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História

"É preciso rememorar pra transgredir"

História de: Rosa Liria Pires Sales
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/07/2021

Sinopse

Origem da família e infância em São Paulo (SP). Período escolar. Trabalho como guardinha na adolescência. Professora e vestibulanda. Faculdade de Pedagogia e trabalho no Museu da PUC-Campinas. Preservação de patrimônio e visibilidade da periferia. Cultura afro, samba de bumbo, o legado de Alceu Estevam e parceria com o Instituto Anelo. Identidade e oportunidades para pessoas pretas. Orgulho das filhas.

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História completa

P1 - Boa tarde, Rosa, tudo bem?

R - Boa tarde. Tudo bem. 

P1 - Então, pra começar, eu gostaria que você me informasse o seu nome completo, o local e a sua data de nascimento.

R - Eu me chamo Rosa Líria Pires Sales, moro aqui na cidade de Campinas (SP). [Nasci em São Paulo (SP)], no dia 10 de março de 1967.

P1 - Qual o nome dos seus pais?

R - O meu pai se chama Jofre de Campos Sales. E minha mãe, Maria Ofélia de Campos Sales. Hoje, falecidos.

P1 - Os seus pais nasceram na mesma cidade onde você nasceu, São Paulo, ou eles vieram de algum outro estado ou cidade?

R - Os meus pais nasceram no estado de Minas Gerais, na cidade de Inconfidentes. E eles vieram depois pra São Paulo, onde nasci.

P1 - Qual era a ocupação dos seus pais, Rosa?

R - Eu vou tentar fazer um trajeto, que eu acho que é melhor, pode? Depois...

P1 - Pode.

R -   Meus pais nasceram no estado de Minas Gerais. Lá eles se conheceram, se casaram, tiveram quatro filhos, meus irmãos mais velhos, e criaram mais dois. E depois eles vieram pra São Paulo tentar a vida. Lá em Minas, o meu pai era sapateiro; minha mãe, empregada doméstica. E, assim, com muitas dificuldades, foi onde eles vieram pro estado de São Paulo. Aqui eles tiveram mais três filhos, no qual eu nasci. O meu pai entrou pra Polícia Militar e faleceu aos 38 anos. Eu, na época, tinha a idade de quatro anos. Então, a minha mãe nos criou com oito, dez filhos.

P1 - E como era essa infância em São Paulo, Rosa? Me conta um pouco do dia a dia da sua infância, como era na sua casa, com a sua mãe e os seus irmãos.

R - Quando o meu pai era vivo, a memória que eu tenho dele, a minha mãe saía pra trabalhar. Como eu disse, empregada doméstica. As minhas irmãs mais velhas também tiveram que trabalhar cedo, começar a trabalhar muito cedo. Então, quem cuidava de nós, os filhos menores, né, era meu pai. Então, eu tenho muita memória dele, por conta disso, porque era ele que tomava conta da gente. E, após o seu falecimento, aí eram as irmãs mais velhas [que cuidavam da gente]. Então, nós éramos criados com as irmãs mais velhas, mãe tendo que trabalhar, mãe tendo que ajudar, né, a criar os filhos, que sempre foi guerreira, sozinha. Então, era um cuidando do outro. A minha infância sempre foi com essa convivência com os irmãos. Então, como era uma família grande, de vários irmãos, as nossas brincadeiras eram em casa. As nossas brincadeiras eram sempre entre nós mesmos. E aquele cuidar. Um cuidar do outro. Então, aquelas brincadeiras normais de soltar pipa, de brincar de bolinha de gude, de jogar amarelinha, bola, pular corda. Essa foi a nossa infância.

P1 - Você se lembra da casa onde você passou a sua infância? Como ela era?

R - Lembro. O meu pai que construiu a nossa casa. Então, quando eles vieram de Minas tentar a vida... Logo que ele começou a trabalhar, primeiro veio ele. Aí ele entrou na Polícia Militar. E aí, com o tempo, quando ele conseguiu comprar um terreno, né, em São Paulo, na cidade de São Paulo, né, porque primeiro a gente ficou na cidade de São Paulo, aí a minha mãe veio, com os meus irmãos mais velhos. E aí o meu pai mesmo fazia a nossa casa, ele construía a nossa casa. Então, primeiro, eu lembro dessa minha casa de infância, é: um quarto, sala, cozinha, banheiro, onde moravam doze pessoas. Então, essa foi a minha vida, assim, essa memória que eu tenho dessa minha casa. Depois, com o passar do tempo, o meu pai também foi conseguindo fazer uma outra casa maior, nesse mesmo quintal, mas ele faleceu no meio desse processo de fazer essa nossa casa. Então, aí vem algumas dificuldades, né, por conta da minha mãe. Mas nós, enquanto filhos e crianças, né, aí eu tenho isso na memória, de a gente ajudá-lo nessa construção. Então, ele mesmo fazia os tijolos, eram os adobes, né, na época, que a gente falava. A gente ajudava, mesmo pequenininhos. Eu tenho na lembrança da gente carregar as latinhas de tinta e ajudá-lo a encher aquela fôrma dos tijolos, pra preparar os tijolos, então, e depois fazer. Erguer a parede. Então, a gente lembra, mesmo brincando, mas lembra também de estar ajudando essa construção, né, a erguer a nossa casa. Essa eu tenho na memória, muita, assim, da minha casa, por conta disso, porque nós erguemos. Nós o ajudamos a erguer a nossa casa, até o momento que ele era vivo. Então, a gente lembra de carregar tijolo. É que tudo, pra nós, era uma brincadeira. O terreno era [uma] descida. Então, quando chegava o material, ou chegava areia, ou chegava alguns tijolos, a gente lembra dele fazer um corrimão de madeira, né, e a gente de cima, empurrava os tijolos pra ele lá embaixo, pra ele poder ir erguendo a casa. Ou então alguma latinha de areia. Não era nem lata, porque não tinha como escorrer, mas eram umas bacias, assim, meio retangulares, que a gente enchia aquela bacia e deslizava pra ele lá embaixo. Quando não, a gente brincava, subia nas bacias e saía escorregando com as bacias. Então, era trabalhando e brincando. Para nós, era divertimento fazer aquilo. 

P1 - Em que bairro era essa casa, Rosa?

R - No Jabaquara. São Paulo, perto do aeroporto. Então, eu tenho também a memória, o som do avião, né, passando, porque o avião passava, então a gente... Era constantemente aquele barulho do avião. Da minha casa, a gente via o aeroporto. Tinha as torres também. Então, essa memória eu tenho, bastante, de lá. E já voltei, com o tempo, levei as minhas filhas pra verem onde eu morei.

P1 - Você tinha algum sonho de infância, de ser algo quando você crescesse?

R - Sempre tive um sonho de infância, que era ser professora. O meu sonho era ser professora. E consegui. (risos)

P1 - Você gostava de brincar disso quando você era criança também?

R - Muito. Eu tenho... Quando eu falo da memória, lembro de uma gata que eu tinha. Então, mesmo eu não sabendo ler e por a gente ter irmão mais velho, né, já tinha aquela coisa de ver livro, de ver os cadernos, porque era uma coisa que a minha mãe e o meu pai sempre diziam pra nós, né, enquanto crianças, que eles não tiveram essa oportunidade com a educação. Do ler, de escrever. Que a minha mãe era analfabeta, ela não frequentou a escola. Mas nos criou, né, dessa forma. Então, ela dizia assim: “Eu não sei ler, mas sei ‘entreler’. Eu não tenho a matemática, mas vale mais a prática do que a matemática”. Então, a gente foi criando com esses ensinamentos. Ela dizia que, apesar de nós todas, a maioria dos filhos serem mulheres, nós, as irmãs, mas que ela iria nos dar essa oportunidade para o estudo. Então, mesmo assim, a gente, as minhas irmãs estudavam, mas também trabalhavam. Então, a gente tinha esse contato, delas. De assim, eu, enquanto a menor, a gente via, eu via os cadernos [e] os livros. Então, eu lia pros gatos, pro meu gato, que eu tinha. (risos) Então, mesmo sem saber ler, mas eu abria os livros e contava umas histórias, aquela coisa de imaginação. Mas então é dessa forma que aquilo ia me encantando. Eu queria ser professora, queria ensinar. Não sei o que, mas eu queria ensinar. Então, eu fui nessa infância, assim, né: “O que eu vou ser quando crescer? Professora”.  Era isso. Foi um sonho. Foi assim.

P1 - E você gostava de histórias? Alguém te contava histórias, nesse período?

R - A gente, família, como ficava muito em casa, ouvia muitas histórias, histórias de família mesmo. Porque eu lembro de rodas. Por isso que eu falo que eu tenho essa memória do meu pai. Porque a gente sempre esteve juntos. Então, a família [é] muito grande, a gente sentava muito em rodas de conversas. Então, era você estar em casa com a família e você ouvindo essas histórias. Histórias mesmo da família. Vamos dizer, os pais contando a vida deles. A história de vida. Então, a gente tinha muito essas histórias de vida, né, de ouvir falar do avô, ouvir falar dos avós, de tias. A luta diária da vida, né, quando eu falo essas histórias de vida. Mãe contando as dificuldades deles. Depois, mais tarde, o desenvolvimento de toda história. A vinda de cada irmão. Então, essas histórias que a gente ouvia. Porque mãe, como eu disse, não sabia ler. Então, as histórias que ela nos contava eram as histórias da realidade, histórias de vida. Então, foi assim. As histórias, mesmo, depois, de contos, é quando nós entramos pras escolas e começamos a ter o contato com as histórias, vamos dizer assim, bibliográficas. Aí, sim. Mas era ____ cantigas, né?

P1 - Então vieram outras pessoas... Desculpa.

R - A gente lembra, assim, de muitas cantigas. Então, é mãe que ensinava a gente a brincar, a cantar. A gente ouvia essas... Daí a gente fala, esse lúdico. O lúdico nosso era esse, é como pular amarelinha, escravo de Jó. Você estar jogando a bola e tinha cantigas de bola. As cantigas de pular corda. Então, foi isso que a gente foi ouvindo.

P1 - E vieram outras pessoas da família de vocês, de Minas pra São Paulo, depois?

R - Não. A maioria dos tios, a minha mãe também… O meu pai tinha quatro irmãos. Três irmãos, pro lado do meu pai. E a minha mãe casou muito cedo. Eles se casaram muito cedo. E a minha mãe, sim, pro lado da minha mãe eram uma família grande, eu acho que de seis irmãos. Então, quando ela veio, ficaram as irmãs, né, lá, que ela só teve um irmão. E o meu pai, quando ele veio, quando eles vieram pra São Paulo, já tinha um irmão. O irmão veio depois dele. Um faleceu, lá em Minas. Que é onde, que quando, eu tenho esses... Como eu falei, que a minha mãe criou mais dois. Eles criaram esses dois sobrinhos, antes mesmo do casamento, porque era o irmão mais velho. Então, assim, logo que eles se casaram o meu pai pegou os dois sobrinhos e aí eles começaram a criar. E depois que vieram os filhos. Então, a minha mãe já [se] casa com dois filhos, por parte de meu pai. E aí...

P1 - E eles vieram com vocês, pra cá?

R - Aí vieram com nós pra cá. Eles eram em quatro irmãos. Esse lado desses meus dois primos, eles eram em quatro irmãos. Aí a mãe [deles se] separa do pai, traz com ela dois filhos menores e deixa os dois maiores. Mas os maiores, na época, que são esses meus irmãos de criação, irmãos-primos, um tinha acho que quatro anos e o outro três. E os outros dois que ela leva, eram menores ainda. Então, eles se desencontram. Passaram a vida toda... Depois, ela veio embora e não teve, eles não tiveram mais contatos. E aí, então, o meu pai vem pra São Paulo. E o engraçado é que a gente consegue encontrar esse primo-irmão, há quatro anos que nós encontramos esse irmão de um primo. Então, eles ficaram quase quarenta anos sem se ver. E aí a gente consegue encontrar um. Aí, quando ele já encontra esse outro irmão, que veio com a mãe, a ___ (áudio falhou) tinha falecido. Então, a história é meio complicada, assim, da família. Mas foi bem assim.

P1 - E pensando na sua vida escolar, Rosa, qual é a primeira lembrança que você tem, das suas idas pra escola? Como era?

