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História

Educação e Saúde: Amor à Comunidade

História de: Lúcia Ribeiro Alves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2004

Sinopse

Lucia Ribeiro conta de sua infância humilde em Minas Gerais e relata suas dificuldades. Mostra como o cotidiano no qual se familiarizou, como iniciou uma família e uma profissão. Como Agente Comunitária em Brasília passou a ajudar as pessoas e compartilha a realidade desigual brasileira, mostra a pobreza no lugar mais poderosos do país.

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História completa

P/1 - Então, gostaria que a senhora começasse dizendo seu nome completo e a data de nascimento.

 

R - Meu nome é Lúcia Ribeiro Alves, nasci em 2 de junho de 1946.

 

P/1 - Certo, a senhora nasceu onde?

 

R - Nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais.

 

P/1 - Os seus pais, como é que eles se chamam?

 

R - José Ribeiro de Souza e Francisca Teixeira de Souza, são falecidos já.

 

P/1 - O que é que faziam os seus pais? A senhora sabe alguma coisa das origens deles também?

 

R - Meu pai foi criado no interior, com muita dificuldade. Minha mãe não, quando tinha dois meses de idade, foi doada para a madrinha, porque a mãe faleceu e o pai não criou, foi criada com a madrinha com muita dificuldade, sofreu muito, mas muito mesmo, ela contava, trabalhou muito também. Meu pai também, sofreu muito para ser criado, coitado, trabalhou demais, passou muita dificuldade na vida sabe, muito mal orientado também mas, viveu, com dificuldades, mas foi, devagar foi.

 

P/1 - O seu pai, você sabe alguma coisa dos seus avós, não.

 

R - Não, pouca coisa, a gente...

 

P/1 - O que é que a senhora sabe deles?

 

R - Foi criado assim, não comentava muito, falava muito, tinha muita preocupação em falar sobre como foi criado, a dificuldade, que tinha vontade de criar a gente melhor do que foram criados, sempre assim, falando da dificuldade de vida, o modo de trabalhar, de alimentar, como foi, mas não era rígida a criação deles. A minha mãe não, ela foi muito, judiaram muito dela, bateram muito, forçavam a trabalhar e ela sempre falava que não tinha vontade, tinha vontade de criar a gente sem precisar assim, dar castigo, apanhar, o assunto deles era só esse, reclamava muito sobre a criação que eles, como foram criados.

 

P/1 - O que é que seus avós eram, o que faziam? Eram agricultores, trabalhavam...

 

R - Agricultor, trabalhava em agricultura.

 

P/1 - No interior de Minas?

 

R - No interior de Minas.

 

P/1 - Em que cidade?

 

R - Guanhães

 

P/1 - Guanhães

 

R - É.

 

P/1 - Os seus avós por parte de pai?

 

R - É, parte de pai, em Peçanha.

 

P/1 - Em Peçanha?

 

R - É, Virginópolis

 

P/1 - Virginópolis?

 

R - É

 

P/1 – E por parte de mãe?

 

R - A minha mãe, a minha mãe era (pausa) portuguesa, ela é descendente de portugueses.

 

P/1 - De português?

 

R - É, mas não foi criada lá sabe, foi criada em Minas, mas não conheceu nem pai, nem mãe.

 

P/1 - Eles eram portugueses?

 

R - Eram portugueses e ela não comentava, porque não sabia, ela foi criada com a madrinha.

 

P/1 – A madrinha era o que?

 

R – A madrinha não dizia nada para ela e não sabia dizer, nem se tinha irmãos, nem como os pais dela eram, não chegou a conhecer.

 

P/1 - Os pais dela morreram então?

 

R - Morreu, primeiro morreu a mãe, depois o pai doou ela para a madrinha e sumiu também, não procurou estar com ela, conviver mesmo de longe, ela não ficou sabendo como era.

 

P/1 - Essa madrinha morava onde?

 

R - Morava com ela também.

 

P/1 - Onde em que cidade?

 

R - Lá em Minas.

 

P/1 - Em Belo Horizonte?

 

R - É em Belo Horizonte.

 

P/1 - Certo, o pai entregou e ela passou, cresceu...

 

R - Cresceu sem conhecer nem um dos dois, nem o pai, nem a mãe, porque era muito novinha, tinha 2 meses quando deram, doaram ela para a madrinha e não conheceu ninguém.

 

P/1 - Essa madrinha, a senhora conheceu?

 

R - Não, não conheci, faleceu também quando a minha mãe casou, antes do casamento ela faleceu.

 

P/1 - Certo e a sua mãe, cresceu fazendo, já trabalhando, desde cedo?

 

R - Já trabalhando, sofria desde cedo.

 

P/1 - Trabalhando para a madrinha?

 

R - É, para a madrinha.

 

P/1 - Depois, como ela sobreviveu?

 

R - Ela casou, estava na casa da madrinha ainda, as filhas, continuou morando junto com as filhas da madrinha dela, depois conseguiu conhecer o meu pai, contava para ele o sofrimento como era, ele pegou e casou com ela, mais para tirar ela de dentro da casa da madrinha.

 

P/1 – Eles casaram e continuaram morando em Belo Horizonte?

 

R - Continuaram não, casaram e foram para São Paulo.

 

P/1 - Foram para São Paulo?

 

R - Foram para São Paulo, meu pai acho que foi transferido, ele trabalhava de motorneiro de bonde.

 

P/1 – Ah tá, já em Belo Horizonte?

 

R - É, em Belo Horizonte,  eles mandaram para São Paulo, ele foi lá, depois ficaram em São Paulo. Logo que eles saíram de São Paulo e voltaram para Minas, foi que nasci.

 

P/1 - Sei e seu pai sempre trabalhou como motorneiro?

 

R - Motorneiro de bonde, depois que saiu de motorneiro, pegou serviço de pedreiro, desde o tempo que me entendo por gente, meu pai toda vida foi servente de pedreiro.

 

P/1 - Servente de pedreiro?

 

R - É.

 

P/1 - Bom, a senhora nasceu em Belo Horizonte e foi criada lá?

 

R - Fui criada, me casei, tive meus filhos lá, só dois que são daqui de Brasília.

P/1 - Sempre o bairro Progresso?

 

R - Sempre Progresso, me casei no centro de Belo Horizonte.

 

P/1 -Que lembrança a senhora tem da sua infância? Quantos irmãos eram?

 

R - Dois só.

 

P/1 - Dois só?

 

R - Só eu e um rapaz.

 

P/1 - A senhora é mais nova ou mais velha?

 

R - Sou mais velha do que ele, cinco anos só.

 

P/1 - Cinco anos? Que lembrança a senhora tem da sua infância?

 

R - Ah, tenho muito, muito serviço sabe, muita tristeza, minha mãe tinha problema de saúde.

 

P/1 - Que problema ela tinha?

