Busca avançada



Criar

História

"É isso que eu quero pra mim"

História de: Wagner Belucci
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

A relação com os pais e brincadeiras de infância. O cotidiano em casa e na escola. Vontade de mudar de vida e o ingresso no curso de Administração de Empresas na FGV. Os empregos que passou durante a juventude. A contratação na Ford em Recursos Humanos. O surgimento da Autolatina e as conversas com a Volkswagen. O remanejamento entre as empresas e a parceria desfeita. A mudança para Taubaté e a adaptação a fábrica. A ida para Resende e a volta. A importância da Volkswagen para o Brasil. 


 

Tags

História completa

P/1 – Wagner, só para constar, qual o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Wagner Belucci, eu nasci em São Paulo, no dia 4 de julho de 1953.

 

P/1 – Wagner, você poderia falar um pouquinho da sua família, dos pais, dos seus irmãos, dos seus avós.

 

R – Meus pais me deram todo o incentivo que eu tenho. Nunca determinaram o que fazer, sempre me incentivaram em tudo aquilo que eu podia fazer. Meu pai era uma pessoa muito pobre, era sapateiro. Tinha aí algumas dificuldades no começo da nossa vida com minha mãe, com meu pai, dificuldades financeiras, nunca dificuldades de brigas, isso nunca. Só dificuldades financeiras, mas com a perseverança dele e minha mãe sempre dando uma força, nós conseguimos reverter toda a situação que nós vivíamos. E ele conseguiu, tanto a mim como a minha irmã, conseguiu formar a nós dois. Então hoje eu sou o que sou, minha irmã é o que é, agradecendo tudo que meus pais fizeram, sem uma palavra de remorso, sem uma palavra dura, nada. Sempre com uma palavra de incentivo: “Você, sabe o que deve fazer da vida, você vai e faça aquilo que você quer fazer. Eu o que eu posso dizer é te dar o mínimo de apoio, o que eu não posso dar, dada à situação financeira, mas o que eu posso te dar é o meu coração”. Então isso marcou muito as nossas vidas e eu agradeço muito meu pai por isso.

 

P/1 – Seus pais eram de onde?

 

R – Meus pais moravam em Catanduva, mas eles não se conheceram lá. Eles moravam aqui em São Paulo, na mesma cidade, e o destino fez que eles se encontrassem aqui, na antiga Metalúrgica Matarazzo. Eles se encontraram, se casaram e estão vivendo aí. Fizeram, neste ano, 50 anos de casados.

 

P/1 – Você pode contar um pouquinho da sua infância pra gente, o local que vocês moravam, quais as brincadeiras que vocês faziam.

 

R – É, buscar um pouco na memória, acho que minha memória é privilegiada, vou tentar buscar isso na minha memória. Brincadeira de rua, brincadeira de bairro, bairro onde a rua não era asfaltada, a gente brincava de bola, a gente tinha lá uma bola de meia, não tinha essas bolas como tem hoje, bola de meia, uma meia de um, uma meia de outro, a gente juntava e fazia as bolas. Nós íamos jogar na rua de terra. Quando chovia era uma festa porque a gente brincava na rua, caía naquela lama e apanhava em casa, mas era uma surra absolutamente gostosa de levar. Enfim, brincadeira da mãe da lata, não sei se existe hoje isso. Mãe da lata jogava a lata longe, então você tinha que se esconder para depois achar. Empinar pipa, que eu chamava de maranhão, para nós a pipa de hoje era "maranhão", o "maranhão" a gente ia cortar o outro da outra rua. Essas brincadeiras que eram..., bolinha de gude, também jogávamos bastante; pião jogávamos bastante; botão jogávamos bastante; tinha campeonato, uma infância absolutamente muito tranquila, uma infância muito gostosa de viver, diferente do que a gente vê hoje. A minha infância foi uma infância muito agradável tanto que durou até os 14 anos de idade, que hoje não é muito, mas a gente vivia essa ilusão, essa brincadeira e nós éramos muito amigos das pessoas e isso que deu força também pra gente chegar.

 

P/1 – E onde você morava aqui em São Paulo?

 

R – Morava na Vila Maria, bairro da zona norte de São Paulo, perto da Vila Guilherme, perto de Santana. Foi ali que eu nasci, fui criado, casei, batizei meus filhos, morei depois de casado. Ali na Vila Maria. Saí, depois de casado, depois de um ano, fui morar em outro bairro, mas a minha vida toda circulou na Vila Maria.

 

P/1 – Como é que foi a sua juventude, já que estamos conversando sobre isso.

 

R – A juventude também foi absolutamente normal. Os bailinhos, os namoricos, os bailes ali no Olímpio. Sem ser na Vila Maria, nós íamos nos outros bairros a pé. Um pouco lá pra cima, nós íamos ganhar as meninas..., quem morava na Vila Maria Baixa era tido como mais rico do que quem morava na Vila Maria Alta, então você imagina como era. Nós íamos lá no bairro mais alto para tentar, nos bailes de sábado à noite, ganhar as meninas e voltávamos de lá sem nenhum problema. Existia, sim, problema de droga, mas era muito menos visível do que é hoje. Nós saíamos de lá meia noite, 1 hora da manhã e voltávamos para casa sem nenhum tipo de problema. Também uma juventude absolutamente normal. Baile de carnaval, que a gente frequentava muito lá na Vila Maria... Tinha um grande salão que a gente se divertia bastante, enfim, tanto a infância, como a juventude foram muito calmas, muito normais para os nossos dias. Ouvia muito em 1969, 1968, muito Woodstock, muito Janis Joplin, dance, então a gente viveu embalado por essas trilhas sonoras e viveu até 1970. Depois acabou a nossa ilusão e aí as pessoas começaram a morrer de overdose e nós queríamos uma ideologia, nós não tínhamos uma ideologia, então a gente teve que se contentar e buscar outras coisas pra fazer. Mas, pra resumir, foi tanto a juventude, como adolescência, infância no mesmo lugar, e muito feliz eu diria, muito feliz.

 

P/1 – E como era o cotidiano da sua casa?

 

R – Da minha casa, cotidiano..., Nós tínhamos um rádio, meu pai ia trabalhar quando não estava desempregado porque também era complicado, tinha um rádio que ligava às 6 da manhã e se ouvia a Aurora, despertar com músicas sertanejas, Tonico e Tinoco. Minha mãe se dizia prima do Tonico e Tinoco. Eu acho que não era, eu nunca perguntei se era verdade ou não, mas se dizia prima do Tonico e Tinoco e nós escutávamos essas músicas logo cedo, de manhã. Meu Brasil. Nós escutávamos essas músicas, nós íamos pra escola, eu estudava de manhã, num colégio público da Vila Maria. Era o Colégio Sion. Era Sion mesmo, uma espécie de uma franquia, vamos dizer assim, do Sion aqui da Higienópolis. Ele abriu uma filial pra atender uma classe menos favorecida. Então eu estudei no Sion. Veja que coisa legal, eu estudei na Nossa Senhora do Sion. Fiz todo o meu primário lá, escola de freira, como vocês sabem, irmã Dina, irmã Gilda, que não deixavam fazer nada. Tinha que às segundas-feiras, apresentar o resumo do sermão do padre. Então levava uma vida tranquila. Todo dia levantava, ouvia essas músicas, voltava pra casa, estudava, ia jogar bola, ia brincar até a noite. Quase que até a noite. Meu pai chegava, nós jantávamos todos juntos, sempre jantamos juntos e meu pai ouvia a Marcha do Esporte, na Rádio Bandeirantes. Tá tão claro isso na minha memória, meu pai ouvindo a Marcha do Esporte. Chegava em casa, comia um tomate, pegava um tomate colocava sal, tomava..., não sei se era um Martini, sei lá o que era, uma pinguinha, tomava o banho dele, nós jantávamos e aí ficávamos vendo televisão toda a família unida. Uma televisão só, quando nós compramos televisão. Quando não tínhamos, nós íamos ver na casa da minha avó, numa casa acima. Eu era muito grande e meu pai me trazia no colo de noite. Era um transtorno assistir televisão na casa da minha avó porque eu dormia no sofá, cansado, o dia inteiro bagunçando, então a gente saía de lá, eu não conseguia levantar, meu pai me carregava. Eu me lembro que ele me carregava no colo. Enfim, foi assim normal, feliz com toda família reunida. Isso que é importante, toda família reunida todo o dia, tanto a minha avó, porque o meu avô já havia morrido, tanto a minha avó materna e paterna, morávamos juntos ali e nós vivíamos assim, eu vivi assim até quase que casar. Essa que é a verdade, eu vivi na mesma casa, nesse ambiente.

 

P/1 – No seu período escolar quais eram as expectativas que você tinha para o futuro?

