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Educação: agir com amor e coragem

História de: Maria Antonieta Carneiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/02/2021

Sinopse

Foi alfabetizada por uma prima; Morte súbita da irmã ainda jovem; Na adolescência voltou a morar com os avós paternos em Divinolândia. Fez magistério; foi professora, inspetora de alunos, diretora regional de ensino; Trabalhou em escola privada e pública; Salienta a importância da educação. Se compromete a voltar à sua cidade natal e conseguir a colocar como meta não ter nenhuma pessoa analfabeta. Reflete sobre a importância da sua atuação como educadora e de como repercutir na vida de jovens. Não se considera empreendedora, mas incentiva as pessoas a serem.

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História completa

Fui ser Diretora Estadual na escola Colombo de Almeida. Talvez isso tenha sido a época mais marcante da minha vida, ela é uma escola localizada na Casa Verde Alta, bem próxima à Engenheiro, ela fica… É uma escola antiga da época, que tem a tradição que a escola pública era a referência, da década até setenta, a escola pública se destacava mais que a particular. E chegando nessa escola aqui, fui trabalhar também com o ensino médio, era uma escola que estava assim, detonada. Ela ficava numa região de conflito. 

E ali eu descobri um grande professor de Matemática, quando vi o planejamento do professor de Matemática, eu falei: “Nossa, o melhor professor aqui em Português, em escrever, é o de Matemática”, eu pensei comigo mesma, não expressei, não socializei. Falei: “Eu vou ver porque”. Entro numa sala, vejo uns troféus, mas são troféus de teatro, ele trabalha com teatro e ele também trabalhava no Liceu Coração de Jesus, era diretor de teatro. E ali eu vi, falei: “Por que? Esquisito”. Aí tinha toda uma história, aí eu vou ver o professor de Educação Física viu outros troféus lá, olha, ganhou o campeonato de basquete e tal e falei: “A escola nesse estado, nisso daqui?”. Eu falei: “Aqui dá para fazer, para gente mudar alguma coisa”. E aí foi um trabalho muito importante com o teatro, com o basquete, a escola estava assim... O prédio estava necessitando muito de reforma. Falei: "Como que eu vou articular para ver essa quadra?”, 

Na região nós temos o deputado Celino, Eu falei: “Chegou a hora que eu vou brigar”, porque é aquele senso comum, aquelas falas que repetem, tem muita coisa na vida que só com o tempo a gente vai mudar, vai reconhecer e ver como mudar. E cobrimos a quadra - eu tô colocando isso porque a partir daí foi um processo - olha, foi uma briga e tem ainda uma galeria embaixo… Com trinta mil reais cobrimos a quadra. 

A partir dali a maioria das escolas da região foram cobertas nesse processo de repasse de verba. Aí depois nós tivemos repasse para o teatro, fizemos um festival de teatro e foi mudando alguma coisinha. 

Ali que eu vi que até então, eu trabalhava muito, não tinha como trabalhar que eu tinha a ideia que eu não iria conseguir tirar os nossos alunos que tinham envolvido com drogas; porque tem muita gente que vai experimentar, com elas, vai ser aquela loucura beleza, vamos dizer, até como que a gente vai trabalhar isso daí. E eu percebi por um aluno que tinha dificuldade, até eu não sei se é possível, porque no começo ele brigou muito comigo. A primeira falha ele chegou para mim e falou assim: “Se eu pudesse eu te matava”, ainda eu falei para ele: “Bom, poder matar tem várias formas”. “Eu te matava, não me acontecia nada”. Falei para ele: “Acontecia sim, porque você está matando uma cidadã. Mas eu não acredito que você vai fazer isso” e foi, e nós começamos a conversar; e todo dia ele aprontava, descia para conversar comigo, eu conversava, aí quando eu percebi, eu falei para ele: “Eu converso com todos vocês. O dia que você quiser conversar comigo, vem, mas não em horário de aula. Antes da aula você vem aqui, depois da aula você pode vir aqui” e ele foi transformando, e eu vi. E um dia foi até uma situação que… São essas experiências que eu pude fazer, talvez, a decisão mais inteligente da minha vida, porque eu fumava, que eu fiz aquela geração de fumantes, mas eu nunca procurava fumar perto na escola, no horário de trabalho, e um dia ele chegou, entrou na minha sala e eu estava com cigarro aceso. Ele deu um passo para trás e falou assim: “Eu estou decepcionada com você. Eu pensei que você fosse uma pessoa inteligente. Você que me ajudou a deixar a droga, fumando?“ Eu levei o maior susto porque eu não sabia dessa contribuição, como teria sido. Aquilo para mim foi, que eu nunca mais pus um cigarro na boca. Nós brigávamos mesmo. Ele tinha opção - não é mais opção que fala - sexual dele... Ele era homossexual, e naquela época… e com toda dificuldade financeira, inteligentíssimo, mas rebelde, agressivo. E aí eu falei: “Como você deixou as drogas?” Eu falei: "Ah, isso daqui também é uma droga e eu vou deixar”. Eu falei: “Mas como foi?” Como começou a nossa amizade?” Ele disse que a referência foi que um dia eu cheguei - ele estava na diretoria. Nós temos na organização lá, nós tínhamos chamado vice-diretor, é como chama o assistente de diretor e eles estavam lá conversando - ele me passou o caso, ele lá e ele também estava atendendo ele, por isso até entendo o choque, fumando, e como que ele colocou para ele. Eu falei assim para ele: “Luiz!” - ele chama Luiz, o apelido dele é Risco, porque... Nunca mais eu o vi, faz muito tempo, ele era magrinho - e aí eu falei: “Nisso você não está certo, você está errado”. “Alan, nisso você está certo, mas essa atitude você tinha que repensar”. E eu percebi, eu tirei da droga, mas eu não consegui inserir no mundo do trabalho, entendeu? Aí foi a importância de como sobreviver, que seria muito difícil ele ser um empregado, a toda característica dele, ou até entregar. Aí eu fui buscando, tentando buscar parcerias. Então vê onde conseguia entregar, sobreviver, e eu lembro que aí depois dessa decepção, ele saber que eu deixei, nunca mais fumei. Nunca mais fumei. Aí ele trouxe um cartão que era a Monalisa e ele me disse: “Eu queria dar para você o original, porque eu sei quanto vale o quadro original. Você merecia um original e eu não posso, mas esse cartão aqui, eu quero que você veja significado”, e escreveu uma dedicação muito bonita e eu olhei para ele e falei assim: “Eu vou ficar com uma dívida com você, porque você vai ter…”; ainda falei para ele: “Procura fazer um curso mesmo que seja de cabeleireiro”. Ele entrou no teatro, ele se destacou no teatro, em Filosofia, ele era mais da área de Filosofia e eu falei assim: “Esse talvez eu perca”. Então foi onde eu fui buscando parcerias e ver para onde seriam encaminhados.

