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História

"É isso que eu mais quero: não deixar ninguém poluir"

História de: Windson Costa Resende (Dragão)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/11/2021

Sinopse

Relação com a família. A vinda para São Paulo durante a infância. Trabalho como catador de reciclagem. O falecimento da mãe. Os aprendizados na escola. A importância de seu trabalho para o meio ambiente. A rotina como catador. A paixão pela música e as composições como funkeiro. Sonhos para o futuro.

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História completa

P/1 – Então, vamos lá! 

 

R – Tá bom! 

 

P/1 – Pra começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R – Bom, pessoal, meu nome é Windson Costa, mais conhecido como Dragão, eu tenho 22 anos, vim de Mantena, um município de Minas Gerais, saí de lá aos dez anos de idade. Vou contar um pouco pra vocês como eu vivia lá. Eu morava na roça, ajudava meu pai na agricultura, ajudava minha mãe quando ela precisava, às vezes, a gente vinha pra escola, mas era bem legal onde eu morava lá, a roça, eu adorava muito. Aí minha mãe teve uma... quando eu tinha nove anos... 

 

P/1 – Windson, posso voltar um pouquinho?    

 

R – Hum hum. 

 

P/1 - Que dia você nasceu?  

 

R – 30 de setembro de 1999. 

 

P/1 – E me conta do seu apelido Dragão. Por que você tem esse apelido? 

 

R – Bom, esse apelido de Dragão é uma gíria minha, porque eu quis. Porque, como eu sou artista também, faço algumas músicas, além da reciclagem, eu pretendo ser cantor. 

 

P/1 – E quando surgiu esse apelido? 

 

R - Surgiu de mim mesmo. Isso aí faz muito tempo, já. Desde que eu tinha quatorze anos.    

 

P/1 – E, Dragão, qual é o nome dos seus pais? 

 

R – Dos meus pais? O nome do meu pai é Wilson Costa Resende e o nome da minha mãe é Sueli Casimira da Costa.  

 

P/1 – E você sabe o que eles faziam, com o que eles trabalhavam? 

 

R – Meu pai trabalhava na roça, coletava plantação de café, na época. 

 

P/1 – E sua mãe? 

 

R – Minha mãe era do lar, mesmo. Minha mãe era dona de casa. Ajudava ali na roça, como você deve perceber. 

 

P/1 – E você sabe onde eles nasceram? 

 

R – Meu pai, pelo que eu sei, é da Bahia. Minha mãe é nascida e criada aqui em São Paulo.   

 

P/1 – E como eles se conheceram? 

 

R – Aí não dá pra te informar, moça. Isso dá pra perceber. Eles nunca me contaram como se conheceram. 

 

P/1 – E você tem irmãos? 

 

R – Dois irmãos. 

 

P/1 – Quais são os nomes deles?

 

R – Suelen Costa Resende e William Costa Resende.  

 

P/1 – São mais velhos, mais novos...

 

R – Minha irmã é do meio, meu irmão é mais velho, eu sou o irmão caçula. 

 

P/1 – E qual é sua relação com eles? 

 

R – Bem legal minha relação com eles. 

 

P/1 – E na infância, como que era? Você lembra? 

 

R – Infância, deixa eu pensar aqui. Na infância também. 

 

P/1 – O que vocês gostavam de fazer juntos? 

 

R – A gente brincava muito. Nossa, era pular corda, jogar bola, pega-pega, essas coisas de criança. 

 

P/1 – E como você descreveria sua mãe?     

 

R – Minha mãe, era muito prestativa, companheira. Fazia todos os meus gostos. Cuidava muito de mim e dos meus irmãos. Mas foi o que aconteceu, que eu falei pra vocês, [faleceu] por causa da bebida. Ela não bebia só aqui. Lá onde nós morávamos, em Minas Gerais, ela também tomava. Quando eu tinha nove anos, minha mãe e meu pai se separaram. Aí foi aí. A gente morava junto lá, na mesma casa, com ele, mas em quartos separados. Minha mãe dormia com minha irmã e eu e meu irmão dormíamos com meu pai. Mas aí minha mãe se cansou muito das brigas, quis mudar pra São Paulo e veio pra cá, junto comigo e com meus irmãos, pra ver se começava nova vida. Aí foi isso: começamos uma nova vida. Minha mãe comprou uma casa, que ainda está lá e, se Deus quiser, quero voltar pra lá de novo, pra cuidar daquela casa. 

 

P/1 – Em Minas? 

 

R – Não, aqui. Eu moro no Campo Limpo. Ela tem uma casa lá, que ela comprou, mas como ela ‘se foi’, antes da partida quem tinha que ficar com a casa era quem ficou do lado dela e fui eu. Antes da morte, quem ficou do lado dela fui eu. Bom, recapitulando, depois que eu vim pra cá, que nós viemos pra cá, minha mãe arrumou um emprego, ela trabalhava em ‘casas de família’, essas coisas: lavar, passar, cozinhar. Depois ela pediu demissão e foi trabalhar numa empresa aí, limpando prédio, apartamento. Aí, a demitiram, acho, não sei por que ela foi demitida e depois disso, ficou desempregada. Trabalhou, foi demitida, e desde então, nunca mais conseguiu emprego, não. Quando a gente brigou e eu saí da casa dela, ela trabalhou. Quando eu comecei a morar aqui, ela foi trabalhar numa feira, era feirante, ajudava a vender frutas, verduras e legumes. Também, depois, foi mandada embora. Aí não teve outra solução, ela ficou desempregada. A única solução era eu me entender com ela, fui, me entendi com ela, voltei a morar com ela. No caso, quando eu fui morar com ela, eu também estava desempregado. Eu estava trabalhando numa oficina aqui em cima, na rua de cima, aqui. Trabalhava numa funilaria e pintura e eu já trabalhei de mecânico. Aí, o meu ex-patrão queria me pagar muito pouco e eu não quis. Ele queria me pagar cinquenta reais por semana, gente! Cinquenta reais por semana. Aí eu tive que ir na casa do meu próprio ex patrão e falar pra ele: “Eu sinto muito, eu não quero mais trabalhar pra você, não está dando mais certo”. Levei currículo pra tudo quanto é lado, pra ver se conseguia um trabalho, mas infelizmente não consegui. E fiquei em casa, pensando: “Como é que eu vou ter um trabalho?” Aí eu encontrei um carrinho de mercado abandonado onde eu morava, ali, aí eu comecei a pensar, pensar bastante e falei: “Vou ser catador. É a única solução. Não vai ter outro jeito”. E foi isso que aconteceu, quando eu comecei a reciclagem, eu não vendia muita coisa, porque tinha algumas coisas que eles não compravam. Quando eu comecei a colocar mais alguns trabalhos em vão, aí sim deu tudo certo. 