 

R – Eu comecei a perceber realmente a expectativa, a partir do colegial. Antes eu não tinha expectativa. Com toda a honestidade pra você, eu não tinha expectativa nenhuma, eu nem imaginava. Quando eu percebi que eu morava na Vila Maria, quando eu tomei consciência disso que eu ali ia ser igual aos outros, eu ia ter família, ia ter uma casa, ia casar com uma menina do bairro, ia morar numa casa alugada, ia ser um auxiliar de loja, eu ia viver uma vida que eu não queria viver. Não era meu mundo. Não era aquilo que eu queria para mim. Eu tomei uma decisão naquele momento que foi o seguinte: “Eu quero mudar.” Não que eu não gostasse da vida que eu levava, não é esse o ponto. Mas, eu queria algo mais para mim porque eu vivendo ali ia ser igual aos outros. Não queria ser igual aos outros, então eu falei: “Qual é a escola, o que eu quero fazer na vida? Médico? Não é. Engenharia? Não gosto de matemática. Então o que eu vou fazer da vida? Eu vou estudar Administração de empresas”, que é uma matéria que eu tinha uma certa afinidade, falei: “Aonde é que tem a melhor escola de administração de empresa do país ou em São Paulo? A melhor escola que tem é a Getúlio Vargas, então é lá que eu vou estudar, eu não me contento com nada a não ser estudar na GV”, porque eu imaginava que a GV fosse me abrir as portas, como realmente abriu. Lá que eu ia me realizar podia até ser um sonho, vindo de classe pobre, a GV todo mundo conhece o nível das pessoas que estudam na GV, mas eu falei: “Eu vou, eu vou tentar.” Eu não fiz nenhum outro vestibular na minha vida, eu só fiz dois vestibulares na minha vida, um que eu não entrei na GV, no final de 1974 pra 1975, que eu não entrei, fiquei lá por pouco, mas não entrei e o de 1975, no meio do ano, quando entrei em 11º colocado na GV. E aí eu entrei na GV e o mundo abriu pra mim. Eu morava no mesmo bairro, na mesma casa, dormia na mesma cama, tinha os mesmos amigos, mas o mundo mudou completamente. Então, eu não queria ser igual, eu só imaginei naquela época que eu ia ser diferente se eu fosse até a elite, porque eu fui numa escola que só tinha elite, na época, e lá que eu fui e lá que eu estudei. E eu sou o que eu sou por causa da Getúlio Vargas. Evidente que tem toda uma competência por trás disso, não vou negar isso, mas quem me abriu as portas foi a Getúlio Vargas. Quem me deu o primeiro emprego sério, vamos chamar assim, na Ford com um salário razoável, foi a Getúlio Vargas. Foram lá na escola, pegaram o trainee, entrevistaram pessoas. Eles não foram em outras escolas, eles foram na Getúlio Vargas. Certo ou errado, se a educação tá certa ou errada, se o sistema é esse ou não é esse, não vou discutir aqui com vocês, mas pros nossos padrões esse foi o caminho e eu tinha que entrar nesse contexto. Se eu ia lutar contra isso eu ia lutar só contra isso, o que eu ia fazer. Então eu vou me aliar e entrar lá, lá que eu entrei, lá que eu estudei quatro anos.

 

P/1 – E qual foi o seu primeiro emprego?

 

R – O primeiro emprego assim, foi quase que uma brincadeira. Uma tal de uma Metalúrgica Frum, lá na Vila Maria. Fui levado pelo meu primo Wanderlei. E eu fiquei três meses lá, eu entrei em 1969 e saí de lá em fevereiro, março quando tinha o carnaval. Eu com 16 anos, falei: “Eu não vou...” – e lá não tinha chance de compensar segunda, terça e quarta de carnaval – eu falei: “Eu vou.” Já tinha comprado passagens pra Catanduva, minha família é toda de lá e os carnavais de Catanduva estavam dentre os melhores do interior de São Paulo. Eu tinha família lá, eu tinha todas as mordomias possíveis, a família rica ficava em Catanduva. Era engraçado, a família rica ficou lá, o lado pobre veio pra São Paulo, o lado rico ficou pra lá. Então eu tinha ingresso garantido no Tênis Clube de Catanduva, que é a elite da elite. Eu chegava, já tinha os meus ingressos prontos, não tinha que me preocupar com absolutamente nada. Eu falei: “Não vou ficar em São Paulo, eu vou pra Catanduva.” E o cara falou: “Mas como você vai pra Catanduva? Você vai ter que trabalhar.” E eu: “Meu amigo, eu vou pra Catanduva, você resolve o que vai fazer, eu vou pra Catanduva.”, “Então você pode ir e não volta mais.” Eu falei: “Então tudo bem.” E não voltei mais. Fui lá, um dia, pegar um dinheirinho que me cabia nesse latifúndio, eu fui lá pegar. Que bom poder ter 16 anos, que bom poder fazer isso que eu fiz, fui lá brincar carnaval, voltei feliz da vida e fiquei mais um ano aí. E no fim do ano arrumei outro emprego. Foi na Cetal Engenharia e Instalações, mas aí foi mais sério, fiquei quatro anos lá. Comecei a perceber um pouco mais a vida, já tava com 17 anos e aí nos carnavais ou eu arrumava férias pra ir ou compensava os dias, mas nunca mais cheguei e falei: “Tchau, eu vou pular carnaval”, eu nunca mais fiz isso. E esse foi o meu primeiro emprego, eu era copista, negócio de cópia de gelatina, se falar assim ninguém vai saber o que é, mas um negócio meio gelatinoso, saía um papel meio amarronzado e também fazia a entrega de coisas no banco. Então, essa que era a minha atividade na tal da Metalúrgica Frum, que eu me orgulho muito de ter trabalhado lá. Eu trabalhei três meses, enfim, mas não deu porque eu não tinha uma boa cabeça. O mais importante era fazer outras coisas na vida.

 

P/2 – Você estudava ainda, Wagner?

 

R – Eu fazia o final do ginásio. Eu não ia ficar lá, porque como eu tinha que concluir o ginásio, eu não ia ficar. Então juntou o útil ao agradável. Eu trabalhei três meses; se pudesse ficar um pouco mais eu ficaria um pouco mais, mas eu não tinha mais a pretensão. Eu podia mudar para a noite, tentar alguma coisa à noite, mas também não ia dar certo. Então não foi uma irresponsabilidade assim. Foi uma coisa mais ou menos calculada que eu não ia ficar muito tempo lá. Então eu falei: “Já que é assim vamos embora, vamos embora pra não ter problema.”

 

P/2 – Não, que eu tava pensando que como você teve um estalo e falou: “Bom, eu quero fazer a GV” e você não tinha falado que você já trabalhava, então esse rapaz que falou: “Eu quero fazer a GV”, era um rapaz que estudava e trabalhava, era diferente.

 

R – É, esse é o Wagner, estudava e trabalhava, esse é o Wagner. Onde eu estudava, falei: “Aqui não”, Vila Maria..., amo a Vila Maria, sabe? “Mas não é esse o mundo que eu quero”. Eu lembro que eu tinha meus primos, eu via meus primos e falava: “Não é isso que eu quero, não é isso que eu quero na minha vida, não quero ficar assim” e hoje eu olho pra eles, estão ainda lá, no mesmo lugar, isso que eu fico assim: “Mas meu Deus do céu, não progrediram.” É a escolha de cada um. Eu não estou falando se fiz certo ou errado. Eu acho que fiz certo, no momento que eu escolhi, da forma como eu fiz, a determinação que eu tive de estudar só lá. Enfim, acho que eu fiz certo.

 

P/2 – Você lembra quando você teve essa ideia “Eu quero fazer GV”, você lembra dessa informação, qual foi a primeira vez que você ouviu falar na GV.

 

R – Então, eu estudava, eu fazia administração de empresas num curso técnico ali na Vila Maria, depois eu mudei o curso pra Guarulhos. Veja você que absurdo fazer administração de empresas em Guarulhos? E eu conversei com os professores que eu queria fazer administração de empresas, era encostada onde é hoje..., faz tempo que eu não vou pra Guarulhos, mas era encostada onde é a Faculdade de Guarulhos. Então eu conversando com os professores: “Olha, você quer seguir, tem a GV”, eu já tinha ideia de fazer alguma coisa de ponta, a Getúlio Vargas é uma escola reconhecida, tem lá seus convênios com escolas do exterior, contaram um pouco pra mim, dos professores que estavam lá, de contabilidade, de português me abriram um pouco esse horizonte. Eu olhei um pouco isso, então eu falei: “É lá que eu vou fazer, se lá é o melhor que tem, se vocês professores tão me dizendo que lá é a melhor que tem mesmo...” Eu não tinha conhecimento, não sabia o que era GV. Para mim GV era nada. Não tinha nenhuma representação, mas na hora que eu comecei a olhar, a pesquisar um pouco mais isso com pessoas que estavam ao meu redor, eu comecei a ver que lá que eu tinha que ir, lá que era o caminho. E sempre tinha professor de matemática que falava assim: “Esse é o caminho que você tem que traçar.” Lembrar os nomes deles eu não vou saber, mas as pessoas começaram a falar um pouco pra mim de GV, de administração da Getúlio Vargas. Tanto é que eu entrei na Getúlio Vargas, os caras deram uma festa pra mim. Pra um aluno daquela escola. De Guarulhos. Ter entrado, apesar de que eu fiz cursinho de um ano, tudo isso, mas ter estudado lá, os caras até reconheceram tudo isso. Não sei o quanto isso tem a ver, mas essa escola que me abriu um pouco o horizonte por pessoas que tinham um nível de conhecimento maior que o meu. Fui pesquisando, indo pra lá e pra cá, fui atrás, comecei a ir aos cursinhos, aí os caras falavam “GV, GV, pelo amor de Deus.” A GV tinha uma classe especial. Tem cursinho só pra GV. Era o CPV, me parece. É lá que você vai. Então eu fiz cursinho só pra GV. Comecei a ver o mundo que era só da GV. Aí cada vez mais eu pensava: “É ali que eu vou estudar, o mundo tá ali.”

