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História

Educação se faz em qualquer lugar

História de: Antônio Perez de Freitas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2008

Sinopse

Infância em sítio de café em Braúna. Vida em comunidade. Início da vida profissional no Bradesco. Formação em Pedagogia. Trajetória na Fundação Bradesco. Vida como diretor da Pecplan. Histórias sobre a Fundação Bradesco e as seleções. Curiosidades sobre a tecnologia antiga.

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História completa

P1 – E qual é o nome dos seus pais, Sr. Antônio?

 

R – O meu pai se chamava Luis Perez Barrionuevo.

 

P1 – E a sua mãe?

 

R – A minha mãe Amélia de Freitas Barrionuevo.

 

P1 – E eles nasceram em São Paulo?

 

R – Nascidos no Estado de São Paulo, na região de Catanduva. Meu pai no dia 23 de maio de 1924, minha mãe no dia 11 de julho de 1925.

 

P1 – Quais eram as atividades dos seus pais?

 

R – Eles são procedentes, ultimamente moravam na zona urbana mas foram criados, casaram, constituíram família na zona rural, nas lavouras de café. Meu pai é descendente de imigrantes que desbravaram a região de Catanduva, Córrego Grande, Tabapuã, onde instalaram importantes fazendas de café na década de 1920, década de 1930, permaneceram na região. 

 

P1 – O senhor tem irmãos?

 

R – Tenho dois irmãos.

 

P1 – E o senhor tem lembrança dos avós paternos e maternos do senhor, alguma lembrança, assim?

 

R – Algum fato?

 

P1 – É. Eles eram lavradores também?

 

R – Também. A minha avó, filha de imigrantes espanhóis. Minha avó paterna criou, sem o acompanhamento do seu esposo, que faleceu muito precocemente, seis filhos, todos na região da agricultura, do café, com muito sacrifício. E uma das características dela, que eu me recordo muito, é que ela não falava português, foi quando eu aprendi a arranhar um pouco o espanhol, castelhano. 

 

P1 – Ela falava só castelhano?

 

R – Só falava castelhano. 

 

P1 – Certo. E dos avós maternos, alguma lembrança?

 

R – Avós maternos também, só que já são brasileiros natos e sempre trabalhando na lavoura. Minha avó, pra felicidade nossa, apesar de não ter registro, não ter documentos, ela deve ter vivido acima de 95 anos. 

 

P1 – Da sua infância o senhor lembra da casa onde o senhor morava, como era a casa, o senhor lembra?

 

R – Lembro-me da casa onde eu nasci, onde eu vivi até os quatro anos de idade.

 

P1 – Isso no interior de São Paulo?

 

R – No interior de São Paulo. E tenho a foto, eu não trouxe que eu não sabia que era relevante, importante. 

 

P1 – E como era o dia a dia da sua casa, o senhor lembra? Era de _____ mesmo, como um sítio, como uma fazenda?

 

R – Era sítio, sítio de café também. E por lembranças da minha mãe a mim, conversas de minha mãe que eu fui, a maioria do tempo eu permanecia debaixo de um pé de café, quando bebê. Ela trabalhando e eu... Então, era uma época difícil. No ano do meu nascimento, acontece o fim da guerra, da Segunda Guerra Mundial, muita dificuldade. Tudo que o Brasil tinha de reserva destinou pro exterior e nós vivíamos com muita dificuldade. Depois, nós tivemos uma fase muito boa, a minha infância foi muito bem vivida, por assim dizer. 

 

P1 – O senhor era o mais novo dos irmãos?

 

R – O mais velho.

 

P1 – O mais velho?

 

R – O mais velho. 

 

P1 – E quais eram as brincadeiras que vocês preferiam, as preferidas?

 

R – Bola e futebol. 

 

P1 – Uma lembrança marcante. 

 

R – Futebol. E hoje eu não faria mais isso, mas era a caça, caçar um passarinho, caçar alguma coisa. Então, aquilo, naquela época existia uma outra mentalidade. Hoje já... E na verdade o trabalho também era muito gratificante porque era uma empresa familiar, um sítio, uma empresa familiar. 

 

P1 – Vocês ajudavam ___________?

 

R – Todos participavam e era uma comunidade. Pra você ter idéia, na minha avó eram seis filhos, cinco permaneciam nessa comunidade. O meu pai casado, outros foram casando e permanecendo também. Era uma vida em comunidade, muito importante. Isso, eu penso que veio dos costumes da época que os imigrantes chegaram, porque eles ficaram muito unidos, muito em torno dos seus problemas, das suas dificuldades. Isso foi transmitido de família para família. Então cada família permanecia unida mesmo. 

 

P1 – Questão até de sobrevivência, né?

 

R – É. Então, eu na verdade, fui criado com, assim, com brincadeira com os meus tios também, que não eram muito mais velhos. E foi muito interessante a minha infância, muito! Todas as propriedades, que foram ao todo... que nós participamos, onde eu nasci, foram até umas quatro propriedades diferentes. Em todas as propriedades se fazia toda a infraestrutura para sobrevivência: pomar, horta, plantações de cereais, importantes pro dia a dia. Então, realmente era uma comunidade muito boa, muito saudável. Eu tive uma infância muito saudável.

 

P1 – Isso em Braúna?

 

R – É, no município. 

 

P1 – E a comunidade, tinha um nome?

 

R – Não, era a família, eram famílias de espanhóis. Isso, eu vivi até os 12, 13 anos com essas características. Depois, foram se separando e eu, com 15 anos,  acabei conseguindo um emprego no Bradesco. Aí começou a minha trajetória profissional. 

 

P1 – Antes disso, dessa época que o senhor está contando, essas mudanças, qual a lembrança marcante dessa época? Tem algumas lembranças mais marcantes desse período, de família, dessas comunidades que viviam ali?

 

R – Não, basicamente era isso. Nessa comunidade as funções, as tarefas eram distribuídas. E apesar de eu ter iniciado a minha colaboração produtiva com 10 anos de idade ou 12 anos, por aí, não me lembro muito bem, acho que 12 anos. Mas a minha avó foi uma matriarca em pessoa, ela queria comandar tudo.

 

P1 – Avó materna?

 

R – Isso. Então por respeito as pessoas se submetiam a algumas regras. Então uma das regras, cada um tinha uma função extra trabalho na roça, essas coisas, cada um tinha uma função. Então...

 

P1 – Em casa cada um fazia uma coisa?

 

R – Isso. Eu tinha que providenciar frutas para sobremesa de todo mundo.

 

P1 – E tinha um pomar?

 

R – Tinha. Então, por isso, que em todas as propriedades que nós passamos foi feito pomar, plantação de mandioca, abóbora, essas coisas, e uma horta. 

 

P1 – Trabalhavam nessas propriedades?

 

R – Trabalhavam. 

 

P1 – Como se fossem colonos?

 

R – Isso. 

 

P1 – Certo.

 

R – Mas, eram os proprietários mesmo, era uma empresa familiar de produzir alguma coisa. Todo mundo tinha que produzir alguma coisa e eu cuidava do pomar. Depois, passei a cuidar do pomar e da horta, quando maiorzinho. 

 

P1 – E os outros cuidavam...

 

R – Então aí eu era o responsável por vender o excedente. Então colocava numa charrete, que chamava, não sei se você conhece, puxada por um animal. Ia pra cidade nos fins de semana vender o excedente. 

 

P1 – E o que recebia da venda dos produtos...

 

R – Na mão da vovó. 

 

P1 – Ela administrava tudo. 

 

R – Não, era tudo centralizado. 

 

P1 – De comum acordo?

 

R – De comum acordo, e o meu pai administrava. 

 

P1 – A lavoura predominante era de...

 

R – Café. Café, milho e gado. 

 

P1 – E Braúna, a cidade, como era a cidade nessa época, onde o senhor morava?

 

R – É, não tinha muita infra-estrutura não. Sem água encanada, luz elétrica de motor funcionava um período da noite só. 

 

P1 – Uma cidade pequena?

 

R – Pequena, cidade de cinco mil habitantes. 

 

P1 – E a adolescência do senhor foi nessa cidade? Como foi a sua adolescência?

