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Educação da Solidariedade

História de: Maria Neide Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/01/2021

Sinopse

Passou sua infância em um sítio e teve uma vida escolar com muitas dificuldades, já que seus pais não tinham uma condição muito boa de renda. Teve uma infância bastante machista principalmente para com as mulheres. Atualmente trabalha como diretora na Escola Eduardo Medeiro e foi escolhida como líder para comandar o SGI na sua instituição de ensino e ver seus benefícios.

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História completa

P/1 – Neide, obrigada pela sua entrevista. Eu queria começar pedindo pra você falar para a gente o seu nome completo, local e a data de nascimento. 

R – Eu sou Maria Neide Dias, nasci dia 26 de março de 1961 e moro aqui na cidade de Serra Redonda.

P/1 – Mas você nasceu onde?

R – Eu nasci no município de Massaranduba, na zona rural, entre Serra Redonda e Massaranduba, porque essas duas cidades fazem limite e onde eu nasci ficava quase na fronteira desses dois limites dos dois municípios.

P/1 – Neide, eu queria que você falasse pra gente o nome dos seus pais.

R – O nome do meu pai era João Herculano Dias, minha mãe Cinésia Maria Dias.

P/1 – E o que eles faziam, seus pais?

R – Agricultores, nasceram e se criaram na agricultura, eram analfabetos, na época não existia oportunidade, era rara e quando existia, eles fugiam da escola por medo. Inclusive meu pai me contava uma história - eu ficava muito triste de saber -, ele era muito bom em matemática, no cálculo mental, ele não aprendeu a ler por conta do rigor da época. Se o menino errasse uma letra levava muitas palmatórias e ele chegava em casa às vezes com a mão inchada e acabou desistindo, saindo da escola como a maioria das pessoas que viveram na época dele e se tornaram pessoas analfabetas. Aqueles que os pais não davam a oportunidade e quando dava era quase como um castigo, uma punição, e eles passaram a ter ódio, pavor de uma sala de aula e de ser alfabetizado dessa forma.

P/1 – Você tem irmãos Neide?

R – Tenho, são oito irmãos ao todo, eram 12 filhos, aí morreram, deixa eu ver, de 8 para 12, deixa eu fazer a conta, ficaram oito vivos [risos], dois homens e seis mulheres.

P/1 – E como que era a sua casa com toda essa movimentação?

R – Ah, era muito animado, era uma festa, para mim foi uma época muito feliz. Minhas irmãs não gostam de lembrar da vida sofrida, nós éramos de família humilde, porém nunca faltou o pão de cada dia, como meu pai falava na nossa casa. Eu gostava, era uma farra muito grande, era uma festa, a brincadeira de irmãos; eu era a caçula, sempre muito protegida, então eu tenho boas lembranças da época. Minhas irmãs não, disse que não gostam nem de lembrar porque trabalhavam duro na roça com o meu pai, era os cinco dias da semana sendo que meu pai tinha uma diferença dos outros pais lá da região: ele sempre deu muita importância ao estudo, todos lá em casa foram alfabetizados, o que não acontecia com os meus vizinhos. Eles queriam e os pais não deixava porque diziam que não podiam tirar da roça, e meu pai não, a gente trabalhava, eu não, nunca fui para a roça, minhas irmãs em meio período e no outro ele obrigava a ir para a escola. Todos fizeram até a quarta série, que hoje é o quinto ano, ou até o sexto ano. Agora, quando chegava no sexto ano, as meninas ele não queria que viesse para a zona urbana porque dizia que não dava certo, porque mulher não podia sair de casa, porque poderia acontecer alguma coisa de errado. A única que ele deu a oportunidade de continuar  com os estudos fui eu, as outras todas pararam por aí, na quarta série e na quinta série.

P/1 – Neide, me diz, como que era essa sua casa? Ela era em um sítio?

R – Era um sítio, rodeada de muita fruta, de muita árvore, muito pé de laranja, pé de caju, goiaba, uma casa de farinha onde eu brincava o dia inteiro, era meu divertimento, para eu brincar com boneca feita do sabugo do milho, meu pai comprava caranguejo e aquelas casquinhas eu dizia que era cangalha, que eu via sempre ele carregando os troços do sítio em um cavalo, uma cangalha é o negócio que coloca em cima do cavalo com dois negocinhos de lado para botar o peso para o cavalo carregar, então para mim era uma vida feliz. A minha vida escolar era sofrida, muitas vezes eu sonhava a noite inteira que Deus pudesse me dar asas para eu não ter de caminhar, era uma hora caminhando a pé, ia quase junto de Massaranduba, ia ter um grupo, uma sala todos misturados de primeira a quarta série, com fome, às vezes, quase sempre minha mãe colocava uma banana, um biju, não sei se você sabe o que é isso, que é feito da farinha.  Graças a Deus eu tinha que repartir com muitos amiguinhos porque eu ficava com dó, a maioria não tinha isso para lanchar, saía de lá 11 horas, chegava em casa meio dia, com muita fome. Foi muito sofrida a minha alfabetização e de algumas crianças da época que os pais deixavam ir para a escola.

P/1 – E conta para a gente como que foi essa sua primeira mudança de escola? Como que era o espaço, como que você se sentia indo para a escola?

R – É como eu estou lhe dizendo, lá na escola eu me sentia bem, agora eu sofria muito no caminhar, eu era muito fragilzinha e eu me sentia muito cansada e outra coisa, era o peso, o ranço, um pouco da ignorância de meu pai de querer me alfabetizar em tempo recorde, na época a gente entrava na escola com sete anos e eu decorei em uma semana o alfabeto, decorei, não aprendi, chegava em casa muito feliz achando que aprendi a ler, era aquilo ali, cantar o alfabeto, aí ele disse: “Ela decorou ou aprendeu? Eu vou ver se essa menina aprendeu agora”. Então na escola eu nunca senti trauma, frustração, agora em casa devido à pressão do meu pai aquilo se tornava um pouco, ruim para eu aprender a ler e a escrever porque se eu não aprendesse eu iria apanhar. Como meu pai pegou meu irmão mais velho que já sabia e mandou que ele começasse a cobrir as letras do alfabeto para que eu começasse a dizer as letras soltas pelo meio do alfabeto para ver se eu estava conhecendo ou era apenas decorado, e eu não conhecia realmente, eu não sabia onde estava A, nem B, nem C, meu irmão com medo de que eu apanhasse colocou a mãozinha assim e deixou a letra E, não esqueço nunca porque isso foi uma coisa muito forte na minha vida, meu coração saltando porque eu pensei: “Eu vou morrer agora de uma surra porque eu não sei, eu não conheço”. Aí meu irmão colocou a letrinha E e disse: “Que letra é essa?”. Aí eu disse: “ ‘É ‘e’”, tremendo. E aí ele disse: “Viu, ela sabe tudo. Tá bom, já mostrou que sabe”. Aí minha mãe me tirou da sala e eu em uma semana realmente aprendi, entendeu, nesse momento que eu me lembro que foi um pouco, foi traumatizante a minha forma de ser alfabetizada, no medo mesmo, no susto. Um tempo depois comecei a sentir prazer para ler revistas, que as novelas na época, não existiam novela em televisão, era em rádio e revista, e minhas irmãs liam e não me contavam, ficavam comentando e eu ficava louca para saber Eu acho que foi uma coisa que impulsionou muito e foi como eu consegui, eu aprendi sozinha ali para eu tentar entender o que era que estava naquela novela e com três meses eu estava lendo fotonovela como ninguém. Foi uma coisa que me ajudou muito a aprender a ler e depois Sabrina, Júlia, que eram romances que eu amava ler. Minha mãe reclamava: “Vou lhe bater se você não deixar esse livro aí para ir dormir”, que a nossa luz era luz de lamparina à gás. “Você está estragando a vista” e eu não queria ir dormir antes que visse o final daquela história da Sabrina ou da Júlia, foi por aí.

P/1 – E nessa sua fase de infância o que você gostava de brincar? Você falou um pouquinho da casa de farinha, da boneca.

R – É, como eu disse, as bonecas que eram feitas do sabugo de milho, aí tinha os cavalinhos também que a gente colocava as cangalhas que eram as caixinhas do caranguejo, brincava de uma brincadeira chamada _____ que eu ainda não sei se existe hoje, brincava de anel, porque não faltava criança na minha casa devido a ter uma casa de farinha no terreiro, então sempre tinha vizinhos fazendo farinha lá e trazia os seus filhos, para mim era uma peste,  então a gente brincava de toca, esse negócio aí a ____, eu nem lembro tanto, amarelinha, era muito bom, se esconder era muito forte, e eu tinha uma brincadeira particular que era minha, no dia que não tinha nenhuma criança comigo, que a casa de farinha não tinha ninguém eu me sentia um pouco só, ia na frente da minha casa, nós chamamos lá de terreiro, é a forma daqui da Paraíba de chamar a frente da casa, era rodeado de flores e era cheio de borboleta, aí eu pegava uma linha da minha mãe escondido e saía pegando as borboletas e amarrando, dando nó no negocinho que elas têm, que eu não sei qual é o nome que se dá. Aí eu colocava uma infinidade de borboletas e saía correndo na frente da minha casa, rodeando o tempo todo, era uma judiação, mas eu não sabia o que era que eu estava fazendo, era um divertimento e tanto esse, eu chamava de meus boizinhos, tudo agarradinho amarrado em uma linha, aí depois que eu cansava de brincar eu soltava, aí elas começavam, uma puxava para um lado e outras para o outro, e eu não sei onde ia parar, morria tudinho as borboletas [risos], foi assim a minha infância, perto de rio eu não podia chegar, meu pai tinha horror, pavor, desespero porque ele disse que lembrava quando era pequeno, quase morreu porque um amigo dele incentivou a entrar na água e ia deixando ele morrer, então ele não queria filho nenhum dele perto de água, a gente tinha alguns riachos mas de maneira alguma podia tomar banho no ribeirão, de jeito nenhum, então a minha infância foi dessa forma, mas foi boa, brincando debaixo dos pés de árvores de balanceio, ____, não sei se você sabe o que é isso, era sentar um de um lado, outro de outro, ficar fazendo assim, olha, está entendendo, ou então rodando o tempo todo e aí tinha um pé de manga que tinha uma cordinha com um lugarzinho para eu sentar que era o meu balanceio, nunca era tirado de lá, o tempo todo, às vezes eu brincava que saía tonta, saía com angústia, com vontade de fazer roda de tanto que eu ficava balançando lá, então foi assim a minha infância, foi boa porque eu não trabalhei na roça, já as minhas irmãs não tiveram essa mesma oportunidade que eu, por isso que às vezes elas dizem que não sente saudade, eu sinto porque eu não fui trabalhar, eu só ia chamar eles na hora do almoço, elas almoçavam e voltavam pra roça e eu continuava brincando, ou com as coleguinhas que estava na casa de farinha ou como eu disse a você, com essas alternativas que eu tinha de balanceio, borboleta, entendeu?