 

P/2 – E como é que era isso de morar na Vila Maria e estudar na GV?

 

R – Você nem imagina como é que era. Eu estudava à tarde, eu tive que largar, eu comecei a estudar na GV..., eu trabalhei 6 meses na Arno ainda e na Arno teve uma situação. Eu gostaria até de colocar para vocês aqui, se me permitem. Na Arno teve uma situação aí que eu mudei mesmo. Aí eu falei: “Agora que o Wagner não é mais o Wagner.” Eu estudava, tava fazendo cursinho, tinha acabado esse curso técnico, tava fazendo cursinho e tal, aí eu larguei a Cetal, falei: “Vou embora, não quero mais.” Aí só estudei, de outubro a janeiro só estudei, dia e noite, noite e dia sem parar. Bom, chegou janeiro, eu não entrei na faculdade: “O que eu vou fazer? Vou procurar emprego. Meu pai não vai poder me sustentar. Não tem como eu fazer mais 6 meses de cursinho, não tem a menor chance.” Eu fui procurar emprego na Arno, Jornal A Gazeta Esportiva de domingo à tarde: “Analista de Contábil, Analista de Custo, então eu vou lá”. E eu fui lá na Arno, meu cabelo era muito comprido, meu cabelo vinha aqui e fui lá fazer os testes, os primeiros testes psicológicos na Arno assim, dessa forma mesmo, de cabelo comprido, calça xadrez, chinelo de dedo. Eu não via essa complicação que tinha o mundo. O mundo para mim era muito mais simples, apesar de já entender o mundo, mas eu falava: “Por que eu tenho que ir lá com todas essas...? Não tenho.” E lá fui eu, fiz os testes e a psicóloga que me atendeu e viu os meus testes foi uma pessoa da maior importância pra mim, falou: “Você quer emprego?” “Eu quero, preciso trabalhar.” “Então tá bom. Você vai ser entrevistado por duas pessoas que ao te ver assim do jeito que você está, você nem entra pra conversar com eles. Se você quiser o teu emprego, ter chance de ter seu emprego você vai passar por um monte de entrevistas. Você tem que cortar o cabelo, colocar um terno, ser uma pessoa apresentável pro emprego.” “Pô, mas precisa?” “Precisa disso.” Bom, eu não tive dúvida, eu cortei o cabelo, pus um terno do meu pai que batia aqui em mim e lá fui eu fazer a entrevista e entrei na Arno. Fiquei 6 meses na Arno até o tempo de eu fazer..., fiz o cursinho à noite e em julho entrei na GV. Depois eu deixei a Arno, em agosto eu deixei a Arno. Eu tive que mudar as minhas características. Pra me adaptar ao mundo que estava aí, não tinha muito jeito se eu quisesse..., aí que eu comecei realmente a encarar. Eu tinha encarado o mundo de uma certa forma pro meu crescimento profissional, meu crescimento pessoal até, mas eu tinha que mudar um pouco o meu modo, o outro lado da minha cabeça, eu tinha que deixar um pouco de lado essa forma de não me importar com as aparências. Eu entendi que nesse momento as aparências eram importantes e eu tive eu me adaptar a ela. Eu estou falando de 1975, eu estou falando quase de 30 anos atrás. Eu tive que me adaptar e me adaptei. Eu não tinha carro, então eu ia trabalhar de ônibus, entrei na GV e larguei a Arno. Deixei lá grandes recordações na Arno, amigos na Arno. Eu ia de manhã estudava, eu ia à tarde estudar. Então eu almoçava em casa e pegava o ônibus Vila Madalena que me deixava no Largo do Anhangabaú. Do Anhangabaú eu pegava outro ônibus pra eu ir até a Nove de Julho e ficava lá até 6, 7 horas da noite. Fazia o mesmo percurso na volta: o ônibus cheio, uma bolsa de couro, deixei de novo o cabelo crescer e aí ia de ônibus lotado, ia de pingente como chamava na época, ia pendurado que não tinha muito jeito e assim que eu vivi esses anos. Eu precisava trabalhar também, eu arrumei um emprego em 1976, 1977 não me lembro agora, no Unibanco, da Raposo Tavares, um negócio assim absurdo. Eu trabalhava de madrugada, da meia noite às 6, eu falei: “Pô, o que eu vou fazer lá?” Eu precisava de dinheiro, eu precisava estudar. Meu pai não podia, meu pai era sapateiro, eu tinha um crédito educativo, na época, que eu consegui, que eu provei que eu era dependente da sociedade, me deram o crédito educativo, com esse crédito educativo eu pagava um pouco a escola, mas eu precisava de alguma coisa a mais, pro meu cigarro, pro meu cinema. Então eu fui lá no tal de Unibanco, trabalhei da meia noite às 6. Se você me perguntar o que eu fazia lá, até hoje eu não sei. Eu não sei o que eu fazia lá, eu tinha uns amigos lá que, graças a Deus, eu sempre tive amigos aonde trabalhei, e os caras falaram: “Vaguinão, é o seguinte, você só vai estudar, deixa que esse trabalho a gente faz.” Depois de um mês, dois meses que eu fiquei com eles, “Você só vai estudar.” Eles entenderam o meu ponto: “Você só vai estudar, vai pro banheiro lá pega um livro vai pro banheiro, some daqui a gente segura as pontas.” Mas não dava. Da meia noite às 6, não dava. Então a minha vida era assim da meia a noite às 6, eu trabalhava nesse Unibanco, chegava em casa, na Vila Maria, imagina: Unibanco da Raposo Tavares. Raposo Tavares, Vila Maria é outro lado do mundo. Pegava o ônibus do Unibanco descia na Praça do Correio, da Praça do Correio eu pegava o Vila Medeiros, chegava em casa 7 e meia, dormia até umas 11, 11 e meia, descansava um pouco lá, almoçava e ia pra GV. Estudava a tarde na GV e a noite eu nem ia pra casa, eu já ficava lá. Tinha seminários à noite, na GV..., tudo bem, tudo bem. É o seguinte: “É difícil entrar, mas é difícil sair também.” Porque você tem que dar um..., ficava estudando lá e 11 horas, 11 e pouco, passava o ônibus ali mesmo em frente à GV, do Unibanco, e me levava até o Unibanco. Fiquei uns 6 meses. Aí chegou uma hora que eu falei: “Não aguento mais, fisicamente não dá pra aguentar.” E era o terceiro semestre da GV, era um semestre que eu tinha quase dez matérias, era uma coisa absurda. De matérias. Então, eu falei: “Então eu vou ter um troço, quer saber.” Aí eu larguei, comecei um estágio, aí a vida começou a melhorar um pouquinho. É isso.

 

P/1 – Wagner, como foi a sua entrada na Ford?

 

R – Na Ford, foi via GV. Nós tínhamos um amigo que trabalhava na Ford, ele era trainee também da GV. Ele largou, ele não aguentou trabalhar numa indústria automobilística, ele surtou antes de qualquer coisa. Ele largou, ele foi ser motorista de táxi, depois foi pra Inglaterra. Surtou: “Isso não é pra mim.” Aí fui fazer uma outra seleção e entrei. Minha formação é toda em finanças e a vaga era de Recursos Humanos, eu falei: “Bom, vamos aí, tenho que trabalhar.” Foi o meu primeiro emprego assim, foi um negócio mais..., ganhava bem na época. Não sei, não fiz a conta pra ver quanto que era. Eu saí do sufoco. Eu era recém casado, minha mulher praticamente que sustentava..., era minha mulher porque até ali eu só..., eu trabalhava na Secretaria do Planejamento e Orçamento do Estado, mas ganhava uma mixaria, quem sustentava mesmo a casa era minha mulher. Trabalhava e eu ajudando um pouco. Aí quando eu entrei na Ford, aí sim deu uma aliviada boa no nosso orçamento. Então foi assim, 3, 4 entrevistas que eu fiz me perguntaram se eu queria ir pra área de finanças: “Finanças acho que não, eu estou aqui concorrendo pra uma vaga de RH. Vou querer RH.” “Então tá bom” Me chamaram pra trabalhar e estou lá até hoje.

 

P/1 – E como foi esse período na Ford, você pode contar pra gente?

