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História

Educação ou religião?

História de: Eric Nelson Santiago Gonçalves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/02/2009

Sinopse

Educação ou religião? Eric optou pelas duas. Nesta entrevista, ele nos conta como se interessou pela informática, sobre sua pausa na carreira para se dedicar à religião e seu retorno como professor de matemática no ensino público. 

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História completa

 

P/1 – Bom, vou pedir pra que você comece dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Eric Nelson Santiago Gonçalves. Nasci aqui no Rio de Janeiro em dezesseis de março de 1971.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais, Eric?

 

R – Meu pai se chama Jorge Gonçalves e minha mãe se chama Aglaís Santiago Gonçalves.

 

P/1 – E qual é a atividade deles?

 

R – Meu pai é autônomo, trabalhou com lustre de móveis desde jovem, restaurando móveis. Minha mãe é merendeira, cozinheira de escola estadual. Eu comia bastante da merenda que ela fazia, e gostava. (risos)

 

P/1 – Qual foi o lugar que você morou na infância?

 

R – Morei minha vida inteira na Penha, pretendia não sair de lá quando casasse. Depois fui tendo contato com outros lugares e acabei vendo que tinha outros melhores pra se morar. Saí de lá com 26 anos de idade.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho. Somos quatro: eu, meu irmão e duas irmãs, do segundo casamento do meu pai com a minha mãe. Meu pai foi casado anteriormente e eu tenho mais irmãos, um deles faleceu até antes do meu pai. Tenho outro irmão que tem a idade de ser meu pai, também. Hoje deve estar beirando uns 58 anos.

 

P/1 – Você era o mais velho desse núcleo de quatro?

 

R – Não, sou o segundo caçula: tem minha irmã mais nova e eu venho em seguida.

 

P/1 – Como era a casa que você morava na infância?

 

R – De dois quartos, bem modesta, e morávamos em sete. Além da gente, que já não é uma família muito pequena, tinha também minha avó.

 

P/1 – Então você teve um contato muito grande e intenso com a sua avó?

 

R – Tive, perfeito. Fui criado por ela.

 

P/1 – Qual o nome dela?

 

R – Maria Isabel da Rocha.

 

P/1 – E o que ela fazia?

 

R – Minha avó trabalhou com lavanderia. Durante um tempo, mais nova, ela trabalhou como doméstica e depois com lavanderia em alguns locais, como microempresas que precisavam desse tipo de serviço.

 

P/1 – E qual é a memória mais viva que você tem desse contato com a sua avó?

 

R – Eu poderia ter soltado pipa no ventilador e jogado bola de gude no carpete, a minha avó era um pouquinho mais liberal, me deixava ir pra rua soltar pipa. Foi um contato muito gostoso porque ela tinha uma proximidade maior comigo, particularmente porque foi a partir do meu nascimento que ela passou a morar com a gente e foi ela quem me criou.

Foi muito difícil quando ela adoeceu e veio a falecer. Houve uma época em que eu olhava pra ela muito mais como minha mãe do que minha própria mãe - minha mãe trabalhando fora e tudo o mais. As lembranças que eu tenho são essas: [ela era] muito divertida, próxima, carinhosa, amiga. Em certa idade, até eu começar a entender realmente quem era minha mãe, quem era mãe, quem era avó, a figura de mãe foi a minha avó.

 

P/1 – Tem alguma boa história que você lembre e possa contar pra gente, que seja emblemática desse contato tão bonito que você está falando?

 

R – Eu me lembro dela botando minha meia. (risos) Eu deitado ainda, morto de sono, e ela, antes de me despertar, botava minha meia. Na verdade, quando eu acordava já estava pronto, e só tinha consciência quando eu já estava pronto e levantando pra ir, resmungando pra caramba. (risos) Mas ela era muito, muito carinhosa.

Eu brincava com ela, coisas de moleque. Eu me lembro de algumas vezes, e isso marcou muito o nosso contato. Você me fez essa pergunta e eu vou me emocionar. (Começa a chorar.) (Pausa.)

Às vezes, quando eu penso nela dá muita saudade. Eu me lembro de brincar com ela, algumas vezes. E onde eu morava era um local bem perigoso. Comparado com hoje, seria uma comunidade. Apesar de não ser bem uma favela, era um lugar muito simples, um conjunto residencial bem simples, tinha muito problema com bandidagem. E era uma preocupação como todo mundo tem hoje. No Rio, acho que a coisa se generalizou, mas na época era muito circunstancial, era local e esse era um de risco. Lembro-me de uma vez que eu estava chegando do colégio e brinquei com ela. Ela sempre falando: “Ó, cuidado pra atravessar.” Coisa de avó, de mãe, mas eu cheguei a casa e: “Vó”, fingindo que tinha sido baleado, coisa de criança. Ao ver a forma com que ela ficou assustada me bateu, imediatamente, um arrependimento, apesar de novo e inconsequente. Então percebi que aquela era uma expressão de amor muito forte pra mim, ver a forma como ela ficou tocada, a maneira como eu cheguei. De imediato eu falei: “Vó, tô brincando!” Ela ficou olhando pra mim. Eu lembro que depois ela falou várias vezes que aquilo tinha influenciado na saúde dela, nos nervos, porque ela ficou um bom tempo estressada por conta disso.

Como se não bastasse, outra vez: a janela era de madeira, de suspender, bem antiga. Lembro que baixei a janela e ela falando: “Cuidado com essa janela!” Às vezes era meio chata a preocupação que ela tinha. Mas eu fui brincar, levantei a janela e ela falando: “Cuidado com a janela!”, e eu: “Ahhhh!!!” Botei a janela aqui, caindo em cima de mim, mas era bem caricaturada a coisa, jamais imaginei que ela fosse acreditar que era verdade. E eu lembro que ela, senhora, coitada, com problema pra levantar, ela: “Olha lá, ele tá...” Minha mãe sentada e todo mundo rindo. Ela achou mesmo que eu estava me machucando, preso com a janela. Eu levantei: “Vó, eu tô brincando com você!” Então ela dava diversas demonstrações.

No final - ela faleceu com câncer de mama bem evoluído -, eu lembro que no último dia de vida dela ela queria muito que eu estivesse perto. A impressão que eu tenho é que ela, de certa forma, sabia que aquele seria o último dia. E foi muito difícil pra mim porque... É estranho, mas foi muito parecido com alguns sonhos que eu tive. Eu não acredito muito que sonho tenha a ver, quero deixar isso claro, mas eu acredito que foi uma coincidência forte porque eu tive alguns sonhos de como seria ela falecendo; eu tinha muito medo disso, porque eu gostava muito dela.

Lembro que nesse dia eu tinha feito uma viagem de uns três, quatro dias e, justamente nesse dia que eu voltei, eu estava lá. Ela, nesse dia, passando muito mal, porque [o câncer] já estava bem evoluído, em fase terminal. E a gente sabia que de certa forma, uma hora ou outra iria acontecer. E aconteceu. Mas eu lembro que fui pro quarto descansar um pouco à tarde. Era um período de feriado e ela sempre pedindo que eu ficasse perto dela. Ela não falou muita coisa, só pedia que eu ficasse perto dela: “Fica aqui um pouco do meu lado.” Eu ficava, ela pegava no sono, eu levantava. Ela fez isso umas três vezes durante o dia, até que fui pro quarto deitar um pouco, descansar, e já estava escurecendo. Ela tinha me falado tinha muito medo de quando estava anoitecendo, numa das nossas conversas. Eu lembro que minha prima estava lá em casa e ela gritou: “Ai, ela tá morrendo, ela tá morrendo!” Acordei com essa voz e dei um salto da cama, assustado, e fui pra sala. Ela estava sentada com a comidinha no colo, encostada assim, e não estava mais reagindo. Aquilo foi muito marcante pra mim, foi difícil, porque eu vi que naquele momento ela realmente estava indo. Então, são lembranças que eu tenho dela...

 

P/1 – Você descreveu um pouco do lugar onde morava, mas, disse que, apesar de ser perigoso, também brincava na rua. Como era esse convívio? Você brincava, além dos seus irmãos, com pessoas da vizinhança? Como foi essa infância na rua?

 

R – Sempre quando eu me encontro com alguns amigos - eu consigo contar três bons amigos dessa época -, uma das coisas que a gente carrega como emblema foi ter conseguido, por ser criado assim, ser pessoa do bem. Porque vimos muita gente, muitos amigos meus, envolvidos com coisas bem pesadas. Caras que conviviam... Por um lado foi uma experiência de vida que eu trago, de conseguir ver o outro lado das pessoas porque foram caras… Embora envolvidos com muita coisa, droga, roubo... A gente já não tinha tanto contato, mas depois fui saber de alguns casos até de assassinato. E consegui ver que, até certo momento, esses caras tinham um lado legal, não era como muitas vezes, alguém que não tenha uma experiência de contato próximo, imagina. Eles tinham a família deles, tinham o grupo de pessoas de convivência e é algo bem estranho, que eu hoje questiono e tento entender como essa coisa funciona. Mas uma lembrança que a gente sempre carrega como emblema foi o fato da gente conseguir não ter se contaminado.

