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E o tempo passou...

História de: Gilberto de Oliveira
Autor: Gilberto de Oliveira
Publicado em: 23/07/2013

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Há 350 anos nascia os Correios e há 36 anos e alguns meses faço parte dessa história. Depois de muito refletir fiz uma descoberta importante: descobri por que o tempo passou tão depressa, mas tão depressa que não o vi passar. Qual será o segredo? Tudo começou em abril de 1977. Morávamos no sítio em uma pequena cidade do interior de São Paulo, meus pais e meus seis irmãos. Nosso sustento vinha da roça, a enxada era a principal atividade, da sagrada terra saía nosso ganha-pão. Apesar da vida dura e muito simples da época, hoje entendo como éramos ricos e felizes. À tardinha cada um tinha sua tarefa: debulhar milho para as galinhas, alimentar os porcos, cortar lenha para o fogão, colher os ovos no ninho...Em seu fogão a lenha mamãe fazia algumas guloseimas que ainda hoje sinto o cheiro e o gostinho na boca: empanadas, bolinhos de chuva, frango com polenta, flor de abóbora com ovos, requeijão de esticar, pé de moleque e aquele cafezinho que a gente mesmo colhia, socava no pilão, torrava e moia. Aos finais de semana saímos pelos campos à procura de frutos: pindaíva, marolo, gabiroba, marmelo, indaiá...era uma farra só. Um belo dia do mês de abril de 1.977 estava eu na roça à beira da estrada quando surge lá longe levantando poeira um fuscão verde 1.974, carro de padrão considerável da época. Desceu do carro a Dona Maria - uma conhecida da minha mãe. Junto dela uma adolescente, dona de um sorriso angelical, que anos mais tarde se tornaria minha esposa. Encontro este que mudou a minha vida. Dona Maria me disse que o serviço na roça era muito duro. Então me confidenciou que havia conversado com a gerente do correio e ela havia lhe informado que tinha uma vaga para carteiro e que estavam procurando um moço disposto a trabalhar. Era a oportunidade que eu tinha de deixar a roça e ir para a cidade. Este encontro mudou a minha vida. Ao contar para minha mãe, assim como na música tema do filme “Dois Filhos de Francisco”, entendi, pelo seu olhar, o que ela queria me dizer. Muitos anos se passam e os papéis se invertem: minha filha vem e me diz que estava indo morar bem longe, em Brasília, por ter sido aprovada em um ótimo concurso público. É uma sensação esquisita, um misto de felicidade pelo sucesso e tristeza pela separação. Não consigo explicar, mas consigo entender muito bem o que minha mãe sentiu naquele dia. Segui rumo à capital São Paulo, mais precisamente para a famosa Avenida São João a fim de participar de testes e entrevistas e naquele 29 de abril de 1.977 retorno para minha cidadezinha como carteiro. E eu nem desconfiava quantos acontecimentos me guardava esta função: a entrega de uma tele carta (era o telegrama da época para as cidades onde não havia telégrafo) com um texto estranho “ Machado, Enxada, Foice.” e ao entregá-la, o destinatário me pediu para que a lesse e em seguida explicou-me, não sem antes me pedir segredo, que era o comunicado da morte de uma comadre sua: Machado era seu próprio nome, Enxada o apelido da comadre e Foice significava a partida, a morte. Ela estava doente, morava longe e eles tiveram um tê re tê tê ...motivo para a metáfora um tanto que estranha da tele carta. E o tempo foi passando.... Em 1.980 fui reclassificado para balconista. Achava muita graça quando uma colega nossa dizia para os clientes “se a carta não for entregue ela volta falando”, em referência à declaração pelo motivo da não entrega. Em 03 de junho de 1.983 fui nomeado Chefe e Encarregado de Rendas da APT (Agencia Postal Telegráfica). Iniciamos o serviço de concessão de benefícios pelo INSS rural . Foram muitas situações especiais, as pessoas ficavam emocionadas e manifestavam suas emoções nos presenteando com cestas de verduras, frutas...Um dia o Sr. Benedito apareceu com um porco para nos presentear. Quando saía pelas ruas, as pessoas paravam, agradeciam e abençoavam. Ainda me comovo ao lembrar que um senhorzinho todas as vezes que me encontrava dizia: “ Todos os dias lá em casa oramos por você.” E o tempo foi passando... De cidade pequena transferido para cidade maior, hoje somam-se oito agências que tive o prazer de gerenciar. E mais histórias: um dia aparece o carteiro em minha sala segurando uma cobra morta pelo rabo. Assustei-me e ao questioná-lo sobre o que havia ocorrido, ele me explicou que como estava apertado para fazer xixi resolveu entrar em um terreno de mato alto e que aquela cobra lhe tinha picado a canela e ele queria minha orientação sobre como proceder. Em outra oportunidade um ladrão roubou a bicicleta de outro carteiro, em poucos minutos encontramos o ladrão já com a bicicleta pintada de preto. E o tempo foi passando... Trinta e seis anos e alguns meses após 29 abril de 1.977 , vi a partida de meus avós e meus pais. Aprendi que, quando não temos mais nossos bisavós, avós e pais, somos o próximo da lista. Aprendi que temos um tempo de vida útil, e é durante esse tempo útil que devemos realizar nossos sonhos e projetos .Vida útil é enquanto podemos andar, dirigir, não depender de remédios ou pessoas para nos cuidar. Aprendi que embora pareça triste esta situação, ela faz parte do ciclo natural da vida – criada por Deus de maneira tão perfeita, mas tão perfeita que não encontro argumentos contrários a essa tal perfeição. Aos Correios serei eternamente grato por ter me dado condições de construir e conquistar um patrimônio gigantesco: a constituição de uma linda família, a criação e formação de meus três queridos filhos, que hoje são independentes, estão empregados, estabilizados, perfeitos e lindos. Além de tudo isso, ainda me concedeu segurança, estudo, formação, muita qualidade de vida e uma nova identidade da qual muito me orgulho: “Gilberto do Correio” Finalmente a descoberta do segredo: por que o tempo passou tão depressa? Começo fazendo uma confissão: em mais de 36 anos de Correios, eu nunca trabalhei. Todos os dias vou para meu local de trabalho fazer aquilo que eu gosto. Quando trabalhamos com aquilo que gostamos, nosso trabalho não é trabalho, torna-se uma brincadeira. Notem que quando estamos brincando o tempo passa e nem percebemos. E como é bom brincar...apenas dessa maneira conseguimos ir mais longe. Sempre busquei o digno, o justo, o necessário com gosto, por tudo isso que faz a vida, o trabalho, a família, o cansaço, a honradez valerem a pena para se orgulhar de meu trabalho. Portanto, atualmente quando algum colega me pergunta: “E aí, está esperando o PDV?” Sempre respondo em tom descontraído, da boca para fora: “Dizem que dinheiro não traz felicidade, mas espanta a tristeza, vamos ver...” A verdadeira resposta a essa pergunta ainda falta o coração responder.
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