 

R – Posso, na Ford eu trabalhei no staff, staff do Recursos Humanos, de remuneração, de salário que tinha um pouco a ver com aquilo que eu fazia em termos de finanças, porque a minha formação é financeira. Tinha muita tabela, muito gráfico, tinha uma máquina calculadora, uma HP que era um demônio. Aquela HP fazia fórmula, fazia o diabo, aquela HP 12 C, a gente fazia tudo naquela HP. Então a gente conseguia fazer um pouco da minha teoria. Eu fiquei um tempo lá em salários, fazendo pesquisas salariais, fazendo descrição de cargos, fazendo uma série de atividades relacionadas a essa área. Depois eu fui pra área de organização que era uma outra gerência e avaliação de cargos mensalistas, fiquei lá um bom tempo também. Aí nós criamos uma função na fábrica mesmo de São Bernardo, da Ford. Aí eu fui lá ser uma espécie de..., cuidava um pouco de salário, cuidava um pouco de seleção, cuidava um pouco de organização para desafogar um pouco o staff. O staff era muito concorrido, então nós resolvemos, não eu, uma pessoa: “Vamos descentralizar um pouco essa atividade, então vamos criar nas fábricas alguma atividade nesse sentido.” Era para que lá na fábrica, se resolvesse os problemas básicos, porque tudo ia para o staff. Então colocaram algumas pessoas e eu fui escolhido pra atuar nessa ação. Fui lá pro Taboão e fiquei lá fazendo essas funções de ser o primeiro embarque, vamos falar assim, o primeiro contato da gerência de produção com o RH de cargo, salário, organização e eu era a pessoa. Respondia a um gerente de administração, porque tinha o gerente de Recursos Humanos. Era um terceiro nível, quarto nível..., terceiro nível na hierarquia, não era um executivo nada, era um analista senior e aí aprendi bastante nesse período. Fiquei um ano e pouco só, um ano e meio, mas que me ensinou bastante. E daí, não sei se é essa sequência que iam fazer, mas aí surgiu a Autolatina, em 1987. Não, foi 1986 que ela começou. Aí eu e mais um rapaz fomos escolhidos pela Ford para fazer um trabalho junto a Volkswagen, de cargos e salários. Então nós éramos as pessoas da Ford que iam discutir cargos e salários com pessoas da Volkswagen. Então nós fomos num terreno inimigo.

 

P/2 – Só um pouquinho antes, qual foi a primeira vez que o senhor ouviu falar da fusão, o senhor lembra disso?

 

R – Da fusão, me lembro, meu chefe me ligou, Nilton Luciano, ele falou: “Olha, primeiro de algum mês aí, abril parece, reúne o pessoal...” Eu já sabia, essa foi a notícia mesmo, mas como nós trabalhávamos lá em Taboão, nós já fazíamos algum trabalho junto com a Volkswagen, então nós sabíamos que íamos nos unir, mas como, nós não tínhamos ideia. Então, na hora da seleção nós tínhamos vaga..., a Volkswagen tinha vaga na área de produção, eu estou falando de 1986, não era ainda a fusão, nós já nos namorávamos muito, já estava de mãozinha dada, já estavam abraçados, não estava assim..., já estavam abraçados. Então já surgiam vagas na Volkswagen que já queriam aproveitar para fazer sinergia. Então eu era essa pessoa da Ford que tinha que falar com a gerência da Ford: “Ó, tem vaga lá na Volks, alguém quer ir?” Então as pessoas não queriam ir. Eu me lembro tão bem, lá no prédio 90 da Ford, reunidos com a gerência, com os horistas. Falava: “Ó, tem vaga lá na Volkswagen. Vocês vão ser demitidos aqui hoje, vão receber todos os direitos que vocês têm e vão ser admitidos amanhã lá na Volkswagen, tudo bem, tudo certinho.” “Não, não queremos.” “Porque vocês não querem?” “Lá entra às 6 da manhã.” E na Ford entrava às 7 da manhã, o mesmo salário, tudo igual não mudava absolutamente nada, só mudava o macacão que tinha que ser Volkswagen e o pessoal entrava na Volkswagen às 6 da manhã, como entra até hoje e na Ford entrava às 7 da manhã, então esse foi o empecilho muito grande para as pessoas aceitarem sair de uma Ford e ir pra uma Volkswagen.

 

P/2 – Esse remanejamento era feito informalmente, não existia uma estância administrativa pra cuidar disso oficialmente, era formal?

 

R – Era formal, que nós já sabíamos disso, mas não queríamos admitir. Usar a mão-de-obra que nós tínhamos de excedente na Ford pra fazer o que estava fazendo na Volkswagen. Mas isso, pelo menos, no meu nível não se conseguia para todos. Lógico que algumas pessoas não foram. Recebia Fundo de Garantia, recebia todos os direitos. Mas esse empecilho foi determinante: às 7 da manhã, às 6 da manhã. O pessoal não queria entrar às 6 da manhã na Volkswagen. Mas depois sim, nós fomos pra formal, já era formal, mas nós fomos mais formais ainda. Meu chefe me ligou e falou: “Meu amigo, reúne o pessoal aí e avisa que tá sendo criada a empresa chamada Autolatina com capital assim, assim, assim.” Tinha um papel pra gente ler, pra avisar formalmente que nós estávamos nos unindo, uma fusão entre Ford e Volkswagen. Tivemos vários problemas, as pessoas que vieram aqui falar, falaram mais sobre essa fusão do que eu, mas no meu mundinho ali, no meu mundo de salário foi uma experiência riquíssima, porque nós dois, eu e esse Claudine Kauffman, que era o nosso colega, estávamos fazendo essas comparações de cargos. O primeiro cargo demorou um dia. Nós tínhamos trocentos cargos pra acompanhar. Imagina a estrutura horista de Volkswagen e Ford. O primeiro cargo demorou meio dia, um dia ou meio dia, era uma coisa assim meio..., as pessoas se olhavam entre os dentes, se amavam, mas: “Vamos unir mesmo, não tem muito jeito, vamos lá.” Até todo mundo abrir o coração, vamos dizer assim, demorou alguns dias, até a gente conseguir fazer, no meu mundo, no nosso mundinho, nas outras esferas eu não sei, mas no nosso mundinho nós nos demos muito bem, mas muito bem mesmo. Teve esse primeiro stress, mas superamos esse stress e fizemos um trabalho muito bom de compactação, de conciliar as duas estruturas horistas, mensalistas e por fim da gerência. Então esse foi o trabalho que nós fizemos nesse mundo aí.

 

P/1 – Por que você acha que se desfez a parceria da Volkswagen e da Ford?

 

R – Eu acho que por questões comerciais. Nós tínhamos um carro chamado AB9, era o Gol, que ia ser feito em Taubaté e a Ford queria esse carro pra ela, também era AB9F que nós chamamos. AB9F Ford. E deu a confusão entre os revendedores, os revendedores não aceitavam isso. Os revendedores Volkswagen falavam: “Nós não aceitamos que vocês deem um carro igual nesse nível de vendas pra Ford.” Existia o Apolo, o Verona, o Versailles, o Santana, mas era um carro de outro..., quando você fala do AB9, do Gol que era o carro chefe... Os detalhes, eu não participei disso, eu estou falando aqui, aquilo que na época a gente escutava. Na época a gente ouvia muito e na hora que a Volkswagen falou: “Esse carro não vai pra vocês, não vai pra Ford”, aí acabou a parceria, aí foi a gota d’água. Eu acho que já existia um processo de saturação, um processo de organização muito complicado atrás disso. Você juntar uma cultura americana, uma cultura alemã, juntar tudo isso, em algumas áreas acho que se deu muito bem, em outras áreas foi que nem água e óleo. Não deu liga.

 

P/2 – Por exemplo?

 

R – Por exemplo, vendas e marketing. Por exemplo, engenharia. Suprimentos um pouco, um pouco menos, mas marketing e engenharia do produto eram como água e óleo. Não se davam, pelo menos é o que eu acho, vendo de fora, escutando histórias que eu escutava na época de confusões que existiam entre as diretorias, entre as gerências. Mas não se davam, vendas e marketing. As revendas eram separadas, não tinha como juntar isso daí.

 

P/2 – E a parte do RH?

 

R – RH se deu bem, porque..., eu diria pra você que foi uma que se integrou nessa fusão. O RH conseguia superar algumas coisas, evidente que as coisas ficavam..., mas nós conseguimos superar, com o nosso próprio jeitão de trabalhar. O RH sempre tinha contato fora, mas também não foi fácil não. Como tudo não foi fácil dentro da Autolatina. Deu-se muito dinheiro na Autolatina, mas estudos foram feitos, seminários foram feitos, contratamos pessoas francesas, não vou lembrar agora o nome do consultor francês que veio fazer a integração das culturas.

 

P/2 – Nem americano, nem alemão.

 

R – Francês. E ele tentou lá, fizemos vários seminários fora, tentou juntar as coisas. Mas a gota d’água mesmo foi o Gol, AB9F que a Ford queria e a Volks não queria dar. Então acabou.

