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História

“É um lugar onde eu aprendo todos os dias”

História de: Eliane Maria de Santana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2015

Sinopse

Eliane é uma simpática educadora que se emocionou ao contar sua história ao Museu da Pessoa em janeiro de 2015. Ela contou a origem dos pais, ambos de Pernambuco e como vieram para São Paulo para tentar melhorar de vida e acabaram se conhecendo. Falou sobre seu interesse pelos livros, a vontade de ser professora e dos contos que começou a escrever desde pequena. Recordou a gravidez precoce e como começou a trabalhar com educação infantil e projetos sociais. Emocionada, conta como vivenciou situações difíceis em projetos com moradores de rua. Por fim, fala sobre o trabalho que desenvolve na ONG Educadores sem Fronteiras.

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História completa

Meu nome é Eliane Maria de Santana, eu tenho 39 anos, nasci no dia 22 de janeiro de 1976, em São Paulo. Minha mãe se chama Nelcina Maria Santana e meu pai Manuel José de Santana. Os dois são de Pernambuco, tanto o meu pai, quanto a minha mãe. Eles são de famílias do sertão, então ambos trabalhavam com a colheita antes de vir pra São Paulo. O meu pai veio pra São Paulo com 18 anos, se eu não me engano, junto com dois irmãos pra tentar a vida. Naquela época, São Paulo era a terra das oportunidades, então eles vieram pra cá pra tentar a vida, pra buscar alguma coisa melhor e tal. E minha mãe também, minha mãe veio pra cá com mais ou menos 19 anos, e também pra tentar a vida aqui. Eles se conheceram aqui. Então ele começou a trabalhar como fiscal, depois ele passou pra cobrador, e antes de tirar a carta de habilitação, ele trabalhou um tempinho aí, depois ele passou pra motorista. Ele passou mais de 20 anos como motorista de ônibus. Hoje em dia ele está aposentado, mas trabalhou muitos anos como motorista. Ela é doméstica, então ela já foi trabalhar na casa de uma família, ali na Avenida Nove de Julho. Enquanto ela trabalhava, ficou grávida do meu irmão, e de mim depois.

Eu não tenho muita lembrança da casa onde a gente morava, porque eu era muito pequena no período que a gente passou lá. Era um apartamento onde minha mãe trabalhava como doméstica. A gente ficou acho que uns cinco anos lá. E depois a minha mãe foi trabalhar com a filha dele e a gente mudou pra casa dela. Acho que era Alto de Pinheiros, não me lembro direito o bairro. Mas era uma casa mesmo. Eu tinha seis pra sete anos. A gente passou pouco tempo. Eu fui morar no bairro que eu moro até hoje. A gente foi mudando de um lado para o outro, mas sempre no mesmo bairro. A gente não tem casa própria ainda, minha mãe também não quer aqui em São Paulo, já decidiu que vai comprar em outro lugar.  A gente mora em Americanópolis II.  Quando a gente entrou na escola, eu devia ter uns quatro anos. Eu lembro que era um lugar muito bonito, o Sacre Coeur, é um colégio que não existe mais, ficava na Av. 9 de Julho. A gente tinha bolsa de estudo. Era um pátio muito grande, tinha muito verde. A gente usava uniforme naquela época, que era o vestidinho azul, a jardineirinha azul. As meninas e os meninos usavam camisa e bermudinha azul.

Acho que a grande mudança que teve nesse período foi quando eu entrei no ensino médio, porque eu perdi o contato com todos os meus amigos do fundamental. Eu já estava trabalhando quando eu fui fazer o ensino médio. E eu acabei entrando num curso técnico de Contabilidade por influência do meu padrinho, que era contador. Eu achava que seria uma coisa legal pra se fazer.  Eu estava com 17 anos quando eu fui trabalhar. Eu fui trabalhar mais pra ajudar em casa mesmo. Porque, lógico, você chega na adolescência, você quer ter acesso a outras coisas e tal, mas meu pai e minha mãe continuavam trabalhando muito e a gente nunca conseguia nada.

Quando eu fiz 15 anos, a minha mãe já frequentava um centro espírita e a gente fazia as nossas reuniões em casa, mas quando eu completei 15 anos foi que eu comecei a frequentar de verdade esse centro espírita. E o dirigente do centro, que era o senhor Roque, senhor Roque Jacinto, a primeira vez que eu cheguei, ele me pegou pelo braço, falou: “Vamos lá que eu tenho um trabalho pra você”. Eu falei: “Ah, meu Deus do céu. Está bom, vamos, né? Fazer o quê?”. E ele me jogou na sala com um monte de crianças e falou: “Olha, são suas”. Eu falei: “Mas o que eu vou fazer com essas crianças?”. Primeira vez assim. Ele falou: “Você vai saber o que fazer”. Eu falei: “Está bom”. Tinha umas 40 crianças dentro da sala, crianças já passando pra adolescência, então aquela bagunça, aquele tumulto. Eu falei: “Gente, vamos conversar, vamos sentar, vamos nos conhecer, porque eu não conheço vocês, vocês não me conhecem. Vamos ver se a gente consegue estabelecer algum contato aqui, tal”. E foi uma experiência muito legal, porque foi meu primeiro contato mesmo com uma educação não formal, mas educação. A partir desse primeiro momento, a gente começou a conviver dentro do centro e no centro eu conheci um senhor, que era o dono dessa farmácia, onde posteriormente eu fui trabalhar.

