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História

É só uma questão de oportunidade

História de: Ana Carolina de Andrade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2021

Sinopse

Ana Carolina narra sua história desde a infância, quando aos nove anos passou a morar em um abrigo, até sua atuação como empreendedora e mediadora social. Entre os aprendizados de sua infância e adolescência, conhecemos sua relação com sua família, sua trajetória profissional e sua atuação social na Zona Norte de São Paulo.

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História completa

Foi muito complicado ir para o orfanato, bem frustrante. Eu tinha nove anos. Chegou o Conselho Tutelar e levou a gente. Quando cheguei no orfanato, eu pensei que ia ser como se fosse Chiquititas, a criança tem toda a imaginação. Depois a gente viu que era bem diferente. A partir do momento que você tira a criança dos pais, você tem que dar uma atenção maior para elas, precisam de um tratamento psicológico, mas por conta desse depósito – eu considero como se fosse um depósito, porque tinha muita criança –, você não conseguia dar a atenção necessária para cada uma. Quando eu cheguei era uma coisa um pouco sinistra. Depois com mudança de diretoria, com ECA, eles foram deixando as crianças terem mais influência. Acredito que, por conta da demanda de muitas crianças, não tinha condições financeiras também para poder ter toda aquela estrutura.

Foi bem complicado esse reencontro com a minha mãe. Mas eu acredito que o perdão é libertador. Agora eu sei que minha mãe tem um défice, eu consigo entender os motivos dela. Ela tem agora uns cinquenta e sete anos, mas a mentalidade de uma criança de dez anos. Antes da gente querer julgar, temos que ir atrás do que ela tem, então agora eu entendo tudo e a gente se perdoou. Eu ajudo ela, porque eu sou uma mediadora social, ajudo a comunidade, e eu ajudo a minha mãe também.

Eu lembro até hoje o nome da professora, o nome dela era Djanira e ela ensinava muito. Eu tinha um carinho enorme por ela. Por conta da minha mãe ser um pouco ausente, eu conversava bastante com ela, e ela me ajudava bastante também. Ela perguntava, toda segunda feira ela perguntava como tinha sido o nosso final de semana. Ela dava uma atenção maior para cada aluno. Essa atividade marcava muito pra mim, porque eu acho que precisava daquela pessoa para conversar, para poder desabafar e eu tinha isso nela, tinha esse carinho por ela.

Eu tinha um sonho de ter uma festa de quinze anos e tinha uma colaboradora lá da ONG que tinha me apadrinhado. Ela conseguiu fornecer uma festa de quinze anos pra mim e para uma menina que morava lá também. E o Rodriguinho foi uma semana antes da festa. Eu tava lá no meu quarto, aí do nada alguém bate na porta e fala: "Posso entrar?". Eu olhei, não acreditei... Pulei da cama e fui correndo abraçar ele. Foi uma coisa muito emocionante. Foi sensacional, porque teve dia de princesa e eu era muito fanática pelos "Os Travessos" e eu gostava do Rodriguinho. Foi aquele conto de fadas. Eu dancei valsa, teve tudo que tinha direito. Eu me senti muito feliz, muito importante. Acho que é isso que também falta, você dar uma atenção maior. Graças a essa madrinha que eu tive no apadrinhamento afetivo. Eu tive essa atenção porque ela ia sempre, ela conversava, e realizou esse desejo.

Meu irmão Paulo tentou ser adotado quatro vezes. Na quarta vez veio um casal da Itália para adotar ele. Pra mim foi muito difícil. Quando ele foi para a Itália, me considerava como mãe. Ele estava com sete anos. Eu acredito hoje que foi bom, se ele tivesse aqui eu não ia conseguir dar essas condições para ele. Mas eu lembro como se fosse hoje. A família veio, ficou aqui durante uns três meses para adaptação. Eles foram bem atenciosos. Eu estava no fórum quando eles falaram que ele ia embora, e eu comecei a chorar, saí da sala. Ele tinha agarrado no meu pé e falou que queria ir comigo. Aí eu comecei a chorar e tudo. Mas eu acredito que foi para o bem. Agora graças a Deus ele está muito bem e eu me sinto muito feliz. Agora eu vejo que foi uma coisa maravilhosa para ele, que está se formando em Gastronomia lá e ele está hiper bem, e eu tenho contato com ele todos os dias pelas redes sociais.

