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EDUARDO MANOEL - TAMBOR - O CAIÇARA

História de: Eduardo Manoel Tambor
Autor: Eduardo Manoel Tambor
Publicado em: 29/05/2021

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História completa

FALANDO UM POUCO DA HISTÓRIA DA FAMÍLIA Entre os habiantes mais antigos, alguns ainda se lembram da origem do nome TAMBOR. Segundo Laudelino (um dos netos), o Sr. João Tereza da Silva corria as praias a pé e atravessava as águas de canoa entre Iguape e Cananéia. Segundo o IBGE em 1965 haviam na cidade de Cananéia 314 domicílios. Deste dado podemos imaginar o nível de adensamento na época (250 anos antes). Considerando as atividades de origem desta família não é difícil deduzir que muitos dos conhecimentos do mar, do “desconhecido Português”, que passamos a chamar de João, ainda na Ilha da Madeira foram sendo passados de pai para filho, e ainda hoje, muitos dos atuais descendentes domimam a leitura do céu, do vendo, da Lua, da pesca, etc. A honra, o respeiro e a educação eram uma constante. A simplicidade era notória no agir e falar. É possível que a facilidade de se comunicar tenha sido herança de João Tereza, já que seu trabalho necessitava falar com todos de Cananéia a Iguape. As atividades voltadas ao mar, moldaram também o perfil físico do “Caiçara Tambor” Através de informações populares e familiares o “Vô Chico” como era conhecido, era um homem calado e muito educado. Fumava cachimbo e se dava bem com os filhos, assim como acontecia com várias outras famílias da região. A Srª Joana, tinha muita habilidade no uso e manipulação de ervas na saúde da família. Laudelino costuma dizer “- Em matéria de erva, mamãe era demais de boa”. O casal teve nove filhos: Antonia (chamada de Nhanhá, foi nomeada por dois anos como a jovem mais bonita da cidade - concurso anual), Horácio, Maria (Falecida aos 12 anos), Arsênia, Laudelino (chamado de Laudico casou-se em 1945), Maria (falecida aos 3 anos de idade), Isabel (chamada de Bélica) e Antonio (carinhosamente chamado de Totó) e Maria Tereza (falecida aos 7 dias) que cresceram e adquiriram o que podemos chamar de mistérios de Tambor. Laudelino, lembra-se ainda de outro parente chamado Angelo que também pertencia a família Tambor e vivia no Acaraú. Esta família sempre se ajudou mutuamente. Na ausência do pai que saía para pescar, todos se reuniam em torno de Joana que com carinho moldava o caráter de cada um dos rebentos. Cada vez que o Sr. Francisco chegava em casa, rebocando o produto de seu trabalho, seus filhos, principalmente Nhanhá já tinham por rotina a diversão que ela chamava de pular caçoa. Nesta brincadeira a menina e seus irmãos e irmãs passavam horas brincando de pular sobre as barrigas dos grandes peixes colocados na areia da praia próximo do rancho. Os filhos de Chico e Joana cresceram, casaram e levaram consigo os ensinos de preciosos. Educação que de muito valeu para o sucesso das novas gerações. Durante quatro anos, Francisco Tambor ficou sem pescar devida uma misteriosa lei criada em águas em frente seu sítio. Enquanto a família Tambor crescia e amadurecia, Cananéia também passava por mudanças. O urbanismo de Cananéia, ao contrário de outros povoados litorâneos que se estruturava em morros e planaltos para garantir a defesa em caso de ataque por terra (índios). A cidade nasceu em região de planices a margem do mar. Aparentemente o motivo deste tipo de urbanismo se deve ao fato de que os Índios eram amistosos e não apresentavam ameaça para o povo. Calixto os chama de “Ìndios Mansos”. Os potenciais inimigos viram pelo mar, motivo pelo qual a Cidade foi instalada atrás de barreiras físicas e estratégicas, como o próprio mar, o morro, as ilhas, a vegetação alta e os rios. O casario branco se mistura com as cores brancas das ondas e dunas. Além da proteção contra ataques de piratas e espanhóis o morro São João até hoje proporciona a cidade proteção contra o forte vento do Sul. As distantes serras a oeste e noroeste fazem uma agradável sombra à cidade antes do cair da noite. Quando foi necessário sua expansão, a área urbana de Cananéia se extendeu linearmente para o norte e nordeste, já que o Morro São João e o rio Olaria eram barreiras que só seria vencida muito mais tarde por moradores da área rural que migrariam para o atual Carijó. Mesmo com estas mudanças na área urbana, a