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História

Educação é tudo, já diria Conceição

História de: Alzelina Rosa Barbosa
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/06/2021

Sinopse

Alzelina conta com orgulho a trajetória como educadora, principalmente no tempo em que foi diretora da escola da Fundação Bradesco em Conceição do Araguaia, Pará. Dificuldades e desafios durante as décadas de 1960 e 1970 para estabelecer um trabalho em área, à época, tão remota.

História completa

Projeto Fundação Bradesco Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Alzelina Rosa Barbosa Entrevistada por Damares do Carmo e Judith Ferreira São Paulo, 17 de janeiro de 2006 Código: FB_HV027 Transcrito por Michelle de Oliveira Alencar Revisado por Valdir Canoso Portásio P/1- Bom dia, senhora Alzelina. Gostaria de perguntar o nome completo da senhora, data e local de nascimento. R- Bom dia. Meu nome é Alzelina Rosa Barbosa. Nasci em Piquete, interior de São Paulo, no dia 8 de janeiro de 1941. P/1- E o nome dos seus pais? R- Meu pai é Antonio Eduardo Rosa e minha mãe Antonia Maria Rosa. P/1- E onde eles nasceram? R- Ambos nasceram na mesma cidade, Piquete. P/1- Piquete. E as atividades do seu pai? R- Meu pai era funcionário público federal. Na minha cidade tinha a fábrica Presidente Vargas que produzia pólvora, empresa que dava sustentação ao exército brasileiro nas munições. Aí ele era funcionário dessa fábrica. P/1- O que é que ele fazia? R- Ele era, que eu me lembre, chefe de turmas. A fábrica produzia explosivos, aí depois tinha os resíduos dos explosivos que iam para um local determinado pra incinerar, era uma tarefa muito perigosa, né? Ele chefiava uma turma e depois foi responsável por esse local de incineração. P/1- A sua mãe fazia o que? R- Inclusive, ele morreu num acidente nesse local. Na época não tinha, assim, toda a tecnologia que hoje tem, né? Eles tinham que jogar lá, levar todo o material, marcar um tempo e sair correndo. Ele, como era chefe, sempre era o último que saía e numa das vezes se enroscou em alguma coisa e caiu e até ele levantar não deu tempo, aí ele ficou. A minha mãe com tantos filhos só cuidava da casa. P/1- E a senhora lembra dos seus avós paternos, maternos, conviveu? R- Não, não cheguei a conviver. Um pouco com a minha avó materna. P/1- O local onde a senhora nasceu lá em Piquete como era a casa, a cidade? R- Quando eu nasci, ainda me lembro, era uma casa grande e pequena ao mesmo tempo. Era uma casa pequena e baixa com muitos cômodos como eram as casas antigas na época, tinha um quintal muito grande. Meu pai no final de semana se dedicava a cuidar do quintal, era grande, bem grande. A gente chamava de mangueiro. Era um local onde ele criava cavalo, ele gostava de comercializar cavalos no final de semana, né, fazer troca. Mas criava de tudo; galinha, pato, plantava. Nós tínhamos horta e o pomar era um espaço grande, né, porque eram muitos filhos. Então ele criava isso. P/1- E a cidade? R- A cidade, na época, era gostosa, pequena. Vivia muito em função dessa fábrica que era a única indústria que existia lá, né? P/1- E a infância da senhora, como foi? Do que a senhora brincava? Suas atividades? R- Foi uma infância gostosa, né? Brincava com minhas irmãs, meus primos, meus colegas de rua. Era uma rua cheia de crianças. Aí depois eu fui, já com cinco anos, três e meio, quatro anos em diante pro jardim de infância. A fábrica do exército tinha um centro educacional. Era desde o jardim da infância até a escola normal. A gente passava pelo curso primário, ginásio acadêmico, ginásio industrial, porque tinha os dois. Tinha uma escola agrícola e depois um curso noturno pra quem não podia estudar durante o dia, nível médio, e a escola normal. Então, eu fiz só o jardim da infância nessa época. Era um local muito gostoso. Um prédio no meio e umas jaulas ao redor, sabe, com todo... No centro educacional o diretor era sempre um militar, porque a fábrica era do exército, né? Tinha uma vila militar, eram os militares que dominavam. E teve um militar que era do Mato Grosso e viajou muito, sei lá, ele fez um zoológico lá onde a gente estudava. Então eu achei muito bom na época porque a gente tinha contato com todos os bichos. Tinha onça, tinha cobra, tinha macaco, tinha todo tipo de pássaros, sabe? Também um aquário muito bonito com peixes de vários lugares, tinha um espaço com um búfalo, eu lembro direitinho, tinha uns jaburus. E a gente estudava, né, brincava muito e tinha esse contato com os animais de longe, assim... P/1- A senhora lembra das brincadeiras? R- Olha, as professoras, elas não tinham a mesma didática de hoje, eu brincava muito. Lembro que eles tinham umas caixas. Tinha um hospital da fábrica que era do outro lado, um riacho e um hospital bonito. Então vinham aquelas caixas grandes de remédios que mandavam pra gente brincar. Eles faziam brinquedos de madeira na fábrica, tinha um setor que fabricava bonecas, brinquedos de madeiras e tudo aquilo vinha pra gente brincar. Brincava de roda e tinha um parque infantil com brinquedos. Roda gigante, todos esses brinquedos de criança, né, a gente brincava. Foi gostosa a minha infância. Contato com animais, contato com o rio, contato com a terra, sabe? Foi uma infância gostosa. P/2- Quantos irmãos a senhora tinha? R- 10. P/2- 10 irmãos? Todos, maioria homens, mulheres? R- Não, só três homens. P/2- O resto mulheres? R- 8 mulheres. P/2- Essa escola, ela era maior parte das... A cidade era grande? R- A cidade era grande. Tinha essa escola, mas também tinha as escolas estaduais. Eu, depois de que meu pai faleceu, como era bem perto a escola estadual e eu tinha uma tia que trabalhava lá, fui pra lá. Fiz o primário na escola estadual perto da minha casa. Depois, quando terminei o primário, aí a partir daquela série que era a primeira série ginasial voltei pro departamento, pro Centro Educacional e fiz o ginásio e o magistério. P/1- E a adolescência da senhora lá. Como foi? R- Acho que foi igual. A gente tinha pouca opção, né, na cidade pequena do interior. Assim, em casa foi boa. Com a minha mãe, com meus irmãos. Tinha a escola, né, que a gente estudava, tinha um cineminha, o único lugar que a gente ia e a pracinha da cidade. Só tinha rádio naquele tempo, não tinha televisão, quase não tinha revista, assim, tinha revista, mas aquelas revistas que os pais não gostavam que a gente olhasse muito, que era a revista do rádio, revista... Que não trazia informação, né, era só diversão. Foi muito simples a minha adolescência, muito... P/1- E a escola. Como era a escola? O dia a dia, os cursos? R- Olha, a escola daquele tempo era diferente de hoje, né? Acho que apesar da maioria dos professores não terem a formação específica, eles puxavam muito pela gente. No meu tempo ainda tinha português, inglês, latim e tinha que aprender as declinações de latim, tinha que saber francês. Aprendi francês, latim, inglês desde a primeira série e a gente tinha que aprender mesmo, né, tinha que estudar mesmo. Os professores puxavam muito pela gente. P/1- E nessa escola a senhora fez até...? R- Eu fiz até o magistério. P/1- Até o magistério. R- Isto. P/1- E a senhora tem alguma lembrança marcante com algum professor, com alguma colega, alguma coisa que aconteceu? R- Eu não sei se lembro alguma coisa que marcou, deixa ver. Eu tinha um professor de português, tá velhinho hoje, mora aqui em São Paulo até. O professor Miguel, descendente de italiano. Gostava muito de cantar na sala, era professor de português e de latim também, né? Então a gente tinha os dias certos de português na semana, cada aula era de uma coisa, tinha o dia que era de gramática, segunda-feira gramática, quarta-feira só redação, sexta-feira fazia exercícios em sala e cada dia era certo. E eu, teve um mês que eu achei que minhas notas tinham subido, né, coincidiu que o professor ficou doente, aí nós resolvemos visitá-lo. Aí chegamos na casa dele, a esposa dele recebeu bem, aí ele foi apresentar os alunos, né: “Essa é fulana, fulano; essa é Alzelina muito boa aluna, mas ela não tá nada bem na minha matéria.” Eu fiquei sentida, né, fiquei sentida com ele: “Puxa, agora que eu tirei nota que eu achei boa, ele vai me apresentar dessa forma.” Nunca esqueci disso até que um dia, passou tempo, eu falei isso com ele. Ele achou muita graça [risos], né, da minha... P/2- Pra ele não estava bom ainda. R- É. Pra ele não estava bom ainda, era muito exigente. P/1- E matéria. Qual matéria a senhora mais gostava? R- Que eu mais gostava? P/1- É R- Era a língua portuguesa. Quando eu estudava, eu gostava de língua portuguesa, de línguas, sabe? Eu saía bem em inglês, francês português; eu gostava. P/1- A senhora era uma boa aluna? R- Eu achava, nunca tinha dificuldade. Meu problema sério era com a matemática. Eu passava, estudava porque tinha que passar, mas nunca fui amante da matemática. P/1- E a turma da senhora era boa também? R- De colegas? P/1- É. R- Sim, era uma turma... Nós fomos quase a mesma turma, variando alguns colegas, desde o ginásio até terminar o magistério, né? Então era uma turma muito coesa. A gente já se... P/1- Depois dessa fase a senhora foi estudar, saiu do magistério? R- Aí terminou o magistério e ainda fiz, na mesma escola, um ano de aperfeiçoamento. Tirei o diploma de professora e fiz mais um ano de aperfeiçoamento do magistério. Durante esse ano, já no segundo semestre, eu me preparei pro vestibular que era na cidade vizinha, porque na minha cidade não tinha faculdade só tinha até o nível médio. Passei no vestibular e comecei a frequentar a Faculdade Salesiana em Lorena, cidade vizinha. Lá eu fiz pedagogia e comecei a fazer filosofia junto, mas aí começou a apertar, assim, chegou no segundo ano já eu parei com a filosofia, só continuei pedagogia. P/1- Como é que foi pra senhora essa mudança de cidade? R- Não, eu viajava. P/1- Ia e voltava? R- Ia e voltava, porque é perto, 18 quilômetros de distância. P/1- E como é que foi o curso pra senhora, quando iniciou pedagogia? R- No começo a gente tem aquele impacto da novidade. Primeiro eu saí de uma escola pública aberta, né, fui pra uma faculdade salesiana, onde as irmãs eram as diretoras. O prédio da faculdade feminina ficava na Rodovia Instituto Santa Tereza e os rapazes estudavam lá no centro da cidade, no Instituto São Joaquim. Era a mesma faculdade com prédios separados, só mulheres e só homens, porque os seminaristas e as noviças também estudavam com a gente. Então, a gente só se reunia quando tinha palestras, quando tinha cursos avulsos, assim, que a gente se reunia no auditório da faculdade masculina que era o auditório maior, mas ala separada, né as mulheres e homens. Então eram as diferenças. A gente estava acostumada em turma mista, homens e mulheres juntos. Então, foi uma diferença. E os rigores da faculdade, né, na época não podia usar calça comprida, não podia ir de roupa sem manga. Aquele calor, eu lembro que nós começamos a adotar uns lenços, assim que a gente chegava na faculdade, amarrava pra cobrir os braços. Até que as irmãs proibiram esse lenço aí, tinha que usar um “coletezinho” pra poder chegar e pôr. Marcou