Eu e esses meus amigos, a gente sempre lembra muito desse conjunto, que se chamava: “Conjunto Residencial Dona Regina”. A gente se lembra de momentos, de alguns caras até muito estudiosos, inteligentes, dois irmãos muito próximos, muito amigos e super inteligentes, super engraçados, divertidos de estar junto e que, depois de certo tempo, as amizades começaram a se tornar diferentes, porque eles já não tinham muito assunto com a gente. Eram mais ocasionais, nas vezes que a gente se encontrava na rua. A gente tinha muito isso, de descer e ficar numa das ruas do condomínio, conversando e rindo até tarde. Eu não me lembro muito bem da pergunta, acho que fugi um pouco...

 

P/1 – Eu pedi pra que você contasse quais eram as brincadeiras, como era brincar na rua, contando com a circunstância de morar em um lugar razoavelmente perigoso.

 

R – As brincadeiras eram muito mais conversas que a gente tinha, homem gosta muito de fazer isso, de ficar encarnando um no outro. E a gente ficava encarnando de montão um no outro... Cada dia a gente pegava um pra cair na pele e horas, era uma disputa de um encarnando no outro. E eu sei que era muito gostoso. Hoje eu olho pra trás e fico falando: “Como eu tinha coragem de ficar até uma hora da madrugada com os caras conversando?” Mas era muito atraente a conversa, as risadas, a forma como a gente se divertia. E isso se estendia porque tinha bailes que a gente frequentava, da comunidade. Depois chegou a época de a gente beber, a gente saía especificamente pra isso. E sair pra azarar também a gente saía pra paquerar. Festa de rua, ou festa junina, isso é muito comum também, a gente saía pra caramba pra ir a essas festas. Aquela época da festa na Rua Braga, que era uma rua famosa, a gente ia. E desde esses eventos até ir ao mercado pra minha mãe. Tinha aqueles dois amigos, eu não andava sozinho. Chamava os caras: “Pô, vamo no mercado comprar isso aqui que minha mãe pediu”. E vice-versa. “Ô Eric, vamos aqui, meu pai pediu para eu comprar peça do carro.” A gente andava junto pra caramba. Então, isso é uma lembrança muito gostosa.

Hoje esse cara, Alexandre é o nome dele, é um grande amigo. Mora em Fortaleza, casado, tem uma filha. Eu, casado. A gente, quando liga, a última vez ficamos uma hora, uma hora e meia no telefone. O tempo passou e a gente ainda tem uma ligação muito forte.

 

P1 – Você morou na mesma casa da infância até que idade?

 

R – Até os 26 anos.

 

P/1 – E os amigos? Grande parte deles, então, se mantiveram?

 

R – Exatamente. Eu acredito que o Alexandre, por exemplo, que se tornou muito meu amigo, passou a ser meu amigo a partir de certa época. Era até uma coisa engraçada que a gente conversava muito, eu o treinei a deixar de ser filhinho de papai e mamãe. Eu brincava com ele: “Pô, foi comigo que você passou a ser um pouco mais esperto.” Porque durante um tempo a gente se conhecia, mas eu o achava muito preso e eu tinha esse meio... Apesar de ser criado pela avó, eu gostava muito de ser um pouco mais desgarrado. Saía mais, andava mais na rua, não precisava dar tanta satisfação pra minha mãe do que eu ia fazer. O Alexandre, não. Ele era o cara certinho, filho único. E durante um tempo eu o achava meio bobão, mas depois meus valores foram mudando e eu comecei a admirá-lo porque ele tinha uma coisa que eu não tinha, que era esse relacionamento mais com a família. Tirando minha avó, eu tinha uma relação muito difícil com minha mãe, meu pai. Com meu pai, nem tanto, mais com minha mãe. Não tinha tanto carinho, o referencial de carinho que eu guardo é minha avó. E o Alexandre, não, com o pai e a mãe ele era muito carinhoso.

Algumas vezes ele estava no meio das rodas de caras, sentado no chão, no carro, batendo papo, rindo, encarnando um no outro, e passava a mãe dele e o pai e eu achava super legal. Apesar de não admitir, mas achava legal. A mãe dele passava e jogava beijinho pra ele, e ele jogava beijinho de volta. Isso quando ela não entrava na roda, dava um beijo no rosto dele, e ele dava um beijo no rosto dela. Eu olhava pra aquilo e falava: “Pô, cara, eu gostaria de ter isso.” Tanto que depois eu me espelhei nele e venci meu orgulho e minha inibição, porque era uma barreira para eu poder começar a praticar isso. E antes do meu pai falecer, eu estava beijando o meu pai, dando beijo no rosto dele. (risos) Eu me espelhei muito nisso. Eu falei: “Eu quero ser assim e quero que um dia meu filho faça isso que ele fazia.”

 

P/1 – E escola, Eric? Como foi seu primeiro contato com esse universo da escola, como aluno?

 

R – Da escola de forma geral ou no Nave?

 

P/1 – Da primeira memória, de você indo à escola, pequeno, já vestido, antes mesmo de acordar?

 

R – Até um pouco antes da escola convencional eu frequentei uma escolinha, um “Jardim de Infância”, mas a gente chamava escolinha. Essa é a primeira lembrança que eu tenho de um aprendizado, ir ao local pra aprender a ler, a escrever, a segurar na caneta. Era uma tia, agora eu não vou me lembrar do nome dela, se não me engano era Tia Márcia, e que era próxima à escola que minha mãe trabalhava como merendeira. Eu me lembro dela passando lá, me deixando nessa escola; eu ia de short, de roupa bem informal, tipo Jardim de Infância. Eu não tinha nem uniforme. E, em seguida… Não sei muito bem do tempo cronológico como funciona, não vou lembrar. Mas minha mãe me deixava lá e ia pra escola que trabalhava, depois passava pra me buscar nessa escolinha. E, em seguida - pra mim isso foi a minha primeira lembrança também, de ingresso em outro nível, minha primeira evolução, foi quando eu passei pra essa escola. Eu comecei a usar uniforme. Eu falei: “Pô, agora eu sou estudante mesmo”. Ali era meio que a “escolinha da professora Márcia.”

Comecei a estudar nessa escola, Escola Municipal Goethe. Era uma coisa muito marcante pra mim; todo mundo conhecia minha mãe, ela já trabalhava na cozinha. E também estudar onde é o ambiente de trabalho de sua mãe - todo mundo [a] conhece, a professora, a diretora. É uma extensão, de certa forma, das amizades da minha mãe. Uma experiência um pouco diferente de você estudar em outro colégio qualquer, eu me lembro disso.

Estudei durante esse tempo lá, tive bastante dificuldade na primeira série. Eu me lembro de que entrei um pouco antes, as crianças entram com sete anos na primeira série. Eu entrei com seis e lembro-me de ter bastante dificuldade. Ir à escola era mais para brincadeira do que estudar e a partir dos sete comecei a entender que ali não era um local de brincadeira. Passei quatro anos ali, da primeira à quarta série. E até me batia um pouco de medo de ir pra quinta série e mudar de escola, porque tinha o contato muito próximo da minha mãe. Por um lado, era meio chato porque você não podia aprontar que isso chegava bem mais rápido - não existia internet -, a comunicação era muito rápida com a minha mãe. O que você fazia chegava muito rápido, mais até do que da mãe dos outros meninos. Por outro lado, tinha também essa proteção, qualquer coisa minha mãe estava ali.

Quando eu fui pra quinta série foi uma experiência nova e um pouco desafiante pra mim, eu lembro. Era um colégio, como eu falei, em um local que tinha problemas com violência, os colégios sofriam muito essa influência. Eu lembro que eu passava perto desse colégio do qual vim estudar e eu ficava com um pouco de medo ao ver os caras que estudavam. Eu era muito pequenininho porque eu estava todo certinho, lá eu lembro que tinha [as turmas] 501, 502, 503 e 504 e era nessa ordem o nível de periculosidade das turmas. (risos) E quando olhava pra 504 me assustava, eram uns caras... O manda-chuva era o irmão de um marginal conhecido e eu, pequenininho ali, estudando, falava: ”Caramba, como é que deve ser?”

Passou rápido e o bicho não era tão feio quanto eu pintava, mas eu lembro perfeitamente disso: tinha medo, a princípio, de ir pra esse colégio e ter contato com essas pessoas.

 

P/1 – Você falou que em função da sua mãe trabalhar na escola, não dava pra aprontar muito. Qual era o perfil do Eric, como aluno?

