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História

Educação não se faz de cima para baixo

História de: Denise Aguiar Alvarez Valente
Autor: Ana Paula
Publicado em: 18/06/2021

Sinopse

Denise fala de sua infância em São Paulo, da experiência de morar em Nova York e cursar um mestrado na NYU nos anos 1980. Opina sobre educação e sobre seus sonhos para os jovens do país. Ela conta, também, de sua atuação à frente da Fundação Bradesco, e das mudanças incorporadas a partir de sua gestão. ---- Fim da entrevista---

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História completa

Projeto Fundação Bradesco Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Denise Aguiar Alvarez Valente Entrevistada por Cláudia Fonseca e Damaris do Carmo Osasco, 1º de fevereiro de 2006 Código: FB_HV043 Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha Revisado por Alice Silva Lampert P/1 – Denise, para começar a entrevista, me fala o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R – Meu nome é Denise Aguiar Alvarez Valente. Nasci em 24 de janeiro de 1958 em São Paulo. O que mais? P/1 – E é aquariana então? R – Aquariana, ascendente em Áries, mandona. P/1 – E o nome dos seus pais, Denise? R – Meu pai se chamava João Alvarez, era espanhol. Minha mãe é viva, se chama Nina Maria Aguiar. Tenho quatro… três filhos. Não sei porque tenho mania de falar que tenho quatro filhos, ultimamente. P/1 – ________ R – Não, eu tinha, perdi. Eu tenho mania de falar, falei isso num discurso, você acredita? Putz, tive ________________ lá. Tenho três filhos. P/1 – Meninos, meninas? R – Duas, a mais velha chama Luiza, vai fazer 15 anos no mês que vem, é uma verdadeira noiva, está me enlouquecendo. Eu tenho um menino de 11 e uma de 7, que vai fazer 8 na semana que vem. As datas todas, eu tenho uma ligação muito grande com o meu avô, é engraçado isso. Eu sou a neta mais velha e sempre fui assim, eu sempre tive muita ligação com ele, muita empatia. Eu sou muito parecida com ele em pensamento, em tudo, sempre conversei muito com ele, e é incrível como as datas minhas têm a ver com ele. Ele morreu no dia do meu aniversário, não sei se vocês sabem. P/2 – Eu não, talvez o pessoal da pesquisa saiba. R – Então, você imagina que todo aniversário tem uma missa. Eu faço aniversário em janeiro. Se eu ficar aqui em janeiro, eu tenho que ir numa missa da morte do meu avô. Então é uma coisa estranha para mim, entendeu? Eu tenho filhos que querem comemorar o aniversário e eu falo: “Nós temos que ir numa missa”. Eles não entendem, são pequenos ainda. A última vez que nós fomos, os meus filhos queriam ver o meu avô, _____________. Ah, meu Deus, é um mico. A minha filha mais velha, graças a Deus que não nasceu no aniversário do banco, por um dia. Meu avô morreu no dia do meu aniversário, e eu estava grávida. Quase que ela nasceu no dia 10 de março, ela nasceu dia 11. A minha última, que era pra nascer só em março, quase que nasceu no aniversário dela, nasceu 13 de fevereiro, quase que nasce 11 de fevereiro. Então isso tem uma ligação. Até com as datas, tem a ver com ele. P/1 – A sua mãe está com que idade? R – 65 ou 66, é nova. P/1 – Vai fazer 66 em junho. R – _______________ P/1 – O que ela faz assim, qual a atividade dela? É tranquila? R – É tranquila, fica muito em casa, gosta muito de arte, tem um verdadeiro museu em casa. Tem tanto quadro na casa dela. É muito legal assim, sabe? Ela acha normal porque ela não sai, não viaja muito, não sai muito. É uma pessoa mais caseira. É uma coisa legal. Eu levo as minhas amigas em casa às vezes. Eu levei uma amiga minha outro dia, ela ficou uma semana mandando e-mail, falando para mim: “Meu Deus, o que é aquilo? Eu não estava preparada”. Porque para minha mãe é muito normal. Ela compra um Portinari e acha legal. Eu falo: “Mãe, não conta para as pessoas, fica quieta”. Aí eu levo uma amiga minha em casa, ela fala: “Eu vou te mostrar esse quadro”. ______ o quê que é isso? Ela tem uns oito Guignard, uns cinco ou oito Portinari, nem sei quantos. Ela tem tanto quadro que é um em cima do outro assim. É uma verdadeira mini pinacoteca, uma coisa absurda. Aquelas estatuinhas, como é que chama? (Chipários?), (chiparrilhos?), sei lá. Tem uns 12, nem sei. É maravilhoso. As mulherzinhas, uns 20 de marfim com ferro, maravilhosos, né? P/1 – Deixa ela fazer o que ela curte, né? R – Pelo menos ela gasta numa coisa... P/1 – Isso é que é mais legal. E você estava dizendo que você é a neta mais velha. Quantos netos são? R – 13. P/1 – 13 netos? R – Tem de todas as idades, começando por mim que tenho 48. A última agora deve ter, sei lá, uns sete ou oito anos. P/1 – E todo mundo se dá bem? R - Nos damos. Quando o meu avô era vivo, era uma coisa mais unida porque ele era uma pessoa que centralizava, era um pólo centralizador. A gente morava todo mundo na mesma rua. Ele morava numa casa, a minha mãe sempre morou ao lado dele. A outra filha morava no quarteirão de cima, e a outra filha morava num bairro do lado, e sempre todo mundo passava na casa dele no fim da tarde. Então todo mundo se via. Depois que ele morreu cada um viu que não se passou mais, não viu mais. Então a minha família, a minha mãe, a gente se vê mais. Ela gosta muito de cavalo, ela mora num haras. Então é uma coisa que a gente não se vê quase, entendeu? P/1 – Festas, assim, deve ser divertidíssimo. Uma família grande, natal por exemplo. R – Ah, sim. Natal era... P/1 – Era tudo na casa do seu avô? R – Sempre, ou no meu avô ou na minha mãe, e ela adorava. P/1 – Que lembranças você tem, uma que tenha te marcado, uma experiência de convivência familiar? R – Tem muita. Ele era uma pessoa... P/1 – Não especificamente com o seu avô. Eu digo assim, com a família. R – Era sempre com ele. P/1 – Sempre com ele? R – Era sempre com ele. P/1 – Graças a essa tua ligação? R – Não, porque minha mãe morou a vida inteira do lado dele. Assim, tinha um muro mas tinha uma porta, entendeu? Sempre nós moramos do lado do meu avô. Eu nunca fui pra escola sem dar tchau pra ele. Eu nunca dormi um dia sem ver ele, sem falar com ele, nunca. Não existia isso. É uma coisa... P/1 – Mas isso é uma coisa que... R – É muito legal. P/1 – Você mostra isso. R – É uma coisa assim, fazia parte assim da rotina, entendeu? Eu nunca fui pra escola nem pra faculdade sem dar tchau pra ele de manhã. As pessoas têm uma ideia dele que não é a verdadeira. Eu fui aprendendo isso depois que eu vim trabalhar aqui no banco, porque a ideia que eu tenho dele não é a mesma que todo mundo faz aqui. É engraçado porque todo mundo depois começava a me perguntar e eu não sabia qual era a ideia que todo mundo tinha, porque a ideia que eu tenho dele é do meu avô. Essa ideia que as pessoas têm, é de uma pessoa mais rígida. Ele é uma pessoa totalmente diferente do que todo mundo imagina. Ele era extremamente brincalhão, muito à vontade, uma pessoa extremamente aberta. Ele tinha ideias muito avançadas, hoje eu tenho amigas que não têm ideias que ele tinha. Olha, eu com 20 anos fui morar sozinha. Por quê? Porque ele falava que toda mulher tem que morar sozinha. Imagina isso. Ele falava assim: “Toda mulher tem que morar sozinha porque a mulher, na sociedade brasileira, é muito discriminada. Então vocês têm que morar todas sozinhas para aprender a fazer tudo para nenhum homem passar a perna em vocês”. Então fazia 18 anos, ia para o apartamento morar sozinha, imagine. Hoje em dia quase todas as minhas amigas acham isso um absurdo, _____ morar sozinha. Imagine esse homem com 80 anos falando isso. P/1 – Isso, de certa forma, tem influência no teu modo de agir? R - Ah, sim, muito. Nossa, total. Eu sou assim, entendeu? Eu me pego falando isso toda hora. Outro dia eu falei, falei: “Gente, se eu tiver um filho, se o meu filho homem com 22 estiver morando em casa, vocês me internam”. É porque eles estão saindo de casa mais tarde atualmente. Então, pelo amor de Deus, hoje estão saindo mais tarde. “Vou expulsá-lo”. “Mas como que você vai fazer isso?” Eu falei: “Já estou falando desde agora, vai morar sozinho”. Desde os dez anos de idade, _______ tem que morar sozinho, já vou falando isso na cabeça. Agora, _________ está ótimo. P/1 – Eu queria voltar um pouco, dentre as várias lembranças do teu avô, tem uma que você acha que é a mais marcante? Eu te perguntando isso, qual é a que te vem à cabeça? R – Eu acho que eram as conversas, eram muito legais. P/1 – Como é que eram? Sentavam na sala? R - Sempre ele de pijama. Ele chegava do banco, tomava lanche. Ele não jantava, tomava um lanche, subia, punha o pijama. Ele se vestia muito bem, sabe assim? Todo mundo achava que ele era meio jecão. Mas ele era extremamente alinhado, ele tinha um alfaiate, as roupas dele eram “alinhadézimas”. O pijama dele parecia que tinha vindo... tinha um cara só pra passar o pijama. Juro por Deus, tinha um homem que ia lá todo sábado pra passar a roupa dele, o senhor Alfredo. Ele punha um pijama impecável, do mesmo tecido que faz camisa. Para mim é normal, eu acho aquilo maravilhoso. Para mim aquilo era normal, mas hoje eu vejo que não era. Então ele punha aquele pijama... Ele dormia na biblioteca, que ele adorava ler. Então era muito legal assim. Qualquer coisa que você queria conversar com ele, você entrava no quarto e conversava e ficava horas se quisesse conversar, qualquer problema que você... Até problema de namorado, você entrava lá e conversava numa boa. Era muito gostoso isso. Ele dormia na biblioteca, você entrava na biblioteca. E era muito gostoso, essas conversas eu acho que era a melhor coisa. P/1 – Você conversou mesmo sobre vários assuntos? R – De tudo, conversava de tudo. P/1 – Que bacana. R – Eu acho que isso era um... P/2 – Você contou que ele falava da mulher discriminada, que tem que fazer e trabalhar. Ele incentivava também que as mulheres trabalhassem? R – Ah, sim. P/2 – Ele tinha na cabeça essa coisa de vocês irem pro banco e de repente... R – Não. P/2 – Não? O que ele queria para vocês? Não era pra vocês, ele, assim, pra você, então, você acha que a gente pode tratar assim pra você? R – É, porque ele entendia que cada um era diferente do outro, entendeu? Por exemplo, as minhas primas, minhas irmãs, minha irmã são muito diferentes de mim. É visível isso. P/1 – Então pra você, o quê que ___________ R – Nunca ele falou para mim, de trabalhar, nunca. P/1 – Sim, mas o que ele pensava, o que você acha? R – Eu acho que depois de uma certa época... Eu também nunca pensei em trabalhar no banco, nem na fundação, nem nada, pra falar a verdade. Eu sempre quis trabalhar, e eu sempre me interessei em saber como o ser humano pensa. Sempre quis estudar e sempre me interessei por isso. Então depois que eu estudei, eu entrei em Ciências Sociais, minha filha. Eu fui fazer o vestibular, não sabia nem o que escolher. Eu peguei aquele livrinho da PUC [Pontifícia Universidade Católica] e falei: “O que eu vou escolher?”. Eu entrei em Ciências Sociais. “Ah, sei lá, vou pôr isso aqui”. Entrei. Eu odiei aquilo. Eu entrei em Ciências Sociais no ano de 1977, no ano da invasão da PUC. P/1 – Nós temos a mesma idade. Você entrou na década de 1970, né? R – Em 1977, no ano da invasão da PUC, eu estava em Ciências Sociais, você imagine, vindo de um colégio de freira. Eu estudei a vida inteira no mesmo colégio de freira, só de mulheres. Eu morria de medo, vocês não têm ideia. Aí eu falei: “Eu vou mudar isso aqui”. Pra mim era um horror aquilo. P/1 – Você chegou a ter alguma aula, alguma coisa assim? R – Muitas. P/1 – Muitas? R – Mas era uma coisa tão repressora aquilo, eram horríveis aquelas aulas, eu odiava aquilo. Hoje eu tenho vontade de ir lá e falar pro (Ronca?), que é o Reitor, falar que aquilo era um absurdo. Sabe como era a aula? Nunca vou esquecer daquela aula. Chegava aquela desgraçada daquela professora, a classe tinha 90 alunos. Imagina eu numa classe de 90, a vida inteira em classe de 20, 25. Bom, 90 alunos. Essa louca chegava lá e falava assim, pegava a lista: “Fulano de tal”. Eu falava: “Meu Deus, se ela me chamar eu vou ________”. Aí fulano levantava. Aí ela olhava assim: “Fulano de tal”, o outro levantava. “Você, discute sob o ponto de vista de Durkheim e você discute sob o ponto de vista de Rousseau sobre tal coisa”. Nossa, gente, vocês não têm noção. Eu sofria. Eu começava a chorar. “Não é possível isso que está acontecendo aqui”. E todo mundo ficava assim. Aí eu falei: “Eu não vou ficar quieta”. Aí depois, _____, eu comecei a perguntar pra um e pra outro, e todo mundo estava odiando. Então não era só eu. Depois eu comecei a descobrir que quem ela chamava, essa desgraçada, era o aluno repetente. Ela já sabia quem era, né? Então é muita tortura, você concorda? O primeiro texto que ela deu pra ler foi em espanhol. Graças a Deus o meu pai era vivo, ele traduziu umas palavrinhas lá que eu não sabia e pronto. Mas eu lia, eu falava: “Mas o que será que quer dizer?”. Eu não entendia o que queria dizer, de tão difícil que era. Eu falei: “Eu não vou sobreviver aqui. O quê que eu estou fazendo aqui?”. Aí encontrei uma amiga minha que tinha estudado comigo no colégio: “Ah, venha assistir, é muito legal esse curso e tal”. Aí eu fui assistir umas duas aulas, adorei, falei: “Eu vou mudar pra isso aqui”. Mudei pra Pedagogia. Aí fiquei e gostei. Eu sempre me interessei em saber como o ser humano pensa. Eu entrei pra Pedagogia e gostei. Depois eu falei, ah, mas eu sempre quis morar também nos Estados Unidos. Aí fui morar nos Estados Unidos. Mas eu gosto muito de estudar. Eu queria fazer... Eu fui morar nos Estados Unidos porque eu queria aprender inglês, porque eu estudei em uma escola francesa. Então foi o contrário, entendeu? Tudo pra mim eu acho que foi muito difícil assim, sabe? P/1 – Vamos só, antes que você continue, então vamos tentar recuperar alguma coisa, só pra gente poder organizar. A tua infância foi uma infância normal, de uma menina normal, brincando. Do que você gostava mais de brincar? R – De boneca. P/1 – Tinha aquelas coisas da casinha? R – Não, por isso que eu tenho uma casinha de bonecas lá em casa, das minhas filhas. Eu também quis depois que eu cresci. P/1 – Interessante, ficou com esse desejo? R – Fiquei, eu adoro casinha de boneca. P/1 – Denise, eu conto isso pras pessoas, as pessoas dizem que eu sou louca. _________. R – A casinha de boneca das minhas filhas é linda. P/1 – É, porque eu também não tive. P/2 – ___________ R – Claro, cabe um adulto, porque a gente tem que ficar junto, né? Adoro brincar de casinha, adorava brincar de casinha, de boneca e de professora. P/1 – De professora? R – Brincava. P/1 – Você falou que você tem uma irmã. Você tem mais irmãos? R - Tenho mais dois. Tenho um temporão, que tem 15 anos de diferença de mim, eu sou “irmãe” dele. E tenho dois, um homem que trabalha aqui no banco também, e a minha irmã. P/1 – E vocês brincavam juntos? Esse cotidiano da sua casa, como é que era? R – De criança mesmo, né? P/1 – De criança, acordava, ia pra escola... R – Eu sempre fui tranquila, eu nunca briguei com eles, sabe? Eles dois brigavam muito, mas eu nunca briguei com eles. Eu sou a mais velha, então eu achava um inferno aquelas brigas deles, mas eu nunca briguei com eles. P/1 – E era normal, acordava e ia pra escola? R – Eu acordava, ia pra escola. Você acredita que o motorista que levava a gente pra escola trabalha comigo hoje? P/1 – Olha, que beleza. R – Trabalho, sei lá, ________. A gente levantava, pegava eu, o João e a Clarisse, meus irmãos. Então a gente passava na casa da minha tia, a irmã da minha mãe, pegava os três de lá, levava todo mundo. Eu estudava no Assunção, colégio de freiras. Deixava a gente lá e depois deixava os outros nas outras escolas. O meu irmão estudava no (Santo Alegre?) desde menino. P/1 – Aí voltava, fazia a lição? R – Voltava, fazia a lição em casa. P/1 – O pai e a mãe pegavam no pé, na lição, ou não precisava? R – Não, nunca. P/1 – Porque você gostava de estudar, né? R – Nunca a minha mãe... O meu pai, acho, nem sabia que série eu estava. Nunca pegou no pé pra fazer lição também. P/1 – E da escola, as lembranças que você tem, marcantes? Que matérias você gostava mais, por exemplo? R – Olha, eu estudei em colégio de freira. Eu sempre estudei na mesma escola. Então eu não sei muito, sabe assim? Pra mim era bom, eu não sei como que era outra coisa. Eu tinha medo, acho que até o colegial eu tinha medo. Eu sempre fui muito medrosa. Sou muito obediente. Era, né, não sei se agora eu sou. Mas sou muito obediente, sempre fui muito obediente. Hoje eu sou assim, eu reconheço. P/1 – Mas o colégio de freira faz isso com a gente, você não acha que é um pouco dentro dessa lógica? R – Não, eu não era como as outras meninas. P/1 – Não? R – Não, sabe porquê? Eu me lembro, eu estava no ginásio, a freira um dia me chamou porque eu era das mais altas. Ficava atrás, aquelas baderneiras. Ela me chamou. Eu era amiga das baderneiras. Ela me chamou um dia, falou: “Olha, eu vou mudar você de classe, que a outra série está muito bagunçada. Eu preciso que você acalme a outra classe, que tal?”