muito o nosso trote na época, eu lembro. Eu entrei na faculdade – eu fiz em 1961 depois... Eu entrei na faculdade quando estava ainda naquele, antes de 1964, naquele clima autoritário do militarismo, né, algumas faculdades aqui em São Paulo. Os estudantes estavam fazendo aqueles grupos, aqueles centros acadêmicos, aquela, sabe, aquela revolução. E a nossa faculdade lá, ela era ligada à USP [Universidade de São Paulo], em termos de autorização e tudo e havia muito intercâmbio com a USP. Então, tudo que acontecia aqui na USP o diretório acadêmico de lá estava em sintonia. E aí tinha muito, incitavam muito a gente, né, contra o regime da época, o regime militar. Eu lembro quando a gente fez o trote, foi na pracinha da cidade de Lorena, quando se reuniram estudantes. Daqui a pouco a gente viu, lá tinha o 5° RI [Regimento de Infantaria], eles cercaram a praça todinha e a gente ficou no meio. Mas a gente fez do mesmo jeito. Os estudantes mais velhos, acho que eles se intimidaram um pouco, mas os calouros, nossa, não estavam ligando pra nada. Fizemos muita bagunça, lembro que a gente inverteu o trote: ao invés de nós levarmos trotes dos veteranos eles que levaram trote nosso. Por fim, eles que saíram com o cabelo cortado; na hora de falar no auditório, a gente não os deixava falar, iam falar e a gente não deixava. Aí vinha o reitor, falava e a gente ficava quieto. Aí quando ia entrar um veterano a gente não deixava. Eu lembro que isso marcou muito o nosso início de faculdade, né? A turma era grande, duas turmas, 90 alunos. Então, nós lideramos já desde o início. Sempre os professores falavam isso, era a turma de pedagogia e a turma de história, de uma certa forma a gente liderava as decisões dentro da faculdade. P/1- Tem mais algum evento dessa época que marcou a senhora, dessa convivência dessa turma? R- Tem, dessa turma tem. A gente montou um show lá na faculdade, um evento. E nos arrumamos todas; naquela época a gente usava blusa parecida com a meia, a gente usava meia até aqui, blusa amarela, meia amarela. Então, a gente arrumou, ia ser todo mundo de calça comprida preta. E aí, na hora que fomos passar as músicas, as irmãs aprovaram mais ou menos, mas as calças compridas não. “Irmã!” “Não pode porque vem o bispo, o padre reitor vem, vocês não podem, calça comprida de jeito nenhum.” E nós ficamos: “Não é possível, nós vamos aprontar uma pra elas, não pode, elas vão se arrepender de não ter deixado a gente ficar de calça comprida.” O que nós fizemos? Substituímos as calças por minissaia [risos] a meia até aqui tudo, né, e chegou na hora de minissaia, as irmãs queriam morrer [risos]. P/2- Todo mundo assim. R- E não podia fazer mais nada porque a gente já estava lá no palco. Aí a gente plagiou umas músicas, até música religiosa, tudo, com nome dos professores, com os nomes dos padres e tudo. Elas ficaram assim, não sabiam o que fazer com a gente, já estávamos nos apresentando, não tinha o que fazer [risos]. Eu lembro disso que foi muito engraçado. Depois elas foram brigar com a gente por causa das músicas e por causa das minissaias [risos] e a gente tinha sentado no palco e tudo, né? “Irmã, irmã, por isso que a gente queria calça comprida, porque a gente ficava à vontade e a senhora não deixou [risos].” Isso foi muito engraçado. P/1- E depois desse evento foi liberada a calça comprida? R- Não, não foi não, nem a minissaia [risos]. P/2- [risos]. Muito menos a minissaia. R- Muito menos a minissaia. P/1- E os namoros? R- Ah... P/1- Como era nessa época? R- Era paquerinha, assim, sem muita consequência. Era uma paquera diferente da de hoje, né? P/1- Podia namorar? R- Podia. Bom, lá na minha casa era difícil, porque os meus irmãos eram mais velhos, tinha a minha irmã mais velha, mas eles assim, das cinco mais novas eles eram adultos. Então em todo lugar eles tinham que ir juntos, era meio difícil, mas era gostoso por causa disso, porque a gente burlava a vigilância [risos]. P/1- Dona Alzelina, e por que da escolha do curso de pedagogia? R- Olha, eu vou dizer: quando eu ainda fazia o ginásio na minha cidade, não tinha curso superior, né? Aí surgiu a escola de enfermagem nível superior em Itajubá depois que eu fui morar lá. Mas aí a gente tinha que morar em Itajubá, a escola era das irmãs, a mesma ainda, irmãs Salesianas tudo. E eu queria ir pra lá, mas queria terminar o ginásio e ir pra lá já pra fazer o técnico em enfermagem, depois ir pra São Paulo pra fazer a enfermeira padrão. Mas na época, como é que saía de casa? Ninguém tinha saído da minha casa ainda pra morar fora, [risos] de jeito nenhum, não pude sair de jeito nenhum. Aí tive que fazer o magistério que era o curso que tinha, porque na minha cidade só tinha magistério, o científico tinha em Lorena. Os meus primos eram homens e puderam ficar viajando pra Lorena pra fazer o científico; a gente que era mulher não podia, aí tive que fazer o magistério. Depois do magistério sim podia liberar. Mas aí eu falei: “Agora eu não vou, agora que eu fiz magistério vou pra Itajubá fazer outro curso nível médio, segundo grau que era o técnico pra depois não...”. Aí em Lorena a opção eram letras, história, matemática, filosofia e pedagogia. Aí resolvi: quando fiz o magistério, a escola normal na minha cidade, comecei a gostar do curso de magistério. Dava-se muita informação, sabe? Aí eu achei que o caminho era pedagogia, e filosofia que eu também gostava, mas aí eu terminei pedagogia por isso. Acabei gostando, eu acho que a minha vocação era pra qualquer disciplina na área de humanas, né? P/1- Formatura, a senhora lembra da formatura como foi? R- Da minha formatura? P/1- Com essa boa turma que a senhora tinha? R- Lembro. Lembro bem da formatura. Nós tivemos uma formatura gostosa no auditório masculino do colégio São Joaquim que era grande, né? Lembro, eu tinha uma colega cujo pai, já muito velhinho, era pianista, ele nos brindou assim, a nossa turma que era grande, com o piano na formatura pra cada um ele tocava uma música, sabe, na hora que chamava a gente ele soltava uma música. Aí eu estava antes com as minhas colegas e falei: “Ah, tomara que a minha seja o Tema de Lara, tomara.” Mas a gente não sabia. Ele estava lá longe e me marcou muito isso. Na hora em que fui chamada ele tocou o Tema de Lara. P/2- Puxa vida! R- Isso aí foi muito gostoso. Marcou muito. P/1- E depois a senhora se formou? R- Aí eu me formei. Ainda passei alguns anos em Piquete. Aí em 1969 que eu vim pra... final de 1969 eu vim pra São Paulo. As minhas irmãs já moravam... já tinha família em Piquete e São Paulo. P/1- Como é que foi essa chegada? R- Meus primos já eram os meus colegas de ginásio, né, já tinham feito o científico e o magistério, já estavam em São Paulo. Aí eu com uma prima que já morava em São Paulo, já era filha daqui mesmo de São Paulo e esse meu primo fomos levar nossos currículos em vários colégios, sabe, de Santana, Vila Mariana, assim, de todo lugar onde chamavam. Passei esse tempo lecionando, né, lá perto da minha casa como substituta, colégio particular à noite, né? Marcou, mas assim pouco tempo. Marcou, até esqueci, fui professora substituta no colégio ali mesmo no Tucuruvi, colégio estadual que na época tinha o nome da Marquesa de Santos, depois houve um movimento e mudaram o nome. Depois eu fiquei no Colégio Santana, lecionando à noite; de dia eu ficava no Instituto Nove de Julho que foi um aprendizado, assim, que eu achei muito bom com crianças especiais, o serviço era bastante desgastante porque exigia muito da gente, né? Mas foi muito bom, período de aprendizado muito bom. P/1- E a senhora dava aula em qual série? R- Não tinha série, assim, específica. As minhas meninas eram especiais, eu tinha 13 crianças sob minha responsabilidade, com dificuldades diferentes. Eu tinha autista, eu tinha criança com Síndrome de Down, era mais ou menos por faixa etária a divisão. Nós éramos quatro pedagogas trabalhando junto com as fonoaudiólogas. Uma estrutura boa ali no Instituto Nove de Julho e as crianças lá eram de classe média alta. Então a escola era gostosa, confortável, mas muito desgastante, porque a gente passava 8 horas ali, chegava de manhã... P/1- Conta um pouquinho pra gente da trajetória de quando a senhora era professora e foi trabalhar nesse instituto. Como é que foi? Como a senhora foi lá pro Instituto? R- O Instituto encontrei nos... o meu irmão comprava o Jornal Classificados, olhei e: “O Instituto Nove de Julho precisa de pedagoga.” Entrei em contato pelo telefone, aí depois eu fui lá. Fiz a entrevista eles aceitaram e comecei a trabalhar. P/1- Como foi essa nova experiência na vida da senhora? R- Foi muito boa, apesar de ser desgastante, porque eu entrei de cabeça. Os pais de classe alta não têm muito trabalho com a criança especial, quanto mais longe deles melhor. A gente via isso e todo contato com a família que a gente queria fazer era sempre com as avós. Iam os pais... Nas férias já pagavam com antecedência pras crianças terem colônia de férias por conta do Instituto. E o Instituto tinha uma casa, uma mansão lá no Morumbi, que estava começando. Naquela época não era o Morumbi de hoje, eram poucas mansões e aquelas ruas mais desertas, tinha um lixão enorme lá no Morumbi, até hoje eu lembro disso. Eu nunca tinha visto esse lixão antes. Um dia, uma manhã, a gente saiu cedo passeando com as crianças e, de repente, demos naquele lixão, porcos e gente, eu nunca tinha visto aquilo, me marcou demais. Muito que, de tão preocupada, eu quis... as crianças querendo ver, tirar as crianças dali porque me impressionou muito e eu fiquei preocupada com elas, né? Isso me marcou muito de ver aquela cena. Aquele lixão e os porcos disputando com as pessoas o lixo ali no Morumbi. Hoje já não tem mais, é claro, mas naquela época ainda tinha bem ali e a gente ficava com essas crianças o mês de julho todinho. Aliás uma turma ficava 15 dias depois outra turma ficava mais 15 dias. P/1- Como era a atividade da senhora como pedagoga com as crianças? R- Olha, era um exercício de descobrir até onde podia ir com cada criança. Ver o caminho certo pra gente lidar com cada um deles, né, com brincadeiras, com ensinamento, tentar pré-alfabetizar alguns, já ir alfabetizando outros. Era todo um aprendizado, um exercício. E a gente tinha reunião constante com a psicóloga, com a fono, né, com o professor e instrutor de educação física, sabe? Foi assim uma experiência muito boa... laboratório, sabe? Muito bom. P/1- Quanto tempo a senhora trabalhou? R- Eu fiquei 10 meses nessa. P/1- E depois? R- Aí eu já estava fisicamente muito esgotada. P/1- Foi bem puxado. R- Foi muito puxado. Eu fiquei fisicamente esgotada. Aí o que foi que eu fiz? Foi quando eu fui pro escritório de advocacia, né? Aí meu primo que era amigo desse advogado: “O doutor Luís tá precisando muito de uma secretária, você tá esgotada, muda de atividade um pouco, deixa essa.” Aí eu fui, mas lá eu fui descobrindo que não era isso que eu queria mexer, com papel, papel. Eu gostava, comecei a trabalhar, logo peguei todo o processo do escritório, era imobiliária, era vara civil, vara criminal, tinha que fazer as petições deixar