 

R – Bom, aí então vem a parte de estudos e trabalho. 

 

P1 – ______ o senhor começou?

 

R – Na verdade se juntaram as coisas. Eu com sete anos entrei na escola primária, que naquela época se denominava, e aos 14 eu estava já me formando, no que é hoje, primeiro grau, já entrando no Bradesco, pro trabalho no Bradesco e ao mesmo tempo já me direcionando pro ensino técnico. Eu fiz Escola Técnica de Contabilidade. 

 

P1 – E esse primeiro período de estudo então, dos sete até os 14 o senhor já dividia um pouco do trabalho com a escola?

 

R – É, o trabalho na zona rural, né?

 

P1 – E a escola era perto?

 

R – A escola era na cidade.

 

P1 – Era na cidade?

 

R – Isso. Tinha que vir, andar dois, 3 quilômetros todos os dias, vinda e volta. 

 

P1 – A adolescência do senhor já foi nesse projeto?

 

R – É, a passagem da puberdade para a adolescência já foi nessa época, já trabalhando no Bradesco na adolescência, com estudos, muita responsabilidade e tal. Aí, então, já entrando na fase de atleta, de futebol. 

 

P1 – Um pouquinho antes, como era a escola que o senhor estudou? Era na cidade mas, era uma escola rural, era uma escola ___________?

 

R – Era uma escola pública. 

 

P1 – Uma escola pública na cidade?

 

R – É. Quando a escola pública era muito bem conceituada, né?

 

P1 – Hum, era uma cidade pequena mas já tinha uma estrutura escolar?

 

R – Isso. 

 

P1 – E o dia a dia na escola, como era? Aulas normais?

 

R – Aula normal. Não havia muita diversificação porque era um ensino acadêmico, ensino praticamente acadêmico. Não existia muito material de pesquisa e tal, mas era mais calcado numa pedagogia centralizada na professora. 

 

P1 – E o senhor lembra de algum professor, alguma professora que marcou alguma lembrança nessa época da escola?

 

R – Eu lembro da primeira professora, ela se chamava Nair Dias Magalhães. 

 

P1 – Essa dos 7 anos?

 

R – E marca por quê? Não é porque a professora, a primeira professora era brava, porque a primeira professora causa impacto nas pessoas. A mudança, você tem que se submeter a uma mudança de comportamento. Quando você entra numa escola, você entra numa disciplina, né? E a escola era bem disciplinada naquela época, aquela escola. Então, a Dona Nair tinha fama de ser muito brava. Mas, não que era brava, mas realmente era uma situação diferente que a gente enfrentava. 

 

P1 – Como é que eles ensinavam? Como eram os professores? Tinha uma matéria que o senhor mais gostava?

 

R – É, eu não gostava muito de história, geografia, essas coisas, mas eu me dava bem com matemática, com português. 

 

P1 – Tinha um bom desempenho?

 

R – Gostava de escrever. Eu não sei se o signo influi, mas o peixes é um pouco sonhador sempre, então eu gosto sempre de estar pensando em situações ideais e tal e a gente escrevia, eu escrevia bastante. 

 

P1 – Escrevia bastante?

 

R – É. 

 

P1 – Gostava de escrever?

 

R – Gostava de escrever. Naquele tempo, até escrever era difícil porque agora, vou contar uma particularidade da sala de aula. Aquelas carteiras de madeira dupla, com um tinteiro de metal embutido na carteira onde você levava a caneta e a pena. E a tinta era fornecida pela escola, um tempo foi fornecida pela escola. Então você escrevia com caneta de pena ou lápis. 

 

P1 – Que você levava?

 

R – Que eu levava um vidrinho de tinta e a caneta e a pena. 

 

P1 – E ainda se escrevia muito. Era fácil de escrever?

 

R – Não tinha Bic nem caneta tinteiro ainda.

 

P1 – Era fácil escrever? Conseguia escrever bastante com facilidade?

 

R – Conseguia. 

 

P1 – Certo. O senhor estudou até que ano, Sr. Antônio? Ali o senhor estudou até o ensino fundamental que é agora, né, o primeiro grau?

 

R – Isso, nessa escola. 

 

P1 – Primário nessa escola? Tá. 

 

R – O grupo escolar era Adolfo Hecht. Depois eu passei pra Escola Técnica de Comércio de Braúna onde eu fiz três anos de Técnico de Contabilidade, que na época dava direito ao diploma de Contador desde que você se registrasse no CRC [Conselho Regional de Contabilidade]. Terminando esse curso eu fiz dois anos de Magistério no Instituto ____ Birigui. 

 

P1 – Numa outra cidade?

 

R – Numa outra cidade. Então nós trabalhávamos até as seis horas, a jornada de trabalho era até as 18h, e tomava uma condução e ia pra Birigui. Voltava tarde da noite e a rotina era essa. Ao me formar em Magistério...

 

P1 – Isso com quantos anos mais ou menos?

 

R – 19 anos.

 

P1 – Já estava na fundação?

 

R – Não, deixa eu ver, eu tinha, são… 1946, 1953, 1960, 1965... Em 1970 eu me formei em Pedagogia. Então 1970. 1966 a cidade de Penápolis, que é hoje a comarca de Braúna, a sede da comarca, eles constituíram uma fundação lá e instalaram uma faculdade, e nós fomos a primeira turma. 

 

P1 – E o que influenciou o senhor na escolha da carreira, na escolha de Pedagogia?

 

R – Foi eu acho que falta de opção na época. 

 

P1 – Na época. 

 

R – Embora eu estivesse embalado um pouco pelo curso de Magistério, mas...

 

P1 – Antes o senhor tinha feito Magistério também, né?

 

R – É. Se eu tivesse tido outras opções, talvez eu tivesse arriscado outras carreiras, mas a gente faz sempre... você direciona de acordo com as oportunidades que você tem também, né? Se você não tem oportunidade nenhuma além daquela, ou você faz ou você fica sonhando só. E eu queria fazer um curso superior, então eu fiz Pedagogia. Em 1970 para 1971, depois de formado, no fim do ano, o Bradesco começou a recrutar gente do interior e tal pra vir constituir equipes novas na matriz. 

 

P1 – Ah, já tinha... Como foi essa trajetória? Com quantos anos o senhor começou a trabalhar aí fora, não mais na empresa doméstica que vocês tinham? Com quantos anos o senhor começou a trabalhar?

 

R – No Bradesco com 15 anos.

 

P1 – Foi o seu primeiro trabalho? _________

 

R – Foi. Eu tive trabalhos informais. Eu aprendi a trabalhar na roça também.

 

P1 – Já bem cedo, né?

 

R – Bem cedo. 

 

P1 – Com quanto anos na roça?

 

R – Com 13 pra 14 anos, até como bóia-fria, porque eu montava num caminhão umas 5h30, 6h da manhã e ia pra roça com adultos, não da minha família já, mas com iniciativa minha de querer ter alguma independência econômica. Eu tinha um sonho, né?

 

P1 – Roça de que plantação?

 

R – De algodão e de amendoim. Aí fiquei um tempo assim fazendo uns bicos aí e tal. Aprendi, me dediquei na cidade aprendendo a profissão de sapateiro. 

 

P1 – Ah, o senhor foi sapateiro também?

 

R – Fui. Bem antes, uns seis a oito meses eu aprendi, fazia sapatos, fazia botina, né, botina de lavrador. E logo surgiu um emprego no Bradesco. De 13 pra 14, 14 pra 15 já surgiu o emprego. 

 

P1 – No banco Bradesco?

 

R – No banco. 

 

P1 – Como foi? O senhor soube de uma vaga? Alguém indicou?

 

R – Por incrível que pareça, eu fui com o meu pai no banco um dia, na agência, e eu tinha comentado com o meu pai que trabalhar em banco seria bom. Aí meu pai falou: “Ué, vamos falar com o gerente, quem sabe um dia surja uma vaga?” Ele falou com o gerente e surgiu a vaga, surgiu. Embora fosse assim a minha primeira, eu fui registrado dia 1 de junho de 1961, mas meu primeiro trabalho foi no dia 1º de maio de 1961, de hastear bandeira, lavar a agência, as caixas d’água… Então foi maravilhoso, né? Comecei a trabalhar de boy. Não tinha condução, não tinha bicicleta, não tinha vale transporte, não tinha nada e você tinha que entregar as correspondências nos sítios. A gente saía, eu saía, passava quase o dia todo fora como boy. 

