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História

Educação se constrói em conjunto

História de: Maurilane Souza Biccas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/08/2018

Sinopse

Maurilane de Souza Bicas nascida no dia 21 de março de 1960 em Belo Horizonte, Minas Gerais, conta sua história ao Museu da Pessoa, da infância em um bairro afastado do centro de Belo Horizonte até os dias de hoje enquanto professora da Faculdade de Pedagogia da Universidade de São Paulo. Conta histórias divertidas sobre as brincadeiras na rua, as festas que reuniam todos vizinhos, a postura política de seu pai na ditadura militar, as aventuras de jovem nos passeios pela cidade. Fala também de uma motivação para a educação, sua decisão de cursar Psicologia e de como optou por fazer uma Psicologia Educacional diferente, muito influenciada por Paulo Freire e imersa nos movimentos sociais por educação. 

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História completa

P/1 – Eu queria que você repetisse o seu nome, o local e a data de nascimento?

 

R – Eu sou Maurilane de Souza Bicas, nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais, nasci no dia 21 de março de 1960.

 

P/1 – Agora a gente vai conversar um pouquinho sobre a sua origem. Então eu queria que você falasse o nome dos seus pais e avós e atividade profissional deles?

 

R – Ah, eu sou de uma família do interior de Minas Gerais, do Vale do Rio Doce, meu pai nasceu em Resplendor e o nome dele era Elias de Souza Bicas. Filho de padeiro português morava bem no interior e conheceu a minha mãe porque os pais dela, eles compraram a padaria do meu avô paterno e ali se conheceram, se apaixonaram. Minha mãe chama Iolanda de Souza Bicas e a minha mãe é da Barra do Cuieté também do Vale do Rio Doce e dessa venda aí de... Essa troca, o meu avô paterno vendeu a padaria para o meu avô materno e o meu pai... Cidade do interior que não tinha mais condições de trabalho e tudo isso aí já nos anos 40, 50. Aí ele foi para Belo Horizonte noivo da minha mãe, deixou a minha mãe no interior e depois que ele arrumou um emprego ele voltou para casar. Só que a religião dos meus avós maternos eles são católicos fervorosos e tal e os meus avós paternos eles eram presbiterianos, né? Então meu pai não queria casar na igreja, isso nos anos 40, final dos anos 40 início dos anos 50, então acabou que assim, ele casou com a minha mãe só no civil que foi uma morte para a cidade e levou a minha mãe para Belo Horizonte. Era aquela história assim, eles contam isso para gente hoje, mas era assim o fim do mundo, porque são muitos dias para sair do Vale do Rio Doce, essa coisa toda. E o que foi mais engraçado, a gente foi descobrir isso depois de adulto, porque sempre rolou em casa uma foto de casamento do meu pai e da minha mãe de vestido de noiva só que quando eles chegaram em Belo Horizonte eles foram no fotógrafo, tirou o retrato e mandou para a família inteira, então a gente ficou achando que eles eram casados no religioso, mas não, foi o meu avô, quando o meu pai casou no civil, ele fez meu pai prometer que nós seríamos batizados, os filhos e que as mulheres seriam enviadas para colégio de freira. Meu pai até cumpriu, nós somos seis filhos, né? E os seis foram batizados e as minhas duas irmãs mais velhas elas estudaram em escola católica. Mas meu pai era ateu comunista e a minha mãe muito católica e assim viveram trinta anos super bem nessa loucura, né? Mas meu pai não gostava que a gente fosse à igreja não, essa coisa toda e a minha mãe sempre ficou na dela, ela rezava o terço às seis horas, mas a minha mãe nunca mais foi à igreja também até o meu pai falecer. Depois que meu pai morreu aí minha mãe resgatou essa questão da religiosidade dela, então teve essa coisa assim super marcante dessa trajetória deles do interior para Belo Horizonte, né? E os meus avós paternos eles faleceram muito jovens, pelo menos o meu avô paterno, o vovô Marcelino morreu em... Com cinquenta e poucos anos e a minha avó veio a falecer pouco tempo depois e o meu avô paterno que era o vô Zezé que era o padeiro, ele também faleceu no interior e depois a minha avó veio para Belo Horizonte, veio com os filhos. Enfim, acabou que a família toda chegou para Belo Horizonte e ficou, uns foram puxando os outros para Belo Horizonte. E nós somos seis filhos, né? Tem quatro que moram em Belo Horizonte, eu estou aqui em São Paulo e eu tenho uma irmã que mora em Juiz de Fora, é um pouco isso assim essa origem inicial, né?

 

P/1 – Certo. E a origem do nome da família? Seus pais eram...

 

R – Olha, essa história do casamento é engraçada, porque a minha mãe, a família da minha mãe... O meu avô era negro, a minha avó ela tem uma descendência portuguesa, a minha avó materna, agora os meus avós paternos são portugueses. O meu avô veio fugido de navio aquelas histórias aí do início do século, né? E o que aconteceu? A família do meu pai é Souza Bicas e a família do meu avô materno era Souza Campos, então a origem são só nomes portugueses. E quando a minha mãe casou ao invés de deixar o sobrenome Campos dela ela deixou o Souza, então acabou que a gente ficou só com o nome do pai, então ficou todo mundo Souza Bicas, né? Mas a gente pode colocar que é uma origem portuguesa que se misturou um pouco no Brasil e acho que é um pouco isso.

 

P/1 – Certo. Agora eu queria que você falasse um pouco da sua infância? Se você lembra? Como que era o bairro? A rua que você morava? As casas?

 