tudo pronto. Tinha hora que o advogado chefe, o doutor Luís não estava nem em São Paulo porque ele tinha muita atividade em Campinas ou mesmo aqui em Osasco. Ele ligava: "Rosa, tal hora eu tenho que estar lá no fórum tal, faça tudo.” A petição dele já ia, os documentos dele já iam prontinhos, sabe, pra chegar lá, ele já pegar e entrar na audiência. Chegava até movimentar a conta dele no banco. Aí eu comecei a me sobrecarregar também. De repente, eu carregava o escritório nas costas, né? E o advogado chefe era, assim, muito exigente, às vezes sábado eu ia pra faxineira fazer a limpeza no escritório, só pra olhar ela fazer a limpeza na sala dele, porque tudo dele era uma bagunça que ele sabia organizar e só eu sabia tirar as coisas e pôr no lugar certo [risos]. Então, eu ia lá só pra isso, tirar as coisas da mesa pra mulher limpar, voltar no lugar certo. Ela limpava e fechava a sala dele e deixava o resto, era desse jeito. Aí eu comecei me preparar pra fazer o concurso do estado e da prefeitura que eram juntos. Foi nessa época me preparando pro concurso do estado, da prefeitura e conversando com uma colega, soube que o marido dela era da aeronáutica, aí conhecemos um filho de deputado, eu me esqueço, era alguma coisa Junior, Almeida Junior um deputado antigo aqui em São Paulo. Aí conversando com ele, quando foi um dia ele falou: “Olha, lá no Centro de São Paulo meu pai vai fazer uma reunião hoje, política e vários assuntos” e ele nos convidou pra ir nessa reunião e nós fomos à noite bem ali no Anhangabaú, num prédio. Aí eu fui à noite, terminou a reunião e conversando, ele foi nos apresentar pro pai: “São professoras, tudo.” “Ah, são professoras? São pedagogas? Pois eu tenho um amigo que tá começando, ele tá com a ideia de fazer uma fundação com nome assim educacional.” E quem era esse amigo? Era o seu Amador, amigo desse deputado. “E alguém interessa?” Eu falei: “Interessa e como é que a gente faz pra chegar lá?” “Você quer ir?” A outra minha colega “Ih, não inventa que meu marido já tá achando ruim esse concurso.” Era militar já estava achando ruim desse concurso. Eu falei: “Ah não, mas eu quero, se o senhor me der uma carta pra eu me apresentar pro seu amigo, eu quero.” Ele me deu essa carta. Eu nunca tinha ouvido falar de Cidade de Deus, de Bradesco, sabe? Eu era desligada. Peguei essa carta e vim pra Cidade de Deus procurando o seu Amador; eu era tão, assim, desinformada da estrutura. Aí eu cheguei, mas a Cidade de Deus era outra realidade, né? Cheguei no portão, falei: “Moço quero falar com senhor Amador, eu tenho uma carta pro senhor Amador.” “A senhora vai até não sei onde”, aí me levou, me mandou no prédio azul. Naquele tempo tinha um prédio central, onde era o refeitório... Aí eu cheguei lá e falei. Tinha só dois prédios, aquele e o outro, né? Aí me mandaram pro outro. Eu sei que eu cheguei no seu Amador, conversei com ele e tudo, aí ele me levou no seu Idelfonso, um outro diretor que era ligado a esse projeto da Fundação Bradesco. Conversei com ele, mas aí a carta era para seu Amador, ele entrou em contato e seu Amador quis me conhecer. Aí eu fui à diretoria e conversei. Aí depois o senhor Idelfonso me leva pra Fundação, aí conheci o professor João na época, né? Eram 3 que estavam no projeto lá, professor João, senhor (Reda?) e seu Antônio Carlos que era da diretoria do Banco, mas ficou junto com senhor João, senhor (Reda ?) por um tempo estruturando a Fundação Bradesco. Aí eles me falaram: “Olha, faz poucos dias que a gente contratou um pedagogo aqui”, que era o Siqueira, a quem depois fiquei conhecendo.” Mas a gente tá com um projeto de abrir uma escola no Norte. Então já tem um processo de seleção.” Aí foi quando eu conheci a Cleide, que ela era diretora lá da escola e ela disse: “Ô, que pena, nós conversamos um tempo; faz oito dias que eu estou com um rapaz aqui, se você tivesse vindo uma semana antes você tinha pegado essa vaga.” Aí conheci a Regina, a Cleide, o seu Carlos e fiquei. Aí pronto, dali a uma semana eu vim pra fazer o teste. Eram 40 pessoas, começamos às 7:30 da manhã e saí daqui às 9:30 da noite, assim, zonza, zonza porque foi o dia todo. Terminava uma prova, aí depois que a gente foi percebendo que o número ia diminuindo, todas as provas escritas ou entrevista tudo era seletivo, sabe? Ia diminuindo. Quando foi 7:30 da noite nós éramos 3 pessoas: era eu, um (trabuco?) e uma japonesa [risos]. P/2- Começaram em quantos? R- 40 P/1- 40 P/2- 40 mesmo? R- Eu lembro. Depois eles foram me levar até o ponto de ônibus e lá ficaram me esperando, eu fui pra São... Aí eu cheguei lá, liguei em casa, já estava todo mundo preocupado. Eu cheguei em casa às 11 horas da noite desse dia, cansada, e no outro dia eu tinha teste pro estado. Já imagina como eu fui fazer este teste, né? Não deu tempo de estudar nada. Eu só fui porque tinha combinado com a minha colega que ia fazer concurso lá no Ibirapuera, acho que nem foi pro estado, foi pra prefeitura, não sei se foi estado ou a prefeitura . Eu tinha feito as duas inscrições. No outro dia eu fui fazer esse concurso com a cabeça voando. Olhava na folha, assim, e não via nada, fiz por fazer. Eu falei: “Agora que eu tô perdida, se não passo no outro, não tem nada”. Aí passaram uns 10 dias e telefonaram. Aí eu vim aqui, era outra entrevista e era eu e essa outra japonesa. No final eu fiquei. P/1- E como é que foi, a senhora chegou a encontrar o senhor Amador Aguiar? R- Depois? P/1- Não, anterior. R- Anterior foi. Eu tive o primeiro contato com ele depois... P/1- Conta pra gente, como foi esse contato? R- Eu lembro, ele me tratou bem . Tratou bem, conversou muito comigo com o seu Mario. Achei os dois assim, pessoas simples demais, sabe? Conheci dona Nenê na época que era secretária dele, muito bonita. E ele foi assim muito... Assim, depois eu cheguei em casa. Eu não conhecia o Bradesco e o Amador, depois que eu conversei com eles é que eu fui me interessar, me informar e ler sobre o Bradesco. Aí que eu vi com quem eu tinha conversado. Eu falei: “Meu Deus, mas como é que pode, uma pessoa dessa me tratar daquele jeito, ele nunca tinha me visto.” Depois que eu passei por tudo e que já estava pronta pra ir pra Fundação, que eu já estava trabalhando aqui e me preparando pra lá. Ele me falou assim: “Olha, a sua apresentação foi uma das piores, porque apresentação política a gente não dá crédito, mas você demonstrou o contrário depois no seu teste, na sua vivência.” Se ele me falasse isso naquele dia, teria me derrubado, né? Mas assim foi o meu contato, primeiro contato com o seu Amador e foi até o final; eu sempre achei uma pessoa fora de série, maravilhosa. P/1- Dona Alzelina como é que foi? A senhora passou no teste, como é que foi o início do trabalho? A senhora lembra o primeiro dia? R- Lembro. Aí já estava o senhor Carlos que era o diretor da escola primária na época, né? A Regina era secretária dele. A Cleide era do segundo grau. E eles me ajudando pra ver o estatuto, o currículo da escola, né, o que ia constar da programação, o que não ia constar, primeiro via essa parte teórica todinha junto com eles. Toda hora era o seu Carlos, seu João, seu (Reda ?), sabe, seu Antônio Carlos me ajudando em tudo isso. E depois dessa parte teórica, aí deixaram por minha conta já: “Tá, estruturar a planta da escola é essa, os móveis da sala são assim, agora vamos ver o mobiliário.” Aí começamos a ver todo o mobiliário da sala, de todas as salas, da escola toda, né, gabinete odontológico tudo. Aí entrava em contato com as firmas e recebia compra, eles me deixaram a sala. Eu sei que a cada hora minhas coisas estavam num lugar [risos]: “Pode pôr tudo aqui, pode mandando pôr tudo aqui”, quando mandava pôr tudo aqui já não estava mais aqui, estava lá.” O Antônio Carlos na época e o Marcos eles eram office boys, e o Jeferson, esses meninos me ajudaram muito a desempacotar, a catalogar, sabe, a empacotar, eles me ajudaram muito desde o começo. Outro dia... eu estava agora nos 30 anos da escola, né, que o Jeferson foi lá já como diretor, a gente ficou lembrando do começo, né? Eles me ajudaram muito na época.. Não, o senhor Carlos era enjoado, né? Então tinha uma sala da escola: “Essa sala de entrada da minha escola cheia de caixa.” Não podia ficar ali, ficava em outro lugar, tirava dali até que arrumava um outro espaço pra gente ir, pra eu ir despachando. Aí a escola ficou toda sob minha responsabilidade, eu que ficava despachando tudo pra lá. Tinha esse aí na foto que era gerente da fazenda, ele ficava recebendo, ele ficou como procurador da Fundação até eu chegar. E aí fizeram uma seleção lá em Conceição, trouxeram pra cá oito professores, alguns já tinham magistério, os outros tinham o SPS [Secretaria da Proteção Social] o Normal Regional que chamava lá na época. Eles faziam assim: o ginásio até 8° série... até 7°, na 8° série era o colégio das irmãs, as irmãs adicionavam algumas matérias pedagógicas, né, e esse curso foi registrado lá com Normal Regional é o que tinha na região. Conceição não tinha além desses, quem quisesse estudar mais tinha que ir pra Porto Nacional. Aí elas vieram pra cá, foram selecionadas lá, vieram pra cá e passaram seis meses aqui, estudavam de manhã e uma parte da noite todos os dias. Aí foi o Jorge, selecionaram alguns professores e eles tiveram aula de tudo, matemática, língua portuguesa, as matérias pedagógicas, sabe, um reforço todinho, seis meses de curso intensivo eles tiveram. P/1- Pra se adaptar? R- Pra se adaptar. P/1- No currículo escolar daqui. R- Isso. No currículo escolar da fundação. E foram trabalhadas socialmente, eticamente nesse período todo pra se encaixarem nas normas, assim, no modelo da fundação. P/1- E a senhora que já tinha experiência como pedagoga. Qual foi o impacto que a senhora sentiu na Fundação Bradesco? Todo esse currículo. R- Desde o começo eu gostei muito do modo, a seriedade da Fundação Bradesco em trabalhar. E a gente que vem, assim, de trabalho na escola pública...porque depois a única escola que eu trabalhei, a Nove de Julho, era uma estrutura que tinha tudo o que era preciso, mas trabalhando em escola pública eu sei que alguma coisa não tem e que a outra não tem. E na Fundação percebi que era diferente, logo eu tinha muito contato com os professores; seu Carlos e a Cleide me ajudavam muito. Eles tinham reunião com as professoras, eles me chamavam pra participar. Tinha reunião com as orientadoras, também me chamavam pra participar. Então fui me inteirando, sabe, do sistema da filosofia da Fundação e isso foi muito importante pra mim. Fui bem trabalhada antes, acho que isso me ajudou muito... acho não, tenho certeza de que me ajudou bastante, porque muita diretora cai na escola sem ter esse início que a gente teve tanto daqui... depois quando a gente estava trabalhando sozinha lá e que tinha de tomar as decisões sozinha pra depois comunicar aqui o que a gente já tinha feito. P/1- E a senhora ficou quanto tempo como diretora aqui na escola de Osasco? R- Não, aqui eu não fiquei como diretora. Aqui passei alguns meses me preparando pra ir pra lá, eu não...eu já era funcionária, mas eu dava meu