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História

E hoje eu tenho 40 filhos adotivos

História de: Tereza Felipe da Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/08/2005

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P1 - Vamos lá Tereza. Espera só um minutinho eu preciso arrumar. Tereza, eu preciso que você me diga antes de qualquer coisa o seu nome completo.

R - Tereza Felipe da Costa. P1 - A cidade que você nasceu?

R - Craraval, Minas. P1 - E a sua data de nascimento.

R - Data de nascimento eu não sei bem. Porque na época meus pais não eram registrados e não costumavam registrar os filhos também. Aí mais ou menos, em registro eu devo ter 72 anos. Na data de nascimento. Agora no registro eu tenho um pouco menos. Porque eu não sei se é bem essa data se não é. Porque também eu fui adotada por uma, eu fui adotada por uma outra família que me deu um outro nome e um outro registro. E eu também não sei mais ou menos a data. P1 - Outro nome também você ganhou?

R - Um outro nome também, em um outro registro. E eu não sei também essa data. P1 - Você não sabe nem que nome você tinha antes?

R - Não, não sei que nome que eu tinha antes. P1 - Tereza foi a segunda família que te deu?

R - Tereza foi o nome da primeira família. Agora a segunda família eu não sei o nome completo, não. Direito como era e como deixava de ser. Mas como essa família que me adotou era bem de vida, e eu era dessa família filha única. E tinha muitas crianças também da minha idade na rua. E eu queria ter alguém com quem eu pudesse brincar, que eu pudesse conversar, e essa família não tinha interesse nenhum de adotar mais ninguém. E eu comecei a ir para a rua também. Com 11 anos, eu comecei a ir para a rua junto com as meninas daquela época. Aí é que eu comecei a catar. E eu juntava alguma coisa, alguma roupa, alguma coisa minha e dava para as meninas alguma coisa da casa e dava. Aí comecei também ir junto com elas para a rua. Aí com 17 anos eu saí dessa família e casei com esse nome que foi dado, com essa data. Aí vim para São Paulo. Aí eu queria, já que eu era filha adotiva e que eu era filha única, eu não queria ter um único filho. Aí eu tive dois filhos de sangue. Um rapaz que está com 40 anos quase agora, e uma com 36. Bom, mas dois filhos também era pouco. Aí eu já tinha me deserdado daquela família que tinha me dado tudo mas não tinha me dado bastante irmãos. Eu queria ter bastante filho. E aí eu comecei a catar. Continuei catando. Lá no Itaim Paulista lá no endereço que eu dei para vocês. Lá na época tinha um lixão. Eu com dois filhos que trabalhavam no lixão e na rua. E perto do lixão, lá no Itaim, tinha uma pequena favela que eu também fui morar nessa favela quando eu cheguei da minha cidade. Com algumas economias e eu fui morar também nessa favela perto do lixão. Com dois filhos, mas é pouco. Aí eu comecei a pegar as crianças dos catadores. O pessoal que catava ali. Aí eu ficava com meus dois filhos e ficava com os filhos das outras mulheres que não tinham onde deixar as crianças. E aí eu falei: "Não está certo aí. Não está bem.". Aí eu consegui, com as economia que eu tinha em Ribeirão Preto onde eu trabalhei de catadora também, para comprar um terreno. Aí comprei um terreno grande. E esse terreno eu estou hoje morando nele com os meus filhos, as crianças e os netos. Mas ainda não está bom. Aí continuei pegando as crianças das mulheres catadoras que ficavam lá no lixão. As mulheres ficavam no lixão e as crianças vinham para cá comigo. E depois as mulheres também iam com o material que catavam no lixo. Tá? Aquele terreno foi crescendo para tudo. Para comunidade, foi ficando ruim. Porque todo mundo tinha os seus lotes comprados, construído, casas bonitinhas. E eu lá com aquele povo de rua? Não era fácil. Mas continuei lá resistindo. Fique lá, continuando o trabalho, levando os meninos para casa, levando as meninas para casa. E hoje eu tenho 40 filhos adotivos, muitos netos e não são de rua, né? Não são de rua e também não são catadores. Apóio o movimento, apóio totalmente para estar vindo. Mas eles não são. Conseguiram trabalhar, conseguiram estudar e conseguiram ter uma vida normal. E eu continuo trabalhando, né? Continuo catadora. Porque eu acho muito importante a gente continuar agora com essa mentalidade diferente da