 

R – Eu era relativamente comportado. Sempre fui um aluno regular, nunca fui um aluno brilhante, como também não fui relaxado. Mas eu fazia umas bobagens, coisas de criança, mesmo. Não era o mais bagunceiro, mas nessa época, o que eu lembro que possa ter feito? Acho que nessa época não fiz nada de tão gritante, não sei se por medo da minha mãe saber, eu não me lembro de nada fora do normal. Levava bronca, acho que cheguei a ficar de castigo porque talvez não fizesse o trabalho de casa, só isso.

Acho que eu tinha mais medo, foi mais um fantasma que eu criei de que qualquer coisa que eu fizesse chegaria rápido ao ouvido da minha mãe, do que a repressão que eu sofreria. As coisas que eu aprontei, que até esses dias estava lembrando e rindo sozinho, é que eu inventava que estava passando mal pra não ir ao colégio. Isso eu lembro bastante. Eu saía junto com minha mãe e tinha que ser bem convincente pra ela não me arrastar para o colégio. (risos) Acho que foi mais isso, não tem a ver diretamente com aprontar no colégio, mas eu lembro que era uma mentira que eu preguei várias vezes e que, de certa forma, minha mãe acho que sacava, porque ela falava: “É impressionante que essa sua dor de barriga acaba quando passa o horário de ir pro colégio. Terminou aquele horário previsto, de 12:45 até 1:30, você tá bom, pronto pra ir pra rua.” (risos)

 

P/1 – Seus irmãos estudavam nessa escola também?

 

R – Estudaram. Quando eu estava entrando o meu irmão já estava saindo; já tinha terminado a quarta série, indo pra quinta. E eu lembro que enquanto estava estudando nesse colégio, eles já estavam nesse outro colégio que eu vim a estudar mais tarde. Então acabei não convivendo com eles, não fui contemporâneo de estudo.

 

P/1 – E houve algum professor que tenha te marcado ou uma disciplina que você gostasse mais?

 

R – Sim. Eu sempre tive muita facilidade com Matemática. Nessa época, até a oitava série, eu não estudava Matemática; fazia os exercícios que prestava atenção e me saía bem. E em outras matérias eu via necessidade de ler, de tocar fora do ambiente de sala de aula.

O professor que me marcou foi a professora Janete, era uma professora que eu peguei da segunda até a quarta série. Esses professores nessa época, no nível de ensino, têm um contato muito próximo com o aluno. E ela um pouco mais porque minha mãe, dos bicos que arranjava, fazia limpeza na casa dela, então ela estava sempre muito presente na nossa vida. Era uma pessoa… Como eu falei, nesse nível é mais do que simplesmente aprender; a professora se torna muito sua amiga, muito carinhosa, se envolve bem mais com a sua vida, com seus problemas, se interessa um pouco mais, então acaba marcando. Acho que na vida de todo mundo, as primeiras professoras são assim.

 

P/1 – E depois, nessa outra escola, já um pouco mais longe do olhar da sua mãe, qual o perfil de aluno? Você continuou tendo o mesmo perfil?

 

R – Ali, o que aconteceu? Essa vocação pra ciência ficou mais evidente, são coisas que eu lembro. Outras matérias eu precisava estudar mais. Lembro, também, uma influência forte da professora de Matemática, que essa também foi professora minha da quinta à oitava série.

Eu sempre fui um aluno de regular pra bom. Tinha alguns caras que eram muito bons nas minhas turmas, que eu admirava bastante. Eu não era esse cara, mas eu sempre estava ali, sendo bem responsável. Esse fator eu atribuo muito ao meu pai e a minha mãe. Acho que, sem saber, eles nos criaram administrando bastante essa responsabilidade. Eu me lembro da minha mãe nunca perguntando se eu tinha ou não feito o trabalho. Não sei que técnica ela usava, mas eu acabava tendo muito temor de ficar reprovado, muito medo. Isso era uma responsabilidade que eles conseguiram passar pra gente.

Esse, eu acho que era mais o meu perfil. Tinha muito medo desses caras mais atentados, de lá. Eu era medroso pra caramba. Eu ganhei um tênis do meu padrinho, um tênis bom pra época, era o tênis Power - fazendo uma equivalência, hoje seria um Nike, de pelo menos uns trezentos reais. E eu lembro que os caras ficavam me zoando, a brincadeira deles era essa: “Pô, vou meter esse teu tênis aí!” Era estranho você ficar convivendo... Eu, que de certa forma saía do carinho da minha avó, meus irmãos sempre muito comportados em casa, chegava lá e sofria esse terror.

 

P/1 – Nesse momento de infância e pré-adolescência, quais eram os seus sonhos?

 

R – Os sonhos... Eu tinha um sonho de carreira, que era por influência. A minha mãe sempre achou muito bonito ser militar porque meu avô foi militar de uma patente alta. Ela sempre tentou influenciar a gente nisso: “Estuda pra ser um militar de carreira. Você vai estar seguro, um emprego fixo, depois você cresce bastante.” Era sempre muito frequente essa influência da minha mãe.

Durante um bom tempo, eu sonhei em ser um marinheiro, um militar, e depois, na oitava série, comecei a me preparar pra prestar concurso pra Colégio Naval, a Epcar [Escola Preparatória de Cadetes do Ar], que eram cursos de formação de oficiais. Mas o meu ensino era muito fraco, então não consegui ter êxito nos concursos que eu prestei. Depois minha mente começou a abrir, fui adquirindo uma personalidade e vi que realmente não tinha muita vocação pra ser militar.

Meu irmão se tornou militar e ele estava sempre um passo à frente. Eu comecei a ver o estilo de vida que ele levava. Apesar de algumas conquistas materiais que ele começou a adquirir - bem significantes pra gente, pois éramos uma família muito simples -, ao mesmo tempo, não me contagiou. Eu via outros horizontes. Meu irmão, nessa época, não tinha ingressado no nível superior. Ele só tinha o segundo grau, se tornou marinheiro e ralava pra caramba.

Eu comecei a olhar pra aquilo e desenvolver minha própria escolha. E, a partir dali, eu comecei a vislumbrar e estudar Informática, que na época, isso por volta de 1986, 87, não era como é hoje. Naquela época, os computadores pessoais estavam começando a ser vendidos e para os nossos padrões eram caros pra caramba. E não tinha [sido] definida a carreira [de] Informática; não era uma carreira, era Matemática com habilitação em Informática. Então eu comecei [a pensar]: “Bom, pra eu estudar Computação, vou ter que saber muita Matemática, e eu gosto de Matemática”. Então comecei a vislumbrar mais esse caminho.

 

P/1 – Você se lembra de onde veio essa ideia, por que e qual foi o seu contato com Informática pra chegar nesse pensamento?

 

R – Jogos eletrônicos, eu gostava muito de fliperama. Meu irmão chegou a ter um Telejogo e eu lembro que, embora a gente fosse uma família muito modesta, a gente conseguia. A minha mãe era muito organizada financeiramente; ela sempre dava bons presentes pra gente, ainda que fosse uma vez ao ano. E revezamento - eu me lembro de a gente fazer alguns revezamentos sobre quem ganhava, naquele ano, o melhor presente. E ela ensinou esses princípios, por exemplo, pro meu irmão. Ele trabalhou durante um tempo no mercadinho carregando a compra dos outros e comprou um Telejogo. Eu até falo pros meus alunos hoje, e eles morrem de rir, sobre o que era o jogo eletrônico na nossa época. Eram dois pauzinhos aqui, que ficavam, um controlezinho, aquilo ali era o boneco e a bolinha era um quadradinho que ficava indo para um lado e pro outro e “toc toc toc toc”, ela batia.

Meu irmão tinha um Telejogo de dez jogos, que era o lançamento da época; a gente começou esse convívio com a eletrônica, essa paixão e interesse. Dali, a gente comprou o Atari, que já recebia o nome de videogame - nem era o Atari mesmo, pois era muito caro; a gente comprou o Supergame CCE, que era o genérico. E depois a gente comprou um Compugame. A gente juntou o nosso dinheirinho e conseguiu comprar o Compugame, que era um computadorzinho com 2 KB de memória. É por isso que eu falo pra eles e eles nem conseguem imaginar o que chega a ser ter 2K. Hoje se fala já em tera na Informática e eles falando: “Pô, 2 KB é 1/32 da capacidade que um chip de celular tem.” Eu lembro que a gente ligava esse Compugame no videogame e do videogame jogava pela TV. Então, ele permitia escrever, botar os programinhas em basic, que era a linguagem da época, completamente extinta hoje.

Depois desse computador a gente evoluiu para um TK 85, que a gente trocou. Pusemos um anúncio no Jornal Balcão, acho que ainda existe; apareceu um cara querendo trocar por um TK 85, que já tinha 16 KB de memória, era uma evolução grande pra gente. Não tinha cor, alta resolução, mas era o contato inicial com a Informática e, pra época, era um diferencial na minha idade com a galera do nosso nível, principalmente. Quem tinha acesso a isso era o pessoal que eu esbarrava no colégio, que tinha um poder aquisitivo bem superior ao nosso, então a gente conseguiu acompanhar esse galgar da Informática.