P/1 – E dessa sua primeira escola você lembra de alguma professora?

R – Lembro da Dona Rita, foi uma professora ótima, era uma pessoa que mesmo naquela época não tinha aquele ranço tradicional de tratar a gente muito mal não. Eu era muito boa de decorar, sempre fui e a minha lição eu decorava, eu não aprendia, porque ela chegava, passava a lição, eu estou falando no estilo que era antigamente: “Eu vou passar a lição de vocês, cada um com o seu livro, com a sua série”. No meu caso a minha era a primeira série, então eu tinha o livro da primeira série e ela lia comigo, ela lendo e eu acompanhando a leitura dela com meu lápis e ela com o dela, quando ela terminava eu continuava repetindo, repetindo, para no final da aula eu dar a lição à ela, ou seja, mostrar, só que eu começava a passar o lápis, não estava alfabetizada, e a mesma coisa era com os outros, o pessoal da quarta série tinha que ver em quadro, a gente tinha a obrigação de decorar a tabuada, era uma coisa que era certo para todo mundo a partir de sete anos e eu achava muito interessante a aula da quarta série, eu queria aquilo para mim, eu não queria aquela coisa monótona que ela fazia eu repetir todinha a minha lição do dia, primeiro era o alfabeto como eu disse à você, que eu decorei em tempo recorde, depois era aquela lição, assim: “O Sapo não sei o que”, uma coisa meio sem sentido, está entendendo?. “O rato roeu a roupa do rei não sei o que lá” e aí eu decorava e ficava ali, e aí eu achava a atividade dos outros da quarta série interessante, inclusive eu aprendi, ela estava dando aula de ciências, eu aprendi nesse dia, ela dizendo o nome dos ossos do corpo humano, falando os ossos da mão, nós tínhamos nos dedos os ossos que chamavam falange, falanginhas e falangeta, eu achei lindo aquilo. Então me interessava o tempo todo, e de uma certa forma uma turma multisseriada, quando a criança é curiosa ela aprende a ler e escrever mais rápido porque já que eu não gostava da atividade que era para minha série e eu achava  mais interessante das outras turmas, eu comecei a prestar atenção e foi o que me ajudou muito também a desenvolver mais a leitura e a escrita mais rápido, era prestando atenção na aula de uma série que não era minha, uma série mais elevada, turma da terceira série e da quarta série, porque eu dizia: “Isso aí sim é uma aula interessante”. Eu pensava comigo, mas a professora era uma professora excelente, porque eu mesma hoje enquanto educadora, não sei se eu saberia dar conta do recado de conseguir ensinar uma turma multi, um pouquinho de um, um pouquinho de outro, uma turma de primeira série, uma turma de segunda, uma de terceiro e uma de quarta, e ela teve que dar conta de todo mundo,  já tinha sido essa época do carocinho de milho e da palmatória e a gente naquela época sabia respeitar professor, porque isso era uma educação que a gente já trazia de casa, você sabe que a educação não se adquire na escola, a nossa primeira escola é em casa, é a família, é onde a gente tem a nossa base, concorda comigo? Aquilo a gente leva para sempre, eu creio, e naquela época uma coisa que era muito forte em casa era ensinar a respeitar os mais velhos, ensinar a respeitar professor, saber os nossos limites, inclusive se passasse no meio, nós estamos aqui conversando, se eu enquanto criança passasse no meio do meu pai em frente a ele conversando com alguém quando aquela pessoa saísse eu ia ser repreendida ou até mesmo apanhar, então não existia, não dava muito trabalho, o professor na época de conduzir uma aula, hoje as crianças não tem mais limite, não tem mais noção de respeito, valores parece que se perderam não sei onde e aí se torna o trabalho de um educador da nova atualidade bem mais difícil com relação a isso. 

P/1 – Conta para a gente, como que foi que você terminou a quarta série, o que tinha naquela escola?

R – Não, mudei, eu fiz minha primeira série nessa escola, junto com meus irmãos, como eu disse na época, meus irmãos estavam terminando a quarta série, ficava muito longe, aí no ano seguinte, eu já fiz a segunda série primária em outra escola.

P/1 – Mais perto?

R – Era quase a mesma coisa, só que eu tinha companhia porque para lá meus irmãos não iam mais, aí ficava só na roça,não tinha ninguém que fosse para essa escola, eu gostava muito da minha professora, Dona Rita, mas eu tive que ir para essa outra que ficava também no município de Massaranduba bem longe, atravessando riacho, em época de enchente era um sacrifício, mas eu tinha que ir para lá porque tinham algumas crianças que estavam indo para essa outra escola e aí faziam companhia a mim. Foi a segunda e a terceira série nessa escola, o nome dessa professora era Dona Zefinha, essa tinha feito pedagogia na época em Campina Grande, ela já começava a mudar um pouco a forma de ensinar, era menos tradicional do que a outra, ela já deixava a gente um pouco fazer, construir o nosso próprio conhecimento, fazia a gente pensar mais um pouco, não era aquela receita pronta, aí terminando a terceira série, eu fiz a quarta em outra escola, vim para o município de Serra Redonda, que também era para onde tivesse alguém indo, meu pai me colocava para que eu não pudesse ir só, caminhar só pelos caminhos, pelas matas que era muito esquisito. Pronto, não tinha mais a partir da quinta série que nós chamamos de sexto ano só aqui na cidade, a noite, meu pai conseguiu encontrar uma mulher que era amiga dele, conhecida, trazia de casa, dava alguma contribuição, que as pessoas sempre muito humilde e me deixava na casa dessa senhora e só me pegava no sábado, ele vinha fazer a feira e levava para casa e na segunda vinha me deixar novamente na casa dessa senhora para que eu pudesse continuar na quinta série, fiquei aqui nessa mesma escola onde hoje eu estou conversando com vocês, eu fui até a oitava série, uma escolinha particular, não era estadual, era Escola Cenecista João Adauto, uma ONG [Organização Não Governamental] entrava com a maior parte, os pais pagavam uma partezinha, meu pai sofreu para caramba, mas minha mãe queria muito mesmo, conseguiram pagar até a oitava série, terminando a oitava série, não tinha mais aqui em Serra Redonda para fazer, tinha o técnico na cidade do Ingá, que é a cidade vizinha, eu fiz o primeiro ano técnico lá, terminando o primeiro ano técnico eu inventei de casar e desisti dos estudos, parei por quatro anos, que foi o tempo que durou meu casamento, que foi um fracasso, e depois de quatro anos eu voltei para a casa dos meus pais separada e retomei meus estudos. Fui estudar em Campina Grande, fiz o ensino médio em  Campina, fiz o Logus que me dava direito a lecionar, me tornava professora, depois veio um concurso aqui na cidade e eu passei e comecei a trabalhar, aí veio os filhos, entrou em idade escolar, veio a ordem do Governo Federal que ia dar dez anos para que todos os professores se capacitarem, e na época eu tinha que optar, eu fazia o curso superior ou pagava o colégio para meu filho. Não é desmerecendo, mas espero que um dia as escolas públicas estejam de acordo com o sonho de qualquer pai que quer os filhos, que a gente pobre o único bem que a gente pode deixar para os filhos é o conhecimento, a educação, infelizmente não é só em Serra Redonda, mas as escolas públicas tem deixado muito a desejar, então eu queria muito por ele em uma escola que puxasse mais por ele, porque ele era um menino inteligente. Aí eu optei por ele e não entrei na universidade nessa época, paguei o ensino  médio dele, ele não me decepcionou, no último ano passou de primeira no vestibular, ficou faltando nove pontos para entrar em Engenharia Elétrica, passou no Redentor _________,  tudo que ele fez no final do ano ele passou. Então quando ele começou a trabalhar é que ele disse: “Tá na hora da senhora fazer o seu curso superior porque vai chegar o momento que a senhora vai ter que sair da sala de aula por não ter curso superior”. Aí veio o mais novo, eu tive que investir no mais novo também, mas o mais velho começou a trabalhar e me ajudou e foi possível, até muito recente eu ainda só tinha o Logus, só o ano passado que eu concluí minha universidade na UEPB [Universidade Estadual da Paraíba], de Pedagogia. 

P/1 – Eu queria que você contasse pra gente como que você se sentiu morando na casa dessa senhora?