família Tambor mantinha suas atividades no Rancho de Ilha Comprida. Uma curiosidade da época é que nenhum homem saía de casa sem chapéu e na falta deste ninguém ia a festas, a cidade ou visitava amigos. Toda comida era seca, para garantir a conservação. Algumas famílias, inclusive a do Sr. Francisco praticavam de forma tímida a apicultura. Francisco Tambor da Silva, e sua esposa, viviam em um sítio em um local, hoje denominado Trincheiras – região onde fora erguido o Antigo Forte Bicho, neste local montarão um grande rancho de longas canoas. Era freqüênte as visitas do Eugênio, um grande amigo da família que exercia a função de Prático local para condução de navios na entrada para o mar de Cananéia e Antonio Braga, possivelmente um irmão de criação de Laudelino. Era uma época em que a pesca na região lagunar e em alto mar começava a ser exploradas pela população mais pobre. Pelo histórico familiar, Francisco não teve muita dificuldade em dominar esta arte. Na época de frio o pescado era menor e no verão o pescado era graúdo. Regularmente o Sr. Francisco saía ao mar sobre canoa, para pesca de animais de grande porte, entre eles o cação mangona, que com sorte era pego com rede caçoeira quando soprava o vento norte. Nesta época este tipo de peixe migrava do norte para o sul. Eram todas fêmeas. Houve casos de pescar peixes com filhotes que alcançavam um peso de 5 Kg. O abate era feito no costado da canoa. Era uma guerra para vencer e trazer este animal para terra. Cada vez que um destes animais era pego, a família podeira descansar, pois haveria carne por muito tempo. Cações mangona são considerados como a 7ª mais perigosa nos estudos de classificação dos 10 tubarões mais perigosos do mundo, entretanto os poucos ataques registrados ocorreram fora do Brasil (na África e na Austrália). Os machos vivem em águas mais profundas e as fêmeas em áreas mais razas. São animais territoriais. Os filhotes ainda na barriga da mãe se devoram (o maior come o menor) E quando nascem já são caçadores experientes. O processo de conservação da carne deste tipo e outros animais era através do corte e secagem de sua carne com água do mar e exposição ao vento e ao sol, segundo Totó, um dos filhos de Chico Tambor, um dos segredos deste processo estava no uso da faca (a expressão usada é “ganhar na faca”). Com o tempo (muito tempo mais tarde) passou-se a usar o sal. Era um sol grosso, em forma de grandes pedregulhos que era torrado em frigideira, socado, moido e peneirado. Os cortes do peixe eram variados, os mais conhecidos eram: o filé e uma grande tira que era denominada como gravata. Em 1964 Eduardo Manoel – Arquiteto e Urbanista - 26 haviam em Cananéia 713 pescadores e a média de peixe graúdo ao ano chegava aos 747.851Kg. Uma certa tarde em que Horácio e Totó, filhos de Tambor, estavam no sítio matando Tainha e ouviram seu cachorro “Leão” latindo muito. Leão era um cão muito barulhento e agitado, que só podia viver no sítio, pois na cidade incomodava todo mundo. Ouvindo os latidos do Leão, Horácio falou a Totó “– Acho que Leão acoôu algum bicho no mato”. Ao acabar de falar saltou de dentro do mato para a praia, perseguido pelo Leão, um veado campeiro e ao ver Horácio e Totó, o animal se assustou, deu uma pirueta e saltou sobre Leão voltando para a mata. Leão já quase sem fôlego da corrida que deu não desistiu, voltou pra mata atrás do belo animal. Passado um tempo o cenário se repete, mas desta vez o veado não salta na praia, mas nas pedras, fugia do obstinado cão. Vendo o calmo mar pela frente e o agitado cão em sua cola, o esbelto animal não relutou, saltou para o mar e começou a nadar. Neste momento Totó fala para seu irmão Horácio: “ - Horácio, que bicho é aquele riscando a água atrás do veadinho?”, momentos depois, em um só golpe o pequeno animal é puxado para o fundo. Horácio e Totó exclamam “Meu Senhor!” e Horácio conclui “-é o Tintureira novamente”. Em 1992, pescadores capturaram uma espécie atípica de peixe. O animal, um tubarão branco (Carcharodon carcharias) é uma espécie de tubarão lamniforme que deixou a população de Cananéia impressionada. O animal era para todos era uma novidade, um mostro do mar. A notícia correu rápido, o pobre animal mesmo morto virou notícia em todos os jornais. Ainda hoje seu corpo embalsamado pode ser visto em um dos imóveis da cidade. Nhanhá costumava falar a seus netos