Depois a gente trocou por um TK 95, que tinha mais memória ainda, com um pouco mais de potência nos jogos e tudo o mais. Nessa época eu já programava, fazia os joguinhos e, consequentemente, aprendia muita Matemática pra fazer os programas. E [era] autodidata porque eu pegava os livrinhos, ia lendo. Não existia internet pra você jogar no Google as coisas que você ia pesquisar, você ia pra banca de jornal e tinha que comprar as revistas “MS Informática” - era alguma coisa assim, uma revista semanal, que a gente comprava pra descobrir novas rotinas, como superar falta de memória pra gente poder criar o que a gente queria. Era um desafio que, na prática, a gente ia aprendendo muita Matemática e Informática. Quando eu entrei pra faculdade, até contraditoriamente, acabei largando um tempo a Informática pra me dedicar à Matemática, que era muito pesada. Fazer as disciplinas da época, os Cálculos. Tinha que estudar pra caramba e não dava tempo pra sentar na frente do computador.

 

P/2 – Eric, pela sua narrativa, você chegou a faculdade. Mas eu queria que você voltasse um pouco pra contar desse período da adolescência, que você estava descobrindo Informática e tudo o mais. Antes, você tinha mencionado que se divertia com seus amigos conversando, indo aos bailes. O baile era uma coisa que te marcava, de diversão? Como eram esses bailes?

 

R – Pois é. Tem uma parte que eu até me envergonho um pouco de falar. Envergonho-me no bom sentido, não tenho problema nenhum de expor, mas não é um assunto que eu gosto muito de ficar expondo. Por exemplo, eu fui funkeiro e hoje não gosto do estilo funk, o rumo que as coisas têm tomado. Até critico bastante, busco aconselhar bastante meus alunos a respeito disso, porque hoje tomou um lado completamente vulgar. Mas eu me envergonho justamente disso, de ter feito parte do início desse movimento funk, na época.

Os bailes a que me referi foram desse tipo, bailes funk, que é a diversão que o pessoal tem hoje nas comunidades. Isso eu consigo entender, é o acesso que eles têm a esse tipo de diversão. E eu lembro que até essas brigas - hoje existem facções de lado a, lado b -, quando eu frequentava os bailes funks foi a época que começou a acontecer esse tipo de coisa. E foi a época que eu comecei a parar de ir porque eu não curtia muito isso, a questão da briga. Tinha amigos meus que iam ao baile com a finalidade - tinham meninas pra eles namorarem, a música boa pra eles dançarem, mas eles iam com o objetivo de brigar. Eles saíam de casa com esse objetivo. Foi a época que eu comecei a ver aquilo.

Isso é muito legal também: onde a gente morou tinham muitos amigos que acabavam lhe influenciando com os gostos musicais. E nessa época tinha uma galera que gostava de Legião Urbana. Eu já estava indo para o caminho de usar cabelo parafusinho, aquele boné, aqueles batidões. Comecei a olhar pra aquilo e refletir, então comecei a gostar mais do estilo daqueles caras, que era um estilo bom. Por um lado, os frequentadores de baile funk saíam na briga e tudo o mais, era mais esse estilo, e até arma também, era muito por aí. Eles também tinham a bebedeira, eu só via os caras caindo pelas tabelas, a onda deles era encher a cara. Mas começou a ser um estilo que tinha mais a ver comigo, mais pacífico, de sair com as meninas, paquerar e tudo o mais. Eu comecei a curtir mais isso na época dos dezesseis, dezessete anos. Então, os bailes a que me referi foram esses. (risos)

 

P/1 – Quando você deixou de frequentar os bailes funks, qual foi a sua alternativa de diversão?

 

R – Foi nessa época que eu comecei a andar bem mais com o Alexandre, esse amigo que eu mencionei. E ele começou a me apresentar outros estilos, eu comecei a ouvir muito A-ha, na época. Isso também é uma coisa que eu não gosto de mencionar muito (risos), mas eu gostava de A-ha. Ouvia muito U2 também, era bem antes do pop, hoje eles são completamente diferentes no estilo. Era a época de “Sunday Bloody Sunday”. O “War”, que era um álbum muito legal que eles tinham. E a gente começou a ouvir esse som. O Sting, que já não era mais do The Police, e Legião Urbana.

Dos nacionais era o movimento 85, movimento de rock muito forte que teve Plebe Rude e tudo o mais. Então comecei a ir para outro tipo de baile, que existia também. Um baile mais de rock nacional, já era outro perfil: a galera mais de cabelo arrepiado, na época passava-se gel pra imitar o Adam Clayton do U2, e cabeludo também. E eu comecei a mudar minha tribo, comecei a andar mais com esses caras e rezava pros caras não lembrarem de quem eu era, porque rolava muita encarnação: “Pô, deixou de andar com a gente agora pra andar com os roqueiros.” Rolava uns apelidos assim.

 

P/2 – E você mencionou, também, que foi nessa época em que mudou de tribo que começou a coisa das paqueras, né? Como era o namoro da época?

 

R – O Alexandre era o pegador, entendeu? (risos) E eu andava com ele. Acabava que morria de inveja porque ele era o cara mais “pintoso” e as meninas ficavam em cima dele. Então, eu acabei não sendo o namorador. Ele era o meu ídolo nesse aspecto.

Eu me lembro de pequenas paqueras, eventuais. Não chegou a ser namorada, só uma menina que eu namorei bastante tempo, que levei em casa e fiquei mais de meses; foi aos vinte anos, não me lembro direito a época. Aí eu realmente namorei muito tempo, já entrei em outra fase, que foi mais ficar em casa com essa menina, mais família. Se eu, por um lado, era o menos paquerador, o Alexandre estava ainda nessa fase. Eu comecei a ficar mais restritivo nas saídas, fiquei mais preso lá. Com essa menina fiquei acho que quatro anos, cheguei a noivar, pensava em casar. Foi basicamente dos 22 anos, porque com 26 a gente terminou e eu saí de casa também. E foi mais isso. Namorada, que eu lembro, foi ela.

 

P/1 – Mudando um pouco de assunto. Antes de você entrar pra faculdade e ter essa opção profissional pela Matemática e pela Informática, você já tinha tido algum outro trabalho?

 

R – Não. Bom, trabalhei um tempo com o meu pai, com lustres móveis. Foi o período que eu entrei pra faculdade. Eu passei pro segundo semestre na UFF [Universidade Federal Fluminense]. Esses seis meses que eu fiquei em casa, meu primeiro trabalho, era o período que eu não podia arrumar outro tipo de emprego porque estava meio que esperando uma resposta do quartel e é difícil conseguir se empregar assim.

Fui trabalhar com meu pai, lustrando e restaurando móveis. Passei seis meses pra ganhar um dinheirinho, juntando o dinheiro pra poder comprar os primeiros livros da faculdade e não pesar tanto pros meus pais. Então esse foi o meu primeiro, digamos assim, emprego.

Em seguida, eu tinha essa preocupação muito grande de não dar despesa pros meus pais, porque eu já entendia que estava com uma idade em que a maior parte dos meus amigos estava trabalhando. Eu estava com dezessete anos quando entrei pra faculdade e o dinheiro pra passagem pra gente, eu entendia que era sacrificial pro meu pai e pra minha mãe; já estava numa fase que eu deveria estar contribuindo em casa, então tirar dinheiro deles me incomodava um pouco.

Eu entrei pra faculdade; minha segunda atividade remunerada foi ser monitor na faculdade. Fui monitor durante dois anos e os outros dois anos eu fui bolsista de Iniciação Científica. Lembro que quando entrei pra faculdade eu não recebi mais dinheiro do meu pai.

 

P/1 – E como foi o período da faculdade pra você? O que lhe marcou, o que mudou em sua vida o fato de estar na faculdade?

 

R – Estar na faculdade influenciou bastante na minha percepção do mundo, da vida, [de] planos profissionais, abriu muito a mente. Eu acredito até que quando eu estudei no segundo grau - eu estudei no Pedro II -, esse processo já tinha se iniciado, que era o contato muito forte… Cabelos meio espanando também, por isso meus gostos mudaram. Eu lembro que o Pedro II teve bastante influência nisso porque era muita patricinha e muito mauricinho, era outro nível social que eu comecei a ter contato. Quando eu saí da oitava série, o meu mundo era aquele: a Penha, aquela região, a comunidade, as favelas e tudo o mais. Quando eu fui pro Pedro II eu via… Foi o primeiro contato. Impressionante como as pessoas repudiavam alguns dos meus gostos. E aquilo começou a me fazer questionar. Eu acredito muito nisso, que muito hoje das comunidades serem como são é porque os jovens não têm oportunidade de ter contato com outra realidade. Aquilo ali, na verdade, acaba sendo ditado pra eles. E eu lembro que ali comecei a ter outra visão.

