que conciliar, guardar isso num lugar central. Desenvolvimento de sistemas é isso: você tem necessidades, você faz a análise dessas necessidades de processar algum dado pra gerar alguma informação ou acelerar a obtenção de informações pro seu trabalho. E aí desenvolve-se a lógica, desenvolve-se os programas e obtém o resultado. 

 

P1 – Deve ter sido interessante porque você como ex-aluno, no papel de ex-aluno, e depois você foi trabalhar nessa parte de organização através da informática, né?

 

R – Então, nesse caso, no período que eu estava no segundo grau em particular - que foi o período onde eu estava trabalhando na fundação -, então era quase que natural. Às vezes eu aprendia alguma coisa, ou alguma coisa que eu já sabia. Alguma coisa que o curso me ajudava a obter, a procurar, pesquisar, eu usava no meu trabalho. Era praticamente uma aplicação direta do que eu aprendia. Isso até o quarto ano, foi quando eu me formei lá. Aí passou alguns meses, foi quando eu fui… Houve o processo de seleção porque no fim do curso técnico você se cadastra pra seleção pra ingressar no banco, pra trabalhar no banco. Isso era um grande diferencial até pra quem não trabalhava antes. Não era o meu caso, mas pra quem passou a trabalhar só depois que se formou no curso técnico, podia ter o primeiro emprego no banco, trabalhar no banco. Eu me cadastrei, assim como todo mundo da minha turma se cadastrou. 

 

P1 – Já tinha nesse período, os três melhores alunos eram contratados?

 

R – Hã hã. 

 

(Pausa)

 

P1 – Eu tinha perguntado pra você, já tinha nessa época ou nesse curso dos três melhores alunos serem contratados pelo banco? Porque em outros cursos a gente sabe que tem. 

 

R – Sim, acho que lembro. Lembro que tinha isso sim. Você, tinha meio que um compromisso de contratar os três melhores. Sim, havia. Eu estava entre os três. 

 

P1 – Você estava entre os três?

 

R – Estava. 

 

P1 – Welington, qual foi o seu maior desafio nesse período que você trabalhou pra fundação enquanto você foi aluno?

 

R – Ah, eu acho que era poder conciliar o trabalho, o fato de eu morar longe - morava em São Paulo - e a escola em si. Sempre me davam oportunidade de: se tivesse alguma prova você podia ficar um tempo pra estudar. No dia da prova, às vezes eu me reservava numa sala, ficava estudando pra prova. Então, isso era um constante desafio. Não era um. Não foi fácil, foi bastante puxado. 

 

P1 – Mas na época do curso você morava na Zona Leste?

 

R – Sim.

 

P1 – Ah, depois de Osasco você...

 

R – Eu fiquei seis meses em Osasco. Eu fiquei muito pouco em Osasco. Na verdade, eu passei a conhecer Osasco por causa do Bradesco. Como eu disse, eu sempre conheci São Paulo e Santo André, a área que eu conhecia. Mas depois de seis meses, eu mudei pra Zona Leste, e realmente era longe. Realmente era bem longe. 

 

P1 – Bom, e você estava contando que você se inscreveu pra trabalhar. 

 

R – Sim. 

 

P1 – E aí como é que foi?

 