R – Maravilhosa. Quando... Essa história da ida dos meus pais para Belo Horizonte, meu pai arrumou um bom emprego na época, ele era vendedor de uma loja, uma loja que estava assim... Loja de judeus que estava numa ascensão super grande na cidade de Belo Horizonte. E a minha mãe quando ela chegou é aquela história, achou que ia engravidar rápido, mas demorou uns dois anos para minha mãe engravidar e disseram inclusive que minha mãe não ia poder ter filhos, só que teve seis, né? E aí o meu pai com essa história de vender móveis, ele achou um filão na época que era vender móveis usados e fazer colchão, meu pai era colchoeiro e ensinou minha mãe a fazer colchão e aí onde tinha lugar que as pessoas vendiam os móveis eles começaram a vender móveis usados para revender. Eles moravam num cortiço, não era na região central, mas em Belo Horizonte você tem a Avenida do Contorno onde era a área mais planejada da cidade e eles moravam um pouquinho fora dessa Avenida do Contorno, dessa parte planejada. Era um cortiço. Eu fiquei lá até os três anos, mas eu me lembro muito bem de detalhes assim, a gente morava num barracão grande e nessa época a minha avó materna já tinha mandado os dois filhos mais novos para virem estudar em Belo Horizonte. Eles vieram na frente, porque todo mundo morava junto, era aquele monte de berço junto, eu sei que eu dormia no chiqueirinho, porque não cabia cama e eu era assim meio bebê, aquela coisa toda. Então a gente morou nesse cortiço e era lá que meu pai alugou mais um, tipo um barracão, para minha mãe fazer as transações da semana que era vender e revender esses móveis usados aí. Então os seis filhos nasceram nesse bairro que chamava Floresta que a gente morava e o meu pai começou a melhorar muito nessa firma lá que chamava Mineira Amazonas, era uma cadeia de lojas e quando foi nessa época meu pai começou a construir que era a periferia da periferia da periferia, né? Bem fora dessa Avenida do Contorno já era divisa de município que é município de Belo Horizonte com município de Sabará que é uma cidade histórica próxima. E era um bairro que estava começando e tal, e aí meu pai resolveu construir uma casa e nunca deixou minha mãe... Minha mãe sonhava com aquela casa com floreira, aquela coisa romântica e o meu pai construiu uma casa super moderna, uma casa bem dos anos 50, 60 toda de lajotinha, quadrada, não tinha nenhum jardim na frente, nada. Ele só deixou a minha mãe ir faltando uma semana da gente mudar. Aí a gente foi para essa casa eu já tinha uns quatro anos de idade, a minha irmã mais velha já estava com nove anos de idade. Não tinha nada no bairro, nada, não tinha água, não tinha esgoto, não tinha luz nem nada. O meu pai é que puxou o primeiro poste de luz para esse bairro e aí todo movimento de luta para fazer calçamento, esgoto, escola que não tinha, eu estudei numa garagem emprestada de uma casa durante um ano, cadeiras emprestadas, não tinha banheiro, não tinha água até construir um grupo escolar que já foi aí já em 68 ou 69, né? Mas a gente fazia... tudo que aconteceu naquele bairro desde esgoto para nós era sempre festa, a gente brincava nos buracos no meio dos cavalos, dos cabritos, parecia cidade de interior, então foi uma época muito gostosa assim. Para criança tudo é festa, para minha mãe era um sufoco, tinha só três ônibus que circulavam que quebravam ou na ida ou na volta. A minha irmã como não tinha grupo escolar, a minha mãe tinha que levar na Floresta onde a gente morava. A minha irmã ficou ainda nessa labuta um ano, aí quando eles abriram uma escola a minha irmã tinha que levar carteira para sentar, a minha mãe tinha que ir com um banco. Aí chegava com um banco e depois nós, os mais novos, a gente... Eu e a minha irmã estudamos nessa garagem, não tinha janela, não tinha nada assim, nós ficamos lá um ano nessa garagem até ir para esse grupo escolar que foi inaugurado aí já no final dos anos 60, né? E com relação à escola meu pai ajudou, eu lembro assim de coisas que marcaram muito assim, da fase escolar. Quando o homem pisou na lua o meu pai mandou a televisão para a escola, então nós assistimos aquela reprise do homem na lua na escola. Mas foi uma coisa assim muito mágica, foi super bonito aquilo em preto e branco numa televisão pequena e a meninada toda em pé em cima das carteiras para assistir o homem na lua. Era um negócio muito forte para gente na época, né? Então se o meu pai teve essa coisa muito forte de pensar em construir o lugar e teve uma outra coisa assim muito forte da minha infância que era a questão dos livros. O meu pai só tinha a terceira série, quarta série primária, mas ele achava que tinha que investir na educação da gente, dos seis, então a gente brincava muito, mas tinha essa questão dos livros e ele fez biblioteca, então comprava muito livro. Então a minha casa era a casa que era a biblioteca do bairro, então todo mundo buscava esses livros lá e... Me empresta isso, pesquisa disso, pesquisa daquilo, os livros iam, rodavam e tal e a gente estava na escola tinha uma rede... Seis irmãos, então a gente tinha uma rede de amigos em níveis diferentes de escolarização, então a casa vivia cheia de gente para fazer essas pesquisas e tal, então nesse período os livros circulavam com muita... Essas revistas, enciclopédias, meu pai assinava muita revista Life, Time tudo em inglês, mas ele assinava essas revistas. E depois já na época da ditadura aí a barra ficou mais pesada, a gente morava muito afastados mais também tinha os livros proibidos para a época, Marx, Jorge Amado, vários e eram livros que circulavam no mundo adulto, né? Era muito interessante essa história, porque eu tinha... Um cunhado do meu pai que era alemão e tinha vindo, enfim circulava essas histórias todas até que começou aquele zumzumzum que eles estavam fazendo batida nas casas e coisa e tal. Aí foram enterrar esses livros. A criançada... Isso foi uma coisa muito marcante na nossa infância, porque a gente não entendia o que acontecia e aí eles encheram sacos e sacos com esses livros proibidos. Acho que foram uns dois ou três sacos e foram enterrar esses livros aí, eu me lembro, fizeram uma preparação de uma fossa desativada assim com aquela ideia de um dia a gente desenterrar esses livros, isso foi em 68, 69 nunca desenterrou, isso foi uma coisa muito forte da infância. Eu sempre tive uma ligação na infância muito com livro, porque eu era muito gorda, então esses brincadeiras de subir em árvores eu ia num tempo, mas o outro eu não dava conta, porque eu cansava muito essa coisa toda, então eu sempre, dos meus irmãos eu era aquela que lia muito, eu adorava ler. Ainda gosto, mas eu adorava ler, então essa ligação com essas histórias também dos livros da infância era muito forte, então acho que foi uma infância bem diferente. A gente tinha uma comunidade de colegas meninos e meninas de rua, assim, dos vizinhos e todo mundo frequentava a casa de todo mundo, brincadeiras na rua... Chegava assim... Quando era férias, verão, aquele cheiro de dama da noite a gente ia até dez, onze horas e brincava de tudo, de roubar bandeira...

 

P/1 – Tinha alguma assim que era favorita?

 

R – Ah, tinha roubar bandeira que era super favorita... A gente colocava até roupa na rua. Pegar lata que a gente brincava que era aquela coisa que você tinha que se esconder e a pessoa tinha que descobrir quem era e bater a lata, então para enganar a gente trocava a roupa, porque mostrava bastante a roupa que você estava para o cara errar e aí você destrocava a roupa. Guerra de mamona, então às vezes nós estávamos brigadas com os meninos da rua, a gente brigava, mas era guerra de água que a gente fazia muito, mas era guerra brava de água, a gente enchia saco plástico de água e era bravo e a gente não podia passar daqueles limites e mamona, guerra de mamona era... Aquilo dói, você conhece aquelas mamoninhas? Nossa gente, isso era muito louco, então essas eram brincadeiras... Queimadas a gente brincava muito, acho que essas eram as mais recorrentes, mas eu brincava muito talvez... Sabe que eu não me lembro tanto das minhas brincadeiras, porque eu tenho essa parte da infância nesse lugar que era mais recolhida, eu gostava de desenhar também, então ficava um pouco mais nessa linha, agora tudo no bairro, tudo no bairro. Eu fui conhecer o centro da cidade, conhecer, circular, parece mentira, mas eu já tinha dezoito anos, assim de ir sozinha no centro da cidade, eu não morava na cidade, a gente usava essa expressão, que é engraçado, você está fora, então vamos para o centro da cidade, “vamos à cidade”, porque a gente tinha... Era longe, demorava uma hora para você chegar ao centro da cidade, mas então foi uma infância muito ali. E tinha as festas também com essa história do meu pai ajudar a mobilizar água, luz e esgoto, no final de ano era a casa das festas, a minha mãe ficava uma semana inteira preparando o Natal e o ano novo. Era matar peru, matar frango, matar peru para nós era a maior festa das festas, porque tinha que embebedar o peru para poder cortar o pescoço para gente aquilo era uma... Sentava os seis... A minha mãe fazia isso tudo, matava porco e essa história toda e eram três dias mesmo, tinha o dia dos doces, tinha os dias de deixar tudo no tempero e quando chegava o dia da festa, virada de Natal e de ano novo...

 

P/2 – E o peru eram vocês que davam a bebida?

 

R – Não, a minha mãe é que colocava cachaça no...

 

P/1 – Na ração?

 

R – Não, minha mãe virava no bico do peru, às vezes o peru custava... Às vezes eram dois, três copos de peru, não, de cachaça, a gente só ficava vendo o peru bêbado, está na hora, não está na hora, de ver o peru bêbado. Tinha muito bicho lá em casa também macaco, periquito a gente tinha a história de engordar um porquinho e engordar o cabrito para fazer no final do ano e cabrito então a gente não comia, porque a gente tinha uma relação super afetiva com o cabrito e então a gente não comia.

 

P/2 – Era isso que eu ia perguntar, qual é essa relação?

 

R – A gente não comia, acho que só a galinha a gente comia sem dó, mas os outros... O meu pai ficava indignado porque a gente não comia, meu pai era um cozinheiro, ele tinha uma relação com comida maravilhosa... Ele disputava com a minha mãe de fazer a comida e aí quando ele fazia as comidas não tinha tanta gente para comer, aí ele tinha as panelinhas que fazia e distribuía para a vizinhança “Ah, fiz esse prato, fiz aquele”. Ele inventava um monte de coisa, ele era muito criativo. Mas essas festas quando fazia toda essa comilança a gente tinha que chamar as pessoas para virem para a festa, né? Aí a gente ia fazer serenata casa por casa, porque naquela época podia fazer isso, né? A gente ia montando uma banda com lata, vasilha e tal e a gente ia circulando e chamava as pessoas e aí vinha todo mundo passar a virada do ano e ficava até seis, sete horas da manhã e já tomava o café ali, era uma coisa bem levada, era muito alegre e a meninada participava, a gente participava... Para gente era uma coisa indescritível eram momentos assim muito fortes, muito gostoso da vida, delícia, então a gente tinha uma convivência bem legal. A minha casa era uma casa bem festeira, assim, meu pai sempre gostou de muita gente dentro de casa, muita gente.

