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História

É que aí você vê se a mágica é boa

História de: Basílio Artério Sanchez
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2020

Sinopse

Por meio da narrativa do mágico Basílio Artério Sanchez descobre-se a origem do Museu do Bixiga, enquanto ele divide experiências como artista na rua, as suas impressões do público e o curiosidades do universo da mágica.

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História completa

P/1 – Basílio, conta pra gente sobre o Museu do Bixiga.

 

R – É, o Museu do Bixiga, ele procurou a gente pra poder fazer uma apresentação. E daí ele cedeu a sala pra fazer um curso. O curso seria pra arrecadar dinheiro, verba pra continuar uma revista que era editada trimestralmente. E com o dinheiro desse curso, eu falei pro Armandinho da minha vontade de fundar o Museu. Aí ele falou assim: “Você tem material?”. Eu falei: “Tenho". “Você quer fazer o museu?” Eu falei: “Queria”, só que não tinha o lugar. Aí ele arrumou o lugar. E divulgou muito, realmente, sabe, na época da inauguração apareceu em todos os canais de televisão de uma só vez.

 

P/1 – E esse museu ele tem o quê, especificamente?

 

R – O museu tem 400 fitas de vídeo sobre mágicos e mágicas do mundo inteiro.

 

P/1 – É um museu de mágica?

 

R – É, tem aparelhos, tem indumentária que pertenceram a vários mágicos de várias épocas do Brasil e do exterior. Tem material de mágico vivo e de mágico que já não está mais aqui. Tem 10 mil fotografias de "colecionadores que forneceram" e cartazes do ano de 1880 até hoje. Cartazes, pôsteres, programas de mágicos que vieram no Brasil e alguns de outros países. Tem endereços de loja e fabricantes de (mágico?) do mundo inteiro. Tem cartões de mágicos de alguns países, tem réplica de mágicas famosas, de levitação, por exemplo, de mulher serrada, mulher dividida em três... Tem 12 réplicas, né, de mágicas. E tem uma exposição pra leigos assim, que conta a história da mágica através de pôsteres; 100 pôsteres coloridos mágicos que fizeram apresentações no mundo todo de 1880 a 1968.

 

P/1 – E aonde fica esse museu?

 

R – Fica no bairro do Ipiranga, na Rua Silva Bueno.

 

P/1 – Que número?

 

R – 519, conjunto 42. Próximo do Museu do Ipiranga, quatro quarteirões.

 

P/1 – Hum hum, e funciona direto?

 

R – Funciona, ele inclusive saiu naquele livro do Marcelo Duarte, de endereços curiosos. É um dos endereços, dos 500 endereços que tem lá. A gente dá cursos também no Museu pra quem quer se iniciar na arte mágica ou praticar algumas mágicas, né? E mostra um mundo que é um pouco hermético. Hoje não é tanto pela internet, mas a gente mostra algumas coisas e caminhos pras pessoas que quiserem aprender, seguir. E outros que tiverem curiosidade em conhecer, por exemplo, a vida do David Copperfield, que é uma coisa que... ele é muito exposto, mas pouca gente conhece. Ele é um...ele produz muito mais do que muita firma brasileira, a receita dele anual é de 250 milhões de dólares. Então o entretenimento... ele é o terceiro em receita de entretenimento dos Estados Unidos, incluindo cantores, atores e peças de teatro.

 

P/1 – Basílio, voltando um pouquinho aqui pra São Paulo, no Centro da cidade, você já fez atuação de mágica ao ar livre ________? Como é que é isso? Como é que é a recepção do público? O quê que acontece? 

 

R – Já fiz. Um dos sonhos que eu tinha assim, até uns cinco anos atrás, era trabalhar na rua. Só que trabalhar na rua, pra você ir pedir dinheiro, eu não conseguia conceber isso pela minha condição, pelo que eu já... tudo. E um dia surgiu uma oportunidade, né, eu fiz uma proposta, mas já existia esse projeto, eu fiz um... uma proposta pra incluir os mágicos na Arte nas Ruas da Prefeitura, e o secretário de Cultura, o Rodolfo Condori, me aceitou; nisso, eu levei 18 mágicos lá. Além de mim, mais 18. E nós fizemos várias apresentações. Nós achamos que esse projeto é um projeto muito bonito e, inclusive, por causa dele, né, foi feito um espaço que tá lá na Consolação, que chama Espaço Mágico, pelos mágicos que começaram a trabalhar nesse projeto. E a gente fazia apresentação lá de sexta-feira e em outros locais...o projeto da Secretaria de Cultura que começou aqui no Centro, eu fiz aqui em frente da... foi a minha primeira vez em frente da Bolsa de Valores, aqui na Rua XV de Novembro, se não me engano,  com a Rua Líbero Badaró, o finalzinho ali tem um coreto. Foi minha primeira apresentação lá. E depois disso eles fizeram mais quatro anos de continuidade. Fazia no Centro e depois eles expandiram pra bairro, né. Isso foi uma das formas que eu trabalhei na rua, eu achei muito importante. Eu acho que seria importante, hoje, a pessoa trabalhar na rua, não só o mágico né, vários artistas com algum patrocínio, não pelo patrocínio, mas pra ele ter a liberdade de fazer o que ele quer, não vender produto ou qualquer coisa. Fazer apresentação e lazer pra quem tá passando, pra quem vê, né. Eu acho que é importante isso. 