Olha, por exemplo, na vida dele - claro que não fui só eu - contribuí para ele deixar a droga, já é uma diferença que ele concluiu o ensino médio, ele era bom em música e ele concluiu com uma possibilidade de conseguir, depois não sei se faculdade, que ele queria fazer música, filosofia e a inteligência dele, ele poder… Mesmo se ele abrisse um salão de beleza, eu até encaminhei. Tinha uma… que ela era também muito parceira ali, um salão de beleza. A diferença foi dar condições e preparar... Pode? Pode. Preparar para a vida. E outra coisa, ele falava dele relacionar, porque é importante a relação. 

O primeiro passo foi aceitar como ele é e estabelecer uma convivência, aceitar, saber que ele era aceito, que ele precisava ter que… Na vida tem convivência, tem normas de convivência, então que ele também tivesse normas de convivência e trabalhar a autoestima dele, que ele era um cidadão, e que ele tinha capacidade de aprender e de ser aceito e foi onde eu coloquei, que você faz com parceria, que foi no teatro, estudando e respeitando o professor, o colega, convivendo. 

Nessa mesma escola também há uma pessoa que ela já não está mais aqui, que não deu tempo por mais que foi maravilhoso. O apelido dela é Vanessona, é o apelido, ela incorporou. O meu primeiro contato com ela, quando eu cheguei, porque era uma escola assim, com coisas maravilhosas, mas muita... Era difícil o dia que uma bomba não estourasse um vaso sanitário. Foi onde fomos recorrer ao teatro, mesmo a rigor da aula. Então o primeiro contato para ela chamar atenção, ela pegou uma aluna, que era uma aluna que foi… Vamos dizer assim, a tratou de uma maneira irreverente, vamos dizer assim, ela pegou a aluna e jogou dentro do latão de lixo. E mandou dizer para mim... Eu não vi o fato, eu sei porque ela mandou dizer, “vai lá falar pra diretora que quem manda aqui sou eu e não ela”. Você já imaginou todo esse reboliço? O que foi a situação. Aí eu pedi para socorrer a menina, avisar a mãe da menina que havia... Tenta imaginar, colocar alguém no lixo, na lata de lixo, só que era uma menina muito irreverente e ela foi aplaudida pelos colegas. E imagina que situação que teria que lidar ali e primeiro era essa. Eu falei: “Então faz favor, fala para ela vir aqui” e nós fomos conversando. Falei: “Aqui não é a relação de poder, nós vamos ter que trabalhar. Você realmente… Você é aluna daqui, você é a mais importante, o segmento mais importante, assim são os alunos, mas todos são importantes, nós precisamos de todo” e comecei a conversar com ela. E falei: “Agora eu chamei a mãe dela, porque você teve um ato e tem uma consequência”. E eu pensei: “Nossa, eu espero que chegue uma mãe aqui que dê para conversar” e nós fomos parceiras. E nós lidamos com a situação, ela não poderia passar ainda, que ter com a mãe, conversei com a mãe da menina, juntos. Eu falei com a mãe como que poderíamos encaminhar tudo e a partir daí nós fomos conversando. Ela passou a me respeitar e eu respeitar e nós nos tornamos amigas. Amigas, mas com a relação profissional também que existia. Tanto que ela me chamava de amiguinha, porque ela era... Ela batia em dez homens, você acredita numa coisa dessa? Porque eu tô dizendo isso que já vi; você imagina a situação. E fomos trabalhando, ela não foi expulsa da escola, porque naquela época tem… A primeira coisa que tem é excluir, e trabalhando e com a Vanessa, ela foi interagindo, foi convivendo, foi para o teatro e eu lembro até hoje a alegria dela, a importância que ela sentiu ali, era o apoio no teatro, ela não quis ser personagem. E eu a consegui, só que ela chegou ao ensino médio sem ser alfabetizada, o máximo que conseguimos foi alfabetizar. Ela era usuária de drogas injetáveis e aí ela contraiu a AIDS; naquela época AIDS ainda não tinha mesmo... Não era uma doença que é igual a diabetes, que hoje você contrai a AIDS e não morre de AIDS. Mas ainda consegui que ela concluísse, alfabetizasse e conseguiu um emprego para ela que chamava “Frente de Trabalho”, que são os programas… Porque aí começaram os programas de trabalho. Só que aí ela faleceu também. Então aí vem a escola, é importante a educação, é fundamental uma boa escola, um bom conhecimento, mas por si só não vai resolver, não vai resolver. 

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