R – Bom, aguardar, né? Tinha lá o processo de entrevista, de seleção. Tinha lá os pré-selecionados. Tinha toda a definição de que área que você queria trabalhar. Então, muita gente, era natural: “Ah, eu quero trabalhar com programação. Eu quero trabalhar com desenvolvimento”. E na época dessa seleção, minha esposa hoje, que estudou comigo e formou junto comigo, começou a ser minha namorada, no último ano. Então a gente via: “Pra que área que você vai, que área que eu vou?” Mas assim, eu despertava o interesse de ir pra área de programação logo de cara. Porquê? Porque no último ano a gente teve uma série de palestras técnicas, coisa que a gente organizava. A gente fazia pesquisa e apresentava no auditório. E teve uma série de palestras sobre sistemas operacionais, que é o software mais básico que tem na máquina - sem isso o computador não liga. E era uma coisa que me fascinava. Simplesmente eu gostava disso. Aí apareceu lá a chance de ir pra área de suporte técnico, que cuida, entre outras coisas, de sistemas operacionais. Eu falei: “Não, vou me cadastrar aqui. Minha preferência...”. Você podia escolher três áreas. Na área de Processamento de Dados do banco você podia escolher três áreas na qual você podia ingressar. Minha primeira área foi de suporte técnico. A da minha esposa também. Eu trabalhei no suporte técnico, num departamento de suporte técnico e ela passou a trabalhar no outro. Eu trabalhava com sistemas operacionais. 

 

P1 – Como foi pra você essa mudança da Fundação Bradesco para o Bradesco?

 

R – Novamente o escopo sempre abrindo, né? Ainda mais gente, ainda mais sistemas, ainda mais máquinas, ainda uma empresa maior. Então, você tem a oportunidade de ir trabalhar com sistemas que você não vê em qualquer empresa, que às vezes você não vê em qualquer empresa do país. Poucas empresas têm estrutura de informática, de processamento de dados que o banco tem, de comunicação. Então, é um emprego que continua sendo um aprendizado dentro do banco. A pessoa começa já tendo muita coisa. O escopo de atuação é bastante amplo. Eu trabalhava com sistemas operacionais, começava a planejar redes. Os departamentos começaram a ter redes locais e precisava ter padrões pra configurar o software básico dessas redes. Então, o meu trabalho era ajudar a definir padrões, ajudar a implementar esses padrões. E, claro, suportar o que desse errado: uma rede caiu, alguma coisa assim. Isso que eu trabalhava. 

 

P1 – Você lembra quantos da turma no suporte técnico?

 

R – Que foram pro suporte técnico não foram muitos. Assim, eu acho que foram uns cinco, quatro, cinco ou seis. Muita gente ia pro desenvolvimento porque o desenvolvimento era o maior departamento. Desenvolvimento ia muita gente. E tem análise de negócios, que eram as pessoas cuja função era traduzir a necessidade do cliente interno. Ou seja, o departamento do banco ou o cliente do banco, traduzir isso em termos de necessidades técnicas que eram atendidas pelas áreas de desenvolvimento, área de suporte etc. Então, muita gente ia pra desenvolvimento. Muita gente ia pra análise de negócios. Não muitas pessoas iam pro suporte técnico. Isso acho que não despertava muito o interesse das pessoas, mas o meu despertava. Foi uma área que eu sempre gostei e eu acho que eu acertei em cheio.

 

P1 – Vamos parar um pouquinho?

 

(Pausa)

 

P1 – Então, Welington, você estava falando do seu trabalho no suporte técnico. E você ficou  nesta área no Banco Bradesco trabalhando no suporte técnico durante quanto tempo?

 

R – Aproximadamente um ano e meio.

 

P1 – Um ano e meio?

 

R – Isso. 

 

P1 – E qual que foi o seu maior desafio?

 

R – Durante esse período?

 

P1 – É, dessa mudança da fundação pro banco, outra gravata. 

 