 

P/1 – Agora Maurilane, na infância foi assim. E a sua adolescência? Permaneceu? Você tinha um grupo de amigos?

 

R – Não, grupo de amigos... Meu pai emprestava o carro, éramos cinco mulheres e só um homem, então o meu pai essa coisa de circular no bairro na adolescência... Nós íamos a todas as festas, todas e acabava se não tivesse uma bebida gostosa, uma batida... Naquela época era chique batida, cerveja não usava e se acabava a batida daquele lugar a gente ia para outro, se tivesse música boa e tinha que ter salgadinho, né? A gente circulava de festa em festa só que eram cinco mulheres, como é que anda? Claro que era muito diferente do que é hoje, mas aí o meu pai, quando a gente foi ficando maior... O meu pai ele tinha uma relação com os jovens, ele dava o carro para os meninos que tinham carteira e falava vai passear com as meninas, é engraçado isso, né? Deixava a gente circular acho que até uns quinze, dezesseis anos, depois ele ficou doente, enfim, mas nesse circular da adolescência ele foi bem forte. Agora aí você também tem uns problemas financeiros, aqueles altos e baixos, ele saiu desse emprego que ele tinha e aí resolveu fazer coisas próprias, começou a inventar coisas, então aí criou colchão musical, berço musical, ele inventou um monte de coisas. E aí nesse período foram vacas muito magras de grana e seis filhos, a gente estava em escola pública e eu tinha paixão de pensar que eu ia fazer vestibular e eu como estudava muito eu pensava: “Eu tenho que ir para uma escola melhor”, mas não tinha como pagar escola melhor, as minhas irmãs que estavam em colégio de freira, uma já tinha formado como professora, mas o meu pai não queria que ela trabalhasse, ele achava que era o responsável pelo sustento, então foi difícil ele aceitar dela dar aula. Aí nessas vacas magras ela que comprava sapato para gente e claro que família muito grande... Lá em casa desperdício... Lá em casa sempre teve folga com comida, agora roupa, eram cinco mulheres, minha mãe ia reformando e passando, na época dos colchões nossas roupas todas eram de colchões, fazia short de colchão, tudo com pano de colchão que fazia. Então não tinha essas coisas de luxo... Era a coisa de estar junto, comida sempre muito farta, né? Era um pouco isso, e aí a questão da escola isso foi uma coisa na adolescência era uma coisa mais pesada, porque a gente saiu da escola pública e fomos para uma... Você não tinha o ensino secundário público naquela época, você não tinha oferta como tem hoje, então a gente estudou numa escola particular de bairro que era simbólico quase o que você pagava para estudar, mas para nós era muito, então tinha o tal... Era o feijão e o sonho. Meu pai e minha mãe, meu pai comprava muita coisa de comida assim que não necessariamente precisava e aí não tinha dinheiro para pagar a escola aí tinha que tirar da fila quem não pagava para fazer prova.

 

P/1 – Quem não pagou não fazia prova?

 

R – Não fazia prova e aí tirava da fila e a gente queria morrer. Primeiro porque ia mostrar para todo mundo que a gente não tinha dinheiro para pagar a escola, nossa era terrível isso, era um clima assim meio pesado. Aí eu comecei a dar aula particular, eu tinha uma turma de meninos, eu tinha uns quinze meninos que eu dava aula particular desde os treze anos e aí com essa graninha eu ia fazendo outras coisas, inclusive pagar a escola, porque era muito desgastante esse pedaço. E aí as questões dessas festas, claro que elas diminuíram para os de fora, mas a minha família só a minha família é imensa. Então meu pai às vezes fazia o seguinte, ele tinha uma irmã que morava num bairro distante, então chegava final de semana ele fazia essas comidas mais criativas e a gente pegava aquela panelada a gente tinha uma Kombi e punha a comida na Kombi e ia para esse bairro que é periferia do outro lado da cidade. A gente passava lá, almoçava ficava até de noite, não tinha luz, aquela história de conversar na beirada do lampião, então a adolescência já foi... A gente saía de casa e ia para casa dessa minha tia que tinha doze filhos de idades diferentes. E a gente combinava, porque éramos assim... Nós, eu e os meus cinco irmãos a gente tem uma combinação que é algo assim, acho que é um amor incondicional, nós seis é uma coisa muito forte, eu não por que cargas d’água não tem desavença, então a gente sempre foi muito unidos. E essa minha tia com os doze filhos também a mesma coisa e só a gente já dava uma festa, já dava mais de vinte, então aí foi deslocar um pouco de casa para fazer festa em outro lugar. E quando chegava aos domingos, o meu pai, essa coisa de fazer muita comida, porque a minha mãe sempre fazia frango com quiabo, molho pardo, ela fazia os dois pratos sempre aos domingos o meu pai acordava a gente... Então nessa adolescência ele pegava uma canequinha com água e ia de cama em cama, porque você tinha o ritual da comida. Faz o café da manhã e já emenda com o almoço, mas você tinha muito essa história do tira gosto, né? Vai tomar uma cerveja e tal, mas só que ele acordava a gente para a gente ajudá-lo a inventar o prato, então ele fazia o criativo, mas cortar cebola, descascar batatas era a gente que fazia, mas ficava naquela festa, naquela coisa a tarde era aquela coisa toda... Fazia... Aí minha mãe fazia os pratos dela e ele inventava os dele, agora era sempre muita comida para gente, era muita, então era mais restrito para essa coisa familiar, né? Vem tio, então não eram mais aquelas festas de trazer o bairro para dentro de casa mais, porque o meu bairro cresceu muito, o bairro cresceu demais, aí já foi ficando uma coisa mais circunscrita e era esse ambiente familiar.

 

P/2 – Que bairro era?

 

R – Santa Inês é divisa com Sabará, passava a linha do trem de ferro assim que ligava outros municípios e era um bairro bem gostoso, com ruas largas, muita árvore aquilo que você vê o céu bem gostoso. Ali não foi um bairro que teve assim um crescimento de comércio, não era um bairro para comércio, ele tem uma área pequena que é um bairro dos anos 50, 60, mas ele tem uma cara muito próxima do que ele foi planejado inicialmente pelo menos 80% do bairro ele tem a mesma cara. Muito arborizado, as ruas com paralelepípedo, só tem uma rua que tem asfalto, então ele tem características ainda da origem.

 

P/1 – Você falou um pouco dos passeios que seu pai emprestava o carro, que vocês iam tomar as batidas e você lembra se tinha um ponto de encontro que a moçada se reunia? Vocês paqueravam muito naquela época? Como é que eram os namoros?

 