 

P1 – E como foi o seu primeiro dia de trabalho?

 

R – Ah, foi uma festa, né, foi uma festa. Eu me lembro que eu hasteei a bandeira e fiquei, fiz uma limpeza na agência. Ele falou assim: “Vamos ver se você é bom de serviço”, o meu gerente falava pra mim. Eu falei: “Sou, eu sou bom de serviço.” 

 

P1 – Deixou a agência brilhando?

 

R – Deixei brilhando. 

 

P1 – Tinha comemoração nesse dia? Dia Primeiro de Maio, tinha alguma coisa especial?

 

R – Não, não tinha não. Só tinha o...

 

P1 – Tinha que deixar arrumado?

 

R – ... o hasteamento da bandeira, deixar arrumado.

 

P1 – E deu certo?

 

R – Deu certo.

 

P1 – E em que outros lugares o senhor trabalhou? Daí, quanto tempo o senhor ficou no banco? 

 

R – Eu fiquei dez anos nessa agência. Então eu cheguei a ser o contador da agência. Eu fui convidado, a inspetoria me convidou. 

 

P1 – Isso em Braúna, né?

 

R – Isso. A inspetoria me convidou a nossa equipe aqui da matriz. Chegando aqui, fizemos alguns trabalhos em equipe aí com o pessoal da regional que gerenciava o nosso trabalho. E nessa época surgiu uma vaga na Fundação Bradesco, algumas vagas de orientador. E eu, recém-formado em Pedagogia, me agarrei, eu falei: “Eu vou tentar trabalhar na área de educação", muito embora eu gostasse muito da área de banco. Daí não fui aprovado. Aquela frustração e tal. 

 

P1 – Não foi aprovado por quê? Era...

 

R – No concurso, é. 

 

P1 – Concurso?

 

R – Da fundação, concurso interno. 

 

P1 – Tinha um concurso interno? Os funcionários do banco participavam do concurso pra ir pra fundação?

 

R – Isso. Eu não fui aprovado. Na verdade não é que eu não fui aprovado, é que eu não fui aprovado para aquela função. 

 

P1 – De orientador?

 

R – Dias depois, o gerente da época que era o (Sr. João Carreiro de Morais Filho?), me chamou lá, me fez um convite de compor com ele e mais alguns outros elementos que nós iríamos em conjunto recrutar, para instalar escolas fora de São Paulo. Então, a minha missão era acompanhar desde a concepção da escola, a escolha do terreno, coisas do gênero, até a construção e seleção de pessoal e acompanhamento. E a primeira foi Conceição do Araguaia, que já estava em andamento a construção e o Sr. Amador gostava sempre de se relacionar diretamente com o pessoal da área de educação. Então na época, junto com o meu chefe, viemos falar com o Sr. Amador Aguiar. Ele me expôs qual seria a filosofia do trabalho daí pra frente, que aquela escola seria a primeira, teria que ser um exemplo de escola e um exemplo pra comunidade, que iria projetar o nome do Bradesco no cenário político, econômico, social e educacional por conseguinte. E fomos instalando, instalamos a escola em Conceição do Araguaia. 

 

P1 – Já existia um centro de treinamento? Porque me parece que formou-se depois, não sei, um centro de treinamento aqui onde iam os profissionais das escolas dos outros estados. Parece que daqui saia. Esse foi um começo desse centro aonde saiam profissionais, onde selecionavam pessoas que trabalhavam nas outras escolas, não?  Essa foi só a Conceição?

 

R – Foi só a Conceição. 

 

P1 – Foi a primeira então, né?

 

R – Foi a primeira. Eram projetos diferenciados. A cada ano poderia surgir um projeto novo, de se trazer gente que não tinha oportunidade na sua região, trazer pra São Paulo pra fazer algum curso aqui. Aqui foram selecionadas algumas casas na Cidade de Deus onde ficavam hospedados. Nós tínhamos a Dona (Ismélia?), saudosa Dona (Ismélia?) que era uma mãe pra turma que morava naquela casa e na outra casa outra mãe. Tudo contratado, mas que cuidava de todos os interesses dessas pessoas que eram trazidas de fora, porque como eram muito carentes, sem conhecer um centro urbano como São Paulo e tal, tinha que ter alguns cuidados com eles, eles eram acompanhados. Então, alguns fizeram o curso de Enfermagem, outros fizeram o curso de Magistério para voltar pra sua região, que a filosofia que o Sr. Amadeu imprimia sempre nas suas iniciativas era de que não era pra tirar a mão de obra da região, era para trazer, treinar e devolver melhor. Então, quando Conceição do Araguaia completou o ciclo de primeiro grau já começaram outros projetos que seriam de segundo grau. Isso já seria cursos técnicos, cursos complementares. Já começou dentro dessa visão que eu coloquei agora, que era o pessoal fazer um curso dentro da sua aptidão e voltar pra região e devolver os benefícios pra sociedade.

 

P1 – E o senhor fazia isso?

 

R – Isso. Então a concessionária, eu lembro, nós instalamos. Foi seleção de pessoal. Já tinha algumas pessoas me assessorando na seleção de pessoal, acompanhamento da metodologia, da pedagogia ali que deveria ser melhor para aquele local, integração com a comunidade. Fizemos todo um trabalho e a diretora foi a primeira contratada, foi a Celina Rosa, e ela ficou muitos anos. 

 

P1 – Por ser funcionário do Bradesco o senhor já conhecia a Fundação, né? Mas assim quando o senhor veio pra Fundação para trabalhar, qual a impressão que o senhor teve?

 

[Pausa]

 

P1 – Então, o senhor já conhecia a fundação porque já era funcionário do banco Bradesco, mas quando o senhor foi trabalhar na Fundação Bradesco, qual a impressão que o senhor teve? 

 

R – Na verdade, era um trabalho completamente novo. Se existisse uma série de escolas fora de São Paulo já implantadas, seria uma continuidade de um trabalho, é provável que nós tivéssemos conhecimento, mas nós não tínhamos conhecimento porque era um trabalho novo. E o que mais me aproximou do interesse da Fundação Bradesco em me convidar para trabalhar foi a experiência em contabilidade, parte financeira, que é o que ia ter o maior ênfase, o maior enfoque neste início de se construir uma escola é o controle de custos, é controle de material, é compras, abastecimento da escola, suprimentos, tudo isso,   materiais, montar uma central em São Paulo depois para começar a distribuir. 

 

P2 – Qual o critério que era utilizado para escolha do local da escola?

 

R – Aí eu diria que cada escola tem uma história. Existia um critério pré-estabelecido onde dentro dele se escolhia uma escola, existiam algumas exigências aqui da organização que seria a primeira exigência que o terreno fosse escolhido por nós e fosse doado à fundação Bradesco. Essa era uma exigência e que se houvesse uma infraestrutura de água, luz, esgoto, na medida do possível, à disposição, esse era o critério. Conceição do Araguaia foi uma dificuldade muito grande. Lá não tinha nada nem pra cidade, quanto mais pra... mas aí se conseguiu o terreno, né? E lá foi um pedido do Ministro Jarbas Passarinho na época, tanto que a escola lá se chama Ministro Jarbas Gonçalves Passarinho. _________ lá é uma região muito pobre e porque é que não instalavam uma escola? Começou uma idéia assim meio nebulosa, acabou saindo uma escola. E o terreno saiu doado também pelo município que entrou em contato com os proprietários e tal. Foi uma, já começou por aí. Então, a primeira exigência que ele fazia era essa, mas uma meta a longo prazo seria assim, que já começou a se traçar metas, seria instalar uma escola em cada unidade da Federação. O que mais surgiu? Bom, o Bradesco tinha alguns interesses na região também que era duas fazendas, então tinha-se um centro de interesse, tinha um foco lá. Então Conceição do Araguaia foi assim. Canuanã foi a segunda, a Escola de Canuanã.