que quando seu pai chegava com o pescado, a família escolhia para si primeiro os peixes que tinham o rabo machucado ou devorado e explicava: ”- Meu Pai me ensinou que este tipo de peixe são os que o cação e o boto ecolheram, tentaram comer e não conseguiram”. Acrescentava... “- ...ninguém sabe escolher peixe melhor que os predadores do mar... se eles escolheram, deve ser o melhor...” Em 1939, Nhanhá, a filha mais velha de Tambor, casou-se com o Sr. Manoel da Silva, um policial militar escalado pelo comando de São Paulo para trabalhar no policiamento de Cananéia. Alguns irmãos de Nhanhá tiveram dificuldade para aceitar este casamento. Diziam que Nhanhá era muito bonita para ele. A vida do sr. Manoel teve muitas aventuras, com experiências tristes e alegres. Nascido em Niterói, Barra do Piraí. Chorava ao lembrar e contar as tristes experiências de sua infância, quando era maltratado por um obscuro personagem chamado Sofia. Ainda criança teve a triste experiência de ver seu irmão menor, Henrique, morrer ao ser atropelado por um trem. Para garantir sua segurança e sobrevivência saiu de casa no Rio de Janeiro aos 17 anos. Dizia ser filho de Maria Rosa. Este jovem que buscava recursos para sobreviver, teve a alegria de ser encontrado por um homem chamado Joaquim, oficial de uma Delegacia em São Paulo. O Sr. Manoel recomeçou a vida lavando e limpando o automóvel do Sr. Joaquim. Este novo contato, o sr. Joaquim, permitiu ao jovem Manoel se aproximar e ingressar na carreira militar. Já um ancião, Manoel sempre que podia falava aos seus filhos e filhas que ele era e sempre seria muito grato ao tal sr. Joaquim que deu condições para ele reverter e melhorar sua vida. Há dúvidas até hoje se o seu verdadeiro nome era realmente Manoel da Silva. Pouco se sabe sobre este passado sofrido, mas em meio de tantas dificuldades, houveram algumas alegrias na infância ao se lembrar de parentes como Jandira e Pedro e a sobrinha Nenê. Tinha um primo-irmão da família Queiroz. Em 1932 durante a Revolução serviu na Mantiqueira (figura 27) e acentou Praça. Perdeu audição devido os estampidos da Guerra, serviu o Exercito e em seguida ingressou no Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo onde corria para apagar incêndio, ficando gago após uma queda de altura durante uma operação de intervenção e resgate (Salvamento). Após o casamento, Manoel e Antonia saíram de Cananéia e seguiram em Lua de Mel para São Paulo e outros lugares vindo em seguida a morarem em Santos no Morro do Pacheco, Vila Mello em São Vicente (uma casa cheia de árvores). Após um ano de casados tiveram a oportunidade de casar na Igreja da Aparecida. Eduardo Manoel – Arquiteto e Urbanista - 34 Esta vida de cidade grande duraria pouco, pois o Sr. Manoel mais uma vez seria escalado para trabalhar agora como policial em Cananéia. A viagem de Santos para Cananéia exigia um trajeto de trem até Juquiá e de Juquiá de ônibus até Cananéia. Desta vez o desafio era maior. O local de trabalho chamava-se Ariri, o acesso só pelo mar. Nesta vila, havia alguns brigões e bêbados que causavam desordem e apreensão dos moradores locais. Havia uma fábrica de pinga no local – “PINGA ARIRI”. Não parava polícia naquele local. Inicialmente seu Manoel e sua família moraram em uma casa alugada em frente do entreposto, mais tarde passaram a morar na cadeia (Figura 29). Era um imóvel de duplo uso, era Institucional, pois abrigava a Delegacia da Polícia e também era Unifamiliar, pois o Sr. Manoel e sua família viviam no prédio. Com pouco tempo de trabalho a população local já havia definido um novo nome para o Sr. Manoel que, passava a se chamar de “Maneco Soldado”. Com depoimentos de populares e familiares, foi elaborado croquís para melhor entender como era a Cadeia do Ariri. Os filhos de Antonia com Manoel são: Giselda (chamada de Gija), Geanet (chamada Nenê, pois chorava muito e todos falavam balança o nenê...), Gilda, Nicomedes (chamado Nico), Nadir, Linda e Luiz (este último nascido na segunda vez que o casal morou em Santos). Os mais velhos estudaram na Escola Hiolanda. Com o passar do tempo, quando a família voltou para a cidade de Cananéia, moraram em outros locais, um deles era uma casa alugada (1945) propriedade do sr Luiz Paiva, na estrada esquina com a Rua Silvino Araújo. No Ariri, Maneco Soldado não facilitava, se alguém brigava ia preso e ficava de castigo. Se bebia e ficava bêbado, passava a noite na cadeia trancado até o efeito do álcool passar. Na falta do Maneco Soldado, quem tratava dos presos era sua esposa, Dª Antonia, Nhanhá, que impunha respeito. Uma das dificuldades da família era a hora de dormir quando alguns presos bêbados se punham a gritar, chorar ou cantar dentro da cadeia. Niguém conseguia dormir. Dizia Nhanhá, “ – Meu Senhor, este povo não para de gritar!”