R – Não, aí já não tinha mais a gravata. Isso era bom, isso era bom. Não tinha mais a gravata, era bem mais despojado. Afinal não era uma diretoria, né? Quem quisesse ficar engravatado ia pra análise de negócio. Eu gostava de ficar sempre o mais despojado possível. Então dava pra ir de camiseta. Você não podia ir de bermuda mas você ia de calça e camiseta e estava tudo bem. Acho que o grande desafio na prática era ajudar ao máximo uma área que estava crescendo num ritmo muito forte, porque era um momento que o banco começava a expandir numa velocidade absurda. Você tinha duas novas agências prontas por dia ou por semana. Então, você tinha uma época que era muito... E a coisa tinha que ser coordenada. Assim, o lançamento de uma agência tinha que ser algo coordenado. Era o computador que saia da fábrica de montagem, já saia configurado com os endereços necessários ou _______ necessário pra que isso só fosse transportado pra um lugar físico. Conectasse na tomada e na rede e estava funcionando, a agência tinha que começar a funcionar. Então a gente tinha que orquestrar tudo isso daí, ou seja, fazer com que o software seja configurado de acordo desde a linha de montagem. Definir os padrões, qual era o procedimento que o técnico local, caso necessário o quê que ele deveria fazer, elaborar os manuais, elaborar os procedimentos e fazer com que isso ficasse pronto. Isso é um negócio muito legal. Bastante desafiador. Às vezes eu ficava um mês em laboratório testando só como eu vou destruir uma máquina. Então eu apagava coisas, tirava coisas, colocava, montava todo o software de novo, reinstalava uma, duas, três, 15, 100 vezes pra que o processo fosse bem definido. 

 

P1 – Essa equipe...

 

R – Suporte técnico. 

 

P1 – Suporte técnico, não era pequena pra atender tudo isso?

 

R – Não, a área de suporte técnico é relativamente grande. Na época tinha umas 150 pessoas, 120 a 150 pessoas. A área de software básico para a plataforma distribuída, ou seja, os computadores de rede, não mainframe, era uma equipe que começou pequena. Começou com quatro pessoas. Quando eu entrei, começou com quatro. Quando eu saí, eram 20, em um ano e meio.

 

P1 – Mesmo assim...

 

R – Mesmo assim era. O nível de trabalho era muito grande. A minha fila, a fila da equipe de chamadas pra atender tinha época tinha 300 chamadas pendentes, 200 a 300 chamadas pendentes, de vários lugares. A gente era uma área de suporte técnico, a minha área em particular dava suporte às outras áreas de suporte. O suporte técnico existia: o suporte central e o suporte de campo - são os técnicos de campo, que é o cara que vai lá, limpa o computador, instala a impressora. Isso é uma equipe enorme, distribuída no país todo. Hoje, muitos contratados. Mas a gente tinha que dar suporte a essa pessoa. Então, a dúvida já não era trivial. Às vezes vinham coisas bastante complicadas pra resolver. O nosso trabalho era facilitar o trabalho desses técnicos de campo e resolver os problemas que essas pessoas não resolviam. Então, era uma área que exigia muito estudo, muito esforço. Assim, realmente o serviço era bastante desafiador desse jeito. O desafio, resumindo, era poder manter uma rede gigantesca de informática no país todo. Cada uma das equipes tinha uma função específica. A minha era cuidar que o software básico dos computadores de todo o Brasil funcionassem adequadamente. Só isso, por si só, foi um desafio. 

 

P1 – E tanto na fundação como nessa sua fase de Bradesco você se viu diante de uma situação assim que você falou: “Puxa vida, isso ______”?

 

R – Ah, isso todos os dias. 

 

P1 – Todos os dias?

 

R – Assim, sempre tem algo novo. Você tem que ter fundamentos. A escola da fundação dava os fundamentos. _____ é só um ponto de partida, depois você é que vai exercitar esse fundamento e ampliar o seu escopo de atuação. Se você aprendesse bem o que estava lá na escola, numa situação dessa onde você não sabia o que fazer, você sabia onde procurar pra saber o que fazer. É aprender a pesquisar, aprender a ter iniciativa, aprender a procurar o que você não sabe. E não ficar satisfeito com o que você já sabe. É algo bastante evolutivo. Você tem que estudar todo dia. Você não para nunca de estudar. 

 

P1 – Welington, e depois desse um ano e meio você foi trabalhar aonde?

 

R – Fui trabalhar numa empresa de software americana chamada Computer Associates. Hoje apenas CA, mais conhecida como CA. 

 

P1 – Como é que foi pra você aluno da Fundação Bradesco de Itajubá, de Osasco, trabalhador da fundação, do Bradesco, ter saído do Bradesco?