 

R - Ela tinha problema de ferida nas duas pernas. Eu era menina de 7 anos, me lembro, aí andava longe com a minha mãe para ela procurar uma pessoa para benzer, um hospital, uma pessoa que benzesse, a gente ficava sabendo que tinha uma pessoa ali que curava, eu ia junto com ela. Só que acompanhava ela por todos os lugares assim e quando ela estava melhor, lavava roupa, muita roupa para fora, ia com ela na mina, era longe onde a gente ia lavar roupa, eu ia com ela, buscar e falava assim: "Agora você vai buscar a roupa da Dona fulana."  então ia na Dona, vamos supor, Dona Maria: "Vai lá pegar a roupa, a da Dona Maria, vou esperar você aqui na mina para a gente lavar." Eu ia buscar essa roupa, trazia e a gente ficava o dia todo na mina, lavando essa roupa sabe, depois acabava de lavar colocava para enxugar, passava da hora de comer, às vezes chegava em casa a noite. Às vezes dava aquela tempestade, chuva, apanhávamos chuva no meio do caminho e minha mãe chorava muito, ficava com muita pena, mas a única pessoa, que ela tinha para ajudar era eu, era assim a nossa vida.Uma coisa que não esqueço, comento muito com os meus filhos, é sobre como fui criada, assim trabalhando, trabalhei demais e meu serviço era pesado, meu pai trabalhava, às vezes tinha serviço, às vezes não, minha mãe às vezes tinha roupa para lavar e às vezes não, a gente catava de todo jeito, íamos, catava lata, plástico, tudo para vender, para ajudar-nos a sobreviver, fui criada buscando lenha, vendendo esterco para os outros, andava longe com o saco de esterco na cabeça para vender, buscava lenha, minha vida foi desde criança trabalhando em serviço pesado, buscando lenha, roupa, entregando roupa, às vezes a minha mãe dizia assim: "Leve essa roupa entregue para a Dona, quando você vier.." naquele tempo vendia mantimento em quilo, ela dizia para mim: "Quando você vier compra um fubá para fazer um angu para a gente comer." Aí, levava a roupa, às vezes não conseguia receber, vinha triste, quando recebia,  passava e comprava 200 gramas de fubá, comprava um pouquinho de arroz, um pouquinho de café, era assim, a vida foi dura, sacrifício mesmo.

 

P/1 - Não tinha brincadeira?

 

R - Não, tinha, brincava muito, repeti muito na escola, porque não tinha, não podia brincar, aí ia para a escola, achava que podia brincar, não estudava, ficava brincando, quando acontecia, quando assustava, nossa, brincava muito, tirava em 1º lugar na hora de jogar queimada, essas coisas, tirava em 1º lugar, mas nos estudos fui um pouquinho atrasada, não me dedicava aos estudos não, de jeito nenhum.

 

P/1 - Porque já trabalhava muito na hora de estudar, estava cansada.

 

R - Trabalhava muito mesmo, não pensava em brincar e quando tinha uma oportunidade ia para casa, poder estudar, estudava um pouquinho, largava, estava sempre brincando, fazendo pipa, brincando com os meninos, jogando bola. Desse jeito, era terrível, mas não sei se era porque a gente trabalhava muito e não tinha aquela hora para brincar, estudar, trabalhar, eu estudava a noite, com a lamparina acesa, estudando, aquele cheiro de querosene, o caderno sujava. Era desse jeito que estudava, mas minha mãe sempre falava, não era falta dela dizer: "Não, tem que estudar, ser alguém.", porque não teve, não estudou.

 

P/1 - Ela não estudou?

 

R - O pouco que sabia...

 

P/1 - Ela lia ou não?

 

R - O pouco que sabia, aprendeu assim, vendo os outros fazer, sabe?

 

P/1 - Então, lia um pouco e escrevia?

 

R - É, lia e escrevia o nome dela, escrevia cartas, muito devagarinho, faltando algumas palavras, letras, mas escrevia, nunca foi ao colégio, só de ver os outros, para você ver como é.

 

P/1 - Inteligente.

 

R - Inteligente e a força de vontade que tinha, hoje falo para os meus filhos: "Vocês tem tudo para ser uma pessoa na vida e não tem interesse." A gente tem que passar para os filhos, alguma coisa que havia feito no passado, mas não teve aquela oportunidade de parar, pensar e ver, agora hoje a gente passa para os nossos filhos, como deve ser, não deve perder a oportunidade, tem todo o apoio da mãe, do pai, a vida é mais fácil para eles, acho, a vida é muito fácil hoje, agora uns dizem que no passado era fácil, mas não é, acho que não.

 

P/1 - E o seu pai?

 

R - Hein?

 

P/1 - O seu pai que memória a senhora tem dele?

 

R - Ah, meu pai era uma pessoa muito honesta, boa, trabalhador também.

 

P/1 - Eles viveram sempre juntos?

 

R - Sempre juntos, sempre mesmo.

 

P/1 - Por que do jeito que a senhora falou parece que não se casaram por paixão?

 

R - Não, não foi não, mas sempre juntos.

 

P/1 - Mas ficaram juntos sempre?

 

R - Ficaram junto, separaram só na morte mesmo.

 

P/1 - Teve uma união?

 

R - Teve uma união.

 

P/1 - O seu irmão?

 

R - Meu irmão é casado.

 

P/1 - Que recordações a senhora têm dele, a senhora era muito ligada, ou...

 

R - Não, eu que mais tomava conta dele, era muito. Sempre tomando conta, orientando, porque  toda vida foi mais tímido, mais quieto e eu sempre tomava, às vezes ia para a escola, ele estudava em horários diferente, ele ia, às vezes a criança batia nele e eu falava com ele que não podia apanhar, que eu não ia saber quem é, que era para discutir, para bater, para não deixar apanhar, sempre assim, ele era mais quieto, mais humilde...

 

P/1 - A senhora defendendo ele?

 

R - Sempre assim, toda vida fui desse jeito. Aí até hoje ainda é assim, sempre calado, aceita tudo, caladinho e é uma pessoa muito trabalhadora, lutadora, muito mesmo.

 

P/1 - Ele estudou?

 

R - Estudou, até a quarta série também, porque a gente lá em Minas fazia até o quarto ano e para seguir, tinha que pagar, era pago os estudos, acho que até hoje e não tinha condições de estudar mais, minha mãe não tinha condições de pagar o estudo, eu já gostava muito de estudar, fiquei naquela "Ah, já não pode, então...", comecei a trabalhar, trabalhar, ela me colocou em casa de família e às vezes ajudava ela, o trabalho, lavava roupa em casa mesmo, ela dava um jeitinho de compra roupa, sapato, foi assim.

 

P/1 - Então, já desde menina também, a senhora trabalhou em casa de família?

 

R - Já trabalhei.

 

P/1 - Em Belo Horizonte, o que a senhora lembra da cidade, alguma memória de lugar que a senhora ia ficava mais no bairro Progresso?

 

R - O que lembro muito era da igreja.

 

P/1 - Da igreja?