. Gente, sabe com quem eu estudei? Você não vai acreditar. Tereza Fittipaldi, que tal, Mônica Montoro, essa, não sei se vocês conhecem, a Lucila Diniz. Puts, ninguém aguenta ela, não dá, entendeu? A classe, você não tem noção, estava de ponta cabeça. Era mesmo da pá virada. A irmã de Tutinha da Jovem Pan, que se chamava Maria Helena, hoje ela me fala que se chama Nina. Eu falo: “Mudou de nome?” “Eu não me chamo Maria Helena, me chamo Nina”. Tudo bem, sabe? P/1 – Mas tinha uma matéria que você gostava mais, ou não? R – Ah, eu sempre gostei de geografia. Eu sempre fui muito boa em matemática, odeio português. P/1 – E história? R – Eu gosto também. P/1 – Que bom. E aí você estava contando. Mas antes da gente entrar, que você foi estudar, aí tem a questão da adolescência. Também foi normal ________? R - Olha, meu pai, não, meu pai era “bravézimo”. P/1 – É mesmo? R – Nunca saí pra lugar nenhum. P/1 – Um avô tão para frente. R – Para frente, sim, para frente. Mas pergunta se ele me deixava sair. Não tinha nem um mais velho do que eu. Eu sou a mais velha de todos os netos. Não tinha nem um primo mais velho. P/1 – Isso é um peso, né? R – Isso é um saco, não é um peso. Eu escuto o meu marido, o pessoal aqui agora: “Não, a gente ia em tal lugar, você não ia?”. Eu falo: “Não.” “Ai que mentirosa”. Eu falei: “Está bom.” Ainda tenho que pagar o mico de ser uma mentirosa. Eu não sou mentirosa, não fui pra lugar nenhum. Meu pai não deixava. P/1 – Mas nem em festa em casa ele não deixava fazer? R – Não, porque quem que ia me buscar? P/1 – Para você sair. Mas você não usou esse artifício de repente: “Não, mas eu trago os amigos aqui, nós fazemos uma festa aqui.” Não? R – Ah, depois sabe, essa coisa de eu ser boazinha, entendeu? Mas sabe que eu não me arrependo? Pensa bem: a experiência de morar sozinha não foi ótima? P/1 – Foi ótima. P/2 – ____ pequeno. R – Isso é uma bobagem. Pensa bem, era colegial. Depois eu fui morar sozinha, foi ótimo. De todas as minhas amigas, eu fui a única que morou sozinha. P/1 – _______ já estava na faculdade quando você foi morar sozinha? R – Já estava na faculdade, fui morar sozinha, fui morar nos Estados Unidos. P/1 – Ah, você foi direto para os Estados Unidos? R – Não, eu morei dez anos sozinha. Eu morei sozinha aqui. P/1 – É mesmo? R – Depois que estava morando sozinha aqui um tempo, depois que eu fiz a faculdade que eu fui morar nos Estados Unidos. P/1 – Então aí você foi fazer Pedagogia, depois, você se formou? R – Me formei em Pedagogia, depois é que eu fui pros Estados Unidos. P/1 – Tá. Nesse período que você estava morando sozinha você trabalhava ou só estudava? R – Só estudava. P/1 – Você se virava bem assim? R – Muito. Eu sei fazer de tudo. Ninguém acredita, mas eu sei fazer absolutamente tudo. P/1 – E é interessante porque você diz que até o colegial você tinha medo, de repente, logo depois já vai morar sozinha, pouco tempo depois já... R – Então, entendeu? P/1 – Que bacana. R – Não sei o que deu. É uma coisa louca. P/1 – Então, e aí o seu pai ainda era vivo quando você tinha 21 anos? R – Então, isso que eu acho louco, entendeu? Parece que você faz aniversário de 21 anos e tudo muda. P/2 – Tudo pode. R – É. Não era louco isso? P/2 – O incentivo também para morar sozinha, desde a infância, né, com o avô? P/1 – É, mas de certa forma é um __________ R – __________ eu acho isso louco, entendeu? Mas vai entender, vai ver que na Espanha é assim, sei lá. P/1 – E então, apesar dele ser bravo, vocês tinham um bom relacionamento? R – Ah, tinha. Meu pai era uma pessoa difícil. Depois meus pais se separaram, entendeu? Se separaram e foi morar na esquina _________ morava na esquina. P/1 – E lá nos Estados Unidos, como é que foi? R – Eu amava os Estados Unidos. P/1 – Onde você morou? R – Em Nova York. Eu não ia morar numa cidade do interior, certo? Morava sozinha aqui, eu não ia sair daqui e morar em uma cidade menor. Vou morar em Nova York. Eu amava. Eu amei do primeiro dia ao último. P/1 – Você foi também sozinha ________ R – Eu fui assim: o banco ia abrir uma agência lá. Então primeiro abriu um escritório. Aí eu fiquei _____ , fiquei sabendo. Eu falei: “Pô.” Aí você sabe, aquelas loucuras dele: “Ah, por que você não vai também?”Eu falei: “Como eu vou? Você é doido?” “Não, vai uma moça, você vai com ela”. Eu falei: “Mas pera, não é assim que se faz. Depois, ela não quer que eu vá com ela.” “Não, espera, eu vou chamar ela”, você sabe, essas coisas. Teve uma época... Hoje eu sou amiga da família inteira, até hoje. Aí eu fui, fiquei morando com ela. Foi difícil esse relacionamento com ela porque ela não conseguia separar, sabe? Aliás, ela também teve essa coisa, muito difícil. P/1 – Porque até o seu avô ligar pra ela e falar que você vai junto, tudo bem. P/2 – Se ela era funcionária do banco... R – Espera, ela ganhou um apartamento. Ela era uma funcionária, só podiam ir quatro funcionários brasileiros. Todos tinham um teto de aluguel. O teto dela era maior porque eu ia ter um quarto só para mim. Tudo super dividido. E eu, modéstia a parte, eu sou uma pessoa muito bacana de morar, eu não interfiro em nada, não tenho ____, sabe? Mas ela não conseguia, sabe, era difícil. Mas sou amiga dela até hoje. P/1 – Mas como assim? R – Dela e da família, a vida inteira. P/1 – Conta só uma situação pra gente entender. O quê é uma coisa difícil? O sanduíche na geladeira com o seu nome, como é que era? R – Pegava um táxi e dividia em três porque depois ela chamou a irmã dela para morar com ela, que eu sou muito amiga da irmã dela. A irmã dela foi minha amiga desde o primeiro momento. Mas imagina você dividir um táxi, 2 dólares e 28, em três. Aí pegava, olhava pra mim e falava: “Porra, que saco”, _____________. Eu falo: “Quanto que é?”. E todo mundo pedia dinheiro emprestado para ela, porque eu não tinha para pagar tanta coisa. Que o meu avô me dava um dinheiro por mês, ele me dava dois mil dólares por mês, e eu tinha que pagar a escola. Agora eu não lembro direito, mas era assim, 600 dólares a escola, 500 dólares a aula particular. Aí eu pagava uma parte da água, luz, telefone, sabe? Não sobrava quase nada. E ela adorava jantar fora, e eu me sentia na obrigação de ir, e como é que eu não iria. Ia ficar chato, eu não queria ir, você entendeu? Só que ela ganhava hiper bem. Eu não ganhava tão bem. P/1 – Recebia a mesada? R – Ela ganhava hiper bem no banco, e ela só queria ir em restaurante bacana, ir num balé, num teatro, cinema, em tudo quanto é lugar, saía toda noite. Tinha mês que eu falava: “Eu...”. Não tinha cartão de crédito naquela época. Eu vivia pedindo dinheiro emprestado para ela mesmo. P/1 – Então, se para ela era difícil, pra você era tranquilo, era normal? R – Para mim era. P/1 – Eu queria __________________________ brincadeira hoje pra gente estar esperando por Denise e Denise chegar num outro lugar e falar: “Ué, eu sou funcionária do banco”. Você sempre viu dessa forma? R – Não sei. P/1 – Você nunca foi a “neta do senhor Amador”? R – Eu não. P/1 – Assim, em termos de banco. Claro que ser neta do seu avô deve ser um motivo de muito orgulho e eu acho que é perfeitamente natural, mas assim em termos de trabalho não. R – Não. P/1 – É, porque você não passa mesmo. R – Nunca. É engraçado isso, mas nunca. P/1 – Você conviveu tão bem com ela, essa coisa de pedir dinheiro ______ R – Olha, muito bem, mas foi muito difícil. A irmã dela mora na Suécia hoje porque casou com um sueco, imagine. Ela veio agora em dezembro e ficou na minha casa na praia, ficaram lá ela, o marido e os filhos todos. Ela é super minha amiga. Eu sou amiga dela, dos irmãos, da mãe, que moram todos no Mato Grosso, todos amigos de todos. A família me telefona e tudo. E ela é uma coisa, eu não sei o que acontece. Hoje o que aconteceu? Depois de um tempo ela não, porque ela trabalhava no banco, no turismo. Tinha uma coisa de turismo aqui no banco. Aí o banco resolveu não ter mais turismo lá em Nova York. Aí ela teria que sair do banco, ela teria que voltar de Nova York. Ela não quis voltar. Tudo bem, ela quis ficar lá. Aí a situação se inverteu, eu virei pra ela e falei: “Tudo bem, você vem morar comigo”. Mas mesmo assim ela quase ficou louca. Eu vi a transformação dela. Eu acho que só eu presenciei isso, de todo mundo, porque ela era uma pessoa que gostava de tudo bacana, e de repente ela ficou zen. Eu juro por Deus, ao pé da letra. Sabe aonde que ela foi? Para um mosteiro. Os amigos dela ligavam, eu falava: “Ela está num mosteiro”. Ninguém acreditava. “Eu juro por Deus, ela está num mosteiro.” “Mas que mosteiro?” “Tem um mosteiro aqui na Pensilvânia, sei lá aonde. Ela foi para um mosteiro, acorda às três horas da manhã, quatro horas da manhã, sei lá para que, vida de mosteiro.” Ficou lá um mês, dois meses. Mudou da água para o vinho. E tudo, tudo aquilo que ________ mudou. Ela está zen, usa calça jeans e All Star, ela está outra. Porque eu só andava assim, e ela andava mais bacana, _____ tudo. Ela ficou meia fuleira, e todo mundo: “Mas como?”. Eu falei: “Ah, ela agora não usa mais meia de seda, agora só calça jeans, só All Star furado. Ninguém acreditava, era uma loucura. Mas mesmo assim, mesmo ela morando comigo, eu falava pra ela: “Olha, você não precisa pagar nada. Pode morar aqui, tudo bem. Não tem essa bobagem”. Ela não conseguia, não sei o que aconteceu, menina. É difícil a pessoa conseguir separar isso? Quer dizer, eu não sei porque é tão difícil, mas assim... E a irmã dela numa boa, sabe? Quando ela tirava férias e vinha pro Brasil e ficava só eu e a irmã dela, aí não dividia nada. Eu falava: “Lu, ela vai ficar louca”. “Ah, nada. Vamos fazer assim, um dia você paga uma coisa, outro dia eu pago”. Então ela ficava _____: "Depois a gente fala que dividiu”. Eu falei: “Ela vai matar nós”. P/1 – E lá você fez mestrado? R – Em ________. P/1 – E como é que foi? R – Eu fui para lá para aprender inglês. Eu encanei que eu tinha que aprender inglês. Eu estudei numa escola que aprendia francês, fiz vestibular em francês, tudo em francês. Aí era muito difícil aprender inglês, sabe? Muito difícil. Aí eu fiz o curso de inglês, mas eu queria continuar morando lá, porque eu fiz o curso inteiro, acabou o curso mas ______ “Eu ainda quero ficar mais aqui, eu tenho que fazer um curso na minha área”. Mas ao mesmo tempo ela era muito minha amiga, sabe assim? Ela me dava muita força, ela era muito legal comigo. Ela falou: “Olha, vamos então, vamos à NYU, Universidade de Nova York, vamos lá ver o que você pode fazer”. Aí eu fui lá, conversamos, o cara falou: “Você já é formada. Você pode fazer cursos de pós-graduação. Ou você faz um mestrado. É melhor você fazer um mestrado, porque são os mesmos cursos, só que você fazendo um mestrado você tem que fazer tantos pontos, demora tanto tempo, você pode fazer ao longo de tanto tempo que você quiser, mas são os mesmos cursos”. Ela falou: “Não, você tem que fazer mestrado”. Eu falei: “Você está louca, eu nunca pensei em fazer mestrado, muito menos inglês”. Tá bom, preenchi o negócio de pé. Menina, quando chegou esse papel, que eu entrei, eu falei: “Eu não acredito que eu entrei”. Eu tinha certeza que eu não ia entrar naquilo. Aí o meu avô, imagina... Quando eu vi que eu entrei eu falei: “Eu não acredito que eu entrei, não é possível, agora vou ter que fazer, agora que eu tenho que fazer, esse que é o problema”, porque, como que eu vou fazer uma aula em inglês? _______ sabe, porque é difícil inglês, sabe? Sabe o que é? Não é que é difícil assim, eles são muito racistas por você não ser americano. Não é porque você é branco, ou colorido, ou preto, não, é porque você não é americana. É muito difícil no começo. Sabe criança quando vai pra escola no pré? É igual. Eu quase ia chorando pra escola, era muito difícil. Nossa, eu entregava um trabalho, eu pensava: “Será que o que eu fiz é o que ele pediu?”. Até isso eu pensava: “Será que eu fiz um trabalho do que o cara pediu? Será que eu respondi o que ele perguntou?”. Eu não sabia se o que eu estava fazendo estava certo. Mas um dia eu estava dentro da universidade, eu morava do lado, no Village. E estava indo lá uma brasileira, ela era bailarina, trabalhava _______ lá. Ela falou: “Ah, onde você está?”. “Eu falei: “Ah, eu estudo aí na NYU”. “Você faz mestrado”. A menina ficou maravilhada. Eu falei: “Não pense tudo isso, porque é um horror, ____”. Ela falou: “Não, olha, eu vou te falar uma coisa”, ela falou, “O ser humano se acostuma com tudo”. Eu falei: “Não, não é o meu caso”. Essa frase nunca saiu da minha cabeça. Sabe que o dia que eu terminei, eu estava gostando? Eu nunca me esqueci dessa moça. Eu falei: “Não é possível, será que um dia eu vou gostar disso?”, porque eu tinha medo igualzinho eu tinha na Puc, igualzinho eu tinha na Assunção, as freiras. É um eterno círculo, sabe, que não acaba? P/1 – Mas como é que era? As pessoas não falavam com você? Ninguém ligava pra você, você ficava lá num canto e... R – É. P/1 – Era como se _____ R – Era engraçado. Sabe como era? Olha, alguém devia fazer um estudo. Quando você chega na classe ninguém fala nada. Você pode não abrir a boca, quando você abre a boca, você está sentada... Olha, eu já observei isso. Toda classe que eu entrava, que eu fazia duas matérias só por semestre. Então, quando eu entrava na classe, logo no começo, você não sabia quem estava sentado do seu lado, se era... Porque nos Estados Unidos, em Nova York, tem gente de todo lugar do mundo. Você não sabe se é americano, não sabe de onde é. Olha, quando eu abria a boca você, sem saber, você sentava do lado da minoria. Quem estava sentado do seu lado ou era estrangeiro ou era negro, você acredita? Eles não conversam com você. Não é que conversam, eles não falam. Olha, tinha um desgraçado de um professor, que eu até escrevi para ele um dia. Eu entreguei um trabalho para ele, eu sabia que estava bem escrito e estava bem feito porque eu tinha essa professora, que me deu aula muito tempo de conversação, e ela tinha sido jornalista. Então todo trabalho, quando eu acabava, eu ia com ela, ela fazia uma revisão. Eu sabia que estava muito bem escrito. Eu entreguei o trabalho para esse homem, ele devolveu o trabalho escrevendo que eu tinha que ir no Writing Center, era um centro de escrita que tinha. Eu falei: “Ele vai ver só”. Eu peguei o trabalho, tive que mudar o primeiro parágrafo e escrever tudo igual. Esse desgraçado me deu uma nota maravilhosa. Ah, mas, no fim desse curso eles dão um papel pra você avaliar o professor. Mas acabei com ele, escrevi tudo, que ele era racista, escrevi do trabalho, escrevi tudo. Aí tinha um último dia, então era assim, era um curso que eu fiz no segundo semestre. Então em dezembro eles têm um período no natal que você tem um recesso. Eu vinha pro Brasil, natal, ano novo. Era dezembro e começo de janeiro. Aí ele falou: “Não, vocês têm que voltar em janeiro, tal dia”. E eu cheguei pra ele e falei: “Olha, eu tenho que vir neste dia ou não?”