 

P/1 – Vou voltar, tá? (risos) 

 

R – Pode voltar. 

 

P/1 – Queria saber como você descreveria o seu pai. 

 

R – Meu pai, meu amigo, meu herói. Me protegia muito. Eu gostava muito dele, das coisas que ele fazia. Eu lembro quando eu morava na roça, meu pai, às vezes, quando ganhava algum salário no trabalho dele, comprava muitas coisas pra casa e eu gostava muito. Ele sempre me levava com ele. Em algumas vezes, todo o tempo. Me levava nos seus passeios, era muito legal. Me levava sempre para pescaria, eu gostava. Eu gosto tanto do meu pai, que eu não consigo nem descrevê-lo direito. Meu herói. 

 

P/1 – Você tem contato com ele ainda?

 

R – Acho que sim. Quem tem mais é minha irmã. Ela que tem contato com ele. 

 

P/1 – Você não fala mais com ele? 

 

R – Só de vez em quando ele liga pra minha irmã, é quando eu falo com ele.

 

P/1 – Você sente falta?

 

R – Se eu sinto falta dele? Sinto muita falta dele. Como agora ele está morando na Bahia... Quando eu conversei com ele via Whatsapp, eu lembro, eu vi o lugar onde ele estava morando, era muito bonito. 

 

P/1 – E quando vocês perderam o contato, que vocês pararam de se falar? 

 

R – Depois que eu saí de lá. Nós saímos, deixamos meu pai lá em Minas, meu pai teve que... depois que eu saí de lá, quando minha mãe separou, eu não soube mais dele. 

 

P/1 – E como era sua vida até os nove anos, quando você morava lá? Como era sua casa? 

 

R – Minha casa era grande. Tinha dois quartos, tinha um lugar onde meu pai guardava as ‘tralhas’ de trabalho, eu gostava muito. Quando eu chegava da escola, eu gostava muito de brincar. Quando não tinha ninguém brincando, eu brincava sozinho. Era muito legal. 

 

P/1 – Do que você gostava de brincar sozinho?

 

R - Com meus carrinhos, que ganhei do meu primo. Era uma infância muito legal. Ganhei dele aqui mesmo, quando eu voltei pra lá. Eu começava a brincar com todos meus brinquedos. 

 

P/1 – E, Dragão, tinha alguma coisa, um costume familiar que vocês tinham, alguma comida específica, algum cheiro, algum sabor que te lembra sua infância? 

 

R – Alguma comida que minha mãe fazia? Ah, tinha muitas. Bastante. 

 

P/1 – Qual que você se lembra? 

 

R – Agora me complica, deixa eu pensar. Tinha tantas coisas. Era comida de roça, eu não lembro como era. Essas comidas de roça, não lembro direito. Era galinhada, essas coisas. Nossa, eu adorava. Minha mãe fazia todos os meus gostos. Fazia um monte de coisa, eu nem lembro direito o que era. 

 

P/1 – E vocês tinham o hábito de comemorar algumas datas específicas, aniversário? 

 

R – Algumas vezes, sim.    

 

P/1 – Mas não era tão comum?

 

R – Não. Não comemorava esses negócios de festas, essas coisas, não. Essas coisas, não. 

 

P/1 – E você sabe a história do seu nascimento? 

 

R – Quando eu nasci? Não. Minha mãe me contava muitas coisas, contou umas coisas pra mim, só que eu não entendi direito. Disse que passavam muita dificuldade, quando não tinha muita coisa, quando não tinha o que comer, ela saía, pra poder procurar comida. É isso. Eu sinto saudade dela. Tem uma história que eu lembro até do que aconteceu quando ela morreu. 

 

P/1 – O que aconteceu? 

 

R – Eu cheguei do serviço, eu estava trabalhando com reciclagem e minha mãe já estava desmaiada na cama, era uma cama de casal, tipo desse tamanho, ela estava desmaiada, eu não sabia nem o que fazer. A única solução era eu ligar para minha irmã, pra ver se ela tinha um tempo pra ir lá, pra ver o que aconteceu, aí ela falou com meu irmão, meu irmão chamou o Samu, para poder socorrer, mas o Samu não veio. Demorou mais de uma hora pra poder chegar em casa. Uma hora. Aí, o que aconteceu? Meu irmão teve que chamar o Uber, para levá-la ao hospital. Fomos eu e mais uma amiga minha, a levamos pro hospital, tiveram que colocar aqueles tubos de respiração nela e deixá-la lá, pra ver o que podia fazer. Praticamente eu nem podia entrar, por causa da doença, do Covid-19. Depois, passou-se uns tempos, alguns dias, eu estava trabalhando, meu celular tocou: “Vai ver que é algum cliente, não vai dar, não”. Aí eu desliguei. Veja o que me aconteceu: depois começou a tocar, eu: “Alô, o que está acontecendo?” “Preciso que você venha aqui em casa imediatamente”. Na hora que eu fui lá, meu cunhado me contou o que aconteceu, que ela tinha morrido. Foi às oito e meia da manhã que ela morreu. A gente não sabia mais o que fazer. Foi isso aí que aconteceu. Foi muito estranho, muito grande perdê-la. 

 

P/1 – E como está o coração? 

 

R – É, dá pra entender o lado dela, ela foi enterrada aqui no Cemitério Jardim da Paz, que fica aqui perto, aí fiquei só cinco dias de luto. Aí depois eu tive que tomar uma decisão. Aí eu pensei e falei: “Pra mim chega, eu vou ‘tocar a minha vida’, não tem como mais pensar nisso, não”. E foi isso que aconteceu, eu ‘toquei a minha vida’. Não tinha outra opção.