O colégio era bem distante da minha casa, eu morava na Penha e estudava em São Cristóvão. O deslocamento, o contato com outras pessoas, outro mundo. O Pedro II também tinha um estudo muito forte, a área humana é muito enfática. É diferente de outros colégios e acabam lhe dando visões políticas e sociais bem superiores aos demais colégios. Inclusive alguns problemas que a própria educação pública atravessa você acaba convivendo de perto - na época era medo da privatização, que procurava conscientizar um pouco, nem que fosse por medo de perder o Colégio. Quando eu entrei pra faculdade, eu entrei já tendo uma percepção diferente e que foi consagrada por isso, o contato ainda mais forte com pessoas de outros níveis sociais.

A faculdade pública hoje é muito elitizada. Quase todos os meus amigos tinham uma condição de vida muito melhor que a minha, acesso a diversos ambientes que não eram meus ambientes. Quando eu comecei a sair com eles, a gente saía muito pra jogar um boliche em Piratininga e os caras já tinham carro, era outra cabeça, mesmo. Então lembro que isso foi bem marcante, os dois mundos. O mundo que eu vivia quando voltava pra casa, os meus amigos ali, e o pessoal da faculdade.

 

P/1 – E o primeiro trabalho na área, como foi?

 

R – Depois da formação?

 

P/1 – Isso.

 

R – Meu primeiro trabalho foi... Eu vim trabalhar relativamente tarde, aos 26 anos de idade. Foi quando eu estava ainda no mestrado, fazendo mestrado no Fundão. Eu participei de uma seleção pra professor contratado na UERJ [Universidade do Estado do Rio de Janeiro] e comecei a dar aula lá como professor substituto. Ah, antes disso, eu lembrei agora: antes disso teve um primeiro, esse que foi realmente o primeiro. Foi ainda no mestrado mesmo, eu fui trabalhar numa empresa em que estava supervisionando digitadores de documentos - nem sei se existe hoje isso ainda,  mas era uma empresa que organizava documentos pra outras empresas. Os formulários chegavam redigidos e eles arquivavam, gravavam e digitavam. Ficavam os digitadores digitando todas aquelas informações pra poder armazenar em fitas e botar no banco de dados de algumas empresas. Então, prestava esse tipo de serviço pra essas empresas.

Trabalhei lá acho que por três meses; não estava gostando nem um pouco do trabalho. Foi quando fui chamado pra dar aula na UERJ, fiquei durante um ano e nesse período eu me tornei cristão, conheci a Igreja que eu faço parte hoje, no Fundão, inclusive. Fui convidado para uma reunião e depois desse período na UERJ eu vim a trabalhar... É uma espécie de pastor.

Larguei tudo e fui me dedicar à religião que eu faço parte. E fiquei durante três anos. Fui missionário, fui trabalhar em Salvador, trabalhei um bom tempo e essa mudança de vida foi muito significante pra mim, foi algo marcante. Eu não pretendia voltar pra área de Matemática, pretendia seguir esse rumo, porém as coisas foram mudando, algumas coisas no meu trabalho com essa nova atividade não deram muito certo. Então, embora eu continue na religião, eu não trabalhei mais em tempo integral, me mantendo por conta da Igreja. Voltei pro meu trabalho, me recoloquei, foi quando eu fui trabalhar na UFF, também como professor substituto, onde permaneci dois anos; terminou esse período do contrato e eu fui trabalhar no Cederj [Centro de Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro], no ensino à distância, onde estou até hoje. E no Estado passei em 2005 por concurso, minha primeira matrícula. Estou lá também, exercendo essas duas atividades como professor.

 

P/1 – Voltando em alguns pontos, então. O seu mestrado uniu Matemática com Informática, de alguma forma, ou não?

 

R – Matemática com Informática, sendo uma parte bem teórica da Informática. Por que teórica? Na Informática tem como você seguir duas linhas: uma parte, que é o cara que desenvolve os programas, implementa os softwares; isso é alto nível, mesmo. No meu caso eu trabalhava com Engenharia de Sistemas, fiz mestrado em Engenharia de Sistemas. Tem alguns algoritmos que resolvem problemas de grande porte - problema de telefonia, isso é um problema de grande porte, que envolve inúmeras variáveis, os caras procuram solucionar implementando o sistema. E o outro grupo, de pesquisadores, eles desenvolvem teorias que embasam esses sistemas.

Por minha formação ser em Matemática, ironicamente, embora eu tenha começado como Programador, a história que eu contei pra vocês, hoje eu não sei tanto de programação porque no período da faculdade, os quatro anos foram mais que suficientes pra Computação avançar e eu perder o timing, entendeu? Então eu fiquei muito mais teórico que prático na parte de Informática.

Na faculdade eu pensei: “Devido à minha formação vou me especializar mais nessa parte de fundamentar o software, os conceitos e fundamentos matemáticos que existem e que embasam o software. Eu vou formalizá-los.” E a minha tese de mestrado foi essa, a formalização e o desenvolvimento de um algoritmo numa parte bem específica da Matemática Aplicada.

 

P/1 – A sua opção de mudar de carreira - deixar a Matemática e seguir uma vida religiosa -, você tinha ciência que isso era uma opção de vida e uma opção profissional? Enfim, imediatamente você teve essa consciência de mudança total de vida ou foi alguma coisa que foi acontecendo gradativamente?

 

R – Foi assim: eu conheci o grupo do qual faço parte e comecei a redefinir, ainda mais fortemente, os meus valores. Sempre fui uma pessoa com uma fé relativa em Deus, sempre acreditei bastante em Deus. Só que... Bom, até porque a minha família é católica e tem uma formação católica. A minha mãe seria praticante irregular, ela vai às missas de domingo.

Durante um tempo eu questionei muito. A partir do momento que eu adquiri uma consciência do que é religião e a forma que ela estava imposta, comecei a questionar muito a prática religiosa da minha mãe e as diversas práticas religiosas, inclusive a evangélica. Eu comecei a interrogar bastante, não no sentido de polemizar. Acho que tem dois questionamentos sempre: um é somente polemizador e o outro questionamento que lhe leva a uma pesquisa, a um aprofundamento, conhecimento. E eu comecei a ter esse questionamento. Até que chegou um ponto que eles não me respondiam às questões que eu tinha sobre Deus, sobre a Bíblia, sobre os dogmas, e eu passei a adotar os meus próprios paradigmas de religião: “Eu acredito em Deus, mas não vejo hoje uma religião que se adequa ao meu ponto de vista.”

Quando eu conheci esse grupo, isso me chamou muita atenção: na universidade, eram caras estudantes e que tinham uma vida muito atraente, também. E eu vi que, pôxa, era possível unir a religião ao estilo de vida muito sagaz. Eram caras que iam muito bem na faculdade, que era uma coisa que eu valorizava, eram caras muito inteligentes e que tinham um valor espiritual, valorizavam a vida espiritual de uma maneira muito séria. E eu comecei a querer aquilo pra mim. Eu me tornei, então, cristão, me batizei e me tornei membro da Igreja. E a gente começou a andar muito juntos, fazendo as atividades juntos, aquilo começou a me conquistar. Eu comecei a sonhar bastante com aquilo e aquilo foi roubando, na verdade, muitos dos meus outros sonhos, meus outros planos de vida, até chegar uma hora que eu decidi, eu fui convidado por um amigo. E assim, diferente das outras Igrejas, essa Igreja eu consegui ver que a gente tinha um relacionamento muito próximo com aquele cara que era o líder, de ir a casa, de ver a vida dele. E, particularmente, uma coisa que me chamou muita atenção, foi ver que aquelas coisas que os caras pregavam eram realidade na vida deles. Diferente de outras religiões que eu já tinha visto: o cara se vestia de crente, uma roupa bem antiquada, mas por dentro, o cara tinha um monte de preconceitos, um monte de coisas que eu vi que não tinha a ver com Deus. E aquilo me contagiou, eu me apaixonei por essa prática. Quando eu comecei a estudar a Bíblia comecei a ver: “Pô, essa é uma prática, um modelo que se aproxima muito mais do Cristianismo que a Bíblia fala. Do estilo de vida que eles viviam lá na época de Jesus.” E eu, então, comecei a adotar esse estilo de vida. Começou a fazer parte e falei: “Por essa causa eu estou disposto a largar tudo”. Eu lembro que pensava muito assim: “As coisas que eu vou construir com Matemática vão se tornar até medíocres diante das coisas que eu posso construir na vida de uma pessoa.” Os questionamentos de vida que eu posso fazer num jovem, a influência que eu posso exercer na família dele.