 

P/2 – Mas em termos de políticas de RH era muito diferente a Ford e a Volkswagen?

 

R – Era muito diferente. O pessoal da Volkswagen sentiu mais a perda de benefícios. Eu não vou lembrar agora quais, mas a hora que juntou o pessoal da Volkswagen... Era uma instituição mais paternalista do que na Ford, isso sem dúvida nenhuma, entende? Podia tirar carro a cada 6 meses, tinha uma série de outras regalias que o pessoal da Ford não tinha. Os cargos..., eu não tinha um cargo de supervisor de unidade, supervisor disso. Era tudo analista, não tinha um cargo de supervisor. Isso foi difícil até pra conciliar as coisas, até pra juntar essas duas funções. Eram, no fundo, iguais só com titulares diferentes e quem tira? Tira supervisor ou põe supervisor? Esta foi uma decisão que foi difícil. Eu acho que foram assim dois rios indo em sentido ao mar; uma hora ia acontecer. Nós introduzimos a estrutura de uma certa maneira e depois o rio foi até o oceano e no fim as coisas se ajeitaram. Implantamos a estrutura dessa forma e o tempo, eu acho, se encarregou de fazer as coisas acontecerem. Não era a nossa pretensão fazer tudo isso dar certo no primeiro mês, então implantamos e o tempo foi fazendo com que as coisas se encaixassem.

 

P/1 – Wagner, ainda no período da Autolatina, qual foi a dificuldade em relação à cultura Volkswagen?

 

R – A maior dificuldade? Eu não sei te dizer qual a maior dificuldade em relação à cultura Volkswagen. Era uma cultura, eu diria, mais paternalista. Era uma cultura, como é que eu vou dizer isso pra você..., eu sofri isso um pouco quando eu fui pra Taubaté. Eu fui o primeiro cara da Ford entrando numa estrutura Volkswagen. A estrutura operacional era muito diferente, tinha muito um pra um, um pra dois, um chefe e dois supervisores, um chefe e um... e a Ford era uma organização muito mais horizontalizada e a Volkswagen muito mais verticalizada. Então essa foi uma..., primeiro na minha área, foi esse choque. Porque eu vim de uma escola da Ford e eu tinha que introduzir a organização, porque o RH ficou com a Ford. Então as políticas da organização ficaram com a Ford e nós tínhamos que implantar a estrutura da Ford, não tinha muito jeito. Na minha função, eu tive que cortar alguns níveis ou fazer uma organização, no mínimo um pra quatro, um pra cinco e foi duro esse choque porque como é que vai cortar? Como é que não vai ser mais assim? Quem é a pessoa que vem aqui e diz que não vai ser mais assim, se há 20 anos se faz dessa mesma forma? Por que tem que ser diferente? O sistema em que se organizavam as duas fabricas eram diferentes. Depois os benefícios, a Volks tinha um pouco mais de benefício do que a Ford. Tão diferentes assim..., a compra do carro, você podia comprar dois carros por ano e nós não, enfim, acho que essa forma de organizar... Eu, na verdade, não senti muito, senti um pouco quando vim pra Volkswagen aqui em Taubaté, mas eu era tão entrosado com o pessoal de salário e remuneração da Ford/Volks, que na realidade eu não sentia muito. Eu sentia que os caras falavam de engenharia, de marketing, os caras se batiam, os caras se pegavam, os caras jogavam cadeira um no outro, mas na nossa realidade, eu não senti tanto. Senti um pouco quando eu fui pra..., quando eu assumi, assumi não..., era supervisor, meu chefe era da Volkswagen, ele me apoiava, mas o diretor da planta tinha alguns problemas e foi difícil, o primeiro ano da Volkswagen Taubaté foi difícil.

 

P/1 – E o que te levou a optar pela Volkswagen e não mais pela Ford?

 

R – Na verdade não foi nem uma opção minha. Na realidade foi uma decisão que foi tomada. Quem estivesse nas fábricas Volks ou Ford, ficava nas fábricas Volks ou Ford. Como eu estava na fábrica Volkswagen, então eu fiquei na Volkswagen. Não teve uma decisão: “Quem quer ir pra lá, quem quer ir pra cá.” Não teve isso. No staff sim, no staff teve uma consulta, não teve muito jeito de não ser assim, mas nas fábricas não teve. Só se o pessoal não quisesse: “Esse eu não quero.” Então se tentava ajustar pra outras funções, mas isso não aconteceu comigo porque ninguém me falou: “Vai pra lá, vai pra cá.” Fiquei. A não ser que a Ford não me quisesse. Pode ser, isso aí não sei se a história vai dizer. O meu chefe também era da Ford e ficou na Volkswagen, o Fernando Peres. Nós ficamos juntos na separação e assim que foi. Não teve uma decisão: “Seu Wagner, o que o senhor vai querer, Ford ou Volkswagen?” Eu não tive essa opção, se eu tivesse eu ficaria na Volkswagen, como eu fiquei.

 

P/2 – Quando que você foi pra Taubaté?

 

R – Pra Taubaté, junho de 1988.

 

P/2 – Ah, você foi logo.

 

R – Fui logo. Acabou..., nós encerramos o nosso trabalho do staff, aí surgiu uma vaga em Taubaté, eu já estava despontando, aí falaram: “Quer ir, quer ir?” Eu falei: “Eu vou.”

 

P/2 – Então essa dificuldade que você estava contando foi ainda na Autolatina.

 

R – Foi na Autolatina. Porque tinha toda uma estrutura da Autolatina comandando o RH e eu era um patinho feio ali, porque todo mundo olhava pra minha cara e falava: “Quem que é esse que tá aqui? É um espião, é o cara que vai...” Eu fui lá não com o papel de espião, mas papel...: “Como é que tá organizado aqui?” Eu já fui como executivo, como supervisor e o pessoal olhava pra minha cara assim e falava: “Assim não dá.” Eu briguei muito com as pessoas no sentido de: “Por que esse cargo? Esse cargo não existe.” Tinha que provar se existia, se não existia, foi muito desgastante. Na verdade, esse primeiro ano, até chegar o Fernando lá, foi desgastante. Não desgastante no sentido de ter que brigar, mas desgastante de ter que provar para as pessoas que aquilo que eu estava fazendo não era por causa das pessoas, porque eu tinha que fazer mesmo, eu tinha que cortar a estrutura. Então a gente tinha a incumbência de fazer alguns ajustes, comparava as estruturas, comparava a estrutura Ford com a estrutura Volkswagen. Taubaté era muito mais gente e a gente tinha que fazer alguma coisa. Era mais enxuta então nós tínhamos que compatibilizar algumas ações e coube a mim essa tarefa de tentar organizar um pouco isso. Acho que eu consegui, mas a duras penas. Com o meu jeitão meio caboclo, como falam, tinha que tentar ajustar essas peças, sem prejudicar ninguém. Ninguém saiu prejudicado, absolutamente, mas eu tive que fazer uns ajustes nesta estrutura.

 

P/1 – E como é que foi mudar pra Taubaté?

 

R – No começo, eu e minha mulher achávamos que ia ser ruim. O primeiro momento: “Puxa, Taubaté.” Mais ela do que eu: “O que eu vou fazer em Taubaté?” Ela trabalhava em São Paulo, trabalhava na Fepasa: “Eu vou largar tudo para ir pra lá? Eu não estou acostumada, sempre trabalhei a vida inteira, vou largar tudo pra cuidar de casa?” Eu já tinha o Vinícius, que já estava com 2 anos, 2 anos e pouquinho. Ela ficou apreensiva no primeiro momento. Depois nós conseguimos a transferência dela pra Taubaté, numa outra empresa pública, na Cetesb, então facilitou. Eu morava num apartamento pequeno e fui morar numa casa grande. Então rapidamente nós entendemos que foi a melhor coisa da nossa vida, sair do stress de São Paulo pra ir pra uma cidade calma, uma cidade tranquila onde meu filho pôde jogar bola, jogar pião, uma coisa mais..., tinha uma grande área na nossa casa então ele podia se divertir mais, tinha escola perto, era tudo muito perto ali, tudo muito fácil, coisa que em São Paulo nós não tínhamos essa facilidade toda. Para levar, tinha que pegar ônibus pra lá pra cá e ela voltou a trabalhar, quer dizer, ficou bom.

 

P/1 – Wagner, como pra você foi o cotidiano da fábrica de Taubaté nos primeiros anos, como que você foi se adaptando a fábrica?