 

P/1 – Dragão, você conheceu seus avós?  

 

R – Só a mãe da minha mãe, só minha avó. Quando eu cheguei aqui, só conheci minha avó. E meus familiares: meus tios, minhas tias. 

 

P/1 – E o que você se lembra deles? 

 

R – O que eu lembro deles? Tipo lembrar como?  

 

P/1 – A sua relação. 

 

R – A minha relação com eles é boa, não tenho nada a declarar sobre eles. São pessoas bem legais, me ajudam com tudo. 

 

P/1 – Você mantém contato com sua avó?

 

R – Tenho, tenho contato com meus tios, eu tenho eles no Whatsapp. 

 

P/1 – E quando você era pequeno, estava lá em Minas Gerais, você pensava o que queria ser, quando crescesse? 

 

R – Eu pensei? Sim. 

 

P/1 – Queria saber o que você estava pensando lá em Minas ainda. Se você pensava o que você queria fazer quando crescesse, se você sonhava com alguma profissão ou se você não pensava sobre isso. 

 

R - Não, eu ainda não pensava sobre isso ainda.   

 

P/1 – E aos nove anos, que aconteceu a separação dos seus pais, como que foi esse momento, pra você? 

 

R – Foi um momento muito difícil, porque eles formavam um casal perfeito, mas com as brigas, eles tiveram que se separar. 

 

P/1 – Você se lembra das brigas? 

 

R – Lembro.     

 

P/1 – Lembra como você se sentia?  

 

R – Me sentia triste, assustado, sem saber o que eu poderia fazer. Mas agora meu pai mudou, ele parou de beber.

 

P/1 – E a sua vinda para São Paulo, você lembra como foi, com a sua mãe? 

 

R – Lembro. Nós tivemos que sair de lá, a gente veio pra cá de ônibus. Foi legal. Nem sei quantas horas são de viagem, de lá pra cá. 

 

P/1 – E quem estava nessa viagem? 

 

R – Eu, minha irmã, meu irmão e minha mãe. 

 

P/1 – E ela explicou o que estava acontecendo? 

 

R – Não. 

 

P/1 – Vocês só vieram? 

 

R – Só. Eu falei pra minha mãe: “Mãe, nós vamos passar uns dias lá em São Paulo?” Ela falou: “Não, vai morar lá, mesmo”. Chegando aqui ela alugou uma casa. Alugou, não sei se ela alugou ou se ficou, porque era a casa da minha avó, minha avó tem uma casa de aluguel. Ficou por lá, aí comprou uma casa quando trabalhava numa ‘casa de família’. Comprou uma casa, não lembro que valor que foi e fomos pra lá.    

 

P/1 – Como foi morar lá?

 

R – Legal. Eu e meus irmãos. 

 

P/1 – E você lembra qual foi a sua primeira impressão, chegando aqui em São Paulo, que você sentiu dessa cidade, se era muito diferente?   

 

R – Eu senti que o lugar era muito diferente. 

 

P/1 – Por que era diferente?

 

R – Porque não tinha as coisas que eu gostava, lá. Não tinha muito espaço grandão, que eu ficava brincando, só espaço pequeno, escadas, becos, vielas. Aí eu comecei a me acostumar, me acostumei. 

 

P/1 - E escola, foi aqui ou lá em Minas que você começou? 

 

R – Eu comecei lá, fiquei até a terceira série, desde que eu era bem pequeno. Aí repeti a terceira série, fiz aqui e passei. Aí foi indo: quarta, quinta, sexta, sétima, oitava, por aí. Até chegar ao segundo ano do ensino médio. 

 

P/1 – Nesse período da escola, você se lembra de alguma história marcante, de algum momento que foi significativo, pra você? 

 

R – Momento significativo pra mim, muitas coisas. Deixa eu ver que momento que eu passei na escola. O pessoal gostava muito de mim. Desde que eu entrei na escola, eu nunca tomei essas coisas, sabe, que tem: convocação, suspensão, advertência, nunca tomei.  

 

P/1 – Você ia bem? 

 

R – É, mas quando na terceira série levei aqueles bilhetinhos pra casa, que criança leva. A maioria que criança leva de bilhete pra casa, tem que levar assinado. Isso eu já levava muitas e muitas vezes.   

 

P/1 – Por quê? O que você fazia? 

 

R – Eu fazia coisas muito erradas: conversava muito, atrapalhava na aula. Aí teve uma vez que eu já passei mal também na aula. Sentia várias dores no peito. Eu tive que aguentar. Minha pressão já caiu dentro da sala de aula. Não tinha o que fazer, vieram três meninos me ajudar. 

 

P/1 – E aí?   

 

R – Deu tudo certo. Tiveram que me levar lá na diretoria, para medir a pressão. E não é que estava, mesmo? Caiu mesmo. “O que está acontecendo? Depois você vê o que está acontecendo com esse menino, não era desse jeito”. E descobriu por que era: eu saía de casa sem tomar café. E eu fazia isso sempre. Gostava muito de estudar, essas coisas.

 

P/1 – Voltando da escola, que você gostava. 

 

R – Eu gosto muito de escola. Eu gosto muito das matérias da escola. 

 

P/1 – Qual você gosta mais? 

 

R – Duas matérias: Geografia e Ciências. E Ciências, foi nisso aí que eu me inspirei na reciclagem, também. 

 

P/1 – Vocês falavam sobre reciclagem na escola?

 

R – Nessa aqui, não, mas na minha escola, que eu estudava, já falaram. 

 

P/1 – O que você lembra?   

 

R – Falaram que reciclagem era bom, para não poluir rios, colocar nos devidos lugares, certos. Que tem várias cores que servem para reciclagem: tem vermelho, verde, azul, amarelo. Aí tem que colocar em cada lugar o seu material. Eu gostava. Já assisti muito, eu assisto muito no YouTube as pessoas fazendo brinquedos usando materiais recicláveis. Eu gosto muito. 

 

P/1 – Você fazia, na escola? 

 

R – Já. Na minha escola que eu estudava, já. Só não lembro o que era. 

 

P/1 – E você se lembra de algum professor marcante? 

 

R – Sim.

 

P/1 – Quem que era? 

 

R – Era meu professor de Matemática, ele era bem legal. 

