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História

Educação debaixo do pé de manga

História de: Sebastião Rocha (Tião Rocha)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/07/2005

Sinopse

Rainha Perpétua do Congado. Percepção das injustiças sociais. Faculdade de História. Curso de Antropologia. Trajetória como Professor. Demissão da Universidade de Ouro Preto. Criação do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento. Projeto Sementinha. 

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História completa

O meu nome é Sebastião Rocha, o apelido é Tião. Nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais, e tenho 56 anos.


Uma coisa foi marcante pra minha vida: sou sobrinho de uma rainha, e tenho muito orgulho disso.


Quando fui pra escola, aos sete anos, no primeiro dia de aula a professora nos recebeu na biblioteca, nos sentou no chão, abriu o livro: “As Mais Belas Histórias” da Dona Lúcia Casasanta e começou a ler: “Era uma vez, num lugar muito distante, havia um rei e uma rainha...” Eu levantei a mão e falei: “Professora, eu tenho uma tia que é uma rainha.” Ela falou: “Isto é história da carochinha. Fica quietinho e presta atenção”.


Cada vez que ela falava em rainha, eu levantava a mão. Lá pela terceira vez, ela ficou brava: “Menino, isso é de mentirinha”. Fui levado pra sala da diretora, que me passou um sabão: “O que é isso, menino? Presta atenção. Quer ser expulso? Quer que chame a sua mãe?” Eu calei a minha boca. 


Quando fui pro ginásio, ousei falar disso numa aula de história, o professor me gozou a cara e falou: “Meu filho, olha o seu nome, olha a sua cor. Não existe isso. Não me enche o saco”. 


Na época da Universidade, resolvi entrar no curso de História. Estudei reis e rainhas e tudo que você possa imaginar. No final do curso, chamei um professor e falei: “Olha, eu tinha uma tia que foi rainha e ela não aparece aqui”. Ele falou: “Ah, meu filho, te enganaram, te passaram um trote aqui de quatro anos. Você tem que fazer outra coisa. Quem sabe a Antropologia te mostre o caminho?”. E eu fui fazer Antropologia, me especializar em Cultura Popular.


Essa tia foi Rainha Perpétua do Congado. Durante três meses, de agosto a outubro, todos os domingos, os ternos de congado, catopês, caboclinhos, marujo iam à casa dela. Ela saia com um manto vermelho, a coroa, o cetro, debaixo de uma sombrinha, para os festejos de Nossa Senhora do Rosário. E aquilo me dava muito orgulho de poder furar fila, entrar e chegar perto dela. Acho que é por causa dela que segui a trilha que estou seguindo, de estar correndo o mundo aí, querendo descobrir um pouco de dinastias e realezas nos meninos, nas crianças que não tiveram possibilidade de mostrar nesse país.


Percebia, na minha infância, como as pessoas eram tratadas em determinados eventos, como é que se valorizavam determinadas coisas. É muito marcante pra mim os rituais do Natal, do Ano Novo. Isso me dava muita tristeza porque, enquanto tinha todo o discurso de humanidade, dava presente pra todo mundo. Eu era daquele grupo que nunca ganhava as coisas que eu gostaria. “Porque todos os meninos não podem ter acesso ao que querem, que necessitam pra brincar?”. E quando fui pra escola, sentia muito isso, comigo e com outros. Uma escola que discriminava os meninos de forma muito preconceituosa. Por tudo. Por seu poder econômico, por sua relação de família, por essas coisas de tráfico de influências, de poder, de prestígio, de riqueza, de cor. Isso me marcava muito.

 

Mais tarde, quando já era formado, fui ser professor de pré-escola, trabalhar com os meninos ‘petitinhos’, no primário. Depois fui subindo na hierarquia. Dei aula no ginásio, no segundo grau, depois, na universidade, graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado. Uma carreira toda.

 

No final de setenta, início de oitenta, eu era professor na Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais. E me dei conta, na convivência com essas realidades, que eu não queria ser mais professor, precisava ser educador.

