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É zoológico

História de: Janaina Aparecida Ribeiro de Souza
Autor: Janaina Aparecida Ribeiro de Souza
Publicado em: 30/11/2021

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Conheci meu pai sendo chamado pelas pessoas como Seu Jair. Digo que conheci porque quando somos crianças, parece que não nos damos conta das pessoas ao nosso redor, mas com o passar do tempo, descobrimos quem é nossa mãe, nosso pai... E um dia, percebi o Seu Jair. Seu Jair é marido da dona Zilda, mulher trabalhadora desde que a conheço. Nunca ficou sem achar uma saída para os problemas enfrentados pela família. Tudo bem que ela parece meio ranzinza às vezes, mas tenho orgulho de ter a dona Zilda como exemplo quando me deparo com situações complicadas de resolver. Pois bem... Voltemos ao meu pai, o senhor Jair. Ele sempre trabalhou muito, fizesse chuva ou fizesse sol. Não sei porque, mas eu esperava meu pai chegar do serviço pra dormir cheirando a mão dele. Lembro da minha mãe dizer que estava suja, cheirando graxa... mas era a mão do meu pai e pronto. A gente vai crescendo e fica meio pirado na adolescência. O pior é que a gente só vê a burrada que fez, de não valorizar os momentos com os pais quando já somos adultos e daí a vida já deixou pra trás muitos momentos valiosos. O sonho de meu pai era ter uma moto. Ele ia e voltava do trabalho de bicicleta, não importava o tempo ou o cansaço. A bicicleta dele tinha uma gradinha na frente, que ele trazia não só a cesta básica uma vez por mês, como também trazia, com o peito cheio de felicidade, os brinquedos que a firma dava para os filhos dos funcionários. E era uma festa quando ele chegava. Um dia, ele realizou o sonho. Comprou a moto dele. Daí não tinha pra ninguém. Seu Jair cuidava da moto e ostentava a 125 como se fosse uma Harley.. E ele tinha toda razão. Lustrava, limpava, deixava brilhando. Era o orgulho dele. Depois veio a Titan verdinha. Essa deixou lembranças de susto e choro. Roubaram bem na porta de casa... Meu pai não sabia nem o que fazer. E a gente nunca mais viu. Depois vieram outros modelos... Mas o zelo era o mesmo. Seu Jair se aposentou, mas nunca parou de trabalhar. Com muita experiência como soldador, fazia um trabalho aqui, outro ali, virava ajudante de pedreiro... Mas nunca parava. Minha mãe só parou de trabalhar quando não precisávamos mais complementar a renda. As quatro filhas cresceram, cada uma seguiu um rumo mas nenhuma deixou de dar orgulho aos meus pais. Ficaram só seu Jair e dona Zilda, na casa que, com muito custo, conquistaram. Dona Zilda continuava cuidando das coisas, das compras, das roupas, da comida e da casa. Seu Jair sempre inventando moda pra não ficar parado. Um dia Seu Jair ficou em casa e dona Zilda saiu. Ele sempre se preocupou muito em ajudar os vizinhos com uns servicinhos na camaradagem mesmo. Às vezes, nem precisava que eles pedissem. E foi num sábado que ele resolveu ajudar o vizinho a cobrir a caixa d'água que estava descoberta. Ninguém sabe dizer o que aconteceu naquele dia. Seu Jair não se lembra, dona Zilda não viu e o cachorro Doritos não pode nos contar. Mas aquele dia mudou nossas vidas. Dona Zilda chegou em casa e encontrou seu Jair caído no chão desacordado, aparentemente, ele caiu do alto da escada. Chamaram o Resgate, minha mãe ligou pra mais nova desesperada. A mais nova ligou pra mim... Fomos tomadas por um pânico que nunca sentimos. Horas se passaram desde o momento que meu pai chegou no hospital. Nenhum médico dava notícias... Cheguei no hospital e fiz companhia pra mais nova, que estava lá de plantão esperando notícias. A mais velha chegou depois que o médico finalmente chamou a família. Até aquele momento, a gente achava que meu pai ia estar bravo num canto porque demoraram pra liberá-lo. Mas não foi assim. Não vi meu pai... O médico tentou me explicar... Seu Jair estava com um sangramento encefálico que eles não conseguiam descobrir o motivo... Mas que naquele momento, o jeito era esperar porque dependia do meu pai os próximos dias. E que dias terríveis. Foram dias na UTI, bem no início da pandemia do coronavírus... Nos revezávamos durante os dias da semana, só podíamos ficar lá com ele por vinte minutos. Como foi difícil ver meu pai lá, entubado, sem bigode (desde que eu o conheço, ele tem bigode), sem abrir os olhos... no decorrer dos dias, ele gemia, ele apertava nossas mãos... foi ficando magrinho, magrinho... Até que um dia acordou. E bem no dia da minha visita. Eu nem acreditava. Meu pai estava ali, pedindo água pra mim, almoçando comigo. Eu sai da visita rindo e chorando. A mais nova, que ia sempre me dar apoio nas visitas, não aguentou a boa notícia e chorou também. Fomos embora felizes. Daí veio outro susto. Bem no dia da visita da mais velha, resolveram operar meu pai. E nem explicaram o que fariam. Depois de colocar dreno na cabeça do meu pai, ele voltou a dormir... por dias não vimos seus olhos abertos... E ele foi assim mesmo transferido para um quarto. e no quarto, nos revezávamos dia e noite para estar com ele e cuidar que tratassem ele do jeito que ele merece. Um dia ele acordou novamente. Mas não falava, não comia sozinho, não se mantinha nem sentado. Chorei... chorei como nunca antes com medo de nunca mais ouvir a voz do meu pai. Foi um período difícil pra todas as quatro filhas, pra dona Zilda... pra todo mundo. Começaram terapia com fisio e fono. Meu pai foi pra casa ainda com sonda de alimentação, sem andar... fraquinho, fraquinho... Daí foi uma correria só atrás de fono e fisio. Cada uma ajudou de um jeito... Estava difícil pra dona Zilda cuidar dia e noite do seu Jair, então ele foi passar uma temporada na casa da mais nova. Lá ele teve o maior progresso. Voltou a comer, a andar, e um dia, depois da visita da fono, eu o abracei e disse: Pai, não vejo a hora de o senhor voltar a falar com a gente... mas o senhor vai conseguir. E, ele olhou pra mim e respondeu: - É zoológico!

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