 

P/1 – O que você gostava nele?

 

R – Ele gostava de mim, passava um monte de contas. Quando eu pedi a ajuda dele uma vez, ele me deu um exemplo só pra fazer a lição, na hora que eu fui fazer o resto, foi bem legal. Deixa eu ver se teve outro. Tinha um outro também, que era de Ciências, que também era legal. Passava muitas coisas sobre planetas. Eu adoro. 

 

P/1 – Isso já foi aqui em São Paulo? 

 

R – Isso foi aqui em São Paulo. 

 

P/1 – Qual é a escola que você ia? 

 

R – Fica do lado do metrô Vila das Belezas.  

 

P/1 – Que bairro que é? 

 

R – Eu não lembro. Metrô Vila das Belezas, só sei isso. Ali na Vila das Belezas que eu estudava. 

 

P/1 – E como era sua casa aqui em São Paulo, já?  

 

R – Lá era pequena, tinha um quarto só, uma cozinha e um banheiro. Três cômodos. 

 

P/1 – E o bairro, como que era? Você tinha amigos na vizinhança? 

 

R – Aqui em São Paulo? 

 

P/1 – É. 

 

R – Poucos. Teve um que eu conheci desde criança, quando eu cheguei aqui. Conheci desde que eu era bem menor. A gente brincava muito. Mas ele começou a ‘zoar’ comigo várias vezes. Mas isso acontece, tem coisa que eu nem ligo.     

 

P/1 – Zoava como? 

 

R – Começava a brincar, fazendo um monte de coisa que eu não gostava. Aí eu comecei a ficar nervoso, comecei a ir pra cima. Começou até na reciclagem, quando eu catei, quando eu colhi, veio um monte de criança começar a rir da minha cara. Começaram a dar risada de mim. Na hora, eu falei: “Vocês podem rir à vontade, mas a risada de vocês não vale o que eu ganho, não. Vocês podem rir à vontade. Eu não ligo, mesmo”.  

 

P/1 – Quantos anos você tinha? 

 

R – Quando eu estava pegando a reciclagem? Estava com vinte. 

 

P/1 – Você morava lá naquela outra casa? 

 

R – Lá, com a minha mãe. 

 

P/1 – E me conta como você começou a se envolver com a reciclagem. 

 

R – Como comecei a me envolver, eu aprendi com uma amiga minha, catadora de reciclagem e também, como eu falei pra vocês ainda agora, na aula de Ciências. Eu aprendi vendo ela catando muitos materiais: garrafas, latinhas, ferro, papelão. Aí eu me inspirei. Mas enquanto eu não começava ainda a reciclagem, eu comecei a coletar latinhas, porque falaram que era bom. Coletei um saco de latinhas, comecei a ganhar, mas o preço não lembro qual era direito, ganhava muito pouquinho. Não vale nada, né? Então, comecei a juntar um monte de materiais recicláveis nas ruas, naquela época. Eu estava com o carrinho já e coletei um monte de material, enchi o carrinho, levei pro ferro-velho. Aí juntava, levava; juntava, levava e assim por diante. Comecei a ganhar bem. 

 

P/1 – Quantos anos?

 

R – Quando eu comecei a reciclagem? Foi com dezoito. Ainda lembro. Quando eu saí dessa oficina aqui de cima. Eu saí de uma oficina. 

 

P/1 – E qual foi o seu primeiro trabalho? 

 

R – Meu primeiro trabalho? Foi... eu já trabalhei no farol, entregando panfletos. Aí, quando eu morei lá no Taboão, eu conheci o amigo do meu cunhado, que era mecânico, aí trabalhei com ele como mecânico, trabalhei de mecânica, faz um tempinho, já. Teve um amigo meu que é dono de uma oficina aqui e eu falei pra ele: “Estou desempregado, não sei nem o que eu vou fazer”. Ele falou: “Está sem trabalho? Sobe pra você me ajudar, um dia, eu te contrato”. Aí ele me contratou. Eu falei: “Quanto você vai me pagar por semana?” Ele falou: “Cinquenta”. Nossa, eu não podia suportar. Aí trabalhei com ele uns dias, eu gostava do meu trabalho, mas aí falei: “Não vai dar certo, não. Cinquenta reais por semana, isso não dá certo. Se fosse por dia, aí eu queria, né? Agora, por semana, não”. Aí eu tive que sair, não tinha outra escolha, a não ser sair de lá. Aí, de lá, entreguei currículo pra tudo quanto é canto, pra ver se tinha algum trabalho melhor e não tinha, ninguém quis contratar. Aí, a solução era montar meu negócio, como catador de reciclável. Falei: “Vou ser catador, vou pras ruas, não tenho medo, não”. E pronto, comecei. Na época eu levei - na época quando eu vendia lá na Estrada de Itapecerica – uns dez sacos cheios de garrafas, daqueles litros de garrafa, mesmo, de litro. Ganhei, na época, 45 reais. Muito legal, gostei muito. 

 

P/1 - Que ano foi? 

 

R – Foi... Eu nem lembro. Acho que foi em 2018, 2019. Acho que foi assim. 

 

P/1 – E como era seu dia a dia?  

 

R – Era bem legal, mas tinha que ficar o tempo todo de pé, entregando um monte de panfleto, pra lá e pra cá. Era muito panfleto, muito cansativo. E eu ganhava, uma hora, cento e vinte reais; uma hora, quarenta; uma hora, oitenta reais, por aí. Mas somente aos domingos. E pronto, aí foi muito cansativo, tinha que ficar debaixo do sol quente ainda, entregando panfleto. 

 

P/1 – E como foi trabalhar na mecânica? 

 

R – Muito arriscado. É arriscado. 

 

P/1 - Por quê?     

 

R – Ele me enrolava pra me pagar. Eu falei: “Que negócio!” E gastava o dinheiro só com cachaça. Eu falei: “Não, não dá certo isso, não”. Aí eu trabalhava numa oficina aqui, aí mudei, ele se mudou de oficina e foi lá pro Jardim Ângela, ficamos um tempo lá, aí me contaram que ele estava devendo pra um... acho que vocês não devem conhecer, não... se chama agiota, não devem conhecer. Já? Então, começou a se envolver com agiota, devendo e disse que, se não pagasse, ia matá-lo. Ia me matar junto, se eu tivesse lá. Eu saí de lá, pra não ter problemas. Falei: “Vou sair daí, vou voltar de novo para reciclagem”. Saí de lá sem ele saber e não voltei nunca mais. O bloqueei do meu celular e pronto, segui meu caminho. Não tinha outra opção, não. Depois ele perdeu a oficina e arrumou um serviço registrado, eu não soube mais dele. 