R - Eu tenho na minha memória - acho que a gente nunca esquece, né - a minha primeira professora. Eu entrei, fiz o antigo jardim, que é o pré, que eles falam. Então, eu lembro dessa minha professora, a professora Ivete.  Aí eu tenho uma história bem engraçada aí [de] quando eu entro na escola. Não é bem engraçada. Mas é um dos motivos que mais tarde a minha mãe leva uma frase pra mim, quando eu falo que vou ser professora. No meu primeiro ano escolar, quando eu entro pra escola, eu não gostava de ficar na escola, queria vir embora. Então, era uma luta pra minha mãe. Me levava pra escola, dali... Era aquela criança chorona, né, que chegava na escola, mas não queria ficar, fazia birra. Não queria entrar, queria vir embora. E eu não queria ficar, de jeito nenhum. Eu queria ficar em casa com as minhas... Em casa. Porque a gente sempre viveu, ficou muito em casa. Então, o primeiro dia que eu fui pra escola, o primeiro dia eu fiquei. Já no segundo, eu não quis ficar mais. No terceiro, de jeito nenhum. Então, mãe fazia toda aquela coisa, aquele carinho: “Você fica. A mamãe vai ficar aqui fora te esperando. A mamãe vai ficar meia hora”. Isso, dizia ela, que levou semanas. Até que, num determinado momento, eu fugi. Fugi e vim embora. Fugi das professoras e vim embora. A minha mãe estava trabalhando. E aí, ela chega em casa, eu estava em casa. Porque eu acho que a escola deve ter ligado e tê-la avisado que eu tinha sumido. E ela vai pra casa, eu estava em casa. E, quando ela chega, eu tomo uma 'pisa'. Ela me pega, me leva de volta pra escola (risos) e não podia sair: “Chega de manha, chega disso. E vai ficar aí!”. Foi bem enérgica, mesmo, né, naquele momento. E daí eu fiquei. Aí, mais tarde, ela fala: “Naquele tempo, você teve que apanhar pra ficar na escola. Agora, você vai ter que apanhar de novo, pra sair da escola?”. (risos) Porque eu… E é o que as minhas filhas falam hoje pra mim. “Agora, a vó precisa voltar em terra, né, pra poder dar aquela surra, pra senhora sair. Porque ficou trauma, ali na infância. Agora está precisando”. Porque eu aposentei e não consigo sair. (risos) Eu aposentei e continuo trabalhando, então é onde que elas falam: “Precisa trazer a vó de volta. (risos) A senhora ficou traumatizada ali”. (risos) Então, essa é a minha memória sobre os meus primeiros anos de escola, que foi meio traumático, ali, pra mim. (risos) 

P1 - Depois que você se acostumou e continuou estudando, você tinha alguma matéria predileta? Algum professor no ensino fundamental, que te marcou, de alguma forma?

R - Olha, no meu ensino fundamental, eu tinha uma professora de História. Ela, assim, marcou. Mas eu acho que a que mais me marcou, pra eu querer ser professora, eu acho que foi, como eu falei, a minha primeira professora: a professora Ivete. E ali. Eu acho que ali, eu tenho muita memória dela. Engraçado que eu passei por todos. Mas quando a gente fala na pré-escola, ensino fundamental, ensino médio. Mas ali, aquela minha primeira professora, a professora primária, eu acho que é a que mais marcou. Pelo fato dela, assim, esse cuidado com nós, crianças, sabe, pequenininhos, de cinco anos, aquela paciência. Fazer com que a gente se sentisse seguro, em acreditar [em] nós. Eu lembro que também, quando eu estava no primeiro ano, essa professora primária, que eu já estava escrevendo, eu tenho até memória dessa cartinha. Então ela manda a gente, cada um, escrever uma carta, fazer um relato. Eu lembro que, nesse meu relato, falava do meu futuro. E muito louco. Porque eu dizia que eu queria ser... Eu queria crescer e, quando crescesse, queria ter uma família e eu queria ser uma boa mãe. E eu queria ser igual a minha mãe. Então, eu dizia isso, nessa carta. E, numa reunião, que isso que me marcou e eu jamais ia imaginar que, naquele momento, nessa reunião, que foi uma reunião do Dia das Mães e eu vejo a professora lendo essa minha carta, né, pras mães. Então, aquilo me marcou. Porque aí eu falo: “Poxa vida, lá atrás eu queria ser, vamos dizer, hoje em dia, uma dona do lar”. (risos) Eu queria casar, ter filhos e criar meus filhos. Porque, pra mim, o meu exemplo era a minha mãe. E hoje mudou. Não, eu quero ser a professora. (risos) Não quero mais. Então, isso, assim, foi bem marcante pra mim. E aí eu lembro desse orgulho da minha mãe, né, de quando ela lê a carta e fala que quem tinha escrito era eu. E as lágrimas escorrerem. Ela [passa a] saber, nesse momento, que ela era a minha ídola. A minha mãe. Então, isso, assim, foi o que me marcou muito, assim, na minha vida escolar. Esse prazer daquela mãe que dizia o tempo inteiro, assim, pra nós: “Eu sou analfabeta. Eu não sei ler, não sei escrever, mas eu não gostaria que as minhas filhas... Eu vou permitir que as minhas filhas consigam ler e escrever”. Quer dizer, a educação. Já, lá naquele tempo, ela dizia o quanto era importante a educação. Então, eu acho que eu fui movida por isso. Vim movida por isso.

P1 - E de qual matéria você gostava mais, Rosa? Alguma coisa que você achasse muito boa, você se dedicava mais? Tinha alguma?

R - Então, eu gostava muito da História. História. Mas também eu gostava muito de Matemática. Das Exatas. Então, eu acho que, assim, na verdade, eu sempre fui boa aluna. Eu sempre gostei de estudar, né, gostei de ler. Então, não tinha uma disciplina que eu poderia dizer: “Ah, eu não gosto dessa disciplina”, pelo menos lá na infância. Quando você vai crescendo, aí tem algumas que você já não quer. “Ai, agora eu não quero mais Matemática, porque eu não vou dar conta de fazer cálculo”. Quando vai ficando difícil, aí você não quer saber mais daquela. (risos) Você quer ficar, vamos dizer assim, mais nas Humanas. No meu caso, aí eu já gostava mais das Humanas, já tive a tendência pras Humanas. Então, já era mais História, Geografia e o Português. Gostava bastante, também, da Biologia. Mas quando era coisa muita coisa de Exatas: Física, Química, aí já não gostava muito, não. Fazia porque, a gente dizia: “São códigos, vamos decorar os códigos. Aí a gente aplica a fórmula”, então era pronto. Mas não... Era mais isso.

P1 - E avançando um pouco pro seu ensino médio, Rosa, você mudou de escola? Como foi a experiência do ensino médio pra você? 

R - Então, aí eu fiz, vim pra Campinas. Eu saio de São Paulo. Depois eu vim morar na cidade de Campinas. Então, lá eu fiz até o oitavo. Estava terminando o ginásio. Aí eu venho pra Campinas e faço o último ano do ginásio. Mas aí, até então, eu já estava já com essa preocupação de fazer o Magistério. Então, quando a gente vem pra Campinas e vem morar em Campinas, aí o meu pai já era falecido. A minha mãe teve que vender a nossa casa em São Paulo, porque a gente não tinha condições de terminar de construir. Ficou a construção pela metade. Então, a minha mãe vende. Aí ela vem, nós viemos pra Campinas. E quando a gente chega aqui em Campinas, o engraçado foi que a minha mãe, ao trabalhar, ela começa a trabalhar numa escola. Ela vem e começa a trabalhar na cantina da escola. E a cantina dessa escola foi a cantina onde eu vim terminar o ginásio, porque era no bairro. Aí eu venho pra Campinas, venho morar no bairro, no Nóbrega, na Vila Padre Manoel da Nóbrega. E aí ela começa a trabalhar na escola do bairro. A Mário Natividade. E onde nós, eu termino o meu ginásio. Depois tem a minha irmã mais nova que vem e termina o ginásio, também. E ali a gente teve outros professores também, que acabou a gente fazendo um contato, tanto mãe, quantos filhos. Porque além dela trabalhar ali, ela tinha os filhos, nós, ali também. Então, a gente já era conhecido, tanto pelos professores, quanto pelos diretores, né, pelo diretor da escola. E o engraçado foi isso aí, também. Porque aí eu faço o ensino, termino o ginásio e já, também, ao mesmo tempo, a gente trabalhava. Eu já começo a trabalhar, também. Porque aí eu já venho pra Campinas, termino o ginásio. Mas, ao mesmo tempo, eu já entro pra Guardinha, né, a antiga Guardinha. Então, eu faço… A Guardinha seria um patrulheiro também. Tinha, na época… A gente começou a trabalhar cedo. Então, tinha a Guardinha e tinha o Patrulheiro. Eu entro pra Guardinha. A minha irmã mais nova, não. A mais nova não tinha idade para a Guardinha, então ela ajudava a minha mãe nessa cantina da escola. Eu trabalhava pela manhã, durante o dia, e estudava à noite. E a minha mãe ficava até a noite na cantina, pra que eu pudesse ir, estudar e ela voltar comigo, ir embora, pra eu não vir à noite sozinha. Aí, quando eu termino o ginásio, eu falo pra ela que queria fazer o Magistério, eu queria fazer o colegial. Porque, antigamente, o colegial se formava, o antigo Normal. Então, eu queria fazer o Magistério. Eu teria que sair do trabalho, né, da Guardinha, porque aí o Magistério era durante o dia. Então, aí a minha mãe fala: “Tudo bem. Então você vai, faz o Magistério que você quer”. E eu continuo a ajudá-la na cantina. Aí eu começo, também, a trabalhar na escola, junto com ela. Então, o nosso ganha-pão acabou sendo ali, naquele lugar. Então ficava: era a mãe que trabalhava, era eu, minha irmã e o meu irmão mais velho. Mas, até então, as minhas irmãs já estavam casadas. Então, tinha só nós, mais novos. Foi assim que foi, que eu consegui fazer o Magistério. E quando eu termino o Magistério, na época, no terceiro, que é o colegial, né - vamos dizer, então, no terceiro ano colegial - eu já tinha formação pra dar aula de primeira à quarta série. Porque o quarto ano seria a pré-escola, a formação para a pré-escola. Então, no meu terceiro ano do Magistério, eu já pude estar dentro da escola. Surgiu um programa, que era [de] estagiários. Na época, era escola do Estado. E aí eu fiz inscrição pra estagiar. Eu consegui esse estágio na mesma escola onde eu terminei o meu ginásio, onde a minha mãe trabalhava, [para] estagiar. E ficar... Estagiar é você assumir uma sala de aula. Então, eu lembro que, quando fui assumir essa sala de aula, eu era ‘de menor’, eu tinha dezessete anos. Ia entrar pra uma sala de aula ‘de menor’, uma menor [de idade] cuidando de outros menores. Então, na época, a delegacia de ensino deixou eu dar aula, mas com uma condição: de que a minha mãe assinasse a responsabilidade. (risos) Então, aí a minha mãe dizia: “Poxa vida, eu não tenho um diploma e vou assinar pra minha filha poder dar aula”. Então, sabe, é essa que eu falo, essa ligação é muito forte pra mim. Aí eu tenho, lembro também, nesse período, o meu primeiro dia. Que eu estou lá na minha fila com os meus alunos, que eu vou pegar esses meus alunos. Aí eu tenho a imagem (choro) da minha mãe, né, de braços lá, cruzados. E eu naquela fila, pra pegar essas crianças e subir pra sala de aula. São dois sonhos realizados, né, com dezessete anos. Então, a minha vida começa aí. Já comecei a [me] emocionar, lembrando.  

P1 - Não tem problema. (risos) Mas me conta um pouco como foi essa questão da Guardinha que você comentou. Explica pra gente o que era.