 

P1 – Sempre tinham agências, né?

 

R – Não, Canuanã... veja bem, Conceição do Araguaia.

 

P1 – Tinha agência?

 

R – Não.

 

P1 – Não tinha?

 

R – Foi instalado depois, não tinha agência. Nós fazíamos as transações através do Banco do Estado do Pará em Belém, que fazia a transação com Conceição do Araguaia, tudo via correio aéreo, essas coisas aí da época lá. Já Canuanã o Bradesco se associou, assim por questão de dívidas de uma sociedade dos Dante Pazzanese, do Dante Pazzanese, Nelson Pazzanese, o Instituto Dante Pazzanese aqui de São Paulo, exatamente essa família que tinha fazenda lá. E como tinha incentivo fiscal, o Bradesco entrou com incentivos fiscais para dinamizar a fazenda. Daí surgiu a idéia de se construir uma escola, mas uma escola pequena, uma escola assim, uma escola primária de três, quatro anos de estudo.

 

P1 – Isso em Conceição do Araguaia?

 

R – Não, Canuanã. 

 

P1 – Esse é de Canuanã que o senhor está dizendo?

 

R – Canuanã. 

 

P1 – Só voltando um pouquinho, a de Conceição tinha quantos alunos, a primeira que o senhor fez na época, assim mais ou menos?

 

R – Toda a escola chegava a mil alunos na sua plenitude, com todas as séries instaladas. Então era progressivo, você instalava quatro séries, depois vinha a quinta, a sexta, a sétima, a oitava. Aí tinha aquela parada: “E agora?”, né? Agora ou se cria o curso técnico ou os alunos ficam por aí. Então de lá surgiu a idéia de se trazer alguns alunos formados no primeiro grau.

 

P1 – Pra fazer o curso?

 

R – Pra fazer o curso aqui. Então fizeram o curso aqui e faziam o curso de Enfermagem na Gastroclínica, curso de Magistério. Por aqui tinha sempre uma...

 

P1 – Profissionalizantes já. 

 

R – Profissionalizantes, pra retornar pra lá, certo?

 

P1 – Certo. Aí o senhor falava de Canuanã.

 

R – Aí Canuanã, respondendo a sua pergunta sobre os critérios. Então, os critérios, a família Pazzanese pedindo ao Sr. Amador: “A exemplo de Conceição do Araguaia podia ser instalada uma escola aqui, pequena, uma escola de fazenda e tal”. Aí foi construída uma escola pequena, não muito grande, mas também não era só de fazenda. Mas tinha que ser internato, era complicado. E foi quando eu fui pra lá, no ano seguinte, em 1972, em 1971 eu cuidei de Conceição do Araguaia, em 1972 de Canuanã. Aí cuidar da papelada, parte burocrática na Secretaria de Educação de Goiânia, que lá era Goiás, não era Tocantins ainda. Hoje é Tocantins mas naquela época Goiás ia até o Pico do Papagaio, lá no Maranhão. Aí conseguimos, entramos com um projeto inovador de que a escola, por ser internato, nós poderíamos aproveitar não só os horários da sala de aula mas o horário fora da sala de aula, atividades fora da sala de aula para incorporar no currículo do aluno. E nós conseguimos autorização para fazer o curso em seis anos, o curso de primeiro grau, de três anos o primeiro ciclo. Depois instalamos o segundo ciclo, mais três anos. Então oito anos era feito em seis anos. 

 

P1 – Era então primário e ginásio?


R – Isso. Aproveitando a experiência de campo porque o aluno tinha quatro horas em sala de aula e duas horas de atividade de campo obrigatória, ou seja, com tantos alunos, que chegou a mil alunos, mil cento e alguma coisa ou 1.200 alunos, não sei quanto tem agora, deve ser mais ou menos isso. Não se justificava você ter tantos funcionários para cuidar de tudo sendo que os alunos têm que praticar as atividades de campo porque os cursos lá são técnicos, Técnico em Agropecuária, Técnico em Magistério, então teriam que praticar. E aproveitando essas aulas práticas se colocava na grade escolar deles, aí começou a funcionar o internato assim. 

 

P1 – O internato veio da necessidade, o que, a distância? Qual era a necessidade?

 

R – Lá não tem meio de locomoção, é zona rural. Na época, uma parte do ano, na época chuvosa você não tinha como sair, você só saia de canoa. Chegar alimento era uma dificuldade. Chegava o alimento, nós mandávamos gêneros alimentícios daqui de São Paulo ou de Goiânia ou da região. Era comprado, chegava num determinado local, aí tinha um riozinho, era atravessado com canoa os alimentos e colocados do outro lado no trator e levado pra escola. Então era muito difícil. E os alunos moravam em regiões mais isoladas ainda, dentro da ilha, nas fazendas da região. E hoje, alguns alunos viajam até hoje sete ou oito horas a cavalo para chegar na escola. E então também foi instalado o internato com alimentação, com todo o apoio, médico, dentista, enfermagem. Lá tem um hospital, tem um restaurante fantástico. 

 

P1 – Quantos alunos?

 

R – Mais de 1.000 alunos. 

 

P1 – Mais de 1.000 alunos? E na época de férias?

 

R – Na época de férias os alunos são dispensados, os pais vêm buscar, ou alguns pais buscam os filhos de outras famílias. Aí vem ônibus, cavalo, charrete... Aquilo parece, sabe, um filme. E vão embora uma grande maioria e tem os que ficam de plantão, que eles vão revezando com outros. Numa época de férias é uma turma, no meio do ano é outra, e vai revezando, geralmente os maiores ficam, que dão suporte pra escola. E os professores não ficam, mas lá tem os funcionários residentes, então sempre tem que ter um plantão médico, odontológico. 

 

P2 – Tem tudo que eles precisam lá?

 

R – A área de alimentos não para, cozinha, refeitório. 

 

P1 – Então nas férias a escola não fecha, não fica nem um período fechada?

 

R – Não, fechada totalmente não. Lá tem gado de leite, o gado de corte, a granja, que tem que ser...

 

P1 – É auto-sustentável? Ela tem uma produção...

 

R – Tem. Alguns _____ são produzidos lá.

 

P1 – Lá mesmo?

 

R – É. Não deu pra fazer auto-suficiência porque era muita coisa. Se tentou fazer uma época, mas aí houve interesses contrários, conflitantes, que a parte fiscal do banco fez uma análise e achou que era muito mais vantagem comprar de fora do que se submeter ao fisco e tal. Então houve uma decisão nesse sentido, mas uma infraestrutura mínima de, por exemplo, a granja, só pra produção interna, continuou, a produção de leite continua lá, o gado de corte é comprado, é feito a quarentena, vacinado, feito quarentena, verificados todos os exames e colocado para confinamento, para engordar, que é pra consumo interno também, maravilhoso. A qualidade de vida lá é fantástica, muito boa. 

 

P1 – E a maioria dos alunos ficam lá, Sr. Antônio? Depois que termina eles fecham o ciclo? Tem curso técnico lá atualmente?

 

R – Tem, tem. O pessoal se prepara para trabalhar em fazendas, ou área de agricultura ou área de pecuária. 

 

P1 – É o que predomina. 

 

R – É, e eles vão preparados. Ou até para implantar a sua própria atividade no futuro. Lá nós temos uns exemplos que eu presenciei no ano de 2003. Um grande produtor de acerola é um ex-aluno. O dono de uma granja é um ex-aluno da região, e assim por diante. Tem ‘n’ atividades lá, gerentes de fazenda, que são ex-alunos, outros se encaminharam para política. Tinha um vereador ex-aluno, Secretário de Educação do Município de Santa Rita do Araguaia que é a sede do município, é ex-aluno. 

 

P1 – Se espalham por lá?

 

R – Se espalham. Outros são diretores de escola, mas o foco seria deles trabalharem em fazenda. 

 

P1 – E a função do senhor nesse período todo era de Supervisor de Escolas?

 

R – Era de supervisionar. 

 

P1 – De supervisionar sempre?