. “Não, você tem que vir”. Eu falei: “Olha, porque eu vou pro Brasil”. Tinha um ou outro estudante estrangeiro, e eles tinham que pedir um papel complicadíssimo lá. Ele falou: “Não, você tem que voltar”. Esse homem me fez vir do Brasil até os Estados Unidos, você não sabe para que. Era um lanche na casa dele. Eu quase matei esse homem. Bom, eu cheguei dormindo. Você acredita? P/1 – Que mala, não? R – É desse tipo. É difícil, viu? Não é fácil. P/1 – Mas quando você faz um mestrado em educação, por exemplo, nos Estados Unidos, as matérias e tal, mas não é um pouco dentro da realidade deles? R – Não. Sabe que eu aprendi muito mais lá do que aqui? P/1 – Tudo bem, eu até entendo que Nova York é uma coisa meio de outro mundo, mas... R – Não, é muito mais prático, sabe? Não fica nesse monte de teoria, é muito mais prático. P/1 – Interessante isso. R – Você tem uma supervisora. Eu falei que eu queria uma coisa muito grande, eu não queria uma coisa focada. Então eu fiz de tudo, sabe? Até observar crianças na creche eu observei. Não é creche, é um espaço que tinha ali perto, que as mães iam com as crianças pequenas, de um ano ou dois, para brincar com essas crianças uma tarde inteira. Tudo, como o ensino via computador, tudo, tudo que você imagina, eu estudei. P/1 – A essa altura você já pensava em trabalhar na fundação? R – Não, nunca pensei em trabalhar aqui. Aí eu já estava tão animada que eu já queria fazer doutorado. Aí eu estava tão louca que eu já queria fazer doutorado na França, olha só que loucura. P/1 – Sempre nessa área de educação? R – É, sempre na área. Eu gosto de estudar. P/1 – Interessante, porque você descobriu isso assim, né? R – É. Daí eu queria fazer essa coisa de doutorado na França, eu já estava vendo tudo. Aí eu acabei o mestrado e vim para cá. E trabalhar lá eu não queria. P/1 – Aí você voltou. R – Aí eu voltei para cá. Daí o meu avô começou: “Você tem que trabalhar na fundação, você tem que trabalhar”. Ele me chamava, ______ me chamava: “Venha para almoçar”, e tinha que almoçar, e tinha esses ministros, esses homens aqui: “Ela vai trabalhar na fundação”. “Mas por que você fica falando isso?” “Não, essa é a minha neta, ela vai trabalhar na fundação”. Eu falei: “Para de falar desses negócios. Ninguém sabe se eu vou trabalhar aqui, ninguém me falou nada”. E falava isso para todo mundo, ele sempre me apresentava já para todo mundo falando essas coisas. Mas eu nunca pensei assim. Mas eu estava aqui num período em que eu meio que não sabia bem ainda para onde eu ia. Como eu estava meio que sem fazer nada, eu vinha aqui na escola um período. Eu fiquei uma época seis meses aqui, que eu estava em dúvida se eu continuava lá ou não. Eu não tinha terminado ainda o mestrado. P/1 – Na escola aqui ______ R – É. Eu fiquei seis meses, não era ainda como orientadora. Eu fiquei olhando ali e tal, uma xereta mesmo, porque eu estava sem fazer nada. Aí eu voltei pros Estados Unidos e acabei o mestrado. Depois, quando eu acabei mesmo e voltei pra cá eu falei pro meu avô que eu queria fazer alguma coisa na fundação. Mas como eu já tinha ficado aqueles seis meses, eu falei: “Olha, só que eu não quero ir à fundação sem ganhar nada porque as pessoas lá não vão me respeitar”. Ele falou: “Não, tudo bem, vê um cargo qualquer lá”. Me deu lá esse negócio de orientadora. Então eu fui orientadora na pré-escola aqui. P/1 – Mas vamos falar um pouquinho desses seis meses. Tudo bem, como observadora, mas você participava de alguma coisa? R – Não, ia, olhava, ia aqui. Ia mais no pré, sabe, que o pré era um ambiente muito legal, o pré era uma coisa que eu... A escola aqui é muito grande. E, assim, vou falar a verdade para você, no resto eu não me sentia à vontade e eu não gostava. Eu gostava de ir no pré porque era um ambiente muito legal, onde estava a Márcia. No resto eu não me sentia bem, entendeu? As pessoas me tratavam muito mal, então eu não ia, eu só ia no pré. P/1 – Márcia é Márcia de Aquino, que dividiu o armário, né? R – É. P/1 – Como é que foi essa história? P/2 – Não, aí ela tinha ______ R – Superbem. Sempre me tratou igual, desde o primeiro dia até hoje ela me trata, ela é ótima lá. Aí depois que eu fiquei esse tempo, que eu vim, depois eu falei com o meu avô e daí eu fiquei lá um ano. P/1 – Aí você foi como orientadora, então? R – Eu fazia de tudo, levava criança no laboratório machucada, até o gás um dia eu arrumei lá pros caras que não sabiam arrumar. Eu fazia tudo, ficava olhando as crianças no parque. Olha, tudo que você imagina eu fiz lá. P/1 – Mas aí as pessoas passaram a te tratar diferente? R – Mas aí eu ficava mais no pré. P/2 – Continuaste ficando no pré? R – Fiquei no pré, de vez em quando eu vinha na primeira série, que eu odiava, mas eu vinha. P/2 – Você odiava porque? R – Porque as pessoas me tratavam mal. P/1 – Não é o caso das crianças, né? R – Não era por causa das crianças, era por causa das pessoas. Era muito ruim. P/1 – Quem é essa neta ___________ R – Não, sabe o quê que é? Eu vou falar pra você, a fundação não era como é hoje. P/1 – Como era? R – Era uma ditadura. É verdade, era uma ditadura. Assim, o pré era diferente. Eu não sei se é porque era criança menor ou é porque era a Márcia, entendeu? Eu comecei a fazer um trabalho de observação. Eu fiz um questionário bem grande para saber como era o trabalho na primeira série e comparei com o trabalho de Campinas, onde a Ana Luiza era a diretora. Eu dei o questionário para as professoras. Primeiro fiquei uns dias olhando, observando as primeiras séries. Olha, até fiquei um dia numa classe de primeira série que eu não aguentei ficar a tarde toda, imagina as crianças. Eu não aguentei. A professora passou em uma menina, a menina tinha um cabelo comprido assim, estava arrumadinha: “Você com esse cabelo solto”. ___________ o que é isso? Eu fiquei quieta, né? Eu não podia fazer nada. Eu falei: “Eu não estou acreditando, que louca”. Você imagina, fazer isso. Aquilo era o fim do mundo, entendeu? “Esse cabelo”, e batia assim na cabeça. Eu falei: “Meu Deus do céu, o que é isso, onde eu estou?”. Nossa, para mim aquilo... Eu falei: “Essa mulher é louca”. E eu achava aquela professora a melhor professora. Nossa, eu não aguentei ficar nessa sala, sem brincadeira, eu fui embora. Eram 4:30, eu falei: “Eu não suporto ficar aqui, eu não suporto”. A menina, sabe aquelas meninas tímidas? Eu me senti num colégio de freiras, eu voltei ao eterno círculo. Eu falei: “Sou eu no colégio de freira”. Ainda bem que eu nunca tive cabelo comprido, né? P/1 – Bom, aí você resolveu ________ R – Daí eu fiz um questionário para as professoras. Eu queria fazer um pras professoras, para os pais. Nem consegui pros pais, né, porque as professoras... Era um questionário bem bolado, sabe assim? Eu não me lembro mais. Eu tenho comigo, mas eu não me lembro mais. P/1 – Você guardou? R – Eu guardei, nem sei _______. Eu não guardo nada, mas eu guardei. P/1 – Um outro negócio que eu queria perguntar. Como que você ensina, que método você usa? R – Olha, para conseguir de volta esses questionários dessas professoras foi um parto. Agora, o mais interessante foi como elas respondiam pra mim: “Escuta, você acha que eu tenho tempo de responder essas coisas?”. Eu contava até dez para não responder, que eu tinha a resposta na língua. Eu falei: “Escuta, com que moral você pede uma lição de casa se você não responde um questionário de meia dúzia de perguntas?”. Minha filha, ninguém respondia. Olha, só uma professora me respondeu no dia que eu pedi, as outras tinha que puxar delas. P/1 – Você resolveu comparar com Campinas. Por quê? _________ outras escolas? R – Não. Assim, porque eram escolas mais perto, eu tinha ido algumas vezes a Campinas, entendeu? P/1 – Até então você só tinha ido a Campinas, das escolas da fundação? R – É, porque era perto. Eu ia nas duas de vez em quando. Eu ficava mais em São Paulo, mais aqui no pré. Eu fui algumas vezes a Campinas, dei o mesmo questionário, respondi e depois fiz um trabalho. Aí depois - agora que eu estou lembrando - aí depois eu fiz um trabalho e entreguei pro meu avô e pro senhor João. P/1 – Pro senhor João (Carriera?). R – E ele não fez nada com isso, você acredita? P/1 – Não, como não? O seu avô é tão... R – Um trabalho bacana, você precisa ver. Eu achei, né? P/1 – Eles não fizeram nada? E aí, como é que você se sentiu? R – Aí, minha filha, me botaram nesse cargo. P/1 – De... R – De diretora de tudo, desse monte de escolas. P/1 – E você acha que eles não fizeram nada então? R – Não, não fizeram nada. P/2 – __________________ R – Não fizeram nada porque você não sabe como foi difícil mudar tudo isso, porque continua tudo igual. P/1 – Mas você aí estava numa posição que você podia mudar, ou não? R – Não, daí... Olha, sabe o que é? Educação é difícil, vou te falar. P/1 – Não, o teu avô eu já admirava. Um cara esperto, ele falou: “Então tá, se vira”. P/2 – Você está com essa visão. R - Então, tá. P/1 – Olha, que bacana, heim? R – Olha, a fundação não era o que vocês estão vendo hoje, há um tempo atrás. Era uma ditadura. P/1 – Então, mas meio que coube a você mudar? R – Ah, sim. Eu jamais trabalharia em um lugar como era antigamente. Para começar que quando eu cheguei, tinha um homem que tomava conta da fundação, que eu não suportava. Eu cheguei, e era assim: a fundação, o senhor João deve ter falado, tomava conta de outras coisas. Tomava conta de toda a parte da nutrição do banco de alimentação, tomava conta do treinamento dos funcionários, tomava conta dessa Pecplan, vaca, boi, não sei o que, e as escolas. Então, para cada um desses segmentos tinha um homem, um superintendente. Eu que só tinha estudado com mulher, até então, e só vivido com mulher, certo? Caí aqui, assim, nesse conselho que só tem homens, e só eu. Lá na fundação só tinha homem e eu, “essa menina” como eles falavam. P/2 – Isso em que ano? R – 1988. O homem que tomava conta da fundação era um horror. Eu fui descobrindo que eu não suportava ele. Ele não parava de falar. Ele não ouvia ninguém. Tinha uma diretora que chorava quando tinha que falar com ele. Como é que pode, na educação, uma diretora de escola chorar ao falar com uma pessoa? Eu não suportava ele. O primeiro feriado que teve, meu marido ____, eu pulava em cima da cama de felicidade, que eu não vinha aqui. Olha que louca. Era um martírio. Ele entrava na minha sala, ele ficava três horas falando sem parar. Eu não abria a boca, eu só ouvia. P/1 – Falando sobre o quê? Sobre o que vinha na cabeça dele? R – Ele idealizou uma fundação que era uma mentira, que é o que ele falava para o senhor João. Porque, o que eu fiz? Quando eu assumi esse cargo aqui, eu catei um avião aí e, minha filha, de cara assim já peguei e já fui. Deixa eu ver se eu lembro. Bodoquena, Cacoal, Manaus, Macapá, Conceição do Araguaia, já fui em tudo lá no Norte. Fiz o Norte todo, acabei em Canuanã. Eu fiz umas dez de uma vez só, com um avião bimotor. Atravessei a Selva Amazônica inteira. O pior _______ “___ pode ir filha, não tem problema nenhum”. ______ eu ia tão alto que... A selva inteira, foi a Selva Amazônica inteirinha. P/1 – O que você buscava nessas escolas? R – Eu precisava saber o que era essa Fundação Bradesco. P/1 – Foi pra fazer um diagnóstico mesmo? R – Sim, fiquei um, dois dias no mínimo em cada escola. Nos internatos fiquei uns quatro dias em cada escola. Filme, o marido filmando tudo. O povo nunca tinha visto isso, você imagina né? P/1 – Tem esse filme? R – Tirando foto, filmando, você imagina. Isso, sei lá, deve ter. P/1 – Bacana. P/2 – Você fazia anotações? R – Conversando com as orientadoras, vendo aquele absurdo, você imagina, elas falando aquelas bobagens, né? Aquilo para mim era bobagem: “Nossos alunos aqui não podem isso, não podem aquilo”. Que não pode o que, gente? E eu achando tudo uma loucura. Eles achando bacana e eu achando loucura. P/1 – A tal carta de princípios que era bacana, por exemplo? R – Não, a carta de princípios eu não acho loucura, eu acho legal porque é um norte. P/1 – É o contexto, é isso que é exatamente. R – Eles não conseguem diferenciar. P/1 – Exato, não pode é confundir aquilo com uma regra ou ______ R – Gente, aquilo era ao pé da letra, espera um pouquinho. Aquilo é uma coisa bacana, aquilo é um norte. Agora, é uma grande diferença você ter uma carta de princípios e não poder usar esmalte vermelho, como uma louca me disse. Eu falava: “Ah, meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?”. Pensa bem, era muita coisa. Então eu comecei a pensar: “Primeiro eu tenho que começar”, como o meu avô sempre fez, “dando o exemplo''. Segunda coisa, eu vou ter que mudar muita coisa, começando não só por mim mas falando que muita coisa não pode mais ser dessa forma porque, hello, o mundo mudou, o mapa mudou. Não dá mais para ser assim, né?” P/1 – E você reuniu essa turma... R – Não, aí eu fui falando. Olha, era difícil porque esse homem não deixava. Aí eu chamava as pessoas na minha sala, as pessoas choravam, todo mundo chorava na minha sala. Como é que pode? Aí eu ficava perdida. P/2 – O povo chegava pra falar ____ R – Não, as meninas chamavam ______ minha sala, elas entravam na minha sala, todas começavam a chorar com medo dele. Olha que difícil. Eu falava: “Meu Deus, e agora, o que eu faço?”. P/1 – Dá para falar o nome desse homem? R – Dá, Monteiro, posso falar. Eu detesto ele. P/2 – Isso a gente tem na pesquisa também. Monteiro , que estava antes que você. R – Estava antes que eu. Olha, foi muito difícil com esse homem, porque o que eu falava, não tinha eco, você entendeu? Porque o que eu falava pro senhor João não era o que ele falava, e eu entendo perfeitamente a posição do senhor João: “Esse homem estava lá há tanto tempo, o que essa menina agora chega aqui e fala o contrário? É claro que eu acredito nele, não nela que chegou aqui”. Que ainda por cima eles achavam que eu era uma madame, que estava lá para passar o tempo, eu sei perfeitamente disso. Eu não cheguei lá achando que ia ser diferente. Eu, se estivesse no lugar dele, talvez pensasse a mesma coisa. Eu sei que não ia ser diferente, eu não sou tonta. Olha, eu passei muitos dias sem nem um papel na minha mesa. P/1 – Te deram uma sala e falaram: “Bom...” R – “Assuma a sua mesa”, essa foi a frase que me deram. Não, menina, até vou dizer uma coisa, o Gustavo da risada. O meu marido é igual palhaço, ele só enche o saco. Todo mundo falava assim, o caboclo falava assim: “Eu vou despachar para a senhora”. O que é despachar, meu Deus? Liguei pro Gustavo, ele só ria. “Não vou falar”, e desligava o telefone. Meu Deus, o que é isso, o que é despachar, que raio de coisa é essa? Aí foi pra construir essa escola aqui. Aí um dia o meu avô me chamou aqui e falou: “O João te deu”, o senhor João Carriera , “O João já falou com você da construção dessa escola?”