R - É como hoje em dia são os Jovens Aprendizes. Você não pode trabalhar ‘de menor’, então você entra na Guardinha, que eles vão te aperfeiçoar. Então, ali você aprende datilografia. Você aprende a lidar com coisas de escritório: arquivos, fichários. E aí eles têm um convênio, tinham convênio com algumas empresas, né, com algumas instituições, onde o menor ia trabalhar. Ele poderia. Depois de você estar formado, nesse momento que você estava nessa Guardinha, né, eles indicavam você pra ir pra alguma instituição, trabalhar pra alguma empresa. Então, você podia fazer Banco, serviço de Banco, na época. Você fazia alguma coisa de escritório, datilografia, fazer cartas, várias coisas, assim, dependendo desse local de trabalho. E a Guardinha era responsável por esse menor. Então, no meu primeiro emprego, enquanto Guardinha, eu fui trabalhar no escritório. Num escritório que eu digitava muitas cartas, eram cartas de cobrança. (risos) Então, era um escritório e eu era a datilógrafa. Eu tinha essa agilidade pra datilografar. Depois, com o tempo, dali eu fui trabalhar – muito louco. – no antigo jornal "O Diário do Povo", trabalhei dentro de uma redação, junto com jornalistas. Então, são experiências que você vai adquirindo. Eu tive contato com jornal e com esses profissionais de jornal, os repórteres, né, na época. A gente, além de ter esse trabalho que a Guardinha nos ajudava, lá no lugar de trabalho, você tinha essas outras experiências. Até na época que eu trabalhava, eu falei pra eles - foi quando eu saí, né, e fui fazer o Magistério -, os jornalistas, os repórteres, jamais iam imaginar que eu ia abandonar aquele espaço, porque eles já estavam... Eu estava ali com os meus quinze anos, mais ou menos, de catorze pra quinze anos, eles já diziam: “Não. A sua formação vai ser repórter. Você vai ser jornalista”. Então, sabe, era um lugar que também eu era acolhida ali. Eles me ensinavam: “Aqui é matéria policial, é assim que faz. Aqui é matéria local. É horóscopo”, sabe? Então, eu via, eu tive, assim, uma boa experiência, porque você está num jornal… Eu via fazer o jornal. Eu sabia como digitava as letrinhas do jornal, as laudas dos jornalistas. Às vezes, eu digitava as laudas pra eles, porque tinham as matérias que eles iam a campo, né, fazer as entrevistas. E, quando eles chegavam, deixavam os registros ali. Às vezes, eu sentava e digitava as laudas pra eles, adiantava o serviço, sabe? Então, eu tive esse contato. Mas, mesmo assim, eu falei: “Não é pra mim, ser jornalista. Eu quero é fazer o Magistério”. Então, a Guardinha era isso. Era o que hoje a gente chama dos Jovens Aprendizes, que você primeiro vai, né, eles te dão uma base, depois te indica aos empregos, aos lugares, faz uma indicação. Porque aí você é ‘de menor’, você não poderia [trabalhar], na época. Então, eles acabavam, na época, sendo responsáveis por nós. Pra gente poder continuar trabalhando, ter um salariozinho. O bom da Guardinha, na época, é que a gente recebia um salário. Mas um salário ficava com a gente e o outro salário era uma conta poupança. Então, quando eu saí da Guardinha, eu tinha uma poupancinha. (risos) Foi muito bom. Foi um incentivo pra nós, na época. Não sei se hoje tem. Eu sei que tem o patrulheiro, mas eu não sei se é a mesma forma. Mas, na minha época, foi assim.

P1 - E voltando pra sua experiência, pro seu início de experiência aos dezessete anos, como professora, como você se sentiu no primeiro dia de aula, quando você entrou na sala e pensou: “Bom, agora eu tenho que dar aula pra essa criançada”? Como foi isso?

R - Nossa, a gente é super insegura. Apesar de que, quando a gente faz o Magistério, a gente tem estágios. Você tem os estágios. Tem momentos que você tem que administrar as aulas, tem que ser o professor da aula, né, que está ali com a sala. Então, é que o primeiro momento, quando a gente entra, você está naquela insegurança. “Será que vai dar certo? Será que eu vou controlar? Como é que as crianças vão ser?”. A gente tinha muito aquela coisa das crianças indisciplinadas: “Será... Como vai ser a indisciplina? Como é que eu vou lidar com aquela criança que não quer parar sentada na cadeira?”. Porque, pra nós, foi uma educação, assim, né, muito certinho, muito respeito, muito “não levanta”. Só que, pra mim, eu acho que foi tranquilo, no momento, porque eu sempre fui aquela professora que gostava de dialogar. Eu não era uma professora - eu não sou, né, na verdade, eu não sou - que fica sentada atrás da mesa e dali você... Eu sempre fui uma professora de caminhar pela sala. Gosto de ver o que [o aluno] está fazendo. É sentar perto, é estar junto, é estar tirando as dúvidas no momento. Então, ali, na verdade, eu acho que eu não dava muita trela pros alunos dar tempo de levantar, porque eu estava, já, circulando. Eu já estava ali no ato, acompanhando. Então, eu já pegava de longe. Pra mim não foi, assim, muito difícil lidar com a criança. Porque era... Eu sempre peguei o ensino fundamental. Então, no meu primeiro momento, foi isso. Foi, vamos dizer, hoje, um segundo ano. Hoje seria um segundo ano, uma segunda série. Aí eu também já conseguia lidar com aquela questão da criança que não queria ficar em sala de aula, porque eu passei por isso, sabia o quanto que era (risos) eu não querer ficar na sala, aquela insegurança. Então, eu sempre tive esse afeto, né, esse carinho de trazer, da compreensão: "Vamos lá entender o porquê". “Ó, a escola não é um bicho. O professor não é um bicho”. Então, sabe, aquela coisa da conversa, né, do diálogo. Então, eu sempre fui assim. E pretendo continuar, (risos) porque por enquanto está dando certo.

P1 - E você continuou dando aula nessa mesma escola por muito tempo, Rosa? 

R - Não. Aí depois, ali, eu fiquei uns quatro, uns três anos. Porque aí eu [me] formei. Depois eu fui, me formei, fiz a pré-escola, né, que eu estava no meu terceiro ano. Fiz o quarto ano... Aí foi a pré-escola, me formei na pré-escola. E já, logo em seguida que eu me formei na pré-escola - a coisa parece que vem caminhando -, aí eu tive um convite de uma professora, também lá no último ano, que ela era, na época, coordenadora da prefeitura - ela era alguma coisa na área de educação, eu não vou me lembrar agora -, que estava começando a fazer a educação, que hoje a gente fala Educação de Jovens e Adultos (EJA). Mas era, na época, mesmo Educação de Jovens e Adultos, o antigo, antiga... Não vou lembrar o nome, vamos dizer Fumec (Fundação Municipal para Educação Comunitária). Só que ela tinha, está criando, iniciando a Educação de Jovens e Adultos, mas, ao mesmo tempo, essa professora estava nessa parte da educação, também tentando trazer essa mesma, vamos dizer, esse mesmo quadro, para o ensino infantil. Então, aí, como nós éramos as alunas do último ano da pré-escola, já estávamos nos formando, ela convida - eu estudava, na época, no Culto à Ciência - a nossa sala, porque só tinham duas salas, né, naquele ano, que iam se formar, dois quartos anos. Então, ela convida as alunas, quem queria participar desse programa, pra iniciar uma educação com crianças. Com essas crianças pequenas, de idade de pré-escola. E eu me inscrevi. Fui lá, dei meu nome, me inscrevi. E aí, sim, ela me chama. Eu começo, então, a dar aula pra pré-escola. Então, aí eu já estava com duas turminhas. Pela manhã, eu ficava, a gente fala, era o estado, a escola estadual e no período da tarde, eu ficava com a rede municipal que, na época, era essa educação, educação Fumec. Eu vou lembrar o nome, mais tarde eu lembro o nome. Que aí, depois, com o tempo, eu fiquei - então, eu já dava aula nesse período - dando aula nesse mesmo tempo. Aí o negócio começou a pegar. Porque eu tinha feito Magistério, mas eu tinha que fazer a universidade. (risos) Então, eu fiquei assim: me formei, aí eu dei aula, nesse período, no Magistério, com a formação do Magistério, mais ou menos uns dois anos. Aí eu vou começar a prestar o vestibular. Porque eu não queria largar, eu já estava trabalhando. E eu não queria largar, parar de dar aula. Então, aqui em Campinas, a gente tinha essas duas universidades pra Pedagogia, que eram a Unicamp e a PUC. Só que, nesse momento, que eu vou fazer o vestibular, como eu já tinha formação de professora do Magistério, então eu não queria fazer Pedagogia.  Eu queria fazer a Psicologia, porque lecionando eu já estava. Aí eu lembro que prestei vestibular pra Unicamp, e também PUC, né, que, na época, você vai, dá tiro pra tudo quanto é lado. (risos) Então, eu já fui logo me candidatar nas duas. No primeiro ano que eu presto vestibular e para Psicologia, aí eu entrei na Unicamp, em Psicologia. Mas, pra eu estudar na Unicamp, o curso de Psicologia era durante o dia e eu não ia largar mão do meu serviço. E aí eu disse assim: “Poxa, se eu entrei em Psicologia na Unicamp, eu também entro na PUC, porque é particular. Eu vou conseguir entrar.”, aí não consegui. Justo na PUC, eu não consegui. Então, eu perdi aquele ano, Psicologia. Falei: “Tudo bem. Presto o ano que vem”. Aí prestei novamente o vestibular, nas duas universidades. Naquele tempo, a gente olhava o resultado pelo jornal. O resultado saía no jornal, tinha que ficar procurando o nome ali. Prestei novamente. Aí, naquele ano, também entrei na... Não, aí eu não entrei na Unicamp e entrei na PUC. Aí, detalhe: eu queria Psicologia. Então, quando eu vou na PUC, aí eu olho a lista dos alunos aprovados na lista na Psicologia e eu não entro na PUC. Eu falei: “Gente, de novo! Dois anos e não entro na universidade pra fazer Psicologia?” e fiquei chateada naquela época, naquele momento que eu li o jornal. Aí veio uma amiga e fala assim pra mim: “Nossa, que legal, você entrou! Você vai estar na PUC. Você entrou na PUC”. Eu falei: “Gente, eu não entrei na PUC. Eu não consegui. Eu olhei, o meu nome não está lá”, “Não, você entrou!”. E aí vou eu olhar novamente a lista. Aí, quando eu vejo, o meu nome estava em Pedagogia e não Psicologia. O que eu tinha feito? Eu errei os códigos. Porque, na época, você colocava código. Psicologia eu acho que era 45 e Pedagogia, 44. Então, você põe a primeira e segunda opção. Eu inverti as opções e entrei justo na primeira, na Pedagogia. Aí eu fiz assim: “Eu não acredito, vou ter que fazer”. Aí fiz a matrícula. (risos) Fiz a matrícula e fui fazer Pedagogia. (risos) Aí eu falei: “Os caminhos vão levando a gente.”. E aí eu falei: “Agora eu vou fazer Pedagogia à noite”. E aí, justo, assim, no período da noite, então, eu consegui. Não ia largar o meu serviço. Olha como o caminho é. E uma universidade que paga, eu falei: “Tudo bem. Eu vou conseguir pagar”. E fiz a matrícula. Fiz a matrícula e fui fazer o curso da Pedagogia. E, nesse período, voltando já, novamente, na aula, lá, como eu estava dando aula e, nesse momento, a prefeitura tenta... Como que fala? Organizar esse profissional que estava dando aula, no meu caso, nessas escolinhas infantis, que não tinha, né, naquele momento. Então, ali começam a fazer concursos, concursos para professores na área de educação infantil. Porque até então, a prefeitura não tinha esse trabalho como a gente fala hoje, as Emeis (Escolas Municipais de Educação Infantil). Então, quando a gente dava aula, não era nem escola. Quando eu dava aula, nessa época, geralmente, a prefeitura, era em espaços cedidos. Então, às vezes, tinha uma casa, alugava uma casa. E aí ela alugava essa casa. Essa casa, a gente transformava na escola, então os quartos eram a sala. A gente via como que eram estruturas. Foi assim que eu comecei a dar aula na educação infantil, sem muita estrutura. Você tinha que se virar nos trinta ali, na época. Então, foi assim. Até que, com o tempo, veio se estruturando. Aí foram criando as Emeis, vieram fazendo as escolas de educação infantil. Então, nesse período, onde eu vim dar aula, foi na região que eu moro agora, na região do Florence. A gente falava Campo Grande. Quando eu comecei a dar aula aqui, pra essas crianças de cinco, seis anos, ainda era nesses lugarezinhos, em casas, às vezes eram barracões. Tinha esses barracões, então, centro comunitário. Então, a gente dava essas aulas nos centros comunitários, pra essas crianças. A prefeitura vinha com a merenda, vinha conosco, né, os profissionais que, na época, a gente não ganhava [tanto] quanto um professor. Era sempre menos, porque era como se a gente fosse estagiário, na época. Mas como era a prefeitura, você tinha que ter um vínculo. E, nesse período, a gente já estava completando, trabalhando dessa forma, eu acho que quase de quatro a cinco anos. E, com cinco anos, você pega um vínculo empregatício. E aí, o que aconteceu, nesse período? Não era só nós, né, assim, que eu falo, só eu. Tinha em vários outros bairros, também, professores assim. A gente fala os professores da rede. Então, quando a gente estava lá pra completar os seus quatro, cinco anos, todos nós fomos demitidos. E tivemos que prestar o concurso, pra poder você ter essa estabilidade. Então, nós... Eu prestei o concurso. É claro, passei no concurso. E aí, só que assim, você passa no concurso, aí eles dão vaga lá, você tem cinquenta vagas, trinta vagas, mas você tem quase mil professores concursados. Então, você vai sendo chamado. Até chegar o seu número. E, nesse momento, quando você não é chamado, você fica substituindo, faz um contrato. Então, eu fiquei nessa, na rede, durante quase vinte anos, assim, em contratos. Nunca fiquei sem dar aula. Ia lá, chegava o outro ano, não tinha o professor, a gente ia, assumia a sala. Ia lá o professor, ia assumir a sala. Até que depois, com o passar do tempo, foram construindo as escolas. Então, assim, eu tenho um orgulho muito grande, aqui na região do Campo Grande, porque quando a gente, quando eu iniciei aqui, que eu falo nesses barracões, nessas casas, a escola já tinha um nome, que ela [se] chamava Gasparzinho. Então, eu dava aula no Gasparzinho. Hoje, a gente fez uma luta muito grande aqui no bairro, enquanto nós, professoras e esses funcionários e até os pais, né, também, um movimento pra que se construísse uma escola, pelo menos essa escola de educação infantil. Então, aqui teve um terreno, a gente descobriu que tinha o terreno pra construir uma escola. A gente lutou muito pra esse terreno, lutou muito pra vir essa construção da escola que, hoje, a gente tem essa Emef Gasparzinho, que foi uma luta de lá atrás. Se a gente não estivesse aqui, os pais não tivessem, se a gente não tivesse brigado junto… A gente fala esse poder público que a gente tem, tem o poder público, mas se a gente não fizer um enfrentamento e não cobrar os nossos direitos, a gente não consegue. Então, é uma das coisas que a gente vinha fazendo, já, pelo menos na área da educação. Hoje, se eu vejo que tem a escola, pelo menos essa Emei aqui, Gasparzinho, é porque lá atrás, eu iniciei ali, de porta em porta, com mais outras professoras e, graças a essa professora minha no Magistério, que estava lá na prefeitura na época e que via a nossa luta aqui pelo bairro, pela periferia. Então, é uma coisa que a gente vai se orgulhando. Eu vejo: teve uma lutinha minha, ali, [e] de mais outras pessoas. E estamos aí. Agora, eu acho que eu me perdi. (risos) Eu vou e volto. São as memórias, são as memórias. 