Como eu falei, algo que foi marcante pra mim, nessa época, e que me fez pensar dessa forma, sobre influenciar as vidas das pessoas e não simplesmente do grupo, a influenciar profissionalmente, em ser exemplo profissional. Aí, pensei: “Pôxa, mais do que formar profissionais, acho que é muito melhor formar pessoas com caráter, com princípios.” Foi esse um dos impulsos que me levou a largar, sem medo de nunca mais voltar. De olhar e pensar: “Pôxa, o impacto que eu posso causar na vida das pessoas, influenciando com esses princípios novos que eu estou aprendendo, podem restaurar uma família, um casamento. Pode ajudar um cara a se livrar das drogas. Pode salvar vidas, né?”

O exemplo maior foi comigo. Eu fiquei muito tempo convivendo com minha mãe - não entrei em detalhes, mas acho que é oportuno eu falar. Eu tive um relacionamento muito ruim com minha mãe. A gente tinha brigas constantes, até chegar a um ponto em que eu parei de falar com ela. E fiquei sem falar com ela durante dois anos, morando dentro da mesma casa - o que eu acho muito ruim da minha parte, apesar de que acho que sempre tem os dois lados quando há um problema familiar, um problema no relacionamento. Mas assumo bastante a responsabilidade porque acho que o meu relacionamento com ela era muito ruim. E hoje eu consigo identificar alguns fatores pelos quais isso aconteceu.

Uma parte eu acho que é responsabilidade - ela, como mãe, me ensinou alguns princípios que não foram corretos. Deixando isso de lado, eu já era adulto, então já era responsável por aquilo que fazia, pelos meus atos. Eu lembro que faltou muito respeito a minha mãe, faltou muita gratidão a ela por tudo que ela tinha feito. São princípios que a Bíblia e o Cristianismo me ensinaram a valorizar bastante e resgatar, restaurar a minha vida. E que me impulsionou, na prática, a hoje fazer o que eu citei aqui, num certo momento, que foi me relacionar mais íntimo com ela, ter mais carinho. Eu vi que o que bloqueava nosso contato, físico até, era muito do meu orgulho de me aproximar dela. Comecei a ver que algumas coisas que você constrói no seu caráter, que você permite entrar na sua vida, no seu coração, elas têm uma influência muito forte na sua prática de vida, muito forte, mesmo. A ponto de...

Eu era muito bloqueado pra conseguir dar um abraço e isso ia além das paredes da minha casa. Com certeza, eu teria um casamento muito pior se eu não tivesse decidido fazer algumas mudanças na minha vida. Eu acredito que eu criaria no futuro… Eu não tenho filho hoje, mas criaria muito pior meu filho se não tivesse decidido fazer essa mudança na minha vida. Então eu lembro que foi marcante, isso.

Esses caras que estavam estudando a Bíblia comigo se tornavam meus amigos. E eu falo “estudar a Bíblia” porque eles estudavam mesmo, eles sentavam comigo e me ensinavam, me mostravam e hoje eu tenho uma visão completamente diferente desse livro, que é a Bíblia. Não [é] só um livro religioso, que você abre e sai fogo, sai flecha, nada disso. É um livro muito prático, em alguns momentos até racional, e eu admiro muito os princípios que a Bíblia passa e que esses caras me ensinaram.

Um dos momentos que mais me marcou foi quando eles sentaram comigo e fizeram um estudo sobre perdão. Eu sempre fui muito seguro de mim, me julgava uma pessoa boa. No meu universo de contatos, de amizades, se você perguntasse quem é o Eric, as pessoas diriam: “É um cara super legal, agradável, inteligente.” Porém, por dentro tinham algumas coisas que precisavam ser repensadas. Esses caras sentaram comigo, fizeram esse estudo e falaram de uma maneira muito franca, muito sincera, sobre esse aspecto da minha vida, quando eles tocaram: “Como é o relacionamento com a sua mãe?”. Eu contei e eles falaram, com muita coragem, na minha cara: “Essas coisas que você faz com sua mãe são horríveis. A forma como você lida com sua mãe são terríveis.” E falaram também das experiências que eles tiveram, como puderam mudar e convivendo com eles, indo na casa deles, eu vi que isso era realidade. Aquilo me envergonhou muito porque eu senti como se Deus estivesse falando por meio deles, falando pra mim e me tocando nessa ferida. Nunca, nenhum dos meus amigos, anteriormente, tinham ido lá tão fundo e falado. E me levado a refletir, a questionar e, sobretudo, tivesse me encorajado tanto a mudar.

Sei que saí de lá, naquele dia, muito constrangido e envergonhado, reconhecendo as coisas que eu tinha feito com minha mãe. E eles me deram, como desafio… “Eu queria te dar um desafio hoje: você ir pra casa e pedir perdão a sua mãe pelas coisas que você fez.” Eu olhei e falei: “Caramba, cara.” Aí que meu orgulho aflorou mesmo, porque eu falei: “Caramba, agora realmente eu estou no canto da parede. Porque se eu volto e digo pra eles que não fiz, aquela imagem que eu sustentava de que eu era bom vai desmoronar. E o fato também de eu chegar lá e pedir perdão a minha mãe, significa rasgar tudo que eu sempre sustentei, olhar pra ela e falar: ‘Bom, na verdade eu estou errado e você está certa’.” Era essa a minha imagem.

Eu saí de lá com uma convicção: que era o certo a ser feito. Lembro que eu fui pra casa, fiquei uma hora dentro do quarto, tomando coragem pra poder falar com ela, vencendo o meu orgulho, no fundo. Depois, eu a chamei e falei: “Bom, ela pode pensar o que for.” E eles tinham falado muito isso, eles falaram: “Cara, não importa muito como sua mãe vai reagir, acho que você tem que se preocupar em fazer o que é certo aos olhos de Deus.” Que era o que eu estava conhecendo, né? Eu pensei nisso na hora e falei: “É verdade, não importa muito se minha mãe falar: ‘Está vendo? Sempre falei pra você que aquilo que fazia era errado, eu sempre estava certa’. Não importa. Um dia, talvez, ela conheça o que eu estou conhecendo e talvez tenha uma postura diferente, mas... Hoje diz respeito muito mais a mim.”

Eu falei pra ela: “Mãe, eu queria lhe pedir perdão pelas vezes que eu lhe desrespeitei. Hoje eu estou estudando a Bíblia e vendo que muitas das minhas atitudes foram erradas - não contra você, mas eu consigo ver que foram erradas contra Deus. Eu vejo que essas minhas atitudes feriram muito mais a Deus do que a você, e feriram você também. E, de quebra, me feriram também, porque eu sempre me magoei muito quando fazia, mas eu queria lhe alfinetar, eu queria lhe machucar, lhe fazer pagar, de certa forma, pelas discussões que a gente tinha, queria me julgar o certo.”

A reação dela foi completamente diferente. Ela começou a chorar, só olhou pra mim e falou: “Que você continue assim.” Eu lembro que isso foi um grande marco porque a partir dali foi o princípio de um novo relacionamento onde eu, ajudado por eles também, comecei a fazer algumas coisas práticas. Lembrei que eu nunca tinha dado um cartão pra minha mãe. São coisas simples que eu fui aprendendo, que foram muito significantes pra mim. O fato de botar num cartão simplesmente um “obrigado” por ela me ajudar a chegar aonde eu cheguei. Eu estava fazendo o mestrado e foi ela quem fez tudo por mim, me ensinou, mesmo não tendo... Se não me engano, minha mãe estudou até a sétima série, só. E sempre valorizou muito isso. Eu vi que era muita ingratidão minha, e comecei a expressar isso, tornar essas coisas, na verdade, práticas.

Eu comparo assim: é um exercício. Tinha uma parte da minha vida que estava atrofiada e eu precisava exercitar com uma fisioterapia, como quando você fica com o braço engessado há meses e ele fica mais fino. Essa parte do amor, do contato físico, do carinho, do obrigado, do pedido de perdão quando você erra estava muito atrofiado na minha vida. Eu comecei, então, a exercitar mais.  

 

P/1 – Eric, num dado momento você disse, comparando o ofício de professor com a possibilidade de intervir mais diretamente na vida das pessoas, numa vida religiosa mais intensa. Você acha que conseguiu transpor isso pra hoje, à sua prática de professor?

 

R – Hoje eu consigo ver que sim. Tenho até questionado um pouco a vida do grupo como professor. Pra ser bem sincero, vou abrir o jogo. Estou me preparando pra concurso público também. Minha ideia é mudar de profissão e deixar até de ser professor.

Por quê? Ser professor no nosso país está muito difícil, financeiramente falando. A cultura que, no fundo, a sociedade tem em volta da educação, hoje não é valorizada como deveria. Eu noto que isso tem me frustrado muito, o meu impacto tem se tornado muito limitado na vida dos alunos. Para um professor não tem coisa pior, ver que o seu trabalho está subvalorizado.