R – Ah, é engraçado, eu acho que está focado na escola, nas festas do colégio era um dos pontos, porque sempre tinha muita festa, mas o bairro que a gente circulava no bairro, então ali mapeava o que ia fazer no final de semana que era baile, né?  Bailezinho era festa mesmo, então tinha um ponto cada final de semana, mas aí não era só... Quando eu estou falando bairro, mas você tinha Boa Vista, tinha os bairros limites que a gente circulava, agora a gente teve muitos problemas quando a gente ia para outros bairros, porque cinema não tinha no nosso, o bairro da Floresta a gente teve problema de briga de gangue de chegar ao cinema e o cara mexer com uma... Nossa, teve um que foi horrível... Sempre a gente andava só com um homem, era o nosso motorista eu me lembro de um então que era vizinho de frente, foi o Butinho com a Teresa, irmã dele, que era terrível, ela era brava, ela dava bola para todo mundo, mas ela era brava e depois ela queria que o Butinho a defendesse. E aconteceu que nós fomos para o cinema eram seis mulheres e só o Butinho. Eu já estava com uns quinze anos, foi horrível isso, porque quando chegou lá o menino mexeu com ela e ela deu um tapa na cara do menino e os amigos desse menino apareceram e ela falava: “Butinho, você não vai me defender?” Gente olha, nós ainda ficamos no cinema, mas na saída apareceu moto e o Butinho teve de nos largar desapareceu correndo naquelas curvas todas e nós ficamos enlouquecidas sem saber o que tinha acontecido, porque só na saída do cinema eles davam pesadas era um coisa muito violenta a gente não estava acostumada. E aí quando... Fomos para casa, eu sei que a gente teve... Nós separamos em grupo para poder pegar o ônibus para ir para casa e o Butinho desapareceu e quando nós chegamos em casa o pai dele que era um cara super machão e quando chegamos só nós e cadê ele? Que fomos contar o caso, o caso, o homem virou bicho, porque ele tinha de ter ficado para apanhar, mas ele não podia ter deixado a gente foi um horror (risos). O pai queria que ele voltasse lá no bairro foi uma coisa muito... Super terrível. Nós ficamos um bom tempo sem ir ao cinema, porque a gente ia ao cinema todo final de semana, todo final de cinema e nós ficamos um bom tempo sem ir ao cinema com medo da gangue. Claro que o pai deu uma repreendida na irmã, na Maria Teresa, foi terrível essa história. Mas depois com essa história do colégio do bairro, eu dos meus irmãos todos eu tinha uma coisa, eu tinha que fazer o vestibular, gente eu não podia ficar ali, a escola não me bastava e meu pai não tinha grana para pagar uma escola melhor. Aí na época da ditadura o meu pai ele acolheu preso político em casa, deixou a minha mãe quase louca, porque assim... A pessoa eu acho que já é falecida é o Professor Maurício Lansky, ele foi Reitor da Universidade de Ouro Preto e ele ficou recluso no quarto, ainda hoje se chama quarto do Maurício, ele ficou lá com a gente quase um ano. Ele ficava trancado durante o dia e só saía à noite, era um bairro muito afastado. Eu lembro que colocou aquelas antenas de escutar rádios de fora, então ele não tinha uma convivência com a gente dentro de casa, a não ser uma vez ou outra que a gente conseguia tirar ele de dentro do quarto. E nessa época que foram tempos bastante difíceis ele foi para fora do país e depois voltou e tal, e eu já estava aí com dezesseis, dezessete anos eu fiquei com aquela história, porque a minha relação com o Maurício... Ele sempre me perguntava coisa de escola, as coisas que eu lia muito e tal e me mandava cartão de onde ele estava, criou um vínculo aí na história. Aí eu falei: “gente eu vou pedir...” ele era Reitor da PUC [Pontifícia Universidade Católica] de Minas eu falei: “Eu vou atrás desse cara e ele vai me dar uma bolsa”, meu pai ficou uma fera. Eu fui lá, conversei que eu queria estudar numa escola melhor e tal, meu pai falou que isso não se pede, porque fica parecendo que a gente ficava cobrando, ele ficou muito bravo. Mas ele arrumou para mim uma bolsa numa escola católica, então eu tenho uma trajetória com os padres e as irmãs de caridade, era um colégio tradicional de Belo Horizonte, eu já fui ao segundo científico para lá.

 

P/2 – Que colégio?

 

R – Colégio Santa Maria, é ligado ao sistema arquidiocesano.

 

P/1 – Eles são americanos?

 

R – Não.

 

P/1 – Porque aqui em São Paulo tem um colégio Santa Maria e é ligado a...

 

R – Enfim, eu fui para essa escola e penei, porque eu vim de escola pública e depois fui para esse colégio que era mais ou menos e depois fui para lá que era uma classe social completamente diferente da minha. Era meninas que tinham estudado desde o pré-escolar, estavam lá no científico todas juntas, era aquelas panelas fechadas e eu de fora, pobre, foi bem complicado ter essa mudança desse universo, mas como eu era super aplicada logo, logo quando elas sacaram que eu era uma boa aluna as coisas se abriram um pouco para mim lá, sabe? De inserir nos grupos e coisa e tal, então mudou um pouco o foco da minha socialização nesse lugar. Então mudou um pouco assim, aí eu já ia em festas que era de um outro círculo que não era e o meu pai continuava emprestando o carro nessa época assim, mas aí era festa num outro bairro, era aquela casas lindas, bacanas, na beirada da Lagoa da Pampulha, então já foi um outro círculo. Aí não passei no vestibular de primeira, aí fui arrumar emprego, né?

 

P/1 – Então, mas aí antes de você entrar nisso, eu queria que você falasse assim até nesse período todo da escola dessa sua vivência, como que era sua relação com os professores? Se teve algum que te marcou? Que te influenciou na sua carreira?

 

R – Olha, teve uma professora aí do Colégio Frederico Ozanam que é esse entre a passagem da pública para essa católica, era a professora Maria Auxiliadora, ela era professora de Geografia, então a gente tinha... Eu adorava Geografia, então eu ia super bem, eu gostava de desenhar, então naquela época a gente desenhava os mapas cartográficos, fazia todas as tarefas. Então sempre destacava assim com essa história de que os trabalhos eram legais e tal, então era uma pessoa que foi um reforço positivo. E outro também era o professor de Matemática, eu o tenho hoje com carinho, porque era nessa escola que pagava super mal e tudo. E ele dava aula na PUC. Ele tinha um compromisso ali com aquele projeto ali, então ele puxava muito e eu dava super certo com a Matemática, porque eu gostava do cara, assim, pelo jeito que ele ensinava, ele era super didático essa coisa toda. E quando eu cheguei nesse colégio lá, o Santa Maria, o meu destaque não foi nem pela Geografia, mas da Matemática do professor Aluísio, porque tudo que ele ensinou de Trigonometria, era o programa da escola que eu ia entrar, então eu já cheguei sabendo tudo e eu acertava tudo, né?

 

P/1 – E Trigonometria é um problema para a meninada.

 

R - É. Então quando as meninas sacaram que eu dominava uma coisa que elas não dominavam, então abriu um pouco as portas, então acho que assim acho que esse de Matemática, essa de Geografia... Agora gente, tem a minha primeira professora, a minha primeira professora, porque a minha trajetória inicial ela foi bem complicada, porque eu tinha uma irmã que tinha sete anos para entrar para a escola e eu tinha cinco e ia fazer seis, nós éramos muito grudadas e ela dizia que não ia para a escola se eu não fosse. Aí eu não tinha idade e a minha mãe falou: “Ela vai” e inventou que tinha pegado fogo no documento, na certidão, porque era só a certidão que levava, aí eu fui para a escola. Só que quando chegou à escola eu tinha seis anos e enfim eu não aprendi a ler e a minha irmã aprendeu a ler e deixava os professores loucos. Aí a minha mãe começou a me preparar, para não ter problema você vai repetir o ano, mas eu não me conformava com aquilo, eu só não sabia ler, mas eu não me conformava e essa professora ela gostava muito de mim. Só que a gente não fazia prova final com a professora você tinha que fazer a leitura com a diretora e eu me lembro muito bem, ela me deu uma história para eu ler que era o Patinho na Lagoa. Hoje eu sei que eu li a imagem para ela e eu passei de ano e eu fui para o segundo ano, tudo bem que no segundo ano eu só tirava zero, porque o professor não lia mais para você, é você quem tem que ler as atividades e tal. Eu fui aprender a ler no segundo ano quando eu fiz sete anos, então assim essa primeira professora eu não sei o que aconteceu que ela me passou e eu passei com uma nota boa, eu não passei raspando não, eu sei que o critério de avaliação que ela teve era uma época que era os três porquinhos, método global, não tinha essa coisa de pensar que eu estava no processo... Não tinha isso, então ela foi o... Isso me marcou muito e essa professora de Geografia que já foi no... Eu já estava na sexta série, quinta série eu acho, que me deu um gosto para estudar, então foram pessoas que marcaram, acho que foi essa primeira que não me reteve, eu sei lá por que cargas d’água. Então acho que foi uma trajetória sofrida, mas ela foi feliz e depois com essa história de estar numa escola boa, essa coisa da qualidade, né? Isso também me... Sei lá acho que me motivou mais de pensar a minha trajetória, de fazer curso superior, porque dos meus... Nós somos seis e todos fizeram curso superior, não, só o meu irmão não fez curso superior, mas a única que prosseguiu... É a primeira geração que vai para faculdade é a dos meus irmãos na família. Tudo bem que hoje eu tenho os meus sobrinhos netos que já estão entrando na universidade, mas nós somos a primeira geração que vai para faculdade, né? E para pensar em mestrado eu sou a única da família, não tem ninguém que tem mestrado e doutorado não tem, eu fui a única que segui adiante, né? Inclusive eu mudei de cidade para estudar, né? Então acho que tem esse componente aí também que deu um diferencial assim que algumas pessoas marcaram e que me incentivaram a continuar.