P1 - Você não se perdeu, não. Eu só queria que você comentasse um pouco como foi essa experiência de fazer Pedagogia na PUC. O que mudou na sua cabeça? O que mudou na sua vida, durante a faculdade?

R - Olha, quando eu falo que o caminho vai nos levando, né, vai indo e a gente não sabe. Quando eu entrei na universidade, na PUC, no meu primeiro ano na PUC, o meu primeiro semestre, vamos dizer assim, o meu terceiro mês na PUC, como eu falei, aí eu volto lá [e] mandaram a gente embora. Naquele período, eu fiquei meio que sem sala de aula, só com uma escola do estado. Na época, a gente não ganhava tão bem, que desse pra eu continuar pagando a minha universidade. Quer dizer: eu perco o serviço e entro na universidade. E o que eu tenho, ainda não ia dar pra me ajudar pagar a universidade, né, ia ficar faltando. A gente fala: “Mas vamos lá”. Então, quando eu estou no meu terceiro mês de universidade, do primeiro ano, surge uma monitoria na universidade. Então, às vezes chamavam os alunos, quem queria prestar monitoria em algum lugar. E aí saiu uma monitoria num museu da PUC, era um museu e um centro de cultura e arte. E surgiu... Eles estavam querendo um pedagogo, né, um iniciante no curso de Pedagogia, os primeiros anos, pra prestar monitoria nesse lugar, nesse museu. E aí, então, eu vou, falei: “Que legal, eu vou lá ver como é que é. Monitoria já é uma bolsa. Então, já vai me ajudar”. Aí, então, eu vou pra esse lugar, pra esse museu. E foi uma coisa muito louca. Porque aí eu chego lá e você vai preencher uma ficha, vai conversar com esse seu coordenador, pra ele ver, porque ele vai fazer a entrevista com os outros alunos, que também se candidataram. Aí eu lembro que quando eu cheguei no museu, a minha coordenadora, a Valquíria, que era da área também da Pedagogia, porque aí, cada um, eles pegavam um monitor numa área, então eu seria o monitor junto com essa coordenadora, a Valquíria. E quando eu chego no museu, estava uma loucura ali, porque eles estavam numa montagem de exposição. E aí eu lembro que, quando eu cheguei, aí me apresentei e ela falou assim: “Olha, senta aí um pouquinho e espera, que eu já venho fazer a entrevista com você”. Aí eu sentei. E estava vendo esse movimento deles: monta aqui, monta ali. E aí, ao mesmo tempo, ela me explicava: “Olha, a gente está montando uma exposição. E essa exposição se chama 'Brinquedos e Brincadeiras Tradicionais'. E aí a gente tem que montar uma exposição. Eu preciso montar jogos, isso e aquilo”. E aí ela estava meio enroscada, porque ela queria, ela não conseguia fazer pipa.E na exposição tinha que ter pipas. E eu, graças a Deus, na minha infância, eu era 'moleque'. Os meus irmãos, acima de mim, eram meninos e eu sabia fazer pipa. Aí eu sentei e falei: “Se você quiser, me dá aí, que eu faço umas pipas enquanto eu aguardo você me chamar” e fiz as pipas pra ela. Fiz lá as pipas. Estava dando o meu horário, ela não conseguia me entrevistar, ela: “Volta amanhã”. Aí eu voltei no outro dia. No outro dia, ela já me deu uma outra coisinha pra fazer. (risos) “Monta a pipa. Olha, eu preciso pôr aquele menino empinando pipa”, que eu lembro que eram uns bonecos que ela tinha feito e tinha que pendurar a pipa num tal lugar, simulando que a criança, que o boneco estava empinando a pipa. Então, lá vai eu, pôr a pipa no alto, pro boneco de Valquíria. (risos) Então, aí foi indo. No outro dia: “Você volta”. Aí eu falei: “Poxa”. Estava conhecendo o ambiente, já. Porque, conforme eu estava lá, ela me apresentava: “Olha, aqui é o Museu. Aqui é o fulano”. A gente já ia tendo meio que uma conversa, assim. E aí eu lembro que, depois de mais de uma semana, indo e vindo, eu falei: “Olha, eu preciso saber se você vai me... Né? Se eu vou ficar, se eu não vou ficar, porque eu preciso ver...”. Ela falou, assim: “Tá, vamos conversar, sim. Mas depois que a gente conseguir abrir a exposição”. Aí eu falei assim: “Mas aí abre a exposição, vão me mandar embora e: ‘Ó, legal, foi bom você aqui’”. Eu disse comigo. Aí ela: “Não. Nós vamos”. Tá. Fui, vi, montou a exposição. Vi a exposição montada, participei também desse processo. Aí vou sentar com ela pra conversar, ela fala assim: “Não. Você já é monitora aqui. A sua bolsa, eu esqueci de te falar, mas já pedi pra encaminhar a sua bolsa lá pro departamento. Então só vamos discutir os horários”. Então, de manhã eu dava aula, né, conseguia dar aula no estado. Saía da escola à tarde, eu vinha, fazia monitoria no museu e à noite, eu ia estudar. Foi assim [por] um bom tempo. E foi aí também, nesse espaço, que por eu estar na área da Pedagogia e estar nesse espaço, um museu e também um centro de cultura e arte, que aí veio esse outro lado, mas não de uma formação acadêmica, eu digo assim, mas de uma herança cultural. Porque, eu estando nesse museu, aprendi, na área museológica, a questão da identidade, a importância da identidade, a importância de preservação, a importância de acervos, a importância de registros, a importância da conservação. E, na área do centro de cultura e arte, de arte, né, tive contato com as expressões artísticas. Então, eu via, eu presenciei coral, a dança, a música, um pouco da literatura, o teatro. Então, eu tive esses dois lados. Então, ao mesmo tempo que eu estava, a minha formação acadêmica voltada pra educação, aí eu falo, esse meu outro lado também, profissional, ele veio voltado pras questões culturais. E essa questão da identificação. Porque, no museu, a gente tinha, lá, um acervo da cultura indígena, a cultura africana e a cultura japonesa. Então, eu tive contato com essas linhas culturais. A gente fala a formação do povo brasileiro. E dentro, nesse outro lado, eu também tive contato com os antropólogos. Essa outra área, né, não só da educação. Então, foi um caldeirão pra mim, naquele momento, porque eu tinha contato com antropólogo, com sociólogo. Tanto, que nem eu digo, com a Valquíria, museológico, museu. A Pedagogia no museu. A formadora de museu, museóloga. Com os museólogos. Também tive contato com turismólogos, porque a gente fazia "tour" também. Porque, além, aí na minha vertente lá dentro do museu, com o passar do tempo, eu consegui uma bolsa, meia bolsa. Aí, depois, eu consegui uma bolsa inteira, no meu segundo ano de Pedagogia. No meu terceiro ano, eles já me contrataram como assistente cultural. Então, ainda, eu trabalhava, mas agora eu já recebia. E não pagava mais a universidade. Porque, quando você é funcionário, você não paga. Eu ainda ganhava o meu salário. (risos) Então, fui ficando. E eu não precisei sair da educação, continuei dando aula. No outro meio período, eu já estava também fazendo esse trabalho cultural. Então, eu trabalhava com as duas áreas ao mesmo tempo. E com essa ligação, ao mesmo tempo, a gente, nesse espaço, recebia a visitação de escolas. Então, por isso que era importante, eu digo, né, dentro desse lugar, dentro dessa instituição que, na época, aí, a gente começava a discutir essa instituição não formal. Então, você tem educação, mas também tem educação na instituição formal e na instituição não formal, e eu estava nessas duas linhas. Então eu, naquele momento, naquele espaço, era o profissional que fazia essa ligação. Porque eu estava nessas duas áreas. Então, eu tinha tanto essa linguagem formal e não formal. Quando eu estava, o museu recebia a escola, então eu tinha essa didática, vamos dizer, né, de como era e fazia essa ponte com os profissionais da área: “Hoje, você vai receber um grupo de terceiro ano”. Então, pra eles, você vai conseguir passar essa informação museológica, com essa linguagem: “Hoje você vai receber um grupo do quinto ao oitavo. Você vai receber um grupo de professores”. Então a gente, depois, passado um tempo, dava até formação pra professores, supervisores, vinham os professores e recebia os alunos. Quando a gente tinha essas exposições montadas, quando vinha essa visitação, eu que fazia esse meio de campo. E também, com o tempo, o museu começou a ir pros espaços da escola. Então, a gente não ficava só recebendo [as pessoas] lá [no museu], nós também íamos até a escola. Nós também íamos fazer essa visitação. E como eu estava envolvida já, na época, com o projeto "Brinquedos e Brincadeiras Tradicionais" e também com a história de Campinas, né, um "tour" histórico, que eu trabalhava junto com a turismóloga, né, que eu a ajudava, ao receber as crianças. Porque a gente fazia um passeio, né, pela cidade de Campinas. Mas [eu era] mais envolvida com o projeto "Brinquedos e Brincadeiras Tradicionais". Porque, quando eu entro com ele no museu, ele estava ainda em pesquisa, estava na linha de pesquisa, na linha de resgate, na linha de procurar essas brincadeiras que já não brincavam mais naquele tempo: amarelinha, o pular corda. A gente ia aos espaços, ao ambiente, pra brincar com as crianças. Então, qual era o ambiente? A região do Campo Grande. A gente vinha pra cá. Então, onde que é legal? Aonde que a gente vai encontrar crianças brincando, naquela época? A gente encontra na periferia. Periferia, a criançada está na rua. Então, ali a gente vai conseguir agregar a criançada na rua e brincar com elas. Ensinar e também aprender. Porque, como estava na pesquisa, então a gente ia pra esses espaços - a gente chama de pesquisa de campo. -, ensinava aquilo que a gente já tinha aprendido, ia passando pra outras e ia aprendendo cada vez mais. No final, a gente tem um livro. O museu publica um livro. E hoje, esse projeto, "Brinquedos e Brincadeiras", já é patrimônio imaterial. Na época, com a nossa professora, que estava à frente desse projeto, Regina Márcia Moura Tavares. Então, ele já é considerado patrimônio imaterial da cidade, também, de Campinas. E, com isso, esse projeto, quando eu falo dessa minha passagem nessa área e com esse trabalho aí, que era um dos trabalhos, a gente já teve, já foi apresentado, a gente já fez, eu já fiz muita coisa nesse processo. A gente montou o primeiro Eubrit, que é o primeiro Encontro de Brincadeiras e Brinquedos Tradicionais, que reuniu outros países. Montamos já exposições, trouxemos outras pessoas. Isso dentro da área museológica. Foi muito rico aí. E também... 

[Pausa]

P1 - Bom, então, Rosa, voltando à entrevista: eu gostaria que você comentasse qual a influência que teve na sua formação, na sua carreira, esse olhar que você teve, pedagógico, mas também museológico? O que isso influenciou no seu jeito de trabalhar?