 

P/1 – E com a reciclagem você começou novo e depois você voltou?

 

R – É. Comecei, depois dei uma parada e fui trabalhar de novo de mecânico. Aí não deu mais certo e voltei de novo. 

 

P/1 – E o seu primeiro envolvimento com a reciclagem, quem é essa amiga que te apresentou? 

 

R – Não, não me apresentou, não. Eu que vi ela fazendo e decidi fazer também. Aí eu fui pra cima. Ela mora um pouco perto da minha casa, o nome dela é Silvia, é uma que tem uma carroça. Ela tem acho que três carroças. Tem bastante carroça. Tinha umas três carroças, lotada de reciclagem as carroças dela.    

 

P/1 – E você conversava com ela ou não? 

 

R – Não muito. Eu lembro quando ela foi na minha casa, pegar uma geladeira, lá, mas na época eu nem tinha começado com a reciclagem ainda. Ela pegou, levou e pronto. 

 

P/1 – E o que você gostava de final de semana? 

 

R – Comecei a catar os materiais, porque não tinha vergonha de nada. Eu falei: “Assim que é melhor, não ter vergonha de nada, assim a gente não é humilhado”. Se a pessoa quiser rir da cara da pessoa, pode rir, a gente não pode nem ligar para o que a pessoa disse. Tipo assim, a pessoa falar que você é isso, você é aquilo, pode até falar, mas a gente não pode ligar. Igual a mim. Na segunda vez que eu estava coletando a reciclagem de uma favela, o menino começou a me chamar de uma coisa que eu não gostei, aí eu conhecia, sabia onde ele morava, fui na casa dos pais e contei. Os pais resolveram na hora. Conversaram e falaram: “Não fica zoando-o, não, ele está trabalhando”. 

 

P/1 – Já passou por algumas situações como essa? 

 

R – Nunca. Foi a primeira vez que eu passei por uma coisa dessas. 

 

P/1 – Como você se sentiu? 

 

R – Me senti humilhado. Conversei com uns amigos, falaram: “Não liga, não, para o que eles dizem. Só faz seu trabalho, que você ganha mais”. Eu falei: “É isso aí”.

 

P/1 – E nesse primeiro momento, que material você pegava?     

 

R – Quando eu comecei a reciclagem?        

 

P/1 – Isso. 

 

R – Em geral, toda a reciclagem do mundo, que vocês imaginam: lata, ferro, papelão, garrafa de plástico, de vidro, aquelas caixinhas, como sempre, essas de suco. O que mais eu pegava? Eu coloquei mais algumas coisas na mão, aumentei mais uns servicinhos, pra dar mais lucro. 

 

P/1 - Quais serviços?

 

R – Retirar entulho de casas, madeira, limpar laje, essas coisas assim. Carregar material de construção, compras de pessoas que têm dificuldade e assim vai. 

 

P/1 – E como funcionava seu trabalho, nesse primeiro momento? Você separava os materiais?

 

R – Separava. Plástico em um, em outro saco colocava ferro, em outro, latinha, em outro caixinha, assim sucessivamente. 

 

P/1 – E onde que você separava os materiais? 

 

R – Na rua. Eu tinha um espacinho lá, jogava lá, separava, ensacava em que lugar era, plástico com plástico, um no outro e pronto. 

 

P/1 – E os vizinhos? As pessoas tinham interesse, perguntavam o que você estava fazendo, ou não? 

 

R – Se os vizinhos perguntavam? Tinha algumas vezes que sim, perguntavam, falavam: “O que você faz da vida?”, eu falava: “Sou catador de reciclável”. Aí pronto. Juntava. Aí tinha vezes também, que as pessoas me davam reciclagem, tinha algumas que me ajudavam com alguma coisa, quando eu estou na rua, me ajudavam com algum dinheiro. Igual teve uma pessoa, pegou e perguntou pra mim assim: “Moço, essa reciclagem você vai levar pra vender?” Eu falei: “Vou, sim”. Ele me deu até um dinheiro. As pessoas gostavam muito do trabalho. 

 

P/1 – E pra você, qual é a importância da reciclagem? 

 

R – A importância é pra gente não poluir o planeta, porque tem muita poluição. Se você jogar lixo nos rios causa muita enchente, muito entupimento dos esgotos e isso não é bom para o mundo. O melhor é a gente reciclar, não ficar jogando lixo no rio, jogar nos seus devidos lugares e, assim, não prejudicar o nosso planeta. 

 

P/1 – Como que você aprendeu isso?    

 

R – Hoje eu assisto muito pela televisão, já assisti muitas matérias sobre isso aí, sobre reciclagem. 

 

P/1 – E como é, pra você, trabalhar com algo que transforma o planeta, o meio ambiente? 

 

R – Como assim, transformar algo? 

 

P/1 – Como você se sente trabalhando com a reciclagem, que permite essa transformação no meio ambiente? 

 

R – Me sinto uma pessoa muito legal, como eu vou dizer pra vocês? Me sinto como as pessoas gostam. Eu gosto muito de coletar. A minha importância é deixar, fazer desse lugar, um planeta mais limpo. É isso que eu mais quero: não deixar ninguém poluir.  

 

P/1 – O que você acha que precisa ser feito pras pessoas entenderem isso? 

 

R – O que seria melhor ser feito? É não jogar lixo nas ruas, é colocar cada reciclagem, cada material em seu devido lugar, tipo: materiais recicláveis, não recicláveis e lixos orgânicos, em todos os seus lugares, pra não ficar poluindo. 

 

P/1 – E você acha que as pessoas sabem disso ou falta informação? 