. Eu falei: “Não”. Eu nem sabia de construção de escola. Eu sei que no dia seguinte essa construção da escola caiu pra mim. E eu tinha muito claro na cabeça como era essa escola, fiquei um ano aí, eu sabia absolutamente tudo da escola. Olha, eu sei que essa escola aí quem fez foi eu, eu com o Conde, o Luis Paulo Conde e o Mauro Nogueira. Eu sei onde fica cada maçaneta da escola, cada canto, cada buraco, cada coisa. Aí ninguém me batia, entendeu? Mas nem o senhor João, ninguém. P/1 – Quer dizer, você teve que ir conquistando mesmo o seu espaço? R – Ah, cada milímetro. Porque isso eu sabia, que todo mundo achava que eu estava aí para passar o tempo. Isso eu sabia quando eu cheguei. P/1 – Você tinha duas frentes de problemas. R – Eu sabia sim, e era uma cena engraçada porque cada dia eles queriam provar que eu ia desistir, sabe? P/1 – É, eu ia te perguntar isso, se eles faziam esse tipo de... R – Isso eles faziam todos os dias: “Ela vai desistir hoje, ________”. P/2 – Que provação, não? R – Ah, muito difícil. P/1 – Você estava dizendo, aí você chamava as pessoas, as pessoas iam na sua sala. R – ______. Ah meu Deus do céu. P/1 – Aí chega uma hora que você também começa _________ R – E todo mundo falando mal desse homem, de outro. Esse aqui, eu vou ter que passar nele para contar o que eu falei, você fala isso, _________. Gente, era assim. Era um horror, você não tem noção. Aí eu já conhecia a Ana Luiza. Então eu precisava de uma pessoa que conhecesse e entendesse de escola, e muito. E eu gostava dela, do estilo dela, de uma pessoa direta, entendeu? _________. E eu precisava colocá-la lá. Aí começou um grande problema, ninguém queria trazer ela pra cá. Então foi uma luta de uns dois, três anos para conseguir trazer essa mulher pra cá. O dia que ela chegou aqui, sabe o que esse desgraçado falou para ela? Ela demorou um tempo pra me contar isso. “Você não é o tipo da diretora que nós queremos aqui. A diretora que nós queremos...”, eu nem lembro mais, foi uma bobagem, quieta, sei lá, uma pessoa que não fala. Até que chegou um dia, eu não sei o que me deu aquele dia, sinceramente, foi alguma coisa na Bahia, Salvador. Eu tinha ido lá e tinha visto umas coisas. Era sempre assim, sabe, eu ia, via uma coisa, chegava e falava. “Não, Dona Denise, a senhora não viu muito bem”. Eu tinha ódio dessa frase. “Como não vi bem, eu não sou cega. Eu vi muito bem, vocês é que ____”. Eu sei que um dia me encheu tanto, eu não sei o que foi que aconteceu aquele dia. Me deu uns cinco minutos assim, eu peguei a minha bolsa, fui até a sala do senhor João e falei: “senhor João, enquanto este homem estiver aqui eu não volto nunca mais”, e fui embora. Porque quando eu falo uma coisa eu não volto atrás. Eu não voltei mesmo. No terceiro dia, ele me ligou. “senhor João, o senhor acha que eu estou brincando? Eu não estou brincando. Eu não vou voltar mais mesmo”. Ele me encheu, me ligou, me encheu, me encheu, eu vim aqui. Cheguei aqui de calça jeans: “senhor João, o senhor me chamou? O que o senhor quer?”. Eu falei: “O senhor não está entendendo, eu não volto nunca mais para lá. Eu não suporto este homem. Não dá para trabalhar num lugar de educação com um ditador como esse. Nós estamos em outros tempos. Esse homem não escuta as pessoas. As pessoas têm medo dele. Isso aqui é uma rede de escola, como é que pode ter um homem que lida com as pessoas dessa forma? Eu não tenho nada a ver com esse homem, não tenho nada a ver com esse tipo de tratamento das pessoas. Eu não quero isso, não dá certo. O senhor prefere ficar com ele, eu não tenho nada a ver. Se o senhor quiser eu invento uma história pro meu avô aí, o senhor fica com ele. Para mim tanto faz, entendeu?”. Eu sei que mandou esse homem embora. Ele tão idiota, esse homem, sabe o que ele falou? Mas foi tão bom. A Ana ficou desesperada. Sabe o que ele fez? As pessoas não se enxergam. Ele começou a falar para todo mundo: “Eu estou saindo porque a Dona Denise pediu a minha cabeça”. Pronto. A partir deste dia todo mundo começou a me idolatrar. Óbvio. Aí a Ana chegou pra mim e falou: “Você não sabe o que ele está falando”. Eu falei: “O que foi?”. “Ele está falando isso”. “Mas graças a Deus”. “Como graças a Deus?” “Você vai ver”. Vocês acreditam que teve gente que se escondeu embaixo da mesa para não falar com ele? P/1 – Eu imagino a cena. R – Teve gente que me telefonou pra me dar parabéns. A Regina foi uma. “Graças a Deus.” Gente, não tem condição, o homem é um horror. P/1 – Que engraçado, né, o senhor João e o teu avô não terem percebido. R – O meu avô nem sabia quem era esse homem. P/1 – Mas o senhor João... R – Gente, o povo começou a me idolatrar a partir desse dia. Como a pessoa não se enxerga. Não é engraçado? P/1 – É engraçado. Você levou quanto tempo nessa briga? R – Três anos ____ esse desgraçado. P/1 – Três anos? Nossa, muito tempo. E nesses três anos você não conseguiu realizar nada assim ____________ R – Consegui outras coisas, eu realizei algumas coisas. Por exemplo, eu chegava nessas escolas e tinha aqueles almoxarifados lotados. Eles adoravam chegar nas escolas e pedir: “Onde está o almoxarifado?” _____ pra que, gente? Eu não entendo isso. Eu falei: “senhor João, não é por nada não, mas vocês dão muita coisa para esses alunos”. Nunca tinham feito essa conta, sabe? _______ “Vocês já fizeram a conta? Tudo bem, vocês dão X camisetas, mas quantos que lavam?”, sabe? Vamos diminuir, sabe? Nunca tinha feito. Vamos dando, vamos dando. Por exemplo, aqui na matriz tinha um negócio que eu não suportava, antigamente, na época que eu _____, era muito ruim um aluno receber uniforme, imagine você, que daí ele era considerado pobre, era ruim. P/1 – Ah, porque era voltado pro... R – Porquê? Porque tinha uma louca aí, não pode escrever isso aí heim, pelo amor de Deus. (Pausa) P/1 – Eu queria pegar um gancho. Quando é que você descobriu o que era despachar? Demorou mais, como é que foi? R – O meu marido deu risada no telefone, desligou e não falou, o bandido, né? Eu falei: “E agora?” Aí ele chegou com aquele monte de rolo, sabe, de planta. “Ai meu Deus, e agora?”. Aí você olhava bem assim as plantas, e era um prédio paliteiro que eu chamo, sabe, que embaixo cheio de... Sabe esses prédios que embaixo assim as vigas, não sei se viga é assim ou assim, se lá. P/1 – Tipo coluna. R – É, sei lá, viga é assim, coluna é assim. Que tem as colunas que você põe, que seria o pátio das crianças, essas coisas. Eu falei: “Olha, esse prédio aqui”, esse era o despacho. Eu entendi que aquele era o despacho. Era aprovar, eu entendi que despachar era aprovar. Eu falei: “Olha, este prédio eu acho que não é bem isso que nós vamos fazer nessa escola”, que aí na hora matei que aquele despacho era o prédio que o meu avô já tinha falado no dia anterior, pra eu acompanhar a construção. Aí aquele monte de planta com aquele paliteiro, eu falei: “Olha, acho que não é bem este tipo de obra que nós vamos fazer aqui nessa escola”. Aí eu fui almoçar com o senhor João, o senhor João falou: “O que você acha da gente chamar um outro arquiteto que já fez com o senhor Braga?”. Eu falei: “Bom, o senhor Braga”, pensei, “Não, vamos fazer. Eu acho que é ótimo o arquiteto ser o senhor Braga”. Aí veio o Conde, aí fizemos a escola da matriz, e ficou dez. P/1 – Você acompanhou tudo, tudo, tudo, tudo? _______________________ R – Tudo, até maçaneta, que não tem quina pra criança não enroscar a camiseta. Cada detalhe, as coisa dos banheiros, tudo. P/2 – E como é que foi pra ti essa experiência? R – Ah, foi muito legal. Primeiro que eu tinha muita certeza do que eu estava fazendo, muita certeza. Eu sabia quantas crianças tinha em cada turma, quantos professores tinha na escola, o que fazia cada orientadora Eu sabia o que todos faziam, quantas inspetoras tinham, a cozinha, tudo. Então eu tinha muita certeza do que eu estava fazendo, entendeu? Para mim foi com muita facilidade, até, que eu fiz aquilo. Porque a escola aqui tinha um grande problema, na minha opinião. Era um vai e vem desgraçado, que era assim. Era uma escola que cresceu demais, e foi meio adaptada. A criança começava num prédio, ia pro outro, voltava pro outro, voltava pro outro, era uma confusão total. A criança começava num prédio, a primeira série era no outro, a segunda série passava pro outro, a terceira série. A criança ficava perdida, era uma zona aquilo. Então nós fizemos um prédio, eu falei: “Olha, vamos fazer um prédio que a criança não fique perdida. Vamos fazer pré-escola aqui, primeira a quarta aqui, quinta série pra frente, é tudo em ordem e acabou. Não dá para ficar indo e vindo, aquela coisa. Era uma salada, nossa. Aí fizemos. Claro que foi um ou dois anos com tudo meio adaptado, porque, para construir enquanto a escola funcionava é complicado. Sete mil alunos. É aluno, né? P/1 – Como é que vocês fizeram? R – Ah, minha filha, era tapume, era tudo. Mas deu certo. E aí fizemos um módulo, que a gente chama, um absurdo, 450 alunos por série, que nunca mais cresceu, uma série porque aqui tinha uma coisa assim, que também foi difícil, mas isso era assim. Existiu um estigma aqui na Cidade de Deus, de que “ninguém consegue vaga”, só se falar com alguém bacana, sabe? “Ah, tem que falar com alguém da diretoria, tem que falar com não sei o que”. Era um inferno. Onde você ia vinha papelzinho ____. Até hoje é assim. Só que isso foi acabando, que eu fui falando: “Não vai ter vaga”. Fui falando não pra todo mundo. P/1 – De fato isso chegou a existir um período? R – De fato, não: existiu. P/1 – Existiu mesmo, né? R – Muito. Existiu mesmo. P/1 – Talvez mesmo por conta daquele cidadão, o tal do Monteiro? R – Eu não sei como que era, eu sei que quando eu entrei eu falei: “Isso vai acabar. Não tem tantas vagas? Nós vamos seguir este critério”. É claro gente que tem um ou outro pedido que nós temos que atender, é óbvio entendeu? Tem um pedido lá da presidência, alguém que precisa, não sei o que, nós vamos atender. Mas a exceção não vai virar regra. Então o que aconteceu? E claro que isso também, todo mundo ia entender isso. Mas já logo nos primeiros anos todo mundo já foi sacando, e todo mundo já ficou contente, “Nossa, eu entrei”. Aí o que acontecia? Todo mundo vinha pedir a vaga, só que o nome dele já estava na lista de que iria conseguir, não precisava me pedir. Então eu falei o seguinte: “Esses que pedirem e já estão na lista, vocês vão ligar e falar ‘o senhor não precisaria ter pedido, o seu nome já está na lista. O senhor não precisaria ter ligado”. Aí nós fomos fazendo esse trabalho, as pessoas foram entendendo. Então diminuiu muito a quantidade de pedidos, muito. Aí teve uma coisa também. No começo, só colocavam na escola o pessoal que trabalhava no banco que eram os mais assim… o pessoal da limpeza, sabe assim? Por exemplo, o pessoal do DPD [Departamento de Processamento de Dados] não ia para a fundação de jeito nenhum, que na época era o pessoal mais da elite, digamos assim. Se achavam os bacanas, achavam que essa escola era muito ruim. P/1 – DPD é... R – Hoje em dia é outro nome. É computador. Eles não colocavam as crianças aqui. Não, que os filhos deles eram os melhores, né? Não colocavam os filhos aqui. Aí eu falei: “Gente, ninguém vai pedir pra por filho aqui”, que daí começamos a obedecer essa lista. Então a gente já fazia um trabalho com o Recursos Humanos do banco. A gente já tinha uma lista com o Recursos Humanos, já sabia quais os funcionários que moravam aqui na redondeza que tinham filhos nessa idade e que já teriam direito à vaga. Mas já tinham alguns nessa coisa que não faziam a inscrição. Eu falei: “Vocês não vão atrás. Eles não querem, por eles não põem. Só que, quando eles vierem pedir daqui a três anos, nós também não vamos pôr, porque um dia eles vão conhecer essa escola”. Ah, dito e feito. Aí foi passando o tempo, eles foram conhecendo. Aí eles queriam pôr, eu falei: “Agora não vai ter”, porque, entendeu? Não dá, as crianças passam de ano, a primeira passa pra segunda, da segunda pra terceira, parará, não dá para gente mandar embora e por outro, ________. P/1 – Aí, quando inaugurou essa escola, o que você sentiu? Você deve ter sentido... R – Foi muito legal, porque foi uma escola muito grande, essa escola. Não sei se vocês foram aí. É uma escola grande, tem 16 salas de pré. Tem mil crianças no pré. Só o pré é uma escola, né? É muita classe. E foi muito pensada, teve muito anteprojeto para chegar no projeto final das salas do pré, por exemplo. Foi pensado cada espaço de orientadora, cada coisa foi pensada. E em cima dessa escola foram pensadas outras, entendeu? P/1 – Inclusive reformas nas outras, né? R – É. A gente foi melhorando as outras em função dessa, o tamanho das salas, a altura da lousa, sabe essas elucubrações, essas coisas? A altura da coisa da bancada da cozinha, essas coisas. É detalhe de escola. O fluxo de aluno da saída, o fluxo de entrada, o fluxo de pessoal de trabalho da área de limpeza, que entra de um lado, que sai do outro. É todo um trabalho de arquitetura que você tem que fazer para construir uma escola. P/1 – E a essa altura você nem tinha pensado em trabalhar na Fundação Bradesco. R – Já estava dando palpite e discordando do arquiteto. P/1 – Já estava pronta, né? R - Ah, sim. Aí também mudou uma outra coisa. Por exemplo, quando eles construíam uma escola, era assim. Vinha o prefeito, o governador, sei lá, vinha aqui e pedia uma escola. Aí, assim, os lugares aceitavam. Eu falei: “Não, não vamos aceitar. Não, não é assim”. P/1 – Isso você diz pelo Brasil inteiro? R – É, nós não vamos aceitar. Nós só vamos aceitar, tem que ser em um lugar pobre. Mas acontece que tem lugar, gente, que não tem condição. Não chega ônibus, não chega nada, e nós não conseguimos arrumar professor. Então, de determinada escola para frente, depois que eu entrei, eu comecei a não aceitar. Eu falei: “Não, isso não queremos”. P/1 – Porque antes eles iam e o seu avô fazia. R – Não era o meu avô que ia lá. P/1 – Sim, mas ele topava. R – Não, era assim. P/1 – __________ se o mundo pudesse, se ele pudesse o mundo seria todo só de escolas, que isso era um pensamento do seu avô. R – Ah, sim, mas é assim. Vinha um governador aqui, vou dar um exemplo para você. Deixa eu ver que escola. Em todas as escolas, eu fui escolher terreno. Deixa eu ver. Aparecida de Goiânia, Cuiabá, sei lá. Cuiabá, o primeiro já foi bom, mas Aparecida de Goiânia. O governador veio aí e queria construir uma escola, vai construir uma escola. O primeiro terreno que ele ofereceu, era longe pra caramba, não passava nem ônibus. Eu olhei, falei: “Gente, como é que vai arrumar um professor para vir até aqui?”. Porque isso é muito relativo. Aqui em São Paulo, a gente anda 40 minutos de carro e acha perto. Lá o pessoal anda 15 minutos: “É longe, não vou trabalhar”. Eu falei: “Nós não vamos arrumar professor para vir trabalhar aqui”. Depois começam os problemas, né? Eu falei: “Não, esse terreno é bonito, mas não vamos aceitar. Nós precisamos de um terreno numa outra área”. Isso era impensável aqui na fundação, entendeu? ___________. Nós já vamos construir uma escola, e se tem um terreno numa área pobre, tem que passar o ônibus, certo? P/1 – Muito certo. R – Aí foi outra área. Também não estava boa, foi outra área. Isso foi em todos os lugares. P/1 – A partir de, aí já o que? Se você entrou em 1988. R – De 1988 para frente. P/1 – 1990, três anos. R – Olha, nem lembro. Depois do que o Mário fez. Porque não dá, entendeu? Por exemplo, nós temos uma escola de Salvador que, gente, é uma dificuldade achar um professor para dar aula lá. P/1 – Que é das antigas, né? R – É aonde, gente, fica nas Cajazeiras mil, sei lá. É um conjunto habitacional, o maior conjunto habitacional que existe no Brasil. Fica no último, é longe pra caramba. Ninguém quer dar aula lá, ninguém. Aí você está com um problema com o professor, você não manda ele embora porque não tem como pôr outro. Como é que fica? Você quer ter uma qualidade de ensino, você não consegue por conta disso. É o Brasil, entendeu? É diferente de ter uma escola no Rio de Janeiro, São Paulo. P/1 – Você disse que você andou e aí você viu coisas erradas. Quando você começou essa sua revolução, isso passou também por substituição de diretores e professores, daqueles que você tinha identificado problemas? R – Daí o que era? Não era substituição das pessoas, era mudar o olhar, mudar a postura, você entendeu? P/1 – Você optou então por isso? R – É. Não eram as pessoas, entendeu, porque as pessoas estavam fazendo o que mandavam, entendeu? Tem muitas pessoas que estão até hoje aí, que eram até de muito antes de quando eu entrei. Tinha que mudar o olhar, a postura, o jeito de ver o mundo, jeito de ver a criança. Olha, eu cheguei em escolas em que a diretora virou pra mim e falou assim: “As crianças agora vão cantar Parabéns a Você que é a única música que eles sabem cantar”. Gente, não é porque eles são pobres que eles não sabem cantar. Eles sabem cantar muito mais do que nós, concordam? P/1 – Com certeza. R – Então é um erro achar que a criança pobre sabe menos. Sabe menos uma pinóia, sabe