 

R – É. Mas eu tive outro ciclo que foi em 1989, quando eu fui nomeado diretor da Pecplan. Aí eu fiquei _____ a função, quer dizer, não me deixaram perder o contato com a escola de Canuanã e nem com a escola de Bodoquena que foi outro internato que veio depois, anos mais tarde. 

 

P1 – Depois de Canuanã?

 

R – No Pantanal Mato-grossense. 

 

P1 – Isso é uma trajetória. O que o senhor considera que mais mudou na Fundação Bradesco durante essa trajetória toda do senhor? Porque o senhor manteve contato inclusive com as primeiras escolas, né?

 

R – Na verdade eu continuei até quase a trigésima, não sei quantas escolas foram, 25, até 30 escolas, eu participei quase diretamente da implantação. Mas aí você ia se distanciando cada vez mais. Por quê? Porque a situação exigia sempre uma equipe de apoio cada vez maior. Então começaram a ser instaladas outras escolas, por exemplo, em Bagé, Laguna, Registro, depois Campinas. Aí veio uma seqüência de outras escolas, Minas, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul. Até agora, há dois ou três anos, me parece, completaram o ciclo do Brasil, então instalaram uma escola em... Macapá já tinha. Capital de Roraima foi a última. 

 

P1 – A última. E aí, nessa trajetória toda sua, os funcionários, tudo, no passado e atualmente também, como o senhor acha que a Fundação Bradesco fica na vida dessas pessoas? O que ela representa para os funcionários da fundação?

 

R – Bom, se eu entendi a sua pergunta. 

 

P1 – O senhor disse que ampliou a equipe porque precisava, porque o número de escolas foi crescendo, né, aí o senhor acompanhava. Como era? O quê que a fundação representava para os funcionários da Fundação Bradesco?

 

R – Olha, tem um plano de carreira evidente porque as oportunidades vão se multiplicando a cada ano. Ou fosse na matriz ou nas unidades, cada unidade era uma oportunidade de emprego para mais gente daquela região, claro. Mas também passava a exigir uma supervisora nova, uma infraestrutura na área de compra, um reforço aqui, um reforço ali, na área de contabilidade que era centralizada na matriz. Com a evolução da informática também, a cada ano surgia uma novidade de interligação. Hoje, todas as escolas estão interligadas em rede, então isso é o coroal da evolução das coisas e interligar todas as escolas no Brasil em rede foi fantástico pra fundação. Pena que eu não estou mais na fundação, que eu gostaria de estar até. Gostaria em tese, gostaria de ter participado de mais coisas. Eu tenho a minha vida muito bem estruturada, está tudo certo, não tem frustração nenhuma e nem mágoa de ninguém nem nada. O meu trabalho foi bem feito, eu acho que foi bem feito, eu fui reconhecido. As pessoas me reconhecem até hoje, senão eu não estaria aqui, então eu não tenho o que falar. Eu gosto é de participar da evolução, do pioneirismo das coisas. 

 

P1 – ___________ expansão mesmo?

 

R – Eu fui habituado a isso, a situação me levou a isso. Então a cada ano era mais empregos, era mais gente, era mais retaguarda, não é? Alguns naturalmente não se davam bem com alguma coisa por questões de aptidão, essas coisas, mas na verdade pouca gente saía da estrutura porque era muito interessante. 

 

P1 – Ficava se movimentando _______?

 

R – Isso. 

 

P1 – E algum caso pitoresco que o senhor lembra, algum caso engraçado nessa expansão toda?

 

R – Eu adotei algumas medidas de questão familiar e muito interessante pra minha vida. O meu filho mais velho nasceu em 1974 e eu fui fazer seleção de pessoal com um psicólogo e eu. A infraestrutura que tinha, não tinha muita não, era o psicólogo e eu. Eu convidei minha esposa, grávida do Renato, pra ir comigo em Bagé. 

 

P1 – Grávida de quanto tempo já?

 

R – Foi no começo do ano, ela estava no começo da gestação. Nós fomos de carro... Como chamava aquele carro, gente? Corcel I. Tinha o II depois, aquele moderno que ninguém vê na rua mais hoje. Mas com o Corcel I nós fomos a Bagé, fizemos uma seleção lá em três pessoas só, Paulo Ferreira - o psicólogo -, a Rose - minha esposa - e eu. E tinha uns 400 candidatos. Nós lotamos um colégio das irmãs lá, pedimos permissão para elas se podíamos fazer a seleção lá, lotamos o colégio de gente. E vai, e vai, e mais uma turma, foi muito engraçado. Nós nunca imaginávamos que, para selecionar 20 e poucas pessoas, que nós íamos ter 400 candidatos. De lá, já com uma experiência na cabeça, viemos pra Laguna, já como seqüência, selecionar em Laguna e Registro também, que era no Vale do Ribeira, foi a mesma coisa. Nós chegamos aqui em São Paulo que era só o pó, exausto. 

 

P1 – Vocês iam, faziam a seleção e voltavam?

 

R – Não, já viemos direto fazendo.

 

P1-  Já foi fazendo?

 

R – Fizemos três. _______ nós não tínhamos experiência de que ia aparecer tantos candidatos. Foi um...

 

P1 – Não esperavam.

 

P2 – A seleção era pra quais os cargos?

 

R – Desde diretora até inspetor de aluno e faxineiro. Então o mais difícil, você tinha que entrevistar com mais apuro e tal, mas era o pessoal da direção, administrativo, orientação, magistério. Mas era muito cansativo corrigir a noite toda. Corrigir e dar o resultado no outro dia porque você não podia ficar lá muito tempo, eram três dias para fazer a seleção. Então isso foi, o primeiro susto que eu levei foi esse, essas seleções aí.

 

P1 – Não contavam com tantos candidatos?

 

R – É. E a gente tem que se apegar a situações que se apresentavam. Por exemplo, a diretora da escola de Paragominas foi selecionada em Belém do Pará. Era num salão, aqueles salões de convenção lá do Hotel Sagres lá de Belém. Nós conseguimos reunir o pessoal, orientador, diretor, essas coisas, reuniu em Belém, que não tinha ninguém de Paragominas. Como é que nós íamos fazer a pessoa viajar 400 quilômetros até Paragominas pra fazer a seleção lá? Não, a seleção vai ser em Belém. Fizeram uma seleção do pessoal, dos profissionais de Paragominas em Belém, depois de selecionados que eles vieram conhecer a escola. 

 

P2 – Sr. Antônio, eu queria voltar um pouquinho. Eu gostaria que o senhor falasse um pouco mais sobre a Pecplan, como é que ela surgiu, ______? 

 

R – Como ela surgiu na minha vida, né, porque ela já existia, né?

 

P – Em que período que foi, em 1972?

 

R – Não. Em 1989 que eu vim ter contato direto com a Pecplan. 

 

P1 – Em que fase de que escola? Da Canuanã?

 

R – Não. 

 

P1 – Depois?

 

R – Já existia Canuanã ____ muitas escolas. 

 

P1 – Canuanã tinha sido a segunda, né?

 

R – Canuanã, depois Bagé, Laguna, Registro, Campinas, depois Itajubá, São João Del Rei, tudo. Estavam todas instaladas já. Eu vim a assumir esse cargo na Pecplan, mas eu acho que já estavam quase todas as escolas já instaladas. Eu não me lembro agora qual que não estava. 

 

P1 – E ela existia já então e foi incorporada?

