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História

É tudo que está acima do solo e abaixo da atmosfera

História de: Aline França Paschoalino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Aline nasceu em São José do Rio Preto, onde morou até mudar-se para São Paulo. Ela veio estudar Geografia na USP. Já formada, Aline trabalha com reciclagem numa instituição que apoia cooperativas de catadores.

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História completa

Meu nome é Aline França Paschoalino, eu nasci no dia três de novembro de 1986, na cidade de São José do Rio Preto. O meu pai é Ângelo Germano Paschoalino, minha mãe, Maria de Fátima França Paschoalino. Meu pai conheceu a minha mãe depois que ele desistiu de jogar futebol, que ele jogou futebol uma época, e aí virou comerciante autônomo. No interior de São Paulo teve a época áurea da Ferroviária, que era bastante conhecida, depois de lá, foi quando ele começou, ele jogou no Espírito Santo, aí o Palmeiras comprou o passe dele. Ele não chegou a jogar pelo Palmeiras, porque o emprestaram pra um time de São Fernando, se não me engano na região ali de Santiago, no Chile.

Aí ele jogou dois anos lá na época do Pinochet, que não podia conversar em grupinhos na rua, nada disso, mas logo depois ele teve um problema no joelho e voltou para o Brasil, e já também conheceu minha mãe, casou, e tudo mais. Meu pai, eu acho que é mais doce, mais bondoso de coração, só que também é muito desligado. Minha mãe já é mais enérgica, já é mais alvoroçada, de falar alto. Eu me lembro da minha infância inteira de eles caminhando de mãos dadas, sempre conversando à noite sobre o dia, como foi o dia, como vai ser o dia seguinte. Então essa é uma boa lembrança que eu tenho da minha infância, de os meus pais bem unidos.

Avós - Eu sei que por parte de pai tem bisavô que veio de Trento, que é no norte da Itália. Meu bisavô chamava Germano também, minha bisavó, Carolina. E por parte de mãe, eu nunca cheguei a pesquisar mais, mas tem uma mistura boa. A minha avó da parte de pai, a gente conversava pouco. Na época era eu e o meu irmão um pouco mais rebeldes, então a gente mais ofendia, zoava, do que tinha aquele amor de aproximação mesmo, de carinho. Então eu me lembro dela atendendo algumas pessoas e usando roupas brancas, fazendo algumas coisas no chão com mel, vela, tinha um congá no fundo da casa dela. Mas eu não entendia muito bem, na época, nada, então nunca participei efetivamente de nada. Depois que ela faleceu, eu já era mais grandinha, aí vem só o lamento de não ter podido conversar e conhecer de fato ela.

O marido dela faleceu quando eu tinha um aninho, meu avô, mas meus pais meio que me ensinaram a amá-lo por fotos. “Esse é teu avô, a história, ele era mecânico, tinha um olho de vidro, alto, magro”, então eu me lembro disso. Avô Mário, ele era mecânico e um dia ele estava pregando um negócio, o prego voou e furou o olho dele. Mas aí o meu pai conta que ele era impossível, muito charmoso, muito bonito, garboso, elegante. Depois, por parte da minha mãe tinha o avô Eduardo, que tinha os olhos verdes, e tinha trabalhado na ferroviária. Na época era Fepasa que chamava a empresa. E eu lembro que teve um período que ele foi alcoólatra, então era bem difícil, mas quando eu nasci já estava tudo mais calmo. Eu lembro que quando eu nasci, já peguei uma fase branda, que ele era bem atencioso, ia me ver. Uma vez me colocou na garupa da bicicletinha dele e me levou num bar, procurando um bar aberto de domingo porque eu queria guaraná, aquelas Caçulinhas, e paçoquinha, aí ele foi comprar pra mim.

Infância - Eu tinha os gibis da Turma da Mônica, que eu gostava muito, da Magali, do Chico Bento. Então minha mãe fazia as vozes e lia pra mim. Mas tinha vários livros, um pouquinho de conto de fadas, que eu acho que pode ter me estragado um pouco (risos), mas sempre também tive muito contato com o Atlas, com livros, acho que é por isso que eu também me tornei geógrafa, eu gostava muito de ver os mapas e me imaginar nos outros continentes. Tinha um quarto de brinquedos com os livros, então tinha bastante espaço. Tinha quintal, cachorro, era uma casa grande de interior. Então brincava muito com o meu irmão também, que a diferença é de um ano e nove meses apenas, então a gente tinha bastante liberdade pra brincar, pra criar. Meu irmão chama Alan, hoje ele mora em Brasília.