até mais do que nós, entendeu? Cada uma tem a sua própria cultura do lugar e da casa onde mora, sei lá, de tudo, entendeu? P/1 – E como é que você comunicou essas suas mudanças aí? R – Não, é difícil. P/1 – Foi com memorando, como é que é esse _____ R – Não foi com memorando. Em educação você não fala de cima pra baixo, você não consegue nada. P/1 – Ah, é? Como é que é? R – Nada. Você vai falando: “Olha, eu acho que assim não dá certo”, devagarinho. E aí era difícil porque eu não tinha uma pessoa que me desse o eco. Tinha esse fulano aí que me barrava tudo, certo? Aí depois que a Ana Luiza entrou, foi mais fácil porque a gente fala a mesma linguagem, entendeu? Mas era uma coisa grande, é muita escola, certo? Aí, claro, aí teve que começar a fazer um trabalho grande, porque é muita coisa, é muita criança, é muita escola, é muito professor. Então teve que primeiro, por exemplo, cada escola ensinava e alfabetizava do jeito que queria, entendeu? P/1 – Não havia um padrão? R – É. Não é que tem que ter um padrão, mas cada um... Tinha gente ensinando do jeito que tinha aprendido. Ninguém nem sabia como estava ensinando. O povo aqui não sabia como é que estava ensinando e se estava ensinando, entendeu? Então vamos ver. Gente, eu acho que se tem um pessoal aqui que está fazendo esse trabalho, vamos ver se eles estão ensinando mesmo, né? Vamos ter um norte, vamos ter uma linha que a gente tenha que seguir, vamos... O que é que hoje está no construtivismo, vamos seguir. É difícil? É, porque não tem, o construtivismo não é uma coisa que você começa assim. Não é assim. É muito difícil. Vamos treinar esses professores. Foi uma luta, uma luta constante. Mas hoje a gente vê, por exemplo, que a escola que não é construtivista, é um horror. Está fora de tudo. Mas não dá para você ser construtivista do dia pra noite, né? Não dá para você falar assim: “Ah, ano que vem vou ser construtivista”. Não é, é difícil. Treina professor, treina, treina, treina incansavelmente. P/1 – E aí vocês começaram esse trabalho? R – Começou esse trabalho. Treina professor de pré, treina professor de primeira série, segunda série, incansavelmente. P/1 – Isso é para todo mundo? R – Para todo mundo. P/1 – O que decidia aqui em São Paulo virava Brasil todo? R – É, porque esse treinamento de professor é direto e reto, no Brasil todo, ______, sem parar. P/1 – Mas sempre reconhecendo também as características regionais? R – É, porque é assim. No começo você faz tudo igual. É claro que aqui algumas escolas são melhores, nos grandes centros. Em algumas você começa. É claro que no começo teve um monte de erro, não vou falar pra você que não. É óbvio que teve. Não tem como, entendeu? Mas vai errando, e vai fazendo. É melhor do que não fazer nada. P/1 – E aí o pessoal começou a aceitar bem essas mudanças? R – No começo não. P/1 – No começo também teve resistência? R – Oh, muita, até das diretoras. Que ninguém gosta de mudar. Vamos ficar como está, né? Bom, muito bom acomodar, né? P/1 – E aí, era o tempo todo você ______. Mas aí vocês foram ampliando esse... R – Na verdade, com o tempo as pessoas foram vendo que não era uma coisa ruim, que não era uma coisa pesada. Que era uma coisa dos tempos. P/1 – É porque, de certa forma, havia um bom corpo de profissionais. R – É, daí todo mundo foi meio que aceitando. Hoje todo mundo, uma ____. Hoje todo mundo reconhece que se não tivesse sido aquilo teria sido horrível, né? P/2 – Denise, e a Escola de Canuanã, o que você lembra que mais transformou, que você chegou lá e deu mais impacto _____? R - Olha, a Escola de Canuanã é uma ilha, é um oásis na verdade. Porque a Escola de Canuanã é diferente de tudo, não dá para comparar com nada, porque são pessoas que vivem ali, que não convivem com a cidade. São muito puristas, digamos assim. Ao mesmo tempo eu tento, eu sempre tenho um sonho para Canuanã e para Bodoquena, porque eu acho que os alunos vivem lá 24 horas. Então eu tenho um sonho, eu sempre falo isso lá. Eu falo: “Gente, esses alunos vivem com a gente lá 24 horas. Como que nós não conseguimos mudar a cabeça dessas meninas?”, que elas continuam saindo de lá querendo casar com 17 anos, e bebendo. Certo? Eu não entendo isso. Quer dizer, entendo né? Eu sei porquê. Porque o convívio com o pai e a mãe, com a família, com o meio, é maior. Mas é maior como, se elas ficam mais com a gente do que com a família? Mas ao mesmo tempo, o povo que mora lá também é de onde elas vieram. Então, entendeu, é difícil. Eu tenho esse sonho de querer que as meninas, pelo menos, de lá... Porque os meninos de lá, que saem de lá formados, saem homens pro trabalho. Mas as meninas saem de lá como se elas estivessem na casa delas, querendo... A maioria não vai querer trabalhar. Saem com aquela ideia de casar e ficar em casa. É uma coisa que me faz perder o sono. Por que a gente não consegue mudar essa mentalidade? P/2 – Ainda tem, né? R – Tem. P/1 – Nós temos a Isabel, que estudou lá e hoje ela trabalha na Secretaria da Educação. Temos a Lílian, transformação de vida, que foi lá pra Palmas, pra Panificadora Colombo. R – É, mas quantas você está falando? P/2 – É isso que eu estou dizendo, que a gente tem algumas. R – Muito poucas, né? P/2 – São poucas perto do... P/1 – Agora, porque que lá a escola é tão querida, do coração de todo mundo, na tua visão? R – Ué, porque é um internato. P/1 – Mas só por isso? R – Eu acho que é porque é longe de tudo, é tudo difícil lá. Porque, primeiro que foi construída numa época que tinha que ir de canoa, pelo que contam, eu não estava aqui. Mas pelo que contam, iam de canoa. Começou com uns 70 e poucos alunos. Iam de canoa, essas ideias do meu avô, tudo difícil, tudo que era o mais impossível era o que ele queria. Você sabe, né? É difícil, é o que eu quero. Então, e é uma coisa que lá parece que a coisa puxa, não sei se é o fluir, não sei se dá certo, não sei. P/1 – _________ R – Tribo, índio, não sei. E todo mundo gosta, eu acho, também, porque lá as pessoas moram. É longe da civilização, das cidades. A maioria daqueles alunos nunca foi a uma cidade. A primeira vez que eu fui lá, os meninos perguntavam pro meu marido assim: “Quantos aviões você tem?”, porque pra eles ou é milionário ou é igual a eles. “Mas que, quantos aviões eu tenho? Eu não tenho nem um avião”. “Quantos aviões você tem? Quantos anos você tem?”, sabe essas perguntas loucas? É uma coisa, sabe, esse purismo, essa coisa. P/2 – Eu estava te perguntando de Canuanã, porque a Ana Luiza comentou, quando chegou lá, que viu aqueles alunos com os caderninhos de brochura no bolso. Então, que vocês queriam que os alunos de lá saíssem mais preparados pra vida, pro mundo moderno da tecnologia, da informática. Como eu estive lá, entrevistei alguns alunos, e inclusive alunos que estão saindo, e eles se comunicam muito bem. Eu acho que eles estão bem preparados. R – Sabe que eu não quero isso pros alunos de lá, eu acho que eu quero isso pros alunos de todas as escolas. Eu acho que para o aluno de lá, eu acho, isso é um sonho. Eu acho isso muito difícil, querer que o aluno de lá saia pra isso. Eu acho que o aluno de lá quer morar lá. P/1 – O de Canuanã, em especial. R – É, eu acho que o objetivo, inclusive, da fundação, é fixar o aluno na região que ele está. Retriubir, entendeu? Eu acho que seria muito bom se ele quisesse ficar lá e melhorar a região que ele está. Aí é o máximo pra mim. Agora, eu quero que cada aluno da escola melhore, na região em que ele está, que saiba mexer na Internet, tudo isso aí que ela falou. Para mim já seria o máximo. P/1 – Porque cada inauguração de escola da Fundação Bradesco, isso é fato, você presenciou, tem um impacto violento na comunidade, né? Já tem uma mudança ali, né? R – Ah, eu não sei. P/1 – Você acha que não? R – Eu acho que pouco. P/1 – É pouco? R – Para mim, é pouco. Sabe como é que eu queria que fosse? Por exemplo, uma escola que já existe há dez anos, na minha cabeça, dez não, 15 anos. Pra mim o bairro já teria que ter, por conta dos alunos, não é do prefeito não. Por conta dos alunos e do trabalho dos alunos e da comunidade que está ali, não é por conta do prefeito, já teria que ter saneamento básico, teria que ter água tratada, se tiver córrego passando. A gente teria que ter uma série de coisas que não tem. A escola do Maranhão, em São Luis, até hoje tem um negócio lá que eu não sei o nome. Sabe esse caramujo que cola assim, como é que chama? Um caramujo que cola assim na parede, que dá uma doença. Atrás passa um córrego que tem isso nas paredes. Essa escola é velha, já tem não sei quanto tempo. P/1 – Já que você está falando de sonho, a fundação trabalha com essa visão de futuro, de repente? Você tem que estar formando o cidadão. R – Essa é a minha preocupação. P/1 – Mais do que dar conhecimento, não é isso? R – Eu acho que é função da escola e da fundação. É dar conhecimento, mas criar nesses alunos essa visão de cidadão. Olha, se os alunos, quando saírem da escola, quando tiverem a sua família, fossem atrás da escola que ele colocar o filho dele, não da fundação. Ele não tem que querer colocar o filho na fundação. Tudo bem, ele tem que querer, mas se ele não conseguir, se ele mudar de cidade, ele tem que cobrar da escola pública o que ele tem de direito Se isso acontecesse, eu já estava feliz. Mas eles têm medo. O que quer dizer que ele não entendeu nada, concorda? Ele não entendeu que ele paga imposto de tudo que ele compra, não entendeu nada. P/1 – E isso é trabalhado nas escolas? R – É o que eu mando trabalhar, é o que eu mando fazer, é o que eu espero. Já não melhorava muito se ele não tivesse medo da diretora da escola pública, como hoje todo mundo tem? Você pega uma pessoa da classe mais baixa, o pessoal que frequenta escola pública, morre de medo do diretor da escola. Ele tinha que cobrar da diretora da escola. P/1 – E esse trabalho vocês fazem inclusive com os pais, né? Pelo menos em algumas escolas, também há essa preocupação? R – Olha, a gente procura fazer, mas é mexer com os valores das pessoas, com a cabeça das pessoas. É mexer com muita coisa, entendeu? P/1 – Isso te cansa, às vezes? R – Não, de jeito nenhum. P/1 – Você está no pique. R – É difícil. Eu vou falar uma coisa para você, eu vou dar um exemplo para você, da Bodoquena. Eu sei que muita coisa que eu falo choca até o povo onde eu trabalho, entendeu? Eu falo uma coisa, às vezes, e fica todo mundo com o olho assim. Por exemplo, nós temos casos de alunas grávidas, e dentro dos internatos. Nos internatos, veja, esses alunos vivem 24 horas com a gente. Agora, achar que essas alunas não vão ficar grávidas é uma ilusão total, né? Eu já falei isso algumas vezes, venho falando isso já há alguns anos. Você imagina o choque que é. Eu falo: “A gente deveria fazer um programa assim no ambulatório”, que a gente tem o hospital lá dentro dos internatos. “Eu não sei como, fazer um trabalho aí, não sei, mas colocar no ambulatório ou no hospital o anticoncepcional, e a menina, a partir de uma certa idade, ela vai lá e toma, a médica conversa”. Nossa, gente, quase me mataram, vocês não têm noção. Não é a escola, isso é aqui. “Mas isso é um absurdo, isso aí é a gente dizer que elas estão transando”. Eu falei: “Então, não estão ficando grávidas? Vamos deixar elas ficarem grávidas, então. Vão continuar engravidando”, você entendeu? Eu tenho que ter calma, pensar, porque eu tenho que primeiro mudar a cabeça das pessoas aqui, depois aplicar nas escolas. Vocês acham que os alunos namoram? Eles acham que não. P/1 – Namoram. R – Mas é melhor eu achar que eles não namoram, entendeu? P/2 – Pensar que é proibido e que eles obedecem, né? R – Então, por exemplo, só se namora na Bodoquena porque eu falei que podia. Na Canuanã, eles acham que não namoram. E combina. Olha, mudar a cabeça das pessoas, você entendeu? É difícil. Não é a escola aqui. P/2 – Lá eles têm um trabalho e palestras de sexologia, né, entre os alunos. Fez aquele grupo de alunos voluntários que fazem para outros alunos. R – Tem. P/1 – Quando você diz que tem que mudar aqui, é mudar esse teu corpo gerencial? R – É. P/1 – Porque hoje a fundação tem quatro, não é isso? R – É a Ana, o Jéferson, o Antônio Carlos, a Cristina e o Nivaldo. P/1 – O Nivaldo e... Ah, tá, são cinco. Eles ainda estão resistentes ________ R – Nossa, com essa história do anticoncepcional __________. P/1 – Mas esse é o futuro, Denise. R – Ah, você acha que eu não sei? Ontem ________ cinco anos. P/1 – Porque não dá pra você, desculpa, mas não dá pra tapar o sol com a peneira. R – Eu falei essa frase. ______ então vamos tapar o sol com a peneira, fazer de conta que elas não estão grávidas, que as crianças não nasceram, faz de conta tudo, né? P/2 – É porque confunde a atitude de prevenção com liberdade. R – É. P/1 – E que não deveria estar na tua, porque se a escola está formando para a cidadania, isso faz parte. R – Então. Mas, olha, é difícil, você entendeu? P/1 – Você perde, então, essa briga? R – Isso ______. P/1 – É, você está perdendo essa briga. R – Eu tenho que todo ano falar de novo, citando exemplo, tendo calma, porque eu não posso impor isso, porque no primeiro problema que der vai todo mundo contra mim. P/1 – Com certeza. Agora, a escola do futuro é essa escola aberta, pelo que eu estou entendendo? R – Não é aberta, é uma escola que forma esses alunos com uma cabeça de querer melhorar a comunidade em que eles estão. Mas não é falando como eles estão falando hoje, que não estão melhorando nada, vamos falar a verdade aqui, certo? Dava para fazer muita coisa. Agora eu acho que estão fazendo bastante. P/1 – Porque a fundação tem essa preocupação, de repente, de atualizar os seus equipamentos. A gente tem percebido isso. Vamos dizer, condições existem. R – Então, mas eu falo isso lá. Mas o futuro da educação é melhorar o equipamento? P/1 – Não, não, mas você tem, de certa forma, que instrumentalizar. R – Eu sei. P/1 – É o primeiro passo. R – Eu sei. P/1 – Isso você já resolveu, vamos dizer assim. R – Não, isso tudo bem, isso aí a gente melhora o equipamento. P/1 – Sei, concordo. R – Mas eu preciso melhorar a cabeça das pessoas. P/1 – Melhorar a cabeça. O futuro da educação é melhorar isso, melhorar a cabeça. R – Veja, baseado em Canuanã, eu posso melhorar todos os equipamentos, mas as meninas vão sair de lá, com 17 anos, querendo casar, querendo ficar em casa? P/1 – Como é que está hoje, por exemplo, essa questão de abrir mais escolas? R – Ah, isso aí não vai mais abrir, eu acho. P/1 – Não vai, né? Que tem uma fase, né, que dá uma parada... R - O objetivo, quando o meu avô criou essa fundação, era ter no mínimo uma escola em cada estado. Já tem, em alguns estados têm mais do que uma. A última que foi feita foi essa no Jardim Conceição, aqui do lado. P/2 – _________ R – É, na Bahia tem duas, em São Paulo tem quatro, no Pará tem duas, no Maranhão tem duas. Em alguns estados têm mais do que uma, no Rio Grande do Sul tem duas. P/1 – Partir também para essa questão dos projetos também é muito interessante, né? R – Ah, sim. Eu acho que a educação tem sempre que melhorar a qualidade. Isso é uma coisa que que não pode parar, entendeu? Outro dia me perguntaram: “O que você pensa da fundação daqui a 50 anos, 20 anos, 30 anos”. Eu falei: “Olha, se todos os alunos que se formarem entrarem na faculdade eu estou feliz”. Porque hoje muitos não têm nem essa aspiração, olha que triste. No brasileiro, entendeu? Não é no meu aluno, é no brasileiro, porque ele se acha tão pobre, tão ruim: “Ah, eu não vou conseguir, eu tenho que trabalhar, não sei o que lá”. Ele não quer. Ele já entra na escola achando isso, a família, todo mundo, já não quer. Não, isso é muito pouco? Não é muito pouco não, isso é muita coisa. Eu não estou falando do Santa Cruz, do Porto Seguro, gente. Eu estou falando dos filhos das empregadas nossas. Se todas as empregadas que nós tivéssemos, todos os filhos estivessem na faculdade, não estava bom? P/1 – Muito bom. O que, nossa, é sonhar com a sociedade... porque você não tem isso, não tem aquilo, passa a ter outras coisas, sem dúvida. Você acha que daqui a 50 anos vai dar? R – Ah, eu queria menos. 