 

R – A Igreja do padre, foi onde, estava com 9 anos, e minha mãe me colocou em uma entidade da igreja, com nome de cruzada, onde tinham várias crianças. Tinham as crianças, as meninas, os homens, tínhamos a espécie de um catecismo, as reuniões tinham todos os primeiros domingos, comungávamos, tinha missa só para aquelas pessoas, as crianças e tinha, hoje fala excursão, mas naquele tempo era piquenique, íamos com o padre, as professoras, passear nas fazendas, longe, passava o dia todo. Às vezes a única distração que tinha para passear era essa e me recordo muito sobre isso, essa igreja, esses passeios que a gente estava, as orientações que as professoras davam para a gente sobre a religião, sobre Deus, o modo deles ensinar, os evangelhos, a missa, a comunhão, confessar, tenho muita lembrança disso, achei que foi bom para mim.

 

P/1 - A senhora mudou para o Rio depois com a família?

 

R - Foi.

 

P/1 - Quando isso acontece e por que é que tem essa mudança?

 

R - É porque a gente estava em Belo Horizonte e eu já estava com as minhas crianças, no ponto de estudar.

 

P/1 - Isso depois do casamento?

 

R - Foi muito depois é, já estavam no ponto de ir para o estudo, meu marido falou assim: "Está meio difícil a vida aqui, difícil, vamos para, vamos ver se a gente consegue lá no Rio." Meu marido trabalha como doceiro, trabalhava, apareceram umas pessoas lá, disseram que iam montar uma fábrica para ele trabalhar lá no Rio, aí fomos para o Rio.

 

P/1  - Petrópolis?

 

R - Petrópolis, ficamos lá mais de 6 meses, mas como lá tem muito russo, não me dei com o clima e nunca tinha separado da minha mãe, porque casei e continuei morando no lote, perto dela, não me acostumei com o clima de lá, não me dei bem e aí: "Não, vamos voltar." Voltamos de novo para Belo Horizonte, mas de lá não gostei muito não, por causa do clima, a gente passeava, ia a praia no Rio, porque, não chegava nem meia hora para ir nas praias, não chegava nem a meia hora para ir lá, muito pertinho, mas não gostei porque lá é muito russo, muito frio.

 

P/1 - É russo?

 

R - É.

 

P/1 - O que é russo?

 

R – É aquela neblina?

 

P/1 - Neblina.

 

R -  Os carros de dia e a noite, tudo com farol aceso, aí não gostei não, achei muito frio, a gente saia de Petrópolis, estava frio, chegava no Rio, aquela...

 

P/1 - Estava torrando?

 

R - Aquela coisa sabe, não me acostumei com o clima não, voltamos para Belo Horizonte.

 

P/1 - Como a senhora conheceu o seu marido?

 

R - Ah, foi na bica lá, onde estava dizendo para você que ia com a minha mãe.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - É.

 

P/1 - A sua mãe tinha um lote então, seus pais, eles conseguiram a terra própria deles?

R - Tinha, conseguiram comprar o lote, foi a gente e meu marido morava em uma fazenda lá perto, foi criado nessa fazenda e trabalhava com animal, buscando lenha no caminho lá perto e levava os animais para beber água na bica. No dia que a gente estava lá, ficamos nos conhecendo e tudo, depois ele, marcamos encontro e começamos a namorar. Namorei 3 anos, sem meus pais ficarem sabendo, depois nesse meio de tempo, meus tios foram morar na minha casa e contaram para o meu pai, ele custou a aceitar, mas aceitou, entre noivado e namoro fiquei 1 ano em casa, aí casei.

 

P/1 - O seu marido fazia o que, o trabalho dele era, fazer, cuidar de...

R - De gado.

 

P/1 - De gado?

 

R - É e nessa fazenda, tinha uma fabrica, faziam geleia, um doce.

 

P/1 - De mocotó?

 

R - É, faziam geleia, fazia.

 

P/1 - Isso é bom.

 

R - É ótimo, já fiz muito e como.

 

P/1 - (riso).

 

R - Fazia geleia, um docinho também com nome de canudinho que tem a capa igual do pastel.

 

P/1 - Canudinho de doce de leite?

 

R - É, cheio de doce de leite.

 

P/1 - Ah, sou mineiro.

 

R - Trabalhava muito com isso, você é mineiro?

 

P/1 - Sou, mineiro do sul de Minas.

 

R - Pois é, ele trabalhava na fábrica, também com os animais e gostava muito. Ele foi peão também, lá na Gameleira.

 

P/1 - Na Gameleira? Morei 15 anos em Belo Horizonte, conheço muito lá.

 

R - Ele foi peão, gosta demais de mexer com essas coisas.

 

P/1 - Peão é meio artista, né? (riso)

 

R - É, iche é, sei lá, é esquisito, não gosto não. Não, porque acho muito perigoso, muito perigoso esses esportes assim, não gosto não, esses, amassar...

 

P/1 - Depois do casamento a vida ficou melhor, dona Lúcia?

 

R - Hein?

 

P/1 - Depois do casamento a vida ficou melhor?

 

R - Ficou claro, ficou, porque parei mais de... Não me preocupava tanto com, tinha preocupação em ajudar a minha mãe, mas aí casei, continuei morando no lote, meu marido trabalhando, meu pai também trabalhava, já melhorou um pouco, parece que a gente desafogou um pouco meu pai, como que, acho assim, melhorou um pouco.

 

P/1 - Aí ficaram só os dois, tinham menos gastos?

 

R - É e a gente ajudava também um pouco.

 

P/1 - E aí, a senhora voltou para Belo Horizonte e morou mais quanto tempo?

 

R - Onde?

 

P/1 - Em Belo Horizonte, depois da volta de Petrópolis?

 

R - Ah, fiquei uns 4 anos, não, acho que foi mais, deixe - me ver (pausa) é, foi uns 6 anos.

 

P/1 - Trabalhando também?

 

R - É.

 

P/1 - Como doméstica, né?

 

R - Quem eu? Não, não, ficava em casa mesmo, só meu marido trabalhava.

 

P/1 - A senhora vem para, depois para...

 

R - É, as crianças cresceram, chegou ao ponto de estudar.

 

P/1 - Sei.

 

R - Aí, falou que, ali em Belo Horizonte não dava, tinha que sair dali que não estava dando conta, aí viemos para Brasília, dar um estudo melhor para as crianças.

 

P/1 - Quantas crianças já tinham?

 

R - Estava com três.

 

P/1- Três, já?

 

R - É, viemos para cá para estudar, dar estudo para as crianças e ter uma vida melhor, mais conforto, tudo e realmente...

 

P/1 - Por que Brasília, hein?

 

R - Hm?

 

P/1 - Por que Brasília, o que é que deu...

 

R - É o comentário, as pessoas comentavam, eu tinha muita vontade de conhecer, por que uma tia minha veio para cá logo no começo e escrevia para o meu pai dizendo que aqui era muito bom, fácil de arrumar um serviço, emprego bom, bom para colocar as crianças para estudar, com o incentivo da minha tia, aí deu, a gente veio. No princípio foi um pouco difícil, porque a gente veio com promessas de serviço para o meu marido e a pessoa que veio com ele para cá falhou com esse serviço.