 

P/1 – E qual é a reação do povo em geral, com relação a essas apresentações?

 

R – A reação, é, assim, cinco minutos, eu falo primeiro, a reação primeiro da minha parte, da parte do artista é um desespero, né, porque a gente parece uma pessoa que tá falando sozinho. Falar sozinho parece fácil, mas só pra louco que é fácil [risos]. Então a gente, você fica fazendo as coisas e ninguém tá te vendo, então você... Eu acho que eu... não é que eu desenvolvi, a gente acaba adquirindo alguma experiência e técnica. Então eu acho assim, hoje se eu for fazer, apesar de eu ter  trabalhado no Bambalalão, cinco anos em televisão ao vivo, eu fazia apresentação, então eu tinha uma certa experiência. Só que a rua... lá tem luzes, tudo, é uma certa comodidade isso porque você é a atração do lugar, é fácil de fazer. No caso aí, a gente é a atração; só que ninguém sabe até então. Então você começa a fazer sozinho. Então os primeiros cinco minutos são difíceis no sentido de que você tem que fazer as coisas e não pode olhar no olho da pessoa, senão a pessoa não pára pra ver, elas estão passando, as pessoas... não tem pessoas paradas a hora que você começa. Então você tem que fazer num ângulo que você olha as pessoas olharem de longe. Mas até chegar demora esse tempo que eu falei, uns cinco  minutos.

 

P/1 – Você é um observador aí também, né?

 

R – É, a gente tem que observar com o canto dos olhos pra poder ter continuidade e fazer alguém parar na tua frente. É, quer dizer, eles não param diretamente, eles vão parando longe e depois vêm. Aí, depois desses cinco minutos, é fácil de dar continuidade porque aí existe um interesse mútuo, o interesse da pessoa que tá fazendo e o interesse da pessoa que tá assistindo, já existe uma ligação entre apresentação e a pessoa que tá vendo. Aí você já tem um certo alívio no sentido de ser uma pessoa que tá mostrando alguma coisa que seja útil, que não tá vendendo nada. Porque dá um conflito também entre isso. A pessoa pensa que vai vender alguma coisa que... Então foi uma experiência que eu acho boa, assim. Aí nós fizemos em outros lugares, na Liberdade, na feira da Liberdade, né, na Praça da República, no Largo do Arouche, na Avenida Paulista, que existem diferenças também, na Avenida Paulista em frente do MASP [Museu de Arte de São Paulo].... eu fiz. Eu achei boa a minha experiência de ter começado aqui, primeiro, porque aqui tem um público grande. Outra dificuldade é se não tiver público também. Na Avenida Paulista foi difícil assim, as pessoas passam, param, passam, mas param no início, assim, mais difícil do que aqui.

 

P/1 – Aqui tem um público que... mais diversificado talvez?

 

R – Mais diversificado, e acho que numa quantidade menor, o lugar é mais fechado e tudo isso aí eu acho que ajuda a ter uma congruência para que a pessoa pare e fique vendo alguma coisa. 

 

P/1 – E a reação desse povo?

 

R – A reação foi boa, né, inclusive veio a TV Gazeta, né, filmar, no fim assim, e ela fez entrevista com as pessoas e as pessoas acharam interessante porque isso é um novo valor, talvez, pro público, né, alguém fazendo arte sem pedir dinheiro.

 

P/1 – Hum hum. E vocês eram patrocinados por outras pessoas? Por outras empresas?

 

R – A Secretaria de Cultura que fez esse projeto eles pagavam bem até. Depois eu dei a ideia de fazer o mesmo projeto em casas de cultura e em bibliotecas. Mas só que o projeto ainda que eu dei foi assim: de o mágico fazer uma apresentação e falar como ele começou, e como ele fez a vida, e como que ele se aprimorou naquilo e o porquê ele... e como ele tá se sentindo como profissional naquilo. Por quê?  Porque muitas pessoas poderiam também escolher essa profissão, mas tem onde escolher... acontece só. Não tem como eles terem um caminho se eles não conhecem, não sabem como que é, não sabem como funciona. Todo mundo tem ideia de que mágica é de circo só, e circo é uma das especialidades que o mágico pode estar. Hoje existem milhões de outras.

 

P/1 – Tá certo então Basílio. Se você tiver mais alguma história interessante de mágica aqui pra contar aqui, relacionada ao Centro de São Paulo...