 

R – Então fui me adaptando dessa forma que eu estou dizendo, de ser amigo das pessoas, de entender o que as pessoas queriam, mostrar um pouco quem era o Wagner que estava chegando lá, um Wagner da Ford, um Wagner que não queria ferrar ninguém, queria ajudar todo mundo, esse é o Wagner que teve que fazer um trabalho e o nosso dia-a-dia, de 1988 pra 1989, quando eu tinha o Oscar como chefe, nós trabalhávamos..., eu era área responsável pela área de pessoal, salário, treinamento, então nós trabalhávamos dessa forma, tranquilos. Nós tínhamos as duas fábricas pra administrar, isso é importante dizer, nós tínhamos tanto a fábrica Autolatina, nós tínhamos da Ford que era 6 quilômetros depois da fábrica de motores e fundição, e a fábrica da Volkswagen. Então a minha função, como toda do RH, era uma função das duas plantas, então nós nos dividíamos. Ficávamos na Ford um dia inteiro, quando precisava. Nós nos dividíamos muito dessa forma. No começo, eu confesso que dei muito mais atenção pra Ford, eu conhecia o pessoal da Ford estava todo o dia com eles, praticamente, então eu fui mais pro lado da Ford. Depois eu percebi que eu tinha que começar a olhar mais pra Volkswagen porque era lá que era a fábrica. Tinha 7 mil, 8 mil empregados. Nós tínhamos que dar mais atenção ali na Volkswagen. Mas no começo, até separar a nossa função, era função dupla Ford e Volkswagen. E assim nós fomos vivendo. Veio o outro chefe, o Fernando, um outro nível de exigência, num outro patamar já era da Ford, uma outra visão, o Oscar era uma pessoa tranquila e o Fernando queria ver os resultados com mais rapidez. Então nós fomos nos adaptando a essa nova realidade e fazendo as coisas acontecerem no dia-a-dia.

 

P/1 – Qual o momento que você sentiu que a Volkswagen era a sua casa?

 

R – Quando que eu senti que a Volkswagen era a minha casa?

 

P/1 – É, houve algum fato?

 

R – Quando eu resolvi ficar na Volkswagen mesmo, quando eu disse: “É aqui que eu vou ficar”, não que alguém me perguntou, “Eu vou ficar na Volkswagen.” Acho que a Ford estava passando por um momento que não era interessante pra mim e não teve um fato: “Opa, agora essa é minha casa”, não teve um fato desse tipo, marcante. Mas eu sentia que não era..., que eu era mais feliz..., não é esse o termo, eu me sentia com um membro da Volkswagen. Chegando lá, em 1988, como um membro que não era da Volkswagen, um membro fora da Volkswagen..., acho que tem um fato sim, eu estou me lembrando agora..., nós fazíamos algumas avaliações no fim do ano, fazíamos avaliações em todos os executivos e tinha as avaliações e os gerentes se reuniam pra falar de nós executivos e nesse ano acabou a avaliação e meu chefe virou pra mim que já era o Fernando..., não, o Hélio, o Hélio Nucci, que eu comecei com ele lá em 1988. Ele era o gerente da área que tem uns problemas ali da organização e depois ele foi ser o gerente geral da planta: “É o seguinte, no time Taubaté, é o Wagner e mais dez.” Então nessa hora eu senti que a comunidade de Taubaté reconheceu que eu era um membro da comunidade. Deixei de ser aquela pessoa da Ford. O ano, foi por volta de 1991, por aí, 1992 quando eu fui reconhecido um membro da..., pela gerência da planta. Acho que foi isso, foi quando eu me senti membro da equipe.

 

P/2 – Wagner, quando que foi que você ouviu falar da separação da Ford e da Volkswagen?

 

R – A primeira vez que eu ouvir falar foi no começo do ano de 1994. Já começou o ano com aquele buchicho de separação e que veio se confirmar no meio do ano..., não, mais no fim do ano de 1994. Mas o ano todo de 1994 foi um ano de muita conversa, de muita discussão. O Dr. Lopes tinha chegado, ele era o homem da Alemanha que tomava conta das atividades no Brasil, e o Dr. Lopes é uma pessoa muito dinâmica e ele queria muita produção. Aí começou a se falar no AB9, começou a se fazer o AB9 e começou aí o grande buchicho e foi se intensificando. No começo do ano, alguns boatos depois. Mas no meio do ano, só se falava nisso e se confirmou mais no fim do ano. Eu ouvi falar em fevereiro, março que alguma coisa não ia bem e que nós íamos nos separar mesmo da Ford.

 

P/2 – E não foi surpresa então?

 

R – Não foi surpresa.

 

P/2 – E assim que acabou a Autolatina você não fez a opção, você não usou esse termo, você simplesmente permaneceu onde você estava e como foi esse primeiro momento pós Autolatina.

 

R – Esse momento foi um momento rico pra mim, principalmente. Nós ficamos um tempo, e o Fernando Peres..., o Dr. Wiedemann chamou o Fernando Peres pra ele ajudar nessa transição. O Dr. Pierre Alan De Smet era o Presidente da Autolatina, o Wiedemann, vice-presidente, diretor da área industrial, e o Wiedemann chamou o Fernando que era o nosso gerente de Taubaté pra ajudar nessa transição com a Ford. E eu era a pessoa que ficava ali no lugar do Fernando quando ele se ausentava. Então, pra mim foi..., eu fiquei alguns meses sendo o gerente do Recursos Humanos, lógico que o Fernando ficou dando toda assistência. Eu fiquei ali na coordenação, naqueles trabalhos, então eu fiquei fazendo, às vezes, de gerente de Recursos Humanos enquanto ele não estava. Foi uma época que crescemos muito, tivemos admissões, implantamos o terceiro turno na fábrica. E foi muito rico. Não tinha muito tempo pra pensar, tinha tanta coisa pra fazer internamente: “Vamos fazer, vamos acontecer.” A Ford ficou com o dinheiro, vamos chamar assim; nós ficamos com as fábricas, com a parte técnica. Foi uma transição que nós na fábrica não sentíamos muito isso. Quem trabalhava no staff vai falar com mais detalhes. Nós, da planta, éramos Volkswagen e vamos continuar, vamos em frente. Nós não tínhamos muito tempo pra ficar conjeturando sobre: “É aqui a nossa casa, o nosso trabalho é esse, então vamos. Tem que implantar um turno, vamos implantar esse turno, vamos contratar e vamos em frente.” Acho que aí, para mim, não teve nenhum trauma. Com a mudança não aconteceu nada, absolutamente nada.

 

P/2 – Você acha que a reação dos empregados. Houve alguma reação?

 

R – Normal. Na verdade, os empregados da fábrica nunca se sentiram Autolatina. Mudou o uniforme, tinha um uniforme vermelho e branco, mas culturalmente era Volkswagen, como também na Ford culturalmente era Ford. Então eu não senti nenhum problema com os empregados, a coisa aconteceu na fábrica naturalmente. Não senti nenhum problema pior que pudesse falar: “Puxa vida.” Nada, acho que não aconteceu nada assim de excepcional.

 

P/2 – E aí você ficou quanto tempo em Taubaté antes de ir pra Resende?

 

R – Eu fiquei até outubro de 1995. Aí veio o Thomas Bielefeld, que veio pra assumir a posição que era do Fernando, como gerente de Recursos Humanos da planta. Eu voltei a ser supervisor de Pessoal, que eu era antes. Isso aconteceu no começo de 1995, depois do carnaval. Foi fevereiro, março que o Thomas chegou. Então eu fiquei lá entre dezembro e março nessa posição, fiquei uns 3 meses, aí o Thomas chegou e eu fiquei junto uns meses e em outubro eu fui pra Resende. Desde agosto já estavam me chamando: “Olha, você tem que ir pra Resende.” Então, desde agosto, eu sabia que tinha uma grande possibilidade de ir pra Resende.

 

P/2 – E o que você foi ser em Resende?

 

R – Eu fui ser um maluco, um louco, eu e mais um grupo de pessoas. Querer montar uma fábrica no meio do nada, fazer caminhão e ônibus numa cidade como Resende. Acho que nós somos malucos de chegar e querer fazer uma fábrica. Maluco, que eu digo, é no bom sentido, o empreendedor, o desmatador de tudo pra chegar lá e fazer uma fábrica, uma não, duas fábricas, uma fábrica piloto que já tava sendo feita anteriormente, foi inaugurada só quando fui pra lá, em 95, A fábrica piloto já tava inaugurada, já tava pronta, então teve o mérito de toda pessoa que ficou lá. Porque esse projeto de Resende é antigo, um projeto de quando se separou e aí a Volkswagen não teve fábrica de caminhão, porque a única área que se uniu mesmo, se integrou, foi a fábrica de caminhões, porque lá na Chrysler, depois fechou a Chrysler, foi todo mundo pro Ipiranga. Lá no Ipiranga realmente faziam caminhões Ford/Volkswagen. Então a Volks não tinha mais fábrica de caminhão, ela tinha um mercado pra dar conta. Quando se separou, eu falei: “O que eu vou fazer da vida? Tenho que fazer outra fábrica.” E aí começou toda a história de Resende, do conceito que o Dr. Lopes tinha. E aí começou a se desenhar toda fábrica, todo projeto, fizemos o piloto, depois em 96 inaugurou a fábrica como a gente se vê. Mas no começo, foi um desafio muito grande, um desafio muito grande, pra mim. Eu tinha todo o conforto, eu era supervisor de uma área, conhecia a fábrica como a palma da minha mão, meu conforto era total, trabalhava perto de casa, tinha meus filhos, minha família, mas e daí? Quando me chamaram “Vamos lá, vamos lá fazer.”