 

R – Falta informação, falta, mas eu já vi até uma pessoa quase indo jogar um monte de papel no lixo, eu falei: “Não, não, não, pode parar aí. Vai jogar fora?” Falou: “Vou” “Pois me dê, por favor”. Ele me deu. Eu falei: “O meio ambiente agradece”. Ele falou: “Não, não tem o que agradecer. Você fazendo seu trabalho, é melhor”. Falou só isso. 

 

P/1 – E você conhece outros catadores? 

 

R – Conheço. Deixa eu ver... de maioria eu conheço alguns, só. Só dois catadores. E um deles foi muito amigo da minha mãe. Ele tem até um espacinho ali para guardar as coisas dele, aí o caminhão da reciclagem, do ferro-velho vem, pega tudo e leva. Lá onde eu levava não é ferro-velho, é tipo um centro de reciclagem, chama Relog Soluções Ambientais. 

 

P/1 – Me conta como funciona isso hoje em dia, o seu trabalho. Você vai pra algum bairro específico, alguma região? 

 

R – Só no bairro do Campo Limpo, mesmo. Faço aqueles lugares: Parque Regina, Parque Arariba, Jardim Ingá, Vila Prel. Naquela parte.      

 

P/1 – E como é o seu dia de trabalho?

 

R – O meu dia? 

 

P/1 – É. Você acorda que horas?

 

R – Quando eu levo meu sobrinho pra ir pro colégio, quando ele tem colégio, eu saio daqui umas seis e meia, acordo seis e meia e eu mesmo me arrumo, me troco, aí espero dar seis e meia, acordo meu sobrinho, porque ele já fica com a roupa no corpo pra ir pra escola, ponho o sapato nele e vamos. Pega a bolsa, as coisas, escovo os dentinhos dele e vamos indo. Deixo ele lá no colégio e de lá, eu vou trabalhar. 

 

P/1 – E aí, como é o seu trabalho?   

 

R – Aí de lá vou trabalhar, pego o carrinho e vou pras ruas. Às vezes, não dá pra fazer isso mais, direito, porque também aparece outro serviço na frente e não tem outra opção, eu tenho que ir. 

 

P/1 – Que outro serviço você faz?

 

R – Igual o que eu falei pra vocês ainda agora: às vezes, aparece pra tirar entulho, para retirar madeira, carregar algum material, limpar uma laje. 

 

P/1 – E, Dragão, seu carrinho fica onde? 

 

R – Fica lá na casa da minha mãe, lá no Campo Limpo. Eu comecei a deixá-lo lá, mas lá ninguém mexe, não, porque lá é trancado. O único que tem a chave sou eu. 

 

P/1 – E aí você pega seu carrinho e sai andando pelas ruas?

 

R – Saio. 

 

P/1 – E todo dia você vende o que você recolhe ou traz pra casa de volta? 

 

R – Tipo, eu levo, vou de carrinho e quando eu deixo o carrinho já lotado, ele vai direto pro ferro-velho e pronto. E assim vai. Quando eu vou enchendo, eu vou vendendo.    

 

P/1 – E você vai separando?

 

R – Separando, levo, vendo e pronto. 

 

P/1 – E como você vê a condição de trabalho dos catadores? 

 

R – Condição?   

 

P/1 – É boa, ruim... 

 

R – Boa. 

 

P/1 – O que você gosta? 

 

R – Eu gosto do trabalho que eles fazem também, para ajudar a limpar todo esse planeta, que é um planeta muito legal. 

 

P/1 – E pensando desde o momento que você começou com a reciclagem, você deu uma pausa e voltou, com essa volta teve alguma transformação que você pôde perceber, alguma mudança em relação a como as pessoas veem o seu trabalho de reciclagem? 

 

R – Como assim? Sim, houve uma transformação. 

 

P/1 – Qual?  

 

R – Tipo, teve sim, uma transformação, que nem eles falaram, que é muito melhor a gente trabalhar para nós mesmos, para não trabalhar para outras pessoas. Teve uma transformação. Quando eu fui evoluindo, chegava muito cliente, começava a pedir trabalho, pediam pra pegar reciclagem nas casas e pronto, mas pode ser até longe, onde estiver eu vou. 

 

P/1 – E você recolhe nas casas?  

 

R - Também. Nas ruas, nas casas. As pessoas dão. Quando as pessoas me veem nas ruas, estacionam com a mão assim, já vou parando. Eu falo: “Posso ajudar em alguma coisa?” “Tem uma reciclagem pra você assim, tal e tal”. Eu falo: “Por favor”. Agradeço, eles me dão, eu agradeço e pronto. E saio nas ruas. Eu não paro por nada. 

 

P/1 – Você gosta do que você faz? 

 

R – Gosto muito.  

 

P/1 – E tem alguém que você sempre encontra, alguma pessoa que você goste muito de conversar sobre reciclagem nas ruas? 

 

R – Com todo mundo. 

 

P/1 – Vai ensinando todo mundo? 

 

R – É. Pra não poluir. Tem até uma cliente que, às vezes, junta um monte de material pra mim, ela deixa limpinho o material, higieniza, faz toda a limpeza e me entrega depois. 

 

P/1 – Não é todo mundo que faz isso?

 

R – Não todos. 

 

P/1 – E faz diferença pra você? 

 

R – Também. 

 

P/1 – O que muda ao receber um material limpo? 

 

R – Muda que é muito melhor pra não pegar muita doença, às vezes. 

 

P/1 – Quais são as maiores dificuldades e desafios que você tem no seu trabalho? 

 

R – Dificuldades e desafios? Tipo, quando eu saio com o carrinho na rua. Quando eu tento atravessar a rua, a pessoa começa a buzinar pra mim. Igual uma vez, quando eu fui atravessar pra subir, o que acontece? Um cara passou de carro na minha frente e falou: “Ah, doido”. Na minha frente, ainda. Eu não disse mais nada. Eu falei: “Pode falar”. 

 

P/1 – E antes de começar a trabalhar com reciclagem, como você enxergava o trabalho? Você já sabia da importância ou foi aprender mesmo só depois, quando você começou a trabalhar?

 

R – Só fui aprender quando eu comecei. 

 

P/1 – Mudou a maneira como você enxerga os recicladores?

 

R – Mudou muito. 

 

P/1 – Como que mudou? 

 

R – Mudou que incentiva muito os catadores a coletar os seus próprios materiais. 