. Entre os vários favores que Maneco prestava para a população do Ariri, um delas era o de matar porcos. Ou seja, quem tinha dificuldade chamava o Sr. Manoel. O Maneco Soldado, que com uma corda e um cutelo fazia o serviço rápido e sem sofrimento. Para ajudar no orçamento e na alimentação de casa a família fazia chouriço de porco. Certa vez, seu cunhado (Laudico) foi lhe visitar no Ariri, e quando se preparava para ir para Cananéia, foi surpreendido por um grande temporal. Nhanhá falou “-Laudico meu irmão, não vá, pouse hoje aqui e amanhã de manha você vai”, pois o caminho de volta sob temporal e durante a noite era considerado muito perigoso. Segundo Laudico foi uma noite inesquecível. A pedido de Nhanhá, Manoel retornou para casa (a Cadeia) e preparou um Eduardo Manoel – Arquiteto e Urbanista - 37 espaço (o mais confortável possível) para Laudico. Era uma sela aberta. Durante a noite um polícial temporário que estava ajudando Maneco Soldado, chegou tarde da noite, viu uma pessoa dormindo na sela, tratou logo de trancá-la. O fechamento se dava com um objeto pesado de mais de 50 Kg. Quando Laudico acordou (ainda de noite) e se viu trancado e um desconhecido do lado de fora da sela manuseando repetitivamente em seu revolver, tratou logo de traçar um meio de ir embora. Na primeira oportunidade Laudico não sabe da onde, conseguiu forças para empurrar o obstáculo de 50 Kg, abriu a sela se foi embora. Outro caso marcante da ocorreu certa vez quando Maneco Soldado e seu filho Nico estavam na cidade de Cananéia, em um empório no centro da cidade. Em conversa com seus amigos, notaram que haviam alguns facões novos colocados a venda nas rústicas paredes do estabelecimento e comentavam as caracterísitcas da mercadoria. Um de seus amigos ao comprar um destes cutelos pediu a opnião de Maneco. O Maneco Soldado parabenizou o colega e elogiou a qualidade do cutelo – “Este facão é bom para matar porco...”. disse Maneco. Ao terminar esta frase, não se sabe de onde um desconhecido pulou sobre as costas do Maneco e os dois passaram abrigar e rolar lama abaixo de um terreno bem mais baixo que a rua. Este relato é uma das evidências de que o urbanismo e paisagem de Cananéia mudou. Uma de suas características primitivas é que a região possuía uma grande variedade planoaltimétrica (vide Figura 38 e 39). Documentos encontrados na Universidade Unisantos, apontam através de desenhos de que o atual centro da cidade já possuía pequenos leitos, talvez tímidos, de riachos ou drenagem natural. Já dominado, o desconhecido foi questionado pelo sr. Manoel por que o agredira. Mais calmo, o agressor – folião João Sancrea, falava: – “Eu entendi que o senhor tinha me chamado de porco”. Após os ânimos terem se esfriado e o agressor já liberado, teem-se notícias que ambos passaram a ser amigos. Com o tempo, na área do Rocio, em uma casa que chamava “Casa de João Domingos, talvez porque havia festa todos os domingos naquele local”, Maneco era convidado. Enchia um balaio de pão com goiabada e ia para a festa. Esta rotina passou a ser impactante para a família. Houve dias das crianças estarem com febre e doentes com a mãe, e Maneco estava fora de casa. Com o empenho de Nhanhá esta situação mudou e toda a família se converteu ao evangelho. As habilidades musicais se repetiram em quase todos os filhos. Logo, Maneco tinha uma banda em casa: Nenê tocava Bandolim, Nico trompete, Gilda, Nadir e Linda Violino e Luiz Violão. No trato das crianças, ao som do “... serra serra serradô, serra o papo do vovô...” Nhanhá tinha muito cuidado a ajuda de Agda, uma menina que trabalhava com a família. Foi madrinha da menina Gilda. Os filhos de Nhanhá conheciam o vô Chico (Francisco Tambor) e o chamavam de “Vô Chico dos Olhos Azuis”. Quem normalmente fazia a travessia em canoa dos netos de Francisco Tambor para o Sítio em Ilha Comprida era o tio Antonio (Totó), que mais tarde se casaria com Hilda. Os filhos de Totó