R – Horrível, foi uma tortura, um sofrimento, como eu disse minha mãe me poupava muito, eu era filha caçula, apesar de morar em zona rural como eu disse, minhas irmãs trabalhavam muito, eu não lavava roupa, eu não carregava água na cabeça como elas, eu não ia para a roça, nem varrer uma casa minha mãe me deixava. Então essa senhora quis me fazer de empregada, lembro como nunca, eu guardei na minha memória aqueles momentos que me marcaram muito, eu chorei a noite inteira: ela me pediu para fazer a janta dela, que era para eu fazer um cuscuz e eu coloquei tanto sal que quando ela foi comer quase que ela me mata, quis até me bater, me agredir, disse que minha mãe estava criando uma vagabunda, que eu não sabia fazer nada: “Dando oportunidade para ela estudar, essa preguiçosa. As outras que são trabalhadoras, não botou para trabalhar, não sei o que, não sei o que.” e aquilo me feria muito. Mas também eu tinha um sonho, caminhava a pé, eles vindo me trazer, às vezes eu vinha a cavalo, às vezes a pé, e vinha chutando as pedras e eu sonhava que eu ia ser alguém na vida, que eu não queria aquela vida das minhas irmãs para mim. Eu chorava muito e pensava: “Se eu desistir eu não vou ter como estudar”. Só que um dia eu cheguei ao ponto de dizer: “Ou vocês me colocam na casa de alguém que me trate feito gente ou ali eu não fico mais”. Aí meu pai me trocou de local, eu disse: “Não vou mais estudar, eu desisto agora”. Aí eles me colocaram em outra casa, até que finalmente uma das minhas irmãs casou e aí veio morar aqui em Serra Redonda, aí pronto, pra mim a vida foi tranquila, foi quando até a hora de eu casar, eu fiquei morando na casa da minha irmã. Mas a quinta série e a sexta série foi muito sofrida, só a partir da sétima série e do oitavo ano que minha irmã já estava aqui morando na cidade e eu fui morar na casa dela. Aí às vezes ela ia comigo para casa, mas no início não é bom morar na casa dos outros e principalmente os outros daquela época. Eu não sei se hoje ainda é do mesmo modelo, mas tinha que limpar a casa, nem para comer doce e eu provei isso bem de perto. Eu varria, eu fazia tudo e tudo que eu fazia estava mal feito, minha mãe tinha criado uma preguiçosa, me humilhando o tempo todo. Mas hoje eu faço uma ponte, uma relação do meu passado com o presente e vejo as crianças de hoje, tem ônibus passando na porta, merenda de qualidade, a escola, o gestor e os professores se desdobrando em cuidados,  preocupações, buscando incessantemente melhorar para oferecer uma educação de qualidade e muitos sem o menor interesse. Eles não sabem o que é sofrimento.Como eu pulei uma etapa da época, eu voltei a estudar em Campina Grande quando eu separei que eu retomei o ensino médio eu vinha metade do caminho a pé porque nós não tínhamos pista, era estrada de barro e os ônibus não conseguiam passar de Campina Grande para chegar com a gente, chegava em casa duas, três horas da manhã, com os pés todos cortados de pedra, a gente tinha que tirar o calçado porque não tinha como andar, quando o pé pisava, afundava e o calçado ficava lá, quatro, cinco...não sei nem mais quantos quilômetros caminhando a pé para chegar aqui na nossa cidade, para conseguir estudar, para chegar hoje... eu e muitas colegas que hoje temos algum nível de instrução foi em cima de muito sofrimento e hoje os alunos não tem isso e a gente não vê a dedicação e o interesse que nós tínhamos na época.

P/1 – Nessa época que você foi estudar depois do casamento e tal, você ia e voltava todo dia?

R – Todos os dias, como eu estou dizendo, a gente caminhava muito a pé, que na época a Serra Redonda, nem por Massaranduba,  nem aqui  pela saída do Ingá existia asfalto, era estrada de barro, quando chovia era muito buraco e ficava muito escorregadio e a gente pra ir já começava a ir a pé até onde o ônibus podia esperar para conseguir levar e para voltar a gente chegava quase de madrugada. Era muito sofrimento para concluir o ensino médio em Campina Grande.

P/1 – Você sentiu alguma dificuldade? Esse período você foi estudar de noite?

R – Senti, principalmente porque a noite a gente trabalha o dia inteiro, nessa época que eu me separei, eu vim morar com meus pais. Meu pai já era muito doente, já tinha sofrido dois AVC (acidente vascular cerebral) e eu tinha que cuidar dele. Quando era no final da tarde, eu já estava cansada demais, aí a dificuldade era enorme, era bem complicado, mas quando eu fui fazer o terceiro ano em Serra Redonda, consegui fazer o ensino médio, estudar. Eu conclui meu terceiro ano aqui, agora o primeiro e o segundo ano do ensino médio foi em uma escola chamada Premen, em Campina, aí o terceiro ano já foi aqui porque o prefeito da época já conseguiu colocar o ensino médio aqui na cidade, eu dei graças a Deus, foi mais leve para mim.

P/1 – E qual foi o seu primeiro contato no trabalho com crianças, na sala de aula?

R – Foi desastroso, eu não tinha ideia o que era ser uma educadora [risos]. Como eu disse a você, eu fiz o concurso na época, passei.

P/1 – Você fez esse concurso logo depois que você concluiu o Logus?

R – O Ensino Médio, eu ainda estava no Logus, mas na época permitia, porque era bem diferente, também não era nem publicado o edital, era só colocar um papelzinho na porta da prefeitura. Eu passei nesse concurso, fiquei aguardando, quando foi um dia, foi no sopapo assim: “Neide, você vai assumir uma sala de aula segunda-feira”. Eu disse: “Pois não, vamos lá”. Pré um, Educação Infantil, imagine. É uma coisa muito delicada, a gente tem que ter uma base muito sólida, não é qualquer um. Sempre costumo dizer: a Secretaria de Educação deveria escolher a dedo vocação, dom, gosto, amor pela profissão, que tenha concluído curso superior e que junte todos esses requisitos porque é uma coisa muito melindrosa, é a partir daí, é a base de tudo, o alicerce, que é o desabrochar da criança. Me colocaram em uma sala de aula para ensinar crianças de quatro anos e cinco na época. Cheguei lá, recursos não tinha, material muito menos, eles com o caderninho da mão e eu com a cara e a coragem. Como é que eu vou começar?  Falta de prática, a teoria era pouca, o curso do Logus teria passado alguma coisa teórica, mas eu não tinha assimilado muito bem. Aí eu digo: “O que eu vou passar para esses meninos fazerem? Eu vou botar a letra A, vou começar pelas vogais”. Peguei os cadernos todos, coloquei em cima da minha mesa e comecei a colocar uma infinidade de A nas páginas dos cadernos e mandar eles cobrirem, e ia entregando: “Toma o seu. Toma o seu”. Quando eu pensava que não, aquele que eu tinha entregado já dizia: “Já cobri”. Eu falava: “Ah, então toma de novo”. E assim quando terminou o final da tarde, eu estava desesperada, ensinar não deve ser isso. Comecei a pensar à noite o que era que eu iria fazer, sem planejamento, foi um desastre para mim e para eles, eu não sabia o que ensinar, como ensinar, o que fazer, totalmente perdida. Mas pensei: “A dor é que ensina”. Até então Serra Redonda também não existia isso, nenhum professor fazia plano de aula, o problema não era só meu como de todas as educadoras em sala de aula, ia dar aula no improviso mesmo: “Eu vou fazer isso” e fazia. Aí depois de uma semana eu comecei a me planejar, que hoje eu sei que é um planejamento, me organizar, pensar quais os recursos eu iria utilizar, como fazer, o que eu queria ensinar para eles e depois de um mês acabou-se a dificuldade. Até trinta dias de experiência como professor em sala de aula foi de misericórdia, eu perdia horas e horas em casa de sono e aí comecei a ler, a pesquisar, ver exemplo, perguntar a colegas como é que elas faziam, como é que elas se planejavam. Na época, o prefeito trouxe uma supervisora, que começou a auxiliar não só a mim, como às demais colegas para aprender a se planejar, preparar plano de curso, a gente não sabia o que era isso, plano de unidade, plano de aula, que é a rotina do dia e a coisa foi ficando mais leve e eu sempre fui muito inquieta, eu busco incessantemente aprender, sempre fui muito inquieta, eu vi que a profissão seria aquela mesmo para a minha vida e comecei a ler muito, a buscar, e nos cursos de capacitação eu tentava tirar tudo que eu pudesse saber, ouvir tudo que eu pudesse para melhorar a minha prática pedagógica em sala de aula e graças a Deus, eu acho que eu tive muito êxito quando eu estava em sala de aula, eu até me emociono e choro porque cidade pequena entra muita política e às vezes tentam castigar professores. Então eu tive essa experiência em 2003, em sala de aula, pegaram uma turma de terceiro ano para mim, todos sem estarem alfabetizados, em peso, desafio e tanto. Quando eu comecei a fazer o meu diagnóstico, a minha primeira semana de sondagem, eu percebi que o meu desafio era maior do que eu imaginava, crianças de terceira série, que a gente chama de quarto ano, todos para alfabetizar, quando eu digo à vocês alfabetizar, eles não conheciam nem a letra do alfabeto, eles não conseguiam decodificar palavra alguma, não sabiam nada. Os primeiros dias eu chorei, dizia: “Meu Deus, será que eu vou dar conta?” e comecei a me organizar junto com eles e buscar, pesquisar, preparar aulas que pudesse alfabetizar eles e que se tornasse aquela aula atraente, que prendesse a atenção deles porque eu comecei a entender que muitas vezes era a aula que não era atraente, por isso que eles não prestavam atenção, esses alunos eram altamente rebeldes, que diziam: “Tu vai ver, aquele ali vai te matar”. Foi muito gratificante no final do ano eu ver que aquele menino me amava tanto quanto uma mãe, um deles eu gostei muito porque eu conquistei ele sem perceber, eu comecei a trabalhar história, a gente trabalhava a história do nome deles, o porquê eles tinham aquele nome, para que eles pesquisassem em casa com a família, foi muito interessante essa atividade. E aí tinha um menino que se chamava Emanuel, rebelde, daquele sem limite mesmo, família desestrutura, quando eu pedi que ele me contasse a história do nome dele para mim, verbalmente porque eles não conseguiam escrever ainda, aí ele disse assim: “Eu sei lá, eu só sei que eu me chamo assim e eu não sei porque foi não, nem me preocupei em perguntar”. Aí eu disse “Tu não se preocupou em perguntar, mas eu me preocupei de pesquisar o significado do teu nome. Você não sabe o quanto o significado do teu nome é tão bonito, você quer saber?”.  Ele disse: “Se quiser dizer”. Eu disse: “Olha, Emanuel quer dizer Deus conosco; eu não sei se sua mãe quando colocou seu nome teve essa intenção ou foi em homenagem a alguém, mas que teu nome quer dizer, Deus conosco, ou seja, que Deus está aqui no meio de nós, não é bonito?”. Aí ele disse: “Oxe, e é”, com aquele jeito dele. Aí parou de ser rebelde, de me responder, de mexer com os colegas porque era o tempo todo jogando bolinha de papel, xingando, arrendando, inquieto, dando cambalhota no meio da sala, atrapalhando. Uns 15 dias depois a mãe disse assim: “O que foi que tu fez com Emanuel, porque ele está tão mudado em casa, até comigo”. Porque eu conversei muito quando ele xingou a mãe de tudo quanto era coisa ruim, que não prestava, comecei a dar carinho, amor e mostrar que ela amava do jeito dela, mas que ela amava. Aí ela disse assim: “Ele disse: “Minha tia me disse uma coisa tão bonita que eu quase chorei na frente dos outros porque fiquei emocionado”. “E o que foi que tu fez moleque?”. Eu disse o que foi, aí depois caiu a ficha e esse menino era um dos que não sabia ler nem escrever. Aí eu comecei  a trazer ele e ele começou a se interessar, disse assim: “Meu irmão está me chamando de doido porque disse que agora tudo que eu vejo, placa de carro quando passa na televisão eu fico tentando ler e já estou lendo, ele disse que eu estou parecendo um doido, tia, mas eu estou tão feliz de conseguir ler para a senhora”. Aí quando foi um dia, eu saí no intervalo e quando eu voltei estava lá: “Tia, eu te amo”.  Então são esses momentos que recompensa, a gente dentro de sala de aula quanto educador, é buscar isso. Eu sempre converso com as professoras que trabalham comigo,  é para isso que o SGI (Sistema de Gestão Integrado) de uma certa forma veio para a escola, a gente tem que sempre estar colhendo dados para em cima daquela, porque quando a gente consegue fazer a análise dos dados e ver onde está precisando melhorar, preparar um processo robusto em busca daqueles que estão precisando mesmo de socorro e não ficar jogando culpa na colega do ano anterior, porque às vezes é isso que eu ouço muito e eu fico muito triste, eu não quero saber quem foi que pegou mais esse aluno, agora o problema é meu, a realidade é minha, vamos buscar, vamos tentar ajudar aquela criança porque de qualquer forma sempre tem um ou dois que eu considero um caso irremediável, mas uma grande maioria a pessoa consegue resgatar, nessa minha história de 28 alunos eu consegui alfabetizar 18, para mim foi uma grande vitória, já tudo com distorção de idade, achando que aquelas atividades, a primeira coisa, uma atividade para alunos que não são alfabetizados não é igual a de uma criança de seis anos, eles acham aquilo ali um horror, então você tem que ir de acordo com a realidade deles, com a faixa etária de idade deles, com o conhecimento que eles têm de mundo, a partir dali para que se torne interessante a alfabetização, se todos pensassem assim eu acho que a escola pública já teria muito sucesso, eu estou dizendo que é grande o número de professores que não querem vestir essa camisa, eu observo tanto na minha escola onde eu trabalho como em outras, é grande o número de professores tradicionais, não sei porque, não tem motivação, não sei se é porque tem tripla jornada de trabalho, onde é que está o problema, mas é uma realidade um pouco complicada porque eu vejo muitos colegas sem o menor interesse porque dá trabalho, tudo que dá trabalho eles querem fora, querem daquela forma deles, aquela metodologia tradicional que é aquele ritmozinho de vida que não foge, tudo que é novo e que requer pesquisa, observação, buscar, eles estão tentando banir da vida deles, não vou generalizar porque hoje eu tenho muitos colegas que têm a mesma visão que eu, mas uma grande maioria ainda não tem essa visão, eu sinto isso no SGI, é um programa robusto, é uma coisa que se fosse implantado totalmente, se todo mundo vestir a camisa como o nome diz, cada um fazendo a sua parte com foco no aluno, para melhorar a aprendizagem deles, essa escola se tornaria modelo dentro de três anos sem sombra de dúvida, mas eu estou encontrando uma dificuldade enorme de convencer esses que não querem vestir a camisa de que chegar para mim e dizer o problema é fácil, “É porque tantos alunos na minha sala não sabe ler.”, eu digo “Não é mais o problema ____, tentando jogar a culpa de quem passou ele para você, tente fazer a sua história, o mérito será seu.”, eu digo “A recompensa não é o numerário no final do mês, é sua recompensa quanto profissional, a realização, isso que me emociona.”, quando eu vi isso eu fiquei muito emocionada de ver que eu consegui, então eu acho que não tem dinheiro que pague isso, no dia que todos os educadores tiverem essa concepção, a educação na escola pública vai mudar, agora, Deus nos ajude, quando é que todos vão vestir essa camisa e vão começar a pensar dessa forma?

