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É você e Deus e acabou

História de: Wagner Nones Bertonha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2014

Sinopse

Wagner conta que sempre desejou ser motorista, desde criança quando observava as jamantas na estrada na cidade de Lupionópolis, interior do Paraná. Cresceu ajudando seu pai na roça, mas realizou-se tornando caminhoneiro aos 18 anos, profissão que nunca mais abandonou.

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História completa

Sou o Wagner Nones Bertonha. Nasci no dia seis de fevereiro de 1979. Sou do Paraná, natural do Paraná, cidade de Lupionópolis. O nome da minha mãe é Cleusa Nones Bertonha, também natural do Paraná, cidade de Lupionópolis. Do meu pai José Segala Bertonha, também natural e nascido de lá. Hoje meu pai é aposentado, mas antes sempre trabalhou no sítio, mexeu com lavoura, mexia com roça, plantava agricultura. E minha mãe sempre foi dona de casa dando um apoio na família, ajudando-o, criando a gente que somos eu e mais duas irmãs na família. E hoje são aposentados, moram na cidade, já não trabalham mais. Na época aí de 1979, 1980, meu pai sempre plantou algodão, plantou milho, soja, trigo. Porque na época ali da região do Paraná é muito produtiva essa área de grãos ali, a região de Maringá, Londrina, que é a nossa região, então é o norte do Paraná. Então sempre trabalhou com isso aí. Mexeu com gado também na parte leiteira, muito tempo também, aí hoje já não tá na atividade mais. Nós morávamos numa zona rural na época, né? Moramos, praticamente fomos criados lá, eu mesmo fiquei até os 16 anos lá, depois eles continuaram um bom tempo ainda, sempre na zona rural, no sítio, na chácara, sempre envolvido ali com zona rural. Era o Sítio São José, na época. Eu lembro até hoje, foi em nome ao meu pai, né, José é o nome dele, claro, aí era esse nome aí, Sítio São José, na época. Aí depois vendemos também, paramos de mexer com isso aí, voltamos pra cidade, aposentaram-se depois e tal, aí parou com a atividade.

O sítio na época da minha infância era bem bacana, a gente gostava muito, nascido ali, criado ali. É um lugar bom, a gente pescava, a gente brincava, a gente matava passarinho de estilingue, aquela fase de criança ali, né? A gente brincava ali no sítio, andava a cavalo, pescava, ia pros rios, pras lagoas. Jogava bola no sítio, fazia bola de pano. Juntava um saquinho lá, sabe? Bolinha de pano, um saquinho, fazia uma bolinha ali, amarrava com barbante, tornava-se uma bola. Aí saía chutando pra frente ali, brincando, jogava... Quem é mais antigo aí da minha época sabe. Era uma vidinha bem bacana, bem simples, bem humilde ali, mas bem bacana. Até mesmo comecei a ajudar meu pai muito cedo. Eu comecei a ir, na época eu até me lembro, recordo certinho como se fosse hoje, até na época quando comecei a trabalhar com ele eu tinha cinco anos de idade. Montava cavalo, ajudava a tocar o gado, acompanhava-o de manhã na ordenha tirar leite, trabalhava na roça ali com ele. Não fazia nada, mas ficava no meio ali. Então até eu comecei muito cedo com ele ali, mas foi uma vida bem de criança, uma adolescência, foi bem bacana. Deixa muita saudade na época, como diz o pessoal, da roça, né?

Eu comecei a frequentar a escola com seis anos de idade. Na época lá no Paraná ali falava prezinho, né? Entrava no pré, aí comecei a estudar, fui estudando na época ali, fui pro pré e tal, aí fui subindo. Estudei até que eu terminei o primeiro grau ali depois também parei. Aí eu fui trabalhar fora. A gente depois mudou pra cidade, meu pai depois voltou pro sítio de novo, retornou pro sítio, aí eu já não voltei mais. Depois 16 anos eu fui pra cidade, comecei a morar fora até hoje, depois me envolvi com caminhão, a começar a viajar, trabalhar, morar fora. Sempre morei fora. E estamos aí até hoje.

Quando eu era ainda tinha, vamos dizer, acho que uns sete, oito, nove anos, como a gente morava no sítio, igual eu te disse, na época a gente até falava, não falava assim carreta, caminhão, a gente morava no sítio lá, a gente falava jamanta, tal, ainda quero dirigir um negócio desse e tal. Aquele sonho de criança, aquela coisa toda. Aí tinha sim, tinha vontade de um dia ser caminhoneiro, motorista, até mesmo trabalhar com ônibus. Nessa área do transporte rodoviário. Mas tinha sim. Tinha esse sonho quando era criança. Como eu posso dizer? Hoje eu falo pros meus amigos, hoje eu sou um cara realizado. Tudo que eu tive vontade de fazer eu consegui fazer, realizei algum sonho que eu tive, principalmente na época quando eu comecei com 18 anos, quando foi que eu tirei minha primeira habilitação. Na verdade eu comecei a viajar na cidade de Londrina no Paraná também. Foi a primeira cidade ali que eu fui embora na época, foi ali que eu consegui meu primeiro trabalho de motorista.