trabalho de ir me preparando pra ir pra Conceição do Araguaia. Eu não trabalhei aqui como diretora. P/1- Você ficou 6 meses? R- Eu só participava pra ir pra lá. Aí os professores voltaram pra lá em dezembro. Eu fui em fevereiro do ano seguinte com a minha irmã. P/1- E quando fizeram o convite à senhora. Qual foi o sentimento? R- Eu achei bom. Eu queria sair, ver, ir pro Norte, tudo e eles ficavam, assim, com medo de me falar a realidade de lá com medo d’eu desistir, né? Tem índio tem tudo. Mas quando aceitei, por mim já comecei pesquisar, me inteirar, saber notícia, sabe, de como era. Então, quando cheguei lá já sabia muita coisa. Aí minha irmã foi comigo, mais nova, infelizmente depois ela faleceu. Mas a gente escondia muita coisa: “Não vamos contar isso lá em casa não, só vamos contar isso aqui, sabe?” Porque senão a família... Não tinha luz elétrica, sabe? As condições da água não eram muito boas. A gente tomava muita água mineral no começo, por muito tempo só água mineral. Mas era aquela realidade que eu estava querendo descobrir, né? Lembro até que, estando aqui com o pessoal de lá, passeava no fim de semana, assim, sexta-feira saia com eles pra conhecer São Paulo. Levava-os em vários lugares. E lá no Museu do Ipiranga, elas visitando, quando a gente olhava o museu elas diziam: “Imagina, isso aqui é peça de museu e lá em Conceição a gente usa.” E eu achava que elas estavam brincando. Olha isso aqui, “imagina, olha essas casinhas aqui”, aquelas casinhas do bandeirante, mas aquilo em Conceição é daquele jeito. Eu achava que elas estavam brincando, né? O ferro de passar roupa, o pote de água, aquelas coisas. Quando eu cheguei em Conceição vi que realmente era a realidade, sabe? P/1- O que aqui já era peça... R- Tudo, o que aqui já era peça de museu lá eles usavam, né? Aquela máquina de moer café, o ferro a brasa de passar roupa, aquele pote na entrada das casinhas, tinha o quê? Tinha uma pecinha de madeira, um pote e vários copinhos assim pra tomar água, tinha um mais comprido, assim, uma alça comprida que tirava a água do pote. Era essa a realidade deles, sabe, quando eu cheguei lá depois que foi mudando. Só tinha um hotel, um único hotel onde eu fiquei, que todo mundo que ia pra lá ficava nesse hotel, que era engraçado o hotel: um corredor e os quartos lá. Agora não, mas no começo as construções, as paredes externas iam até lá em cima, as paredes internas, elas deixavam um espaço assim, não completava até o teto. Então não tinha reserva entre as pessoas, né; os quartos de hotel você entrava era meia parede de um quarto pro outro, sabe; era engraçado e a gente ficava nesse hotel. Não tinha apartamento, era só quarto. P/1- Isso foi em que ano? R- Isso foi em 1970, 1971. P/2- A senhora foi pra lá em 1971. Então em 1970 a senhora ficou nesse tempo no preparatório. R- Preparatório. P/2- Quanto tempo a senhora ficou? R- Acho que foram uns 6 meses. P/2- 6 meses. P/1- Como é que foi? A senhora chegou lá, foi pro hotel. R- Eu cheguei lá os professores já tinham ido, né? Então quando eu cheguei com a minha irmã, tinha um aeroporto lá que mudou, mas era bem ali... você foi lá, onde tem aquelas casas ali em frente à Fundação Bradesco. Aquele espaço ali, o aeroporto era bem ali. Naquele tempo só descia avião da FAB [Força Aérea Brasileira] e da Vasp [Viação Aérea São Paulo]. A Vasp duas vezes por semana fazia pouso ali com o DC3. Então a gente foi pela Vasp, né? Chegando ao aeroporto, as professoras estavam lá pra esperar a gente com alguns familiares, né, o gerente da fazenda. Aí fomos pro hotel, eu acho que era uma quinta-feira mais ou menos. Ele falou assim: “Olha, eu vou ter que voltar pra fazenda, vocês não querem ir lá pra fazenda passar o final de semana com a gente?” E aí: “Tá bom vamos.” “Então vamos convidar as professoras.” Aí fomos, né, comprou-se alguma coisa lá na cidade e a gente foi pra fazenda a 74 quilômetros da cidade, na fazenda Bradesco. A estrada não tinha asfalto, não tinha nada, muita mata do lado. Eu achei: “Nossa senhora aquilo!” Aí passamos uns quatro dias lá. P/1- Assustou? R- Assustei. Mas tudo era novidade, né, a gente via onça no meio atravessando, assim, aquela manada de bichos, de aves, de emas atravessando, tudo diferente. Tinha mata quase virgem dos lados, nas laterais da estrada. Então você via muito animal silvestre atravessando. Aí fomos na fazenda, muito grande, né, 30 mil alqueires. Tinha lugares que se ia só de caminhonete, a caminhonete atolava. Mas a gente conheceu a fazenda toda e ele falando do projeto que queria de educação na fazenda. Passamos uns dias lá até que interessantes. Pra mim, eu queria conhecer tudo, né, conhecer a realidade. Aí depois vim pra cidade, né? Só que esse gerente era sobrinho do senhor Amador, ele tratava bem tudo, mas eu fui contrariando os projetos que ele tinha. Na época depois mudou tudo, ele era muito amigo dos dominicanos e tinha prometido pra uma freira, que era diretora de uma escola estadual, a diretoria da Fundação Bradesco, e eu não sabia, né? Aí chegamos lá e era quem revolvia tudo pela Fundação. A partir do dia que eu cheguei, deveria ser eu, mas houve assim um impactozinho que ele não queria ceder logo tudo, né? Aí foi preciso até que o senhor João fosse lá, João Cariello, foi lá e passou uma semana com a gente, conversou muito e ajeitou a situação. Mas aquela hostilidade das pessoas foi assim muito rápida. No fim, o relacionamento foi muito bom, eles me ajudaram muito. Até na época, no currículo da escola tinha educação religiosa e essa mesma freira me ajudou muito, né, com a educação religiosa. Depois que foi mudando, a grade foi mudando. Mas aí o contato com a comunidade foi muito bom, um pessoal muito receptivo. A Fundação, o trabalho nosso lá foi muito intenso. No começo chegamos lá e a escola ainda estava em fase de acabamento, então, as aulas só começaram em março. Eu lembro, nós alugamos uma sala pra ficar fazendo planejamento com os professores, pra ficar fazendo a inscrição dos alunos e aí que percebemos que a maioria não tinha certidão de nascimento. Aí essa diretora, essa irmã falou: “Ih, não adianta ir contra esse problema, aqui se você quiser matricular as crianças, vai ter que matricular dessa forma.” Eu falei: “Então não é matrícula, como é que vai matricular?”. Aí que eu falei com o gerente, falei com a Fundação Bradesco aqui, falei com o gerente pra ele me ajudar. Fomos ao cartório, conversamos com o dono do cartório. Conversei com a Fundação de novo e conseguimos da Fundação pagar 50% dos... Primeiro a Fundação ia pagar 50%, depois aí em pagar essa certidão de nascimento das crianças da faixa etária que fosse matriculada, só que o cartório abaixou. Aliás, foi o cartório que baixou em 50% o preço, né? Aí nós conseguimos registrar todas as crianças que tinham que ser matriculadas. Primeiro a gente fez uma inscrição, aí fizemos a seleção por idade e fomos matriculando as crianças. Dava um papelzinho, ia lá no cartório, tirava a certidão e vinha fazer a matrícula. P/1- E como é que era a procura lá por matrícula? Tinha muitas crianças? R- Nossa senhora, nossa senhora. Sempre foi muito, sempre a procura foi muito maior do que o número de vagas desde o começo. P/1- Na época tinha outros colégios? R- Tinha. Na época tinha um colégio municipal, um colégio estadual e tinha esse colégio dominicano onde depois a Fundação Bradesco se instalou; só que o colégio dominicano era a partir da 5° série na época, né, 1ª série ginasial. A fundação foi pro 4° ano de vida, nós já íamos começar a 5ª série e as irmãs foram parando o colégio, sabe? Aí elas já não fizeram matrícula pra quinta, aí no outro ano não fizeram pra sexta até fechar o colégio. P/1- Aí vocês foram absorvendo esses alunos? R- Nós fomos absorvendo esses alunos. P/1- E como é que era a adaptação desses alunos que vinham de outras escolas? R- Aí que começou esse impacto pra gente da Fundação com a filosofia. Por quê? Até de 1ª à 4ª série não teve problema; foram os alunos que tinham pra ser matriculados, às vezes com faixa etária não adequada, mas alunos bastante carentes. Aí quando as irmãs começaram a não aceitar alunos na 5ª série, a procura pra fundação foi grande. Aí aquele jogo de cintura grande que nós fizemos, nesse caso foi tão grande que sobrou criança sem matrícula de quinta série. Foi então que o prefeito na época, né: “O que é que a gente vai fazer, Alzelina, o que é que faz?” Aí eu entrei em contato com a Fundação, dei meu nome pra que o prefeito pudesse abrir um curso municipal de quinta série em diante. Que depois foi pro estado e que hoje é um colégio do estado que tem lá, o Bráulio Gurgel, que começou a partir disso, pra acomodar e foi acomodando esses meninos. Mas ele passou três anos e meio como colégio municipal de 5ª a 8ª série. E a Fundação sempre, sempre foi uma escola muito procurada, sempre. P/1- A relação dela com a comunidade? R- É boa. A comunidade reconhece, né? Apesar de que tem sempre os que reclamam um pouco. O problema de vaga, então, é eterno; e os que não conseguem vaga sempre reclamam, sempre falam, sabe. Por mais que você faça, vai atrás da família, visita, faz questionário, sempre tem uma reclamação. Eles sempre acham que a Fundação é uma instituição muito importante ali dentro e realmente é. Mudou muito a vida da cidade. P/2- E quantos alunos nessa época, dona Alzelina? R- Nós começamos com 400, 464 alunos que nós só tínhamos quatro salas de aula na época. Depois que a escola foi crescendo, né? P/2- E como acomodava em quatro salas esses 400 alunos? Eram turnos? R- De manhã e à tarde. P/2- De manhã e à tarde? R- E eram os mesmos professores no começo. (fim do primeiro cd) P/1- Senhora Alzelina, como é que era o critério de seleção com tantas crianças querendo vagas na escola da fundação? R- Desde o início foi a mesma coisa. A gente faz uma pré-matrícula e pega todos os dados possíveis dos pais e, dentro da possibilidade, a gente checa os dados. No comecinho da escola era, assim, impossível a gente visitar todas as famílias, porque a gente não tinha um quadro de funcionários a contento, era diretor, secretário e professores, né? Uma professora que ajudava lá como auxiliar de direção, mas também era professora, então, umas duas pessoas mais na secretaria fora o pessoal de apoio, né? Então nós não tínhamos um serviço de orientação, supervisão, nada; não tinha quem nos ajudasse, a gente ia mais pelas informações dos professores que conheciam as famílias. E quando surgia a dúvida maior aí que a gente ia checar, né? No começo até que isso deu certo, porque logo que a Fundação chegou com o currículo que todo mundo ficou sabendo, aquelas famílias que se diziam um pouco mais abastadas achavam que não iam pôr o filho lá dentro, porque nunca tinham visto uma escola daquele jeito no estado do Pará. Uma escola que desse merenda, uniforme, material didático, eles começaram a ficar desconfiados: “Eles vão cobrar alguma coisa depois, não pode uma escola dar tudo”, merenda e tudo. Eles começaram a ficar desconfiados e aí, como a gente dizia pras pessoas carentes... Então, aquelas pessoas que não se achavam carentes tinham