Eu lembro que o bairro que eu cresci ainda estava em desenvolvimento, então tinha muitos terrenos vagos, mas morei numa rua que morava a minha avó muito perto, tinha a tia, tinha família. Acho que é um pouco do costume também ainda no Brasil, cidades do interior, quando o pessoal pode, eles compram terrenos próximos, mora todo mundo junto praticamente. Então eu conseguia ir todo dia à casa da minha avó, andava de bicicleta, jogava bola queimada na rua, brincava de pular elástico, amarelinha. Foi uma infância ótima, porque a gente tinha essa liberdade. Minha mãe controlava muito, tinha toda uma postura de medo também, as lendas do homem do saco (riso), de um monte de coisa, mas eu me lembro de visitar com frequência os meus avós, de curtir assim o espaço que era praticamente da minha avó principalmente, quase como uma chácara, com pé de manga, com galinhas, com porcos, com horta, com espantalho. Fazia brigadeiro na terra, brincar que era um brigadeiro. A gente cantava sempre no carro essa, a família toda junta.

Aí tinha algumas modas sertanejas também, porque era interior, então era muito comum moda de viola, tinha festa folclórica de Folia de Reis, eu me lembro deles passando na casa das minhas avós, com bastante roupa colorida, o pessoal preparava a casa, separava alguns quitutes pra oferecer pra eles. Festa junina de verdade com a fogueira, sanfona. Então muitos doces, fogueira, sanfoneiro, bandeirinha na rua a noite toda. Minha festa favorita é a festa junina. E eu gosto muito de paçoquinha, até hoje aprendi a comer com o meu avô, com o meu pai, e é um doce típico assim que eu gosto muito.

Escola - Estudei em um colégio, Noemia Bueno do Valle, da primeira a quarta série. Eu gostava do uniforme, eu ia de rabo de cavalo pra escola, era considerada boa aluna, toda “caxias”, assim. Foi nessa escola que eu conheci as minhas principais amigas que eu já conheço, que eu mantenho até hoje. Então são três grandes amigas que continuam em Rio Preto, moram lá, algumas já se casaram, mas foi nessa escola na minha infância que a gente fez essa amizade, o grupinho. De lá a gente mudou, a maioria, nós fomos pra outra escola, que era o Victor Britto Bastos, que eu estudei até a oitava série. Aí já foi adolescência, já tinha as festinhas, as primeiras paqueras, os rolinhos. A gente manteve o grupo de amizade, fizemos outras amigas. Depois disso eu estudei no Ensino Médio, eu mudei de escola, porque eu queria prestar vestibular, aí estudei num colégio particular em Rio Preto e era bastante puxado, estudava bastante, tinha aula de sábado, aí tinha os simulados. Conheci outras duas amigas também bastantes importantes. Até que eu cheguei no cursinho e vim pra São Paulo.

Profissão - No início, a primeira coisa era uma coisa que tivesse a ver com animais. Então eu pensei em bióloga, a gente falava de Biologia Marinha por causa das palestras do Sesc, eu me encantei pelo fundo do mar numa época, e veterinária, porque meu pai sempre falava de veterinário, ele tinha um cliente veterinário e tal. Então eu pensava em Veterinária e Biologia. Depois, por um momento, até os meus 15 anos, talvez por causa da igreja, pensei em ser freira, mas franciscana, aquela de desapegar total de tudo, assim.

Aí eu fiz alguns acampamentos, tal, percebi que não ia dar certo e aí comecei a pensar, já com 16 anos, quando eu fui fazer o Ensino Médio, em algo mais voltado pra literatura, humanidades. Então teve uma fase de biológica, teve uma fase mais religiosa, depois essa fase das humanidades. Nunca quis ser médica, nunca gostei de sangue, nunca pensei também em ser engenheira, nada dessas coisas muito tradicionais assim que o pessoal realmente valoriza, das profissões mais clássicas. E os meus pais também nunca questionaram, então isso é bom. No ensino médio, ainda no terceiro ano, eu cheguei a prestar, prestava só História, ainda estava um pouco confusa. Depois que eu tive um ano que eu meio que amadureci, me acalmei, que ainda prestei História, mas prestei Geografia, e aí foi o que deu certo e eu escolhi Geografia no final.