 

P/1 – Certo. E aí você estava colocando do vestibular que você foi fazer... Você estava colocando essa questão do vestibular que você queria fazer, então você podia contar um pouco para gente a escolha que você fez? E como foi esse percurso?

 

R – Acho que a primeira... Eu fui para uma escola boa e pensei “Vou fazer Medicina” pensava muito em fazer Medicina e aí o que aconteceu? Fiz o vestibular a primeira vez que o vestibular teve prova escrita e passei na primeira etapa e falei: “Vai dar”, não deu. E aí assim as vacas estavam magras, não tinha grana para nada, eu não tinha como pagar cursinho, então foi uma etapa bem sofrida. Aí tive que arrumar emprego, já tinha dezoito anos e aí arrumei emprego nos Correios e Telégrafos eu era telefonista numa época dificílima, eu odiava telefone e trabalhava no ECT [Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos] telegrama fonado, “bom dia, boa tarde e boa noite”, porque eu trabalhava em rodízio de manhã, de tarde, de noite, domingo, feriado, semana santa era, mas era meio período. Então aí eu tinha grana para pagar o cursinho e fiz seis meses de cursinho, aí eu resolvi fazer Psicologia, não, aí eu tentei Odontologia, passei fiquei como excedente e não entrei na PUC. E depois eu fui fazer Psicologia que era uma Faculdade particular, mas era a melhor Faculdade que tinha em Minas na época. Aí fui fazer Psicologia trabalhando e estudando relativamente tranquilo, estudei de manhã e depois eu não aguentava as meninas, as minhas colegas, porque era uma escola particular que... Ah, gente era muito desrespeitoso as alunas assim, eram as donas de Belo Horizonte chegavam com motorista particular que esperava depois, eram as filhas dos donos das maiores lojas, então era uma coisa difícil. Na sala acho que só tinha eu e mais duas que trabalhavam para viver, trabalhava em banco e tal. Aí eu mudei para a noite que já era uma coisa mais respirável e quando foi na época da opção se é clínica, se é empresa e tal, então eu fiz a opção para um curso que era super novo era a segunda turma que era a Psicologia Escolar. Aí foi... Porque era um grupo de professores que começaram a fazer pesquisa na faculdade, eles tinham um comprometimento com o social super grande, apesar de a formação ser toda clínica. Foi onde eu fui ler outros autores, conhecer Paulo Freire em Psicologia, essa coisa toda e fazer estágio em escola pública de periferia, então aí eu acho que a coisa engatou, eu saí mais feliz do curso de Psicologia, eu queria jogar tudo fora o que eu tinha estudado em clínica, né? Ainda mais quando você vai trabalhar em escola pública, porque aí eram todos deficientes, eram todos retardados, o teste é que define, então foi barra isso aí. Aí logo depois que eu terminei o curso já foi em 83, eu ainda fiquei nos Correios mais um ano e pouco, meu pai já estava doente e depois meu pai morreu, meu pai morreu em 85. Quando foi em 85 foi a primeira greve nacional dos Correios e Telégrafos eu estava na... Eu era funcionária padrão dos Correios e Telégrafos, mas entrei na greve, eu era secretária da primeira associação dos funcionários dos Correios. Estava a primeira organização nacional, e nessa greve foi uma coisa muito marcante também, porque é posicionar politicamente de um outro jeito, 85, época que o ACM [Antônio Carlos Magalhães] era Ministro das Comunicações, foi um horror, paramos o país inteiro durante... Eu pensei “eles vão me mandar embora”, eu já tinha me formado em Psicologia, já estava naquela coisa eu preciso me definir e aí aconteceu o seguinte eu não fui demitida e aí eu falei: “É a minha última cartada aqui e eu vou dar uma direção na minha vida profissional”, aí mudou a direção, eles montaram um grupo de trabalho social na empresa e teve um concurso interno para entrar para a área de humanas, eu fiz o concurso e não passei, meu nome também já estava... Eles seguiam a gente no banheiro, folheto, aquela coisa toda, então não ia passar. Aí eu fui conversar com a assistente social e eu falei que se era assim eu ia sair, eu não ia ficar ali reclamando o emprego, eu ia dar outro rumo na vida. Aí, como mudou a direção, esse grupo de trabalho social tinha alguns critérios para pegar profissionais que já eram da empresa, formados em Psicologia ou Assistência Social para compor... Que era trabalhar quais eram as necessidades dos funcionários e pensar proposta de mudança, era um diretor bem antenado e eu falei: “Eu encaixo em todas”, eu encaixava em todos os critérios. Eu vou lá, se o cara falar que eu não sirvo, eu vou pedir a minha demissão imediata. E o cara topou que eu ficasse, é claro que eu fiquei monitorada por Brasília, ele me contou depois, porque logo em seguida como fomos fazer esse trabalho na área de recursos humanos caiu o gerente. E aí eu já estava envolvida com o trabalho e o cara queira me nomear, mas para eu ser nomeada eu teria que ter passado no tal concurso. Aí eu falei: “Olha, gente, chegou o meu limite, nesse lugar não dá mais”. Aí pedi demissão e fui para os Estados Unidos. Fiquei oito meses e eu tinha uma irmã que o marido fazia doutorado, eu tomei uma distância e quando eu voltei aí eu trabalhei numa instituição que é a Amep, Associação do Movimento de Educação Popular Paulo Emmett, que trabalhava com movimento popular em Belo Horizonte. Eu já tinha tido contatos por causa desse trabalho final lá da Psicologia com a Educação popular e era trabalho voluntário, eles não tinham grana para pagar, viviam de projetos pequenos em Minas e tal. Aí eu, apurada, queria trabalhar com aquilo, mas tinha que sobreviver, né? Eu tinha que ajudar em casa e aí o que aconteceu? Eu fiz prova no Sistema Pitágoras de Ensino, numa escola particular que trabalhavam nos canteiros de obra das grandes multinacionais do país inteiro, eles estavam com um projeto na Amazônia e eu falei: “Eu vou fazer essa prova”, porque eu voltei desempregada, né? Aí eu passei para ganhar muito dinheiro, na época eu tinha passagem, duas passagens para Minas, mas era ficar internada lá naquele lugar. Na hora de decidir, o pessoal tinha conseguido um projeto que podia me pagar um salário mínimo aí eu falei: “Eu vou ficar.” Aí eu aceitei ficar e a gente foi fazendo outros projetos e a Instituição cresceu pra caramba, acho que nos nove anos que eu fiquei lá... Era instituição de referência regional e nacional de Educação Infantil, era o grupo do Rio, o grupo de São Paulo e o grupo de Minas...

 

P/1 – Você não era professora...

 