P/1 – Então Neide, para você chegar aqui nessa escola eu queria saber como que foi a sua chegada como gestora, como que você veio para cá?

R – Você sabe que o gestor de escola municipal é nomeado pelo gestor que é o nosso Prefeito e na época foi o Prefeito que me convidou e eu gosto de desafio, como eu disse,  eu não tinha experiência,  foi uma surpresa muito grande porque eu não esperava, para eu administrar, ficar à frente da direção dessa escola, que é a maior escola do município, eu digo que além de ser um desafio, o desafio é grande porque não é uma escola pequena, é a escola com maior número de alunos porque é onde se concentram alunos de uma classe mais favorecida, onde os pais estão mais em cima e tudo, a dificuldade de quem se torna gestor dessa escola é maior, a cobrança é bem maior, mas eu aceitei e não foi mais como meu primeiro dia de aula, mas também não foi um paraíso, no dia que ele disse: “Você vai ser a gestora daquela escola.”, eu comecei já a pesquisar na internet, porque hoje nós já temos isso, qual é o papel de um gestor escolar, como eu deveria fazer uma gestão democrática, como eu fazer para melhorar e cada dia fui aprendendo e até hoje, fiquei dois anos e meio e ele foi cassado, junto com ele, todos que eram de cargo de confiança caíram, foi quando eu disse à você que me julgaram, esse concurso que eu fiz anos atrás, eu esqueci de dizer, foi anulado pela justiça, foi nessa época de 2003 o desafio, agora mais próximo ele foi cassado como prefeito, eu voltei para a sala de aula, aí em 2009 o Prefeito não ganhou nas eleições, ele também ficou em segundo lugar e ganhou na justiça porque a outra Prefeita já ia ficar em três consecutivas e não podia, aí me chamou novamente para a escola, foi assim que eu comecei a ser gestora de escola, primeiro fui convidada pelo primeiro gestor em 2005 e agora em 2009 novamente por esse gestor que está hoje aí, o prefeito que está hoje em Serra Redonda, me convidou novamente para continuar meu trabalho porque ele disse que foi um trabalho muito bom, foi elogiado, as mães elogiavam e os alunos elogiaram, porque quando eu me dedico a uma coisa eu faço de corpo e alma mesmo, eu busco incessantemente o melhor de mim, aí eu estou aqui.

P/1 – E quais eram os seus desafios enquanto gestora, aqui nessa escola?

R – Trazer a família para a escola porque até hoje é, conscientizar os professores, como eu estava conversando agora a pouco com você, são desafios grandes, tentar educar, impor limites às crianças que chegam aqui e que não sabem mais o que é educação e nem limite, então tudo isso é desafio de um gestor escolar porque tudo que acontece na escola a culpa é do gestor, tem que adquirir poderes paranormais. Eu costumo dizer quando eu chego em casa que um gestor é advogado, policial, psicólogo, filósofo, tudo que você puder imaginar, ele tem que ter um pouco porque tem hora que você está tendo que ter que defender, tem que estar punindo, que você tem que usar psicologia. Então são esses desafios que a pessoa tem que ir em busca para tentar ter jogo de cintura em uma comunidade escolar, porque o ramo do tradicionalismo ainda requer isso, apesar de em reuniões, o pessoal de apoio, pessoas que me auxiliam em secretaria com educadores, eu tentar explicar que tento resolver tudo que quero ver na escola, em comum, abrindo votação, o que as pessoas acharem, se a maioria votar por determinada coisa eu assino embaixo mesmo que para mim aquilo não seja muito bom, mas eu aceito, tento empoderar, mostrar que cada um tem que ter o seu papel. Eu vou dar um exemplo aqui de como as pessoas jogam todos os seus problemas em cima de uma diretora, por isso que eu digo, é desafio, você tem que ter jogo de cintura para sair de tudo. Uma educadora me chamou, eu estava ocupada recebendo alguém, não me lembro quem, pessoas que me procuram na escola, e aí eu disse: “Eu não posso ir agora porque eu estou atendendo”. Mas é urgente, aí eu disse: “Me dê licença porque a coisa deve ser urgente na sala de aula”. Quando eu chego lá a professora olhou para mim e disse: “Neide, eu te chamei porque você tem que resolver esse problema”. Eu disse “O que é?”. Ela falou,  “Eu não aguento mais o menino, com um mal cheiro nas axilas dele. Eu estou com o estômago embrulhado, isso é um problema para você resolver”. Eu digo “Para mim?”. É um desafio grande de um administrador botar a consciência na cabeça desse povo, toda comunidade que está ao seu redor, que a gente está para organizar, para coordenar e não para isso, porque na minha concepção seria uma conversa muito íntima entre ela e ele, com muito jeito para não traumatizar, para resolver esse probleminha e não trazer para mim, concorda comigo? É um desafio ou não é? Absurdo de pais, ignorâncias de pais que você fica, teve um pai que proibiu a filha de fazer educação física porque o professor era homem, eu estou só citando alguns exemplos de grandes desafios que um gestor tem que estar sempre articulando e estar no meio tentando, outro pai que chegou aqui ano passado querendo engolir, literalmente, o professor, falando,“Eu vou pegar ele.”, e o pior é que disse que ia denunciar: “Eu vou pra revista”, porque o professor corrigiu a atividade da minha filha e riscou o que ela tinha respondido e botou na frente. Eu digo: “Mas ela riscou porque sua filha errou e a professora colocou o correto para ela entender”. Porque simplesmente a professora de ciência tinha feito um questionamento qual era o principal órgão do sistema nervoso, aí a menina respondeu o estômago, depois de ela ter trabalhado inúmeras vezes, uma semana inteira esse conteúdo em sala de aula, não sei a metodologia que ela usou, mas que trabalhou, trabalhou e a menina deu essa resposta absurda e aí ela com raiva rabiscou e colocou a resposta correta na frente, isso foi motivo do pai vir dentro da escola arrumar confusão e o gestor tem que estar sempre à frente apagando esses incêndios, por isso que é um desafio constante.