gente crescer junto com o movimento, em estar buscando alternativa e dizer para todo mundo que nesses cinco anos que a gente está mais organizado, nesses últimos cinco anos desses anos todos que gente está mais organizado, com o poder público e todo mundo reconhecendo, vir para um congresso desses e voltar para a comunidade e falar: "isso tem jeito, né isso tem jeito". Então é gratificante de ser catador. Eu sou catadora por isso e não assim por necessidade, né? Porque dava para ter uma vida normal, uma pessoa normal, uma coisa bem tranqüila. Mas eu acho que com o lixo o povo joga fora, tem resíduo, o que eu falo sempre é que fede, mas assim a sociedade e eles rejeitam para jogar, porque eu não conhecia pobreza assim. Eu não fui pobre assim. Eu vim de uma família pobre, fui adotada por uma família bem e então eu não conhecia assim: "Não tem hoje o que comer. Não tem.". Não, isso eu não conhecia. E não conheço até hoje. Porque depois busco alternativo, né? Fui fazer um trabalho alternativo que dá para criar, dá para viver, que dá para fazer tudo com dignidade. E ser um catador. Por isso quando eu falo que sou catadora é porque sou catadora porque não é vergonha ser catadora. É muito bom. E é muito bom a gente poder chegar agora lá na comunidade ou em qualquer lugar que a gente chegue e falar assim: "não, catador é isso mesmo. Catador é isso mesmo.". O difícil é implantar na mente de quem quer que seja, né, de que o resíduo sólido é matéria-prima na mão de quem sabe trabalhar. Porque eu não gostei nem um pouco de quando a gente pensa: "Não, isso joga fora.". Quando eu penso "isso joga fora", está se jogando muita coisa fora. Inclusive ser humano, né? E hoje falo. Hoje eu estou aqui mas já me ligaram e já: "Mãe, você está bem?". Eu sou mãe de um monte de gente. "Mãe, você está bem? Você chegou bem? Como é que você está? Aqui em casa está tudo bem.". E cada um tem a sua casa. A minha casa onde eu criei todo mundo é o núcleo de catador. E é o núcleo onde a gente tem lá os catadores, onde eu cato ainda, onde eu separo material. Tentando levar essa consciência, né, porque precisa ficar. Porque é daí, é do lixo, conversando muito com a comunidade e com o poder público a gente consegue levar o trabalho. É muito difícil a gente poder explicar assim: "Não, isso aqui eu tiro o sustento, nisso aqui eu tiro a comida das crianças.". E foi que eu não preciso jogar no rio porque vai encher. Acabou o lixão. Tivemos uma briga para acabar com o lixão. "Mas se a senhora é catadora como é que quer acabar com o lixão?" Sim, mas não tem a ver uma coisa com outra. Ser catadora e morar no lixão é completamente diferente a coisa. Não tem nada a ver. Mas aí entramos na briga para acabar com o lixão lá no Itaim, porque lá não tinha mais condição de fazer lixão não. Aí eu era uma pessoa de frente lá. "Mas a senhora vive aqui no lixo, tira daqui do lixo, cata daqui do lixo, e quer acabar com o lixo?". E eu falei: "Não, não é assim. Porque acabar com o lixo não estou falando que vai acabar com o trabalho. Não vai acabar com o trabalho. Só vai continuar trabalhando ainda no lixo.". Aí depois que acabou esse lixão lá no Itaim, muita gente foi trabalhar na Praça da Sé. Saiu de lá, não tinha essa consciência e foram para a Praça da Sé, os catadores daquela época. E foi aí que as mães foram saindo para ir para a Praça da Sé ou para fazer suas vidas e as crianças foram ficando comigo. Cada hora que eles saíram para ir para rua para fazer campo, as crianças eu não deixava trabalhar. Não menos do que 11 anos. Então os pequenos foram ficando comigo. Pode ir todo mundo, mas as crianças que nasceram ali, eles não vão sair não. E era briga na justiça, que eu não podia adotar porque eu era catadora e ela para levar para a FEBEM [Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor] e eu não deixava porque as crianças já estavam abrigadas ali e não tinha para onde levar. Aí conseguia fazer uma. Eu não queria mais ter as crianças como pessoa física. "Como pessoa física a senhora não pode.". "Mas o que é que eu tenho que fazer para ficar com as crianças? As crianças estão aí.". A FEBEM era uma instituição registrada.". "Ah, então a senhora tem que ser uma pessoa jurídica.". Vamos ser essa pessoa jurídica que precisa ser. Aí juntei os meninos... P1 - Mas é o quê? É uma?