 

P/1 - Ele ia, estava trabalhando com o que nessa época?

 

R - Na mesma coisa.

 

P/1 - Mexendo com gado?

 

R – A pessoa que veio com ele, que nós viemos, falou que ia montar essa fabrica aqui para ele, montou essa fabrica na Asa Norte.

 

P/1 - Sei.

 

R - Sabe, aí começou a trabalhar.

 

P/1 - Como doceiro?

 

R - É, a pessoa entrou com o maquinário e ele com o serviço, mas começou a fracassar porque, você sabe, é muito difícil, eram dois donos da fabrica, disseram que estava pouco, que isso não estava dando, aí falou: "É, Tião, é melhor você arrumar outro serviço, porque nós não estamos dando conta, vamos acabar com isso." Aí ele falou: "E agora, como vai ser?" ficou naquela, arrumou, conversou com outro vendedor que estava lá e falou: "Tião, vou comprar a fabrica, vou entrar com o dinheiro e você com o serviço." Aí, saíram, ele pegou e falou assim: "Está bom, então vamos, você aceita?" "Aceito." Comprou a fabrica, trouxeram da Asa Norte para Taguatinga, meu marido entrou como, ajudando ele e eu, nós trabalhamos, trabalhando na fabrica e o outro só supervisionando, o que entrava e saia. Trabalhamos muito, a gente desmanchava um, eram cinco sacos de cocô, aqueles cocôs da Bahia, esse saco grande, desmanchava cinco sacos de cocô, seis sacos de açúcar, dois latão de leite de 50 litros, sei que era muita coisa, todos os dias era isso que a gente fazia. Aí, quando meu marido viu que estava saindo, a mercadoria saindo, mas o dinheiro não entrava de acordo como era para ser divido o lucro, aí disse: "Não, mas isso não está certo." Nós sentamos um dia, comentamos e falamos que não ,estava certo e ele falou: "Vou fazer o seguinte: comprar a parte dele, acho que já dá para mim comprar." Compramos a parte do outro, ficamos com a fabrica para a gente, mas a fabrica era assim, só em fundo de quintal, porque não era...

 

P/1 - Legalizada?

 

R – Não, ficamos com a fabrica, aí ficou, nunca tivemos empregados, só eu e ele trabalhando nessa fabrica, eu, ele e as crianças, as crianças, estudando, nas horas de folga, ajudando tudo e ficamos assim. Quando foi, começou com tal de comprar carro, mas ele, nunca teve carteira, compra carro, arruma um boy para fazer essa entrega para você, a gente fazia entrega de todos os lugares aqui em Padre Bernardo, Luziane, Planaltinho, sabe, todos os lugares fazia entrega, aí começou colocar carro na mão de outros para fazer entrega, aí foi, quebrava carro, tirava o dinheiro do lucro para pagar isso, colocava: "Ah, Tião, troca esse carro por outro." Nesse vai e vem de faz isso, faz isso, a gente foi afundando, fomos afundando sabe, sem ele, sem notar que as coisas não estavam indo bem, foi afundando, afundando, até que não deu mais para a gente ficar com essa fabrica. A gente foi desfazendo, desfazendo, pagando aluguel, paguei 17 anos de aluguel em Taguatinga, com essa fabrica, e ele, é uma pessoa que, mão aberta, vendia fiado, as pessoas carregavam mercadoria não pagavam, se levavam 50 pratos de doce, levava 50, falava: "Ó, vou vender esse aqui quando vender eu trago o dinheiro." Ele confiava na pessoa, a pessoa vinha: "E aí?" "Pô rapaz, vendi só 30, vou te pagar só 20 porque os outros ficou fiado, mas quero mais uns 60 pratos, você arruma?" era sempre assim, sempre confiando,  da onde tiro, não coloca, como, a gente não tinha capital, não tinha jeito de manter aquilo foi indo até que acabamos. Foi isso em Taguatinga e apareceu, nesse meio tempo, apareceu um senhor lá e falou sobre essa chácara que estava vendendo na Vendinha, que tinha comprado aí, peguei e falei: "Vamos comprar.", compramos a chácara, pagamos, ficou 6 anos sem ninguém morar, porque estávamos mexendo com a fabrica ainda. Quando vimos que não dava mais, falei: "Vamos lá para a chácara, vamos fazer um barraco e morar lá."  foi aonde que a gente veio para a Vendinha, fizemos o barraco, viemos para cá e ficamos, porque não deu mais, confiar muito assim nas pessoas, as pessoas aproveitam de outro, porque: "Ah, não deixa levar.", não tinha condições.

 

P/1 - Ele veio fazer o que aqui, vocês passaram a viver do que aqui, qual era a atividade do seu marido?

 

R - Não, ele fez, começou limpando chácara, a carpinar, ele já toda vida mexeu com essas coisas, mesmo antes de casar já mexia com isso, fazendo cerca, curral, essas coisas, começou limpando chácara, daqui, dali, procurei um meio, um serviço para mim, foi onde comecei, encontrei lá no Frangoeste, aí eu ficava em casa assim, sem nada para fazer, porque não consigo ficar parada, não consigo, fui criada trabalhando, não conseguia. Comecei a ir para a casa das pessoas, ajudar uma senhora lá perto, costurava para fora, comecei a ajudar e nisso, as pessoas ficaram sabendo, fiz ficha nessa granja. Trabalhei lá, esse tempo, nesse meio de tempo acabou, voltei para casa e comecei de novo a fazer faxina, lá em Taguatinga, mas como a condução é difícil, tem que pegar duas condução para ir para Taguatingua, ou para o Guará, eu falei: "Ah, não dá não, meu dinheiro está ficando todo na condução e muito cansada...", porque tinha que sair de casa muito cedo, parei um pouco, ele começou a trabalhar fazendo salgado, ele sabe fazer salgado, qualquer um ele faz, salgado doce e tudo. Ele pegou, fez um carrinho de mão, começou a fazer salgado e vender no colégio, íamos levando devagarinho, fazendo salgado, vendendo, até hoje ele faz, é isso. Fiz a ficha lá, trabalhei uns tempos na Frangoeste, depois fiquei sabendo dessa ficha que estava fazendo aqui, vim fazer o cadastro e fiz a entrevista.

 

P/1 – Do PACs (Programa de Agentes Comunitários)?