 

R – A Pecplan existia independente. Ela era uma S.A [Sociedade anônima]. que o Bradesco detinha a holding, detinha as ações. E em 1989, foi decidido pela diretoria que a Pecplan ia pertencer à Fundação Bradesco. Então a Fundação Bradesco comprou as ações que eram da holding, o banco fez doação pra poder comprar e colocar em nome da fundação, e foi transformada em Limitada (Ltda.), não era Sociedade Anônima mais. Ela foi transformada em cotas da fundação. Por quê? Se me pergunta porque, se ela existia, por que ela veio pra fundação? Porque a idéia era que se associasse pólos agropecuários e que a fundação fosse cuidar, se associasse com atividade agropecuária e inseminação. Ou seja, o que seriam esses pólos? Seria o pólo de treinamento, de desenvolvimento. Então aí surgiu ______ do Sul, Uberaba, os núcleos de treinamento importantes, um próximo de Salvador, em Garanhuns, Fazenda Sete Quedas. Enfim, só na área de Campo Grande, só na área de pecuária existiam cursos afins, mais ou menos uns 15 núcleos. Então a fundação deu outra... Canuanã, Bodoquena também contando, que lá também tinha cursos de inseminação que não eram para alunos da fundação, era pra comunidade. Então, vinha o capataz da fazenda tal lá do Pará, ia fazer curso na Ilha do Bananal. Esse era um aspecto, que era a contribuição direta aos pecuaristas. Outro aspecto importante era que os alunos oriundos da Fundação Bradesco Canuanã e da Fundação Bradesco Bodoquena, os internatos, tivessem colocação garantida através da Pecplan pelos seus clientes. Então a Pecplan já começava a divulgar: “Olha, vai ter 40 alunos se formando lá, 30 lá, tal.” E os vendedores já começavam a trabalhar o assunto na região, quem precisava. E as pessoas iam lá na escola entrevistar os formandos. E na verdade você conseguia colocar todos os alunos no mercado. 

 

P2 – Conseguia encaixar. 

 

R – Então foi assim, um casamento perfeito que estava cumprindo a sua filosofia, a sua meta, e deu certo. Ademais, a Pecplan também não dava prejuízo. Aí começamos a dinamizar como empresa, trabalho social e tal. Isso ajudou a divulgar o nome da Pecplan, as atividades. Nós da Fundação começamos a participar na ASBIA, Associação Brasileira de Inseminação. Fizemos um trabalho muito grande de levar nitrogênio, que é fundamental para conservação de sêmen, em rincões distantes do país. Então foi um trabalho de uma extensão muito grande, desde Rondônia a Rio de Janeiro, Bagé... Os quadrantes do país estavam atendidos, essa era uma meta que foi plenamente cumprida. Depois aí, as atividades. Foi feito um núcleo de formação de rebanho na Canuanã e outro na Bodoquena. Nós estávamos na quinta geração que se chama, Gado PO, Puro de Origem. Então, começou com o gado simplesinho, Livro Aberto. E através dos alunos, que faziam todo o trabalho com o gado que chegou a ser um padrão PO, Puro de Origem. Tanto era o prestígio que a escola, os empresários compravam o gado por telefone, parecia um telemarketing, comprava por telefone: “Qual a linhagem que você tem? Qual a filiação? Pai paterno, materno”, aí então estava neste ponto. Aí o Bradesco decidiu, por questões de linha de atuação de trabalho, que focar mais as suas atividades, tudo, na organização, mais pra parte financeira, e começou a desligar, e começou a vender as atividades que não eram, fazendas, começou a dispor. E a Pecplan era uma das atividades que não era afim da área financeira. Aí fizemos um trabalho muito bom de divulgação, de aproximação com grupos do ramo, e ela ficou sendo da ABS, é um grupo americano muito forte mundialmente também, e passou a Pecplan para ABS que continua até hoje. 

 

P1 – Até hoje?

 

R – Até hoje. Muito forte, é líder de mercado. 

 

P2 – E além da Pecplan houve outras parcerias?

 

R – Bom, a fundação teve duas atividades dentro dela que não era da área educacional propriamente dita, que foi... Ela foi responsável pela área de treinamento dos funcionários do Bradesco a nível Brasil e área de alimentação. Os incentivos fiscais à Fundação Bradesco é que administrou a nível de Brasil também. E eu fui superintendente também na área de Pronan.

 

P1 – Que era o Programa Nacional de Alimentação?

 

R – Era Programa Nacional de Alimentação. Eu gostei tanto que hoje eu tenho um restaurante. 

 

P2 – Ele foi incorporado então também à fundação?

 

R – Não, foi criado. 

 

P1 – Ele foi criado? Diferente da Pecplan?

 

R – Diferente. Na época que surgiu a lei dos incentivos fiscais foi decidido que a fundação iria fazer esses trabalhos. E como a fundação vivia sempre de recursos provindos do Bradesco, das empresas do Bradesco, era mais uma fonte que o Bradesco poderia destinar recursos para a fundação para poder suportar o custo da área educacional. Então, implantou a nível de Brasil. Eu acho, até me arrisco a dizer, que foi o primeiro programa assim que teve um vale almoço, essas coisas no Brasil, foi a Fundação, porque nós conveniamos dois mil pontos de alimentos, de restaurante, lanchonete, padaria, essas coisas, a nível de Brasil. E era tudo conveniado e todos credenciados pro Pronan, foi um trabalho muito interessante. E a área de treinamento, o Bradesco destinou Guaratinguetá, o Clube dos 500 para treinamento, o Hotel Nova Odessa aqui em Nova Odessa.

 

P1 – Clube dos 500 já era para treinamento?

 

R – Era. Aí constituímos um núcleo aqui na matriz, um núcleo na nova central, um núcleo na central, começou a descentralizar um pouco, Curitiba, Goiânia, fazer cursos regionais também. Então diminuía o custo e também facilitava os ______. Você centralizar tudo em São Paulo, a nível de Brasil era um sacrifício danado. Então nós fizemos cursos externos também do treinamento. Aí eu acho que esgotou, cumpriu-se a missão. O banco assumiu. 

 

P1 – O banco assumiu...

 

R – Assumiu o treinamento.

 

P1 – O treinamento. 

 

R – E o Pronan terceirizou. Ela passou pra VR [Vale Refeição] do Brasil ticket restaurante e tal. 

 

[Pausa]

 

P1 – E então, aí a Pronan o senhor dizia, ela foi, acabou terceirizada?

 

R – É, acabou sendo destinado às empresas que se especializaram para esse fim. Surgiu a lei, pegou todo mundo de surpresa e o Bradesco já entrou com atividade própria para se beneficiar do incentivo. Não tinha nenhuma empresa no mercado, aí foram alguns anos para que o mercado se estruturasse aí com o ticket refeição, o ticket alimentação. 

 

P1 – Na verdade, cada uma dessas empresas, entre aspas, que foram incorporadas, foram destinadas a suas áreas. No decorrer do tempo foram...

 

R – Foram, foram.

 

P1 – Terminaram destinadas às suas devidas _______

 

R – Cumpriu a sua função, voltou pras empresas especializadas, para áreas especializadas. E o treinamento continua até hoje, mas já dentro do Bradesco, não foi terceirizado. Isso por questão, é óbvio que você não vai dar treinamento estratégico de um banco para um terceiro executar, né? Essa foi uma questão, obrigatoriamente teria que ficar dentro. 

 

P1 – O Cetag [Centro de Treinamento de Artes Gráficas] também tinha mais ou menos a mesma história?

 

R – O Cetag foi...

 

P1 – Ou ele já prestava mais serviços para o banco _____

 

R – Não, o Cetag era da Fundação. 

 

P1 – Da Fundação mesmo?

 

R – O Cetag era um setor da Fundação. 

 

P1 – E ele também fazia essa profissionalização dos alunos?

 

R – O Cetag é Centro de Treinamento de Artes Gráficas, que é a sigla, né? Começou assim, o Sr. Amador era apaixonado por gráfica. Todo dia ele ia lá na gráfica e tal, depois do almoço. Aí, dentro daquela idéia de treinar alunos carentes, criamos um centro de treinamento dentro da gráfica. Pegamos umas máquinas de doação tal, a gráfica doou, destinou uma área lá dentro e tal. Nós montamos, a fundação montou lá dentro o Cetag. E do Cetag foi uma célula porque do Cetag surgiu o Cecap, Centro de Treinamento e Capacitação Profissional. Aí já é mais amplo, aí já se criou outros. 

 

P1 – Não só de artes gráficas, né?

 

R – Não só de artes gráficas. 

 

P1 – Entendi. 

 

R – Ele funciona até hoje. Os cursos, eu não sei que cursos tem hoje, mas ______ chamava Escolinha do Cristo ali. Ainda tem um Cristo ali. Tem? Eu não sei se ainda tem. 

 

P1 – É o prédio de Cristo?