R - Jurídica. A casa tinha que ser jurídica. P1 - Mas é uma ECREA, era uma, o que é que? D - Um abrigo. P1 - Abrigo?

R - Ele funciona como abrigo mas é um abrigo diferente. Uma casa aberta. Funciona como casa aberta. É uma casa aberta. Não tem chave, não tem muro. Não tem. Então se é essa a coisa jurídica que precisava naquela época, então até hoje ele funciona. Então hoje a gente vai da associação se chama Marginária Day. E hoje eu to aqui, o pessoal está lá de casa aberta. Então não tem idade e faixa etária para chegar. Chegam, ficam, vão embora. Se quiser permanecem, mas agora com tranqüilidade. Porque depois do Estatuto da Criança e do Adolescente, qualquer pessoa pode cuidar de uma criança porque é lei. Então antes da lei, aí era briga, você não podia. Não podia. Era só um código, não podia. Não podia eu criar um monte de filho, mas podiam os meus pais, adotivos, que tinham muito dinheiro, criar uma menina só, não é? Então qual é a diferença? Eu não podia porque eu era pobre, não tinha dinheiro. E aqueles que eram muito ricos podiam porque tinham muito dinheiro? Aí era briga. Mas consegui ficar com todas as crianças até fundar o estatuto. Quando fundou o Estatuto da Criança e do Adolescente aí melhorou bastante, aí não tem mais a briga jurídica, né? Porque agora toda criança ela já chega e sai. Eles mesmo chegam, ele mesmo vão embora, é tranqüilo. Minha casa foi criada para banir a criança de trabalhar, né? Afinal de contas está trabalhando, né? E não é para trabalhar. E muitas meninas: "Ah, mas isso também é uma referência, né?". Não, mas não é uma referência, é o que tem que ser. Não tem que misturar lixo com pessoa, pessoa com lixo. P1 - E o que é que a senhora está achando do congresso, de encontrar tantos catadores?

R - Também está bom, é uma mudança, né? É para mudar. Pode ser que não esteja perfeito e nunca vai estar, mas está bom. É para mudança? É para crescer? Então estamos no caminho. Só que ainda falta muito. Tem muito o que fazer ainda. Pode ser que fale esse pessoal que está aí, estiverem mesmo interessados na mudança, interessado no apoio dos catadores,vai ser bom. P1 - E o que é que você sonha para o movimento dos catadores daqui a 50 anos?

R - Então não vou ver (risos) P1 - Então está bom. Quanto?

R - Ah, uns 20 anos. P1 - Fala. Fala o que você espera daqui a 20 anos.

R - Que o movimento de catadores? A organização? Que seja de catadores, separadores e recicladores que dominemos de ponta a ponta. Porque os catadores, a gente conhece a matéria porque a cada ano a gente estuda mais um pouco. O que eu sonho mesmo é que a gente daqui 20 anos, que a gente vai estar vindo num congresso desse de avião. Que a gente esteja mesmo, de fato, não no alojamento, eu não sei como, mas um setor coisa... D - Um hotel?

R - É. O próprio movimento tenha o seu espaço em cada lugar que a gente tiver que reunir. O próprio movimento que é grande, né? Então a cidade fica sufocada. Que o próprio movimento tenha o seus espaço em cada lugar que tiver que reunir. Se tiver que ir para o sul, que tenha um espaço que é no sul. Se tiver que ir para Goiás, que já tenha lá um lugar para o movimento e é também do mundo, para que todo mundo venha naquele espaço. Ou que fosse o único no Brasil, mas que todo mundo pudesse reunir ali, todo mundo. E não só no Brasil. Que todo mundo pudesse ter a sua base. Porque eu nunca pensei em chegar. Pelo menos aqui é o sonho de 40 anos atrás, nem de 20, de muito mais. Quando a gente estava brigando para acabar com o lixão, eu nunca imaginava entrar em um congresso desses. Agora a gente já imagina. P1 - Imagina, muito mais, né?