 

R - Do PACs e achei bom, porque se não tivesse feito isso, às vezes paro e fico pensando, fui criada assim, minha mãe nunca disse nada, porque naquele tempo, não tinha diálogo sobre casamento, filho, a saúde, não tinha, a minha mãe nunca sentou e conversou comigo sobre isso, nada, casei sem saber nadinha e foi. Fui muito prejudicada, porque tive a minha primeira filha, ela nasceu no vaso, começou nascer no vaso, não sabia que estava com dores de parto e aí de manhã falei com meu marido: "Olha, estou passando mal, com uma dor de barriga e estou lá no banheiro." e ele está: "Sai daí.". Estou no banheiro, quando senti aquela coisa assim peguei cheguei no vaso e apertei, sabe, aí voltou, falei: "Uai, mais que esquisito.” Ele está: "Lúcia sai daí” e eu falei: "Não, não posso não, estou com uma dor de barriga." Fiz tanta força que a minha hemorróida saiu para fora, ele falou assim: "É". Chamo minha mãe e minha mãe veio, não sabia que já estava no tempo, que eu também não sabia contar, o tempo de menstruação, quanto tempo estava gestante, para você ver o meu interesse em entrar nesse programa, em ser uma agente comunitária, estudar, saber tudo para passar para outras pessoas, porque achei que isso me prejudicaria... Eu fui de sorte que a minha criança não teve nada, ela veio, com muito sacrifício a gente foi, me levou para o quarto, era longe, porque naquele tempo o banheiro era distante da casa, quando chego dentro de casa que ponho uma perna que vou colocar a outra, em cima da cama, a criança nasce, tempo de cair no chão e... Nisso tudo eu fiquei pensando. Quando vim fazer essa ficha, entrevista aqui, falei: "Não, eu preciso, não tive ninguém para me orientar..." e vejo aqui as pessoas humildes que não tem estudo nada, precisamos entrar, ter uma pessoa a mais para falar, instruir. Foi mais por isso acho, elas precisam da nossa orientação, muitas precisam, muitas coisas elas não sabem, não sabem, ficam e prejudica muito mesmo. Foi mais por isso, pensando em outras pessoas e para eu aprender mais, porque, o muito que a gente sabe, não sabe nada, muito que sabe, a gente não consegue dizer já sei de tudo, porque não sabe mesmo.

 

P/1 - Como foi que a senhora entrou no programa, veio fez a inscrição e logo foi aprovada?

 

R - Foi, fiz a inscrição, não, demorou um pouco, primeiro chamaram uma turma, depois quando fui, entrei porque a área que a Leda estava trabalhando, estava muito, muitas pessoas para trabalhar, como tinha feito a inscrição e tinha passado em 2º lugar, ela disse: "Óh, tem a minha colega que passou também e a área está muito grande.", eles disseram: "Então pode dizer com ela para vim, para acertar, conversar, a gente fazer uma reunião para ver se ela consegue entrar também."

 

P/1 - A senhora fez o teste junto com a Leda em 1993, é isso, logo no inicio?

 

R - Foi, foi.

 

P/1 - Demorou um tempo para ser chamada?

 

R - Foi.

 

P/1 - Muito tempo?

 

R – Foi, ah, 1 ano e pouco, não foi muito tempo não.

 

P/1 - Tá e a senhora começou no PACs então, foi em 1993, 1994?

 

R - É, foi em 1994.

 

P/1 - O teste foi em 1993.

 

R - Não, fez um ano agora em Março que estou no PACs, foi em 1995.

 

P/1 - Em 1995?

 

R - Foi em 1995.

 

P/1 - Bom até que a senhora foi contratada a senhora não tinha muita noção...

 

R - Tinha a noção mais ou menos, porque conversava muito com a Leda, ela falava comigo mais ou menos como é que era o trabalho, me interessei muito pelo trabalho, falei: "Ah." "É, Lúcia é assim, a gente acompanha gestante, tem que ir à casa das famílias." Falei: "Ah, então, vou querer, isso vai ser bom para mim." Porque estava, se tivesse no passado, uma pessoa para me instruir, para dizer, me orientar sobre a criação dos filhos, sobre o modo de agir, prevenir sobre tudo, acho que para mim seria bom, pois então: "Para mim vai ser ótimo, é isso mesmo." já entrei mais ou menos sabendo o rumo certo de como agir, como deveria ser, mais ou menos, já sabia.

 

P/1 - A senhora falou desse problema do parto da sua primeira filha, que outros problemas na criação dos seus filhos a senhora teve que a senhora depois acha que poderia ter ajudado?

 

R - Não é só nesse, aliás, também na...

 

P/1 - Vacinação, amamentação...

 

R - É, justamente, isso mesmo, é porque a gente naquele tempo não ligava para vacina, achava que, principalmente a minha mãe, achava que vacina era só para aqueles, os ricos, aqueles mais ou menos, porque sempre, não ia no, igual agora, nos locais aonde tem, as pessoas humildes não iam naqueles locais, a gente que deslocava da casa da gente para levar no hospital, posto também não tinha, era no  hospital, um colégio, a minha mãe vacinava assim, quando tinha vacina no colégio, a gente já chegava em casa "Ó mãe, vacinei." Não tinha aquela orientação, para que serviria as vacinas como que deveria ser, pesar a criança, saber se está desnutrido, nada disso naquele tempo, não sabia nada.

 

P/1 - Quer dizer, a senhora fazia isso, pesava os seus filhos tinham acompanhamento?

 

R - Não, não tinha não.

 

P/1 - Não tinha?

 

R - Não , não tinha acompanhamento não.

 

P/1 - Como é que é, começou o seu trabalho, quer dizer, desde o inicio, a senhora já começou fazendo ficha de acompanhamento...

R - Sim foi isso mesmo.

 

P/1 - Como é que foi o inicio, conta para mim, o inicio do seu trabalho?

 

R - No inicio a gente...

 

P/1 - Foi difícil?

 

R - Não, não foi difícil não, o difícil é que as pessoas querem fazer as coisas por interesse, ela sempre, a gente batia palma, chamava: "Queria conversar com a senhora, será que a senhora, poderia me dar um tempinho, é sobre a saúde." e as pessoas quando viam a gente de longe, falava assim: "Não, não quero comprar nada não." respondia logo assim,(riso) outra hora falava assim: "O que é que a senhora quer?" "Ah, queria conversar."  "Agora estou sem tempo." era sempre assim, mas a gente com modo, a gente aprende como deve conviver com as pessoas, "Por favor não é sobre nada, não quero vender nada para a senhora, eu queria que a senhora me atendesse, eu sou agente comunitária de saúde a gente vai, a gente está aqui para conversar com a senhora, saber como vai a saúde, como vai as crianças e eu queria um minuto só, só um pouquinho a senhora pode me atender, se a senhora não puder atender agora, a senhora marca uma outra hora qualquer, outro dia a gente volta." A pessoa ficava assim: "Não dona, vamos entrar, a senhora me desculpe, vamos entrar, conversar." A gente conversava, sabia, queria saber quantas pessoas que tem na casa, quantos menores, qual, se tem criança desnutrida, se tem alguma gestante e se era vacina queria, a gente pede sempre o cartão e a gente ia conseguindo, umas comentavam com outras, quando a gente voltava naquela área, quando não dava para fazer as fichas todas, naquela rua, quando voltava, as outras já estavam sabendo porque era novidade, porque não tinha,  "Ah, já sei quem é, ela veio aqui em casa tudo." pois é, a gente ainda falava com as pessoas assim: "A senhora conversa com as vizinhas, fala que vou voltar amanhã naquela área assim, a senhora vai comentando, explicando, porque fica mais fácil." e quando a gente ia em outras ruas, já estava mais ou menos sabendo. Foi difícil no principio, mas depois a gente conseguiu, mas o mais difícil é conseguir fazer a pessoa manter a higiene, é difícil, mas a gente consegue, sabendo conversar, explicando o motivo, como tem que manter a higiene, a limpeza, as crianças, limpas ou, é difícil, mas consegue, tendo um jeitinho de conversar você consegue tudo, a gente encontra pessoas brutas, ignorantes, mas a gente, o serviço da gente é esse, a gente não, trabalha só com coisa boa, ruim também, mas a gente sabendo, a gente consegue.

