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História

É para frente que se caminha

História de: Helena
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Helena nasceu na Paraíba, na zona rural. Quando criança dividia as tarefas da roça com os treze irmãos. O dom de costurar foi descoberto quando vestia os sabugos de milho. Eles eram as suas bonecas. Na escola, passava a limpo a matéria para os outros colegas de classe a fim de ganhar um lápis, um caderno, ou uma borracha. Viveu na infância uma situação de pobreza total, passando muita fome. Quando fez dezessete anos foi morar na cidade e se casou. O alcoolismo do marido causou tormento na vida da família que formou, quando teve seus três filhos. Brigas agressivas faziam parte do dia a dia da casa, envolvendo, quando maiores, os filhos também, que entravam nos combates em defesa da mãe. Um de seus filhos, Mateus, começou a fazer programas escondido da mãe. Porém, Helena jamais se posicionou contra o filho e gostou muito quando ele entrou no Vira Vida. Participa ativamente de todas as atividades oferecidas aos familiares. Helena acredita que o principal valor da vida é ter fé, perseverança, respeitar os outros de igual pra igual, sem discriminação, sem racismo e bola pra frente.

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História completa

Minha infância foi um pouco tumultuada. Sobre pobreza, eu era uma pessoa muito pobre, meus pais eram muito pobres e eu não tinha quase nada. Sofri muito, passei muita fome, daí por diante. A minha casa, a casa que nós morávamos, era de taipa e o telhado era de palha de coco, as portas eram de vara, fogo de lenha. Pobreza total. Para dormir, quem tinha a felicidade de pegar uma rede velha, muito bem. Quem não, dormia no chão. A cama da minha mãe era de vara, na época tinha umas coisas, assim, de palha, como umas toalhas de palha. Aí, eles dobravam e botavam. Era o colchão deles, do meu pai e da minha mãe. E a gente era cada um que se virasse, em rede, essas coisas. 

 

Meu pai era agricultor. Trabalhava quando aparecia. Um dia de serviço, dois. E minha mãe era dona de casa, mas ela era muito valente, ela trabalhava, ela cavava buraco, ela raspava mandioca, fazia farinha, fazia de tudo para sobreviver, para criar os filhos. Quando meu pai achava um dia de serviço, como eles diziam, que o dono do serviço, da agricultura pagava, ele chegava em casa, já recebia aquela “mixariazinha”, mandava comprar, na época, era um litro de farinha, uma quarta de sardinha, dessas sardinhas salgadas. Era o que a gente comia.

 

A gente brincava, além de estudar.  Pelo menos isso eles puderam dar para a gente, o estudo. Meus brinquedos eram esses, sabugo de milho, caixa de fósforo seca, o sabugo de milho era boneca, mas eu, como parece que Deus tinha me dado um dom de costurar, eu sempre aproveitava uns paninhos velhos, fazia uma redinha, botava os sabugos dentro, pronto, as minhas bonecas eram isso. E brincava lá por baixo dos pés de árvore, de manga, caju, essas coisas. Brincava, cada um fazia suas casas. Nisso passava o dia, a fome apertando, a barriga roncando e a gente lá. Teve uma época que eu fazia o terceiro ano primário que eu passei três dias de fome e eu desmaiei. Aquilo dá uma sonolência em você tão grande, aquele sono aperreado, sabe? A barriga ronca, você treme, é triste. 

 

A vida foi continuando. Como eu falei que as meninas, as minhas irmãs, foram trabalhar fora, de domésticas. O pouco que elas ganhavam… Porque na época não era valorizado, de jeito nenhum. Aí, elas ajudavam, mandavam um pouquinho para minha mãe. A gente foi levando. Meu irmão foi embora para o Rio de Janeiro e aí as coisas foram melhorando aos pouquinhos, mas até os dezessete anos foi assim. Até os dezessete anos, até eu concluir o primeiro grau. Sempre pensei em terminar meus estudos e arrumar um emprego para ajudá-los. Mas, infelizmente, eu casei e pronto, meu sonho foi por água abaixo.  

 

Até um ano de casamento foi a mil maravilhas, depois foi só terror. Foi ruim também porque ele bebe. Aí devido a isso a gente brigava muito. Ele batia em mim, eu também batia nele, que eu não sou besta e metia o pau também. Aí até esses tempos ele era meio agressivo. Agora não, que os meninos cresceram todos. Está uma benção, depois de velho, né, melhorou um pouco. Ele era camelô. Aí, depois, começou a trabalhar numa firma. Ele trabalhou vinte anos lá, nessa firma. Aí, botaram ele para fora. Agora ele é vigilante e servente de pedreiro.