P/1 – E agora, como é que você vendo a comunidade daqui da região, Serra Redonda, a chegada do Grupo Camargo Corrêa, da fábrica, o que isso mudou na região?

R – Tem nos ajudado muito, então para mim está sendo maravilhoso, o Sistema de Gestão Integrado estão a frente disso aí, é nosso parceiro, jornal escolar, é outra maravilha que a escola tem, uma ou duas professoras não gostam de fazer com que os meninos escrevam,  pelo menos a partir daí está ajudando, a biblioteca móvel então nem se fala, com um acervo maravilhoso, eu não tenho nem palavras para descrever o quanto eles estão sendo verdadeiramente parceiros, ajudando a impulsionar e tentar melhorar a educação de Serra Redonda, se não for dessa vez não é nunca, porque não é possível com tanto incentivo que a Alpargatas está nos trazendo e a Camargo Corrêa.

P/1 – Quando que você ouviu falar pela primeira vez desse programa do SGI?

R – Foi pela Secretaria de Educação, tudo começou por ela, eu nem entendia, porque ela fala meio apressadinho, ela viajou, levaram para ver em Minas Gerais onde já existe esse sistema implantado, escolas de Minas Gerais que trabalham com o Sistema de Gestão Integrado, o SGI, para que ela primeiro observasse e dissesse se valia a pena trazer para a nossa realidade e ela chegou encantada, foi patrocinado pela Alpargatas Camargo Corrêa a viagem dela e do Prefeito aqui de Serra Redonda para que eles vissem de perto a implantação do SGI e ela chegou e mandou chamar as gestoras, principalmente das quatro escolas maiores que ela queria que começasse a partir daí e disse: “É lindo demais a realidade onde tem isso, eu não sei se nós vamos conseguir”, com aquele jeito dela, “Nossa Senhora, foi muito lindo ver as crianças na hora da merenda com self service sem empurrar um ao outro, na maior educação”. Então ela trouxe uma motivação, chegou de lá muito motivada e foi quando eu vi pela primeira vez o SGI e eu dizia: “O que é isso Dona Isabel?”. Ela falava: “É um sistema de gestão integrado”. Depois chegou o material, antes de começar a nossa jornada, a nossa capacitação, com duração de dois anos, estamos terminando agora, faltam duas jornadas para terminar. Antes de iniciar veio o material que eu comecei a ler em casa, comecei a ter noção do que queria dizer o SGI, Sistema de Gestão Integrado, um trabalho alinhado, orquestrado, todos na mesma página. Agora quem são esses todos? Todos os sistemas, secretaria, educação, sistema escolar, sistema classe, para chegar no nosso foco que é o aluno, todos esses sistemas alinhado trabalhando tudo orquestrado, com o mesmo objetivo, é uma coisa muito interessante e eu fui começando a ficar muito apaixonada, é tanto que minha graduação, minha monografia, meu TCC,  eu apresentei ao SGI, quando eu terminei, minha orientadora disse: “Você é simplesmente apaixonada pelo SGI, não é Neide?”. Eu disse, “É, eu gostei, achei muito interessante”. Foi assim que eu ouvi falar pela primeira vez, pela Secretária quando ela foi visitar a escola de Minas Gerais que já existe esse sistema. 

P/1 – E qual é o grande objetivo do SGI?

R – O grande objetivo é garantir uma educação de qualidade para nossos alunos, só é possível alcançar esse objetivo com essa integração, com este alinhamento, não só existir a minha vontade de gestora, mas da Secretaria de Educação com toda a equipe, minha com a minha colega que faz, formamos a equipe de liderança, dos professores, funcionários de apoio, da família, todos trabalhando nessa direção para que nós possamos garantir essa educação de qualidade. Então para isso nós temos um emaranhado de instrumentos, de processos que estão sendo desenvolvidos desde o início que começou SGI aqui na nossa cidade. Eu não me lembro bem o primeiro encontro, foi no final de 2009, aí todo 2010 e vamos agora até julho agora de 2011, desde então a nossa consultora todos os meses nos traz várias formas de se trabalhar melhor, sempre naquela direção para tentar melhorar o nível de aprendizagem dos nossos alunos. No primeiro encontro a Secretaria elaborou o plano de melhoramento da Secretaria, que são as diretrizes estratégicas, o que é que nós queremos alcançar, qual o nosso objetivo. Aí a partir do plano da Secretaria foi construído os da escola, que é exposto ali fora, não sei se vocês quando chegaram viram, acima vem a visão da escola, que é onde nós queremos chegar, de início a gente não tinha visão, só esse ano que foi construída a visão, de início foi a missão da escola e as metas e medidas de aprendizagem,  nós temos sete metas para alcançar, meta um, melhorar os meninos na leitura, meta dois, melhorar os meninos na escrita, melhorar não, garantir uma qualidade robusta, boa, na leitura, na escrita, no cálculo, na expressão oral, na interação, resolver problemas do cotidiano e dominar o uso da tecnologia, são sete metas que a Escola Eduardo Medeiro quer atingir, como é que a gente sabe se está atingindo?, lá embaixo nós temos as nossas metas operacionais,  nós fazemos análise de dados, medimos a freqüência total do mês de aluno, professores, nós temos outra ficha que a gente chama sensor que é uma ficha avaliativa que a gente não tinha, eu inclusive já comecei desde a semana passada, para avaliar em que nível agora no primeiro bimestre nossos alunos se encontram na leitura, nós temos três conceitos, o conceito A, B e C, agora no primeiro bimestre eu estou terminando de concluir este trabalho, finalizando, apresentar aos alunos como se encontra a turma deles e como se encontra eles, é uma forma deles se auto-avaliarem também, é tão robusto porque ele não dá só um puxão de orelha, não tenta acordar, despertar, não só a Secretária como a gestora, são todos da comunidade, principalmente os alunos, qual é a obrigação deles?, como eles tem a missão na sala de aula, o que é que eu venho fazer na escola e como eu faço para melhorar?, aí tem as metas da classe que é a mais urgente, aquele problema que precisa ser atingindo de urgência, são muitas ferramentas que o SGI traz porque se eu for listar agora para vocês acho que eu vou até três horas da tarde porque a escola já tem um ano de processos, um mini mercado que outros grupos de parcerias internas querem ter dentro da escola, que a gente chama de _____,  ano passado foi feito um livro, também um processo do SGI para desenvolver os meninos na escrita, foi maravilhoso, quando eles viram o livro na mão depois que a gente levou para a gráfica, eles ficaram muito orgulhosos,  tudo isso o SGI faz, é muito bom, se não for dessa vez, se esse processo de gestão integrada não der um salto na história da educação de Serra Redonda não vai ser mais, nas quatro escolas que hoje está implantado. Eu já não digo para você que eu estou com sucesso absoluto devido à dificuldade ainda de alguns professores de quererem abraçar essa causa porque como é uma coisa integrada e eu só não dou conta, tem que ser todos na mesma página, todos orquestrados, querendo chegar lá nesse objetivo.

P/1 – E quais foram os primeiros trabalhos da SGI realizado aqui nessa escola?

R – O primeiro foi construir o plano de melhoramento da escola, já está exposto a missão, foi a partir daí que foi dado o pontapé inicial. Fazia parte da minha responsabilidade quanto à equipe de liderança, depois reuniu os professores para contextualizar a história, passar para eles o que era o SGI, qual era a intenção do SGI. Apresentei o plano de melhoramento da escola que são as diretrizes estratégicas e em seguida começamos a trabalhar os professores, que a gente chama de aplicar, passar para eles o test-drive, a primeira volta deles no SGI, que a primeira nossa foi com nossa consultora Luciana que a gente construiu e ela deu uma noção bem grande para que a gente trouxesse para a escola e contextualizar o SGI para os professores e para os funcionários de apoio. Veio a primeira volta dos funcionários de apoio e dos professores para entenderem o que era o SGI e qual era a função deles em sala de aula. Depois a gente deu o test-drive dos alunos para que eles compreendessem qual é o papel e a função deles na escola; depois o test-drive dos pais, porque tem que incluir todo mundo, quase todo mundo já vestiu a camisa, fora alguns professores e os pais que têm maior dificuldade de entender qual é a função deles, inclusive. Em reuniões, eu mando uma agendinha para que eles acompanhem o dia a dia dos filhos e poucos me dão retorno, organizadinha para que eles vejam o que é que eles estão fazendo para ajudar a melhorar os filhos deles nessas nossas metas. E o primeiro passo do SGI foi começar pelo plano de melhoramento, depois contextualizar para professores e alunos e pais, funcionários de apoio em geral, todo mundo aqui sabe o que é o SGI, o que o SGI quer e onde ele quer chegar. 

P/1 – E qual é o seu papel dentro desse programa?