 

P/1 - Quais são os problemas mais comuns na área da senhora, a senhora encontra problemas de saúde?

 

R - Ah, menino, não tem, era difícil a vacina e a higiene, mas agora não, agora já estão todos conhecidos, a gente passa uma vez por mês sabe e aquelas que vemos esta mais difícil atender e tudo, fazer a gente, no principio a gente ainda ajudava, parava, ia em uma casa ajudava, fazia a limpeza, higiene, a ferver a água, tampar com um paninho, a esterilizar as mamadeiras, manter a unha das crianças todas limpas e o banho, piolho, essas coisas foi muito difícil, mas agora já.

 

P/1 - Tinha muito piolho?

 

R - Não, até que na área que trabalhei, não tinha não

 

P/1 - Não?

 

R - Não, mas a gente sempre orientando, porque se caso acontecesse, já tinha orientação para evitar.

 

P/1 - Teve algum caso mais grave, dona Lúcia, que a senhora encontrou?

 

R - Não, não.

 

P/1 - Nem que, não se fosse com criança, com mais velho?

 

R - Não, teve não.

 

P/1 - Tem alguma, caso de doença?

 

R - Não.

 

P/1 – Nenhuma doença?

 

R - Não.

 

P/1 - Então a sua área, é uma área bem tranqüila?

 

R - Ótima de trabalhar, muito boa.

 

P/1 - São 200 famílias?

 

R - São.

 

P/1 - Na área da Vendinha.

 

R  - O que vejo é as colegas dizendo que tiveram problema de doenças, ou, a coisa pior que tem lá são menor, adolescente, para a gente, precisa de um local para a gente reunir, dar palestras, sobre o adolescente, precisa muito, necessita mesmo, mas a gente está vendo se consegue.

 

P/1 - O que acontece com os adolescentes lá?

 

R - Ah, esses namorinhos, essas coisas, crianças novas que estão no colégio, vai para a aula, para perto da ponte e acontece muito de ficarem grávidas, sai, param de estudar por causa de criança, por causa de filho, era bom a gente dar palestras...

 

P/1 - Prevenção?

 

R - É, conversar, fazer as crianças verem do outro lado, mas não sei.

P/1 - Droga tem problema ou não?

 

R - Não, tem não.

 

P/1 - Álcool, alcoolismo?

 

R - Não, não tem.

 

P/1 - São 200 famílias, então, eles são, o que fazem esses seus atendidos, são pessoas todos chacareiros, tem chácara?

 

R – É a maioria, a maioria mora...

 

P/1 - Terra a própria?

 

R - Não, a maioria é caseira.

 

P/1 - Caseiros de terra?

 

R - Trabalham e recebem sempre o salário do dono da chácara.

 

P/1 - O que, esses donos de chácara, tem essa chácara para produção, produz alguma coisa na chácara?

 

R - Às vezes não são todas, mas algumas tem.

 

P/1 - Quem são os donos no geral?

 

R - Ah, muitos moram em Brazilândia, outros às vezes em Taguatinga, deixam a chácara, algumas não tem nem, plantação nenhuma, às vezes está a pessoa só para morar mesmo, acho que deixam assim, para ver se vai...

 

P/1 - Valorizar?

 

R - É, valorizar para passar para frente.

 

P/1 – Entendo  e eles ficam lá meio ocupando para cuidar da terra.

 

R - É, cuidar da terra, alguns ficam só a esposa tomando conta e ele arruma outras chácaras para limpar, tem um local lá também, um...

 

P/1 - Mas ganham salários todos?

 

R - É, ganham salário. Tem tem um lá que tem uma área grande, um japonês sabe ?  A maioria dessas pessoas trabalham lá para ele, colhendo cenoura, na época da cenoura, da batata, muitos, a maioria trabalham lá.

 

P/1 - Ele tem produção?

 

R - Tem, tem produção.

 

P/ 1 - Vende em Brasília?

 

R - Vende em Brasília, na CEASA, a maioria, quase todos trabalham lá, são poucas que trabalham fora assim, na Brazilândia, Taguatinga.

 

P/1 - Bom estou vendo que a área da senhora parece muito tranquila?

 

R - É uma área boa.

 

P/1 - Porque não tem muito caso assim...

 

R - Isso mesmo.

 

P/1 - De casos graves, que a senhora tenha visto, pôde ajudar.

 

R – Não.

 

P/1 - Quer dizer, está melhorando para melhorar o padrão.

 

R - É, isso mesmo.

 

P/1 - Mas, não tem nenhum caso de...

 

R - Não, graças a Deus.

 

P/1 -... Não é uma região de muito problema.

 

R - Não, não é não.

 

P/1 - Como é que é o seu dia a dia? De trabalho?

 

R - De trabalho?

 

P/1 - É.

 

R - Ah, o meu dia a dia, saio na parte da manhã para as 8, 8:15, porque antes das 8, não saio não, aí, é 8, 8:15 saio para trabalhar, mais ou menos para 1:00 mais ou menos volto, almoço, tomo um banho e vou de novo, quando dá para mim terminar as oito visitas...

 

P/1 - A senhora faz oito visitas por dia?

 

R - Oito visitas por dia, costumo fazer nove, conforme assim, a pessoa que você vai visitar, às vezes é uma pessoa carente, às vezes são idosos que estão sozinhos, fica conversando, contando o tempo, quando da infância, você fica prestando atenção, dando, conversando, dando atenção para eles, são pessoas carentes, parece que não tem com quem conversar e fica toda vida contando , explicando e vai fazendo café, você quer sair não tem jeito, (riso) vai ficando ali, a gente, às vezes não dá para a gente fazer nem oito casas, oito visitas, às vezes faz sete, seis, conforme a visita que a gente vai fazer, a gente consegue, mas trabalho de 1 até 5 hora, 5 e pouco, até 5:00 horas, mas sempre chego em casa mais tarde.

 

P/1 – A senhora vai de bicicleta?

 

R - De bicicleta.

 

P/1 - Sempre com o uniforme?

 

R - Sempre, uso pouco e o boné.

 

P/1 - O boné, muito quente.

 

R - Muito quente e sinto coceira na cabeça, mas o...

 

P/1 - O jaleco?

 

R - O jaleco, gosto, não saio sem ele, é bom para identificar a gente e principalmente quando a gente passa e as crianças: "Oi, olha lá a dona do leite!" eles falam a dona do leite, é bem pesado, tem umas crianças que chora, quando a gente chega.

