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História

É igual coração de mãe, o espaço é grande

História de: José Brasiliano de Oliveira Lelis
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/07/2021

Sinopse

José conta sobre a vida em Macaé, sobre o trabalho na Petrobras e a relação entre os colegas de trabalho. Fala também sobre sua família e seus sonhos.

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História completa

Projeto Memória dos Trabalhadores da Bacia de Campos Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de José Brasilino de Oliveira Lelis Entrevistado por Tânia Coelho Macaé, 02 de junho de 2008 Código: MBAC_CB010 Transcrito por Maria da Conceição Amaral da Silva Revisado por Ana Luiza Guedes Ferreira P/1 – Seu José, o seu nome completo, o local e data de nascimento. R – É José Brasilino de Oliveira Lelis. Sou de 1º de maio de 1965. Local? P/1 – É, nasceu aonde? R – Nasci em Sapucaia, no estado do Rio. P/1 – E o senhor fez o primeiro grau, né? R – Primeiro grau. P/1 – O senhor fez, além do primeiro grau, algum curso? O senhor se especializou em alguma coisa antes de entrar para cá? R – Não. P/1 – Porque, às vezes, a gente vai buscando outras profissões. R – É, eu vou buscar aos poucos aqui. Porque eu estou em Macaé há um ano e pouco... Eu vim para Macaé à procura de quê? De trabalho, cursos, porque eu tinha conhecido Macaé há mais tempo. P/1 – Você conheceu Macaé quando? R – Agora, um ano e quatro meses. P/1 – Ah, tá, quando veio para cá. E como é que o senhor entrou para a Petrobras? O senhor foi chamado, que o senhor é terceirizado, né? R - Sou tercerizado. Eu espalhei currículos nessa firma, que é a Vigo, né? Aí me chamou. Hoje eu me encontro prestando serviço para ela, para a Petrobras, no caso. P/1 – E o senhor trabalha com gente de todo o estado, né? Aqui tem gente... R – Minas, Bahia, o Nordeste; em peso é Macaé. P/1 – É muito complicado isso? R – Tem... em parte é e em parte não. Por quê? A gente lida com muitas pessoas aqui, de várias regiões. Minas, Macaé em peso... são pessoas de fora, a maioria. P/1 – Isso é bom ou é ruim? R – A mim não me incomoda não [risos]. P/1 – Mas o senhor cresce conhecendo esses estados todos, eu acho... R – Cresce porque Macaé... P/1 – Quem cresce mais? O senhor ou a Petrobras com esse povo todo de fora aqui [risos]? R – Ambos. Ambos são beneficiários. Por quê? Da onde eu vim o emprego era escasso, ou seja, era difícil. E eu tenho dois filhos, pago aluguel. E aqui foi um meio que eu achei para campo de trabalho. Porque já estou aqui e não fiquei desempregado. Então Macaé, ele dá oportunidade a todos. P/1 – E a tua família está toda aqui com você? R – Toda comigo. Eu vim só com a roupa do corpo, uma televisão e duas crianças. P/1 – E qual foi o maior desafio para poder conseguir entrar no mercado de trabalho e ter um emprego mais rentável? R – Eu fui insistente, e eu encarei. Eu vim com cara e coragem. Mulher, filho. Fiquei na casa da minha sogra dois meses, que ela mora aqui. Esses dois meses, eu saí da casa dela. Quer dizer, para mim foi uma maravilha Macaé, em ritmo de trabalho. Pretendo crescer mais, ou seja, estudar um pouco mais e fazer um curso; aqui tem vários. Tu pode fazer um hoje, daqui quatro meses fazer outro. P/1 – Que tipo de cursos você gostaria de fazer hoje? O que é que mais te atrai? R – Hoje, se eu pudesse, fazia um Salvatagem para trabalhar embarcado. P/1 – Embarcado. Por quê? R – Porque ganha mais. E eu queria dar um conforto melhor aos meus filhos. P/1 – Mas fica longe da família, né? R – 15 dias, talvez 20, mas compensa. É melhor do que trabalhar aqui dentro, no caso. Estou satisfeito, mas eu, ganhando um pouquinho mais, compensa o esforço. P/1 – O senhor convive com esse pessoal há pouco tempo, com os funcionários e tal. Se o senhor tivesse que definir hoje o que é ser um petroleiro, como é que o senhor definiria? R – Não sei. P/1 – Não sabe. R – Não sei. P/1 – Porque o senhor vê de fora e aí fica mais difícil, né? R – Fica mais difícil. P/1 – Mas o senhor sente um... assim, as pessoas se ajudam? R – Tem, tem. P/1 – Existe algum tipo de solidariedade, que faz ficar mais seguro de que esse futuro é um futuro possível? R – Tem, aqui tem pessoas solidárias sim, que ajudam. Tem petroleiros, tem pessoas que lutam por você. Tem pessoas que te dão valor. Tem aqueles que passam por você também, e viram a cara para outro lado. Mas