 

R – É o predinho do Cristo ali. Então, lá foi montado outros cursos do Cecap. E vinha aluno de fora, atendia gente da comunidade. Depois teve, cada coisa tem sua época. Aí os alunos pararam, não traziam mais alunos de fora, era só alunos de Osasco, da comunidade. E continua até hoje com curso de Informática, muito concorrido. 

 

P1 – E da Fundação. 

 

R – Da Fundação. Nós fizemos até curso de Horticultura. Algumas casas da Cidade de Deus foram destinadas para... então tinha todo aparato, uniforme, tudo, do pessoal do curso de Horticultura. Isso nos surpreendeu porque alguns achavam que não ia ter candidato, que: “Imagina, fazer curso de horta, Horticultura, Floricultura, quem vai querer?”. Olha, e tinha muito, muito aluno que gostava de mexer com a terra, mexer com canteiro, com...

 

P2 – Isso foi quando?

 

R – Foi nessa época logo depois do... Eu não tenho precisão nessas datas, mas na época de criação do Cecap. 

 

P1 – Do Cecap?

 

R – Do Cecap [Centro de Empreendedorismo e Inovação]. Cetag e depois o Cecap que incorporou o Cetag também, incorporava tudo. Então foi criado um curso de Pequeno Empresário, abertura de uma empresa, funcionamento, com produto próprio. Cada empresinha criava o seu produto.

 

P1 – E aí tinha um treinamento, né?

 

R – Tinha um treinamento, fazia balanço. 

 

P2 – __________

 

R – É, você tinha que fazer abertura, pesquisa de mercado, criação de produto, divulgação do produto, vendas e resultado. Então...

 

P1 – Pra isso tinha que ter agência, comércio, contabilidade?

 

R – Aí tinha agência lá dentro, tinha um setor de contabilidade nessas casas que foram destinadas, tinha agência bancária, tinha tudo lá. E no final do ano, era um ano de curso se não me falha a memória, e no final do ano se fechava um ciclo, fechava o balanço da empresa, __________ pequenos empresários. Então eram células que iam. Vocês estão lembrando agora porque eu já tinha passado batido já. 

 

P1 – ______ voltadas para ensino?

 

R – Isso. Já tinha passado batido aí do Cetag e do Cecap. Mas era um trabalho que se multiplicava assim a olhos vistos. 

 

P1 – E criava agente multiplicador porque essas pessoas iam depois para as suas regiões utilizar as informações? 

 

R – É. Curso de Manutenção de Máquinas, curso de Datilografia, coisas do século antes de Cristo. 

 

P1 – Teve um tempo que teve um boom disso, de máquinas, de manutenção. 

 

R – Teve porque o Bradesco tinha muita dificuldade. Não era informatizado agência, _____.

 

P1 – Era anterior à digitação, né?

 

R – Anterior. Ah, você lembrou de outro, depois eu falo da digitação. Então nós tivemos um curso de Manutenção de Máquinas aqui em Campinas, e vinha alunos do Brasil todo fazer e nós formávamos, aí o pessoal da área do banco aí, de manutenção de máquinas, fazia o treinamento desses alunos, dava certificado e ele voltava como Técnico de Manutenção de Máquina, com emprego, carteira assinada, na sua região. Então, você já imaginou em Ji-Paraná, não é? Quebra as máquinas da agência lá, começam a quebrar, não tem quem conserta, não tem. Então, havia um técnico. Era muito interessante pra comunidade, pro banco. Você falou da digitação, nós tivemos um curso de digitação muito...

 

P1 – Pioneiro, né?

 

R – Pioneiro na época remota aí do início da informática. O computador, tinha um computador que eu não sei se era 11, 30, qualquer coisa assim, ocupava meia sala dessa daqui, e ele era menos possante que um laptop, né?

 

P1 – Tinha que ter dois pra operar, né?

 

R – É. E curso de perfuração de cartões. Você passava os dados para um cartão perfurado, de papel, e o computador lia os cartões e transformava em dados. 

 

P1 – Bom, e dessa supervisão toda, dessa história toda, alguma história de transformação de vida? Porque isso transformou a vida de muitas pessoas, que eram os alunos carentes que se transformavam em profissionais. Foi um tempo muito longo, alguma história mais destacada de transformação de vida, quer de funcionário, de aluno, que o senhor lembre?

 

R – Tem um ex-aluno da escola de Canuanã. Eu volto a Canuanã porque eu conheci bem mais pra onde eles foram, o que está fazendo hoje, está acompanhando bem mais. 

 

P1 – O seu trabalho lá foi muito intenso, né?

 

R – Foi mais intenso. Um menino chamado Edmilson foi um desses que saiu. Vieram algumas turmas de Conceição de Araguaia e outra de Canuanã fazer cursos na matriz. O Edmilson voltou para Goiânia e foi trabalhar no Bradesco Turismo. Lá existia a agência da Bradesco Turismo, de passagem, apoio para viagem, essas coisas. E ele se tornou gerente de cartões da regional de Goiânia. Cresceu, tornou-se gerente de cartões. Outro que veio também com essa turma e fez um curso de auxiliar de enfermagem na Gastroclínica. Acabou ficando aqui e tornou-se gerente da UTI [Unidade de Tratamento Intensivo] da Gastroclínica. Então...

 

P2 – Ficou por aqui. 

 

R – Ficou por aqui. A evolução eu fiz. A pessoa estabelece metas para si, vê o que quer da vida. Então, esse foi um exemplo aqui de dedicação na área de Enfermagem. Hoje ele é responsável, foi para Goiânia, mudou-se para Goiânia e é responsável pela UTI de um dos grandes hospitais de lá. Ele quis ir pra lá, foi uma opção dele. E o Edmilson também deve ter sido, quer dizer, você sai da Ilha do Bananal, se torna gerente de Cartões de crédito da organização Bradesco na regional de Goiânia. 

 

P1 – É uma transformação...

 

R – Eu acho o fato uma transformação muito forte e importante.

 

P2 – Sr. Antônio, como é que era a integração dos alunos na escola? Quando se instalava uma escola como em Canuanã, como que iam chegando os alunos, como é que era a receptividade?

 

R – Bom, hoje até se desconhece como é que as informações chegam às regiões mais longínquas lá. Você falou Canuanã, então eu vou falar da Canuanã. Para cada vaga existe uma infinidade de candidatos. Então, a informação é que ela vai, através das rádios da região já divulgam. Não é a fundação que divulga, são os próprios pais que dão informação...

 

P1 – A própria comunidade já...

 

R – A comunidade já se interessa em divulgar. Se interessa porque aquilo corresponde à expectativa dela. Então, a Fundação não divulga a vaga porque é redundante. Você divulgar a vaga hoje vai criar mais problema até para você, para poder administrar depois a seleção desse povo. Então a própria comunidade divulga. Eu acho que é assim que as informações chegam. 

 

P1 – E eles chegam, logo se adaptam? Geralmente não tinha notícias de nenhuma dificuldade mais séria?

 

R – Hoje não. Nós tivemos um fato só no início. Os alunos que, alguns alunos fugiram, depois os pais trouxeram de volta. 

 

P1 – Não queriam estudar?

 

R – Eu acho que era um choque cultural, né?

 

P1 – Muito grande. 

 

R – Choque cultural muito grande, inclusive pela filosofia do estabelecimento ser internato. Aí tem regra, não pode, tem que ficar. O aluno está acostumado a montar no cavalo, descer do cavalo a hora que bem entendia e não era bem assim lá. Assim, como qualquer outra escola, você leva uma criança no primeiro dia, ela se derrete de tanto chorar, outras já se adaptam. 

 

P1 – Quer ficar. Quais as suas lembranças a respeito do Sr. Amador Aguiar? O senhor tem lembranças dele?

 

R – Tenho, tenho.