 

R – Foi curioso porque o banco... Eu encaro assim, a carreira de informática no banco é muito mais aprendizado pra te preparar também  pra sair. Eu acho que você tem que procurar ampliar o seu horizonte. E apareceu a oportunidade muito por acaso. Um amigo meu que também formou comigo, trabalhava na outra área. Ele foi meu padrinho de casamento. Ele recebeu uma proposta de emprego de fora. Como a gente, como é uma empresa grande você sempre recebe propostas de emprego. Você trabalha numa empresa de ponta, tecnologia de ponta, você sempre recebe proposta de emprego. Todo mundo recebe. Ele recebeu uma e ele falou: “Olha, eu recebi uma proposta da empresa tal, parece interessante mas não pra mim. Eu acho que parece interessante pra você porque é uma área que eu não gosto muito de trabalhar. Mas eu sei que você gosta”. Eu falei: “Ah, legal, vamos ver”. Fui lá ver. Peguei um dia lá que tinha um dia de folga, os caras me deram um dia de folga, e fui ver a oportunidade. Da oportunidade a mudar de emprego foram cinco dias. Também foi uma loucura isso. Proposta muito interessante. Apresentei essa proposta aos meus chefes, falaram: “Olha, eu acho que pra uma proposta desse tamanho eu acho que você vai ter mais sucesso fora”. Aí meus diretores falaram: “O caminho está livre, pode ir”. E aí eu saí. Fui pra essa empresa na qual eu estou até hoje.

 

P1 – E lá como que é o seu trabalho?

 

R – O escopo ainda aumentando mais. Assim, eu trabalhava  com um tipo de sistema específico, o Windows. Lá eu fui pra uma equipe na qual íamos usar o meu conhecimento em Windows, mas tinha pessoas que trabalhavam com outras plataformas, com outros sistemas. Era uma força tarefa, o que a gente chama de um squad, do tipo de um squad, o nome era squading, no qual uma força tarefa de dez pessoas pra ajudar a implementar rapidamente e vender rapidamente os softwares empresariais da companhia. Porque é uma empresa de software, mas que os softwares dela são voltados pro mundo empresarial em geral. Já foi de médias e grandes empresas mas hoje pequenas, médias e grandes empresas. Então o meu trabalho era usar o que eu aprendi na época - desde fundação, na época de Bradesco, principalmente a época do Bradesco - aplicar esse conhecimento e ajudar a implementar a tecnologia que era fornecida por essa empresa nos grandes clientes. Vários bancos, o Bradesco também. Então a proposta era essa. Daí era uma empresa americana, então a gente tinha um treinamento muito intensivo. Encarar uma realidade diferente, que era uma empresa com poucas pessoas, que também crescia absurdamente o tamanho dela. Ela tinha 80 pessoas, chegou a ter 400. Hoje tem por volta de 300 no país. Mas nada comparado aos milhares que era o Bradesco. Trezentos era um pouco maior que o meu departamento dentro do Bradesco, aqui é a empresa. Mas aonde o escopo de trabalho era muito mais amplo, de você trabalhar no país todo, e trabalhar fora do país também. 

 

P1 – Como é que é hoje em dia o seu dia-a-dia?

 