são: Arlindo (falecido), tinha uma facilidade no manejo com pássaros e animais, Osvaldo (falecido), que trabalhou por vários anos no Banco da Cidade e dominava a arte do Futebol, Marcos (Tri-campeão local da travessia a nado de Ilha Comprida a Cananéia), Daniel e Adinaldo (que até hoje se ativa com Correios, como seu antepassado João Tereza). No sítio, os parentes moravam perto um do outro. As outrora meninas: Gija, Gilda e Nenê, lembram que corriam toda aquela extensão de terra de uma casa para outra e nunca se perderam. Lembram até hoje que no caminho comiam muita pitanga e araçá. As casas eram simples, não havia camas, todos dormiam em redes. Na cozinha o fogo era no chão e o caldeirão ficava pendurado sobre as chamas e brasas. Todos gostavam de comer feijão e azul marinho (peixe seco, de preferência bagre com banana verdolenga) A cuia de beber água era um pedaço de côco com alça ou uma lata (embalagem) aberta. Quando os filhos de Nhanhá aprontavam, mamãe logo brigava e se necessário dava uma leve sova. Vovô Chico com seu cachimbo na boca se ria. Quando estavam na cidade o ponto de encontro dos netos de Francisco Tambor era um imóvel localizado ao lado do correio de Cananéia. No local havia, ou ainda há um cano onde as crianças trepavam e davam cambalhota. Nenê até hoje respeita os cuidados com o trânsito, pois quando era pequena estava sentada no meio da rua (já que o tráfego de automóveis era raro) quando de uma hora para outra apareceu um caminhão que parou bem próxima a ela. Assustada, tentava sair da frente do caminhão, mas as pernas não obedeciam. O veículo parou e o cordial condutor saiu do imenso veículo, pegou Nenê no colo, com voz branda disse alguma coisa e a colocou em local fora de perigo, de certo ao lado pois nesta época poucas ruas tinham calçadas. Para se ter uma idéia da rotina da época, mais tarde, na década de 90, haviam em Cananéia: 1.183 residencias próprias, 179 alugadas e 257 cedidas (Unisantos). Uma forma de se medir o turismo era o acesso, sendo. 32.759 passagens de ônibus, 66.800 veículos de passeio. Turistas somavam 33.400. uma média de 90 turistas ao mês. Até hoje algumas características se destacam em Cananéia: 1) Relações Paisagísticas; 2) Relações Plásticas e Urbanísticas (beleza na ocupação da paisagem natural. A Rua como espaço social e comunitário); 3) Relações afetivas; 4) Relações Históricas Certa feita, Laudico vinha do mar com o seu compadre Juvino, sempre que ele passa no local ele se lembra de uma senhora que roncava tão alto que se houvia da rua. Ao chegar na esquina da praça viu uma criança (um menino) de calça curta e suspensório parecido com o filho de um homem que o chamavam de Paraguai. Laudico encostou o remo na rua e ficou olhando e pensando “- o que este menino faz aqui a esta hora da noite?”. O garoto foi andando, andando, andando e quando chegou em frente da Igreja sumiu.... Até os dias de hoje vive na área da Trincheira o Sr. José Júlio Cuba, conhecido como Sr. Braga, que chegou a Cananéia a 45 anos atrás e conheceu o saudoso vô Chico. Conhecia também o Maneco Soldado que trabalhava no Ariri e nas horas de folga para ajudar no orçamento comprava e trazia palmito para vender na cidade na fabrica que beneficiava sardinha e palmito, a Vigorelli. Na região do Ariri, se extendia uma área de mais 50 hectares de palmito Jussara. Maneco trazia na canoa, parava nos “Argolões” e sobre a pedra dos Argolões negociava a venda. Em uma destas viagens, Maneco resolveu trazer consigo seu filho Nico que tinha apenas 3 ou 4 anos de idade. Nhanhá insistiu que não o levasse. “-Manoel, pode dar uma trovoada na caminho e você vai pinchar este menino no mar”, disse Nhanhá, mas Maneco era teimoso, quando cismava fazia mesmo. Como previsto por Nhanhá, Maneco e o filho pegaram um tremendo temporal no caminho e a canoa já estava indo a pique. Para garantir a vida do menino, jogou quase todo o palmito no mar, tirou a água da canoa e com o corpo dentro d‟água com uma mão se segurava no mangue e a outra segurava a canoa onde seu filho Nico estava abrigado até o temporal passar. Sempre que podiam, Maneco, Totó e Laudico tocavam fandango. Nhanhá costumava falar a seus netos, que quando era menina, na hora separar o pescado para consumo ou venda, seu pai, Francisco usava como primeiro critério o rabo do peixe. Ele falava assim “...