R – Não, eu comecei a trabalhar com formação, trabalhei em creche comunitária a minha dissertação de mestrado foi sobre essa experiência em creche comunitária e foi um período maravilhoso de crescimento profissional, porque aí foi uma opção por educação. Eu joguei tudo da Psicologia fora para começar a ressignificar de uma outra forma pensando nessa linha de quem são essas crianças de creche da rede pública e tentar operar um pouco com isso e a gente fazia os primeiros trabalhos de pesquisa sobre Educação Infantil, tentar mapear um pouco esses grandes diagnósticos, quem são, quantas são e qual era a demanda da cidade, não existe a rede pública direta de atendimento para criança de zero a seis em Belo Horizonte todos os... É tudo conveniado e acaba que é a rede comunitária que faz o atendimento, então a gente de uma certa forma ajudou a conformar esse campo de Educação Infantil. Nós temos um grupo muito bacana, amigos e profissionais bem acertados e aí já teve um movimento assim dos mais antigos irem fazer o mestrado e foi puxando os demais, então a gente foi se qualificando para o trabalho. Então esse foi o momento bacana, então... O salário melhorou muito, o salário melhorou demais da conta e foi uma época bem legal eu fiquei lá até 96, então eu comecei como... Aí eu comecei aquela história, essa coisa de não ter salário, a gente só tinha o dinheiro do ônibus e ia para periferia e fazia os trabalhos de formação, tentar pensar um pouco o que seria a qualidade em creche comunitária que era tudo detonado. Formação de professores, espaço físico, não tem um brinquedo, não tem um livro, a realidade do país que ainda é hoje. Mas era isso, e de lá dentro da Amep vinculada a Fundação Fé e Alegria do Brasil, era uma regional de Minas, mas ela tinha em sete Estados do país, então o que acontecia é que você tinha um investimento na formação dos profissionais muito grande, então a gente teve assessores nessa época das grandes expressões nacionais a Maria Malta Campos, Arruda Rosemberg, Sônia Krambi, do Rio, a Zilda de Morais, então... E era um grupo que trocava experiência de sete realidades diferentes de Educação Infantil era desde o Norte do país ao Sul e com um investimento aí a Companhia de Jesus que está por trás da Fundação Fé e Alegria de esquerda. Eu acho que deu um direcionamento. Eu devo muito a eles, eu acho que a minha formação profissional, intelectual foi a base. O meu pai que não queria que eu mexesse com a igreja e acabou que eu tive uma trajetória ligada aí com os jesuítas muito forte. A gente teve encontro de grupos de estudo, discutia o que era marxismo e cristianismo. Então era uma formação global assim bem legal e a gente começou a fazer o que ONG e quem trabalhava com a educação popular não faziam. Era uma preocupação com a sistematização da prática de fazer pesquisa, fazia intervenção, então a gente conjugava experiência, por exemplo, universidade você tem ensino, pesquisa e extensão e nós enquanto não governamental pequena a gente começou a imprimir um caráter diferenciado nessa intervenção, então isso era algo assim bem interessante, foi uma experiência de nove anos. Eu comecei como assessora e depois entrei para a coordenação, nós éramos três da coordenação local, né? Que era eu, o Luciano Mendes Faria Filho e o Donizete e depois o Luciano veio fazer o doutorado aqui em São Paulo, aí depois ele teve problemas pessoais e saiu do projeto, ficamos eu e o Donizete, mas ele já estava numa fase assim... Eu também queria sair de Minas, eu queria fazer outros projetos... Você quer e não quer e nessa leva é que enfim terminei o mestrado lá na Faculdade de Educação da UFMG e o Luciano estava aqui e aí a orientadora dele precisava de uma auxiliar de pesquisa em Minas com um projeto nacional que ela estava fazendo. Eu entro como auxiliar de pesquisa nesse projeto aí me encanto com revistas, né? Revista de formação de professores e aí eu vi que dava para fazer o projeto de doutorado, então nessa história ela topou, eu fiz o projeto, entrei na seleção da USP deu certo. E aí eu me mudo para cá por causa dessas questões profissionais, mas nesse processo de mudança eu vivi a Fé e Alegria ainda, então dessa coordenação local eles me convidaram para vir para a coordenação pedagógica nacional que era mexer com projetos, enfim acho que é investir nessa institucionalidade da organização a nível nacional. Eu vim, fiquei seis meses lá depois, não deu certo e eu voltei para a praça educativa e fiquei lá um bom tempo também e...

 

P/1 – E aí trabalhando com...

 

R – Educação popular, mas aí já era educação de jovens e adultos, eu saí daqueles que trabalham com crianças pequenas para mexer com aqueles que trabalham com os adultos, deu uma guinada aí. Mas essa coisa do mestrado, eu acho que pegando o pessoal da Psicologia, da formação de fato eu queria apagar, eu nunca falava nem que era formada em Psicologia... Foi muito... Porque a minha experiência com o movimento popular eu brigava com o psicólogo o tempo inteiro, porque na dimensão do social as pessoas eram todas deficientes, não é que elas eram diferentes, não era isso, as pessoas não conseguiam enxergar. Então, por exemplo, algumas psicólogas e algumas pedagogas elas chegavam lá na creche para fazer trabalho voluntário, mas a primeira coisa que elas queriam fazer era levar todos os meninos para os médicos e para os psicólogos para aplicar teste. Eu falei: “Se for aplicar vai dar que são todos deficientes mesmo”, não vai levar, né? Como eu já tinha uma inserção grande e já tinha um trabalho de formação grande com o pessoal, então a gente conseguia discutir e até as pessoas desistirem um pouco dessa história, né? Eu acho que o trabalho do mestrado que eu tentei resgatar é como que constrói uma creche comunitária, era isso e eu fiz um trabalho pegando três eixos: a discussão do espaço físico; era a discussão da escrita enquanto esse instrumento que constrói a institucionalidade, né? E constrói as próprias pessoas enquanto sujeitos do processo, então foi essas três vertentes. Eu acho que foi uma contribuição legal pro grupo, porque elas participaram ativamente do processo de elaboração. Eu elaborei um álbum de fotografias resgatando toda a trajetória da instituição por essas vias, foi um dos produtos que eu devolvi para elas enquanto uma sistematização de uma pesquisa que eu fiz lá com isso, foi bem... Até hoje eu tenho contato lá com as meninas, elas me escrevem e tudo eu tenho vontade de ver o que deu depois disso, né? E quando eu saí também de Belo Horizonte eu estava na coordenação de um projeto com a Fundação Kellogg que era a implantação de bibliotecas e brinquedotecas em creches comunitárias. Que foi algo maravilhoso, foi muito legal, porque a gente trabalhou com quatro creches de periferia da região metropolitana na Fundamar que é uma escola rural que é você colocar brinquedo e livro na mão de criança e era criança de zero até catorze anos. Então era projeto de referência onde a dimensão cultural foi resgatada dos locais, então foi um processo bem... Mudou a cara das instituições e da relação das pessoas com as crianças e as crianças com a questão do acesso do livre, brinquedo, coisas bem interessantes, né? Teve muitas coisas boas assim disso que eu trabalhei lá e depois a vinda para cá. Acho que a vinda para cá para mim ela é uma ruptura bastante difícil.

 

P/2 – Quando você veio? Em que ano?

 

R – Eu cheguei aqui em 97, quer dizer eu sempre circulei em São Paulo por causa dessa coisa do trabalho, eu vinha muito e eu tinha uma relação muito apaixonada com São Paulo, eu era daquelas mineiras que vinham para e que “Hoje eu vou descer nesta estação do metrô” eu fiz muito isso, eu e umas amigas. Então a gente vinha para os encontros, mas já arrumava um jeito de ficar sábado e domingo, a gente dormia até em banheira das casas dos padres onde fosse. A gente dormia, não tinha grana para pagar o hotel. Mas a gente queria conhecer a cidade, então tudo que rolava na cidade que a gente já acompanhava de Belo Horizonte a gente já vinha para conhecer a cidade, né? Então circular no centro, às vezes a gente andava o dia inteiro, entrava para o cinema com as malas dormia uma sessão e assistia a próxima, a gente fazia muita coisa louca aqui para aproveitar o máximo de tempo para conhecer São Paulo, era assim que era aqui, andava a pé para caramba, de ônibus adoidado. Então eu tinha uma relação muito legal com a... Assim de desafio, porque é uma cidade que não tem limite, né? Belo Horizonte você tem o limite, está lá a montanha e você chega ao fim pelo menos de um dos limites da cidade você chega ali e está aquela montanha imensa, aqui não tem limite, então isso era uma coisa desafiadora, eu tinha muita vontade de ter... Eu sabia que ia vir para cá, eu montei tudo para vir para cá, até o bairro que eu moro eu sabia que eu vinha para cá, engraçado isso, né? Não sei se isso funciona bem ou mal, mas...

 

P/2 – Escolheu o bairro...

 

R – Tudo. Eu sabia onde ia morar.

 

P/2 – E onde você mora?