R – Meu dia-a-dia, eu trabalho como consultor de segurança da informação. Sendo um pouco mais específico, eu trabalho com softwares, com ferramentas mais especificamente hoje de gestão de identidades de acesso. O que é isso? Basicamente quando uma pessoa começa a trabalhar na empresa, em qualquer empresa, ela precisa ter o seu e-mail, precisa ter a conta da rede, precisa ter as suas identidades pra poder trabalhar, pra poder fazer a sua função. E quando ela sai da empresa isso tem que sair porque pode acontecer fraudes, pode acontecer ‘n’ coisas. Então, eu ajudo a desenhar a arquitetura de projetos nos quais a nossa tecnologia é aplicada no intuito de automatizar, melhorar esta gestão de identidades e acessos que a pessoa vai tendo ao longo da sua vida na empresa. Precisa cadastrar uma conta em algum lugar, eu preciso ter isso cadastrado de uma forma correta, num lugar correto, de um jeito correto, atender às regulamentações de mercado, atender às legislações. Então eu trabalho com, eu sou um consultor de segurança da informação, porém mais focado hoje em gestão de identidades e acesso. E trabalhando aqui, trabalhando no país todo, eu viajo o país todo. Viajo pra fora muito também, seja pra treinamento ou seja pra trabalho mesmo. Meu escopo de trabalho é a América Latina. Muito tempo no Brasil mas não paro em vários projetos na América Latina também. E treinamento a gente faz bastante na Matriz que fica em Nova York. 

 

P1 – Welington, com tanto trabalho assim, e naqueles momentos de lazer o quê que você gosta de fazer?

 

R – Eu gosto muito de filme. Eu gosto muito de assistir filme. Quando eu posso, eu vou bastante ao cinema. Sou daquelas pessoas que compra dois ingressos para assistir filmes seguidos. Assiste um filme, sai, volta, assiste o próximo. Ou então assiste o filme duas ou três ou quatro vezes. Gosto de videogames também. Eu gosto muito de viajar de carro. Acho que quando eu trabalho, eu viajo muito de avião. Então eu não gosto muito de aeroporto. Não é nem medo de voar, é que eu estou cansado. É bastante puxado. Toda semana você está no aeroporto,  quase toda semana você está no aeroporto. Então, eu gosto de viajar de carro. Pegar estrada e sair fora é uma coisa que me relaxa bastante. E o bom é que minha esposa também compartilha disso: ela gosta também de viajar de carro, assiste muito filme em casa. Eu sou aquela pessoa que não sou praticante de esportes, não sou aquela pessoa que vai correr de manhã todo dia. Procuro manter a minha forma, mas esse não é o meu objetivo principal. Meu objetivo principal é estar bem; então eu gosto de fazer o que eu gosto. 

 

P1 – Welington, e sobre o Sr. Amador Aguiar, o quê que você lembra dele?

 

R – Eu o conheci na premiação do concurso de redação, que é aqueles concursos de redação todo ano e tal. Eu tive uma premiação dessas. 

 

P1 – Em qual escola?

 

R – Ah, eu concorria pela escola de Itajubá. 

 

P1 – Itajubá. 

 

R – Isso. 

 

P1 – E como é que foi esse dia?

 

R – Bom,  eu lembro que tinha sido premiado na categoria de quinta a oitava série. Eu estava na quinta, eu acho. Aí tinha todo esse negócio de vir pra cá, o pessoal se reunia aqui, ia lá naquela “mesona” no prédio novo, na Diretoria Executiva do banco. A diretoria do banco lá e você recebia a premiação. O que ficou muito evidente é que ele não usava meia. Ele usava o sapato sem meia. Mas é uma pessoa bastante humilde. Se você não soubesse quem era, você considerava que era uma pessoa normal. Um senhor de terno normal como qualquer outra pessoa, mas uma pessoa bastante, uma pessoa atenciosa. Era discreto. Não era aquela pessoa que precisava dizer pro mundo o que ela é. Conheci muito pouco, mas o que me marcou é isso daí. Uma pessoa discreta, você podia considerar como qualquer um, mas ele tinha esse lance da humildade que era bem legal. 

 

P1 – Como que você descobriu que ele não usava meia?

 

R – Foi quando ele cruzou as pernas. Eu lembro que estava sentado assim na mesa, eu lembro que ele cruzou a perna e eu vi: “Opa, o cara não usa meia”.

 

P1 – Mas não te ocorreu: “Será que ele esqueceu?”

 

R – Não, assim, toda pessoa tem algo característico, né? Toda pessoa tem uma mania, eu acho que a dele era não usar meia. Mas...

 

P1 – E aí quando você descobriu, o quê que você comentou?