50 anos é muito, eu queria menos, pelo amor de Deus. 50 anos é muita coisa. P/1 – É porque as mudanças culturais são difíceis. Mas, enfim, a gente é da mesma geração. Você não acha que houve até um certo retrocesso nessa questão? A educação voltou, talvez antigamente a gente tinha mais essa educação para a cidadania, você não vê assim? R – Mas é que antigamente não tinha educação para todo mundo, não era todo mundo que ia na escola. P/1 – A escola pública chegou a ser boa, uma época. R – Era ótima a escola pública, por isso que meu avô inventou essa Fundação Bradesco, porque a escola pública era para poucas pessoas, não tinha escola pública em todo lugar. Tinham poucas escolas públicas e eram de ótima qualidade, eram muito boas, até melhores do que as escolas particulares. Aí o que aconteceu? Aí inventou de fazer essas escolas onde não tem nada com coisa nenhuma, Conceição do Araguaia, Canuanã, porque a ideia qual era? Era fazer escolas onde não tinha escola pública, de difícil acesso, onde as crianças não teriam onde ir na escola. Mas aí o que aconteceu? Começou a ter escola pública em todo lugar, só que daí a qualidade foi lá embaixo, entendeu? P/1 – Os professores da fundação, tem uma seleção criteriosa? R – Tem. P/1 – Mais criteriosa do que os outros, do teu ponto de vista? R – Não, tem uma seleção bem criteriosa. Quando a gente fala numa cidade no interior, no sertão da Bahia, que veja, é criteriosa dentro daquele universo. Aí a gente entra com o treinamento. P/2 – Denise, eu queria deixar assim mais claro, para ver se eu entendi. Por exemplo, Conceição do Araguaia. Existe um trabalho com a comunidade de até geração de emprego e renda. Tem uma mãe de aluna que dá aula de artesanato lá. Então, assim, vocês construíram já muita relação com a comunidade, pais de alunos. Eu queria entender isso, se você espera que um aluno, além dessa relação com a comunidade, um aluno que saia de lá, que ele saiba interagir mais com o setor público, com o setor privado, para beneficiar a sua comunidade, é isso mesmo? R – É, exatamente. Que ele entenda o que é ser esse tal desse cidadão. P/1 – A tua rotina hoje na fundação, como é que é? Você chega em que horário? R – Eu acho tão legal essa pergunta. Todo mundo faz essa pergunta. Ela é bacana. Que todo mundo acha que eu não venho aqui ou que eu venho de vez em quando ________________________________. P/1 – _________ que é legal a rotina porque ela da esse colorido do dia-a-dia de você enquanto ser humano, né? R – É assim, eu chego... P/1 – __________ R – Pra todos, todo mundo, pra todos. Eu chego na fundação, abro os e-mails, isso aí. Ou eu chamo a Ana Luiza pra conversar comigo ou eu vou na sala dela. E aí são os assuntos mais... P/1 – Eu fico imaginando a quantidade de coisas. R – Ela me conta absolutamente tudo. P/1 – Das coisas que vocês têm que resolver, inclusive. _________ R – Tudo. Tem coisa que eles esperam eu chegar para ver o que fazer. P/1 – Do tipo... Só um exemplo. R – Do tipo, deixa eu ver. Eu cheguei agora de férias, deixa eu pensar. É bom pensar antes. P/1 – Alguma coisa, diga aí, que te esperaram para decidir. Porque eu também entendo que você dá muita liberdade pra eles agirem, né? R – Não, eu nem dou liberdade, eu espero que eles tenham a... P/1 – Discernimento. R – É, de solucionar o problema. Mas tem coisas, assim, quando envolve o nome da fundação, aí é importante eles me falarem porque eu geralmente sei aonde vai bater, entendeu? P/1 – ______ institucional sem dúvida não é à toa. Ah, se você não lembra, não tem problema. É só mesmo pra... Aí tem esse dia inteiro pra resolver e planejar? R – Sempre têm alguns meses que tem muita coisa, outros meses que são mais tranquilos, outros que são muito tranquilos. Por exemplo, dezembro é um mês que tem muita coisa, porque é o mês dessas benditas vagas aqui. Todo mundo liga de todo lugar, de todo lugar que você imagina. E é engraçado que eles acham assim, uns acham que “Eu quero a vaga hoje”. Que vaga hoje? Você acha que você chega em alguma escola particular e pede vaga? Não é assim que funciona. Então outros acham que a gente vai decidir na hora. “Não vamos decidir hoje, tem o dia que nós decidimos isso. Nesse dia, nós vamos ver se nós vamos ver ou não vamos ver. Depois, nós temos que responder pra todo mundo junto, não vamos responder só pra você”. Só que, pra esse dia nós temos muitas séries. Nós não decidimos em um dia só, porque tem muita gente telefonando aqui, e com outras coisas pra resolver, não dá. Então demoram alguns dias para decidir todas essas vagas, porque é uma pilha assim para cada série. E assim, ao longo desse tempo a gente vai, a gente fica, por exemplo, o cara faz um pedido, um nome lá, Fulano não sei do que. A Miriam liga, a secretária, tal, a gente fica sabendo da história. Liga na escola: “Esse pedido já foi aí?”. Então já sabemos. “Olha, isso aqui é ____, trabalhou aqui, a mãe é separada, já pediu aqui”. Ela sabe a história inteira do aluno, entendeu? Então, quando chega o pedido, “Olha, isso aqui não é bem assim a história”. A gente já sabe a história do aluno, ou da mãe, ou do pai que pediu, que mentiu, que não é isso. É tudo assim. P/1 – E você tem uma coisa de visitar as escolas frequentemente? R – Tenho. Tem ano que eu visito mais, tem ano que eu visito menos. P/1 – Você gosta, né, de visitar escola? Eu acho que isso tem... R – Gosto, eu gosto bastante. Esse ano eu fui pra São João Del Rei, fui pra Salvador. P/1 – E aí fazem festa quando você chega? R – Eu não gosto. P/1 – Mas as pessoas querem fazer ainda, ou não? Você já quebrou um pouco desse... R – Eu não gosto, eu falo: “Gente, é uma coisa normal, não tem que... Eu sou uma visita normal. Eu vou, vejo, converso com todo mundo, sabe, entro na sala. Não precisa parar a escola, pelo amor de Deus, eu não gosto. P/1 – Sim, mas as pessoas querem, ou já está mudando isso também? R – Eu acho que está mudando. No começo queriam, mas era a diretora que queria, sabe, na minha opinião. Hoje não, hoje é muito normal. P/1 – Entrar, entregar flor, alguém declarar um versinho. P/2 – Poesia, tinha canto. R – Mas ele tinha 80 anos. P/1 – E curtia pra caramba. R – Claro, porque ele que fez tudo isso, você percebe? É uma conotação diferente. Ele tinha 80 anos, é ele que fez tudo isso. O homem pega e constrói esse monte de coisa, é muito claro que tem que ter alguma coisa em reconhecimento. Mas é diferente. P/1 – ______________ R – É outro, entendeu? É que tem muita gente, tem algumas pessoas que gostam disso, entendeu, pela vaidade. Eu não gosto, eu pra mim... P/1 – Eu queria te perguntar se você participou daquelas ações de graça famosas quando você era criança. R – Eu vinha aqui. P/1 – Quando você era criança. R – É, criança não. Eu já era até mais que adolescente. Mas vinha, porque eles chamavam a gente, a gente vinha. Quando eu fiquei aqui no pré eu participei, eu vi como eram os ensaios e escutei os comentários dos professores. Eu vi como era exaustivo o ensaio dos alunos, eu vi como eram as roupas e achei aquilo um absurdo. P/1 – Aí você falou para ele? R – Quando eu assumi esse negócio, esse cargão, chegou a época de decidir sobre essa festa. E eu sou uma pessoa que eu gosto que as coisas tenham coerência, entendeu, em tudo. Eu acho que tudo tem que ter começo, meio e fim. Aí veio o pessoal mostrar a festa. Eu já comecei a não entender nada. Eu falei: “Gente, mas o quê que essa ________?” Eu não entendi nada e nem eles conseguiram se explicar. Com muito jeito eu falei… não sei se eu falei com muito jeito. Na época eu era meio biruta, mas eu falei: “Eu acho que não tem pé nem cabeça isso aí”. Primeiro que era uma coisa de louco o valor da festa. Era milhão de milhão, sabe, de dólar. Eu acho que isso não tem cabimento. O valor de uma roupa é o salário de um professor. E onde colocam essas roupas todo ano, gente? Vocês já viram essas festas? Vocês viram na televisão? P/1 – Na televisão sim. R – Vocês imaginam aquele monte de fantasias. P/1 – Era realmente. ___________ R – Tudo guardado aqui na escola de Campinas. P/1 – Gente. Não jogavam nada fora, então? P/2 – Como se guarda uniforme de fanfarra? R – Era tudo de alta qualidade. Não pense que era uma roupa de aparecer na televisão. Era tudo, se “bobeasse”, tafetá de seda, juro por Deus. Era cada fantasia maravilhosa. P/1 – Eu me lembro. Eu chegava da escola, e na minha casa era meio que obrigatório ver a transmissão. R – As roupas eram... Eu olhava aquilo, eu falava: “Eu não estou acreditando”. Era coisa assim, você não tem noção. E a filmagem. Aquelas gruas, sabe? Era um negócio. Os alunos ficavam todos sem aula, gente, pra fazer aquilo, em novembro. Os professores ficavam sem saber o que fazer. É uma coisa louca. Aí eu cheguei pro meu avô, falei: “Avô, olha, eu queria falar uma coisa pra você”. O meu avô era tão simples, eu não sei porque todo mundo ficou tão desesperado. Eu falei: “Olha, eu vou falar uma coisa pra você. Eu acho essa festa de ação de graça, eu acho bacana, acho tudo, mas olha, o ano que vem vai chegar na Broadway”. “Eu entendi”. Eu não precisaria continuar, não demorou nem um minuto. “Eu já entendi, eu já vi que cada ano eles querem fazer maior”. Eu falei: “Exatamente. Outra coisa, o valor de uma fantasia é o salário de um professor”. “Pode acabar”. Pronto, acabou a festa. Não demorei nem um minuto. Fala. P/1 – Porque a tradição diz que quem quis fazer isso sempre foi ele, né? R – Não é. Começou pequeno. Só que o pessoal aqui cada vez queria fazer a coisa maior. Olha... P/1 – Tinha coreógrafo, né, que contratavam, não é isso? R – No último ano que eu participei veio aquele César Augusto Vanucci. Gente, era grua. Sabe aquele negócio de filmagem de cinema, que sobe e desce? Não estou brincando. Era maquiador para maquiar não sei quantas centenas de crianças. Você sabe o que é isso? Lanche, alimentação para essa tonelada de criança, dias e dias. Não era uma hora, por que não dava certo em uma filmagem, faz de novo, faz outro dia. Vinham crianças de Campinas. E as filmagens de helicóptero. O que é isso? É coisa cinematográfica, isso é um absurdo. As crianças ficavam sem prova, sem aula, sem estudar. Aí eu falei pro meu avô, falei: “Vô, eles não são atores, eles são alunos”. Tinha coreografia de dança, era uma coisa. Aquela meia hora, gente, ficavam meses para ensaiar. Eu vi aquilo. P/1 – E aí ele concordou numa boa? E as outras pessoas? R – Não, estou pouco me lixando, sei lá. P/1 – Não deve ___________ R – Como que não? Ganhava um dinheirão, né? E quando chegou os croquis na minha sala com as roupas, o que seria do ano seguinte? Eu quase caí dura, você não tem noção. As filmagens começavam no Rio Grande do Sul, acabavam em Manaus. Iam correr o Brasil todo. Eu falei: “O que? Vocês estão ficando loucos. Eu vou acabar com isso”. Era uma coisa faraônica, entendeu? Não tinha coerência. A gente está falando de uma fundação que lida com crianças carentes, que está falando de educação e está fazendo uma festa desse tipo? Eu lembro que tinha uma cena, eu li no negócio, que as crianças desciam as dunas de Santa Catarina. Eu falei: “Esses caras estão birutas", sabe? P/2 – Quer dizer, de uma coisa tão singela, digamos assim, seu avô gostava de fazer a Ação de Graça, a gratidão, virou uma coisa cinematográfica. R – É, eu não estou brincando. P/1 – Realmente você, eu me lembro, até essa visão sua, o ano que vem, papapá. Eu já tinha aquela visão, achava que era um... R - Por quê? Começou com o pessoal aqui, que organizava essa festa. Teve um ano que o cara foi mesmo pra Broadway para assistir todos os espetáculos, imagina você. Ah, dá licença. P/2 – Denise, bom, é muito interessante... R – Olha quanta coisa eu peguei junto. P/2 – Essa mudança, você ainda estava com o seu avô discutindo com ele e ele... R – Não, era assim. Eu tinha uma sintonia muito boa com ele, mas eu também não falava nada da fundação pra ele. Eu via que tinha um monte de coisa errada, mas não falava nada pra ele, nunca falei nada. P/1 – Mas essa é uma questão importante, que até eu ia colocar. Aquelas conversas na biblioteca continuaram? R – Ah, mas eu nunca falei nada sobre a fundação. P – Ah, não da fundação. R – Não, eu falava de mim, da minha vida, aquela coisa, mas nunca da fundação. P/1 – Ele não te perguntava ______ R – Nada. Não, sabe por que? Era uma coisa assim de bom senso. Ele já tinha 80 e poucos anos. Ele idolatrava a fundação. Não ia ser eu que ia chegar para ele e falar: “Olha, não é nada disso, acontece...”. É um absurdo, né? Eu nunca ia fazer isso, não tinha cabimento. Inclusive porque eu acho que, se eu estou aqui, se eu acho que não está bom, eu tenho que mudar, não ficar falando isso pra ele. Isso é ridículo, parece menina mimada, entendeu? “Olha, não está bom, você é que muda”. É ridículo, né? Eu acho, imagina, eu jamais faria isso. Eu detesto gente que faz isso, sabe? P/2 – Eu queria entender, por exemplo, na ação de graça, você pôde chegar para o seu avô e conversar. Alguma outra tradição que você quis mudar? Como é que era o sentimento: “Puxa, isso vem lá do meu avô?”. Como é que era pra você transformar? R – Não tem nada assim. Como assim, uma coisa que vem do meu avô? P/1 – Que era um mito da fundação e que você foi quebrando, lógico, além de todos esses desafios que você venceu, fora o ação de graças. Tinha alguma outra tradição, algum mito? R – Não sei, tinha? P/1 – Não, não sei, estou te perguntando. R – Eu acho que é isso mesmo, ação de graças. P/2 – Assim: “Puxa, isso era tão importante pro meu avô e eu estou querendo mudar na minha nova visão”. Não, você foi indo, né? R – Foi indo. Olha, eu nunca falei nada que estava errado, que eu achava que era feio, sabe essas coisas, pra ele ir lá e fazer. Nunca. Nunca falei nem do Monteiro, você acredita? Aquela praga. P/1 – Você acha que você continuou o sonho do seu avô? R – Olha, eu sempre procuro fazer o melhor que eu posso. P/1 – Isso não é uma sombra pra você? R – Não. P/1 – Sombra _____, não? R – Não, de jeito nenhum. Eu nunca penso nisso, para falar a verdade. Eu sempre procuro fazer o melhor que eu posso, pensando grande. Eu sempre penso muito grande. Então, por exemplo, quando a gente vai lá pros Estados Unidos _____, essas coisas alternativas por aí. Então a Ana fica me atazanando com um negócio que o meu avô falou pra ela uma vez, me dá vontade de bater nela. “Não, porque o seu avô falou pra mim que você tem que mostrar a fundação para o mundo, pros Estados Unidos”. Eu fico olhando pra ela. Eu estou pouco me lixando se o meu avô falou isso pra ela, entendeu? Sabe por que? Porque eu não estou vivendo sob esta frase que ela está. Eu sei que ela está, ela _____________. Ela me enche com isso, com essa minha função, ela fala, porque __________ Eu falo: “Eu nem estou pensando nisso, não estou aqui pra fazer isso e não estou preocupada com isso”. Eu estou preocupada com o fato de que todo mundo fica muito preocupado porque ninguém conhece a fundação. Nossa, existe essa preocupação grande aqui. Eu sinto isso. Aliás, todo mundo fala isso. Eu não tenho essa preocupação, porque eu acho que a fundação será conhecida por ela mesmo, pelos seus alunos, não é fazendo propaganda. “Ah, porque vocês não fazem propaganda?” Pô, eu vou gastar um milhão de reais fazendo propaganda? Um milhão de reais eu conserto todas essas bibliotecas aí. Vocês podem falar pra mim, eu falo: “Eu não vou fazer propaganda. Quanto vai custar?”