 

P/1 - A senhora que distribui leite?

 

R - A gente que distribui os leites, eles levam lá tem um local, lá na casa da Leda, porque a gente estava distribuindo na Associação, mas ela está abandonada e tem mato, muito mato e as pessoas ficam sujando, mas está, teve uma ventania, tirou as telhas, está muito abandonada, toda rabiscada, a gente pegou e faz até vergonha ficar esperando o leite. Falamos com as famílias que iam, distribuir o leite na casa da Leda que a mãe dela tem uma venda e todo mundo conhece ela, fica mais fácil, estamos fazendo a distribuição e as crianças tem medo de injeção, porque, às vezes, a gente pesa as crianças todas, de 0 a 5 anos, no dia da vacina para aproveitar que todos vão. Aí pesa, a hora que pesa, manda para a vacina, todas que chegam na casa deles, acham que vai vacinar, aquela coisa, outros falam: "Ah, a dona do leite." Acho que esse jaleco aqui, facilitou bem para a gente, porque a gente é identificado e é bom, gosto muito, achei ótimo quando, porque não foi no principio, que vieram não demorou para esses jalecos para a gente.

 

P/1 - Quando é que veio?

 

R - Ah, demorou, a Leda ficou, ela entrou primeiro, do que eu, ficou uns 9 meses sem ter esse jaleco, sem o boné, entrei passou pouco tempo, aí falei: "Ô, mas que ótimo, gostei muito."

 

P/1 - Os outros equipamentos tinham tudo?

 

R - Não, tinha nada.

 

P/1 - O que é que passou a ter agora?

 

R - Para mim, quando entrei que apareceu a mochila, a mochila, primeiro foi a pasta, quando entrei foi a pasta, apareceu o sapato, depois é que apareceu, eles trouxeram essa mochila para a gente, mas ela é incomoda para a gente trabalhar com ela, não sou, não gosto não, porque é muito grande, você coloca nas costas e coloca a balança, conforme você vai de bicicleta, aquela barulheira vai trepidando, sempre uso, mas assim, quando é em um lugar muito longe, quando é perto de casa mesmo, coloco na sacolinha e amarro no guidão da bicicleta, agora, quando é lugar mais longe, igual o trabalho no Colonial que é uns 20 minutos de bicicleta para chegar. Levo na mochila, mas ali perto na comunidade, não carrego mochila não.

 

P/1 - E aí tem a balança também?

 

R - Tem a balança.

 

P/1 - O que mais de equipamento a senhora leva hoje?

 

R - Ó, tem as fichas de cadastro, os cartões das crianças, a balança, tem uma, parece uma redinha para pesar as crianças menores, mais pequenininhas e tem uma calcinha, também, que vem junto para a gente pesar as crianças até, de 2 anos, além do lápis, a borracha, um caderno para a gente anotar alguma, alguma coisa que precisa anotar e é só isso.

 

P/1 - Bicicleta sempre teve?

 

R – Sempre não, a bicicleta demorou um pouco para vir.

 

P/1 - Aí a senhora ia a pé?

 

R - A gente ia a pé.

 

P/1 - Quando era muito longe eram cinco por dia?

 

R - Ih, menino, fazia três, quatro só, muito longe, não dava a noite, às vezes a gente ficava até sem almoço, trabalhava o dia todo, ficava sem almoço, quando vinha almoçar, já era 3:30, 4:00 horas, era assim.

 

P/1 - Para cada criança tem um controle?

 

R - Cada criança tem uma ficha, um cartão.

 

P/1 - De quanto em quanto tempo a senhora recheca os dados da criança?

 

R - Todo mês.

 

P/1 - Todo mês?

 

R - Todo mês agora as crianças desnutridas, a gente pesa de 15 em 15 dias e faz o acompanhamento delas, uma vez por semana para ver se estão fornecendo leite para a criança direitinho, o óleo que a gente dá para a mãe colocar na mamadeira ou no leite.

 

P/1 - Que óleo é esse?

 

R - Esse óleo comum que a gente usa, esse óleo é medido na medida do soro, é para ajudar a criança a nutrir, ajudar na digestão da criança, é muito bom, porque tem dado resultados ótimos com as crianças.

 

P/1 - É óleo de que?

 

R - É óleo simples, desse óleo de oliva...

 

P/1 - De soja?

 

R - De soja, é.

 

P/1 - Sei, sei, então a senhora orienta para pingar o óleo no soro?

 

R - É, coloca, começa naquela medidinha pequena, a medida do soro, vai dando para a criança, se a criança desandar ou tiver alguma coisa no intestino, ela para uns dias com aquele óleo, mas depois continua, tem que continuar para poder ajudar, a criança.

 

P/1 - A ganhar peso?

 

R – Mas é difícil, ganhar peso é difícil, a criança não se da com o óleo, porque é tão pouquinho, mas é bom, muito bom e as famílias que trabalho com elas, são muito, a gente fala, elas obedecem, fazem direitinho, são ótimas, muito boas mesmo, essas que eram mais assim, tudo, mas com jeitinho a gente chegou lá, conseguiu.

 

P/1 - Os problemas de criança com peso baixo, desnutrição, é muito grande o problema ou não?

 

R – Não é muito não.

 

P/1 - São muitas crianças?

 

R - Mas, tem bastante, estou com nove.

 

P/1 - Nove?

 

R - Nove na área.

 

P/1 - Com peso baixo?

 

R - Com peso baixo, mas eles, conforme a gente vai mantendo o leite para eles, em um instantinho eles chegam no peso normal, depois desse peso ainda pega esse leite 2 meses, depois é que sai do programa, para dar vaga para outros, porque sempre tem.

 

P/1- E eles respeitam porque tem medo do corte do leite, ou porque eles entendem o programa?

 

P/1 - Ah, são duas coisas, porque entra no programa, principalmente gestante se ela estiver fazendo pré-natal é mais um incentivo para fazer o pré-natal, porque as pessoas, elas gostam, são interesseiras, não adianta você dizer que não, porque são interesseiras, se você falar: "Ó, a gente faz...", coloca no programa, "Gestante" ela corre lá para: "Ah, estou gestante, tal.", mas aí tem que ter, ir fazer o exame, fazer o pré-natal para poder, isso é, para estimular a pessoa a fazer, o pré-natal, porque tem muitas, não fiz de nenhum dos meus filhos o pré-natal. Não tinha aquela instrução para fazer isso, agora, hoje em dia não, tem isso, mesmo que não seja a pessoa que não tem interesse, mas já tem a gente para poder estar indo na casa das gestantes, explicando, mostrando, lendo para ela o livro, para ver que tem de fazer, é necessário que ela faça isso, para ter uma saúde, para ter, para fazer um acompanhamento do neném, elas, mesmo que não seja com interesse, já fazem, porque tem a gente para instruir, explicar o que deve fazer aquilo.

 

P/1 - O que a senhora acha que não está bom no PACs? Vamos fazer as críticas agora.