O que mais me atraiu, o que me levou a ser professor? É mais do que simplesmente ensinar Matemática, mas passar valores para eles. Eu me lembro desses professores que mencionei, a Professora Janete, a Nápoli, e lembro coisas além da Matemática, além da sala de aula, exemplos de vida. Principalmente hoje, com esse meu contexto mais religioso, olho dessa forma e penso: “Se for para eu fazer um trabalho, ganhar dinheiro, entrar na sala de aula e simplesmente tirar meu sustento - até porque o sustento é muito pequeno - , prefiro mudar e fazer da minha vida algo mais precioso.” Eu tenho muito isso, de fazer da minha vida, esse curto tempo que a gente passa aqui na Terra, algo marcante, que você possa olhar quando estiver no final da vida e dizer: “Pôxa, eu consegui marcar a vida das pessoas positivamente.”

Hoje, infelizmente, eu olho pros alunos e não vejo que eles olham pra figura do professor com admiração. Acho que eles olham muito mais com pena ou com outra conotação do que como uma admiração. “Poxa, esse cara realmente...” Então, o que acontece? Eu acredito que isso… Não digo que não toca, o professor influencia, acho que continua influenciando, mas não se influencia mais como na minha época. E num ponto que eu acho que é muito precioso, vital na vida das pessoas: você entrar lá e conseguir ver que dali vai sair um cidadão melhor, uma pessoa com bom caráter. Se você não tem admiração, se você não os ganha nesse nível, acho que você não consegue causar esse impacto que eu valorizo tanto.

 

P/1 – A sua história está muito marcada - até a opção pela Matemática, pela Informática, né? De alguma forma você aproxima esse conhecimento da Informática para o seu ensino de Matemática na escola?

 

R – Sim. Hoje, sobretudo no Nave, a gente tem muitos recursos disponíveis de informática, de computação. Uma das formações, das transformações que os alunos vão ter no final desses três anos que passam com a gente é especificamente de mídias e de programação de jogos. Desde a sala de aula, é uma lousa digital que utilizamos e que lhe permite usar muitos recursos de softwares de Matemática. Sem dúvida alguma tem toda a ligação o fato de eu hoje ter essa simpatia muito forte pela Informática, [isso] influencia bastante o meu ensino. A facilidade maior de aprender a manusear os equipamentos e até de conversar com eles também, sobre a troca de experiências. Por exemplo, eu busco sempre passar essa visão pra eles de que a Informática tem que ser muito bem empregada, como tudo na vida tem... Hoje a internet é uma senhora ferramenta, mas tem muita coisa ruim na internet, então [tento] passar essa espécie de ética pra eles, [de] como utilizar a Informática.

 

P/1 – Você estava contando dos recursos que o Nave oferece. Sei que essa escola existe há pouco tempo, mas você acha possível avaliar alguma reação que os alunos têm por essa nova forma de mediação dessa relação de aprendizagem?

 

R – Pra ser bem sincero, ainda é muito cedo pra fazer. O que eu acho que é muito marcante lá no Nave é a disposição que se tem em fazer educação de uma maneira diferente. Isso eu acho que já é significativo. Ele já começou diferente e hoje é um grande referencial na educação pública. A disposição dos colegas, o corpo docente é muito bom, a direção é muito competente, muito empenhada. Acho que isso é o principal pra que a gente consiga fazer alguma coisa.  

Hoje, na rede… Até sobre o outro colégio que eu trabalho, Oswaldo Cruz, eu vejo também uma disposição de se fazer, mas hoje as pessoas estão tão sufocadas pelo sistema e a máquina educacional está tão doente, os professores tão frustrados, tão desanimados, que você não consegue transpor essa área. Você não consegue fazer as mudanças ou ter forças pra brigar da forma que precisa. E lá no Nave eu sinto mais esse ambiente, a disposição de encarar politicamente as coisas que estão estabelecidas pela Secretaria de Educação. E refiro a leis mesmo: lá no Nave a gente passa por isso, temos comprado essas brigas. Muitas leis que acabam freando e dificultando bastante o processo de reformulação da Educação. Você não pode chegar num colégio e simplesmente recomeçar as coisas da maneira que você julga, embora sejam corretas.

Você esbarra em diversas leis que lhe travam. Um exemplo é como você vai utilizar as verbas. Isso, toda repartição pública acaba atravessando. Você não pode usar da maneira que você julga que é melhor, você precisa usar a verba da maneira que ela foi estipulada, até porque existe muita corrupção, eu consigo entender isso. É importante também que existam as leis, mas a gente tem esbarrado muito, nesse momento, com isso. A dificuldade de reformular e repensar a educação. Mas eu vejo muita disposição por parte do pessoal.

 

P/2 – Pensando na prática, o Nave é uma escola modelo que tem recursos tecnológicos avançados. Mas e na outra escola? Como é a sua tentativa de lidar com novas tecnologias, que recursos você tem?

 

R – Essa escola estou há pouco tempo, também. Na Rede estou desde 2005; no Nave, desde a inauguração, agora em maio. Todos os professores foram selecionados e passaram, então, as suas matrículas pra lá, no momento da inauguração. Eu já estou na Rede desde 2005; no outro colégio, o Oswaldo Cruz, de onde eu trouxe minha matrícula pro Nave, também são colégios que, se você olhar e comparar com os demais, eles são bons colégios dentro do que a Rede pode oferecer: bons colégios, uma boa direção. A estrutura do colégio, em si, é boa,  mas o nível de ensino e os mecanismos que a Secretaria de Educação fornece para o treinamento de professores, a seleção de professores, os recursos que o professor tem pra poder ensinar... Deixando de lado, até, os recursos tecnológicos, mas o que você tem de ensino pra passar, é muito ruim hoje. Eu diria que o trabalho que tem sido feito é [mais] premeditado pra destruir a educação do que pra construir.

Falando desses outros colégios, porque o Nave são cinco meses, não dá pra avaliar muito bem. Eu via que nesse outro colégio anterior tinha o laboratório. A Secretaria de Educação, com a verba do Estado, construiu um laboratório para os alunos. Eu estava lá de 2005 até agora, quando eu fui pro Nave já estava com um pouco mais de três anos. O laboratório já deve ter pelo menos dois anos e acho que não vi uma única vez sendo usado pelos alunos. Então vejo que é muito sórdido o que o governo tem feito. Ele acaba montando um cenário em que ele distribui laptops, equipa as escolas, porém não lhe capacita. Você é pressionado a cumprir um programa que é dado pelo governo, que às vezes tem até fiscalização; nesse programa não são previstas aulas interativas com o uso da Informática, então o professor fica atrelado àquilo, isso não aparece na mídia e você fica completamente engessado.

O que passa, então, pros pais, pra população? Que o professor está mal preparado, reclamando de barriga cheia. Eu acho isso muito ruim. É um dos motivos pelos quais estou bastante desanimado com a educação pública e me vem, então, o sonho de poder influenciar melhor e contribuir, fazer minha parte social, não mais como professor, mas como membro de algum órgão público que talvez regule distribuição de verbas, a aplicação desses recursos. Esses são os meus planos.

 

P/1 – Como você espera que seja a escola daqui pra frente?

 

R – De uma maneira geral ou o Nave?

 

P/1 – De um modo geral.

 

R – Eu espero… Estamos tendo uma grande oportunidade agora, cada vez que a gente tem eleição é uma oportunidade que se abre, apesar de que não vi nenhuma proposta aos pés do que a escola realmente precisa e a gente acaba tendo que votar no “menos pior”.

Eu não tenho muita esperança pela educação, com as regras da forma que estão. Acho que para ter uma mudança efetiva é necessário que entre um político comprometido mesmo com essa mudança. Acredito que o cara precisaria ter como discurso e plataformas de governo principais a educação e saúde. Mais nenhuma outra coisa, a princípio. E depois, sem dúvida, outras necessidades que o Estado e o Município precisam. E isso infelizmente não tem, então sou bem pragmático em dizer que da forma que está não vai mudar. Por isso estou planejando as minhas alternativas, infelizmente.

 

P/1 – Bom, e o Eric fora da vida profissional? O que você gosta de fazer?

 

R – Eu gosto de passear com a minha esposa. (risos) Gosto muito de viajar. Tudo assim. O que eu gosto de fazer?

 

P/1 – Seu momento de lazer, como é?

 

R – Eu gosto de estar com os amigos. Sou um cara que não gosta muito de exageros, gosto bastante de rir. Gosto de natureza, de viajar pra onde tem praia, gosto bastante de praia. Pratico natação, gosto de esportes em geral, principalmente malhar e nadar, hoje são as atividades que eu faço. E gosto de cozinhar pra minha esposa, a maior fã das minhas comidas. (risos) Acho que eu sou assim, um cara bem caseiro. Os colegas lá do trabalho me encarnam, falando que eu sou “o maridão”. Eu acho que eu sou mesmo. (risos)

 

P/2 – Conta pra gente como você conheceu a sua esposa e como é o nome dela?