 

R – A história interessante que eu tenho aqui do Centro é aqui na Rua Quintino Bocaiúva, né, número... não sei o número, perto da Praça João Mendes morava um mágico que fabricava alguns aparelhos que só ele fabricava, que eu tenho alguns, né, ele chamava Carmélis, faleceu tem uns oito anos. Então ele fabricava umas plumas que alguns mágicos fazem hoje que se mostram as plumas assim, por exemplo verde, aí você passa num tubinho e ela fica vermelha, depois amarela e vai mudando de cor. Ele viveu a vida toda dele fabricando isso. Hoje não existe quem fabrique. Existem as que ele fabricou, né, que tem a marquinha dele, né. Então isso daí foi uma história curiosa, que eu vinha algumas vezes pra visitar, pra cobrar, outras vezes pra visitá-lo mesmo. E que eu acho que o Centro deveria ser cultivado assim pra ter muito entretenimento aqui, porque eu acho que tem muita coisa aqui que pode ser explorada... e fim de semana eu acho que é morto o Centro de uma certa forma, ele é bem...não tem muita atividade e tem lugar pra fazer todas as atividades. Aí vai ter estacionamento fim de semana, vai ter lugar pra pessoa andar, em ruas que normalmente em dia de semana não dá. Eu acho que poderiam ser desenvolvidos muitos projetos culturais tanto pras pessoas daqui quanto pras que não são virem aqui. 

 

P/1 – E o que você tá achando agora dessa abertura do Centro Cultural?

 

R – Achei interessante aí, inclusive eu vou fazer uma ideia que eu tive, né, pra poder dar se eles quiserem, que se faça alguma coisa do meio mágico aqui, como eu já vi no exterior em alguns países. Seria apresentação de mágica, conferência, mostra também de vídeo, mostra de trabalho, de fotografias de mágicos, essas coisas.

 

P/1 – Tá certo então Basílio. Agora pra terminar você dá um sumiço aí...

 

R – Pra terminar vamos mostrar como é que faz aparecer ou desaparecer alguma coisa.

 

P/1 – Isso, faz aí pra gente.

 

R – Como agora já é hora do almoço, deu fome, aí não tem o que comer, aí eu faço assim [pausa]. O anel desaparece. Mas tudo que desaparece aparece, é só bater aqui na cabeça. [pausa]

 

P/1 – Meu Deus do céu!

 

P/2 – Pode fazer de novo. [risos]

 

P/1 – Agora você vai fazer direitinho pra gente ver.

 

R - ______________ direitinho porque eu fiz bem devagarinho.

 

P/1 – Interessante!

 

R – Agora eu vou fazer com a moeda. Pus a moeda no bolso.

 

P/1 – A moeda já desapareceu!

 

R – Ó, a moeda é assim, a gente põe na mão. Vamos ver se eu faço direto pra câmera. Vou pôr na mão, assopro... e ela some. Aí eu tiro da onde? Da barba também [pausa]

 

P/1 – Ah, então pelo menos tira uma... pelo menos pra gente saber o truque qual é.

 

R – Você quer saber o truque? 

 

P/1 – Eu quero.

 

R – Você guarda segredo?

 

P/1 – Guardo.

 

R- Eu também [risos] [palmas].

 

P/1 – Mais campo, né?

 

R – É, não, mais naturalidade, então a ideia é assim ó: a gente mostra, depois faz assim... aí tira de onde você quiser, no caso eu vou tirar daqui. Devagarinho...

 

P/1 – Eu não consigo! Você mostrou muito rápido. ________________ (várias pessoas falando)

 

R – Então, eu fiz devagarinho.

 

P/1 – E você dá curso então?

 

R – É, faço curso... Você viu, mas se eu fizer... Então, vamos ver esse aqui ó, vou fazer bem devagarinho agora.

 

P/1 – Tá.

 

R – Ô Rita, fala ________ é, fala então ________

 

P/3 – É, já era, ta na outra mão. [risos]

 

R – A gente pensa que vê mas não consegue enxergar se não fizer direitinho. 

 

P/3 – A gente presume que esteja aí.

 

R – É, presume-se.

 

P/3 – Na verdade é isso, você é...

 

R – Então essa é a técnica, que já é um outro jeito de fazer, que é de outra forma que mostro assim, que eu tiro de onde eu quiser. Isso é uma outra técnica, um italiano que inventou isso. Quer dizer, foram inventando várias coisas durante 100 anos e hoje a gente usa as coisas que já existiam. É difícil de inventar uma coisa nova assim.

 

P/1 – Mas é... Eu perguntei como é que faz, mas quando deu aquela série do Mr. M...

 

R – É, o Mr. M, ele foi a mais...

 

P/1 – Foi assim... perdeu a graça!

 

P/2 – Ah, eu não acho!

 

P/1 – - Ah, eu achei!

 

P/3 – Na verdade...

 

P/2 – É que aí você vê se a mágica é boa... 

 

---FIM DA ENTREVISTA---




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