 

R - Ah, menino, acho que não tem aquela pessoa que dê um apoio para a gente, não tem, uma pessoa que dê um apoio para a gente trabalhar.

P/1 - Que tipo de apoio, a senhora está dizendo? Falta de verba?

 

R - Tudo isso, é tudo, é muito, acho pouco pelo trabalho da gente, é muito grande, a gente às vezes faz um, a área que trabalho é longe, você precisa ver como é longe, a gente trabalha o dia todo, no sol, quando está chovendo muito, mas muito mesmo, o dia todo, a gente espera na parte da manhã, até meio dia, se deu um dia que dê para a gente sair, a gente sai, mas quando chove muito, não trem condições de fazer visitas, visitar a comunidade, não tem jeito.

 

P/1 - Como é que faz, no mês de muita chuva, não tem visita?

 

R - É difícil você sair, você pode fazer por ali, mais perto, mas lugar longe, de bicicleta, é difícil, você luta muito, a luta da gente, às vezes a gente encontra certas pessoas que cobra da gente, cobra: "Ó Lúcia, você não foi lá, pois é por que você não foi?" Ah, mas não deu." “Você vai amanhã?” “Vou." Aí, a gente vai, com sacrifício, lugar longe, pesar criança, às vezes fura um pneu da bicicleta, você tem que vir empurrando, aquela bicicleta, é muito difícil, se você gasta, com um pneu, igual gastei, com o pneu da bicicleta, comprei uma câmara de ar, com meu dinheiro, eles falaram: "Não, vocês trazem a" como diz, "a nota fiscal, para ver, a gente, vai dar jeito.", mas fica só nisso, agora, se você quiser manter a bicicleta, foi uma ótima coisa que eles fizeram, maravilhosa, porque você vai rapidinho, aonde você tem que chegar, faz as visitas, na hora de ir embora para casa, você chega rápido, foi bom. Você já tem um gasto, que é tirado do seu bolso, a gente recebe uns 112, limpo, você, principalmente eu, que saio lá da vendinha para vim aqui receber, tem vez que venho aqui, chego aqui, não saiu, não tem, a verba não está aí, se você não paga, vai de carona, porque às vezes a gente sai de casa, paga para vim, vem de ônibus, confiando no dinheiro aqui, chega aqui, não tem ,você vai embora de quê? De carona, é o jeito, é difícil, mas é o jeito, é muito difícil, a gente gasta 11 reais.

 

P/1 - O ônibus aqui é muito caro né?

 

R - No mínimo, 11 reais, gasta para vim aqui, você recebe 112, quando tinha reunião, ficava aqui o dia todo, na reunião, você vai pagar um almoço, quanto que é esse almoço, vai pagar um ônibus, no fim o que é que sobra?

 

P/1 - É verdade.

 

R - Eu acho que na área de saúde e de educação, eles deveriam, sei lá, deveriam olhar mais por isso, porque, criança, criação, educação, a gente trabalha com criança, com pessoas carentes, é tão difícil, a gente gasta também, às vezes, você vai fazer uma visita a uma pessoa e ela diz para a gente assim: "Ô, dona Lúcia, hoje não tenho nada aqui." às vezes você está com dinheiro ali, 1 real, ou dois no bolso, para tomar um café em qualquer lugar, você tira do bolso e dá para aquela pessoa, igual eu, já aconteceu comigo, as meninas chega, você está ali conversando com a mãe, "Ô mãe, eu quero pão." "Pão meu filho, não tem pão não." "Tem feijão?" "Não tem não." "Ô mamãe." aí, começa a chorar, e ela: "Está vendo, ó lá, não tem nada, não tem leite o programa, é só para criança até 2 anos, deveria dar." às vezes a criança é de 3, 4 anos, vai fazer o quê aí você tira: "Ó, vai ali, compra o pão." dá para a  criança. É uma coisa que a gente tira, não estamos negando, você tira do seu bolso, mas deveriam ter mais assim,  prioridade, olhar mais para esse lado, lado da saúde e da educação, acho que é muito mal orientado, você não tem a quem recorrer, porque o dinheiro da gente sai assim, você vem, como estava dizendo, recebe, assina, não tem comprovante, eu não tenho comprovante de nada, eu vou, agora estou vendo se consigo fazer, suspender minha casinha, você vai comprar, por exemplo um caminhão de areia, eles perguntam, a prestação, eles perguntam assim: "A senhora mora aonde?" "Na vendinha, chácara 23." "E a senhora trabalha de quê?" "Agente comunitária." "Cadê o contra cheque da senhora, quanto a senhora ganha?" o que é que você, não tem como apresentar aquilo, não tem.

 

P/1 - Não tem contrato?

 

R - Não tem nada, você vem aqui, passa na prefeitura, recebe o cheque, vai no banco, desconta, vai embora para casa. É um, acho, não tem aquela preocupação com a gente, não tem consideração, eu não, é muita falta de consideração e sendo que a gente fica sabendo que em outras áreas, outros lugares, as agentes comunitárias, fazem o mesmo serviço nosso e ganham mais, não sei porque, se a verba sai do mesmo local, para todos. Se fosse de outros lugares, mas sai do mesmo lugar para ser distribuído iguais, não entendo, mas a gente trabalha mais, não é por causa do dinheiro, porque quando a gente começa toma amizade com a comunidade e é uma, ficamos gostando das pessoas, confiam na gente e é mais é por prazer, porque se a gente fosse olhar, salário e dinheiro, a gente já tinha saído, mas a gente toma tanta amizade, tanto amor às pessoas, as crianças que a gente trabalhamos, que ficamos gostando. Acho que é por isso que as pessoas aproveitam da gente, (riso) deve ser nesse ponto, eu tenho certa, deve ser isso, porque a gente não sai por causa disso, toma amor à comunidade, as crianças, as pessoas que procuram a gente, encontram na rua, fala e tudo, gostam. Acho que é isso, aproveitam por isso, por que se não fosse, acho que já tinha saído, mas gosto do meu serviço, gosto muito mesmo, as pessoas que a gente fica conhecendo, quando muda sabe, às vezes, tem várias que já mudaram lá para o Recanto da Ema, ganharam lote, fizeram inscrições, já foram para lá, de vez em quando a gente se encontra: "Ô Dona Lúcia, mas ô, tenho uma saudade, uma vontade de..." é assim.

 

P/1 - Beleza Dona Lúcia, tem esse lado, pelo menos que compensa que é a solidariedade.

 

R - É, compensa sim.

 

P/1 - É o lado humano?

 

R - É isso mesmo e gosto do meu serviço, muito, se pudesse fazer mais pelas pessoas, pela comunidade, faria.

 

P/1 - Está bom, obrigado pelo tempo que a senhora gastou com a gente.

 

R - Que nada, precisando estou as ordens.

 

P/1 - Vamos ver se o trabalho da gente traz alguma melhora.

 

R - Traz, vai trazer.

 

P/1 - Está bom?

 

R - Com fé em Deus, vai trazer.

 

P/1 - Então, muito obrigada.

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