vergonha de pedir a vaga. Isso pra gente no início foi muito bom, sabe? Porque realmente nós trabalhamos com crianças carentes, aí tivemos até o problema da faixa etária. No início nós tivemos que aceitar até alunos de 14 anos na 1ª série, de 19 anos na 4ª série. Aí, com o passar dos anos, a gente ia adequando a faixa etária. Depois de uns cinco anos de funcionamento da escola é que nós fomos arrumando essa defasagem, sabe? Mas no início foi assim com defasagem, mas alunos muito carentes, né; a escola no início teve aluno bastante carente. Aí quando nós começamos de 5ª série em diante, as práticas agrícolas, até começou a surgir: “Tá vendo, a gente sabia que alguma coisa a Fundação ia cobrar, agora vão pôr nossos filhos pra trabalhar, pra pagar o que eles tão recebendo.” Aí foi outro trabalho educativo com os professores; com os alunos também foi muito bom, depois o resultado foi excelente. P/1- E conforme foram surgindo estas dúvidas, esses comentários na comunidade, como é que vocês resolviam essas questões com pais e alunos? R- Com reunião com os pais. Reunindo os pais pra alguma festividade na escola, sabe. A gente fazia mutirão com os pais, conversava com os alunos, mostrava por exemplo técnicas agrícolas, eles levavam depois da aula aquilo que sobrava, uma alface levava. O professor fez o clube agrícola com eles, então dava mudinhas, tantas mudas pra eles porem em casa, no final de semana ia visitar a horta na casa pra ver se realmente eles estavam fazendo. Mostrava o valor nutritivo das hortaliças e eles levavam pras famílias. Isso aí foi muito bom, sabe? Aí foi, nós fomos desfazendo a desconfiança. P/1- Palestras? R- Palestras, sabe, com as mães. Levávamos as mães lá pra ver a horta, pra ajudar, aprender a plantar, pra ver como é que fazia, pra comer a merenda junto com as crianças pra verem como era a merenda. “Isso aqui foi o seu filho que plantou, isso aqui foi seu filho que colheu,” sabe? Tudo isso foi dando resultado. P/1- E as noções de higiene. Como é que foi? Tem histórias engraçadas aí? A senhora lembra de alguma [risos]? R- [risos] Foi muito difícil no começo. Tudo assustava àquelas crianças, até a descarga do banheiro porque eles não tinham, né, o vaso sanitário. Tinha que ensiná-los a usar o vaso sanitário, a lavar as mãos, a dar descarga e se acostumarem com o barulho da descarga, porque criança saia correndo quando dava descarga, saia correndo. E a gente fazia tudo aquilo, né? Mas teve... a gente tinha problemas com a higiene das crianças. A gente dava banho, tinha que cortar cabelo, às vezes, na escola, fazia a higiene da cabeça por causa de piolho, a campanha do piolho, sabe, dava muito trabalho. A gente fazia e conscientizava os pais. No início nós tínhamos um médico e uma técnica de enfermagem lá, então, ela fez o curso aqui em São Paulo, eram da Fundação Abril, isso pra comunidade, vieram umas seis pessoas pra fazer o curso de técnico de enfermagem aqui, depois voltaram e uma delas ficou lá na Fundação. E a gente criou, com o trabalho dessa moça, nós criamos o pelotão de saúde. Em cada sala de aula foi selecionado um casal de alunos pra pertencer ao pelotão de saúde. Esse pelotão de saúde nos ajudava a ver a higiene dos alunos, sabe? Eles tinham um jalecozinho branco todo bonitinho, tinha que ser os melhores alunos, tinha nota boa, bom comportamento em sala, esses alunos eram selecionados pro pelotão. Tinha dia que era assim: nós tínhamos o clube agrícola e tinha o pelotão de saúde, eles recebiam as instruções lá nos dias, as reuniões com as enfermeiras, tudo, e ajudavam a olhar, né, a unha dos coleguinhas pra ver se estavam cortadas, limpinhas, o uniforme limpinho, se a borracha estava limpinha, o lápis apontado, sabe, pra poder não sujar a sala com ponta de lápis. Então os coleguinhas já mostravam: “O meu lápis tá aqui, a borracha, a unha”, né? E a enfermeira olhava o cabelo das crianças, aí quando tinha algum problema a gente fazia cartinha mandava pros pais. Teve um tempo que a gente tinha que comprar o remédio; fazer a solução e mandar o frasquinho pra casa instruindo pra ver como é que... Mesmo assim alguns tinham problema, resistiam, sabe? P/1- A escola da Fundação absorveu professores de outras escolas? R- Aí depois com o tempo foi preciso. P/1- Também. Como é que foi esta adaptação? R- A gente fazia uma seleção, né? Aí era todo um trabalho que a gente tinha com esse professor lá de ir integrando na filosofia com os outros que já estavam lá, que já conheciam. A gente fazia reunião, no sábado a gente fazia esse treinamento com eles. Ia acompanhando, fazia acompanhamento, né? P/1- Tinha muito interesse desses professores... R- Tinha, tinha. P/1- A adaptação era tranquila? R- É. Tinha alguns que não se adaptavam muito, também não ficavam muito, mas a maioria não deu problema. P/1- E as comemorações? R- A gente tinha muita comemoração, né? As comemorações cívicas, comemorações de Páscoa, comemoração de ação de graças a gente fazia na escola, dia das mães. P/1- Era sempre interna ou tinha também comemorações externas? R- Eram sempre internas as comemorações nossas. Uma vez nós fizemos uma ação de graças fora da escola, foi muito boa. Eu falei pros professores: “Vocês topam o desafio, vamos fazer?” Porque sempre as pessoas: “Tão bonita e só fica aqui na escola”. Uma vez nós fizemos fora, foi boa também. Foi boa, foi bonita, deu muito trabalho, foi muito cansativa pra gente, nós achamos que era melhor voltar pra dentro da escola que já era o nosso ambiente e que era melhor pra gente. Tinha os desfiles que a gente fazia fora no aniversário da escola e 7 de setembro. Às vezes no aniversário da cidade, quando o prefeito fazia desfile, a gente participava. P/1- E pra senhora, qual foi o maior desafio durante essa trajetória em Conceição do Araguaia como diretora? R- Foi um desafio grande conciliar a escola, a estrutura da escola, os objetivos da escola, né, o modo do pessoal lá dos alunos com o objetivo da Fundação Bradesco esperava da gente. Foi realmente um desafio. P/1- E como é que era a visita da equipe de São Paulo chegando lá? Senhor Carlos de Oliveira, senhor João. R- Era sempre bem-vinda. Eu aproveitava, sugava tudo que eu precisava, sabe? Sempre foi assim, chegavam e nos ajudavam muito. O relacionamento com o pessoal era muito bom, eles ficavam à vontade lá na escola pra ver o que queriam, perguntar o que queriam. O senhor João foi muito bom, a ida dele foi muito boa. O senhor Antonio Carlos ia sempre. P/1- E durante sua trajetória na Fundação Bradesco, alguma mudança, assim, trágica na filosofia da Fundação Bradesco? Na filosofia educacional? R- Deixo ver se houve. Trágica? Não. Acho que quase perto de eu sair houve alguma mudança. Porque nós diretoras antigas, no caso eu, a Sandra, a Terezinha lá. O pessoal mais antigo no começo fazia o projeto da escola do ano e mandava pra Fundação, certo? Todo o planejamento anual, sabe, dos eventos, de tudo nós mandávamos. Aí depois, quando começou a ser o contrário aí teve um impactozinho. Ao invés de nós mandarmos, a gente recebia pra fazer a adaptação. Aí foi um pouco mais difícil essa mudança, como é que se diz, da grade curricular também, né, trouxe uns impactos. Era uma grade que tinha uns objetivos, depois a grade foi mudando de acordo também com as exigências do Ministério da Educação, as mudanças do Ministério com as leis de ensino, né, os currículos foram mudando. Já antes a gente tinha a liberdade de fazer uma grade, de fazer um plano muito voltado pras necessidades da comunidade. Depois, já de acordo com as leis de ensino, foi em âmbito geral. Eles já não olhavam mais, era um plano geral pro Brasil, né, sem olhar as particularidades regionais e tudo. Esse foi um impacto, assim, meio difícil. Mas a gente foi adaptando. P/1- Na opinião da senhora foi positivo ou negativo? R- No âmbito de Brasil, de lei de ensino, achei que não foi positivo, achei não... acho que não foi muito positivo. Alguma coisa foi boa, certo? Outras não muito. P/2- No dia a dia da escola, como foi feito pra adaptar? Por que algumas coisas são regionais tem que ser adaptadas, né? R- Certo. P/2- Como que se administrava isso no dia a dia? Com essas novas leis que não consideravam os costumes locais. A escola conseguia? R- É. conseguia, né? A gente tinha que... P/2- Conseguia encaixar? R- Conseguia encaixar a gente ia mudando. P/2- Mas era um desafio? R- É um desafio. Um desafio porque no caso nosso da Fundação Bradesco, a gente chegou lá e implantou um sistema todo diferente, né. Aí depois mudar o que foi implantado foi realmente um desafio. P/2- Mas foi possível a adaptação? R- Foi possível, isso foi possível sem problema. P/1- O que que representava pros funcionários trabalhar na Fundação Bradesco? R- Olha, para os funcionários, pelo menos o tempo que eu estava lá, eles achavam muito bom trabalhar na Fundação Bradesco, eles tinham orgulho de dizer que trabalhavam na Fundação Bradesco. E dentro da realidade ali da região, da cidade, era uma segurança trabalhar na Fundação, né, em termos de salário, em termos de outras garantias que as outras firmas não ofereciam, pelo menos não ofereciam. Hoje tem umas que oferecem, né, principalmente plano de saúde, algumas coisas assim. P/1- Tem algum caso pitoresco que a senhora poderia nos contar? R- Pitoresco? Eu não sei se eu me lembro [risos], é tanto pitoresco. Quando eu comecei na Fundação, quando a escola começou, um caso do qual não me esqueço, foi de repente as merendeiras saírem correndo da cozinha porque não estavam acostumadas com o barulho da geladeira [risos]. Ligou o motor da geladeira e todo mundo saiu correndo, porque quando nós começamos a escola foi assim: eu tive que viajar pra Belém pra levar a documentação direto, hoje já tem a 15° OI [?] lá em Conceição. Quando a escola começou ainda não tinha, então a gente tinha que se deslocar até Belém pra ir à Secretaria de Educação. O gerente ______ na época, eu saí e deixei a escola pra nós começarmos as atividades quando eu voltasse, né, e tinha aquela rixa pequena que eu te falei. Viajei, eu estava em Belém quando ele achou... os quadros estavam recém pintados, tinha que passar uma semana descansando pra entrar em atividade. E eu viajei, dois dias depois que eu viajei,ele chamou os professores. Ele mandava em tudo lá, eles tinham, assim, aquele medo e começaram as aulas, foi exatamente no dia 23 de março, né. Então, começaram. Quando eu voltei as aulas já tinham começado, né, a geladeira não tinha, algumas coisas não tinham chegado de São Paulo ainda, a cozinha ainda estava sendo terminada, não podíamos fazer nada na cozinha. Tinha que improvisar lanche da padaria, sabe, fazer suco lá fora, aquela coisa pras crianças não ficarem sem merenda, usar bolacha até terminar a cozinha. Então, quando nós começamos a usar a cozinha toda a escola já estava funcionando e eu não tive tempo, assim, de montar a cozinha, chamar o pessoal e mostrar como funcionava cada coisa, sabe, não tive esse tempo. Então [risos] elas já estavam lá trabalhando quando estalou a geladeira e tudo. No começo elas morriam de medo do barulho da geladeira, achavam que ia explodir. P/1- E transformação de vida? Muitos alunos que passaram pela Fundação Bradesco tiveram a vida transformada. A senhora conhece algum caso ou alguns casos que gostaria de nos contar? R- Conheço. Sempre falo, comento com as pessoas, que graças a Deus tive esse privilégio que acho que muita gente não tem, né, da gente ver nossos alunos. Quando eles eram meus alunos que às vezes eu conversava com eles, eu dizia: “Vocês têm que prestar atenção porque daqui alguns anos vocês vão ser os responsáveis por esta cidade, né, por este município. Vocês vão estar aí ocupando cargos importantes, políticos” e eles achavam graça de vez em quando. E sim, hoje a gente vê que os ex-alunos da Fundação Bradesco atuam nos diversos setores na cidade, na política, né, na vida religiosa. Então nós temos ex-alunos que são sacerdotes, nós temos ex-alunas freiras, nós temos ex-alunos deputados, nós temos ex-alunos médicos, dentistas, fonoaudiólogos, psicólogos atuando na comunidade, nas cidades vizinhas; comerciantes, contadores. Os melhores escritórios de contabilidade de Conceição na mão de ex-alunos nossos. P/1- A fono Renata. R- A Renata, né, que é fono. Tem a... Tem outra que está na Apae [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais] de Araguaína também é fono, também é ex-aluna nossa. P/1- E a senhora ficou em Conceição do Araguaia por quantos anos? Como diretora? R- Como diretora? 