Eu não saí do orfanato com dezoito anos, com pede a lei, porque querendo ou não essa também é uma coisa que marca muito qualquer adolescente que fica até a maioridade num orfanato. Às vezes o abrigo em si - porque não se chama mais orfanato - não tem essa estrutura de capacitar os adolescentes para poder se preparar para o mundo. Porque você viveu o tempo inteiro praticamente ali, numa gaiola, e de repente vai e tchau. Se vê a porcentagem das pessoas que moraram comigo e que tão bem estruturadas, são poucas. Tem umas que morreram, uns que tão morando na rua, uns que são usuários, então tem umas pessoas que não tiveram uma estrutura, um caminho para poder seguir.

Fiquei cinco anos na administração da ONG. Eu pude dar atenção para os adolescentes e ir atrás de cursos para eles, para poderem sair e ter essa autonomia, saírem já com emprego, ter um dinheiro. Ensinar eles. Tem aquele trabalho de formiguinha com aquela criança que se torna um adolescente para a fase adulta, para mostrar como é o mundo lá fora.

A gente dá aquilo que a gente recebe. Então você tem que entender qual foi a vida da sua mãe antes de julgar ela. Será que ela teve carinho? Será que ela teve mãe? E aí eu fui atrás da história da minha mãe. Ela morava lá na roça e essa família trouxe ela pra cá. Ela tinha aquele pessoal como a família dela, mas só que eles não eram, eles trouxeram ela para poder trabalhar. Ela tinha quinze anos. No meu ponto de vista aquilo era um trabalho escravo. Vai saber se davam um salário, se estruturavam realmente ela. Se ela tivesse uma estrutura, se alguém tivesse dado uma atenção maior, talvez ela teria conseguido se estruturar e atender os filhos de volta. Aí ela tem um problema, um déficit de atenção, então ela precisa de um tratamento. Talvez se tivessem visto essa deficiência da mãe, ela teria conseguido estruturar essa família de novo. Esse é o objetivo, a gente tem que ir mais a fundo daquela família para tentar entender quais são os verdadeiros motivos daquela negligência.

Foram coisas que foram acontecendo que foram me deixando mais empolgada para continuar. E foram histórias que eu fui ouvindo na periferia, que eu fui falando assim: "Eu não posso esquecer, eu não posso deixar para trás, porque existem centenas de pessoas que estão em um cenário pior do que o meu”. Com essas histórias fui me fortalecendo mais. Cada dia mais eu percebo que eu nasci pra isso, que eu tenho que conciliar a minha estrutura financeira com o projeto em si, para eu dar continuidade no projeto e conseguir alcançar mais vidas. E fazer a diferença na vida das crianças também, porque a gente tem o propósito também de não só fortalecer aquela mãe, mas fortalecer aquela criança.

O impacto da pandemia foi muito grande, porque existiam muitas mulheres negras que trabalhavam como informais. Com a pandemia elas tiveram um impacto muito grande na perda da estrutura financeira delas, elas tiveram que parar. Acho que noventa e nove por cento das comunidades que a gente atende estão vivendo de auxílio.

Pra mim a pandemia foi muito difícil, porque eu sou mãe, então eu tinha um trabalho que eu conseguia conciliar com a minha filha. Eu trabalhava três vezes na semana, em um horário que minha filha estava na creche, e os outros dias da semana resolvia as coisas de casa. Eu tinha uma estabilidade financeira e conseguia conciliar com o projeto da ONG. Com essa pandemia infelizmente foi finalizado o contrato. É muito difícil, eu gosto muito de ter a minha independência, às vezes se falta alguma coisa da ONG eu colocava do meu bolso, então foi muito complicado. Mas o que me reergueu foi eu saber que eu tenho uma filha, tenho que me estruturar psicologicamente. O que está me mantendo, nesse momento, é o auxílio. Eu sou uma das beneficiadas do auxílio emergencial. Eu estou conseguindo ter uma estabilidade mental por conta do auxílio, mesmo que seja pouco.