- escolha para nós os peixes com rabo machucado ou mastigado ... foram os peixes que o cação e o boto escolheram e não conseguiram pegar...” Ele e outros pescadores antigos julgavam que o cação e o boto sabem escolher pescado melhor do que nós. Se eles escolheram é porque é bom. Laudelino nos contava que certa feita a família estava desejando ir a uma festa na cidade. Por regra, os homens não saiam de suas casas sem chapéu (novo) e Francisco falou assim a seus filhos: “ – Se eu tivesse um chapéu eu iria nesta festa”. Todos da família estavam desejosos de ir ao evento. Não é que dias antes do evento um de seus filhos achou boiando na praia uma caixa de chapéu? Era uma marca muito famosa e da melhor qualidade. Ao abrir a caixa a surpresa, haviam 2 peças de chapéu, novinhos, sem uso. Falta saber se eles foram ou não à tal festa. Houve uma época em que perto do rancho tambor havia um acampamento com algumas centenas de soldados. Não há referencia, mas deveria ser em barracas ou coisa parecida. Laudelino notou que o cachorro da família, o Boneco, latia muito no final da praia. Um amigo vinha no sentido contrário e Laudelino perguntou? “- Fulano, você sabe por que Boneco está latindo tanto?”, o colega falou, é um outro cachorro branco que os cachorros dos vizinhos estão maltratando...” Momentos depois ouviu-se um alarido no final da praia e Laudelino foi ver do que se tratava, ao chegar no local, ele viu e se assustou. Era um soldado ferido, Laudelino diz “-O homem estava todo picado de cachorro, no corpo no rosto, na mão,.... meu senhor, coitado do homem...”, devido as lendas e crenças do local, Laudelino e outras pessoas ficaram extremamente impressionados com este caso e associaram que o homem em questão era um Lobisomem que foi atacado ainda como cão. Caso semelhante também contado por Laudelino, aconteceu com um homem que dirigia seu carro e de repente um outro homem pediu carona. No meio da viagem, o carona pedia insistentemente que o condutor parasse o automóvel para ele descer. Quando o veículo parou, o carona saiu como desesperado para o mato. Não passou muito tempo, minutos, o condutor viu passeando em frente de seu veículo um grande cachorro branco. Após um tempo de espera, o carona voltou, agora mais calmo, porém meio sujo, se desculpou e seguiram viagem. Após algum tempo Maneco Soldado foi transferido para Santos. Chegou na Baixada em 1950. Nico tinha 6 anos de idade, onde passou a cuidar da Horta do quartel. Ajudou a plantar o talhão de eucaliptos no terreno do 6º batalhão na Av. Joaquim Montenegro. Nesta época fez grandes amizades como Crispim e Epifânio. Maneco e sua Família moravam na rua Alvaro Marques, Adolfo Lutz e depois na Rua Pedro Arbures 187. Nesta época Dª Antonia. Acompanhada de sua sobrinha Cassilda se convertia ao Evangelho de Cristo e passou a freqüentar uma igreja localizada na Pça André Rebolsas. Eduardo Manoel – Arquiteto e Urbanista - 63 Eventualmente a família de Nhanhá voltava para Cananéia para rever os parentes e sempre foi muito bem recebida. Em uma destas visitas, durante o aniversário da cidade em Agosto a famosa prova de natação “Travessia de Ilha Comprida a Cananéia” foi vencida por Marcos, filho de Totó e Silvio Fernando, filho de Nenê. Um outro causo que aconteceu na cidade e foi manchete de vários jornais na época, foi o aparecimento e a captura de um grande mostro que surgiu das profundezas do mar. Trata-se de um grande tubarão branco que se enroscou nas redes de uma das embarcações de pesca. A tripulação percebendo o tamanho do animal pediu ajuda a outro barco e juntos rebocaram o fantástico animal, já meio morto até o píer do entreposto onde foi içado pelo braço de uma escavadeira. Depois deste episódio todos passar a respeitar um pouco mais o mar. O corpo do animal, conservado, fica até hoje exposto em um dos imóveis da cidade. Um caso muito engraçado aconteceu com Totó. Dizia ele a seus sobrinhos e Silvio esposo de Nenê que um dia estava no cerco matando tainha. Neste dia os botos, insistentes rodeavam o cerco na busca de uma oportunidade para abocanhar um pescado mais descuidado, foi quando chegou um barco com um japonês... Impressionado com aquele agito, o senhor (o japonês), exclamou! “-Bom dia!”, Totó respondeu “-Diiia!”