R – Eu sou a líder, eu tenho que estar sempre coordenando, mediando e se alistando a frente desse trabalho sempre. Basta dizer a você que eu tenho que ser o exemplo, a figura principal, a motivadora, eu tenho que estar incentivando, fazendo, mostrando exaustivamente para que aconteça, esse é o meu papel de líder, de motivar e eu vou conseguir, vai ser algo que quando eu sair daqui, se Deus quiser. Inclusive eu fiz o regimento interno que a escola não tinha regimento interno e já coloquei como um item para que um dia quando eu sair daqui, deixar a gestão, alguém que venha e dê continuidade. Tenho fé em Deus, em deixar bem redondinho o SGI nessa escola.

P/1 – Conta pra gente, junto com o andamento desse processo de produção do SGI, ele se dá junto com um processo de formação e capacitação. Como que estão essas capacitações, quem é que participa, quem é que dá aula?

R – A nossa consultora, nós somos as facilitadoras, a gente chama de _________ esses encontros, ela vem de Minas Gerais, da Fundação Pitágoras, é uma excelente professora, tem uma clareza, um domínio do assunto. Eu acho que eu aprendi muito também graças a ela. Esses encontros acontecem assim: em Ingá, Serra Redonda, que se juntaram, um mês, um encontro acontece em Ingá, no outro mês, o encontro acontece aqui em Serra Redonda com a nossa facilitadora. São dois dias, das oito às cinco horas,  sem faltar um segundo porque a nossa consultora não deixa, se ela olhar para o relógio e dizer faltam 20 segundos, ela diz, “Pois bem, vamos continuar até os últimos 20 segundos”. Ela é bem pontualíssima, então acontecem esses encontros um mês aqui e outro lá, com quem? Quatro escolas de Serra Redonda e eu não sei ao certo quantas escolas da cidade do Ingá, eu acho que é mais, dessas quatro escolas de Serra Redonda é a diretora, ou a vice diretora quando tem. No meu caso, como eu não tenho vice diretora fui eu e uma colega professora, a professora do quinto ano, é quem faz parte da equipe de liderança, ela me ajuda na implantação do SGI o tempo todo e nas outras escolas onde tem uma diretora e uma vice-diretora foram as duas e aonde não aconteceu, a mesma coisa que aqui, que é a outra escola que tem ali em cima que vai a diretora e uma professora como equipe de liderança, a gente recebe a nossa capacitação, nós temos uma agenda de campo para cumprir, que é por em prática tudo o que a nossa consultora nos passou naquele encontro, que são processos e não é pouco, é muito e robusto e às vezes nem dá tempo. Eu me estresso um pouco com ela porque a coisa pra sair bonitinha, redonda, tem que ser feita com paciência, ela passa tanta coisa e às vezes quando chega lá a gente tem que dar retorno, mostrar pra ela em slide, ou seja, mostrar pra ela o que foi que a gente implantou das obrigações da agenda de campo e o que  ficou devendo e a gente trás pra escola e põe em prática. Recebemos a capacitação dela, o treinamento do que a gente deve fazer durante aquele mês para continuar avançando na nossa jornada e no nosso objetivo que é melhorar o conhecimento dos alunos e garantir uma educação de qualidade, durante aqueles trinta dias a gente implanta, passa pra quem deve passar e dá o retorno a ela no outro mês e mais nova missão, todos os meses nós temos a agenda de campo a cumprir, são mais processos novos que ela trás pra gente até concluir e agora ela sempre diz: “Vocês já estão preparadas para dar o vôo solo”, que a partir de julho a gente vai dar continuidade do que ela nos passou e também, se quiser incorporar mais alguma coisa que a gente acha interessante e que venha nos ajudar a melhorar mais, o SGI é perfeito, é uma coisa bem organizada, planejada, diretrizes bem definidas e é isso.

P/1 – Qual é a importância desses encontros de formação?

R – A importância é que a cada encontro a gente adquire mais e mais novos conhecimentos pra trazer pra escola.

P/1 – E quais são os resultados que você já pode ver dessa implantação?

R – Em muitas salas de aula,eu já estou vendo que mudou muito o comportamento das crianças depois da conscientização do trabalho das professoras como SGI. Em todas as salas que já estão sendo trabalhada a mudança é bem visível o comportamento dos meninos e na aprendizagem deles também, na preocupação deles mesmos se auto-avaliarem. Como eu observei hoje um aluno entrar na sala, porque eu tenho lá na minha sala o painel de monitoramento da implantação do SGI em sala, é uma forma de eu monitorar os professores que estão trabalhando as ferramentas, os instrumentos, para melhorar na sala de aula com o SGI e aqueles que ainda não estão trabalhando eu faço uma avaliação, eu ponho lá uma carinha vermelha de que ainda não está trabalhando. No aluno já é visível a preocupação deles e a responsabilidade deles porque agora já sabem do que se trata aquilo. Entrou e disse: “Olha, não é só a gente que de vez em quando tem uma carinha vermelha, olha os professores”. Eu não gostei porque aquilo também não é muito bom, olha um professor também cheio de carinha vermelha porque não está fazendo o SGI direito. Então já são visíveis os resultados, a gente já vê os resultados em outros municípios, os professores querendo saber como é que a gente conseguiu esse sistema: “De que jeito, como é que se faz pra ter isso também?”. Então quer dizer que isso já é resultado positivo, que ele já está começando a inquietar outras cidades vizinhas que não tem e que também estão em busca de tentar melhorar a educação deles, através de que? Da propaganda boca a boca de quem já convive nessa escola e quem já está vendo o trabalho do SGI, nós temos um processo, que foi elaborado, que é responsabilidade pública e cidadania, são um dos processos que a gente aprendeu lá no SGI e trouxe pra escola, eu trouxe um especialista em gestão ambiental, conseguimos os baldes pras coletas seletivas, todos os meses a gente desenvolve alguma coisa, esse mês nós estamos trabalhando, eles fizeram aqueles puffs de garrafas pet e estão começando a tomar consciência, então tudo isso são resultados visíveis de que o SGI está nos ajudando a ensinar a trabalhar melhor, a conscientizar nossos alunos, eles estão fazendo curso. Essa semana a professora vai fazer vassoura de garrafa pet e depois vamos visitar fábrica de materiais reciclados que é um dos processos que o SGI trás, então tudo isso só vai trazer benefício à cabeça dos nossos alunos.

P/1 – Você falou que o SGI tem ferramentas e instrumentos, que ferramentas e instrumentos são esses?

R – Em sala de aula nós chamamos de ferramentas, a missão dos alunos exposta, a missão da turma feita por eles e a professora, as metas da série que é outra ferramenta que está lá exposta para que todos os dias, quando o professor começar a trabalhar, ele se reporte aquelas metas da série. O que são metas da série? São o que está exposto no plano de melhoramento, é o que eles desejam alcançar durante esse ano, que é a meta um: leitura; a meta dois:  escrita meta três: cálculo; meta cinco: expressão oral e assim sucessivamente. Então se o professor hoje entra na sala de aula e vai trabalhar a leitura ele vai lá e diz: “Qual é a meta que nós vamos trabalhar hoje? Meta um?”. Coloca no alto do quadro, é um trabalho de conscientização deles. Tem outro instrumento em sala de aula, nós chamamos de positivo delta, que é feito toda sexta-feira: o que foi bom durante a semana e o que precisa melhorar. Eles já estão craques nisso, é uma avaliação sozinha, semanal, que o professor faz e eles dizem junto com o professor o que foi bom durante aquela semana e o que ele não gostou e precisa melhorar. O professor faz um planinho de ação, que é outra ferramentazinha, o que vai fazer, o que e quando pra melhorar aqueles deltas, que é o que precisa melhorar e isso aí é repetido toda sexta-feira. Temos outros instrumentos que nós chamamos de radar, que pode ser tirado dos combinados ou de uma dificuldade que eles estejam na leitura, na escrita, na gramática, seja o que for, que vai sendo avaliado, os que já dominam a leitura, a escrita e o cálculo, eles fazem um consenso grama, faz a continha e bota lá no radar. Quanto mais perto do centro, eles tão bem, quando eles estão ficando perto da borda, estão melhorando naquela determinada coisa e os que ainda não dominam é feito através da percepção, se eles estão melhorando ou não naqueles itens que eles desejam ser alcançados. Outra ferramenta de sala de aula é a caixinha de problema, que é aberta toda sexta-feira. É tanto o problema “Puxou o meu cabelo, tia”, mas de vez em quando são uns probleminhas  bonitinhos, robustos, bom de se resolver. O que é que a professora faz? Toda sexta-feira abre e tenta resolver os problemas que surgiram lá, que são problemas do cotidiano. Se é algum problema que foge da realidade dela, da sala de aula, eles pedem a mim, aí ela vem a mim e me apresenta e eu tento resolver quando está ao meu alcance, é outra ferramenta. Deixa eu ver se eu me lembro mais que eu estou dentro da sala de aula, são inúmeras ferramentas que ajudam...o quadro de frequência e comportamento, o quadro de atividades, o quadro de reunião de pais. Eles ficam muito tristes com o quadro de reunião dos pais, quando o pai não comparece e fica lá com a bolinha vermelha. Veja que é uma auto-avaliação constante desse aluno para ele começar a se tocar qual é o papel dele aqui dentro da escola. No dia que eles conseguirem se conscientizar, com certeza eles vão começar a se dedicar mais e vamos conseguir ter uma melhoria muito grande na aprendizagem deles.

P/1 – Eu queria que você falasse pra gente um pouquinho, como que funciona a parceria entre a escola aqui, a Fundação e o Instituto Camargo Corrêa.

R – Gente, eu não sei direito, quem vai poder te responder isso perfeitamente é a Secretaria de Educação. Eu sei que existe parceria, pelo que eu sei, não vou te dizer o certo, acho que pelo que eu ouvi a Alpargatas Camargo Corrêa é quem financia, quem paga a nossa consultora que vem de Minas Gerais, a estadia dela de hotel, a vinda dela pra nossa cidade, tudo isso é pago pela Alpargatas. O material que é utilizado, já vem com ela da fundação Pitágoras e as prefeituras, se eu não me engano, entram com a recepção, o local onde vai acontecer o encontro, a logística do local, o almoço, o lanche, carro para locomover a equipe porque são 22 pessoas ao todo. O grupo de Serra Redonda com o de Ingá e a nossa consultora que faz visita, que cada encontro que ela vem, nós vamos nas escolas. Na semana passada foi na minha: todo o grupão veio aqui para que eu mostrasse as minhas práticas do SGI dentro da minha escola, como é que anda, tanto a minha parte quanto dentro da sala de aula, os meninos... Graças a Deus, foi muito bom, os alunos adoraram apresentar pra elas, então a prefeitura entra com essa parte e o restante, se eu não me engano, fica com a Camargo Corrêa Alpargatas, que paga a Fundação Pitágoras.