A missão da minha vida é fortalecer essas mães, eu acho que por conta também da minha história de vida, eu quero fazer diferente. E eu quero mostrar que as pessoas, às vezes, precisam de uma oportunidade para ter aquele case de sucesso. Porque às vezes aquela mãe periférica, negra, está ali e ela é boa naquilo que faz, mas ninguém sabe que ela é boa. Então ela acha que não é capaz de trabalhar, de ir para algum lugar, de crescer. Às vezes você conhecendo a história daquela pessoa consegue dar aquela oportunidade para ela. Eu consigo mediar. Então eu tento dar oportunidade para aquela mãe conseguir fazer diferente com os filhos, porque eu acredito que os nossos filhos são o futuro do nosso país, então a gente tem que dar aquela estrutura para aquela criança ser adulto. Tem aquela frase: eduque uma criança para não precisar punir um adulto.

Eu sempre sonhei em ter uma família, e a maternidade, para mim, prova o quanto você é capaz. A maternidade te fortalece, te mostra o quanto você é mais do que aquilo que você pode, ela te dá uma coisa libertadora. Acho que é um amor maior. Eu coloco minha filha em primeiro plano de tudo. Eu amo o que eu faço nas comunidades. E ela é uma coisa minha, eu falo assim: "Deus que me deu ela", porque foi uma coisa muito dolorida, foi tudo tão complicado, a gestação em si. Eu agradeço todo dia pela vida dela e, por incrível que pareça, ela me fortalece muito nas coisas que eu faço. Ela fala: "Mãe, você foi lá, hoje, você ajudou. Você fez isso", então ela é para mim o meu amor maior. Ela é tudo para mim.

Para mim ser uma mulher empreendedora é aquele ar de satisfação. Eu acho que uma mulher empreendedora consegue fazer a diferença na vida dos familiares dela, ela consegue conciliar a necessidade com as coisas que a gente mais almeja. Você sendo empreendedora, consegue conciliar os seus filhos, sua casa, sua família. Para mim é um sucesso uma mulher empreendedora. Não é uma coisa da noite pro dia, porque é um trabalho de formiguinha. A mulher não sabe o quanto ela é capaz. Mas a mulher também pode, basta ela querer, ter garra e conseguir que ela vai avante, consegue até ser melhor, fazer diversas coisas ao mesmo tempo, se organizar. Então ser empreendedora dá uma autonomia maior para mulher.

Eu gosto muito de ir nas comunidades, de ouvir as histórias, de estar por dentro da situação. Acho que meu propósito em si é ajudar aquela pessoa, ter aquele contato maior. Eu adoro, gosto muito.

Eu posso fazer diferença na Zona Norte. Acho que a gente tem que fortalecer a Zona Norte em si. Já tentei ir para outros bairros, mas eu sempre voltei, a Zona Norte é onde eu me sinto aconchegada. É a minha casa. Eu acho que a gente tem que estruturar nossa casa, então por isso que eu escolhi a Zona Norte para fazer um projeto, para fazer a diferença.

Eu posso fazer diferente, eu posso fortalecer outras mulheres através do meu depoimento. Mostrar para elas que a gente é capaz, mostrar que sim, ela pode. Existem diversos cursos que são gratuitos, que podem fortalecer e estruturar ela, dar o caminho. Olha, passo a passo. Como que vou fazer, como que planeja? Porque fazer planejamento é tudo. É um trabalho de formiguinha. Eu acredito que todas as pessoas possam. É só uma questão de oportunidade, de saber, porque existem muitas mulheres da periferia que não têm acesso. Então a gente tenta levar o acesso para elas.

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