 

P1 – As principais _______

 

R – O Sr. Amador Aguiar tinha uma característica diferente de muitas empresas que colocam a hierarquia acima de qualquer coisa. Ele colocava o contato direto com a informação acima de qualquer coisa. Então, não é o nosso caso, é particular da fundação, estou falando. Não estou dizendo que no banco ele fazia isso, mas no nosso caso eu tive o privilégio de conviver com ele devido a essa decisão dele de querer saber diretamente. Então eu chegava de viagem, o meu chefe avisava: “Olha, o Antônio chegou de viagem, você quer falar com ele?”. “Pode subir aqui”. Então, nós íamos no sexto andar deste prédio, deve ter ainda o apartamento dele com uma sala de jantar, de almoço e jantar pessoal dele. E ele tinha a área de descanso dele, que ele precisava, ele tinha uns problemas de saúde. Ele fazia alguns tratamentos, fazia aqui mesmo. E ________ a gente chegava, ele estava descalço. Falam que isso daí é só ________ de pensar: “Não, o Sr. Amadeu...”. De vez em quando, tiravam a foto do pé dele sem meia. Mas ele ficava descalço e com a camisa aberta e tal e não se constrangia porque, imagina o Sr. Amadeu Aguiar ficar...

 

P1 – Ficava em família. 

 

R – Ficava tão à vontade com a gente como se ele estivesse tratando com a família dele, com a família que ele gostava de ouvir. E a gente ficava um tempo conversando, muito tempo conversando. 

 

P1 – Dava pra ele diretamente as notícias do que estava acontecendo lá?

 

R – Diretamente. E se ele achasse necessário ele ligava diretamente pra escola. Ele cuidava dos internatos como se fosse a...

 

P1 – Pessoalmente. 

 

R – Pessoalmente, como se fossem os filhos dele. Aí, num dos internatos, um dia ele me falou o seguinte. Ele costumava sair pra caminhar assim no meio das crianças, depois no campo. E um dia nós fomos na área da pecuária, ele estava lá com as crianças conversando debaixo de um quiosque. Um quiosque de palha, ele fazia para proteger os animais do sol, e ele estava lá com os meninos conversando. Eu não ficava muito próximo não porque eu respeitava a privacidade dele enquanto ele quisesse. Aí ele me chamou, e a frase dele, ele falou: “Educação se faz em qualquer lugar”. Pensei o que é que ele quis dizer com isso, né? Ele estava debaixo de um chapéu de palha. Então ele estava falando com as crianças e as crianças interagindo com ele. Então, eu não sei, eu acho que isso ele quis dizer educação, né?

 

P1 – Qualquer sala em qualquer canto. 

 

R – Qualquer sala, qualquer canto. Aí ele complementava sempre: “Desde que tenha saúde e comida”. Isso ele cuidava. Ele falou: "A saúde e a comida das crianças vem em primeiro lugar". Aí depois pode ser a sala de aula, mas primeiro tem que estar alimentadas. 

 

P1 – E qual o seu sentimento, Sr. Antônio, de saber que o seu trabalho beneficiou tantas pessoas, principalmente as crianças?

 

R – Ah, é gratificante. Você não tem nada que te pague. Não tem nada porque, do jeito que eu estou falando com vocês aqui, eu não sei o que está escrito aí, não sabia o que vocês iam me perguntar, não estudei nada. Como que eu vou estudar se eu não sei, né, que pergunta vem? Então é o que está dentro de mim. Se estou respondendo algumas coisas que está espelhando o que eu sinto, isso é pura verdade, é pura sinceridade. Eu me encho de orgulho de ter feito o que eu fiz, e faria de novo. Eu faria tudo de novo. 

 

P2 – Eu queria saber, na opinião do senhor, quando a gente olha pra nossa história, a história da educação brasileira, fazendo assim, vendo a importância. Como é que é pro senhor a importância da Fundação Bradesco pra nossa história de educação aqui no Brasil?

 

R – É, eu diria que a Fundação Bradesco foi a pedra fundamental, eu acho. Daí surgiram outras fundações com abertura para outras áreas e tal, mas ninguém acreditava que fosse importante, tão importante, inclusive o meio empresarial, a fundação. A fundação tem vários aspectos pra você observar. Você tem o aspecto social, o benefício que ela leva, tem a obrigação social da empresa de devolver dividendos sociais. Isso deveria ser muito mais marcante, muito mais rígido até, mas essas são palavras do Sr. Amador, de que toda empresa tem que distribuir dividendos sociais também, e daí, surgiram outras fundações. Eu acho que no cenário nacional, a Fundação Bradesco foi um marco. 

 

P1 – E o senhor, o senhor é casado?

 

R – Sou. 

 

P1 – Qual o nome da sua esposa?

 

R – É Rosemeire. Completo? Rosemeire Ramos (Borsanello?) Perez. 

 

P1 – O senhor a conheceu antes da Fundação Bradesco, né? O senhor a conheceu fora _____?

 

R – No interior. 

 

P1 – No interior?

 

R – Na nossa cidade do interior. 

 

P1 – Vocês se casaram lá?

 

R – Nos casamos lá. 

 

P1 – E tem quantos filhos?

 

R – Três filhos. 

 

P1 – O que o senhor gosta de fazer na hora de lazer, Sr. Antônio?

 

R – Hoje eu já estou meio deslanchado, né? Mas eu gostava de viajar. Qualquer oportunidade que eu tinha de sair com os meus  filhos, para qualquer lugar aqui em torno de São Paulo, litoral. Eu gostava de viajar. 

 

P1 – E, na opinião do senhor, qual a importância desse Projeto Memória 50 Anos da Fundação Bradesco?

 

R – Eu acho que todo mundo que trabalha não pode ficar esquecido. Ele tem que ser, de tempos em tempos, cada um com seu ciclo, cada trabalho, de tempos em tempos, tem que ser rememorado, repensado, refletido. O trabalho da Fundação Bradesco não é pra ser esquecido, e entra gente nova, ninguém mais lembra como foi. Eu acho que tem que ser lembrado mesmo. Vocês estão fazendo um trabalho excelente, trabalho de muita importância. Eu so... pela minha idade eu tenho que ser saudosista. Eu não tenho que dar grandes saltos pra frente mais, né? Mas que eu estou fixado sempre em princípios que me marcaram, isso eu estou. E como marca uma pessoa marca uma empresa, marca um trabalho, marca uma filosofia numa época. A fundação marcou época. De uma forma ou de outra você pode pensar que o trabalho hoje é diferente, o trabalho hoje é todo informatizado. O trabalho é assim, mas tudo foi importante, tudo trouxe ao que é hoje. 

 

P1 – E continua?

 

R – Continua. Você não pode, o passado você tem que ter sempre ele vivo pra poder refletir o teu futuro. 

 

P1 – E o que o senhor achou, Sr. Antônio, de participar dessa entrevista pro projeto de história oral da Fundação Bradesco?

 

R – Ah, eu estou muito feliz. Se eu não falei demais. Eu estou muito orgulhoso de ter participado.

 

P1 – Falou bem, falou o suficiente. 

 

P2 – Contribuiu bastante. 

 

P1 – Em nome da Fundação Bradesco e do Museu da Pessoa a gente quer agradecer a sua participação, o seu tempo, tá bom? Muito obrigado. 

 

R – Eu que agradeço a chance que vocês me deram de colocar em dia as minhas lembranças boas e espero que, pra minha satisfação, que esse trabalho me dê mais força ainda de eu empreender algumas outras, traçar outras metas, que não é a idade que anula a idéia das pessoas. Eu acho que o que anula são as frustrações, é a falta de reconhecimento, a falta de vontade vem de não encontrar espelho, não encontrar nada pra você ver a tua imagem como está. Eu estou vendo a minha imagem hoje, estou me vendo por dentro. Eu estou muito bem reconhecido e só tenho a agradecer a vocês também por terem pensado nesse trabalho, agradecer a fundação por ter me dado essa chance de vida. O Bradesco me ensinou a caminhar com as minhas pernas sozinho, a empreender coisas novas sozinho. Sozinho, eu tomando minhas decisões sobre a minha pessoa. Eu nunca estive sozinho, eu sempre gostei de trabalhar em equipe, reconhecendo as pessoas. Estou dizendo sozinho, de decidir o meu destino e ter idéias boas para que eu atinja as minhas metas. Eu acho que eu atingi um pouco das minhas metas e pretendo fazer mais coisas ainda. 

 

P1 – Muito bem, muito obrigada Sr. Antônio. 

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

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