25 anos. P/1- E depois? R- Depois tem mais uns aninhos, né que eu tô lá. Aí trabalhando eu fui secretária, entrei na política, né? Depois fui assessora de diretório de política. Depois eu fiquei na Secretaria de Educação, dois anos como Secretária de Educação. P/1- Lá em Conceição? R- Lá em Conceição do Araguaia, sempre em Conceição. P/1- Mas a senhora passou também pela escola da Fundação Bradesco de Itajubá? R- Sim. P/1- Como é que foi essa passagem? R- Isso foi dentro desses 25 anos. Numa das últimas visitas do seu Amador, ele falou: “Olha, eu tô fazendo uma escola lá perto da tua cidade” – que eu sou de Piquete, na Serra da Mantiqueira. Subiu a Serra, é Itajubá. Eu falei: “Não diga?” “É, eu tô fazendo.” Aí ele falou: “Você soube que a Nenê faleceu e tudo, eu tô fazendo uma escola lá que os últimos anos dela foi lá em Itajubá e a escola vai ter o nome dela. Você quer?” Eu falei: “Quero, o senhor quer me dar eu quero.” Mas ele foi embora, passou um mês, uns dois meses, o seu João: “Alzelina, seu Amador disse que a escola já tá ficando pronta, aquela escola.” Eu falei: “Mas nossa, é verdade então!” P/2- Era verdade! R- “É verdade”. E eu naquela empolgação falei: “Eu só aceito ir pra lá, seu João, se eu puder escolher quem vai ficar aqui no meu lugar, mas tem que me dar um tempo.” Esse foi o meu ponto errado. Aí ele concordou comigo, falou com o seu Amador. Aí eu fui, eu tive uma assistente que estava... ela não tinha ainda o curso superior completo. Aí ela foi pra Goiânia pra terminar esse curso, pediu demissão da Fundação – porque tinha que pedir – estava em Goiânia no último ano terminando pedagogia. Quando ela trabalhou conosco era uma pessoa muito boa, muito dedicada, assim, tinha bom relacionamento com todo mundo, era ótima. Aí eu pensei nela, né, deixar aqui uma pessoa que a gente conheça e tudo. Falei com o seu João, seu João com seu Amador, seu Amador concordou. Fez uma coisa que não era comum na época: readmitiu a funcionária, entrou em contato com ela, ela aceitou, readmitiu, ela voltou pra Conceição e eu fui pra Itajubá. E na época o seu Amador tinha uma chácara lá perto, né, com o seu Mário, quase todo final de semana eles iam pra lá, passavam pela escola primeiro depois iam lá, todo fim de semana eles me visitavam. Quando foi um dia, o seu Amador passou lá e falou: “Alzelina, aquela tua escola de Conceição não tá boa, tá acontecendo isso, isso, isso, isso, isso”, e nós estávamos passeando olhando de longe na estrada, a escola de Itajubá fica num plano mais baixo e eles viam a horta, né. Então ele falou: “Eu tô vendo aquela horta lá de cima, eu vou ver ela hoje aqui pra eu ver se tudo que tá lá é verdade ou é só visão [risos].” Assim, brincando, né? Nós passeando lá na horta e ele falando, ele contando, eu falei: “Ai, ai, ai.” Aí depois que passou tudo, ele... Já tá na hora dele continuar a pé na chácara, ele falou: “Tá tudo bem?” Aí o seu Mário falou: “Muito bonito! Você vem, fala uma porção de coisa pra ela, aí depois pergunta se tá tudo bem. Você já imaginou como é que ela vai ficar pensando?” E eu ficava preocupada com aquilo. Aí na outra vez ele passou: “Olha, a escola tá com problema. Eu bem que sabia que isso ia acontecer, mas eu fui querer atender você e o João, né. Agora vocês veem: eu sabia que aquela diretora não ia dar certo, mas vocês dois pediram e eu atendi. E agora?” Eu falei: “Ai ai ai ai ai [risos].” Aí na segunda-feira eu liguei pra cá e falei pro seu João: “Seu João, o seu Amador pela segunda vez falou isso, isso, isso, isso, e agora ele falou que a culpa é nossa.” E ele fez assim: “É, pior que é verdade, né, você pediu, eu endossei o seu pedido. E agora?” Aí o que que aconteceu? Eu perdi umas férias no mês de julho, que eram as minhas férias, fui pra Conceição tentar contornar a situação, né, passei o mês todinho lá. Aí passei, achei que tinha dado certo, fiz um relatório pra matriz, conversei muito com o pessoal lá inclusive com a diretora, tudo. Passou uns meses começou, acho que foi naquele mesmo ano que eu fui ou foi no ano seguinte era ano político, né, aí não deu certo, houve um envolvimento político na escola e a coisa não deu certo. Aí de uma vez demitiram assim uma porção de gente: diretora, vice-diretora, professores, sabe, a escola ficou assim... E eu lá em Itajubá, eles tinham mania toda reunião de diretores que tinha, que a gente fazia pedido de alguma coisa pra escola eu pedia pra escola de Itajubá e pra escola de Conceição [risos]. Eles ficavam, eles viam que eu não tinha me desligado. Eu falei: “Olha, eu pedi uma coisa pra escola de Itajubá”, eu dizia: “Olha, Conceição também não tem.” O Monteiro achava graça: “Alzelina, a escola de Conceição tem diretora.” Eu dizia: “Eu sei que tem, mas lá também não tem isso, eu _____pra vocês anotarem.” E eles perceberam que eu não tinha conseguido me desligar, eu estava na escola de Itajubá, estava me sentindo bem, gostei demais da experiência de começar desde o início também a escola de Itajubá com todo mundo me apoiando, a escola ia muito bem, sabe? Mas aí quando eu vi como Conceição estava eu falei: “Tantos anos de trabalho por terra, não pode...”. Aí, nossa Senhora, foi uma reviravolta, eu estava noiva e convencer a minha família de voltar e aquilo, mas não teve jeito eu achei que tinha que voltar. Aí voltei, foi por isso que voltei, me achei responsável pela escola, porque eu que tinha pedido e não deu certo, por isso que voltei. P/2- Estava sem diretora quando a senhora voltou? R- Quando eu voltei estava sem diretora num clima terrível. P/2- Mais um desafio? R- Mais um desafio. Aí foi um desafio pior que o começo. P/2- Por que, dona Alzelina? R- Porque quando eu fui como supervisora nesse mês que eu passei lá, tudo eu contei pra diretora o que eu estava fazendo, o que eu fui fazer. Depois eu cheguei e falei pro Monteiro: “Olha, eu tive que falar.” Fui fazer e tudo, aconselhei, mostrei os pontos falhos, mostrei o que a fundação também tinha falhado em ter deixado a escola um pouco solta, né? Mostrei tudo e quando aconteceu esse problema, esse problema político e tudo de demissão, assim, na época ….eu não sei se vocês conheceram o Nicolau... P/1- Não. R- Não? Que tinha na Fundação, o Nicolau era, assim, muito rápido nas decisões: “Tem que fazer, vamos fazer logo e tudo” foi lá e demitiu. E aí eles acharam que eu tinha interferido. Eles não, alguns funcionários lá, a vice-diretora que estava lá... O orientador, foi assim, o (Cipriani?) era outro que também estava, que na época eles foram, assim, um pouco... Me convocaram pra ir pra lá, mandaram o (Ivanil?) pra lá, porque o (Ivanil?) ficava aqui na matriz, depois que ele foi pra escola de Itajubá. Como a vice, a orientadora estava no Paraná em férias, ele chamou essa diretora, essa orientadora pra vir assumir a escola, pra ir assumir a escola que não tinha diretor, a secretária de férias, chamou a secretária, sabe? Então, de repente todo mundo chegou em Conceição, todo mundo com a função de assumir a escola. Pra minha sorte o (Ivanil ?) chegou um dia na minha frente. Aí quando eu cheguei no hotel, eu liguei pra Fundação, foi ele quem atendeu falou: “Alzelina, você chegou, não vem aqui não, espera eu chegar, eu vou almoçar com você, espera aí eu vou almoçar aí com você e a gente conversa.” Aí quando foi ele falou: “O clima tá desse jeito, desse jeito, vai ter uma....” aí já tinha demitido a diretora, mas ela morava lá na mesma casa que eu morei antes e ela ainda estava lá. “E vão fazer uma festa de despedida pra ela hoje e é bom que você não vá porque o clima está assim, hostil”. Falei: “Ah então não vou, eu vou ficar aqui.” Mas sempre tem alguém que descobre, teve umas professoras que descobriram que eu estava na cidade e falaram: “Você vai, vai com a gente, vamos, que bom que você está aqui”, que eu falei: “Não vou gente, eu tô cansada, eu tenho muita coisa pra fazer, não, amanhã eu apareço lá, depois eu vou, dou um abraço na Cacilda, mas hoje eu não vou” dei desculpa. Mas chegaram lá, né, “Alzelina tá na cidade”. Aí ficou aquele clima, alguém não queria que eu aparecesse. Aí pronto, eu nem vi, ela viajou num dia e a gente nem se viu mais. Aí realmente foi um desafio chegar lá. Eu lembro que seu (Cipriani ?) falou: “Olha, se alguém pelo menos olhar com cara feia, você demite!” Eu falei: “Tá, tá bom, vou fazer.” Mas esse não era o meu feitio, né, cada um tem a sua personalidade. E aí foi, eu tive...convivi durante um ano com a vice-diretora que não era do meu feitio, ela não me aceitava e eu não concordava com o que ela fazia, mas eu fui tentando, dando um jeito dela pedir demissão, felizmente ela pediu demissão. Mas aí foi indo. P/1- Quantos anos esse retorno à Conceição? R- Eu voltei pra Conceição em 1980... Na metade do ano de 1983, de 1983 isto. P/1- E depois a senhora aposentou-se na Fundação? R- Em 1996. P/1- 1996? E continuou trabalhando? R- É, eu saí pra política e quando terminou eu já entrei pra a aposentadoria, aproveitei o retorno pra... P/1- E a senhora falou de noivado. Casou-se? R- Casei. P/1- Onde? R- Casei aqui em São Paulo. P/1- Ah, em São Paulo. Filhos, tem filhos? R- Tenho duas. P/1- É. E como é que foi o casamento? Como vocês se conheceram? R- Ihh [risos]. Mas faz muitos anos, inclusive foi lá em Conceição do Araguaia mesmo, mas foi antes de eu vir pra Itajubá, foi bem antes. Ele era da Vasp, diretor de patrimônio e a empresa, na época, tinha agência, tinha escritório lá. Agência lá porque os aviões faziam pouso lá às vezes passavam de um dia pra outro. Ele fazia essa... diretor de patrimônio, essa inspeção nos escritórios avaliando o trabalho dos agentes, vendo o mobiliário de tempo em tempo, fazia... via o relacionamento com as prefeituras naquela