Eu nunca tinha pensado em fazer faculdade. Eu gostava muito de ler, com 13 anos eu já tinha O capital, e achava aquilo fantástico e tal, mas nunca pensei em fazer faculdade mesmo. Mas quando eu fui para o ensino médio, eu acabei me envolvendo com o pai da minha filha, com 18 anos, e acabei desistindo do curso técnico, então eu não completei naquele período, porque eu acabei ficando grávida e tal. E aí ela nasceu. A coisa não deu certo, não fluiu do jeito que a gente imaginava. Fui morar com o pai dela, não deu certo, voltei pra casa. E aí eu comecei a me envolver mesmo com trabalhos em escolas da região. Fui num primeiro momento como auxiliar e tal, só pra ficar mesmo tomando conta das crianças, depois com recreação. E aí abriu uma escola do lado da minha casa, e minha mãe ficou muito amiga da dona e tal, e ela falou que estava com dificuldade de encontrar pessoas que ficassem com as crianças de quatro a seis anos e tivesse essa empatia com as crianças. Porque ninguém queria ficar. Depois fui trabalhar na Casa da Praça. Núcleo de Convivência Casa da Praça, que era em Santo Amaro. E tinha o núcleo, que recebia essas crianças e adolescentes que moravam na região. Continuei nessa área, mas num outro instituto. Aí já trabalhando aqui mais pra zona leste, na região do Pari ali. Aí foi outra experiência, porque era com educação de rua, mas era com adultos e idosos. Então era um público diferente, além da própria região ser diferenciada. E eu tive contato com outras histórias de muito sofrimento e de escolha.  Depois que eu dei aula para o Mova, passei por todas essas experiências, eu tive a oportunidade de fazer faculdade. Não queria fazer Pedagogia, falei: “Não, educação não é só Pedagogia”. Brigava com a minha irmã o tempo todo por causa disso. Eu falei: “Não vou fazer Pedagogia. Eu não quero fazer Pedagogia. Eu quero fazer outra coisa, quero lidar com a palavra, com a palavra bruta e transformar essa palavra bruta em coisas para as pessoas”. E aí eu fui fazer Letras. Nessa época eu era coordenadora do Projeto Guri, ali no polo da região onde eu moro. E fui fazer faculdade, tive vários problemas com a faculdade, mas pra mim foi uma descoberta, mais uma, porque eram coisas diferentes. Formei-me o ano passado na Unisa. Formei-me, ainda tenho que entregar o estágio, porque apesar de eu já ter milhares de horas como educadora no Educadores, eu preciso entregar o estágio com CNPJ de escola, senão o MEC não aceita. Mas é só o estágio que tem pra entregar. E faculdade pra mim foi uma coisa muito legal, porque daí eu percebi que outra coisa que eu gosto de fazer é pesquisa. Então eu queria me dedicar a essa área de educação e de pesquisa, juntar as duas ali. E foi um momento muito legal pra essa minha trajetória, porque principalmente quando liberaram a gente para o TCC, que todo mundo falava tão mal, eu falei: “Ai, gente, não deve ser tudo isso”. Nunca acreditei que fosse tudo isso. E aí quando eu me vi diante dele, eu falei: “É, acho que eu mordi a minha língua”. Porque a coisa é mais complicada do que parece. Mas fui e o meu objeto de estudo era o Educadores. Então não tinha nada que eu não tivesse muita propriedade pra falar já, porque eu já estou há quase quatro anos. Então foi muito simples de fazer, e fui juntando o depoimento dos meninos, e os depoimentos dos educadores, e acabou sendo um trabalho muito prazeroso. E foi mais prazerosa ainda a minha nota no TCC, que foi uma coisa com a qual eu me realizei muito, porque até os professores disseram: “Olha, se eu fosse você, eu continuava nesse caminho da pesquisa, porque você tem uma facilidade pra isso”. Então educação e pesquisa agora pra mim vão caminhar juntas. E eu espero poder continuar nessas pesquisas com os professores da faculdade, que já me convidaram, inclusive, e fazer outras coisas aí nesse sentido, nesse viés.