P/1 – Você falou pra gente que os encontros estão chegando ao final, vocês vão ter algum acompanhamento?

R – A semana passada a gente teve o 18º encontro, nós temos apenas mais dois para finalizar. 

P/1 – E ao finalizar os encontros, vocês ficam por conta própria?

R – A gente vai ter que dar o nosso vôo solo, vamos ter que caminhar sozinhas sem a ajuda dela. Eu vou gostar, sabe por quê? Eu aprendo, eu ponho em prática, mas ela trás mais coisa nova. Então eu acho que eu já tenho ferramenta o suficiente, eu não vou ter que todo mês implantar coisa nova, por enquanto não. Então eu vou usar as ferramentas que eu tenho, que ela me ensinou, que eu aprendi pra depois eu ver o resultado, concorda comigo? Porque às vezes eu deixo de dar uma continuidade a algo que eu já aprendi e comecei a implantar pra correr atrás de uma coisa nova que ela já me passou esse mês. Todos os meses ela traz quatro ou cinco coisas novas. Então agora que eu já tenho um grande material, uma grande bagagem do que é esse SGI e tudo o que eu posso fazer para que isso aconteça, quando for a partir de julho, eu vou me organizar porque tem processos que eu tenho que fazer duas vezes por ano, três vezes por ano, tem coisa que eu tenho que fazer mensalmente e que às vezes me deixava a desejar porque eu tinha que parar aquilo para fazer algo novo que Luciana tinha trazido. Aí eu vou ter esse tempo para organizar bem bonitinho toda a minha implantação. Quem sabe depois de um ano eu repetindo aquilo que eu tenho que fazer mensalmente, bimestralmente, semestralmente, eu vou ver o meu resultado no final. Porque tem hora que entra uma coisa com a outra, algo que eu já venho fazendo com algo novo e no outro algo mais novo e vai atropelando as coisas, eu acho que vai ser muito bom porque a gente já tem bagagem suficiente para dizer: “Eu não garanto uma educação de qualidade se não quiser”. Agora é só pôr em prática o que ela nos transmitiu durante esses dois anos, que foi muito bom.

P/1 – O que mudou na relação da escola com a Secretaria da Educação com esse sistema?

R – Olha, melhorou muito, a princípio porque foi uma iniciativa dela, da Secretária e a gente sofria muito por conta de falta de materiais e depois que ela vestiu a camisa do SGI ela começou a nos fornecer porque pra gente trabalhar tem que ter material, recursos que eram mínimos e depois do SGI isso aí melhorou muito e também a nossa comunicação. A nossa integração que não era tão boa, hoje tudo em nome do SGI para garantir uma educação de qualidade e tudo fica melhor lá, bem mais flexível, ela sabe que é a base, a nossa sustentação, um sistema de secretaria e melhorou muito, não tenho nem o que dizer.

P/1 – E em relação à comunidade escolar, a escola com os pais, com os alunos, com os funcionários, com os professores?

R – Melhorou, posso te dizer que agora não tá muito no que eu queria, posso dizer que está 60%  porque eu sou uma pessoa que eu gosto muito de ver... tudo eu quero perfeito, quero chegar pelo menos em 99%  de ver tudo do jeito que eu quero, é o meu sonho. Está lá a minha visão da escola hoje, que sou eu com a própria equipe de liderança, é ser reconhecida como referência aqui em Serra Redonda e nas cidades vizinhas. Quando terminar esses encontros, eu vou em busca disso aí, para deixar redondo, para eu ver como é que está essa relação. Eu quero uma relação perfeita, um casamento perfeito que ainda não está do jeito que eu quero. Tem muita gente ainda querendo se descasar, se desgarrar, aquelas ovelhinhas perdidas, e aí quando tiver todo mundo integrado, alinhado,  eu digo: “Agora sim, agora está do jeito que eu sonhei”.

P/1 – E como que o SGI trata, por exemplo, os funcionários da escola? Qual que é a ação?

R – Todos eles têm o portfólio deles. Primeiro tem a missão, eu não sei se você viu, em cada canto de tal funcionário está a sua missão pessoal e eles têm as metas pessoais deles. Nós trabalhamos tentando incentivá-los, motivá-los, reconhecê-los, porque esse é um dos processos do SGI, foco nas partes interessadas. Nós temos sete categorias: liderança, que sou eu; aí começa a Gestão de Processos, eu não sei o nome exato agora que temos; foco nas pessoas; foco nos recursos humanos e nas partes interessadas, tem toda uma preocupação com isso; gestão de processos, análise de sistema...São sete, eu não lembro todos agora. É exatamente isso, pra conscientizar que tem que existir um trabalho de motivação, não só cobrar, ordenar, a gente trabalha tentando fazer um ambiente bem satisfatório para todos, reconhecer o trabalho deles.

P/1 – Eu queria que você falasse um pouquinho mais como que está na escola os outros projetos do Programa Escola Ideal. Você falou um pouquinho do Jornal Escolar, aqui na escola tem um jornal?

R – Temos, inclusive foi terminado ontem a diagramação da primeira edição deste ano. Sai cada história linda, é história de vida que eles contam, está muito bom. Cada ano eu percebo que está melhorando, tanto a prática dos professores em conduzir, em melhorar a escrita dos meninos, em trabalhar eles, porque vem um projetozinho para que eles sigam. Por exemplo, o quinto ano, eles fizeram um textinho, acho que se eu não me engano foi artigo de opinião; o quarto ano foi história de vida e o terceiro ano foi bilhete e eu tenho visto melhorar muito o nível, tem ajudado muito. No dia que entrega é uma festa. Agora os pais é que são muito capengas, a gente chama eles e mostra a importância, alguns valorizam, outros não. Teve uma reunião para entregar a primeira edição do jornal e ela não veio, o bichinho guardou dentro da bolsa dele o jornalzinho todo orgulhoso que um dos textos dele foi contemplado e aí um tempo depois assim:  “Mulher, que coisa mais linda, eu nem sabia que aquilo tinha na escola, não sei como é que eu fui olhar”. Eu disse: “Você que é uma mãe que olha a bolsa do filho”. Sempre a família deixando um pouco a desejar nesses momentos. não é que falte vontade que a gente tente trazer pra escola, mas o jornal é uma coisa muito boa. A biblioteca nem se fala: como eu disse a você, ela começou indo pras salas, hoje ela não vai mais porque três vezes que os professores tentaram levar, ela tá tão pesada que a Alpargatas começou com 200 e poucos livros, que eu não lembro agora que está anotado.  Nos anos passados nós ganhamos uns 200 livros devidos às boas práticas de leitura em sala de aula, o MEC [ Ministério da Educação] também tem nos enviado muito e tudo nós estamos colocando dentro dela. Então ela está pesadinha porque está estufada, mas é trabalhado todos os dias, só que ela não anda mais porque essa perninha dela é quebrada, a rodinha da biblioteca móvel. Os professores trabalham vindo buscar todos os dias e levando pra sala os livrinhos,  não dá pra ela ir mais pra porta deles. Inclusive, eu que tava pensando: se não for muito caro, eu vou comprar um carrinho daqueles de supermercado  pra ficar uma coisa mais bonita, enfeitar ele paras as meninas levarem, pelo menos esse não quebra, elas escolhem os livros que elas querem e levam. Porque perdeu um pouco a graça, no princípio quando ela chegou, eles ficavam contentes, agora a bichinha não pode mais se locomover porque é sair e quebrar, está muito pesada mesmo, não está cabendo mais livro. Inclusive, eu já até pedi estante ao prefeito e à Alpargatas, como sempre, parceria. Vai conseguir dar um reparo na escola, dar uns retoques aqui e ali, embaixo nós temos um local que eu deixo como depósito e ele vai fazer como a sala de leitura e a partir daí eu vou tentar conseguir estante para que ela se torne mais leve e bote algo que ela possa também ser conduzido. Melhorou bastante, os alunos lêem o tempo todo e a turma da tarde, tem a menina que trabalha comigo, ela tem o caderninho e eles levam como empréstimo. O tempo todo, eles vêm, devolvem, ela dá baixa e eles pegam mais, as crianças da tarde têm usado bastante dessa forma, o livro da biblioteca.

P/1 - Eu queria perguntar para você por que é importante esse trabalho de incentivo à leitura com os alunos?

R – Por que é importante os trabalhos com incentivo à leitura? Porque se o menino, se um aluno, se uma criança dominar a leitura e a escrita a partir daí eu acho que ele não vai ter problema nenhum para aprender tudo o que vier pela frente. Porque se eu não consigo dominar leitura e escrita, como é que eu vou conseguir ter o domínio de outras competências? Porque só a partir do domínio da leitura e da escrita que o menino vai conseguir dominar as outras competências básicas que ele tem que adquirir pela vida. Por isso que é importante, é primordial a gente estar sempre dando prioridade, priorizando trabalhar leitura e escrita porque quando o aluno está preparado, ele não vai mais encontrar dificuldades de aprendizagem em outros tipos de conhecimento que ele tenha que adquirir pela vida dele.

P/1 – E se você pegasse a escola no começo da sua gestão e ela hoje com essa parceria do Instituto Camargo Corrêa, o que você pode dizer que mudou, onde estão os ganhos ou a importância dessa parceria?