 

Depois de dois anos que eu casei, eu tive minha primeira filha, pensando que as coisas iam melhorar, mas continuou do mesmo jeito. Ele bebendo, me agredindo, eu agredindo ele também. Aí, depois de dois anos tive meu outro filho e continuou do mesmo jeito. Uma vez eu tentei separar dele e voltar para a minha casa, mas minha mãe não aceitava filha separada. Ela dizia: “Não. Casou, tem que viver. Faça por onde viver. Eu não aceito filha separada dentro de casa, de jeito nenhum”. Meu pai não, meu pai era uma benção. Por ele aceitava, mas ela não. Ignorante demais, sabe? Desse tipo de gente que batia o pé e era só o que ela queria. Meu pai comia na mão dela e pronto, não tinha voz ativa. 

 

Eu me lembro do meu segundo filho, eu com oito meses de gravidez, eu tava com uma barriga tão grande que eu não via nem os pés. Mas foi uma briga tão grande lá em casa. Ôxe, minha amiga, foi uma briga tão grande, ele me pegou e me sentou, assim, no sofá. De todo jeito, eu nunca fiquei, como diz o ditado, “apanhada”, não. Era vai e volta. Os filhos ele sempre respeitou, ele nunca agrediu, não. Uma que também eu não deixava, mas ele nunca agrediu os meninos, não. Também os meninos ficavam quietos, cada um nos seus cantos. Hoje em dia não, que se ele der um grito mais alto os meninos já vão em cima. Ele dizia: “Oh, que ninguém pode nem falar aqui com essa velha”. Os meninos dizem: “Velha? Vá se embora e deixe ela”. Aí, pronto, termina. Não houve mais agressão. 

 

Quando os meninos cresceram, aí eu não segurei mais. Quando ele dava um grito os meninos iam em cima. Não para agredir, para me defender. Eu tinha desgosto de ver isso. Porque eu me sentia protegida e, ao mesmo tempo, tinha desgosto. Ver os filhos, assim, envolvidos em briga de pai e mãe não é bom, não. O bom seria se não acontecesse essas agressões, mas como acontecia… Eles eram teimosos, eu dizia: “Não se meta, não, deixa que eu resolvo”. Mas eles se metiam, mas não me sentia bem, não. Nunca gritei para vizinho vir me ajudar, nunca escandalizei em meio de rua, o meu problema com ele era dentro de casa. Nunca envolvi vizinho nem ninguém, era dentro de casa e a gente resolvia, ou de um jeito ou de outro.

 

Quando eu descobri que Mateus fazia trabalho de garoto de programa, eu fiquei um pouquinho assustada, mas depois eu me acostumei, porque ele podia ser o que fosse, não ia deixar de ser o meu filho, né? Se ele tinha a vida ou tem a vidinha dele, cada um é cada um. Eu aceitar, aceitar mesmo, eu não vou dizer a vocês que eu aceitei porque ele não chegou para mim e me disse, claramente, sabe? Eu soube por segundos. Mas é normal. Para mim é normal.

 

Antes do ViraVida, Mateus era muito agitado. Ele era agressivo, respondão. Ele tava andando com umas companhias aí e até bebendo. Ele chegou a chegar bêbado em casa três vezes. E aí quando ele entrou no projeto, fazia pouco tempo que ele tinha entrado na Igreja, agora ele é evangélico. Aí, foi para esse projeto porque também tava precisando das duas coisas, né, do dinheiro e essas coisas. Ele se envolvia o dia todo lá no projeto e chegava em casa, conseguiu comprar alguma coisa que ele queria com esse dinheiro, graças a Deus, ficou mais responsável, comprava as coisas e pagava direitinho. Ah, se fosse por mim ele não saía desse projeto mais nunca e ficava nesse projeto pro resto da vida. Bom demais esse projeto, é uma benção de Deus.

 

No programa eu só participava mais da roda terapia, sabe, que era um monte de gente, cada um discutindo lá os seus problemas e eu rindo da cara dos outros também. Porque do jeito que a gente pensa que só a gente que tem problema, né? Mas tem gente que tem problema maior do que os nossos. Aí, só participava mais disso. 

 

Agora, educar é botar no caminho certo, encaminhar no caminho certo. Principalmente eu, que moro aqui na periferia. Mas eu cuidava bem deles, a maioria do tempo era só dentro de casa, não os soltava, não os criei soltos no meio de rua, nenhum dos três. Era só dentro de casa. Eles andavam limpinhos, com muito cuidado para não passar o que eu passei, fome, principalmente. A infância deles foi tumultuada por essa parte da cachaça do meu marido, do vício dele. Mas, por outro lado, foi ótimo, não teve trabalho com nenhum. Para mim, ser mãe é uma renovação. Acho que, assim, porque pelo o que a minha passou, para mim foi uma renovação. Sempre cuidei direitinho, não achei nada de ruim ser mãe. Eu gosto de ser mãe.

 

O principal valor de vida é ter fé, perseverança, respeitar os outros de igual para igual, sem discriminação, sem racismo e bola para frente. Erguer a cabeça, não aceitar críticas porque se você for aceitar críticas, você não vai para frente, você não caminha. É isso, que eu acho é isso.

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações

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