. “Dois milhões que custa uma propaganda Vai passar no horário nobre então, uma semana, 30 segundos, custa dois milhões.” Gente, desculpe. Uma construção de uma escola custa quatro milhões, desse tamanhão aí que a gente faz. Com dois milhões a gente melhora todas as bibliotecas que a gente quer. Pra que fazer propaganda? P/1 – É muito coerente isso que você está dizendo. R – Não tem pé nem cabeça isso, pra quê que eu quero propaganda, não está precisando de aluno. Aliás... P/1 – Hoje tem o que? 150 mil, é isso? R – 107 mil alunos. Espera. Já pensou na quantidade de gente pedindo vaga aqui no dia seguinte? Tudo de graça, você sabe né? P/2 – Aquela questão ________, que eu acho fundamental. Quer dizer, você já pensa nesse menino durante ___ R – É claro, 13 anos, 14 anos, pelo amor de Deus. Eu quero que a fundação seja conhecida pelos seus alunos. P/1 – Agora, ela tem uma importância dentro dessa história do Brasil também? R – É claro. P/1 – _____ pode ser. Eu até não concordo com o fato de que ela não é conhecida, eu acho que ela é. R – Bom, todo mundo, eu por exemplo não me preocupo com isso. Todo mundo fala isso, todo mundo. Essa semana mesmo o Márcio falou pra mim. P/1 – Acho que tem um trabalho, talvez. A fundação é um exemplo em termos de educação, se você pegar, é aí que eu quero chegar. R – Aí eu falei pra ele: “Olha, Mário, os empresários não conhecem porque não são desta área, eu acho isso. As pessoas que são dessa área conhecem. Os empresários que não são da área de educação não conhecem. Os empresários da área de economia conhecem tudo de economia, certo?” P/1 – E alguns empresários de mente muito aberta conhecem ou já ouviram falar, conhecem. R – Uma pessoa de cabeça mais aberta conhece, entendeu? P/1 – Eu até sei que vocês têm alguns projetos em conjunto com alguns institutos. R – Exatamente. P/1 – Eu acho fantástico isso. Aliás, eu ia te perguntar se isso é o futuro, de repente amanhã você ter toda uma cultura empresarial brasileira que volta-se para isso, de uma forma ou de outra? R – Olha, eu acho que é. Eu acho assim, que hoje em dia todo mundo está pensando nisso, todo mundo, na minha opinião. E todo mundo está procurando a gente porque, com a Internet o povo começa a clicar e descobre que a gente é o mais antigo nesse negócio. Aí começa a procurar. Ontem mesmo me ligou lá a Luana da Fundação Lemann, pra me pedir pra falar pros jornalistas e tal. Eu falei: “Ah, tudo bem, falo que a gente é o mais antigo e tal. Tudo bem, falo”. P/1 – Mas não é só por ser mais antigo ____ R – É, porque não é assim também. Que tem umas fundações de não sei quantos anos. Mas é porque, além de ter um certo tempo, existe operando o próprio projeto. Não fica fazendo projeto e distribuindo papelzinho por aí, entendeu? Tem os alunos, têm o nome do aluno que está lá sentado na carteira, está todo mundo ali, você pode ir visitar, não sei o que, entendeu? Opera o próprio projeto. P/1 – E aí faz essa diferença na educação brasileira? R – Faz muita diferença. Isso é um diferencial enorme porque não tem quase nem um que faça isso. P/1 – Vocês têm assim um paparico do governo, não? R – Nenhum, pelo contrário. Nenhum, imagina, que louco. Agora, o Secretário de Educação de São Paulo, o Chalita, é o primeiro que tem uma postura diferente com a gente. Por ele ser mais novo, meio poeta, ele tem uma relação muito legal comigo. Então ele é mais meu amigo, me liga sempre, entendeu? A hora que eu pedir, ele vem aqui e fala, dá palestra pros professores. A hora que eu pedir ele vem, mas é o único. Os outros nem recebem a gente, os outros Secretários da Educação. P/1 – Mas você nunca pensou nisso, quer dizer, a fundação tem um trabalho tão bom, tão importante, que ela deveria interferir nas políticas públicas também nessa área. R – Sim, mas eles têm inveja, têm ciúme. P/1 – Mas você já pensou isso, ou nunca pensou? R – Claro que pensei, mas eles acham que nós estamos competindo. O que eu vou fazer? A cabeça do brasileiro. Eles acham assim: “Não, não podemos nem chegar perto”, porque eu sei o que eles pensam, que eles fazem melhor que a gente. Então, não querem que ninguém compare. É assim que um político pensa. O Chalita tem outra cabeça, é um cara que tem uma cultura impressionante. O cara é formado em tudo, sei lá, em semiótica, não sei o que. Eu falo: “O que é isso?”. Ele chega pra mim e fala: “Não, então pera aí. E se você ajudasse tal e tal escola pública?”. Eu falo: “Pode me dar o nome aí que a gente ajuda”, entendeu? É outra cabeça. Até outro dia... P/1 – Ajuda como? R – Nós colaboramos com um monte de escola pública. P/1 – Mas com dinheiro? R – Não. Treinamos professores. Ele não pede dinheiro, ele pede essa outra coisa. Ele pede treinamento de professores, para ajudar nessa outra parte. Não, nunca pediu dinheiro, nem um centavo. P/1 – Desculpe, eu te cortei. Nesse outro dia, o Chalita é que te pede, enfim, daqui a pouco pode ser que você lembre. R – Ah, daqui a pouco eu lembro. P/1 – É, porque isso também é interessante, quer dizer, vocês fazem muito esse intercâmbio de professores... R – Ah, sim. P/1 – ... entre as escolas da fundação e entre escolas... R – E entre as escolas públicas que estão no entorno de cada escola. Isso também foi uma coisa que começou há pouco tempo, porque até pouco tempo a fundação era voltada para si mesma. E eu comecei, falei: “Enquanto a gente ficar entre os nossos muros não tem mérito nenhum”. Hoje é assim, sabe? Havia um prêmio aí, e a gente não ganhava. O senhor João ficou louco. Eu falei: “senhor João, o senhor me desculpe, mas nós não vamos ganhar nunca, eu não vejo mérito”. “Não, mas essa feirinha aí que toma conta de 60 crianças ganhou. Essa feirinha ganhou”. Ele falava, ficava louco da vida. “Essa feirinha aí que toma conta de 60 crianças ganhou o prêmio e nós não ganhamos. Temos não sei quantas escolas”. Eu falei assim: “O senhor me desculpe, mas ela tem muito mais mérito do que nós”. “Como?” Eu falei: “senhor João, veja bem. Nós temos um monte de dinheiro, ___________ isso aí, não estamos fazendo nada demais. Essa coitada não ganha um tostão, ela tem que se matar pra conseguir isso aí, tem que ganhar mesmo. Enquanto a gente não sair dos nossos muros nós não vamos ser conhecidos por ninguém”. Foi difícil também isso, eles entenderem essa frase, que não adiantava a gente ficar lá com os nossos alunos, você entendeu, que tinha que sair da comunidade e não deixar a ________ . É melhorar a comunidade, sabe? É ir além, transformar, melhorar a escola pública que está do lado, chamar os professores de escola pública. Até fazer isso também foi difícil. P/1 – Mas está nesse caminho? R – Está, agora está. Está bacana. P/1 – Então daqui a dez anos, quem sabe? É um prazo pequeno esse, dez anos. R – Agora todas as escolas colaboram com as escolas públicas que estão no entorno. P/1 – Isso você quer dizer aqui em São Paulo? R – No Brasil todo. P/1 – No Brasil todo? R – No Brasil todo, virou uma política. P/1 – Alunos daqui com alunos da escola pública? R – Não, por exemplo, as escolas que estão em cada lugar têm que olhar a escola pública que está perto, ajudar, colaborar. Se dá um treinamento, dá um treinamento ali também, entendeu? P/1 – Isso é muito legal. Eu acho que esses dados são importantes pra gente levantar. Esses dados são muito importantes. É interferir mesmo na política pública. Eu acho que é essa a visão que está faltando, talvez, para essas fundações que põem um nome bonito e um escritório maravilhoso, e... R – Sabe porque? Nós temos esse dinheirão e temos essas escolas, vamos falar sério. Não estamos fazendo nada demais, né? Quer dizer, estamos porque existe uma fundação, tal, mas vamos fazer além, entendeu? Se dá pra fazer, né? P/1 – Isso também é futuro. R – É. Você sabe, tem que melhorar o entorno, não é só aqueles tantos que se formam todo ano. Esses tantos, é dando o exemplo. Como que é dando o exemplo? A gente fazendo além, eles têm que fazer além também. Mas, você entendeu, tudo é educação. E daí, por isso na cabeça do povo, desde aqui de cima, e chegar lá. P/1 – Mas isso o pessoal aqui já entendeu? R – Já entendeu. No começo falava: “O que é isso? Está louca?”. P/1 – É que é mais fácil você falar: “Deixa que eu vou cuidar do meu pedaço e o resto que...” R – “Já está dando problema isso aqui, ____”. P/1 – Bacana isso. R – _______. É difícil. P/1 – Muito bacana. Denise, você teve um montão de desafios, né? Qual foi o principal, o fundamental, aquele que você fala: “Puxa vida, esse aqui...”, de tudo isso que você contou? Porque eu acho que a tua trajetória na fundação... R – O mais difícil? P/1 – É. R – Ah, eu acho que foi assumir esse cargo. P/1 – Assumir? Que foi o primeiro então? R – Ah, eu acho que foi o primeiro. P/1 – Mas você está desde 1988. Dá quantos anos isso? R – Eu sou ruim de conta. P/1 – Deixa eu ver, 1988... R – 18 anos, o mesmo tempo que eu sou casada. P/1 – Daqui a pouco eu vou perguntar isso. E assumir isso pra ti foi o maior desafio? R – Sabe, é porque no começo eu acho que eu não tive muita idéia do que era. No dia que o meu avô falou, eu falei: “Mas espera um pouquinho. Você vai me pôr no meio do senhor Carlos e do senhor João?”. Eu não acreditei, falei: “Você está louco?”. “Uai, qual o problema? O João é demais”. Eu falei: “Você está louco? Como assim? Eu não sei o que eu vou fazer”. “Ué, vai fazer _______”. Nossa, minha filha, eu cheguei em casa eu não sabia nem o que eu fazia. Eu falei: “Meu Deus, e agora?”, porque é aquela história, eu não posso voltar atrás. Igual ao NYU, eu entrei, e agora tenho que fazer. O maior? Ah, eu acho que é este mesmo, que, sabe, eu não posso nem me perder ____ depois. Não, né? Nossa, não posso nem me livrar disso. P/1 – Você estava falando de dinheiro, a fundação é super bem administrada, né? R – É, porque é assim, é bem administrada porque a gente economiza até nos nomes. E, isso é muito legal, todo mundo tem muito essa consciência, sabe, de que não é pra gastar. Então, por exemplo, no orçamento, “Então esse ano vamos melhorar a biblioteca?”. “Vamos”. “Temos essa meta? Então vamos melhorar quantas? Uma, duas, cinco?”, entendeu? Não é quarenta de uma vez, não. É algumas. P/1 – É que antigamente era assim, né? O que fazia pra uma tinha que fazer pra tudo, né? R – Não, sempre foi um pouquinho, desde o começo. Por isso que ela é assim hoje, entendeu. Então, por exemplo, nós temos uma coisa que é cobrir as quadras de esporte, porque o Brasil é um calor do cão, né? Então nós vamos cobrir as quadras. O Brasil, com esse calor, não tem mais inverno. Então você imagine Manaus. Que horas faz educação física? Cinco horas da manhã. Só que, pra cobrir essas quadras, gente, é uma fortuna, 400 mil, 800 mil para cobrir as quadras. E não dá para cobrir todas as quadras. Então vamos cobrir, sei lá, duas por ano. Então vamos fazer isso nessa e cobrir a quadra dessa, vamos fazer isso entendeu? Tem, mas também não é fazer tudo pra todo mundo. Muita coisa que o banco não quer mais, doa pra fundação, ar condicionado, a gente pega tudo, computador, ar condicionado, mobiliado, a gente aceita tudo. P/1 – Vocês têm um bom relacionamento, Fundação Bradesco e Banco? R – Nossa, é uma sintonia total. Toda escola conhece o diretor regional, conhece o gerente, tem uma grande sintonia. Isso é uma coisa muito legal. Eles visitam a escola, levam até clientes do banco para conhecer. Eles têm muito orgulho, isso é muito legal, até muitos que não têm filhos que estudam. Porque essa coisa de que o funcionário estuda na fundação também é um mito. Não é, é só aqui em São Paulo, entendeu? No resto do Brasil não é, não tem nada disso. E eles levam, eles sabem tudo da fundação, assim como a diretora sabe tudo do banco também, tamanho de agência, quantos funcionários, aquela coisa. Vai sempre na agência, conhece. P/1 – E, me fala, Gustavo, o marido, é isso? R – É o marido. Também conhece tudo, sabe o nome das diretoras todas. P/1 – Ele trabalha no banco, você estava dizendo? R – Não, trabalha na administração de bens. P/1 – Como é que você conheceu o Gustavo? R – Conheci ele em Nova York. Eu conheci num dia, eu vim embora no outro pra casar com outro. P/1 – Você ia casar com uma outra pessoa? R – Com uma outra pessoa. Aí eu vim pra São Paulo, que eu estava... Essa época que eu vim pra ficar uns seis meses aqui, eu achava que eu ia parar o mestrado. Aí eu vim, vi que não era bem isso, voltei para Nova York de novo e fiquei seis meses lá com ele. Aí ele ia ficar mais seis meses lá. Daí ele voltou pro Brasil e eu fiquei mais lá pra acabar o mestrado. Aí, quando eu voltei, a gente casou. Aí eu não casei com aquele, né? Que pena. P/1 – E foi, então, amor à primeira vista, pelo jeito? R – Ele conta, não sei se é verdade, não sou eu que vou falar, mas ele fala que quando ele me viu ele falou: “Eu vou casar com ela”. P/1 – Olha que bonito. Vocês estão casados há 18 anos? R – 18 anos. P/1 – Quer dizer que nessa tua transformação, nesse momento que você deixou de ter medo e enfrentou esse desafio, pegou o avião e foi, ele foi junto curtindo, achando legal? R – Ele é muito assim, ele é engraçado, sabe? Ele tem alma boa, sabe assim, easygoing, fácil, sabe? Tudo ele dá risada, tudo ele tira de letra. P/1 – É bom isso. R – Então, se eu estou desesperada ele dá risada, faz uma piada, entendeu? P/1 – Às vezes você fica brava, às vezes você ri junto, entendeu? R – É. P/1 – Bacana. Vocês têm um relacionamento bacana com as crianças, tudo? R - Têm, é muito legal. Ele é aquele paizão. P/1 – Pelo que você está falando, quer dizer, todo mundo participa da Fundação Bradesco _______. R - Participam. Isso é uma outra coisa. Por exemplo, eles não entendem porque que eles não estudam aqui. Eu falo: “Porque a escola é longe”. Isso é mesmo. Eu moro na Vila Nova Conceição, imagina eles virem pra Osasco todos os dias. Tá louco, que horas eles vão acordar? P/1 – E eles querem estudar aqui? R – Querem. O meu do meio não entende: “Porque que eu não estudo lá?”