 

R – Em Pinheiros. Eu sabia onde ia morar, é uma coisa assim acho que inconscientemente e depois conscientemente eu já fui planejando os passos para essa vinda. Agora também por causa da dificuldade que eu já sabia que ia ter com essa questão do... Mineiro é muito grudado, família e essa coisa toda, então eu sabia que não ia ser fácil morar sozinha numa cidade, só que Minas está ali, Belo Horizonte está ali, mas... Agora nós viemos com um grupo de mineiros para cá, nós moramos todos juntos, em apartamentos diferentes tudo no mesmo prédio. Todo mundo que veio fazer doutorado, era uma turma grande naquele momento, professores da UFMG, eu era a única que não era vinculada com a universidade, porque eu era de movimento popular, né? Mas viemos para cá, eles vieram, já terminaram o trabalho e voltaram e eu fui a única que fiquei e vou ficar, agora já está decidido que vou ficar. Então isso foi legal, assim. Agora é um processo difícil esse, processo bem difícil, fazer o doutorado aqui não foi algo fácil, foi um negócio muito difícil, porque é um trabalho solitário ficar morando sozinha, longe da família, enfim e aqui você tem uma questão de sociabilidade que é muito diferente de Minas, né? Os paulistas são ótimos quando você tem intimidade, conhecem, são maravilhosos. Eu também não posso reclamar, porque eu também já vim com um círculo de amigos então não tive essa dificuldade que muita gente tem, mas logo quando eu entrei para o doutorado, os paulistas não chegavam perto dos outros alunos. Então a gente se encontrava era com gente de Belém, de Manaus, do Paraná era onde a gente saía, conversava e mesmo na própria sala de aula. A gente entende que é por causa da violência, mas você tem uma coisa de sociabilidade que é diferente. Minas a gente... Hoje a gente liga para falar que vai à sua casa, mas normalmente a gente não liga, você vai para a casa da pessoa é outra coisa que aqui... Por exemplo, a história dos points, por exemplo, Minas, Belo Horizonte você pode sair e não precisa marcar com ninguém que você vai encontrar com alguém seja no cinema, seja no teatro, você vai encontrar com alguém, com o tamanho dessa cidade não é assim, né? Então você nunca está muito sozinho em Belo Horizonte, aqui você fica bastante sozinha, bastante.

 

P/1 – Então, Maurilane, eu acho que a gente já pode ir encaminhando para ir finalizando a entrevista, apesar de que daria para gente conversar ainda muitas coisas, né? Eu queria que você falasse um pouco dessa sua trajetória de vida, se você pudesse mudar alguma coisa... Então eu queria, nesse tempinho que a gente tem, que você falasse um pouco assim da sua inserção no espaço da educação? Onde você trabalhou? Como é que foi isso, trabalhar com a clientela que você fez a opção de trabalhar? Uma classe social que você...

 

R – Questão de vida mesmo, eu estou sempre... Mesmo de Belo Horizonte eu tenho uma facilidade para trabalhar com os grupos, é muito legal, acho que eu já tenho uma empatia... Talvez não seja desse mundo, eu tenho um compromisso, eu gosto das pessoas, eu quero ser amiga dessas pessoas e eu quero contribuir de alguma forma. Então sempre isso foi muito forte para mim por isso a briga com a Psicologia aquela que eu tinha estudado até reencontrar uma outra. E no caso do movimento popular a gente está sempre fazendo os elos de pensar a opção pela criança, a clientela, mas não sei no caso de Belo Horizonte. Eu acho que estava muito ligado a uma reivindicação de luta mais do que justa, né? E era num momento também que era a luta dos direitos das mulheres, mas era a luta dos direitos das crianças, todo o movimento... O Estatuto da Criança e do Adolescente, quer dizer, a gente foi... Nós fomos atores nesse processo bastante significativos, muita coisa que se colocou no estatuto ela foi fruto de muitas discussões, de muitas elaborações, de muitos encontros e tal. E que de certa forma produziu, foram os movimentos sociais que batalharam, então eu acho que a gente, enquanto um ator social, a gente contribuiu de certa forma para estar de certa forma fomentando, incentivando um pouco essas discussões. Então acho que essa primeira questão da (Penter?) é a questão das crianças. Questão da dignidade mesmo de direito que a gente via as instituições que elas trabalhavam que era terrível e eu acho que outra, por exemplo, no caso eu fico tentando às vezes fazer um link por que eu vim para a educação de jovens e adultos enquanto clientela, né? Quando eu cheguei aqui em São Paulo que eu fui lá para a zona leste eu trabalho naquela região toda Guaianases, Cidade Tiradentes, Ferraz de Vasconcelos e tal, eu me reencontrei depois de um bom tempo com a minha clientela de 1987, 88 e eu fiquei bastante chocada, porque eu vi que tinha coisas que eles estavam faltando que eram as mesmas de lá de trás. Elas estavam reivindicando formação de qualidade para desempenhar um trabalho de qualidade seja... No caso ali é adulto, aqui em São Paulo, mas lá era criança, então quer dizer, poucas coisas tinham se alterado, das pessoas entenderem que função social que um projeto que elas estão ali atuando ele vai ter no impacto da vida das pessoas na vida delas de início. Então eu fiquei muito, eu me reenergizei do ponto de vista daquilo que eu tinha vivido lá e de pensar isso para um outro lugar que é uma outra cidade que também tem necessidades aí gritantes. Então eu acho que era acreditar ainda e nos anos 70 a gente acreditava que a gente podia mudar o mundo pela educação, transformar o mundo pela educação, lá a gente achava que a creche ia transformar, né? Então educação de jovens e adultos as pessoas alfabetizadas pode se transformar a gente tinha isso, hoje a gente já abriu, não é só isso, isso faz parte, mas não é só isso. Mas isso era bastante forte e eu acho que tem as coisas também em relação às pessoas mesmo, eles são grupos que estão comprometidos é gente que quer mudança é gente que quer ser gente mesmo, então eu acho que tem esse outro lado aí, enfim estudei, dou conta de fazer com certa competência uma série de coisas, então acho que tenho mesmo um compromisso de estar fazendo isso. Lá na USP agora, por exemplo, eu ainda não consegui pensar como é que eu vou fazer um trabalho de extensão de fortalecimento desses grupos. Então a gente está quebrando a cabeça ainda, porque está muito recente, porque você tem uma coisa da burocracia, é muito louco, então o que eu vejo é que tem muita gente que quer fazer um monte de coisas, mas para achar os canais demora um pouco.

 

P/1 – Na USP você dá aula na graduação?

 

R – Eu dou aula para graduação...

 

P/1 – Para que curso?

 

R – Na Pedagogia, na licenciatura, que aí são os alunos das várias unidades e tal, estou na comissão de cultura e extensão não é a toa que eu fui para lá porque tentar pensar o que a gente pode fazer, tem muitos projetos sendo desenvolvidos, mas acho que é muito pouco pelo potencial que a universidade... É a contribuição que ela tem que dar com essa realidade social que está aí, né? O que eu estou achando interessante da minha volta é o fato de eu estar sempre fora do sistema de educação, eu trabalhei sempre quando estava fora, era sempre ONG e agora estando numa instituição pública que é a USP é uma instituição reconhecida que tem um papel aí importante. Então eu acho que ter a possibilidade de estar nesse lugar hoje, eu acho que é para somar com as pessoas que estão já fazendo e querem fazer mais. Então eu acho que é legal. Eu sou um perfil muito diferente dos que estão lá, bem diferentes. Eu acho que vários sentidos, eu acho que pensar quem são os alunos, por exemplo, eu vejo os meus alunos da zona leste, eu não sei o que acontece, mas de repente eles se revelam muito rápido para mim, que são da zona leste tem uma chegada diferente. Eu fui fazer um trabalho de selecionar iniciação científica, doze meninos da graduação foram se inscrever, aí eu fui fazer uma entrevista sobre a trajetória escolar deles e eu fiquei muito impactada, porque todos eles têm uma trajetória... Esses que foram procurar lá pela vaga, eles tem uma trajetória difícil de escolarização quase todos da rede pública.

 

P/1 – E eles são do curso de Pedagogia?

 

R – Pedagogia.

 

P/1 – O curso de Pedagogia é mais na USP, né? Ainda tem essa possibilidade.

 

R – Tem essa possibilidade, então pensar assim, olha, os caras estão aqui batalhando, vindo lá... Tem gente que mora no curso, porque não dá para voltar para casa, enfim a gente tem que ter mais é compromisso mesmo de trabalhar bem.

 

P/1 – Agora, assim, nesse seu papel de professora universitária formando os professores que muitos deles poderão estar atuando na escola pública, né. Como você vê o papel do professor no dia de hoje? O que você acha que é prioritário para essa formação, para essa reflexão desse novo profissional aí, do papel dele, da atuação dele enquanto professor?