R - Para esses filhos de catadores que estão aí, né? Que possam fazer faculdade, ser engenheiros, técnicos, dominar a tecnologia aí. Porque a gente tem que falar muito porque e eu estudei pouco, falam tem que fazer cursos. Tem que.... porque quando os meninos que perguntam: "Mãe, que idade você tem?". "Tenho a sua idade. Que idade você acha que você tem?" Tenho que estar bem pequena porque os meninos de rua que ainda chega em casa drogado, às vezes, machucados pela família. "E que idade que você tem?". "Hoje, agora estou com a sua idade.". Porque não dá pra ter mais idade. O meu sonho é esse. Que essas outras meninas, filhas de catador, possa amanhã estar fazendo uma faculdade, possa estar aí e falar "meu pai é um profissional, minha mãe é uma profissional". "Mas o que é?". "É catador". E que eles ao longo da vida vão ser reciclador, porque eu não espero chegar lá, já está bom. É isso que a gente espera para não deixar acabar. E a gente mesmo, muita gente chega prometido por outro e por outro. E o meu motivo principal que me fez chegar nesse movimento foi a desigualdade mesmo social. Ver uma menina de 11 anos dormindo em uma cama com todo conforto. E uma outra na mesma idade, na mesma cidade dormia lá na rua da praça. Então eu falei: "Ah, mas isso está errado.". Então foi isso que me fez entender que ou a gente mistura ou a gente morrer sufocado. Ou não sei nem o que é que acontece porque eu nunca mais voltei para saber na minha cidade, com a minha família o que é que aconteceu, eu nunca mais voltei para a minha cidade para saber. Eu perguntei, perguntei e perguntei e ninguém me respondeu, né? Então eu não posso fazer nada, né? São adultos e eu, que vai ver que está sofrendo aí, que está pensando que está errado sou eu. Não estou incluída nesse processo. Conhecer bem a história porque era um africano, que era isso, que era aquilo e aquilo outro. De repente, eu estou muito bem. Mas e aí? Será que eu estou mesmo muito bem? Será que é erro mesmo que eu estou muito bem? Agora sim, porque eu estou com os meus 40 filhos, meu punhado de netos. Tive dois filhos de sangue, graças a Deus. E agora sim, eu estou bem. Depois é que eu comecei a trabalhar no lixo, falar que o lixo, esse lixo, é muito rico. Eu via lá na minha casa,de criança, e joga tudo fora: "Isso aqui você não usa mais, joga. Isso aqui você também não usa e joga.". Comprava arroz comprava, sobrava. Para que tanto? É muito rico que se joga fora. E para a gente catador dá para alimentar para muita gente, dá para criar possibilidade para muita gente. É porque aí chegava lá em casa a nutricionista e perguntava: "Mas como é que a senhora vai dar conta de dar tanta comida para essas crianças?". Ah, mas para isso a gente tinha comida alternativa, né? Para isso existe lá no mercado o que eles não vendem. Para isso existe lá no Ceagesp [Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado] do que eles não vendem. Não vendem porque quem pode comprar não quer comprar uma coisa que acha que não vai usar. O que não vai usar então eu vou pegar e vou fazer disso alimento para as crianças. E aí por isso que eu falo, dá para viver. "Mas como é, dona Tereza, que a gente via nutrir essas crianças?". Ué, é só não deixar elas ficarem desnutridas, não vai ter que nutrir É só não deixar elas desnutrir. Vai nutrir? Não é para nutrir. D - E como é que a senhora fazia?

R - A comida alternativa eu fazia, não, eu ainda faço. D - Conta um pouquinho do dia a dia para nós, como era assim as dificuldades?