 

R – Não, não. Assim, apenas alguns relances, uma imagem. A premiação foi algo legal porque tinha todo um passeio etc. As pessoas ficavam no antigo hotel que era o prédio da Centrefor. Ia patinar no gelo no Shopping Morumbi, ia na Cidade da Criança em São Bernardo. Aí lá eu conhecia porque, como eu falei, eu era de Santo André, então ali eu conhecia a Cidade da Criança. Então, principalmente a pessoa que vinha, sei lá, da Bahia, do Pará, aquilo era patinar no gelo. Eu só não tinha dinheiro pra patinar no gelo mas eu apenas via o gelo. Mas pega uma pessoa do Norte que em muitos casos está completamente desconectada do país, e tem uma oportunidade dessa pelo seu mérito, é algo legal. Você vê a pessoa premiada, você vê a pessoa, você vê o orgulho da pessoa. Eu me orgulhava disso, porque você ganhar o concurso de redação era algo importante. Você concorrer na cidade era um negócio importante. 

 

P1 – E vinham quantos alunos? Quantos se classificavam?

 

R – Eu acho que, se não me engano, eram três ou quatro premiados por categoria: primeira a quarta, quinta a oitava, segundo grau. Então acho que era por volta de 10, 15 pessoas. Não me lembro muito bem. Era umas 15 pessoas. 

 

P1 – Era o concurso...

 

R – Era o concurso nacional de redação.

 

P1 – Nacional de redação. É aquele concurso que chama Concurso de Redação Amador Aguiar?

 

R – Exato, exatamente. 

 

P1 – E você tem ainda essa redação?

 

R – Ah, não tenho. De mudar de uma casa pra outra, assim, você perde muita coisa.

 

P1 – E depois, quando você estudou em Osasco, ele ia na escola, o Sr. Amador?

 

R – Eu não... Sinceramente, eu não o via na escola. Talvez porque eu estudava à noite. Eu acho que as pessoas que estudavam de manhã e de tarde viam muito mais. Talvez não era nem cabível, já era de idade, ficar andando 10, 11 horas da noite assim. Cansa, né? Cansava a gente. Então pra quem estudava à tarde e de manhã acho que via muito mais. 

 

P1 – E hoje, você tem um conhecimento dos projetos da Fundação Bradesco?

 

R – Eu sei que a proposta é sempre ampliar. Cada vez mais estar integrando na cultura de cada região. Talvez com o propósito de, não sei, de aumentar o número de bancos de sala de aula. Na verdade o mundo mudou de alguns anos pra cá. Antes o objetivo pra educação era por banco de escola, então aumentar vaga. Eu acho que agora o que você tem que fazer é manter a qualidade dos bancos de escola. O país não cresce mais a uma taxa que exija a você aumentar velozmente o número de salas de aula. Eu acho que mais do que isso você tem que aumentar a qualidade da sala de aula, e eu acho que isso é o que a fundação sempre quis manter e continua mantendo. Não estou tão a par dos projetos de expansão. Eu lembro que eles estavam reorganizando, sintonizando a atuação nas cidades onde tem presença.

 

P1 – E na sua opinião qual a importância das escolas da Fundação Bradesco pra história da educação no Brasil?

 

R – Eu acho que é algo que tem que ser sempre olhado e visto como um ponto de excelência a se atingir. A gente sabe que o Governo em geral tem muita dificuldade. É muita gente, muita prioridade, muito desperdício também de recursos. Mas o que se percebe é que quando você consegue aplicar os recursos de uma forma correta - mais até do que a quantidade de recursos, mas se aplicado de forma correta -, você consegue aumentar o padrão de vida da população. Então, eu acho que a importância da fundação na história da educação no país é poder provar que esse modelo é válido e que a educação eleva o padrão de vida das pessoas. É um projeto que tem que ser seguido, um projeto que tem que ser ampliado, ele tem que ser seguido. O Governo deveria mirar os esforços, trabalhar com as parcerias de modo a poder disponibilizar essa oportunidade que pra várias pessoas aconteceu, pra mim também, de poder evoluir. Eu falei, a minha vida profissional, a elevação do meu padrão de vida foi fruto da oportunidade oferecida pela instituição, pela educação fornecida por essa instituição. Foi ela que me deu minha carreira? Não, não vejo assim. Mas ela me deu a oportunidade de eu definir a minha carreira. Isso eu acho mais importante: valorizar o potencial que cada pessoa tem. Então, ela me fez reconhecer o que eu tenho de bom a oferecer e exercer este algo que eu tenho de bom. Eu acho que isso é que tem. A função da educação é isso: fazer a pessoa evoluir. 