. Após o protocolo o homem não suportou a curiosidade e foi logo perguntando, “- Moço, como o você faz para estes botos ficarem ai do seu lado?”, Totó achou que era uma brincadeira ou chacota do sorridente samurai, pois para ele isso era a coisa mais natural do mundo, via e mergulhava com os botos quase todos os dias. Totó não resistiu, e respondeu, “-... eu faço como todo mundo faz, amarra uma corda no pescoço do boto e deixo ele aqui preso para tomar conta do cerco”. Impressionado, o guerreiro pergunta: “ Se eu conseguir uma corda, quanto o senhor cobra para amarrar um boto para mim?”. Depois de um segundos de silêncio, pois Totó não estava entendendo nada, bradou: “Não cobro nada, traga a corda que eu lhe dou um de presente.”. O Japonês sorriu, olhou no relógio, gritou “VOLTO JÁ”, manobrou seu ligeiro barco e saiu em retirada com sua voadeira. Como já estava no final de seu labor, Totó, subiu em sua canoa e foi embora para aproveitar a maré. Dias depois ele ouviu uma estória de amigos de um Japonês que estava em uma loja de materiais pedindo e comprando algumas dezenas de metros de corda para amarrar um boto. Na loja, ninguém entendeu nada, e Totó pensava, “será que o homem estava falando sério?”. No passado, algumas famílias, quando havia em casa mulheres amamentando, era normal alguns homens intensificarem a limpeza do quintal, soltar toda criação (galos, galinhas, patos, ganços), fechar janelas e frestas para prevenir a entrada de cobras. Acreditava-se que havia um tipo de serpente que durante o sono da família era atraída pelo cheiro do leite. Os causos elencados pela família são muitos e não serão alvo deste trabalho. A culinária dos primeiros habitantes do Rio Cananor era muito particular e praticada de forma inteligente. Nos moldes do que se conhece em antigos manuais de sobrevivência, muitos dos recursos usados caíram no esquecimento e devem ser resgatados como contribuição cultural e sustentabilidade (Figura 50). Um prato que marcou a Família Tambor e garanto, é de ótima qualidade e sabor sem igual é o “Azul Marinho”. Comida Eduardo Manoel – Arquiteto e Urbanista - 64 forte e indescritível. Atualmente alguns restaurantes do estado servem este prato, mas sem o requinte do prato criado por Tambor, onde é indispensável o uso de carne de bagre seco (sem sal) e banana verdolenga. Este prato é como outras culturas de Cananéia só pode ser descrito por quem já o comeu. Arcenia, filha de Francisco, por pouco não fica viúva antes do tempo. Seu marido, Juvino, homem embarcado e experimentado no mar, auxiliava na praticagem de grandes naves quando o porto ainda operava com vapores. Certo dia um destes navios naufragou mar a fora, Juvino e seus companheiros lutaram com todas as forças que possuíam para garantir a sobrevivência. Pouco se sabe dos detalhes daqueles dias dentro d‟água, mas tal episódio mudou a vida de muitos. Outro caso interessante e que assustou a muitos na região, foi um caso vivido por Totó.em um período de muita chuva, o mar estava alto e os rios transbordando, Totó saiu para trabalhar, conduzindo sua canoa, em um lugar afastado de tudo, parou de remar, sentou na canoa, abaixou bem seu capote para acender seu cigarro. Foi quando sentiu um impacto no costado da canoa. Desconfiado ficou alerta. Atentando bem a sua volta, notou a presença de um grande e esbelto animal, parte submerso e parte sobre a água tentando subir na canoa. Era uma grande cobra. Manobras de fuga, aprendidas no dia a dia foram necessárias. Seus braços esgotaram suas forças para com golpes intensos do remo ao mar se afastar do sinistro animal que o seguia. Este dia não houve trabalho, a rotina foi quebrada, a família até hoje comenta que sentiu a apreensão do experiente caiçara. Eduardo Manoel APELIDO – Tambor Tambor é descendente da família Tambor. Velejador, Skiper, Arquiteto e Urbanista, atua de forma apaixonada na prevenção da saúde e da segurança das pessoas. Sexta geração dos antigos canoeiros das longas canoas caiçaras da Trincheira do antigo forte do Bicho. Realizou visitas técnicas a várias famílias e comunidades caiçaras no litoral do norte do Paraná até o sul do Rio de Janeiro. Mantém em domínio público obras e estudos da decodificação e estudos do meio e da cultura caiçara. Mapeou as práticasm rotinas de manejo e fainas dos antigos caiçaras na latitude 25ºS em um sítio de estudo denominado Circuito Tambor. Iniciei junto com outros Mestres caiçara a procura e registro dos Mestres caiçaras remanescentes e seus saberes.