Não me arrependo de ter escolhido Geografia justamente porque eu acho que é bem holístico mesmo essa parte de geografia econômica, política, a parte de militância, de MST de, sei lá. Mas a Geografia possibilita isso, é tudo que está acima do solo e abaixo da atmosfera, então a relação homem/meio ambiente, homem/cidade, homem/campo. Então é muito legal pensar a questão urbana, a metrópole, as desigualdades. Então é um curso que é bastante crítico e é legal, eu gostei muito de ter feito.

Na capital paulista - É estranho, porque eu nunca sonhei em morar numa metrópole. Nunca pensei que eu fosse vir pra São Paulo. Até engraçado, que a primeira vez que eu vim quando era criança, vim passear com os meus pais, eu me lembro de ter vindo no Parque do Ibirapuera e a gente pegou um ônibus aqui do lado. E pensar que depois de uns 15 anos eu ia estar trabalhando aqui no mesmo lugar onde eu peguei o ônibus e visitei com os meus pais, sabe? Então era uma loucura assim, pra mim era muito distante. Eu me lembro de ter, quando eu era criança, ter andado de metrô e achado tudo muito grandioso. Mas não era pra mim, aí fiquei em Rio Preto feliz, fiz as minhas coisas e aí na hora de prestar o vestibular, eu prestei as universidades públicas e vim pra São Paulo. Eu não tinha família, não tinha parente, não tinha ninguém aqui, tinha só essa pessoa, por isso que foi tão talvez forte o envolvimento, porque eu vim muito menina, meio que caipira ingênua mesmo pra São Paulo. Não tinha ideia. Sabia o que era USP, mas não sabia como rolavam as relações internas, como era tudo. Aí eu cheguei, minha mãe veio comigo fazer a matrícula, a gente no ônibus só nós duas, ela bem tristinha, assim, achando que tava perdendo a filha.

Depois eu me lembro de eu estar no Coseas, que é a assistente social lá do Crusp, do Conjunto Residencial da USP, com travesseiro na mão e pedindo um lugar pra ficar, pra morar. E aí consegui. No início foram seis meses que eu fiquei num super quarto, alojamento mesmo, com 12 meninas muito diferentes de mim. E eu sofri muito, porque eu fui muito julgada naquela época, porque eu era do interior, tinha uma vida religiosa e tudo mais, e elas já vinham com uma mentalidade... Algumas mais punks, mais hippies, tudo muito mais livre, porque já estavam morando em cidades próximas de São Paulo, cidades maiores, outras referências, outras criações.

Reciclagem - Sempre via catadores nas ruas, mas nunca pensei, não achei que um dia eu fosse trabalhar com isso. Foi tudo meio que acontecendo. Eu nunca pensei que eu fosse vir morar em São Paulo, que eu fosse fazer USP e trabalhar com catadores. Mas tem sido uma experiência ótima, gratificante. Hoje em dia é muito tranquilo, eu tiro de letra, mas sempre de uniforme, calça jeans, bota, cabelo preso e sem maquiagem, mas é tranquilo. A gente tá superacostumado em falar de igual pra igual com os catadores. É bom. Tive boas experiências também na Vila Leopoldina com senhoras falando que conseguiram estudar os filhos, que compraram a geladeira pra casa com aquele trabalho, então elas contavam a história delas e era bastante gratificante também. Então sempre mulheres na liderança com vários filhos e trabalhando, assim.

Então é muito normal em cooperativas no Brasil todo, no geral 90% de quem tá na cooperativa são senhoras até com mais de 50 anos, mulheres. Mas é isso, uma luta pela causa, tem o Movimento Nacional de Catadores, tem o Movimento Latino-americano de Catadores. E é pensar mesmo na vida útil. Na verdade, eu não penso em salvar o planeta, eu não penso se tá tendo efeito estufa, se tá tendo aquecimento global, eu penso mais na prática, no hoje, no agora, porque a gente vê que não é legal. Em geral, a gente separa ou não, coloca na calçada, o caminhão passa, a gente tá livre desse problema. Ninguém reflete a questão do espaço, da saúde, ou se aquelas embalagens merecem de fato terem um fim ali e serem enterradas, quando não pra um lixão a céu aberto, pra um aterro sanitário.

Então é isso, eu penso muito nessa questão do planejamento urbano, da gestão mesmo integrada desses resíduos, da destinação correta. Questão de qualidade de vida, de espaço. Então se a gente pode reciclar, por que não? A gente vai economizar energia, muitas vezes água mesmo. Mesmo que seja na indústria, mas eu acho que só de ter uma cidade mais limpa, mais organizada, e na medida do possível gerar emprego e renda para algumas pessoas já é um motivo pra eu reciclar.  

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