 

P/1 – E, Dragão, quais são os maiores aprendizados que você tira desse seu trabalho? 

 

R – Os maiores aprendizados? O nosso maior aprendizado é a gente ajudar o mundo, primeiro deles. São quatro coisas. Segundo: quando as pessoas começarem a rir, zombar da cara da pessoa, ser humilhado, é para não ligar. Pode ser por cor, por raça, sofrer preconceito. Só não ligar. O importante é a gente fazer o nosso próprio trabalho e não ir na conversa de ninguém.     

 

P/1 – E com o tempo, você tem percebido que o seu trabalho tem sido cada vez mais valorizado pelas pessoas ou não? 

 

R – Tem sido mais valorizado, sim. Muito mais valorizado pelas pessoas, que as pessoas falam: “Continua assim, meu amigo, continua, que assim você chega lá”. 

 

P/1 – Então, você recolhe todos os materiais?

 

R – Todos. Todo tipo de material.    

 

P/1 – E aí você separa e vende no ferro-velho?  

 

R – É. 

 

P/1 – Tem algum material que você gosta mais de trabalhar? 

 

R – Tipo de material que eu gosto de trabalhar?

 

P/1 - Que você mais goste de trabalhar: papelão, caixinha de suco, PET... 

 

R – Ferro. 

 

P/1 – Ferro? 

 

R – Eu gosto de coletar muito ferro. Como eu vou dizer? Sucata. 

 

P/1 – E como você acha que as pessoas enxergam seu trabalho? 

 

R – Como as pessoas enxergam meu trabalho? Eles me enxergam por eu ser um homem que trabalha bem, uma pessoa que tem respeito com as pessoas, é isso que o trabalhador precisa, que tenham respeito pela pessoa. E que as pessoas não julguem as outras pelo que elas são. 

 

P/1 – Você já sofreu alguma coisa assim, nesse sentido? Já foi julgado? 

 

R – Nunca. Nunca fui julgado, não. 

 

P/1 – E me conta como você começou a se envolver com música. 

 

R – Me envolver com a música? Nossa, essa é uma coisa boa! Eu sempre gostei muito de música, sabe? Eu gostava muito de ouvir música na companhia da minha mãe. A gente ouvia muitas músicas. 

 

P/1 – Desde cedo?    

 

R – É. 

 

P/1 – Que músicas vocês escutavam? 

 

R – Brega. Na época desde pequeno eu começava a ouvir brega. 

 

P/1 – Você se lembra de alguma música? 

 

R – De algum cantor? 

 

P/1 – É. 

 

R – Só... A minha mãe já foi no show dele, mas vocês não conhecem, não: Amado Batista. Vocês não conhecem, não. Conhecem? Ele foi o melhor cantor para a minha mãe. Quando eu estava na casa da minha mãe, ela era viciada nele, não queria que tirassem, não. 

 

P/2 – Qual música dele você gosta mais?   

 

R – Foi Casamento Forçado

 

P/2 – Como que é? Eu não lembro. 

 

R – “Esse casamento imundo e sujo, que acabou de vez. Esse sentimento inútil, não quero pra nenhum de vocês”. Foi essa música aí. 

 

P/1 – É a favorita da sua mãe? 

 

R – Essa é minha música favorita. 

 

P/1 – A sua? 

 

R – É. Da minha mãe, sabe qual foi? 

 

P/1 – Qual? 

 

R – Foi ele cantando junto com o Elias Wagner, chama Eu sou igualzinho a você. É muito legal essa música aí.  

 

P/1 – Dá uma palinha pra gente. 

 

R – Eu nem lembro direito a música, não. Não lembro direito. Só lembro um trechinho só: “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Você vai ter que entender. O preconceito fez você me ver como talvez, mas eu sou igualzinho a você”. Minha mãe gostava dessa música. 

 

P/1 – E hoje em dia tem outros estilos que você gosta, musicais? 

 

R – Vários. 

 

P/1 – Quais?     

 

R – Rap

 

P/1 – Você estava falando da música. Como que o funk começou a entrar na sua vida? 

 

R – Quando eu era bem pequeno, eu gostava muito das músicas de funk que as pessoas ouviam, mas todas tinham coisas ilícitas. Todas essas coisas têm coisas ilícitas, mas aí comecei a me envolver e pronto. Aí, daí pra frente eu comecei também a ser um cantor desses, de funk. Aí foi aí que começou a minha história como funkeiro.  

 

P/1 – E como continua a sua história como funkeiro

 

R – Minha história como funkeiro? Compondo as minhas músicas, fazendo vídeos. Eu posto sempre no Instagram. É porque eu tinha meu canal, mas eu não sei como restaurá-lo, aí eu coloquei no meu Instagram, pras pessoas compartilharem. 

 

P/1 – Você tem composição própria? 

 

R – Composição própria? Tenho. 

 

P/1 – Você compõe?  

 

R - Componho pelo celular. 

 

P/1 – Você quer cantar uma pra gente? 

 

R – Tá. Vamos começar: 

“O funk pode ser normal, mas o que te interessa é a vida

Tenho meus defeitos no seu problema, acho que o que eu não sei mais é gíria

Posso te dizer, posso te mostrar esse sonho que tenho pra se realizar

Posso te dizer, posso te mostrar

Quero o que o meu Deus tem pra me dar

O funk pode ser normal, mas no mundo tem seu dia a dia

Por isso sempre Jesus é o meu salvador 

Por isso eu sempre pego a dica 

Posso te dizer, posso te mostrar esse sonho que tenho pra se realizar

Posso te dizer, posso te mostrar

Quero o que o meu Deus tem pra me dar”

 

P/1 – Uhhhhhhhhh!

 

P/2 – Legal, cara. Muito bacana! Parabéns, viu? 

 

P/1 – Qual é o nome dessa música? 

 

R – Posso te dizer, Posso te mostrar.  

 

P/1 – E como você a compôs? 

 

R – Eu componho pelo celular. 

 

P/1 – Mas de onde que veio a ideia da letra?

 

R - Bom, a ideia da letra foi um pouco da minha vida, sabe? Como estou dizendo aqui pra vocês: pode ser normal, mas o que interessa pra nós é a vida. A gente pode ter os nossos defeitos, o que for possível, mas a gente tem que pegar a dica. Isso que eu estou querendo dizer pra vocês. 