 

Não somos Caiçaras.

As pessoas nos chamam de Caiçara.

Somos: Tambor, Almeidas, Silvas, David, Bragas, Souzas, Pereiras, Ferreiras, Marques, Brito, Santana  e outros em uma grande faixa litorânea do Brasil.

As pessoas nos chamam de caiçaras, mas quando nos pediram para proteger a fronteira sul, nos chamaram de Paulistas e até heróis pois o maior inimigo naquela fronteira desconhecida do Estado não eram as balas, mas as marés, os insetos, o Mar, o mangue  e o vento e neste momento precisaram do conhecimento que recebemos de nossos pais para proteger a tropa.

Em um outro momento quando o mal se levantou no Europa e no Atlântico nos juntamos a uma grande fileira e cantamos juntos com os outros guerreiros o "...Você sabe de onde eu venho?... das praias sedosas e verdes mares bravios... onde canta o Sabiá”, eramos chamados de brasileiros.

Acabado os conflito voltamos a ser os Caiçaras. Somos diferentes sim em algumas coisas: Nós ouvimos e sabemos entender o vento, o Mar, o sol e a terra. os outros parecem ter alguma deficiência pois nada ouvem. Os outros saem para pescar e alguns destes a depredar. Nós, os caiçaras, saímos ao mar para matar peixe e só matamos o necessário com um processo seletivo ensinado pelo próprio mar.

Somos Caiçaras, por que as pessoas nos chamam assim, entretanto o Sol nos chama de filho, o mar e seus peixes de amigo, o vento é parceiro de conversa. Escolhemos dia e hora para se lançar ao mar, não por preguiça como alguns insistem em afirmar mas por respeito ao alto e latente discurso que os elementos nos pregam um dia antes.

Somos Caiçaras e cremos em Deus.

Gastamos a memória, o suor dos braços e aprendemos que remando juntos, até mesmo com o mar, chegamos a qualquer lugar. Já estamos na Europa, na Ásia, e todo lugar, mas a uma só voz nosso coração continua dizendo sou do Mar.

 

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