R - Então, quando eu falo no pedagógico, no museológico e também a gente teve a linha cultural. Eu também tive essa parte cultural. Porque, quando eu trabalhei no museu, né, que aí eu falei, são as duas instituições, né, que foram ao mesmo tempo, tanto a área museológica, quanto também a área cultural. Então, na área museológica, eu aprendi, a influência foi a gente dar valor na preservação. Na preservação. O quanto é importante a questão da identidade, né, do conhecimento, vamos dizer assim: a gente pensar na nossa história, vendo o passado, né, pra gente poder entender o presente. Porque a gente vem de uma linha histórica. Então, eu acho que a questão museológica traz isso, quando a gente fala de uma preservação, quando a gente fala a questão de patrimônios. Não só o patrimônio material, mas também o patrimônio imaterial. Quando eu trago também a área, quando nesse espaço, também, eu aprendi a área cultural, o quanto é importante essa vivência que a gente tem. O que é cultura, o que as diferenças culturais se tornam. Entender essas diferenças culturais. Esse aprendizado que a gente tem, esse conhecimento que a gente traz das nossas raízes, das nossas origens. Então, isso, quando a gente leva pra questão pedagógica, quando a gente leva pra sala de aula, ela faz toda uma construção de um indivíduo, né, do ser, da pessoa, né, em se conhecer. A importância da sua história, pra sua formação. A gente tem a formação, como eu disse pra você, a importância pra mim, que foi essa minha formação acadêmica, mas também essa minha formação de vida. Essa herança que eu falo, essa herança que a gente traz desse aprendizado, dessa sabedoria, que não está só, quando eu falo, dentro do muro escolar, dentro dessa educação formal, mas também ela está fora, que é o que influencia. Então, a gente tem dois quintais: o formal e o não formal, dizendo assim. Aquilo que é aprendido em livros, mas também a gente tem aquilo que é aprendido dentro do mundo que a gente vive, né, ou da sociedade que a gente está. Então, as duas coisas, não dá pra serem desvinculadas. Então, nessa minha trajetória, eu, assim, tenho um orgulho, até, de dizer e agradeço por essas oportunidades. Porque eu vejo, agora, o tanto quanto é importante a educação estar alinhada com a cultura, com o fazer. Então, eu costumo dizer que a educação e a cultura é uma via de duas mãos, que uma alimenta a outra. Então, pra mim, isso que é essa minha experiência de vida, o quanto é importante e valorizar as duas. Porque uma se complementa.

P1 - Bom, Rosa, retornando, então, eu queria que você começasse a comentar sobre o seu primeiro contato com o Instituto Anelo.

R - Tá. Eu vou voltar naquela linha que a gente estava, da cultura e a educação. Aí eu entro na Anelo. Então, vamos lá. Quando eu falei da importância da cultura e da educação, na minha vida, aí eu também sempre procurei trazer isso para o meu ambiente. Então, eu moro na periferia. Sempre lecionei na periferia. Aí eu falo, na periferia, nessa região que a gente se encontra, na região do Campo Grande, onde que, assim, não tem tanta visibilidade.  Então, não tem tanta visibilidade e também tem uma dificuldade ao acesso. Quando a gente consegue fazer com que isso venha pra nós, pra essa região, essa visibilidade, então é um reconhecimento. Então, eu sempre procurei reconhecer esse espaço que a gente convive e de tanta importância que ele tem. Porque muitos não têm nem noção do quanto a periferia é rica nessa parte cultural, que temos fazedores, fazedores de cultura. Nós temos muitas pessoas envolvidas com a sociedade, de querer modificar. Eu não digo nem modificar, mas de empoderamento. A gente só não tem essa oportunidade. Então, é difícil, né, essa oportunidade da visibilidade. Então, quando lá eu começo com essa minha história e eu venho trazendo, ao mesmo tempo, eu também venho trazendo junto essas possibilidades, desses jovens que são capazes do fazer e que não têm essa oportunidade. Então, quando eu me vejo, agora, alunos que passaram por mim nas escolas, nessa região, e que hoje também trazem, com essa história de vida, essa experiência de vida, essas possibilidades. Então, quando eu vejo que tenho essa ligação, que eu vi quando o Lucas, que hoje é o presidente do Instituto Anelo, que ele também tem essa história dele de vida, né, de muita luta e que hoje ele está lá: que a gente vê que, na área cultural, a música transforma. E que ele, com todo esse potencial que ele teve, né, de trazer também pra essa região, essas possibilidades e dar essa oportunidade. E que hoje a gente tem, aqui na região, o Instituto Anelo, é de muito orgulho. É muito orgulho, porque a gente, eu vi essas crianças pequenas, né, esses, hoje, homens que estão aí, dando oportunidade para os outros que vêm vindo, a luta diária de cada um deles. Porque são todas umas histórias de vida sofridas, de muita luta, de querer conquistar. E da gente ver muitas portas fechadas, mas a gente, entre brechas, né, ir por esses caminhos, ir conseguindo abrir e abrir para outros. Então, o meu contato com a Anelo, o meu contato com essa instituição, vem disso, dessas possibilidades. Talvez, eu por eu ser um pouco mais velha que eles, né, e já estar mais aqui, além de eu ter todo esse trabalho com a educação, a gente também, eu também fiz parte... Quando eu falo desse meu conhecimento, o que isso me proporcionou, essas portas que foram se abrindo pra mim, principalmente nesse espaço, eu tive, principalmente, o contato com a minha identidade, com a cultura afro, né, que também foi nesse espaço, quando eu falo de eu me encontrar, de eu me achar, de eu saber quem eu sou. Então, nesse espaço, também lá, eu tive contato com a cultura afro, né, de um que entrou também no museu, pra trabalhar, que foi com o Alceu. Alceu José Estevam; que o Alceu foi o meu companheiro, né, de vida, pai das minhas filhas. Então, lá, o tempo que eu vou pra essa instituição, que eu entro nessa instituição e eu começo a trabalhar nessa instituição. Aí, logo em seguida, ele vem pra essa instituição também, trabalhar nessa área cultural, com o acervo afro. E, com ele, eu aprendo a cultura africana. Eu aprendo, com ele, as tradições africanas. Então, eu aprendo a dança; aprendo a música; aprendo os toques, a percussão. E, mais adiante, também nesse período, a gente, eu tenho contato com uma artista plástica, a Raquel Trindade. Raquel Trindade foi filha de Solano Trindade. Solano Trindade é um poeta negro, né, que sempre lutou pelo empoderamento do negro, com a suas poesias, que hoje, pra nós, é tão atual. Mais de cem, cento e cinquenta anos, mas ela é tão atual, hoje em dia, nos seus dizeres, que sempre lutou, né, para a comunidade negra. Então, a filha dele, Raquel – eles são de Embu das Artes (SP) – vem pra Campinas, dá um curso de extensão na Unicamp, pra passar pra nós os conhecimentos afros da sua tradição familiar, do seu legado familiar, das danças, dos cantos de matrizes africanas. Então, com Raquel, a gente aprende os maracatus, né, a área cultural; aprende o boi; aprende os sambas; aprende os "lundus", né, essas danças afro. E, quando ela termina esse curso, ela cria um grupo, um grupo cultural. E esse grupo, ela mesma dá o nome pra esse grupo. Então, esse grupo recebe o nome de "Urucungos, Puítas e Quinjengues". São três nomes de instrumentos da língua banto. Que urucungo significa berimbau, puítas é a cuíca e os quinjengues são os tambores. E ao criar esse grupo, pra gente sair de expressão artística, apresentando todo esse legado que a cultura negra tem pro nosso país, ela nos deixa uma missão. Essa missão que ela deixou pra nós foi pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo, em forma de arte. Então, nós fizemos, fazemos essa lição de casa o tempo inteiro. A gente não esquece esse provérbio que é de seu pai, de Solano Trindade. E, nesse momento, que eu também, trabalhando lá, não consegui, nesse período, porque eu ainda estudava, fazia Pedagogia, fazer esse curso de Raquel, que ministrou na Unicamp. Mas o Alceu, que também trabalhava, estava já no museu, trabalhando com conceitos afros, que é um grande músico, um grande percussionista, era um ator, né, ele vai, faz o curso. E aí traz esse aprendizado pra nós. Principalmente pra mim, lá no museu, porque eu que o ajudava depois a preparar as aulas pra trabalhar com as crianças. Então, com ele eu aprendi esse legado da Raquel: a dançar, a cantar, pra depois você trabalhar com as crianças. E, nesse processo de aprendizado, ele também, pesquisando na sua fonte de origem, que foi o legado que ela nos deixou, na fonte de origem tem uma tradição familiar de seu avô, que é o samba, o samba de bumbo, né, que é ali da família de seu avô. E, com esse trabalho nosso, de pesquisar na fonte de origem, como é que nós vamos acordar, vamos dizer assim, esse legado? A gente pega os ensinamentos que a gente teve nessa instituição. Então, a gente já sabia lidar com a pesquisa. A gente já sabia lidar com os registros. A gente já sabia fazer a organização desse acervo, mas daquele acervo material. Agora, era um acervo imaterial, a memória. Agora seria a memória, a gente registrar essa memória. Não seria as bibliografias dos livros, mas a bibliografia, que a gente diz, agora, na cultura popular, desses mestres. Que seriam desses seus - a gente diz, assim - antepassados, né, os seus que vieram antes, os seus avós. Então, foi uma junção de aprendizado e conhecimento e de um trabalho. E, ao mesmo tempo, com o grupo Urucungos, Puítas e Quinjengues, a gente também conseguia trazer isso para periferia. Então, Urucungos... Aqui na periferia - a gente fala periferia, eu falo a minha região -, a gente monta um ponto de cultura. Então, esse ponto de cultura é para trabalhar com os jovens aqui, também pra passar pra eles esses conhecimentos. Até então, nessa época, assim, que eu estou dizendo, não vou conseguir falar os anos. Mas foram dez anos, mais ou menos, trabalhando nessa linha, com o Alceu, né, que foi meu companheiro. Aí, depois desses dez anos, a gente faz uma família. (risos) Nós tivemos as nossas filhas. E aí, nesse período, nós já