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História

É por isso que eu não perco a fé

História de: Josefa Felipe de Araújo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2014

Sinopse

Josefa Felipe de Araújo nasceu em 16 de abril de 1952 na comunidade de Susana, município de Caucaia, no estado do Ceará. Filha dos agricultores Maria Felipe de Azevedo e José Felipe de Azevedo. Casou-se em 1968 e criou oito crianças, sendo seis filhos naturais e dois sobrinhos. Ficou viúva em 2009, quando seu marido sofreu um infarto. Após a morte de um filho, passou a rezar e benzer as pessoas do entorno da sua comunidade, ocasião em que passou a conhecer os remédios caseiros. Aposentou-se por conta do avanço da osteoporose e de um AVC [Acidente Vascular Cerebral]. Josefa Felipe Araújo falou de sua experiência enquanto moradora de uma pequena comunidade no interior do estado do Ceará. Ela passou por desapropriação por conta da instalação de uma plataforma petrolífera no Pecém. Sua narrativa fala dos aprendizados que levaram-na a ser uma das curandeiras da sua localidade. 

 

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História completa

Sou Josefa Felipe de Araújo e nasci em 16 de abril de 1952, na comunidade de Susana, município de Caucaia, no estado do Ceará. Sou filha dos agricultores Maria Felipe de Azevedo e José Felipe de Azevedo. Os meus pais tiveram oito filhos, mas só se criaram três. Por isso, só tenho uma irmã, a Luzia, e um irmão de criação, o Pedro. Depois morreu uma, atropelada por um carro. Ela desceu do ônibus e o carro a pegou. Ela deixou duas filhas.

Eu cresci na casa do meu avô, que era muito grande. Tinha casa de moagem, casa de farinha e tudo por perto. Tínhamos coqueiros, cajueiros, laranjeiras, mamoeiros, mangueiras, pé de azeitona. Haviam muitas fruteiras por lá. Era cheio. Limão do grande, do pequeno, graviola. Nessa casa criávamos uns patinhos, umas galinhas, fazíamos empréstimos pequenos para poder criar os porcos, as galinhas e para semear as plantas. Todos os anos fazíamos uma plantaçãozinha. Tinha o milho e o feijão.

Naquela época, gente pobre só tinha serviço, não tinha brincadeira não. Quando alguém brincava, era com sabugo. As meninas colocavam uma tirinha de pano enrolada no sabugo - eram as nossas bonecas. E os vestidos? Pegávamos um pano, a mãe ensacava um bocado de areia para fazer uma bola para as crianças brincarem. A nossa casa era de taipa, um terreno lá perto, do Seu Chico Vidal. Quando essa caiu, nos aperreamos muito. O Seu Chico deu a madeira para fazermos a nossa casa. Colocamos um pessoal para tirar a madeira e fizemos a casa em nove compartimentos. Mas quando veio essa desapropriação a casa foi desmanchada. Tiramos alguns telhas e deixamos lá em Matões. Ainda tem umas partes da forquilha. Outros ficaram embaixo e ninguém pôde tirar. Tinha a casa da minha família, tinha a casa dos filhos - tinha um filho que começou a casa e ficou no alicerce. Eles tomavam conta dum terreno lá em Matões, mas ficou só o alicerce da casa. Tinha uma casinha do genro que foi derrubada e tinha a casa da outra sobrinha, que eu chamo de filha, que era perto e que também foi derrubada. Quando eles começaram a nos tirar de lá, chegaram os tratores e, aí, acabou. Derrubaram o resto. Nós alugamos as terras, a madeira, os porcos - foi preciso alugar uma casa e pagar alguns meses. Eram quatrocentos reais o aluguel da casa que fomos morar. Passamos dois anos lá. Os meus filhos ainda estão morando por lá, cada um com sua família.