. Eu falo: “Porque é longe, você vai ter que acordar mais cedo”. Porque outro dia que eu me dei conta, que minha cunhada falou: “Sabe o quê que é? Você fala muito da fundação”. “Mas é onde eu trabalho”. “Então, mas é por isso”. Ontem mesmo eu me dei conta e falei uma bobagem. A minha filha pegou e falou assim: “Não sei porque que tem essas quadras de tênis no Santa Cruz, devia ter uma piscina”. Eu falei: “Na fundação tem piscina”. Eu falei: “Ah, eu fui falar”. Devia ter ficado quieta. P/1 – Mas eles vêm aqui? R – Vêm. Aí ela, na hora: “Tem quadra de tênis na fundação?” Eu falei: “Claro que não”, que não vou falar outra bobagem. Aí já mudei de assunto rápido pra não continuar. P/1 – Você conversa com eles, quer dizer, eu quero que as pessoas sejam cidadãs. R – Claro, direto. P/1 – Você acha que um dia eles vão se interessar por isso aqui, por tocar? R – Ah, não sei. Meu filho é um menino muito objetivo, muito centrado. P/1 – O do meio? R – O do meio. P/1 – É a Luiza e depois é... R – É o Rubens e a Mariana. A Mari, que tem sete anos, é meio maluquinha, é meio doidinha, mas a mais velha é adolescente, está sonhando com esses 15 anos. Agora, ele é um menino muito centrado, sabe assim? Só lê, sabe esse tipo? Meio que só lê, ai meu Deus, só lê. P/1 – Ele dormia na biblioteca? R – É. Só lê, só pede livro, só gosta de livro sério, como ele mesmo diz, de outro século, do século passado. Ai meu Deus. P/1 – Bacana. Mas você algum dia pensou nisso, não? Porque eu acho que você é tão de futuro, né? Mas você pensou isso? Você olha pras crianças e pensa: “Nossa, um dia esses meninos vão tocar a fundação”? R – Não. P/1 – Você não pensa nisso? R – Não, nunca. P/1 – Se acontecer, vai ser natural. R – Ah, sim. Eu nunca pensei nisso, sabia? Eu acho que... Eu nunca pensei nisso. P/1 – Legal. Denise... R – Está um calor aqui, vocês não acham não? P/1 – Nós vamos encerrando. Denise, não sei se faltou alguma coisa. Eu acho que faltou te perguntar alguma coisa que você queira falar, que isso também é a qualquer momento. Mas eu queria que você falasse um pouco agora do Projeto Memória. Eu lembro muito bem da gente decidindo esse projeto, e hoje a gente está aí. Você é a quadragésima terceira pessoa a ser entrevistada. E não sei, o que você acha desse projeto? O que ele está representando para a fundação? Além, claro, do livro. Não é isso que eu estou te perguntando. Eu estou te perguntando o que ele representa, assim, do ponto de vista emocional, não sei. R – Olha, pras pessoas eu vou dizer. Eu não sei nem se as pessoas relacionam com o livro, para falar a verdade. As pessoas estão maravilhadas, vêm me agradecer de terem sido indicados para vir falar. Estão maravilhadas assim, sabe? É muito legal. As pessoas me falam, eu até esqueço o que é. _____________ “Nossa, eu queria agradecer a entrevista”. No começo eu disse: “Qual entrevista?” “A do livro”. Porque, sabe, já faz tanto tempo. Elas estão assim, é tão engraçado que eu falo: “Nossa, está parecendo mais uma terapia do que uma...” Mas elas estão maravilhadas. Eu acho que está sendo muito legal, elas estão se sentindo muito valorizadas pela história, pelo tempo e pelo trabalho, eu acho, fazendo parte da construção de uma obra grande, importante, do Brasil, eu acho. É como se nesse momento elas tivessem se dado conta de como elas são importantes, porque o trabalho faz com que elas não percebam isso no dia-a-dia. Faz com que elas fiquem maio automatizadas: “Ah, faça isso, faça isso, faça isso” e não percebem. E de repente, este momento, de parar e conversar, que é uma conversa, né? Não é muito pergunta e resposta. Essa conversa faz elas se darem conta de como elas foram importantes na história, na construção dessa obra que é importante dentro do país. Eu acho que elas se sentiram extremamente importantes e valorizadas. Isso a gente percebe, eu percebo. Elas ficam felizes, muito felizes. P/1 – Acaba sendo uma via de mão dupla, porque isso acaba refletindo, não? Volta também para a fundação isso? R – Ah, sim. Elas chegam, nossa, no dia seguinte que elas saem daqui elas chegam super _____ agradecer agora, todo mundo. Eu falei: “Só falta vir aqui o senhor Carlos, a Regina, todo mundo voltar de novo”. Porque as pessoas que foram saindo da fundação, eu procuro ter e sempre tive uma relação muito boa, não sei se eles falaram pra vocês? P/1 – Sim. R – Pra Regina eu sempre procuro dar um jantar na minha casa, todo ano ela vai, a Márcia, todo mundo. Até se tem alguma coisa eu mando um convite pra elas, elas vão ao teatro, porque eu não tenho essa separação, essa... É muito bobagem isso aí, entendeu? Eu acho assim, que a Regina foi uma pessoa importante na escola. A Márcia é também muito importante. São pessoas que contribuíram muito na construção. Não é uma escolinha de meia dúzia, de 100 alunos. É uma escola de sete mil. Outro dia eu pedi um carro no transporte pra me buscar na fundação, você não acredita. O cara que atendeu o telefone, lá no transporte do banco, eu falei: “Olha, eu estou aqui na fundação”, porque aqui tem muito prédio, né? Eu falei: “Eu queria um carro aqui”. Eu como já sei, eu falei: “Você sabe onde que eu estou?”. “Ah, sei, Dona Denise, a senhora está aí na fundação”. Eu falei: “Eu sei que eu estou na fundação. Você sabe qual é o prédio?”. “Ah, sei. Aí no ginásio?” Eu falei: “Não, eu não estou no ginásio de esporte”. “Ah, então está na sala da Dona Regina?”. Eu falei: “A Dona Regina já foi embora há dez anos. A sala da Dona Regina não é mais a sala da Dona Regina, é dentista lá agora”. ____________________. Foi no ano passado, o cara me fala isso, a sala da Dona Regina. Eu falei: “Que sala da Dona Regina? A Dona Regina já foi embora há dez anos”. Mas você entendeu? Olha a referência que ela é até hoje. Todo aluno lembra dela, não tem ninguém que não se lembra dela. E ela era brava que era uma coisa, Nossa Senhora. Até eu tinha medo dela. Eu falei: “Nossa, Regina, mas você era brava um tanto que não tem idéia. Até eu tinha medo de você”. Então é legal isso, sabe, das pessoas estarem se sentindo assim. Porque o cotidiano não faz elas sentirem essa importância. E acho que isto está sendo muito legal para elas. E, você não tem noção, o que todo mundo falou pra mim. _________. Eu falei: “Gente, mas que tanto vocês estão falando? Tem que decorar alguma coisa?”. Todo mundo falou isso pra mim, eu não sei há quanto tempo estão falando isso pra mim. “A senhora não sabe?”. Eu falei: “Gente, vocês estão me pondo preocupada”. Sabe assim? É engraçado isso, porque é expectativa deles. Olha, eu já ouvi gente falar: “Não, eu vou _____ do começo ao fim”. Já me perguntaram: “Como será que vai ser escrito?”. “Eu não tenho a menor ideia. Já inclusive falei que eu não quero ver antes, eu quero ver pronto”, porque senão eles vão começar a perguntar. Eu já pensei, olha, já me falaram o seguinte: “Eu pensei que vai ser igual o Dráuzio Varella” Eu falei: “Nossa, do Carandiru?” Assim, pequenos relatos. Eu falei: “É?”. “Ah, eu pensei”. Olha, quanta gente, olha que engraçado. Você vê a expectativa que está em cima do livro. Não é legal? P/1 – É muito legal, muito mesmo. R – Eu acho super legal. P/1 – E que de repente a gente nem pensava nisso, né, Denise, quando a gente pensou que ia virar tão importante pra eles. R – Não, a própria ngela falou pra mim assim um dia: “Você está quebrando um tabu”. Eu falei: “Eu? Como assim?”. “Nunca ninguém fez isso no banco”. “Por quê?”, eu falei pra ela, “Eu não entendi”. “Nunca ninguém fez isso no banco. Ninguém nunca fez um livro que as pessoas não vão ler antes”. Eu falei: “Ótimo, sempre tem uma primeira vez, filha. Você acha que este livro de 250 páginas você vai ler, todo mundo vai ler, vai querer mudar uma vírgula, um parágrafo? Ninguém vai ler nada. Vai deixar a gente louca, não vai ler nada. Nem passa isso pra fundação, por favor”. P/1 – Não, eu vou fechar com as meninas.. R – Porque você não tem noção. “Ah, eu não quero que ponha a palavra X, eu quero a palavra Y”. P/1 – Nossa, eu estou adorando isso. Isso pra nós é o pior momento. R – Sabe o que acontece? As pessoas têm muita vaidade e todo mundo quer por uma vírgula, quer ser aquele que pôs a vírgula. Isso é uma bobagem no contexto, entendeu? Ninguém está se lixando quem pôs isso, quem pôs aquilo, o importante é o livro. É difícil aqui o povo entender. São muito poucas as pessoas que têm a visão do todo. É engraçado, sabe? E isso eu já entendi, é só as pessoas que têm os cargos mais altos. Às vezes eu levo um negócio pro senhor Brandão e ele olha: “Assim está ótimo. Não precisa nem mudar, pronto”. Leva isso pra um gerente: “Ah, tem que mudar isso, mudar aquilo” _______, adorou: “Não, isso aqui tem que pôr um pouquinho pra lá, um pouquinho pra cá, muda esse adjetivo, esse verbo”. Eu não tenho saco. Que diferença vai fazer no todo? Nenhuma. É pra falar pros outros, né? Sei lá. P/1 – E já que a tua entrevista era a mais esperada, o que você achou de ter dado a entrevista? R – Achei não. Todo mundo falou: “Olha, é do futuro, do futuro”. Eu falei: “Nossa, porque eu tenho que falar do futuro”. P/1 – É porque você me passou muito essa coisa. Eu disse à Damaris aqui, falei: “Nossa, a Denise é o futuro da fundação”. É a opinião que nós tivemos. R – É o futuro, mas é difícil viu? P/1 – Sim, mas você é. R – Porque todo mundo aqui está muito enraizado no passado. Não é o passado da fundação, o passado delas mesmas. É difícil. P/1 – Porque a história como um todo te referencia daqui a 100 anos. Ela vai te dar o norte, te dar a base, tudo bem. R – É assim. Quando a gente cria filho, eu vejo isso hoje. Não por mim, porque eu já entendi que eu sou diferente, mas a maioria das pessoas quer fazer com os filhos como fez com ela mesma. Ela não entende que já mudou o tempo. Eu tenho uma amiga que faz os filhos chamarem ela de senhora. Eu acho isso um absurdo. “Você é louca?”, eu falei pra ela outro dia, “Você é doida?”. “Não, mas...” Eu falei: “Eu vou contar pra você uma coisa pra você que talvez você não tenha notado”. Ela quase me matou. “O muro de Berlim já caiu, o mapa do mundo já mudou. A bandeira da Rússia é outra, não tem mais nem a foice. O que você está fazendo seus filhos te chamarem de senhora? Você é doida?” As meninas: “A senhora”. Eu falei: “Que senhora? Não chame a sua mãe assim”. Ela quase me matou. Passa um tempo, ela me liga, que o menino precisa ir na terapeuta. Eu falo: “Ah, não diga. Porque será, não?”. Bom, daí foi, indiquei tal. Depois ela me liga, ela mesma que contou, eu nem pedi pra ela contar: “Não, essa coisa de chamar de senhora”. Eu falo: “Bem feito. Agora você aprendeu que isso não adianta nada?”. Percebe? Há um tempo atrás todo mundo fazia isso, mas só os filhos dela, no contexto, chamar ela de senhora, é uma loucura. Ela pode não se dar conta, mas as crianças estão se dando conta. Então a gente querer fazer com os nossos filhos o que fizeram com a gente... Daqui dois anos vai ter o que? Ainda está querendo chamar a mãe de senhora, pelo amor de Deus, em São Paulo? P/1 – Mas é isso, na medida em que a gente acha que você é o futuro, com todas as dificuldades que eu imagino mesmo, e até já imaginava, que você hoje conta pra gente, mas isso não significa que você não é. Você é, quer dizer, você é o elo entre o que a fundação foi, o que tem de bom, e o que pode ser aproveitado, que também você não pode apagar, não é isso? R – É claro, nem quero agora. Eu acho que não posso e nem quero apagar. Eu acho que tudo faz parte. O que eu quero, a minha luta, o que eu tento mostrar pras pessoas, é que elas têm que sempre olhar pra frente e querer mudar, e querer melhorar a cabeça desses alunos. Não é porque eles são pobres. Olha, quando a gente foi montar essa escola aqui no Jardim Conceição, eu até falei pros professores: “Vocês vão agora assumir uma escola, uma escola grande, bonita”, porque essa é uma outra coisa legal que eu acho da fundação. É uma escola para pobre, uma escola de rico para criança pobre, como falam os americanos quando vêm aqui. Não é isso. Se a gente... É uma escola normal pra mim. Eu não estou vendo esses alunos pobres ou ricos, nada. É uma escola normal, e para criança. Eu até comecei a pensar assim depois que esses caras falaram isso, esses americanos. Eu falei pros caras: “Criança é criança em qualquer lugar. Não existe criança pobre e criança rica, é tudo igual, aprende da mesma forma”. Quando eu entrei na fundação era assim: “As crianças aqui não aprendem como as outras crianças”. Eu falei: “Olha, de onde vocês tiraram isso?”. Nossa, eu quase apanhei. Eu falei: “Olha, criança subnutrida é muito diferente do que vocês têm aqui. Crianças subnutridas são aquelas lá na Etiópia, na África, que são esqueléticas. Não é nada disso que vocês têm aqui. E outra, a partir do momento que entra aqui, todo mundo parou de ser desnutrido, pelo contrário. Então, ninguém tem dificuldade nenhuma aqui, vocês estão muito enganados”. Eles achavam que as crianças que estavam na fundação, que eram muito pobres, não entendiam nada. Então não ensinavam nada. Que tal? Mudamos isso também. P/1 – Você tem N exemplos de alunos que... R - Pelo amor de Deus, não preciso nem eu. O mundo inteiro tem exemplo disso, entendeu? Mas é que até isso eu tive que mudar, até esse pensamento. Que eu tive que mudar a partir daqui, porque esse cara falava isso pra todo mundo, e todo mundo acreditava. É a história do “Parabéns a você”, que não sabiam cantar outra música. Deve ser uma loucura, imagina. Agora, quando foi esse ________ eu falei com esse professor, eu falei: “Olha gente, vocês estão assumindo uma escola de crianças pobres da periferia de São Paulo, mas são crianças, viu? Vocês tirem esses adjetivos que tem aí. São só crianças e pronto”. Porque uma das professoras que entrou tinha sido professora dos meus filhos na escola, e ela era uma ______. E ela sempre fala pra mim, e ela sempre lembra disso, eu nem lembrava que eu tinha falado isso, ela falou: “Eu sempre lembro disso porque é tão verdade. É igualzinho.” Eu falei: “Escuta, aliás, a escola que você está dando aulas agora é mil vezes melhor do que você está lá, na escola particular, né?” Tem todos os recursos, a escola da Conceição e a outra que ela dá aula. É uma escola particular mas tem tudo. E é verdade. Não tem diferença nenhuma, é tudo criança, é tudo igual. Agora, o Brasil, gente, é difícil, sabe? Todo mundo fala: “Não, a gente tem que pensar no futuro, nas coisas melhorarem, tudo”. Eu falei: “A gente tem que melhorar, a gente tem que pensar no futuro. Vamos pensar no futuro, mas vamos querer também algumas coisas pra agora”. Por exemplo, me irrita profundamente quando eu vou às escolas. Por exemplo, uma em Salvador, agora não mais, graças a Deus, que eu já fui algumas vezes. As crianças nunca tinham ido ao Pelourinho, acredita? Porque eles não dão valor. Não é só em Salvador, é em qualquer lugar do Brasil que você vai, as cidades históricas importantes, sei lá, Minas Gerais, não conheciam lá os lugares de Minas Gerais. Agora não, agora eles fazem um passeio histórico. Gente, é uma loucura. Então não adianta eu querer coisas estratosféricas para a fundação, entendeu? Eu preciso querer coisas realmente que vão acontecer. Eu quero que daqui tantos anos, os três mil e tantos alunos que se formam todos os anos, quero que todos entrem na faculdade ou todos queiram entrar na faculdade, porque hoje eles nem querem entrar. Eles acham que eles não vão nem querer, não vão seguir. Já entram na escola não querendo. Isso pra mim já é maravilhoso. Se daqui 15 anos, todo mundo que entrar na escola hoje entrar na faculdade, será maravilhoso, mas pra isso tem que ter um grande trabalho de educação de qualidade nessas escolas com os professores para eles conseguirem entrar na faculdade pública. Não é tão simples assim, porque a gente vê uma escola bonita e confunde um pouco as coisas, acha: “Essa escola todo mundo entra na faculdade”. Não é porque ela é bonita que entra na faculdade, tem um outro viés da história. P/1 – Será que no Projeto Memória Fundação Bradesco 65 anos você vai falar: “Olha, todos os alunos quiseram”? R – Tomara. Deus queira, né? P/1 – Bacana, né? ______________________ R – Eu faço de tudo. É o que eu falei, eu faço o melhor que eu posso. Eu vou atrás. Olha, eu fui uma vez para Salvador. Quando eu vi isso eu falei: “Eu vou voltar de novo outro dia”. Agora essa vez eu fui lá: “O nosso passeio está agendado para o dia tal”. Agora já estão com vontade de ir ao cinema. Nunca foram ao cinema. Você sabe, nossos alunos nunca foram ao cinema, você acredita? Porque as pessoas não levam ao cinema, é impressionante. Então, querer entrar na faculdade é uma coisa estratosférica, entendeu, porque a maioria das crianças brasileiras nunca foram ao cinema, sabia? Não estou falando do Brasil, aqui de Osasco. Essa escola do Jardim Conceição, quando a gente abriu, eles nunca tinham ido ao centro de Osasco, não é de São Paulo. Nunca tinham passado por um túnel. O maior evento deles foi ter ido ao cinema. Quer dizer, não dá pra ir no cinema porque não cabe no cinema todo mundo, é muita criança. Nós levamos o cinema até lá. Eles amaram, o maior evento da escola foi um cinema que não é um cinema. Montaram um negócio preto no pátio, com telão, foi sem parar o dia todo. Não é uma loucura? A gente pensa que não é aqui, né? P/1 – Então é isso, Denise. Em nome da Fundação Bradesco... R – É só você falar que a gente agradece. P/1 – ... e do Museu da Pessoa. Como você disse, você é igual a todos os nossos depoentes, não é isso? Então a Fundação Bradesco e o Museu da Pessoa agradecem a sua participação. R – Eu sou da onde? P/1 – Na verdade eu queria dizer até pra você que nós agradecemos o privilégio de estarmos fazendo esse projeto. R – Imagina, eu que agradeço. P/1 – Porque realmente ele se transformou. É claro que a gente está acostumado a lidar, mas ele se transformou numa coisa muito além da nossa expectativa. R – Eu sei, é porque não é uma empresa, eu imagino. P/1 – É, mas a gente até faz de outras organizações. A gente já fez de redes de inclusão digital, enfim, mas não é isso. As pessoas daqui são pessoas especiais, pode acreditar. R – Bom, eu nunca trabalhei em outro lugar, não sei. P/2 – Pra mim foi uma surpresa porque foi uma das entrevistas mais engraçadas.
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