 

E aí, me demiti. Quando fui ao Departamento Pessoal, o chefe não queria me dar a demissão porque dizia que um professor Universitário tem que se aposentar lá. Eu falei: “Ah, não acredito que eu tenho que morrer aqui. Pé na cova”. E saí.

 

Quando saí, vi que eu precisava aprender e criar um espaço de aprendizagem. Resolvi, com um grupo de amigos, criar uma instituição, o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, onde pudesse colocar as minhas perguntas e correr atrás das respostas.

 

“Bom, não tenho dinheiro pra investir nisso. Tenho minhas dúvidas. Será que é preciso escola pra fazer educação?” E fui trabalhar em Curvelo, Minas Gerais. Dali, começamos a experiência de aprender a fazer uma escola debaixo do pé de manga.

 

Na realidade, tinha tudo quanto é árvore. E eram uns meninos muito soltos. Fui trabalhar ali e levantei essa questão. Fui pra Rádio Clube de Curvelo e falei: “Olha, vai ter uma reunião das pessoas interessadas pra discutir uma educação sem escola. Os candidatos compareçam tal dia na secretaria, no departamento de educação”. Apareceram 26 pessoas.

 

Sentamos numa roda e começamos a falar. E eu anotava e ia registrando no papel. Depois de uma semana, fui tirar o sumo dessa conversa e vi que a gente não falava de uma escola que gostaria de ter, mas de uma que a gente gostaria de não ter. E aí, transformei aquelas informações num negócio que chamei de “Não Objetivos Educacionais”.

 

Mandei pra Fundação Kellogg, em São Paulo. O Marcos Kisil ouviu aquilo, me ligou: “Recebi um projeto meio estranho. Não tem objetivos, com ‘não-objetivos’ você vai ter ‘não-financiamento’”. Eu falei: “E o senhor vai ter ‘não-resultado’”. Passado uns dois meses ele me chamou e montamos a nossa primeira experiência, que chamava o “Projeto Sementinha”.

 

Daí a pouco a gente começou a ter espaço e diálogo em várias instituições, que foram dando condições da gente sobreviver e continuar investindo, e depois ampliar a equipe e consolidar um trabalho.

 

Montamos um projeto que era no entorno, a gente queria saber se era possível ficar só na brincadeira, no jogo, no lúdico. Sentamos com os meninos: “Olha, o projeto é tudo na base do jogo e do brinquedo”. E aí um garoto falou: “Mas cadê os brinquedos?” Eu falei: “Ih, rapaz, é verdade. Vamos fazer uma aposta? No dia que a gente não conseguir mais criar os nossos próprios brinquedos a gente começa a comprar”.

 

Nós queríamos jogar ping-pong. Como é que joga? Precisa de uma mesa? Vamos fazer. E a rede? A gente faz. E a raquete? A gente faz. Aí um dia ele falou assim: “Pois é, mas nós vamos ter que comprar a bolinha”. Eu comprei. Passada uma semana ele chegou com as bolinhas que vêm nesses tubos de desodorante roll-on: “Oh, bobo, não precisa comprar mais, já achei uma que substitui”.

 

Um dia, na reunião da comunidade, uma mãe falou assim: “Tião, essa escola é diferente da outra. Porque a gente vê. O dia que eu vou lá dentro da escola não está tendo escola. É o dia da reunião, o dia da festa. Nunca vi o dia-a-dia de uma escola. E essa aqui eu vejo”.

 

O Sementinha hoje está presente em seis estados, vinte cidades, e já foi pra Moçambique. E essa coisa é de domínio público, não é propriedade privada, do CPCD, nem minha. A gente quer que seja disseminado.

 

Nesses 21 anos nunca precisei tirar férias. “Estou cansado, tenho que parar, esquecer o que estou fazendo, ficar longe disso”. Não, porque sempre foi muito bom, um aprendizado permanente, fazendo o que gosto, o que acredito.

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