região, em todo o Brasil, né, de repente naquela região. Numa dessas viagens, não tinha outro hotel, só tinha aquele ali. Não, mas eu já tinha até mudado pra casa da Fundação, mas eu, de vez em quando, eu tinha uns amigos que ficavam lá no hotel, né, que moram em Conceição até hoje. E aí a gente se conheceu. Mas depois ele viajando, de cada lugar que ele viajava de vez em quando vinha um cartão. Aquela coisa parecia que não ia dar certo, né? Aí quando eu fui pra Itajubá... o problema veio quando eu fui pra Itajubá, aí estava mais perto e a gente resolveu reatar pra valer. Então, quantos anos passaram... P/2- Ele era de Itajubá? R- Ele era de São Paulo. P/2- São Paulo? R- Não, Itajubá estava pertinho. P/2- Pertinho? Tá. P/1- Aí se casaram. Quantos filhos? R- Eu tenho duas filhas. (pausa) P/1- Eu me perdi aqui. P/2- Dona Alzelina, de quando a quando então foi a gestão da senhora na Fundação? R- Na Fundação? P/2- Foram 25? R- 25 anos. P/2- Certo. E de quando a quando? Foi desde o início, né, da escola de Conceição do Araguaia. R- Isso. Até junho de 1996. P/2- De 1996. P/1- Dona Alzelina, a senhora falou bastante do seu Amador Aguiar. Como é que eram as visitas dele lá nas escolas de Itajubá, da... R- De Conceição. P/1- De Conceição. R- Olha, o seu Amador em Conceição ele ia sempre, assim, não digo todo ano, mas quase todo ano porque ele tinha uma casa. Tinha a área da Fundação Bradesco, depois tinha uma área que foi incorporada à Fundação, depois foi vendida, né? Onde tinha a casa grande, casa de visitas, que era ligada à ____ Fazenda e ele sempre visitava as fazendas; no tempo, o banco tinha uma rede de fazendas no Brasil todo. Ele sempre visitava lá no Estado do Pará, tinha umas duas ou três, e quando ele ia pra Conceição visitar a fazenda de Conceição, ele ficava lá perto da escola passava uma semana, duas, aí todo dia ele ia na escola. Só que ele nunca entrava pela porta principal, sabe, entrava pelos fundos, que tinha contato lá. Eu assustava e lá estava ele na escola, na cozinha, na sala de aula conversando, sabe, lá no recreio conversando com os alunos, era assim. E quando ele ia lá pra Conceição, lá ia ele, às vezes a Dona Nenê a secretária, né, estava junto. Tinha um orfanato na cidade- não tem mais, acho que um bispo que foi o fundador do orfanato - ele sempre visitava, sempre ajudava esse orfanato. Ele não gostava de badalação não, cidade pequena já viu, ele chegava: “Seu Amador chegou!” E o Bradesco tinha muita influência ali porque chegou a fazenda primeiro, e naquele tempo eram os projetos agropecuários que movimentavam a cidade. E lá foram muitos projetos, uns cento e poucos, eram grandes projetos agropecuários apesar da problemática social que criavam porque eram aqueles projetos que o governo... quando o governo declarou o Pará uma área grande desabitada, porque o governo ficava lá em Belém, mil quilômetros de distância e não vinha, não conhecia do sul do Pará, os políticos não conheciam. Então, pra eles eram terras desabitadas que eles não vinham conhecer. Na verdade, os primeiros moradores daquelas terras não foram instruídos que tinham que documentar as terras e tinha um cartório aqui, depois um outro longe, então, eles não documentavam. Era o mesmo costume dos índios que eles tinham, sabe? Eles faziam uma roça nesse pedaço aqui, produziam, aí ao invés de recuperar essa terra de novo pra fazer de novo, eles faziam em outro lugar, sabe. E às vezes aquele lugar eles incorporavam, ficavam ali, depois eles mudavam de novo e iam criando as famílias, iam ficando por ali; tinha moradores de 30 anos, 20 anos, 50 anos. Várias gerações de famílias naquelas terras todas. Quando o governo começou, através da Sudam [Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia] incentivar essas grandes firmas do Sul, Sudeste a fazer projeto agropecuário lá foi que começou esse problema. Porque também as pessoas não tinham acesso, assim, não iam por terra, eles voavam, a demarcação era feita por aparelhos. Viam latitude, longitude. Depois que estava tudo pronto, essa área de tal firma já documentou em Belém. Aí que vinham por terra, aí era um impacto. Tinha gente morando aqui, outra gente morando ali, e pra desocupar? O governo não criou uma política de desocupação, sabe, se ele tivesse criado...ele fez aquilo e se tivesse criado uma política de desocupação, né, de intermediários do governo pra poder negociar com essas famílias, não houve, ele deixou por conta dos proprietários que se entendessem com os posseiros, na época; os legítimos posseiros eram eles. Aí o entendimento era feito de toda forma, por bem ou por mal, ou se era feito as famílias saíam por bem ou por mal também. Mas tinham que desocupar a área e eram grandes áreas, tudo. Então, do jeito que cada proprietário cuidava desses problemas era fama que aquele projeto tinha, né, tal firma é boa, tal firma é ruim por isso, por isso, porque fez isso, porque fez aquilo. Aí o seu Amador ia lá porque na desapropriação a favor do Bradesco, o sobrinho dele criou muito problema, aí ele foi tentar muito, assim, com muito jeito, com muito tato... o relacionamento do Bradesco com a comunidade foi sempre um relacionamento bom, né, tanto que a Fundação depois foi muito bem aceita por causa disso e ele estava sempre ali. Ele adotou umas órfãs, né, que ele trouxe pra cá, criou. P/2- São as filhas adotadas de ________. R- As filhas adotadas de lá. Ele sempre teve um relacionamento muito bom; quando ele estava lá, se o pessoal, a comunidade soubesse, o prefeito e mais gente, queriam fazer festas e festas pra ele, mas ele ficava um pouco arredio, gostava de ficar mais tranquilo, né? Mas era uma pessoa muito querida lá também. Muito respeitada. P/2- Então, ele que resolveu esse problema, o problema que havia ele resolveu e acabou _____________. R- Ele resolvia, por várias vezes ele resolvendo, porque surgiam em várias ocasiões P/2- E ele estava lá pra resolver? R- Ele estava sempre resolvendo. P/1- E as crianças, como que era a receptividade das crianças quando o seu Amador... R- Com ele? Nossa os alunos, nossa, era muito boa. Porque ele fazia tanto... isso aconteceu tanto em Conceição quanto em Itajubá, né, quando eu via já estava no meio das crianças e ficava assim questionando: “Tá comendo hoje? O que que você tá comendo? Você sempre come isso? Essa diretora não tá enganando não?” Ele brincava muito com as crianças e tanto em Itajubá quanto em Conceição ele era, ele e seu Mário...em Conceição era mais ele, o seu Mário ia menos, mas em Itajubá os dois estavam sempre juntos, eles eram muito queridos dos funcionários e dos alunos. P/1- Tem algum acontecimento que a senhora se lembre, o seu Amador foi lá alguma vez em especial? R- Quando surgiu o segundo grau, que a gente só tinha até a 8ª série. Quando foi pra surgir o segundo grau lá foi ele atendendo a um pedido dos alunos da 8ª série. Quando eu vi, estava na sala de 8ª série e os meninos junto pedindo, sabe? P/2- Ele conversando e os meninos dizendo: “E agora?” R- Conversando e os meninos pondo a dificuldade: “E agora?” Aí ele jogava pra gente, depois a gente se virava [risos]. Mas foi assim, ele sempre era muito querido, sabe, por causa disso. Muito respeitado, ele era uma pessoa respeitada, tanto que quando muita coisa errada que o gerente fez, o Bradesco não teve maiores problemas por causa do respeito que se tinha. P/2- Pelo seu Amador. R- Basta dizer que a Fazenda Bradesco nunca foi invadida até que o Bradesco vendeu e depois quem comprou resolveu fazer o acordo com o governo federal, né, de... Mas a Fazenda Bradesco nunca teve invasão. P/2- O que era comum, né? R- O que era comum nas outras. P/2- Certo. Os novos cursos, como iam os novos cursos pra lá. Era aquele sistema do centro de treinamento aqui em São Paulo? Iam, as pessoas continuavam vindo de lá pra cá treinar? R- Ah sim, sempre, sempre. Os professores sempre tiveram essa assistência, sempre. Nós diretores, né, todo ano a gente tinha duas vezes reunião. Uma vez era por grupo pequeno de diretores; outra vez era todo o corpo de diretores da Fundação, a gente passava por treinamento. E fora disso, os orientadores vinham, os professores das matérias específicas, às vezes era encontro dos professores de Geografia, encontro dos professores de História, de Matemática, assim, encontro de professores alfabetizadores, sempre tinha, sempre os professores participavam aqui, participavam não, acho que continuam participando, né, aqui na matriz. P/2- E logo em seguida à escola de Conceição houve a escola de Canuanã? R- De Canuanã. P/2- Aí tinha uma troca de informação? R- Tínhamos, nós tivemos uma troca de informação eu com a _______conversávamos muito. Ela visitou Conceição e eu visitei Canuanã, né? Quando eu comecei o segundo grau, ela não tinha... ela começou acho que uns três anos depois. Uma vez, o primeiro ano que ela formou de alunos de 8ª série, eles vieram, teve uns alunos que foram selecionados pra vir pra cá pra São Paulo, só que houve muito problema na adaptação desses alunos lá daquela região do colégio interno lá, e depois virem aqui pra São Paulo pra fazer o segundo grau, começaram a trabalhar em alguns departamentos daqui, alguns deram certo outros não. Então, no segundo ano, eu já tinha lá o magistério e contabilidade e esses alunos foram pra lá. Eu recebi de uma vez 13 alunos de Canuanã, 5 meninas e 8 meninos, né... aliás ao contrário, 5 rapazes, 8 meninas e eles ficaram comigo lá. E lá onde eu morava, tinha a casa atrás que a gente chamava de alojamento, uma construção que foi feita para os professores solteiros que não eram de Conceição morar. Mas aí depois, nessa época, ficou vazio o alojamento. Então, as meninas ficaram lá e os meninos ficaram lá nessa dependência que era da (Capa ?), depois passou pra Fundação. Então, tinha a casa grande que era a casa de visitas onde morava o irmão do seu Amador, o seu Teófilo, e tinha a outra casa, né. Então esses meninos ficaram, transformamos a outra casa em alojamento e eles ficaram lá, passaram lá três anos e meio sob a minha responsabilidade. P/2- Eram filhos? R- Eram filhos, né, filhos que eu adotei porque tinha 24 horas por dia sob a responsabilidade da gente. Eles estudavam, aí durante o dia nós criamos um esquema de trabalho voluntário deles nos diversos setores da Fundação. Nessa época tinha o médico, Alberto, Dr. Alberto, que trabalhava num hospital; aí ele criou um estágio no hospital, elas faziam estágio lá de atendente no hospital, consegui isso também no hospital do Estado, né? Tinha um professor meu que era médico veterinário da Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural], ele também conseguiu estágio lá pros meninos. E assim nós ficamos com eles estudando, alguns fazendo magistério, outros fazendo contabilidade durante três anos. Aí coincidiu quando eu voltei pra Itajubá. Quando eu fui pra Itajubá eles terminaram, aí até foi o ano em que foi uma festa de despedida de todo mundo. Cada um deles voltou pra Canuanã, outros Gurupi, outros vieram aqui pro estado de São Paulo pra continuar o estudo. Tem três meninas que já estavam namorando, resolveram ficar