estávamos morando aqui. E esse ponto de cultura é na minha casa. A gente cria esse ponto de cultura na minha casa. Então, aqui a gente fez, fizemos formações com esses jovens. E, ao mesmo tempo, que vem, juntamente com o trabalho da Anelo. Então, nós, aqui, temos um ponto de cultura, trabalhando as questões culturais, né, com a dança, com a música, o teatro, voltado pras matrizes africanas. Aí a gente tem o Lucas, aqui também, trabalhando com o conceito da música, né, com a música que transforma. Então, a gente acaba se tornando uma parceria. E a gente se depara, porque, eu mesma dando aula em escola, sei que tinha alunos, que a gente dizia: “Vai pra Anelo. Vai lá pra Anelo”. E ao mesmo tempo, o Lucas: “Vai lá pro Ponto de Cultura”, sabe? Então, são essas parcerias. Quando eu preciso de você ou você precisa de mim, é só chamar. A gente sempre esteve ligado assim, nessa linha. Então, a gente conhecendo o trabalho do Lucas e quando a gente pudesse ajudar, a gente ajudava também. E, ao mesmo tempo, o Lucas sempre junto com a gente. Então, a gente fazia sempre aquela troca. Sempre foi uma ligação muito profunda, nesse sentido, entre essas áreas. Então, o que a gente sempre colocava, era sempre uma conversa que a gente tinha assim e principalmente através de Alceu e Lucas. Depois da Bandeirantes, há uma outra Campinas, que tem agentes fazedores de cultura, que só precisam ser empoderados, ter essa visibilidade. Que nós somos capazes de fazer, mas a gente não tem esse, vamos dizer, essa política pública voltada pra nós, que nos ajuda. Mas nós fazemos como dá pra ser feito, né, nas nossas possibilidades. Então, a gente fala que é uma região que teve muita, é claro que a gente teve muita luta. Teve muita violência. Mas a gente acha que agora não precisa debater tanto de frente. Basta você ter, pra combater isso, a gente diz, um trabalho de preservação. Um trabalho de preservação, não. De prevenção. Então, esse trabalho que a gente faz, é um trabalho de prevenção. A gente pode tirar dessa área, com a música, com a nossa cultura, com o nosso reconhecimento do eu, de dar pra esses jovens, essas possibilidades. Mostrar pra eles que é possível. Assim, quando eu estou dizendo a minha trajetória, né, a gente tem poucas oportunidades, mas a gente agarra. A gente tem que agarrar, não pode deixar. Então, é isso que a gente fala, é essa a conversa que a gente tem com os nossos: “Vamos agarrar as oportunidades, que pra nós ela é tão pouca.” Então, vamos fazer dela uma coisa grandiosa. Então, a gente consegue, talvez, assim, dessa forma. E quando eu estou falando dessa trajetória e que ela vem e esse contato que eu falo também, quando chega pra mim essa questão do samba de bumbo, a gente fala que é de muita luta. Porque a gente teve muitas perdas. Então, foi um processo assim, que quando há o reconhecimento de alguma coisa que a gente faz, a gente já perdeu tanto, tanto na vida, a gente acaba tomando uma rasteira, mas vai sempre respirando e levantando. E o Lucas, pra mim, enquanto Instituto Anelo, foi um respiro muito grande, porque quando eu falo desse legado que ele foi me deixado através do Alceu, que mais tarde a gente resgata, essa manifestação do samba, do samba de bumbo. Então, o Alceu, quando a manifestação, o samba de bumbo é reconhecido enquanto patrimônio imaterial da cidade de Campinas, eu tenho essa perda do Alceu. O Alceu falece nesse processo. Mesmo sabendo que é uma tradição de família, que agora que ela é reconhecida, a pedido dele, é tão assim... Foi, a gente fala, uma perda que foi uma paulada, assim, pra nós. Porque a gente perde a nossa mestra, né, que nos deu esse ensinar a pesquisar na fonte. Ela falece em abril, em 2018. E o Alceu falece em junho, em 2018. Então eu tenho duas perdas, assim, gigantescas, né, na minha vida. E ele falece no processo que ele já sabia que a manifestação, esse reconhecimento, ia ser como patrimônio, reconhecido como patrimônio imaterial. Ele já estava para as defesas desse processo do registro. E ele falece, assim, no dia 18 de junho de 2018. Então, é recente. E no dia 20 de junho ele completaria, ele fazia aniversário. Bem nesse dia, dia 20 de junho, que se dá o reconhecimento. Depois de dois dias, que Campinas... Porque a gente espera o processo, até sair em Diário Oficial, depois de dois dias da sua morte, aí é reconhecido. É oficioso, né, o reconhecimento. Aí eu me vejo desse jeito. Com o legado sendo reconhecido. E, a gente diz: "O herdeiro legítimo, o herdeiro de tudo isso não está mais aqui. E como a gente vai fazer com esse legado?", porque é um legado que vem de laço sanguíneo, vem de laços familiares. E aí está: ele é filho único. Ele falece, mas deixa a mãe, a minha sogra, né, com os seus noventa anos, hoje, e com esse legado. E eu e as minhas duas filhas. O que eu vou fazer com esse reconhecimento e tendo que dar essa continuidade? Eu estou preparada pra isso? Como é eu assumir um trabalho riquíssimo desse? Essa herança. Essa herança, que a gente fala. Mas aí é nas mensagens de Lucas, da Anelo, que ele vem, a gente conversa um bom tempo. Ele até fala assim, ele fala uma coisa que fica muito assim na minha cabeça, que foi uma perda muito grande, por Campinas e pra Campinas, porque o Alceu fez muita coisa por Campinas. Ele foi muito reconhecido por fazer parte de movimentos negros, de estar trazendo essa questão do negro, né, essa questão do empoderamento, dessa visibilidade. Fez parte de muitos movimentos. Muitas contribuições que ele deu, tanto na área cultural. Então, Campinas inteira tinha esse - a gente diz - mestre como uma grande liderança. E como que é você, agora, a mulher dessa grande liderança, como é que você vai tocar esse barco? Aí eu digo assim, falava assim: “Eu não sou o Alceu, não sou essa liderança. Eu não consigo me ver enquanto essa liderança”. Eu fui companheira de muito tempo, é claro, sempre lado a lado. Porque, na verdade, a gente sempre trabalhou junto, né, muita coisa. Então, a gente precisa, às vezes, dar um respiro, pra gente entender. A gente, aí eu costumo dizer, que aí também aprendendo na filosofia, a gente diz, africana: é preciso rememorar pra transgredir. Então, é o momento que a gente fala o quanto é importante esse luto e o quanto é importante esses amigos presentes na vida da gente, pra nos dar força. E o Lucas foi um deles, foi muito fundamental pra mim. Porque, no primeiro momento, assim, do falecimento do Alceu e dessa grandiosidade que ele representava, representa ainda pra Campinas, o Lucas reúne a própria comunidade, ele reúne o poder político e eles falam: “Olha, gente. A gente tem o CEU no Jardim Florence”. O CEU é o Centro de Esporte Unificado, que é abaixo da Anelo, onde a gente ainda não tinha os espaços pra desenvolver as nossas ações. Mas que a gente sempre estava no CEU, nesse espaço, fazendo. Tanto a Anelo, até adquirir o seu espaço, quanto nós também, pra poder fazer essas ações com a comunidade. Então, aí, o Lucas reúne a comunidade e pede: “Olha, gente, o Alceu, por ser uma pessoa tão importante, tanto, por Campinas, está na hora da gente fazer alguma coisa. Ou deixar esse nome, que não se apague na memória”. Então, ele pede, faz, escreve uma carta, é um ofício, que a gente fala e manda pra prefeitura, pra que haja esse reconhecimento. E que, então, o CEU do Jardim Florence recebesse o nome de Alceu. Então, eu devo muito isso ao Lucas, pelo Instituto Anelo. Porque fomos nós, os alunos, as crianças, todos envolvidos na Anelo, que fazemos esse abaixo-assinado e que hoje o CEU recebe o nome de Alceu. Ele tem o nome de Alceu José Estevam. Então, são, a gente fala, coisas que vão fazendo a gente dizer que: "Eu tenho que continuar". São esses incentivos. A gente tem que continuar. Então, a Anelo tem essa grande importância pra mim, na vida. E hoje eu também faço coral na Anelo. Eu faço canto na Anelo. Também sou aluna, participo, né, da Anelo. Porque aí eu falo assim, pra professora do coral, pra Julia: “Prô, eu sempre trabalhei com a cultura popular. E a cultura popular, a gente canta na garganta, para o povo. Você apresenta em palco, às vezes, sem microfone. A gente detona a nossa voz. Eu preciso disso”. E aí a gente faz uma dobradinha. A gente diz. Porque eu tenho esse conhecimento com a cultura popular. Então, a gente faz essa troca. Ela me... Né? E não é uma troca com o professor. É uma troca não só com o professor, com os professores da Anelo, né, em todas as suas áreas, mas também é uma troca conosco, alunos, naquilo que a gente pode estar ajudando. Então, quando eu falo "a minha ligação com a Anelo", é isso: é uma ligação de irmandade mesmo, de parceria, que é de família, é um para o outro. "Se você precisa de mim, eu vou sempre estar aqui. Pode me chamar num sábado, num domingo. Não vou dizer não". (risos) A gente está sempre assim. Eu sei que eu também posso estar sempre contando com eles. E eu acho que é isso, um inspira o outro. E é tão bom quando a gente faz um trabalho coletivo, um trabalho de união. E que a gente tem essa, vamos dizer, mesma conexão, né, de ajudar sempre o próximo. De ajudar quem está perto da gente. A gente costuma dizer: “Eu não consigo dormir sabendo que, do meu lado, o meu irmão está com a barriga vazia”. Então, a gente tem que ajudar o outro. É muito isso o que a gente faz. Não dá. Assim: "Se precisa de uma ajuda, então a gente faz, se trabalha, vamos lá. Uma cesta básica? Opa. Vamos fazer alguma coisa pra ajudar uma família? Bora lá fazer", entendeu? Então, é isso. A gente não cobra, né, pra ensinar música. A gente não cobra pra ensinar aquilo que a gente tem. Então, o que a gente puder ajudar, a gente ajuda. E a gente consegue fazer muita coisa, quando a gente se junta, né, quando estamos juntos. Porque, se a gente depender, a gente fala, do poder público, a gente não caminha. Não dá pra esperar cair do céu. Então, a gente tem que arregaçar a manga e ajudar, pelo menos, aquele que está do meu lado. Então, é um trabalho que a gente sempre está fazendo junto. Eu acho que é isso. A Anelo, pra mim, representa muita coisa. E eu acredito que nós, também, representamos algo pra Anelo.