Quando tinha uma mulher grávida na região, chamavam a parteira, a Comadre Maria Café. Quase todo mundo naquele município chamava ela. Ela foi a minha parteira. Só dois dos meus filhos eu tive na maternidade. Os outros foram com ela. E a redondeza toda tinha com ela. Bem depois, tinha uma pessoa que estava com o menino nascendo e eu tive que ajudar. Mas isso já foi de uns anos para cá. Tinha que levar para a maternidade. Eu já ia levar e chamaram a ambulância. Chegando lá, o menino já vinha nascendo. Do jeito que vinha a gente já levava.  

Casei-me em 1968 e criei oito crianças, sendo seis filhos naturais e dois sobrinhos. Quando me casei, fui fazer trança - trabalhar com palha. Com isso eu trabalhei e criei as duas filhas, com elas me ajudando. Riscava, fazia o chapéu de trança, a malha com uns furadinhos, tapete grande para pôr no piso – artesanato, como falam. Ensinei uma prima a fazer cesta de tampa - um samburá grande para colocar as roupas dentro. Em outros fazíamos várias rodas e da palha mesmo fazia uma rede. Fazia umas tiras compridas e ficava como se fosse uma sianinha, colocando aquelas rodas. Ali, pegava outra roda e enchia. Muita gente comprava. Fazia aquela mesinha, colocávamos umas cadeirinhas e vendíamos um bocado de tapetes lá em São Gonçalo (do Amarante). Eu era feliz. Outras pessoas queriam uns compridos para colocar na entrada da casa. Fazíamos uns desenhos de linho, outros faziam umas flores. Isso eu aprendi com a Madrinha Cristina, a mulher que me ensinava a ler. Ela era meio inteligente. Minha mãe fazia chapéu, fazia uru, fazia surrão. O surrão é feito de uma trança larga que fazemos - é da largura duma mão. Trançava uma roda medonha. Quando estava grande, costurava tudo e rodava. Quando terminava, puxávamos a grade para fora e a costurávamos para o lado de fora. Das duas bocas, costurava uma fazendo o fundo e a outra ficava para colocar rapadura, estrume. De uns tempos para cá se usa o saco. Mas, antigamente, não tinha esse saco. Era o surrão e a bolsa. Tudo era feito de palha de Carnaúba.

Quando eu era criança, ir a uma festa era sempre difícil. Certa vez, eu fui com a mamãe e uma irmã minha que estava noiva. A Luzia tinha vontade de brincar mas a mamãe não deixava. Ela brincava com esses toques em casa, agarrada uma com a outra. Mas, em festa mesmo, ela nunca brincou. Quando estava noiva, o rapaz a convidou para ir à festa e a mamãe disse: “Depois de casar vocês pode ir”. A mãe não soltava. Desse modo, não namorei. Tinha uns parentes que tinham vontade, mas eu nunca simpatizei. Até que foi um parente da mamãe lá pra casa e pegou trabalho em roçado e namorou com uma irmã minha. A mamãe queria que eles se casassem, pois era um rapaz muito trabalhador. Ela, dizia que daria certo, mas o papai não quis. Eu pensei: “Quando eu crescer eu caso com o padrinho”. Eu chamava o meu marido de padrinho. “Você não sabe o que é um casamento. Deixa de ser besta!” Quando fiquei moça, ele disse: “Deixa de se aperrear.” Disse para eu casar com ele, porque ele ia casar comigo. “Eu quero ser casada com você”. Falaram para os meus pais e eles fizeram o meu casamento. Foi a finada Augusta, a do São Pedro, que era dona do cartório. Eu me casei no civil e com o padre em Caucaia. Quando me casei eu tinha 16 anos. A mãe deu o casamento e disse: “Mas vocês...” Ele já vivia trabalhando com o papai: “Vocês ficam morando aqui e eu dou uma parte da casa”. Ela deu dois compartimentos, nós fizemos a cozinha e por lá ficamos. Morei lá por dez anos, sem sair.