lá, casaram-se e moram lá até hoje. Tem uma delas que ficou viúva há poucos dias até...mas elas já se formaram, estão lá. Tem uma que continuou na Fundação e depois saiu. Tem uma delas que até hoje é professora na Fundação, a (Venuse?), ela é uma dessas meninas que se casou e ficou, já fez a faculdade lá. E os outros cada um tá fazendo alguma coisa. P/1- Dona Alzelina, eu gostaria, assim, que a senhora falasse a importância, num quadro geral, a importância da Fundação Bradesco em Conceição do Araguaia. R- Olha, a comunidade, o pessoal da comunidade costuma falar muito que existe uma Fundação Bradesco antes... aliás existe uma Conceição do Araguaia antes e outra depois da instalação da Fundação Bradesco. A Fundação Bradesco mudou a realidade, porque quando a gente chegou lá em Conceição, chegamos eu e a minha irmã, né, depois já tinha o grupo de professoras que a gente conhecia, a gente sentiu que, assim, em todos os aspectos era um campo virgem de trabalho, aspecto educacional, aspecto social, né, em todos os costumes. Então, nosso trabalho com os professores... a gente fazia muita reunião, no início havia muita, assim, disponibilidade dos professores, tanto que começamos a trabalhar oito horas por dia aí eu que fui reivindicando da Fundação alguma coisa, melhoria de salário, alimentação melhor, porque eles passaram a se alimentar na Fundação, a almoçar lá e ficava já pro outro período, né. E essa disponibilidade: oito horas por conta da Fundação, sábado ainda iam pra fazer planejamento, isso foi assim. O início da Fundação, assim, até um pouco fora do nível normal de uma empresa, né, porque eles ficavam mais tempo do que deveriam ficar, mas sem problema. E foi uma dedicação plena dos professores e ali a gente fazia tudo pros alunos, ensinávamos tudo o que podíamos aos alunos, às famílias, tudo que não tinha na comunidade. Nós começamos... por exemplo, nunca tinha tido festa de mãe em Conceição, tanto que até a primeira festa o seu João estava lá, ele até se emocionou com as mães. Foi até um fato muito curioso, que teve uma mãe muito carente que queria pedir as coisas, achou que ele era o governador, e ela: “Eu quero falar com o governador, eu quero pedir”, a gente riu muito disso depois, mas ele ficou emocionado com a festa. As mães nunca tinham, sabe, uma festa de mães que um filho falasse alguma coisa pra mãe, aquilo então foi um marco na história da cidade de Conceição e a gente percebeu isso. Então, a gente começou a comemorar a Páscoa, fazia lembrancinha de Páscoa, ensinava os alunos a fazer mensagem pra chegar em casa, levar pra família. Até no começo, assim, a gente sabia que não tinha... a gente fazia aquelas lembrancinhas de Páscoa um grupo de alunos levava pro prefeito, levava pro padre, levava pro pastor, sabe? Aí a Fundação Bradesco foi marcando a presença dessa forma, né, de comemorar o Natal, fazer aquela confraternização de fazer árvore de Natal, de fazer enfeite, né, os próprios alunos aprendiam a fazer os enfeites, enfeitavam a própria casa; esses costumes a gente foi dando. Na aula de educação para o lar, as alunas aprendiam a fazer uma comida diferente, o básico faziam em casa. Aprendiam a bordar, aprendiam tudo, sabe? Aprendiam a pintar as unhas, aprendiam a se maquiar, a cortar o cabelo, a se cuidar, tudo isso a Fundação implantou ali. Depois com essa, como eu disse, com a mudança do currículo foi mudando, os alunos aprendiam a profissão ali, a mexer com madeira, com eletricidade, a fazer serviço de encanamento, sabe, esses serviços básicos. Técnicas agrícolas; eles aprendiam a mexer com a terra, a plantar, a colher, a transplantar. Isso aí foi muito bom porque isso foi passando pras famílias, né, os alunos já começavam a aprender, começavam a fazer em casa, começavam a aprender os hábitos de higiene, hábitos de alimentação, que eles não comiam verdura, lá não tinha verdura, eles não comiam. De vez em quando tinha alface lá no hotel que eu estava, verdura que tinha era repolho e tomate direto porque era a verdura que vinha de fora e que durava mais, repolho e tomate. Aí a gente foi plantando outras verduras, foi ensinando os valores alimentares, aí foi todo um trabalho dos professores primários, fazer cartazes com frutas e tudo, ensinar o valor dos alimentos pra gente ir introduzindo na merenda, né, e quando eles produziam a mais eles, levavam. Tem muita alface, então todo mundo levava, daquele grupo de aula, levava alface pra casa. Deu muito tomate, eles levavam um pouco de tomate pra casa. Deu cenoura, levava cenoura pra casa, certo? Isso foi interferindo também na alimentação da família. E aquilo que dava muito lá que é nativo, pequi que é nativo, o caju, a gente foi ensinando a fazer suco, ensinando a pôr o pequi na comida que eles gostam muito. Então, a Fundação Bradesco mudou realmente os hábitos das pessoas. E a comemoração do Dia de Ação de Graças também foi um marco que a Fundação deixou ali, sabe, de agradecer, de comemorar, de agradecer a Deus por tudo que teve durante o ano, que os alunos aprendiam isso, a se respeitarem. Os alunos da Fundação Bradesco me achavam uma diretora, assim, muito rígida, muito radical, mas a gente viu no começo que precisava ensinar certas coisas que eles nunca tiveram, né, disciplina principalmente, tinha que ter disciplina e eles não tinham, a gente teve que implantar a disciplina, né, fazer a fila, se comportar. O aluno fazia uma coisa errada, ele que tinha... por exemplo, quebrou uma carteira...eu lembro até uma vez que o seu Mário... foi seu Mário? O seu Amador teve por lá e soube, chegou aqui na diretora e comentou, numa reunião que teve: “O aluno quebrou a carteira.” Eu falei: “Você vai consertar.” Ele falou: “O meu pai vai pagar.” Eu falei: “Mas não foi seu pai quem quebrou, foi você, então não é o seu pai que vai pagar, vai ser você.” “Como? Eu não tenho dinheiro.” “Não, você vai pagar.” Aí eu falei pra ele: “Olha, esse funcionário ganha tantos reais por mês, tanto por dia pra ele fazer esse serviço. Se você ficar trabalhando tantos dias vai dar o preço da cadeira, então você vai trabalhar tantos dias [risos].” P/2- Trabalhava? R- Não trabalhavam, né, mas... P/2- Tinha uma noção. R- É, mas tinha, fazia uma noção, pois é. Assim eu comecei, sabe, a fazer...fazia uma coisa errada, eles tinham que consertar, não era ninguém que consertava, eram eles que consertavam. Sujavam, então tinha que limpar: “Olha, o funcionário não é seu, o funcionário é da Fundação ele já fez a parte, ele já limpou, agora você sujou então é você quem vai limpar.” Sabe, era assim. O material de merenda espalhado, terminou de merendar deixavam em qualquer lugar a colher: “Não, vocês vão pegar, aqui tem um lugar certo de pôr a vasilha suja, é aqui que vocês vão pôr.” Tudo isso foi hábito que a gente foi estabelecendo, criando que eles não tinham. P/1- Dona Alzelina, e casos de alfabetização de crianças com os pais, a senhora conhece alguns casos? R- Sim, conheci crianças que aprenderam e ensinaram aos pais, né, a fazer o nome, assinar o próprio nome, a contar. A gente fazia muito isso com eles no começo da escola, que a gente mostrava que a vivência que eles estavam tendo os pais não tiveram, né. “Olha, os seus pais não tiveram escola, não tiveram essa oportunidade.” Então, tudo aquilo que eles aprendiam na escola eles tentavam repassar em casa, não só aprender a ler, a escrever, mas tudo que eles aprendiam, eles repassavam em casa. Isso era ______ de muitos pais, quando a gente tinha reunião e conversávamos com eles: “Agora lá em casa já tem que fazer isso, porque se fizer errado o aluno tá cobrando que tá errado”; em vários sentidos tudo que eles aprendiam repassavam. P/1- A senhora antes falou da importância da Fundação Bradesco com relação à comunidade de Conceição do Araguaia. Gostaria de ouvir a sua opinião projetando isso pra questão da educação brasileira, né, como a gente vê essa educação brasileira hoje em dia. Como é que foi a participação da Fundação Bradesco pra educação brasileira? R- Nossa não tem nem dúvida. Até as fundações que hoje já existem voltadas pra educação ,não tem dúvida de que foram espelhadas na Fundação Bradesco, porque a Fundação Bradesco foi pioneira, o Bradesco, né, o Grupo Bradesco foi pioneiro nessa implantação dessa educação a nível nacional porque foi implantando uma escola em cada estado. Dessa forma, assim, de uma empresa sem pretensão nenhuma de retorno tá fazendo isso para uma comunidade carente isso foi... nossa! Pensa bem, quarenta escolas da Fundação Bradesco espalhadas por esse Brasil todo, o retorno que Conceição teve, cada comunidade que tem uma escola o retorno que essa comunidade teve, a nível de Brasil quanta coisa não foi modificada? Quanta coisa não mudou? Por exemplo, em Brasília, Ceilândia, que faz tempo até que eu não visito, mas Ceilândia era um reduto de violência, de carência, de tudo. O que que aquela escola não fez ali, quanta coisa que não mudou, as pessoas tinham até medo de morar lá, né? P/1- Tem alguma pergunta que nós não fizemos, algum caso que a senhora gostaria de contar, comentar? R- Não sei se foi assim, eu lembro assim. Bom, eu fui pra Conceição... eu acho que essa força que eu tive... porque eu não fui sozinha, né, eu fui com a minha irmã. Durante o tempo que ela pôde ficar comigo lá, me ajudou muito, muito mesmo, tanto assim que pelo fato de eu ser diretora muitas vezes eu tinha que ser mais rígida, né? E muitas vezes as pessoas chegavam nela primeiro, pessoas, assim, eu digo em termos de aluno, alguns funcionários chegavam primeiro nela pra depois vir comigo; tentavam solucionar com ela e ela às vezes até solucionava. P/1- E pra senhora, qual é a importância desse Projeto Memória 50 anos da Fundação Bradesco? Contar a sua história...a Fundação Bradesco contar a sua história através das histórias de vida de pessoas que participaram da Fundação Bradesco? R- Eu acho que é um presente, né, um presente de Deus, assim, é um retorno muito bom, muito gostoso. E só tenho que agradecer à Fundação por essa oportunidade. A gente revive todos os momentos que a gente passou de alegria, de luta, de preocupação, né, mas é uma coisa gostosa, né, de desafios. P/2- Só faltou uma coisinha. As filhas da senhora foram alunas da Fundação? R- Foram alunas, teve uma que foi muito pouco tempo porque depois ela veio aqui pra São Paulo. A outra foi até a 8ª série, não foi mais porque não quis, resolveu se casar, porque... P/2- E como é o nome da irmã da senhora que acabou... R- Falecendo? P/2- ...ajudando muito. Essa irmã que foi com a senhora? R- Maria Aparecida. P/2- É? R- Eu trouxe, até naquelas fotos tem uma foto que eu tô com ela lá. É porque depois veio a Maria José, essa que mora comigo até hoje, ela também foi... P/2- Ah, foram duas? R- Foram duas. P/2- Certo. Teve assessoria, né? R- [risos]. P/1- Certo. Mais alguma coisa? P/2- Não, só isso. P/1- Então Dona Alzelina, em nome da Fundação Bradesco e do Museu da Pessoa, nós agradecemos a sua entrevista. Muito obrigada. R- Eu é que agradeço a oportunidade. (fim do segundo CD) -- FIM DA ENTREVISTA—
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