P1 - E eu queria que você contasse um pouco a respeito desta sua experiência como aluna de canto na Anelo. Quando isso começou? Como isso funciona? Como você se sente com essa atuação diferente? Porque você sempre [foi] parceira da Anelo e aí, de repente, você se torna aluna. Como foi essa experiência? Como é essa experiência, pra você?

R - Nossa! Eu, enquanto aluna, é realização. Eu me sinto, sei lá, é um aprendizado que a gente tem, que é diferente dessa… O aprendizado que eu tive foi assim, quase meio que profissional. Enquanto aluna, eu me vejo enquanto aluna, é aquele respeito com o professor. Eu estou lá, como aluna, mas, quero aprender. Eu quero. O que eu puder sugar da minha professora do coral, eu vou sugar. (risos) Então, eu, enquanto aluna, é sempre uma descoberta. Quando eu estou lá no coral e ela está me passando: “Ah, você conhece?”, eu conheço. A gente conhece algumas músicas. A gente conhece, porque a gente ouve. Mas quando você vai ver a forma de você colocar a sua voz, de você se comportar, é esse aprendizado que faz a gente se realizar. Parece que é uma coisa que vem nos completando a cada aula que ela dá. A cada momento, até a própria postura. Eu me sinto uma cantora. (risos) Eu sou uma aluna, mas eu estou me sentindo uma cantora. Então eu falo: quando a gente se coloca assim, é porque aquilo nos realiza. É uma realização. Então, quando aluna, é aquilo: buscar aprendizagem. É buscar o aprender. Então, aluna, a gente está pra isso. E o que eu puder ajudar, a gente ajuda. Mas, enquanto aluna, eu quero aprender. E não é só no coral. Eu estou aqui, estou no coral, vejo a Julia. Mas como eu tenho esse contato com a Anelo, eu falo: “Poxa, eu quero ir pra um violão também. Nossa, tem a percussão, também quero ir pra uma percussão”. Porque eu aprendi aquilo, quando eu aprendi, eu costumo dizer que essa é a diferença, eu aprendi, a gente fala na cultura popular, a gente aprende pela oralidade. A gente aprende ouvindo. A gente emite o som daquilo que a gente tem na memória. Então, eu tenho na memória, eu consigo cantar pela minha memória. Mas quando você está enquanto aluno, não. Você tem todas aquelas técnicas que eu não aprendi na cultura popular, pela oralidade. E, ao mesmo tempo, é tão importante esse meu aprendizado da oralidade, que eu consigo passar também, ajudar até mesmo esse meu professor, sabe? Então, assim, eu não aprendi notas musicais: eu sei tocar, mas não com as partituras. Aí, quando eles perguntam: “Onde está a sua partitura - quando eu vejo nesse outro meu lado, né, nas manifestações afro - quando você toca o seu bumbo?”. Porque eu toco um instrumento, que é o bumbo. “Onde está a partitura? Como que é essa partitura?”, eu vou dizer: “Eu não sei”. Porque eu aprendi na memória, ele está no meu pulsar. Agora, pra mim, na cultura popular ou na minha manifestação que eu aprendi oralmente, é importante a partitura? Pra mim, não. Eu digo desse meu outro lado, pra mim ela não é importante, né, nesse momento, porque é o que está aqui. A minha partitura, eu falo, é o meu corpo, está em mim. Então, o meu toque, quando eu vou tocar o meu bumbo, está no meu pulsar, na minha pulsação. É uma ligação que eu tenho com o meu coração, é o momento que eu estou, então está no meu corpo. Então, eu estou tocando o meu bumbo… Quando a gente fala dessas tradições que a gente tem, desse legado, ele está todo no nosso corpo. Então, é esse sentimento. “Como é que você aprendeu o toque do bumbo?” , "Eu não sei dizer". Eu, foi passado pra mim, o toque do bumbo. O meu marido Alceu, ele fazia em mim. A gente fala: mulher de percussionista, a gente acaba sendo o tambor. Porque o percussionista, ele vai 'bãbãbã', né, assim. Então, eu tenho a mão dele. Eu tenho o toque, 'tatata'. É assim: 'patata'. A gente fala: "Isso que é a oralidade". Mas quando eu estou, vamos supor, na Anelo e aprendendo, enquanto aluno, eu estou aprendendo essas notas musicais que eu aprendi, vamos dizer, essa partitura, que eu aprendi na oralidade. Então, se eu falo: “Eu faço assim, assim”, “Ah, isso é - não sei – o ré, é o mi”. Aquilo, para mim, não tinha importância. Então, é assim: é você ter mais conhecimento. Eu tenho conhecimento dessa minha ancestralidade, desse meu legado, por essa minha memória, que eu falo, desse meu individuo que eu vim construindo com essa minha sabedoria, com esse meu aprendizado, de forma natural, no meu quintal. Mas eu também tenho essa outra aprendizagem, por esse outro lado. Então, é a mesma coisa quando eu digo, né: eu tenho a minha formação acadêmica, que essas minhas escolas foram a universidade, foram as escolas, mas eu também tenho essa minha formação do meu quintal. Então, na minha [vida] acadêmica, eu tive os meus professores. Eu tive lá, vamos dizer, o meu mestre, Paulo Freire, na educação. Mas, no meu quintal, o meu mestre foi o Nestão Estevam, o avô do meu marido. O meu mestre foi o meu marido, o Alceu Estevam, entendeu? Foram meus professores. Então, a gente fala: essas foram sendo, talvez, graduações. Então, eu consigo ver essas duas linhas. É nesse mesmo momento que eu falo que, pra mim, eu não consigo desvincular. Eu consigo trazer dentro, vamos supor, se eu estou na minha educação formal, na escola, eu consigo trazer essas bibliografias de livros, mas eu também consigo trazer essas bibliografias do meu quintal. Eu posso estar numa escola dando a aula de História, falando de Luís Gama, né, que é conhecido. Ou de Mário de Andrade. Vou pegar na linha do samba, né, do samba de bumbo. Eu posso, na bibliografia dos livros, eu consigo trazer Mário de Andrade, um folclorista que trabalhou a história dos sambas rurais, mas eu também consigo trazer a bibliografia, junto, de Nestão Estevam, que foi, vamos dizer assim, o objeto de pesquisa de Mário de Andrade, entendeu? Então, é isso que eu falo, quando eu não desvinculo. Talvez é isso que, talvez, na educação, eu faça. Vamos supor. Eu não sei se é a diferença, né, porque eu nunca fui muito do livro didático. (risos) Eu apresento o livro didático, mas também trago a minha. Eu apresento esses conceituados, né, que vão exigir lá na frente dos meus alunos, essas biografias, mas eu também acrescento essas outras biografias que, talvez, não estejam lá. Então, acho que quando eu vejo a Anelo e eu, na cultura popular, são as mesmas coisas. Eu tenho aqui a minha filha, que também é aluna da Anelo. Então, ela tem esse conhecimento desse outro lado, né, não vou dizer erudito, tem, mas ela também tem esse do quintal. Você entendeu? Então, um não apaga o outro, ele complementa. Um alimenta o outro. Porque, na vida toda, a gente sempre foi apagado. Um foi apagado. Sempre, vamos dizer, a da elite, do que é. O que não é elite, foi apagado.  Mas, se a gente for ver na nossa história, como é que foi formada a elite, ela foi formada em cima desses povos menos elitizados. Então, a gente fala, aí a gente traz a periferia também. Na periferia também tem quem faz. Então, a gente vê que na periferia, o que a gente precisa é dar visibilidade nesse lado. Porque há muitos que fazem os seus raps, há muitos que fazem as suas letras de música, tem muitos compositores na periferia. A gente vê. Mas só é quem que consegue chegar na visibilidade? Quem tem um acesso. Então, a gente precisa dar essa visibilidade. É isso que eu falo. Eu achei uma coisa, assim, muito legal também, quando eu falo dessa questão da visibilidade, porque a gente acaba se encontrando. E, quando a gente começa a mostrar, trabalhar esse lado de que a gente é possível, de que é capaz: "Olha, porque tem aqui, eu vejo assim, eu vejo lá essas bibliografias". Mas, quando a gente começa cada vez mais a colocar, a dar essa visibilidade, a gente vê o quanto a gente é importante na formação. Eu tive um momento, que eu tive um encontro com o Emicida. Ele fez aquele documentário, "AmarElo". Aí eu estou falando já, da minha linha do samba. Ele fez o documentário "AmarElo". Então, tem um momento do documentário, que ele fala dos sambas. Do neosamba. Então, ele tem toda uma pesquisa voltada para os sambas, né, os sambas rurais, principalmente no estado de São Paulo. E aí ele [se] depara com o samba de bumbo. E aí, ao mesmo tempo, a gente tem um encontro. Foi um encontro rápido, mas foi uma possibilidade que teve. E, quando eu conto a minha história e vou falando desse meu trajeto, porque, quando eu falo pra ele, a gente vê que dentro da história do samba, os primeiros registros que se tem são de 1920, com o Mário de Andrade, que, na época, foi um grande pesquisador dos sambas rurais e ele consegue registrar em 1920. E quando eu trago a história do samba, que foi esse levantamento que eu fiz junto com o Alceu, de seu avô, [que] ele nasceu cinco anos após a abolição. Então, a gente, na nossa memória, na nossa história, no nosso quintal, a gente tem uma história muito antes de 1920, entendeu? A gente dá graças a Deus, né, é glória, de ter lá, naquele momento, o primeiro momento, em 1920, que Mário de Andrade tem esse olhar pra aqueles que estavam fazendo, naquele momento. Mas já se faziam há quanto tempo antes? Então, quando a gente consegue trazer essa história, que eu falo, assim, nesse momento, quando eu estou conversando com o Emicida, que tinha toda essa história do samba, nessa época aí, a gente contou uma história mais ali, aí ele fala: “Poxa vida, eu perdi o trem”. Aí eu falo pra ele: “Por isso que eu sempre digo que, na minha linha, é esse, que aí eu dou graças a Deus à Raquel, essa mestra; à Solano Trindade. E ao meu companheiro Alceu. Que foi isso: pesquisar na fonte de origem”. Então, quando a gente vai pra essa fonte de origem, aí eu ainda acabo repetindo: é preciso rememorar, pra transgredir. Porque, quando a gente vem rememorando e vendo aquilo que está na memória, a gente consegue ir mais além. Então, a gente precisa sempre estar voltando. Eu falo que, pra mim, quando eu lido com essa questão dessa, a gente fala, ancestralidade, ou desse legado cultural, é uma espiral. Ela não é uma linha, não é uma história que vem, vem e você vai dando sequência. Não. Eu tenho que voltar, pra eu ir. Eu tenho que rememorar, pra eu dar continuidade à história. Então, eu rememoro, pra dar continuidade na história. E é assim que eu consigo passar para os meus mais novos e aí isso não se perca. Então, quando a gente fala essa vivência do nosso quintal, é isso. Então, aí eu volto lá, quando eu falo desse meu quintal, com a minha mãe, com os meus pais, essas nossas rodas. Que essas histórias que a gente ouvia sempre eram dos nossos antepassados. Então, é essa constituição que eu falo. Eu preciso me reconhecer, eu saber da onde que eu vim. Porque, se eu não souber de onde que eu vim, se eu não trouxer esse meu quintal dentro do meu coração, eu vou perder a minha identidade. Eu vou construir, sempre de uma linha daqui pra lá e nunca de onde que eu comecei, né, essa minha trajetória.  Então, é isso que eu falo. Aí vem, casa-se tudo. Porque aí que eu fui entender a questão museológica. Aí que a gente vai entender o quanto a cultura é importante, o quanto a educação é importante. Porque, às vezes, a educação... Porque a gente não se reconhece ou hoje, a juventude não reconhece esse espaço escolar. Por que a gente tem tanta crise? Porque a linguagem não está sendo igual. A história que o tempo inteiro nos foi passada, não é a história que a gente viveu ou que vive. É uma história mal contada, que sempre foi uma história de apagar. Sempre foi um apagamento. Então, a gente, não que eu queira explicar, mas por que hoje a gente tem tanto essa questão do racismo, do preconceito, sabe? Por que eu não consigo me identificar na escola? Porque, hoje, a juventude está, assim, a informação está rápida. Então, não dá mais pra eu dizer, contar aquela história de descobrimento do Brasil, nessa linha que a gente aprendeu no livro, porque eles já sabem que não foi desse jeito. Então, não dá pra reproduzir. Não dá pra eu contar mais a história do negro escravizado - quando eu digo nessa minha linha -, porque todo mundo já sabe que não foi assim. Então, não dá pra eu reproduzir mais, isso. Então tá, eu trabalho o livro didático, mas então agora, vamos - eu costumo dizer assim - escurecer a história. Não vai, mas vamos escurecer, agora. Vamos dizer o que é real, porque não dá mais pra gente esconder. Então, eu não culpo os professores por não passarem. Não é isso. É porque também não fomos preparados nesse momento, sabe? A nossa formação também veio assim.  Então, se a gente quer esse momento, a gente tem que correr por fora. Aí eu falo, o meu privilégio talvez foi esse, de eu conseguir essa oportunidade de estar trazendo essas coisas juntas, que aí a gente pode ver que na educação, não são todos. São sempre um ou outro. Então, quando a gente consegue fazer isso, é um ganho. E nós precisamos de ter mais pessoas envolvidas, né, nessa questão. Então, eu acho que a minha história é essa: é sempre de trazer essas duas coisas juntas, que eu acho que, assim, a gente consegue fazer mais o mundo do nosso jeito, um mundo que nós acreditamos. E é sempre uma luta constante. Daí, é aí nesse momento que eu falo: “Precisamos escurecer a história”. (risos) A gente fala: “Vamos clarear”. Já está claro. Já está aí. Está posto. Então, vamos escurecer, ué! Aí a gente consegue fazer um mundo do nosso jeito, um mundo, talvez, um pouquinho melhor, pras novas gerações. Porque eu escuto dos meus alunos, quando a gente entra em algumas discussões de como é que está a situação hoje, questão de pandemia; como é que está esse governo; como é que está a situação atual, que nós estamos. Então, quando a gente, eu tenho essa discussão, ou converso com os meus alunos, com os nossos filhos, com os nossos formadores, porque não é só na escola. Porque eu também estou na escola, estou na área cultural, eu tenho um grupo que a gente forma. E aí os nossos jovens falam, assim, pra nós: “Então, esse é o mundo que vocês deixaram pra gente. E agora somos nós que vamos ter que resolver isso. Esse é o mundo que vocês deixaram: um mundo com essas pandemias e esse pandemônio. E nós que vamos ter que tirar esse pandemônio e acabar com essas pandemias”, você entendeu? Então, eu escuto isso dos meus alunos. Aí eu falo: “Tudo bem”. Então, é aí que eu falo: a gente acredita na educação, porque há possibilidades. A gente tem que dar essa possibilidade, entendeu? A gente tem que, cada vez mais, dizer pra essa juventude, que eles são capazes, eles vão chegar lá, eles chegam. E isso, pra mim, é um grande orgulho. Porque, quando eu vejo meus alunos que eu dei aula no pré, na educação infantil, aí eu digo assim, eu costumo dizer que eu também já sou avó, né, nesse processo. Porque eu dei aula pra esses meus alunos, já dei aula para os filhos deles e estou dando aula pros netos. (risos) Então, eu já sou avó, dentro da escola. E aí a gente tem esse contato. Eu tenho esse contato com esses meus pequenos, lá. Que hoje, quando eu iniciei, 35 anos de Magistério, os meus alunos, que eu iniciei, estão com os seus 35 anos, seus trinta anos, né, vamos dizer. E eles estão aí. Então, é um orgulho pra mim, quando eu vejo, eles falam: “Professora, eu consegui, eu fiz uma universidade. E a gente, aqui, jamais acreditaria que chegaria numa universidade. E eu fiz”. Então eu tenho... Às vezes, eu vou pra um dentista e é um aluno meu que está cuidando de mim, eu falo: “Poxa vida”. Você se depara com ele dizendo: “Eu ouvi a senhora e hoje estou aqui”. Essa semana agora, eu recebi uma mensagem de uma aluna, né, que eu dei aula pra ela, lá um tempo atrás. Um tempo atrás. Ela está com dezessete anos, agora. E aí ela me mandou uma mensagem dizendo: “’Prô, eu entrei na Ufrj, eu estou na Universidade Federal do Rio de Janeiro e vou fazer Biomedicina. E eu devo isso à senhora, que sempre me incentivou”. Como muitas dessas, eu já tive. Então, eu falo: “Há possibilidades. E eles chegam lá”. E quando eu vejo também a minha filha, né, que também é daqui e está numa universidade, também numa federal, né, no Recôncavo Baiano, lá em Cachoeira. E eu vejo, hoje, ela mesmo estando no seu terceiro ano da universidade, ela já está dentro. E, lá na Bahia, nesse processo da pandemia, ela tendo que estar fazendo aula aqui, "on-line", que está aqui. Veio pra Campinas. Ela está dentro de uma Unicamp, está sendo chamada na Unicamp. Então, o meu maior orgulho é isso, também, né, de ver. Porque, eu estando aqui, eu jamais ia imaginar que eu ia conseguir escrever um livro. Eu escrevi um livro falando da minha história. E aí o meu orgulho é que esse livro, além de eu escrever esse livro, eu escrevo com mais dois autores e a ilustração do livro é da minha filha. Então, eu falo: “Poxa, olha as possibilidades”. Então, ela está aí. E eu a vejo, hoje, também dentro de uma Unicamp. Eles estão chegando lá. E estão batendo de frente, agora. Não é confrontando, não é isso que eu estou dizendo. Mas eles estão mostrando essa bibliografia que eu estou dizendo agora, sabe? Desses que eu digo: “Olha, tem lá, mas também tem esses. Tem os mestres, mas também tem esses outros mestres, tem esses outros doutores”. Então, eu acho que isso que é legal. É como você consegue, também, trazer essa sua identidade, a sua questão de vida. Isso que é, pra mim, o maior legado que tem, eu, enquanto educadora, enquanto da área cultural, enquanto na área museológica: o que a gente puder fazer pra empoderar e dar essa visibilidade, a gente tem que fazer. E é na escola, no espaço escolar, essa discussão tem que estar lá. Aí é que eu digo. Os meus alunos falam assim: “Prô, é tão engraçado, né, porque é lei”. Eu falei: “Então, é lei. E a gente fica o tempo inteiro discutindo leis. Porque é lei de dez mil que está implantada, mas não está sendo feita. A gente fala que é cotas, que já é lei. E aí o pessoal fica discutindo lei”. Aí meus alunos falam assim: “Então, agora a gente não discute lei. É cumpra-se”. Aí a gente participou de um movimento na Unicamp: "É cota, é cumpra-se", entendeu? Então, eu vou lá na universidade, junto com eles. “Vamos lá. Vamos. Cumpra-se” “Prô, precisa falar; então cumpra-se. É isso o que vocês querem? Então, vamos trazer aqui”. Mas aí, nesse momento, o que eu puder, a gente faz. Vamos lá, fazer reunião com professores, vamos dar formação. Vamos, sabe, empoderar. Vamos trazer essas biografias. Vamos trabalhar Solano Trindade nas escolas, um poeta que hoje é tudo e que não tanto está... Agora que está entrando dentro de uma Academia. Mas por que ele está numa Academia? Porque foram lutas lá atrás. Quase cem anos lutando pra isso, mas hoje está chegando. Aí é que eu falo, é isso que a nossa juventude está fazendo agora: “Vocês criaram esse mundo. Então, agora, é nós que vamos lá, limpar a caquinha de vocês. Então, vai ser do nosso jeito”. E é isso que a gente quer, um mundo mais do nosso jeito. Então, eu acho que talvez vamos conseguir. (risos)