 

P1 – Welington, eu gostaria de saber da sua opinião com relação a esse projeto Memória 50 anos da Fundação Bradesco, ou seja, a Fundação Bradesco este ano está comemorando os 50 anos e ela quer contar a sua história através da história de vida de pessoas que participaram ou participam. O que você acha desse projeto?

 

R – Muito interessante, é bastante interessante. Eu soube disso numa das visitas que eu fiz à fundação. Voltando, conversando com o pessoal de lá. “Olha, quero ver você lá no documentário. Estamos organizando algo aí pra convocar os ex-alunos”. Eu falei: “Pô, legal”.

 

P1 – Quem falou isso pra você?

 

R – A Ana Luiza, a Miriam mesmo. A secretaria da fundação falou: “Olha, você vai lá participar. Você vai dar o depoimento lá”. Eu falei: “Olha, vai ser diferente”. Mas é legal porque tem instituições que são... Toda instituição de valor tem que resgatar algo do que ela fez pra comunidade. Daí existem as associações de ex-alunos em todo o escopo, desde uma escola centenária de primeiro e segundo grau até uma faculdade. Eu acho que você tem que resgatar o que você fez de bom. Até resgatar o que você não fez de bom e continuar fazendo o  que eles vão ampliar e reduzir o que você fez, o que porventura deu errado ou que porventura foi... É uma iniciativa muito, muito boa. É uma história que tem que ser contada. Eu acho que mais pessoas devem saber o que é estar, o que é a Fundação Bradesco. E nada melhor do que contar pelo ponto de vista de quem passou por lá. Que uma escola não são as salas de aula, os computadores, os recursos físicos. Também são esses, mas a escola é mais do que isso, são os Recursos Humanos. É professor na frente e o aluno estudando e estudando bem. Então isso é o que tem que ser contado. 

 

P2 – Sobre a sua participação, você ter sido convidado, como é que foi ____, como é que é?

 

R – É uma honra poder fazer parte. Eu sou parte dessa história, e é uma honra poder contar qual foi a minha passagem nesse período da história da fundação. É fantástico, é muito gratificante. Você começa a lembrar exatamente a trajetória que você segue de vida e o que pode proporcionar esse curso de vida. E dentre outras coisas com certeza a escola é um fator preponderante pra o que você é.

 

P1 – Você gostaria de destacar alguma coisa que não foi perguntado, que você gostaria de falar?

 

R – Acho que a gente contou. Acho que nós aqui relembramos bastante coisa. Assim, vocês me fizeram relembrar bastante coisa que eu nem lembrava muito a princípio. Mas de um modo geral o que eu gostaria mesmo é de agradecer pela oportunidade de poder progredir na minha vida em função da educação minha, das minhas irmãs. Minhas irmãs estudaram lá parte do tempo. Minha mãe estudou lá. A família, sem qualquer coisa, como muitas vezes você vê em vários lugares. Eu sou uma pessoa comum que melhorou o padrão de vida graças à escola, graças à educação. Isso é o que eu tenho que agradecer, não tem nem como dizer.

 

P1 – Está bom, Welington. Então em nome da Fundação Bradesco e do Museu da Pessoa nós agradecemos a sua entrevista, muito obrigado.

 

R – Eu agradeço também.

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