R – Mudou a valorização dos professores e os alunos começaram a compreender que é importante a leitura, estão adquirindo mais o hábito da leitura que eles não tinham. As aulas são muito tradicionais, não existia muita leitura, não existia incentivo para a escrita. Isso vem mudando: hoje eu vejo os alunos e os professores mais motivados em trabalhar leitura e escrita em sala de aula; isso está existindo hoje.

P/1 – Qual é o seu sonho como educadora?

R – Menina, essa me pegou, o sonho é grande demais. Chego lá... não, é ver não só Serra Redonda, o Eduardo Medeiros que é onde eu trabalho, todas as escolas públicas que sejam estadual ou municipal com essa preocupação de mudar essa realidade que hoje está aí. Alunos que terminam de ler um texto e  não compreendem o que leu porque são analfabetos funcionais, é isso que chama, é o que só se vê, isso é muito triste. O meu sonho é ver um dia todas as escolas públicas... os gestores municipais tomem consciência de fazer uma seleção de professores realmente capacitados e que queiram mudar a realidade, não que queriam apenas um emprego, para que eu veja essas crianças de hoje, se não forem elas pelo menos os filhos delas, dominando todas as competências básicas que os alunos precisam. O que a escola tem a função de passar e eu não sei de que forma está passando, porque não estão conseguindo sair com esta preparação. Que eles consigam alcançar esse objetivo, que todas se tornassem escolas modelo, pudessem competir de igual para igual com a melhor escola particular, que o nível de ensino fosse o mesmo de aprendizagem e para o menino adquirir da mesma forma o conhecimento que adquire em uma escola particular conseguisse adquirir em uma escola pública; esse é o meu sonho. 

P/1 – E quais são as suas perspectivas em relação à parceria com o Instituto, de ações futuras?

R – Quais são as minhas expectativas? Que eles continuem sendo parceiros nossos, continuem nos ajudando em busca desse objetivo maior que é garantir uma educação de qualidade para nossos alunos. Está sendo muito bom, está sendo de grande valia essa parceria, que eles não nos abandonem, continuem nos motivando e ajudando no que eles puderem para ir caminhando junto para a gente conseguir melhorar a educação no nosso município.

P/1 – Agora, voltando para a sua parte pessoal, você falou que tem dois filhos, eu queria saber o nome deles.

R – O mais velho é Diego Isaías, é formado, químico industrial, especialista em gestão ambiental, está cursando mestrado em engenharia química e já passou em dois concurso. Primeiro ele passou para ser químico da Cagepa, Companhia de Água e Esgoto da Paraíba, mas não foi chamado até hoje. Aí ele fez um outro da Universidade Federal da Paraíba e passou também em primeiro lugar e hoje está lá já há um ano e meio trabalhando como químico de laboratório na área de alimentos, que a universidade emBananeiras é bem focada nisso, eles trabalham a tecnologia, a agroindústria. O mais novo, eu não sei se estou errada, não vou mentir, desde os seis anos, eu nunca coloquei em escola pública porque às vezes o aluno pega um professor comprometido e bom, aí no outro quando você não tem opção de escolher e pegar alguém que faz o teu filho desaprender o que aprendeu. Hoje está melhor porque ele está com 16 anos, então já que está pagando vou ter que engolir, o filho tem que ficar e eu sou educadora, eu não podia até ele chegar na série onde eu estava, sempre ensinei as séries finais, a terceira série ou a quarta série, que agora a gente chama de quarto ano e quinto ano, até ele chegar em mim ia passar por pessoas que eu não queria, que eu não acho que estariam preparadas, que podia causar traumas profundos na cabeça do meu filho, ao invés de ajudar iria prejudicar a aprendizagem dele. Eu coloquei em escola particular desde os seis anos que ele estuda fora, primeiro em Ingá, depois foi para Campina, aí ano passado, eu deixei ele fazer o segundo ano do ensino médio em Bananeiras, na escola agrícola que tem lá. Também deixou muito a desejar, não pense que as escolas públicas estadual e municipal, federal existem muita falta de compromisso dos alunos e de alguns professores, o menino atrasou muito. Esse ano eu trouxe ele, está terminando o terceiro ano dele em Campina Grande, no Motiva,  lá é o sistema Poliedro, ele tem sofrido, sábado e domingo foram noventa questões, a avaliação bimestral são simulados, é noventa questões no sábado, noventa no domingo. Ele está ficando em pânico, mas eu digo assim: “Olha, eu não sou rica, é a única herança que eu tenho para te deixar é o conhecimento para que tu possa andar com teus próprios pés, como teu irmão hoje está andando”. Então a gente tem focado nele também para que ele esteja preparado para o mercado de trabalho porque hoje essa é a nossa realidade, para que quando ele completar a idade que ele se forme em uma área que ele goste para que depois não fique frustrado e que possa conseguir um emprego e se realizar profissionalmente como o irmão dele hoje já é realizado. Só que ele está chegando perto de se inscrever e está perdidinho, não sabe o que quer ser na vida, não sabe para que vai prestar vestibular, gosta de estudar. Quando a gente vê também que o filho não gosta a gente não deve investir, deve tentar ajudar, mas também não deve investir tanto [risos]. É isso a história dos meus dois filhos e o nome do mais novo é Eduardo Everton. 

P/1 – Como é que é o seu cotidiano, como é que você administra as atividades?

R – O dia a dia é todo aqui, eu costumo dizer que eu moro na Escola Eduardo Medeiro e visito minha casa. Eu trabalho aqui nos dois horários, eu chego aqui às sete horas da manhã, vou para casa ás 11. A menina que me ajuda tem deixado quase mais ou menos... eu acabo de fazer o almoço, almoço e uma hora eu estou aqui de volta. Às cinco horas eu volto para casa, vou cuidar de alguma coisa de serviço de dona de casa e finalmente ir um pouco para internet para pesquisar o que eu devo fazer e também desenvolver alguma coisa nova que o SGI me mandou, eu faço. O horário que eu tenho calma é depois de nove horas da noite que eu dou um pouquinho de atenção ao filho e ao marido. Às vezes o mais novo porque o mais velho está lá em Bananeira, diz assim, “Mãe, tu não me ama, tu só vive agora para esse SGI, para essa Escola Eduardo Medeiro”. Estou levando trabalho para casa e assim é minha vida, sempre buscando coisas novas, sempre inquieta pesquisando e trazendo a ideia, dando aos professores: “Por que não fazer assim?, vamos fazer assim, vamos fazer assim, assim”. Então, quando eu chego em casa é isso. Ou eu dou um pouquinho de atenção a eles, janto e volto para o computador, sempre trabalhando em função do Eduardo Medeiros, do SGI ou por mim mesmo querendo descobrir alguma coisa nova. 

P/1 – Certo. Você falou que é casada, como é que você conheceu o seu marido?

R – Eu sou casada do segundo casamento, o primeiro só durou quatro anos. Fui morar no Rio, ele era alcoólatra, eu era de família humilde, porém uma família muito digna, sempre desde pequeno foi passado ética, valores. E daí viram que eu estava sofrendo demais e me tiraram. A princípio eu sofri porque ainda gostava dele, mas depois esqueci. Quando me tiraram dele, o meu filho mais velho tinha 11 meses, não chegou a conhecer ele; foi muito bom ele não ter visto de perto o que o pai dele era e depois quando ele estava com seis anos, eu conheci esse que hoje é meu companheiro. É o meu segundo filho, o Eduardo Everton, que é filho dele, que tem 16 anos. Só que ele me ajudou a educar o mais velho que ama ele de paixão, porque eu vejo exemplos tristes de padrastos que tratam muito mal... eu vejo um amor muito bonito, tanto de um quanto de outro. Dia dos pais ele sempre diz que ele foi chegando de mansinho e que conquistou o coração dele como se fosse pai verdadeiro, que pai é aquele de coração. E aí eu tenho uma família feliz, bem estruturada, meu filho mais velho sempre dizia que um dia quando construir uma família quer que seja da forma que ele vê a minha vida com o meu esposo hoje, nunca viu briga, nem discussão, se tivesse de ter a gente não faria escondido, mas é que a gente vive muito unido, brinca, se diverte como duas crianças até hoje. Já fazem 17 a 18 anos e a gente continua ainda brincando como duas crianças e nunca existe briga, muita união, sempre a família se reúne para resolver um problema em comum, não é só meu, é de todos.  Se um está com algum problema, seja financeiro, pessoal, senta aqui, vamos conversar: “É assim, assim, assado”. Então é assim que funciona a minha família e aí no final de semana eu dou toda a atenção do mundo, apesar de eu estar aqui, de vez em quando eu monitoro pelo telefone em Campina: “Filho, mamãe te ama”. Eu não deixo de dizer isso nunca para ele, para os dois: “Mamãe te ama, mamãe te ama”. três ou quatro vezes por dia e de noite, antes de dormir um abraço bem forte. Eu acho que não deixo muito a desejar como mãe não, apesar de ter essa vida ocupada, mas eu me lembro sempre de estar dizendo isso, quando ele me cobra porque é impossível, ele quer que eu bote no colo e aí depois faça afago. Eu estou na frente do computador e aí quando ele diz: “Esse SGI ____”, eu digo: “Eu te amo filho”. Mas isso eu nunca esqueço de dizer e também quando é uma coisa séria que ele diz: “Mainha, senta aqui para ouvir. Eu estou com dificuldade em tal nota”. Aí eu paro para ouvir e vou dar conselho, isso aí eu deixo qualquer coisa que eu estiver fazendo; quando eu chego em casa à noite para ouvir, é assim o meu dia a dia.

P/1 – Antes de encerrar, eu queria saber de você como que foi para contar um pouquinho da sua história para a gente?

R – Foi interessante, a primeira vez na vida que eu estou aqui...abrir minha vida. Pode ter certeza que eu não omiti nada, uma coisa que eu sou é verdadeira, eu não gosto de maquiar nem camuflar nada. Então foi muito bom, gostei de ter contado toda a minha vida para vocês porque é um livro aberto, pessoal e profissional, foi maravilhoso, certo?

P/1 – Tá certo Neide, obrigada.

R – Por nada, eu não sei se vocês gostaram.

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