R - A comida do dia a dia, hoje, por exemplo, eu estou com cinco crianças pequenas de zero a seis meses. De zero a seis meses é uma comida que tem que ser uma comida boa, uma comida boa. Mas uma comida boa não quer dizer uma comida comprada de primeira mão. Dava para a gente, por exemplo, a gente faz a torta. Por exemplo, para criança pequena eu faço aquela farinha com casca de ovos. Então é uma comida alternativa. E isso é o café da manhã das crianças. Farinha com casquinha de ovo batida no liquidificador. Põe no leite, mistura e está a mamadeira. Depois, na hora do almoço, uma sopinha de legumes que também não precisa ser comprada. A batatinha que sobra no mercado, a gente faz aquela batatinha e põe um pouquinho de farelo de trigo torrado. Uma colher de farelo de trigo torrado, né? Porque acrescenta. Também não precisa comer muito, porque já tomou ovo na madeira reforçada e ele vai almoçar um almoço bom, que é nutritivo. Aí depois vai tomar aquela refeição do meio dia, que é uma outra refeição que seja com gelatina. E não precisa ser a gelatina cara porque tem barata também. Acrescenta um pouco de aveia na refeição do meio-dia. Depois já tem o café da tarde. Café da tarde também é forte. A gente dá uma comida diferente, uma gema do ovo. De manhã comeu a casquinha do ovo, depois o farelo de trigo, depois a soja ou o que seja aveia. E depois, à tarde, vai ser o suco, às três horas. Às seis, uma janta normal. Às 10 horas, a última mamadeira e depois dorme. Depois dorme tranqüilamente. Um banho e depois dorme. Isso de zero a seis meses, né? De seis meses já come uma comidinha mais reforçada. Aí já arroz e feijão, uma coisinha mais, já vai começando a comer melhor. Aí de um ano a dois anos, já aí a comida é a mesma comida normal de todo mundo. Isso quando eu não consigo mais, isso eu ensino para a mãe fazer e vou acompanhando a mãe se está lá em casa e vou acompanhar ela fazer. Ela não vai fazer sozinha. A mãe vai estar fazendo comigo isso. Como talvez agora a criança passa um tempo lá e que vai voltar para a mãe, a mãe já tem que estar sabendo fazer isso. E a criança pequena fica em casa e só sai de lá com a mãe quando a mãe tiver moradia. A mãe só sai de lá, a criança só sai de lá quando tiver a moradia e creche. E a mãe pode ir catar na rua, mas a criança tem que estar bem. A mãe, o pai podem ir para a rua catar. "Porque não, mas eu não tenho emprego.". Mas tem sim. Ali, pega o carrinho e vai para a rua catar porque dinheiro tem. Então é o dia a dia hoje das crianças pequenas. Isso as crianças pequenas que ainda estão em casa com as mães. Agora os maiores, de sete a 14. Esses já são mais complicados quando não quer ir para a escola. Já fica mais difícil, já fica mais rebelde. E tem que chamar os pais também para ver como é que fica essa criança. E agora o adolescente também, né? De 14 a 18. Esse também tem que, de 14 a 16. Até 16 ele não pode trabalhar porque é lei da gente, você não vai trabalhar até 16. Vai estudar e vai fazer curso. "Ah, mas é difícil". Porque eles querem ficar na rua. E é nessa hora que mistura. Acaba que as crianças ficam mais complicadas ainda. E a gente faz esse trabalho na comunidade. Isso na comunidade. Por isso é que eu estou falando... No futuro, que essas crianças não chegam nessa idade precisando dessa volta, isso é um retrocesso para a gente. Porque a gente não avança. A gente não avança. Então se a gente tem que recuperar um menino que se perdeu na rua, três anos que a gente fica para recuperar ele, são três anos que ele está perdendo. E não adianta porque em três anos não recupera um adolescente perdido. Mais três anos que ele está perdendo. Então grito que a gente tem que dar é para cuidar bem da família do catador, orientar bem no que é que é para fazer, para que esse menino, essa menina não vá para a rua. Não vá se drogar, não vá beber. Vê se uma vez feito isso é difícil de recuperar. No dia-a-dia, o meu dia-a-dia é isso. É voltado mesmo para a família, e esse congresso vem mais para reforçar isso. Porque eu reúno com os meninos, com as meninas, onde eles estão? Se estão num grupinho sentados na praça, na rua, na favela, é lá que eu vou conversar. "Ah, mas eu não tenho o que fazer". "Tem 16 anos?". "Tenho.". "Então não dá para trabalhar.". Vai lá para a entidade, separa o materialzinho lá, vamos conversar mais um pouco. É essa a minha vontade é que aconteça isso. É só essa a minha vontade. Que não tenha nem um menino, nem uma família deixando os meninos soltos para não precisar voltar e recuperar. Porque é muito difícil. É muito difícil voltar e recuperar um menino para ele sair reciclando mesmo a minha cidadania, a vida e deixando com eles a vontade de viver, né? Porque senão isso não tem reciclagem. Brinco para caramba que a gente recicla. Mas a gente ainda não recicla. Quem sabe os meus tataranetos vão reciclar? Por que a gente só cata, né? P1 - Está bom. Quer me dizer mais alguma coisa?

R - Não. P1 - Muito boa a sua entrevista. Ótima. Super obrigada.

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