Quando ficávamos doentes, usávamos os remédios caseiros. Se fosse uma gripe, uma febre, a pessoa fazia o chá de eucalipto com alho. Coloca um dente de alho e em dois dias passava. Eu gostava dessas coisas. Meia colher de café, ferve com um pedacinho de casca de laranja, três folhas de eucalipto. Dá uma xaropada. Hoje em dia tudo é na geladeira, mas não gosto de geladeira para isso, não. Eu coloco em cima duma mesa e cubro. Coloco numa garrafa e fico bebendo. É muito bom. É como esse boldo. Para a gripe, eu pegava um ovo, batia e tirava o suco de uma laranja. Hoje em dia tudo é no liquidificador, mas antes era na mão mesmo. Batia com a colher, espremia a laranja, lavava as mãos, espremia a laranja, batia bem batido com açúcar e bebia. O mastruz: a pessoa pisava no pilão e tirava o sumo. Tem também o breu, que é para pancada - hoje em dia ainda existe. Eu misturava para beber. E para a gripe tem o leite. Pegávamos o leite de gado ou em pó mesmo. Misturava tudo e coava na tela. Agora as coisas são diferentes. Se a pessoa adoecia elas iam na casa dela rezar, medir a espinhela. Às vezes ensinava a pessoa a tomar um remédio caseiro. Para dor de cabeça a mãe sempre pisava gergelim, dava banho de galinha na nossa fonte e colocava pinhão-roxo. Ela amarrava uma tira de pano e sossegava por ali; tinha o café amargoso com eucalipto e o alho.

Outro dia, chegou um menino aqui gritando com uma dor de barriga. A mulher foi numa crença e quando chegou, parece que botaram mau olhado na criança, durante a viagem. Era uma criancinha de uns cinco meses. De longe tinha o choro da criança. Quando esse menino entrou em casa encheu de gente para saber o que tinha acontecido. Trouxeram para eu rezar. Era dor de barriga. Eu emborquei ele, tirei a roupinha. Esse povo empacota o menino. Não precisa fazer isso, não. É muito serviço. Antigamente era diferente. Estava todo empacotado eu tirei os sapatos e as meias. A menina me disse: “Não faz isso que a mãe dele vai achar ruim.” “Se ela achar ruim, que faça do seu jeito”. Tirei a blusinha dele, deixei-o só com a cuequinha e a fralda. Esfreguei um óleo doce nele. A menina pegava e passava no seu umbigo. Mandei fazer um chazinho de alho e dei a ele. Esfreguei nele. Colocava-o na minha perna, emborcada. Colocava-o para cima, para baixo, esfreguei. Ele foi melhorando. Quando o colocava pra baixo ele começava a chorar de novo. Tornei a fazer, de novo. Rezei por três vezes nele, que dormiu. Eu disse: “Pronto, leva ele, comadre”. Só com o paninho aqui em cima. Ela colocou o paninho e foi embora. Ela disse que ele não sentiu mais nada. Esses dias chegou uma menina - deste tamanho, toda “engurujada”, não podia nem andar. Rezei só um pouco só e a menina voltou. Sempre chega gente aqui com espinhela caída, com dor no peito, dor na cruz, dor de cabeça. Não sou Deus, mas sempre gostei de rezar. E sou doente. Às vezes eu não posso, em que estou arriada. Você viu quando chegou? Eu estava gemendo. Mas depois melhora.

Essa história de reza começou quando morreu um menino meu. Eu já tinha quatro filhos. Ele morreu com oito meses. Colocaram um quebrante. Eu levava para as pessoas rezarem. Eu pensei: “Levo o menino para a mãe e para as minhas tias rezarem. Por que eu não rezo? Vou aprender”. Aprendi a rezar, mas minha mãe dizia que eu não tinha fé. Eu rezava, mas não tinha fé. “Filha, o que a gente precisa é da fé. Se a pessoa não tiver a fé, nada feito”. “Eu vou rezar, mas parece que a reza não serve”. “Serve”.  Depois que eu acostumei, pronto! Tanto eu rezo para os meus como para os outros. Até pela foto. Muitas vezes, mandam uma foto, uma roupa e eu rezo. E eles ficam bom. Até de engasgo.

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