 

R – Raquel. Eu a conheci justamente na Igreja que a gente faz parte.

A gente se conheceu em 1998, mais ou menos. A gente só foi namorar em 2000. Passamos dois anos convivendo. Cuidamos de alguns grupos na Igreja: grupo de jovens, grupo de universitários. Tínhamos trabalho dentro da universidade, evangelístico - esse bate-papo que eu fui convidado e frequentei, depois vim a fazer e cuidar desse grupo. E ela cuidava comigo.

É engraçado até, porque ela conta que não gostava muito de mim, o meu tipo, meio surfwear, meio garotão. Nem sei se sou assim hoje, mas na época era. Ela sempre foi bem mais séria, mais centrada e não gostava muito desse meu estilo. Mas ela conta que, em 2000, um belo dia, pensando na vida, lembrou-se de mim. A gente já tinha um relacionamento de amizade, ela pensou: “Por que não? Por que não o Eric?” Pensando em algumas pessoas e “Por que não o Eric?” (risos) A partir daquele momento ela começou a me olhar de outra forma. E eu conto pra ela que eu lembro perfeitamente desse dia porque ela sempre me olhava com um olhar… Nesse dia, a gente estava fazendo um luau na praia do Leme com os amigos, e o pessoal chegando. Eu lembro que quando cheguei, ela me olhou com um brilho no olhar bem maior e eu já estava gostando dela nessa época. Eu olhei e falei: “Pôxa, eu acho que tenho uma chance.”

A partir dali começou uma amizade bem mais íntima, bem mais próxima. Começamos a sair mais juntos, como amigos, até um dia que fiz algo diferente mesmo: eu a pedi em namoro. Levei-a um dia num restaurante que tem na Praia da Urca e convidamos uns amigos, vários amigos nossos iam estar lá nesse dia. Eu combinei com ela um pouco antes. A gente foi passeando um pouco na pista Claudio Coutinho, que é muito bonita. A gente começou a conversar, então perguntei se ela queria namorar comigo. Pra minha surpresa, ela aceitou e a gente começou a namorar.

Fomos pra Salvador cuidar da Igreja de lá. Nessa época eu já estava integral, já não trabalhava com Matemática, como professor, nada. A gente começou a namorar nessa ocasião e em seguida foi convidado pra cuidar dessa Igreja lá em Salvador. Ficamos lá durante um ano, voltamos de lá em 2002. Namoramos mais um ano e pouco, em 2003 noivamos e já com a previsão de casamento.

Algo que é diferente com a Raquel é que, antes de eu pedir pra namorar com ela, eu já pensava em me casar com ela. Eu olhava pra ela e imaginava: “Quero ter uma família e meus filhos com ela.” Não preciso nem dizer que os princípios pelos quais eu comecei a viver na Igreja - um deles, que eu valorizo muito hoje, é fidelidade, então sou muito fiel à minha esposa e tenho certeza que ela também é. A gente tem uma preocupação muito maior em agradar a Deus e, segundo a nossa fé, Deus está em todos os lugares em que estamos. Se hoje eu olho pra uma mulher de uma maneira diferente, eu acredito que eu estou desagradando a Deus, porque Ele tem um ideal muito maior pra mim. E, consequentemente, desagrado a minha esposa. Acho que nosso casamento se fundamenta muito nisso. Eu consigo confiar muito nela, por que? Porque eu acredito que ela também tem essa preocupação de primeiro agradar a Deus e tenho certeza que ela ama muito mais a Deus que a mim. Isso me dá muita segurança de que ela vai cuidar bem de mim. E eu me esforço pra fazer o mesmo, né?

 

P/2 – Uma das coisas que você falou que gosta de fazer é viajar. Eu estava vendo umas fotos que você trouxe e você trouxe muitas fotos de Penedo. Por que tantas fotos de Penedo? Que importância tem na sua vida?

 

R – A gente brinca que Penedo é o nosso cantinho. Quando eu estava pra me casar - e é muito especial isso, realmente, vou falar pra vocês, porque a religião hoje tem uma importância muito grande na nossa vida. Eu acredito que muitos dos nossos princípios, do meu casamento e tudo o mais, eu atribuo ao fato de eu ser hoje um cristão. E sem dúvida não tem a ver com uma religiosidade cega, eu gosto muito de enfatizar isso.

Vejo as coisas de uma maneira muito prática e isso tem tudo a ver porque a gente aprendeu muito no nosso namoro. Eu fui beijar a Raquel [pela] primeira vez na Igreja e não tenho a menor vergonha de falar isso. A gente se respeitou muito durante o namoro e o noivado e isso é muito precioso pra mim, porque a gente consegue praticar um romantismo que hoje não existe.

Quando a gente estava pra se casar, eu lembro que a levei na Expo Noivas no Riocentro e a gente estava rodando por lá, sonhando com algumas coisas no nosso casamento, como seria. Eu estava planejando levá-la pra um lugar surpresa pra nossa lua-de-mel e estava sondando, pra que não desfizesse a surpresa. E perguntando a ela sobre Ilha Grande - eu adoro praia, Ilha Grande tem tudo a ver, um lugar meio… Aquele filme que passou, meio... Um filme antigo que tem que um casal que mora numa ilha deserta, esqueci o nome agora... E eu idealizando isso: “Vou levar minha esposa pra lá, a gente vai ficar numa...” Ilha Grande tem esse problema, alguns lugares não têm luz, mas pra mim isso não é o menor problema. Eu falei: “Pôxa, eu vou uma vez na vida, uma semana, tudo bem.” Quando eu mencionei pra ela: “Querida, eu estava pensando em te levar para um local chamado Ilha Grande.” Ela: “Ilha Grande, ah tá.” “Só que eu estou vendo umas pousadas que nem luz tem”. Ela: “Não, que absurdo isso.” Expressou logo repúdio total. Então, estaca zero de novo: “Isso não vai agradar nem um pouco, acho que não foi uma boa ideia.”

E a gente na Expo Noivas: tinha uns estandes, uns caras distribuindo panfletos, divulgando os lugares, e eles entregaram pra gente uma pousada chamada Teto Doce, em Penedo. Quando eu vi a pousada e tudo o mais... Pra quem tinha pouca grana, que era o nosso caso, [era] uma pousada que oferecia pacote completo. E já tinham falado bem de Penedo. Lembro que eu falei: “Pôxa!” Ela ficou super interessada, achou demais o lugar, fotos da pousada. Eu guardei aquele panfleto, não falei mais nada. Acho que ela acabou desconfiando que a gente fosse mesmo pra lá. E a gente foi, o ambiente [foi] muito agradável, as pessoas são muito servas, os funcionários da pousada, o cara que é dono da pousada [foi] muito agradável, então ficou marcado pra gente. A cidade é muito romântica, muito gostosa e aconchegante. E a cada aniversário de casamento - estamos no quinto aniversário - temos que voltar em Penedo e passar uns dias lá, nem que seja um final de semana. A Raquel adora, a gente não enjoa nem um pouco. Na verdade, não são muitas vezes também, uma vez ao ano que a gente costuma ir, mas sempre nesse período, que acaba coincidindo com o período de alta temporada lá. Tá frio, é bom pra namorar. (risos) A gente elegeu Penedo como nosso cantinho, mesmo.

 

P/2 – Eric, a gente está chegando ao fim da entrevista. Tem alguma coisa que a gente não perguntou que você queria falar?

 

R – Não. Acho que vocês perguntaram tudo. (risos)

 

P/2 – Eu queria que você dissesse o que achou de ter participado da entrevista.

 

R – Ah, agradecer muito a vocês pela oportunidade de falar. Eu gostei, eu não sei se fiquei à vontade, mas me esforcei pra ficar. Na minha avaliação, eu fiquei.

Acho bem legal esse trabalho que vocês têm feito. Eu, particularmente, vi lá no dia, na reunião que eu participei, muitas das experiências de vida que as pessoas passam, e acho que é um dos objetivos de vocês ajudarem outras pessoas com essas experiências. Eu me esforcei pra falar de coisas bem íntimas que eu acho que pode ajudar muitas outras pessoas, também, a se exporem. Eu busco ser uma pessoa bem aberta com minha vida e falar sem constrangimento das coisas que eu vivo, tanto boas - é muito fácil falarmos as coisas boas que fazemos -,  quanto falar também dos fracassos e das dificuldades. E é isso, eu acho interessante o trabalho de vocês e parabenizo.

 

P/2 – Só mais uma última pergunta. Antes dessa iniciativa, você já conhecia o Museu da Pessoa?

 

R – Não. Fui conhecer lá no Nave.

 

P/2 – Então queria agradecer a sua participação.

 

P/1 – Muito obrigada.

 

R – Falou.

 

P/1 – Foi ótimo.


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