isso aí também ignora. Porque é serviço de limpeza. Tem muitos que aceitam como uma profissão. Muitos já te olham... P/1 – Você sente um certo preconceito, uma certa discriminação? R – Um pouco. P/1 – Como é que o senhor é tratado como serviço de limpeza? R – Como serviço normal, como outro. P/1 – Sim, mas tem pessoas que não vêem isso como serviço? R – Tem preconceito, tem, tem. As pessoas... tem uns que passam por você, conversam contigo. Igual, tem gerente que passa por mim, me cumprimenta; tem outros que já passam e viram a cara. É preconceito. P/1 – Mas isso não impede em nada? R – Não me incomoda em nada. O negócio é eu fazer o meu serviço para a Petrobras. P/1 – O que é que o senhor acha que é mais difícil aqui? R – Em Macaé? P/1 – Em Macaé, nessa nova história de vida, nova cidade. O que é que foi mais difícil, ou o que mais encorajou? R – Se a senhora perguntasse a pior coisa para mim, o que é que foi, ou seja, a melhor coisa, eu sabia te responder: que seria eu ter vindo para Macaé há mais tempo. P/1 – Teria vindo antes se soubesse. R – Há mais tempo. Porque aqui o meio de trabalho é excelente. Pena que eu conheci muito tarde. Como eu já estou com 43 anos, né? Não é que é difícil para eu ainda estudar, mas se eu viesse com mais tempo, vamos dizer, dez anos atrás, eu estaria com 33 anos, seria mais fácil. E hoje não, hoje eu penso o que? Em trabalhar, dar o melhor aos meus filhos. Com o pouco que eu ganho, tá? P/1 – É, mas o seu projeto é estudar e ser embarcado. R – É. O meu sonho ainda é esse aí. Se vai acontecer amanhã, daqui um mês ou dois, eu acredito que ainda vai acontecer. P/1 – E esse sonho é um sonho que o senhor acha que realiza rapidinho? R - Acredito que sim. Porque eu... interessante, também tem aquele lugarzinho que a gente pode ir também dar uma “perguntadinha.” Um meio de estar aqui dentro... quem está lá fora queria estar aqui dentro. Porque aqui dentro, a oportunidade, ela é grande. Então eu acho que eu ainda consigo. O Salvatagem é caro, né? É R $1.800, R $2.000. É caro, mas de repente encontra uma firma que patrocina, que ajude. P/1 – E a relação com os outros funcionários que trabalham com você é uma relação que ajuda a acreditar que esse sonho é possível? R – Claro. P/1 – Porque todo mundo deve ter seu sonho. R – Claro, que um fortalece o outro: "Poxa, eu estou trabalhando de limpeza, mas eu queria melhorar." "Não, mas você vai conseguir." "Ah, você também vai conseguir." Então um dá incentivo ao outro. Não são aqueles que dizem assim: "Que nada, rapaz, esquece disso," não. Todos da limpeza têm o mesmo sonho, ou seja, melhorar. P/1 – E todos têm as suas famílias para sustentar. R – Verdade. P/1 – E agora vocês têm uma competição grande, que as mulheres ____ na limpeza também, né? R – É, o espaço é grande [risos]. P/1 – Cabe todo mundo. R – Cabe, é igual coração de mãe, o espaço é grande. P/1 – E elas seguram legal a onda, né? R – Seguram. P/1 – E você imagina, quer dizer, tem alguma história que você tenha vivido aqui que você lembre? Que seja uma história, um caso que aconteceu que demonstre ou do preconceito ou do não preconceito? Ou da amizade ou não amizade? Algum caso que você... R – Não, aqui tem de tudo. Tem amizade boa... P/1 – Então me conta um caso. R – Um caso [risos]? P/1 – É, você é bom contador de história? R – Que aconteceu? P/1 – É, acontecido. R – Comigo? Poxa, são vários. P/1 – Conta um, aí eu te deixo ir. R – É porque um belo dia eu estava limpando o banheiro aqui em cima no D3, que eu estava lavando. Entrou duas pessoas, ou seja, dois rapazes. Eu estava ainda com o piso molhado. E quando, acabando de secar, né? Eles entram com aquele pé sujo e eu boto placa de sinalização, porque é obrigatório, né? Piso molhado. Aí entraram com aquele pé sujo, depois de estar tudo limpinho. Quer dizer, era só tirar...e saíram dando gargalhadas [risos]. Foi só essa história. P/1 – Riram do teu trabalho. R – É, riram do meu trabalho ou riram pelo que eles fizeram, o que estava pronto, né? Foi só, mas tem muitas. Se for falar são muitas. P/1 – E você imagina então seu futuro aqui dentro, trabalhando... R – É, que seja na limpeza, que seja numa obra, eu quero é o espaço de trabalho para eu estar nele. Quero melhorar [risos]. P/1 – Bom, foi um prazer ter você aqui com a gente, muito obrigada. R – De nada. Obrigado a vocês. --- FIM DA ENTREVISTA ---
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