 

P/2 – E você foi morar aonde?

 

R – Eu continuei morando em Taubaté e no mês de agosto eu mudei pra Pindamonhangaba, onde eu fiz uma casa. Mudei pra Pindamonhangaba, no mês de agosto. Tá fazendo sete anos que eu moro lá. Foi um dia que o Corinthians foi campeão e foi em cima da Palmeiras, felicidade total: Corinthians campeão em cima do Palmeiras e eu mudando de casa. No dia seguinte, eu mudei de casa, então era felicidade total. E no dia seguinte o meu chefe falou: “Olha, eu preciso conversar com você sobre Resende.” Então eu nem fiquei muito curtindo a minha casa nova, eu tive que começar a me preocupar..., outubro eu fui pra Resende, então casa nova, título em cima do Palmeiras não podia ser coisa melhor.

 

P/2 – E consórcio modular ainda.

 

R – E consórcio modular, tudo que eu queria na vida.

 

P/1 – E como surgiu essa ideia do consórcio modular?

 

R – O Dr. Lopes que teve essa ideia, que trouxe pra cá. Vocês vão editar isso aqui tudo. Tem uma corrente dentro da Volkswagen, isso aqui pra nós, que não aceita que o Lopes tenha trazido isso pra cá. Tem uma corrente que foi dizer que não: “Não é um projeto do Dr. Lopes. É um projeto nosso que nasceu daqui.” Mas no meu modo de ver, a ideia do projeto foi do Dr. Lopes. Não era aquela revolução industrial como eles falavam que era. Não era isso, mas tinha uma evolução no modo de produzir caminhão e ônibus, que não tem no mundo e até hoje não tem. A forma que é hoje lá, não tem no mundo ainda, de tão adiantada, ou por medo. As pessoas não querem entregar a produção do veículo pra parceiros, tem toda essa cautela, mas em Resende não nós entregamos a produção do veículo ao parceiro: “Você monta o carro, eu só vou dar o ok final no carro, no caminhão e no ônibus.” Então foi assim que nasceu essa ideia. Nós não tínhamos fábrica, nós éramos sem fábrica, nós tivemos que fazer uma fábrica e no conceito novo, e o Lopes trouxe esse conceito, tanto que ele ia lá toda semana, semana sim, semana não ele ia ver a fábrica, eu sei porque eu vivi isso no dia-a-dia, hora a hora, semana a semana, ele ia lá e acompanhava a fábrica e falava: “Não é assim, é assado.” Não queria pra cá, queria pra lá, então ele acompanhou a obra quase que totalmente. O Lauro Alcântara, depois veio pra ajudar, ficou aqui residente no Brasil pra também junto com o Barrete, a equipe toda de Resende montar a fábrica. Mas essa é a ideia de conceito novo de produção, uma maneira nova de produzir caminhão e ônibus.

 

P/2 – E você ficou quanto tempo em Resende?

 

R – Fiquei quatro anos e dois meses. Cheguei lá em outubro de 1995. Saí de lá em fevereiro de 2000.

 

P/2 – E saiu por quê?

 

R – Saí porque eu vim pra fábrica de Taubaté. O Thomas era o gerente aqui de Taubaté e nós trocamos. Ele foi pra Resende e eu vim pra Taubaté. Nós fizemos uma troca dentro do conceito de novas experiências. Nós trocamos de posição.

 

P/2 – E aí como que foi voltar pra Taubaté depois de 4 anos?

 

R – Foi muito bom, rever todos amigos, que não mudou muito Taubaté, nessa época, enfim, nessa nova posição, uma posição mais elevada, acho que foi muito interessante pra mim. Proporcionalmente foi muito bom, fiquei perto da minha casa, então foi pra mim uma coisa muito boa.

 

P/2 – E agora você pode falar dos churrascos.

 

R – Churrascos. Os churrascos começaram a partir de uma ideia do Fernando Peres. Nessa fita eu vou dar crédito a ele. Fernando Peres teve uma ideia..., um dia, se reuniu com a equipe dele, “Quero fazer um churrasco.” “Tudo bem, mas como um churrasco?” “Um churrasco, como um churrasco em casa.” “Tudo bem. Pra nós aqui?” “Não, pra toda a fábrica.” “Você tá louco.” “Não, pra toda a fábrica, como se dá em casa, com espetinho, eu quero igualzinho, com churrasqueira.” Aí, fomos fazer o churrasco, tinha pessoas do serviço, a Iara..., começamos a fazer, a planejar o tal do churrasco do fim do ano e assim fizemos. Cada um ficou encarregado de fazer algumas coisas e assim foram os memoráveis churrascos de Taubaté. Era 24 horas, eles começavam com o primeiro turno. Esse dia era o último dia do ano. Era um churrasco como se dá em casa, com churrasqueira, vocês vão ver fotos aí, com cerveja. Nós dávamos 4 tíquetes de cerveja para as pessoas. Era cerveja mesmo para a pessoa tomar. O pessoal disputava a cerveja com palitinho na fábrica, então tinha pessoas com 8, 10 tíquetes de cerveja. Era disputa na fábrica. Eram meses de preparação em que as pessoas ficavam inebriadas com aquela realização, era um negócio espetacular, um negócio que não dá pra descrever pra vocês. E nós começamos a fazer churrasco com umas barraquinhas. O primeiro foi fora da fábrica com barracas. Não é que não deu certo, deu certo, mas nós ficamos muito espaçados, não foi uma coisa de juntar mais. Isso foi em 1993, eu acho. Aí o segundo nós fizemos juntos, nós juntamos. Tinha uma área grande em Taubaté, uma área de depósito, nós pedimos pro Hélio: “Tira essa área daqui.” Aí tiramos, a área ficou limpa pra nós, área de recebimento, aí nós fizemos o churrasco lá com palco, com churrasqueira, com big churrasqueiras. E esse churrasco do primeiro turno, todo turno tinha um churrasco, em torno de 3 mil pessoas, 4 mil pessoas, todo mundo ia no churrasco. E aí nós fizemos um contato com a Escola de Samba Independente de Padre Miguel, então eles vinham com uma caravana de dois, três ônibus, com quatro, cinco mulatas, com travestis, com bateria, era uma espécie de uma ala e eles ficavam a noite inteira. Vocês imaginam o que acontecia. Vocês nem podem imaginar o que acontecia. A gente nem queria entrar, “Nem vou ver.” Chegavam um pouco antes, se trocavam, ficavam espertos, chegava a hora do churrasco. E eu, por coincidência da vida, passei a ser o apresentador do churrasco. “Wagner, você é assim tão sério.” E eu era o apresentador do churrasco, era mestre de cerimônia, sei lá o que eu fazia, eu animava o churrasco. Então tinha toda uma preparação antes. Eu cantava, eu enchia a paciência dos caras. Eu olho hoje, eu vejo alguns takes que eu tenho na memória, eu não acredito que eu fazia aquilo lá. Eu não bebia uma cerveja: “O Wagner, deve tá maconhado, deve tá bêbado.” Eu não bebia uma gota, não bebia e não comia, ficava 24 horas sem fazer nada. Eu vivia pela própria emoção, acho que a própria emoção que levava a gente. Então as mulatas entravam. Teve um ano que foi inaugurado, ali perto de Taubaté, um trevo, uma ponte que ligava a Trabalhadores à estrada que vai pra Campos do Jordão, passava por baixo da Dutra e o Fleury tava chegando lá, o governador que ia inaugurar e o Miguel Jorge pediu, assim: “Pelo amor de Deus, não começa o churrasco, não começa com o show das mulatas enquanto não chegar o Fleury”, porque o Fleury ia inaugurar e ele tinha que dar um plá. Tinha 30 mil pessoas e ele não podia perder essa chance. E coube a mim. O Fernando determinou: “Não começa o show sem o Fleury falar.” Eu falei: “Como eu vou fazer isso? Tem 30 mil pessoas querendo ver o show das mulatas.” E eram mulatas assim, nota 10 mesmo. E o povo começou a ficar nervoso, começou: “Cadê as mulatas?” e batia com a latinha de cerveja e eu cantava “Gatinha Manhosa”, cantava “Atirei o Pau no Gato”, eu chamava a mulher pra cantar comigo no palco. Chegou uma hora que acabou o meu repertório, não tinha mais o que falar, sabe? E o povo percebeu isso, o povo queria me bater: “Ô Wagner, desce daí. Cadê as mulatas?” Ficavam babando e pra minha sorte, nesse dia, sorteava carro, sorteava carro no churrasco: “Não, tá vindo aqui o Fleury, ele vai sortear o primeiro carro pra vocês.” “Queremos saber das mulatas.” Aí aparece, como uma visão divina, o Fleury chegando no churrasco. Aí falei: “Tô salvo.” Chegou o Fleury, com o Miguel, com todo mundo, a comitiva e sorteou o primeiro carro. Aí subiu um cara que estava lá na plateia, subiu bêbado de tudo, abraçou todo mundo, aí acabou, o Fleury foi embora, e começou o show das mulatas. Foi um delírio. Eu tô vendo o povo e no maior respeito, evidente que nessas oportunidades podem se exaltar. E nós tínhamos os nossos seguranças ali perto, mas revistando aí na nossa memória, um negócio muito saudável. Não tinha briga, não tinha confusão, lógico tinha uma ou outra, mas não era..., o pessoal queria ver o show e se sentiam absolutamente felizes. Você via no rosto da peãozada a importância de ter uma festa daquela. Eles comiam pra caramba, bebiam pra caramba e ter o show ainda..., eles se achavam assim..., era um momento histórico e nós fizemos três ou quatro churrascos que foram marcantes em Taubaté, pra mim, que praticamente comandava o churrasco. E era de manhã, o primeiro turno; era o segundo turno, o pessoal entrava, saía tipo meia noite e aí ia até de manhã. Nessa época, tinha um pouco da Ford. Nós nos revezávamos entre Ford e Volkswagen. Ficou muito marcante. Eu sempre cantava “Gatinha Manhosa” pro pessoal. Eu chamava umas meninas e cantava no palco. Então isso ficou até hoje: “O Wagner, canta Gatinha Manhosa.” Ficou um hino, foi uma música que ficou um hino pra todo mundo, pra mim especialmente.