 

P/1 – E você se apresenta? Você já cantou em algum lugar? 

 

R – Só na casa dos meus amigos, mesmo.     

 

P/1 – E qual é a importância da música na sua vida? 

 

R – A importância da música na minha vida? O que eu vou dizer? A música me incentiva muito. Como que eu vou dizer? A importância da música, pra mim é muito legal porque, às vezes, distrai um pouco a mente da gente, assim que eu gosto. Foi assim que eu comecei a minha carreira e é assim, mesmo. 

 

P/1 – Enquanto você trabalha, você canta?    

 

R – Quando as pessoas pedem, quando os amigos meus pedem. 

 

P/1 – E como é o seu dia a dia, a sua rotina? 

 

R – Quando eu não trabalho?  

 

P/1 – Sim. 

 

R – Às vezes, eu mexo no celular, quando eu uso a internet. Eu assisto um pouco de filme, ajudo minha irmã nas tarefas de casa, quando ela pede. Quando eu recebo do meu trabalho, compro algumas coisas pra casa, fico um pouco com meus sobrinhos, porque eles me adoram, não tem jeito. Igual esse aí que você estava vendo aí. Esse é o jeito. Mas esse aí é terrível, esse menino aí. O problema dele é que ele é ‘pidão’, pede tanta coisa, que você nem sabe. 

 

P/1 – Dragão, você já teve algum relacionamento?

 

R – Relacionamento, como assim?

 

P/1 – Amoroso.     

 

R – Nunca na minha vida. Não quero isso, não. Quero mais viver a minha vida. 

 

P/1 – E como a pandemia afetou a vida de vocês, impactou? 

 

R – Na hora que chegou a quarentena, minha mãe não queria que eu fosse trabalhar. Se eu fosse trabalhar, alguém poderia me prender, os policiais poderiam prender eu e minha mercadoria, mas eu falei: “Não, não é isso, não”. Aí tinha acabado a quarentena, eu falei: “Eu não vou ficar parado aqui, não. Eu vou voltar ao trabalho”. Voltei ao trabalho e pronto. Mas, claro, usando máscara. 

 

P/1 – Você sente que mudou alguma coisa em relação ao trabalho? 

 

R – A pandemia?  

 

P/1 – É. 

 

R – A pandemia, às vezes, afeta alguns catadores, nesse caso aí, que falam. 

 

P/1 – Por quê? 

 

R – Queria também saber. Porque, às vezes, tem uns que andam sem máscara, outros que não. 

 

P/1 – E qual é a importância da reciclagem na sua vida? O que ela representa, pra você?   

 

R – Representa uma oportunidade, sabe pra quê? Pra gente ajudar o mundo, transformar em coisas novas, material em coisas novas, tipo uma garrafa de vidro vira aqueles ‘pozinhos’ que se transformam em vidro novo. Papel branco. Igual papel branco, caderno de escola, essas coisas. Se você levar pra alguma indústria, eles vão para as cooperativas e transformam em outras coisas, novas, em caderno novo. E pela frente. 

 

P/1 – E quais são as coisas mais importantes pra você, hoje? 

 

R – O meu trabalho e a minha família. 

 

P/1 – E quais são os seus maiores sonhos? 

 

R – Sempre foi cantar, como vocês viram e sempre ter mais um trabalhinho, mas só pra trabalhar mais à noite. 

 

P/1 – Você gosta de trabalhar à noite? Prefere? 

 

R – É bem melhor. 

 

P/1 – E tem alguma mensagem que você gostaria de deixar pras pessoas, sobre a importância da educação ambiental, da coleta de lixo, da separação? 

 

R – Tenho uma mensagem pra eles: “Pessoal, é o seguinte, eu quero falar uma coisa urgentemente pra vocês: nunca polua os rios, nunca joguem suas reciclagens fora. Às vezes, quando vocês tiverem alguma reciclagem, doem para alguns catadores, para quem precisa. Tem muita pessoa precisando da reciclagem, pessoal. Um recado que eu quero dizer: a sua reciclagem salva a todos e o mundo e todos os catadores do Brasil. Só isso que eu falo pra vocês, galera: nunca jogue seus materiais fora e nunca jogue lixo nos rios. O meio ambiente agradece”. 

 

P/1 – Você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar alguma passagem da sua vida que eu não tenha te perguntado, em algum momento?

 

R – Não. 

 

P/1 – Deixar alguma mensagem?     

 

R – Deixar uma mensagem da minha história? 

 

P/1 – É. 

 

R – Não desejo, não. 

 

P/1 – Não? 

 

R – Só falar um pouco mais da reciclagem pras pessoas mais se envolverem, ajudarem a não poluir os rios. E nunca, jamais, deixar lixo jogado, abandonado nas ruas. Porque afeta, vem muito bicho, entra rato e isso não é muito apropriado para o mundo.  

 

P/1 – E a gente está chegando ao fim, queria saber como foi, pra você, ter dividido um pouquinho da sua história com a gente, ter lembrado da sua infância... 

 

R – Muito legal a gente relembrar um pouco da infância, voltar no passado. Eu achei muito legal vocês aqui me filmando, falando um pouco sobre a minha vida. Gostei muito. 

 

P/1 – Agradeço demais, demais por ter recebido a gente na sua casa, ter contado um pouquinho da sua história. Se você quiser finalizar cantando mais alguma música, fique à vontade! 

 

R – Tá bom. Posso cantar minha música predileta? Pode ser uma rima? 

 

P/1 – Pode. 

 

R – Começando agora, galera, eu vou dizer pra vocês, pela estrada como é sua vida. A vida se encerra da noite pro dia, trabalhando é o que importa, vivendo a vida e sendo disposta. Se é possível, nunca desistir. No mundo não é fácil, pra você e pra mim. Você tem uma coisa que ilumina, tem fé em Deus, é uma coisa divina. Peço a Deus pra que me abençoe, que me dê uma vida que me seja boa. Legal. Aí, galera. 

 

P/1 – Querido, agradeço demais! Foi muito gostoso! 

 

P/2 – Beleza pura! 

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