P1 - Me conta uma coisa: qual o nome do livro que você escreveu com mais esses dois autores, Rosa?

R - Você dá licença pra eu pegar?

P1 - Sim.

R - É esse aqui: “Ngoma Chamou!” Depois eu dou um jeito de encaminhar pra vocês. (risos)

P1 - Ótimo! A gente agradece.

R - "Ngoma Chamou!" São batuques em terreiros paulistas. Então, ele foi um convite de um grupo. Eles chamam… É uma equipe. Batuques são diadorins. O nome, né, Diadorins. Então, eles fizeram um convite, que eles têm um trabalho com as culturas populares. Eles sempre estão envolvidos com essa questão da cultura popular, de manifestações de afrodescendentes. Então, eles fizeram um projeto para o ProAC (Programa de Ação Cultural de São Paulo). E, nesse projeto [para o] ProAC, eles queriam contar histórias dos batuques de influência banto, no estado de São Paulo. Então, nesse processo, deles fazerem esse projeto, aí houve o convite, se eu não queria falar, escrever um capítulo sobre a história do samba de bumbo. E, ao mesmo tempo, também foi esse convite para o Antonio Filogenio, né, pra ele fazer o capítulo dos batuques de umbigada. E, ao mesmo tempo, também foi um convite pra Alessandra Ribeiro, pra falar sobre os jongos, a manifestação dos jongos. Então, fomos nós três, autores. Aí foi todo um processo de reuniões e cada um contar a sua história. E a influência, né, dessas manifestações na construção da… A importância, né, na história do estado de São Paulo, de todas essas manifestações. E aí foi um diálogo muito legal, que a gente foi construindo nesse processo, cada um com o seu capítulo, trazendo a sua história. E aí a gente vê que nós somos irmãos, que toda essa história vem de uma irmandade, quando a gente vem trazendo essas influências bantos, né, que se deu aqui, na formação, vamos dizer, do povo brasileiro e principalmente no estado de São Paulo. E como essas manifestações são irmãs, né, nos seus toques, nas suas cantorias, no seu fazer, na sua ancestralidade. Então, foi um livro criado, construído assim, cada um contando as suas histórias, as suas passagens, os seus momentos. E aí, quando esse livro fica pronto, essa construção, aí que a gente tem contato com outras vertentes, que aí que eu falei, que foi no momento que aí a gente tem um encontro com o Emicida, nós, né, como foi cada um na sua área. E quando a gente está contando e está fazendo o livro, aí quem vai ilustrar o livro: “Quem a gente vai pegar? Um ilustrador, pra poder ilustrar aquilo que nós estamos contando. Uma pessoa que não tinha contato, como que a gente vai fazer isso?”. Então, a gente foi fazendo essa construção toda, junto: “Olha, então...”. Houve as indicações de quem está dentro da manifestação. Então, é isso que a gente fala. A gente só consegue ter esse olhar de quem está dentro, a visão de dentro. Se for a visão do outro, de fora, talvez, a gente vai correr o risco, novamente, de não conseguir fazer a interpretação. Então, aí esse livro vem. Nós escrevemos. Aí, o livro, a minha filha também ilustra. Ela tem a leitura de todos os três autores. E aí ela faz a ilustração, juntamente com a Amanda Nainá, que também é dentro, também nasceu, quando eu falo, nesse quintal de aprendizagem. Então, pra elas, o diálogo pra fazer as ilustrações e as passagens, foram, vamos dizer, talvez, tranquilo. Aí elas fazem todo o trabalho dentro do livro, das ilustrações.

P1 - E me conta, qual o nome das suas duas filhas, qual a idade delas?

R - A mais velha é a Poliana Sales Estevam. Hoje, ela está com 23 anos. Ela que faz Artes Visuais lá no Recôncavo Baiano, em Cachoeira, na federal de lá. E a Alice está com quinze anos, está terminando o fundamental, né, no nono ano. Estamos aqui. Então, aí esse - deixa eu continuar - é o que a gente faz, né, que aí a gente fala. E aí, mais tarde, a Poliana também faz pra Unicamp. Ela também é uma das autoras, né, juntamente com os professores da Unicamp. E aí ela tem um capítulo dela, que ela também conta, junto, a história do pai, a importância de Alceu José Estevam. Aí é a fala dela, né, falando sobre o pai. Está junto com outros autores. Não vou conseguir abrir a página, acho, que agora.

P1 - Não tem problema. Mas qual o nome do livro? Só pra gente deixar registrado aqui, também.

R - Aqui, é "Casa dos Saberes Ancestrais". Está na Unicamp. É um... Como é que eles falam? "Book"... "Comic book"... Eu não sei se ________ (áudio falhou).

P1 - "Comic book"? É desenho?

R - Isso.

P1 - É um livro de ilustrações? Uma história contada em ilustrações?

R - Isso, ilustrações. Aí fala, assim, de vários. A gente fala das pessoas daqui da cidade de Campinas que tiveram grande influência, né, na área cultural e outros em movimentos. Aí ela foi convidada pra falar sobre o pai e a importância dele. Então, ela está aqui. Ela escreve junto com a Sonia Fardin. Então, elas ficam com esse capítulo do pessoal do samba. Eu quase achei. E aí é isso.

P1 - Mas, enquanto isso, então, eu vou te fazer algumas perguntas mais pessoais, digamos assim, pra gente ir encaminhando pro fim da entrevista. Quais são os seus sonhos pro futuro, Rosa?

R - Nossa, é que… É um mundo melhor. Todo mundo quer um mundo melhor. A gente quer mais visibilidades, né, que a gente fala, talvez até a história do povo negro, de tanta resistência, dessas lutas. Então, eu penso pro futuro, a gente fica meio sem perspectiva. Mas é sempre um mundo melhor, que tenha mais possibilidades. Um mundo mais possível, mais generoso. Eu acho que a gente lidar com as possibilidades, a generosidade, a gente muda, faz grandes transformações. Reconhecimento. Então, eu penso pro futuro, é isso: mais possibilidades, mais generosidades, mais o reconhecimento, porque eu acho que tudo é possível.

P1 - E de projetos pessoais, Rosa? O que você sonha pra você?

R - Nossa! O meu projeto pessoal! (risos) A minha filha ri de mim. Porque eu falo assim: “Eu quero voltar à minha origem. !uero fazer o trajeto contrário do navio. (risos) Eu quero chegar lá naquela árvore e rodar de volta. Quero trazer a minha ancestralidade”. Então, eu acho que o meu projeto de vida é ir conhecer o lugar de onde que veio minha ancestralidade. É ir lá. 

P1 - Certo.

R - Já estive quase pertinho, porque eu fui pra Bahia. (risos) A minha filha fala: “Eu já estou mais perto que a senhora, porque eu já estou na Bahia”. (risos) Eu falei: “Mas eu chego lá”. Esse seria o meu sonho.

P1 - E quais são as coisas mais importantes pra você, hoje, Rosa?

R - Família. É a família. É o que eu dou importância: é a família e o meu quintal.  É a minha família. A família é a base de tudo, que nem eu disse: a gente é uma família grande. E a maioria da minha família são mulheres. Nós somos em seis mulheres e quatro homens. E formos formadas, cuidadas por essa matriarca, a minha mãe. Ficou viúva tão cedo, mas, que sempre foi essa base, pra nós. Então, é essa união que a gente tem entre nós. E nós, mulheres, assim, que eu vejo aqui, na minha [vida], somos muito guerreiras. A gente, como diz, é pau pra qualquer obra. A gente é muito junta.  Então, a gente dá esse valor à família, dá esse valor à união. Eu acho que, assim, é difícil, não sei, você ter uma ligação com parentes bem mais distantes. Mas essa união, pra nós, é tão forte, que a gente tem contatos com primos, sobrinhos de terceiro grau, sabe assim, bem longe. Então, eu sou tia-avó, eu sou tia-bisavó, sabe? Porque eu conheço, sabe? A gente nunca perdeu esse elo. Então, a gente, até o primo, né, que a gente fala, o irmão que estava perdido - não perdido, mas que foi separado -, a gente conseguiu reencontrar. Então, esse valor que a gente dá a esse laço, né, família, que eu acho que é a base de tudo.

P1 - E, por fim, Rosa, como foi contar a sua história pra gente, hoje?

R - Nossa, foi que nem eu falei: um rememorar, pra transgredir. Então, tudo é um aprendizado. A minha memória veio. Então, foi tão bom eu lembrar da minha mãe, lembrar de meu pai. Foi... É bom e é doido, né, porque é a falta que faz. Mas contar essa trajetória de vida, pra mim, rememorar e fazer essa linha, é dizer assim, que a gente é uma continuidade. É uma ligação de um cordão umbilical. E o quanto foi importante, também, né, estar contando essa história, talvez pra outras pessoas que venham ouvir, né, e dizer o quanto é importante a gente saber de onde a gente veio, essa questão da nossa identidade. Porque aí a gente consegue projetar um futuro e o quanto é importante esse laço familiar. Mesmo que não seja uma família que a gente costuma dizer, biológica, mas também essa família que é do coração, né, que nos traz do coração. Porque, quando eu falo assim, pra vocês, eu falo dessa minha família biológica, o quanto ela é importante, esses irmãos biológicos e essas coisas. Mas o quanto também é importante essa família do coração, né, esses amigos do coração, esses irmãos do coração. Quando eu digo que também é uma família, quando eu vejo o Instituto Anelo, esses espaços que eu tive. Quando eu falo Urucungos, o grupo que foi criado, que também foi uma família. Urucungos, hoje, esse espaço que eu também frequento até hoje, que faço parte desse grupo cultural, tem mais de trinta anos, 33 anos, então já é família. Então, quando eu falo família, é tanto de laço sanguíneo, quanto essa família do coração. E, nisso, a gente tem esses irmãos. Esses pais, esses mestres e esses avós, né, esses laços que nos unem. Então, contar essa história e estar aqui, hoje, conversando com vocês, foi lembrar de todo esse legado da minha vida, o quanto é importante essa história, a gente contar. É dizer essa nossa passagem aqui em vida, né, nesse mundo. O que eu fiz e o que eu posso fazer. O que eu fiz, que possa servir de exemplo pra alguém. Para o bem ou para o mal, espero que para o bem. E o que eu posso fazer, ainda em vida. O que a gente pode deixar. Então, contar a minha história, hoje, acho que foi isso. Passar esse momento com vocês, vocês estarem ouvindo e outras pessoas que vão ouvir, é dizer o quanto, mesmo no meu individual: "Eu sou importante pra vocês e o quanto vocês são importantes pra mim, né, nessa nossa caminhada". Eu acho que é isso. E gratidão por estarem me ouvindo e acharem que a minha história, que talvez sirva de inspiração pra alguém. Acho que é isso. 

P1 - A sua história é muito inspiradora, sim, Rosa. A gente só tem a agradecer. O Museu agradece muito a sua participação e você ter aceitado fazer essa entrevista com a gente. Tá bom?

R - Eu que agradeço vocês. Obrigada!

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