Quando fiz 18 anos, tirei habilitação e tal, primeira CNH, aí via meus amigos na estrada, tinha aquela coisa de ser motorista um dia: “Nossa, trabalhar com um caminhãozão desse, viajar conhecer o mundo”. Aí tinha aquela ilusão: “Nossa, o cara ganha bem”. Sabe? Tinha aquela ambição pelo dinheiro e também pela vontade de ser um motorista, conhecer e viajar o mundo. Aí começou acho que por aí, logo quando eu era pequeno. Eu olhava, falei: “Um dia quero trabalhar com aquilo ali. Carreta, caminhão alguma coisa assim”. Depois que a gente cresceu, teve a chance, foi logo quando eu fui pra Londrina, aí surgiu a primeira oportunidade de trabalhar lá com caminhão, aí comecei. De lá pra cá expandiu, aí não parei mais.

Olha, eu sempre assim, sempre tive coragem pra tudo. Nunca tive medo: “Ah, eu vou, será que vai dar?”. Não. Não tem esse meio termo, ou vai ou não vai. Então na época quando surgiu essa oportunidade aí como motorista no caso aí, fui pra lá, claro, foi difícil pra mim? Foi. No começo não conhecia muito a região, o estado ali, né? Muito novo pra mim, é novidade. Aí fui pra lá, encarei, tive as dificuldades, mas não desisti também, fui até o fim.

No dia a dia você aprende muito. Você aprende muito com as pessoas, com a estrada, com pessoas diferentes de outro estado, igual a gente viajava o Brasil inteiro aí. Tem muita coisa pra você aprender e você nunca deixa de aprender. Sempre você tá aprendendo mais, inovando. É aquele dia a dia meu, né? A gente fica aí 20, 30 dias fora de casa, longe da família, longe de amigos, de festa, de lazer. A sua vida pessoal se torna um pouco meio privada, né? Fica meio mais pra empresa, mais pro trabalho que uma vida pessoal sua fica mais restrita ali, você já tem menos tempo mesmo pra você, né? Mas é aquele dia a dia, levantar de manhã, trabalhar o dia todo, para a noite, de manhã continua de novo. É sábado, é domingo, é feriado, é aquela vida meio rotineira ali. A gente para uma vez por mês, fica três, quatro dias em casa, mas é uma vida bem corrida, bem, bem difícil, viu?

Cada estado é uma cultura diferente, no Brasil inteiro são várias culturas diferentes hoje aí. Eu acho que uma coisa que foi mais marcante, uma coisa  bacana seria o sul hoje, Santa Catarina, acho que um dos estados litoral ali mais bonito que eu achei e outro que deixa muita saudade que eu ia muito antigamente lá alguns anos atrás ali é Fortaleza no Ceará. Paisagens lindas, lugar coisa de cinema, praia, a cidade, a cultura do povo. Uma coisa bem bacana. São dois lugares que pra mim se tivesse que morar lá hoje são dois lugares que eu escolheria pra morar, tanto Fortaleza no Ceará quanto ali em Florianópolis, Joinville pra baixo ali, Santa Catarina. Dois estados bem bacanas aí no Brasil que eu conheci. Você faz muita amizade até mesmo com próprio motorista que você para num posto, você para pra almoçar, pra jantar, pra dormir. Até mesmo frentista, gerente do posto, lanchonete, você sempre tá fazendo amizade com as pessoas ali. Fiz muita amizade, tenho muita amizade, onde eu passar hoje ficou uma bela amizade aí.

            Você sai e ali você tem que sair preparado, levar roupa, levar tudo que você usa no dia a dia. Você também tem, muitos caminhoneiros têm caixa de cozinha onde você prepara o alimento, as refeições ali, almoço, janta, o que for ali e é a sua casa. O seu mundo é aquilo ali, é o caminhão. Um pedacinho de você no mundo ali. É ali que você reside, ali que você viaja, ali que você dorme, o tempo todo é ali.

Eu sempre fui da religião católica a vida toda, no meu caminhão nunca deixei de ter um tercinho ali no para-brisa, colocadinho ali no volante. Sempre tinha ali uma imagem da Nossa Senhora da Aparecida. Isso aí sempre carregava comigo ali. Que na estrada é o que eu sempre digo, quem pode olhar por você só é Deus, mais ninguém. É você e Deus e acabou.

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