Lá no Educadores, eu trabalho com a área de linguagens, eu sou professora de Português e Inglês. Mas como a gente tem essa transversalidade das matérias, então a gente acaba falando de História, acaba falando de Geografia, um pouquinho de Matemática, de Física, um pouco de tudo. Hoje eu sou também coordenadora das mídias sociais do Instituto, então eu tomo conta do Facebook, do Twitter, do blog que é aberto, e do blog do diário de classe, que é o diário dos Educadores, que esse fechado, é só para os educadores mesmo e para os parceiros. O outro é aberto, é onde a gente põe as fotos e os passeios, os avisos, tudo que a gente faz lá. Eu comecei assim, estudando ainda, o Paulo gostou do que eu apresentei como proposta de aula, e ele falou: “Olha, lógico que a gente precisava de alguém que já tivesse mais experiência, mas eu não sei por que, eu quero confiar que você tem a cara do Educadores e que você vai fazer isso bem feito”. E aí eu comecei preparando aula, as aulas, aulas, e mais aulas, e conhecendo outras coisas, me aventurando por outras áreas também do conhecimento e fui pegando jeito, fui gostando. E aprendi a fazer aquilo com um carinho enorme. A molecada que tem é um perfil bem diferente das pessoas por quem eu já passei, mas de alguma forma sempre tem a vulnerabilidade, não em todos, mas sempre tem um ou outro que vem contar algum caso pra gente. E acabou se tornando a minha segunda casa. É onde eu gosto de estar, é onde eu aprendi muita coisa, é onde eu aprendo todos os dias. E se tornou referência pra mim, referência de vida, referência de profissionais. As pessoas que tem lá dentro é um perfil de profissional que eu gostaria de encontrar em todos os lugares, porque são pessoas sempre dispostas, são pessoas alegres, são pessoas que gostam daquilo que fazem. Acho que isso é o mais importante pra gente, você ser fascinado por aquilo que você faz, por aquilo que você está envolvido. A gente trabalha o fundamental II, então a partir dos 11 anos, até o ensino médio, e alguns, já tivemos alguns alunos de universidade também, que fazem a faculdade, trabalham, e aos sábados vão assistir aulas conosco.

A primeira relação que a gente tem com o Criança Esperança é na televisão. Querendo ou não, é um projeto que já tem muito tempo. E eu lembro que eu era criança, eu assistia o Renato Aragão falando, a Xuxa. Naquela época bem mais, hoje eu já não assisto tanto, mas os shows, as doações e tal. Também já fui doadora do Criança Esperança. Conheci muitos projetos que foram financiados pelo Criança Esperança por meio de um seminário oferecido pela Unesco e a Petrobras. Vi que realmente a coisa funciona e que muita gente se beneficia disso, eu acho que é o mais importante, pra gente que trabalha com o Terceiro Setor, conhecer coisas que funcionem. Porque infelizmente de uns tempos pra cá a gente tem ouvido falar de vários projetos que são fachadas e isso nos atinge muito diretamente porque a gente acaba pagando o pato pelo que outras pessoas fazem de errado. Então foi muito legal conhecer, saber que tem pessoas por trás desse projeto que trabalham sério e que fazem a coisa acontecer e a coisa flui. Com relação ao Educadores, a gente... Eles não chegaram a ir no Jardim Ângela, que era a unidade que eu ficava mais, eles iam muito na unidade da Raposo Tavares, mas aí a gente sempre sabia que eles estavam lá, a gente tinha um banner do Criança Esperança. Foi muito legal quando a gente recebeu o apoio do projeto, porque daí a gente passou aquela sessão de imagem para as crianças, explicamos que nós éramos parceiros do Criança Esperança e foi uma coisa que contaminou toda a comunidade do lado porque ninguém conhecia nenhum projeto que tivesse sido financiado pelo Criança Esperança, e nós éramos. Então foi um ano que deu pra fazer bastante coisa, deu pra gente alcançar algumas metas aí, principalmente melhorar essa comunicação com as pessoas, falar: “Olha, a coisa funciona”. Então mais gente começou a doar por causa disso, porque conheceu um projeto que foi financiado pelo Criança Esperança, isso foi muito legal. Eu acho que aproximou a instituição da comunidade por meio desse financiamento. Tomara que isso aconteça mais vezes, que a gente possa conhecer mais projetos financiados pelo Criança Esperança, porque é importante para as comunidades e saber que não está tão longe como parece. Porque a gente vê pela televisão, parece tão longe, tão distante, e não é tão distante assim. Eu sei que a gente teve alguns passeios que foram com esse recurso. Também pudemos adquirir mais equipamentos, projetor, notebook, tudo. As câmeras fotográficas que nós temos foi com a parceria deles também. Enfim, o que a gente pode direcionar foi um financiamento muito bem aproveitado, deu pra dar uma incrementada maior no projeto. Alguns livros também foram comprados com esses valores, deu pra gente fazer bastante coisa. E se eu não me engano, os nossos laboratórios de Química e de Física também foram adquiridos com essa verba.

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