 

R – Olha, eu, por exemplo, estou tendo uma experiência agora que é na licenciatura que é introdução dos estudos na educação, então a ideia não era levar curso pronto, eu tenho que saber o que esses caras querem, né? Eles vão ser profissionais seja na área de Química, Física ou Geografia se eles vão trabalhar com o ensino. Então eu desenvolvendo uma experiência com eles muito legal, com o objetivo do curso eles elaborarem proposta de intervenção. Então eu comecei com trajetória de vida escolar, foi o primeiro fio, vamos levantar, chegamos aqui, então o que a gente quer saber, né? Essa primeira dimensão é que os caras conheçam um pouco essa realidade, que eles tenham perguntas que desejam, que elas sejam respondidas, que eles tenham curiosidade, que eles tenham interesse, vamos estudar e vamos pensar como a gente faria se a gente já tivesse atuando aí na área de educação. Então a gente já está... Levantamos, por exemplo, seis temas de trabalho, um processo super coletivo de construção muito legal assim desde discutir a questão do ensino público, perspectivas, até discutir a questão das novas tecnologias. Aí a gente levantou uma bibliografia para cada um desses temas e aí a gente montou uma dinâmica de construção de proposta e nós estamos fazendo uma coisa de circular as propostas... Dá um trabalho danado, mas assim, sistematizar as propostas, circular entre todos os alunos, então eu até fiz as contas, a gente vai ter uma média no final do curso de temas diferenciados para quem está entrando na educação, eles vão levantar no mínimo umas sessenta ideias trabalhadas legais. Então eu fico pensando, por exemplo, no caso da licenciatura ter essa possibilidade de ter um processo reflexivo que está articulando teoria, que está articulando prática e que pode pensar formas de intervenção. Agora no curso de Pedagogia eu dou introdução a História da Educação e aí eu acho que a coisa é mais complicada, tem o dilema do professor que assim, o que eu estou formando? É alguém específico da minha área, eu não estou formando historiador na Pedagogia, eu estou formando professor ou pelo menos o futuro professor, então eu acho que aí a gente tem que ter outras preocupações. Então, por exemplo, eu dei um primeiro curso lá que já faria completamente diferente para construir um outro significado e é primeiro ano, então é gente que está chegando, está se situando, acho que traz muita experiência ainda de ensino médio. Eu acho que para alguns é menos conflituoso é quando o aluno sai de escolas privadas de boa qualidade que é um perfil dos alunos da USP e entra para uma USP, não tem grande diferença, mas essa outra clientela que não é ainda muito expressiva, mas é um número significativo. Como é que você vai construir, que eu imagino que essa inserção dele no caso para ensino, no caso de pesquisa também que eu acho que essa é uma outra tarefa importante da... Eu de cara já queira fazer trabalho também da formação deles na iniciação científica. Então eu estou tentando fazer com que o pilar da universidade, que a gente de fato consiga desenvolver isso para investir nessa qualidade de educação dos alunos aí. Pegar esse ensino, enfim, os projetos de pesquisa, extensão em estágio, eles ficam loucos, mas a faculdade não tem ainda essas coisas estruturadas, acho que a gente vai ter muito trabalho ainda para fazer, muito. E pensar assim, eu como professora, então o que de fato eu preciso para construir os projetos e tal para que essas pessoas se insiram aí e saiam profissionais que dêem mais conta do que está acontecendo aí na realidade, né?

 

P/1 – Certo. Acho que agora a gente pode ir caminhando pro final, então eu queria que você falasse um pouco aí nessa sua trajetória. Se você pudesse mudar alguma coisa o que você mudaria? Ou se mudaria?

 

R – Eu acho que não mudaria nada. Eu acho que assim, é o que eu estava falando a cada momento da vida... Eu estou falando que não mudaria, porque eu tenho certeza que eu estou sempre disposta a começar de novo, acho que é isso, começar de novo, isso é uma coisa que eu não tenho medo, nunca tive. É para fazer outra coisa? Vamos lá. Agora eu estou sempre aberta para viver algo novo, outras coisas da vida, então eu acho que não mudaria. Eu fico vendo lá... Dar aula, eu sempre reneguei... Eu nunca vou entrar na universidade, nunca, e eu estou vendo agora que me reencontrei, porque tem várias coisas legais do ponto de vista de você estar oxigenando as suas ideias com os alunos que é uma troca legal que a gente vai se renovando. Estou sempre tentando aproveitar ou tentando fazer uma leitura, deixar as coisas entrarem, tentar elaborar isso de uma outra forma para a vida, né? Então eu não mudaria não, eu acho que eu quero é ter... Talvez me dar conta de ter essa sensibilidade aí cada vez mais aberta para sacar que esse movimento do mundo aí e fazer novas coisas, não parar no tempo e ter projetos. Eu acho que a vida assim é esperança, projeto, mudança, desafio, eu sou do lema de ir para frente, sabe? Acho que é um pouco por aí, eu não mudaria não, eu acho que até agora isso tudo aí eu vou enchendo a minha mochila, está certo, tem hora que ele vai puxando, porque claro, essa experiência a gente tem sempre de ressignificá-la, reutilizá-la, para enfim fazer novas coisas, né? Então eu não mudaria não, vou em frente.

 

P/1 – Eu acho assim, você já falou algumas coisas, mas se você tivesse que sintetizar esse seu percurso todo nessa sua trajetória ao longo da sua carreira. O que você tiraria como lição? O que você acha que foi significativo?

 

R – Eu só posso tirar como lição, às vezes eu fico pensando coisas assim que me colocou no trabalho acho que a primeira experiência fora da relação familiar foi o trabalho, conhecer gente, relações sociais, relação patrão empregado, eu acho que o trabalho eu fico pensando na geração de hoje... As pessoas não têm perspectivas, os jovens não têm perspectivas, porque está sendo aí impossibilitado de ter esse outro tipo de experiência, o trabalho para mim eu acho que mudou a minha visão de mundo, claro que assim... Faculdade enfim, mas o que me colocou, inclusive que me deu possibilidade de disponibilizar foi o trabalho, então eu acho que talvez tenha sido a coisa mais significativa da ampliação e de visão de mundo, você sair daquela coisa familiar. Eu acho que as escolas que eu passei na minha infância ela era muito colada com a família de reprodução de... Mas no trabalho aquilo era uma ruptura, uma ruptura para tudo, né? De forma, enfim do diverso, do ritmo, do tempo. Eu me lembro que quando eu entrei para o trabalho a minha relação com o relógio ela era louca, eu sempre sonhava que não ia bater o ponto ou que eu ia ser suspensa do ponto, essa questão do tempo. Uma outra coisa que eu acho que o trabalho ele me possibilitou é ver a cidade de um outro jeito também, eu me perdia em Belo Horizonte em todos os caminhos, eu ligava para Belo Horizonte para os Correios e Telégrafos e chamava os carteiros “estou perdida em tal rua, o que fazer?” Ela também me possibilitou isso, ela me levou para ter uma visão da cidade, circular a cidade, né? Então para mim eu acho que é o trabalho e depois fui me direcionando para uma diversificação profissional, mas era o trabalho que mudou tudo.

 

P/1 – E agora para encerrar eu queria que você falasse um pouco do que você achou de ter participado dessa entrevista? Falando assim da sua experiência?

 

R – Vocês viram que eu falo pouco, né? Eu falo muito e acho que a gente vai selecionando um pouco as coisas, mas acho que mais até do que selecionar o bom... A possibilidade de selecionar é que na hora de selecionar vem muita coisa que você não estava pensando em falar, porque está lá guardadinho lá atrás legal, inclusive tem algumas coisas que eu falei aqui que eu falei que vou pensar um pouco para frente, né? Acho que desde a hora que eu estava respondendo o questionário, falar dos avós, eu acho que a gente, porque a gente vai perdendo a gente, para de falar dos avós, você fala dos pais, mas os avós ficam lá atrás e está ligado um pouco com quem você é, eu achei super legal, eu gostei muito de ter... Eu acho que tenho mais é que agradecer o convite de estar aqui com vocês e conversando um pouco sobre a vida. Eu achei que ia ficar muito mais nervosa, mas eu acho que até esqueci que tinha câmera aqui na frente, essa estratégia aqui é legal você olha para um, olha para outro, olha para os meninos lá atrás e pronto. Mas eu quero é agradecer, acho que foi legal, tem muita coisa que eu puxei lá do fiozinho que vai ajudar a pensar em algumas coisas. Obrigada.

 

P/1 – A gente agradece também.

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