 

P/1 – Na sua opinião qual seria o carro símbolo da Volkswagen do Brasil?

 

R – Carro símbolo? O Gol.

 

P/1 – Nesses 50 anos de Volkswagen do Brasil, tem algum momento marcante pra você dentro da história da empresa?

 

R – Acho que foi a inauguração da fábrica de Resende, em 1996, que eu vi nascer nos anais da história automobilística, porque eu participei ativamente desse processo. O dia que eu deixei Resende, o dia que eu vim embora de Resende, que eu recebi de toda a gerência, horistas, enfim, uma homenagem de todos de Resende, uma homenagem que eu vou viver 100 anos e em 100 anos eu não vou esquecê-la. É que eu tenho um troféu que eu tenho comigo até hoje, é uma fita que eles fizeram sem o meu conhecimento, apesar de que foi feito na minha barba ali, e eu não percebi, eu não tive a manha de perceber e foi um negócio que me marcou tremendamente. Eu cheguei lá numa situação extremamente complicada, sem ninguém pra ajudar, uma estrutura de recursos humanos pra tocar. Muitos problemas nós tivemos em Resende, muitos problemas com os parceiros, de recursos humanos mesmo. Eu passei por momentos muito críticos em 1997, um pouco de 1998. Momentos críticos, momentos de chegar, “Acho que não dá mais. Eu acho que vou parar. Ou eu paro ou eu vou morrer.” Era tanta pressão que não tinha muito jeito. Com ajuda do Fernando, com ajuda de Resende, com ajuda da minha família, que falaram: “Não, vamos lá, vamos lá”, e depois de dois anos e meio, eu saí de lá com essa homenagem mesmo que o povo fez pra mim, que foi muito marcante. E por último aqui, em 2000, em Taubaté, onde nós fizemos um acordo com o sindicato. Nós tínhamos a demissão de mil pessoas pra fazer em Taubaté, passávamos por problemas sérios, nós não tínhamos o acordo de quatro dias, então nós fizemos um acordo com o sindicato, o Dr. Demel concordou que se fizesse um acordo, então ele não demitiu nenhum empregado de Taubaté. Em São Bernardo demitiram 3 mil empregados, 3 mil e 500 empregados, mas o trauma de demissão em Taubaté, uma cidade pequena, uma cidade onde todo mundo se conhece ia ser terrível. Mas, com esses argumentos, com argumentos de que Taubaté é uma cidade importante, que o sindicato é um parceiro da gente, não é um inimigo, com muita argumentação, o Dr. Demel e o pessoal do RH entenderam. E nós fizemos um acordo que evitou a demissão de mil empregados em Taubaté. Então isso eu também levo comigo como um fato da minha carreira profissional. Acho que foi esse um dos fatos mais marcantes. Quem trabalha em RH tem que cuidar da pessoa e da família, tem que cuidar dessas coisas, então a demissão é a pior coisa que pode acontecer pra quem trabalha em RH, pelo menos é a minha visão, pode ser que eu esteja errado. Pra demitir uma pessoa é traumático, demitir mil pessoas é mil vezes mais traumático e nós evitamos isso. A verdade é essa. Os anos vão se passar, a história vai dizer: Taubaté também tinha demissão e não foi feita. O Dr. Demel entendeu esse momento e falou: “Então tá bom, você faz um acordo aí e eu não vou demitir ninguém”, então fizemos o acordo, foi abençoado por todo mundo e não demitimos ninguém, acho que esses fatos foram mais marcantes pra minha carreira.

 

P/1 – É possível imaginar o Brasil sem a Volkswagen?

 

R – Eu creio que não, A Volkswagen está no sangue do brasileiro, tá no sangue, acho que a Volkswagen se confunde um pouco com a história do Brasil. Esta história recente de desenvolvimento do país passou na década de 1950, então se não tivesse na Volkswagen, será que a injeção de dinheiro aqui, será que esse desenvolvimento que nós temos hoje, esse parque industrial que nós temos hoje seria igual sem a Volkswagen? Foi a primeira, praticamente, a colocar carros populares no mercado. Tá muito entrelaçada com a história econômica, social e política do país. Então é a nossa gente, é a nossa terra. Uma das propagandas da Volkswagen diz assim: “É nossa gente, é nossa terra”. É isso também que eu acho. É nossa gente, é nossa terra. Me orgulho demais de pertencer a esse quadro de funcionários, de contribuir de uma forma ou de outra, pra que a Volkswagen esteja aí brigando por melhores condições. Eu me orgulho muito disso, eu me orgulho demais disso.

 

P/1 – E você acredita que o grupo Volkswagen seria diferente se ele não tivesse chegado ao Brasil?

 

R – Eu acho que sim. Para o grupo Volkswagen no mundo, a do Brasil representa quase 20% das operações. É diferente de outras marcas. Você olha pra Ford Brasil, pra eles está 1, 2%. Você olha pro mapa-múndi e vê lá, Brasil 2%. Eu não sei o que eles pensam, eles devem pensar o que? A Alemanha olha pro Brasil, 15, 20% do total. Você tem que tratar de uma outra forma. Então a Volkswagen sem o Brasil, eu tenho certeza disso, não seria a mesma, se não tivesse a Volkswagen do Brasil. Isso eu tenho certeza, eu tenho convicção plena disso.

 

P/1 – Wagner, a sua opinião o que você acha desse resgate da história do Brasil nesses 50 anos?

 

R – Eu acho extraordinário resgatar a história dessa empresa, resgatar 50 anos de história dessa empresa. Eu acho extraordinário, a palavra é essa. Você vai colocar pessoas aqui, vai colocar fatos aqui, vai fazer uma grande ação junto às fábricas, mostrar pra essas pessoas que estão chegando agora, mostrar pra essa gente que está trabalhando aí hoje, o que foi a Volkswagen, o que é e o que será a Volkswagen. Então é um resgate de cultura, é um resgate de identidade com a marca. Eu acho que falta um pouco ter identidade com a marca, você tem que olhar hoje os empregados que estão na fábrica fazendo os carros, eles tem que ficar identificados com essa marca e nada melhor do que se ver dentro disso, se ver na história da Volkswagen, fazer parte dessa história toda. Então a ideia é extremamente feliz. Uma ideia extraordinária mesmo, não tem outra palavra pra escrever. Esse esforço que vocês estão fazendo, que nós estamos fazendo e fazemos isso, eu falo em meu nome e no nome de todo mundo, com a maior boa vontade, com o maior prazer do mundo, falar sobre a história da Volkswagen. Eu tenho que estar aqui falando e falaria mais umas cinco, seis horas, se você quisesse, porque eu tenho muita história para contar. Não só eu, como todos que se sentarão aqui nesse lugar. Então eu me sinto muito honrado em estar nessa posição e falando um pouco da minha história aqui.

 

P/1 – E o que você achou de ter participado dessa entrevista para o projeto 50 anos da Volkswagen no Brasil?

 

R – Eu me sinto muito orgulhoso de estar aqui. Eu nunca imaginava que eu pudesse estar um dia fazendo esse tipo de declaração dentro da Volkswagen, fazendo parte como história aqui da Volkswagen e relatando aqui algumas experiências, algumas brincadeiras, enfim, algumas ações que nós fizemos pro bem do empregado, pra satisfação dele, pra que ele consiga ter identidade com essa marca. Porque isso aqui é tão caro pra gente, é tão importante pra todos nós e pra nossas famílias também.

 

P/1 – Wagner, o Museu da Pessoa e a Volkswagen agradecem por seu depoimento.

 

R – Muito obrigado.

 

[Fim da entrevista]

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+