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História

E eu era uma menina

História de: Dudude Herrmann
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2020

Sinopse

Em sua conversa, Dudude fala sobre a raíz curiosa dos nomes de seus tios paternos, sua infância no bairro Gutierrez, o aspecto interiorano de Belo Horizonte nos anos 1950 e sua entrada no Instituto de Educação, ainda criança. Fala sobre sua ligação com Nena, criadora do TransForma e sua entrada no mundo da dança contemporânea. Comenta as mudanças na trajetória do grupo, rumo a uma dança contemporânea de caráter brasileiro, e sua saída solo nos anos 1980. Dudude também conta como criou sua própria Companhia, sobre seus casamentos e filhos, além de dar um panorama sobre a dança atual de Belo Horizonte.

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História completa

Na primeira vez que eu dancei eu tinha 12 anos, a minha professora, a Nena usou todo mundo, só que tinha uns mais velhos, né? A gente era meninada, mas fazia... E o trabalho era um trabalho assim, né, de pesquisa, a gente estreou no Teatro Marília, nessa época, Belo Horizonte tinha só o Teatro Marília, Teatro Francisco Nunes, eu acho que o Palácio das Artes, Fundação Clóvis Salgado vem meio nessa mesma época, mas o mais perto da minha escola era o Marília, pois eu morava na rua Ceará. Por isso que eu não sei o que eu sentia de tanta alegria - eu ia a pé! Dançando veio uma crítica para mim, que falava assim: “Dudude, você está dançando muito bem, você só está contando tudo” porque a gente contava, dança é uma das ferramentas é manter o pulso, aí eu fazia um a contagem, dançando com a boca assim, mexendo. Nunca esqueci desse comentário, foi embora, nunca mais contei e agora se eu conto é de propósito . Aí nesse conjunto, tinham os irmãos Perdeneiras, olha só, então esse núcleo, vários que estavam ali continuaram esse fazer dança, esse fazer arte, né? Esse trabalho da Nena provocou assim um “Ah!”, porque até então eram aquelas danças, assim, você vai em cidade do interior a dança que está na pauta, sempre tem uma escola de dança clássica, eu fico olhando o Brasil, falo assim: “Gente, não podia ter uma escola de dança Afro?”, de street dance, ou dança de rua, na rua, por que que o clássico está sempre ali na nossa sociedade? Aí a Nena vai para Bahia e quando ela volta da Bahia ela está transmudada: ela não mudou, ela transmudou, porque aí ela já queria uma escola de dança brasileira, ela queria trazer informações para gente montar esse corpo flexível brasileiro, sem maquiar ele para uma ideia estrangeira, mas também pegando as técnicas de outras terras, fazendo uma salada antropofagia total. Minha irmã Fernanda estudava no Arnaldo, e aí ela vira para a Nena e fala: “Olha, tem uma sala imensa lá no Arnaldo, quem sabe os padres alugam para você” e aí deu-se a grande mudança, porque até então estava lá no subsolo do Teatro Marília. Aí ela vai para cima da capela do Colégio Arnaldo, imagina? O Colégio Arnaldo, a capela dele é cheia de arcos, abóbadas, para ter abóbadas o chão de cima era todo cheio de estaca com tábua corrida, é o piso ideal, porque ele tem balon que se fala, igual uma onda, você pula e o chão te recebe não dá tanto impacto, quando você pula em chão duro, você pula vem até aqui sua coluna, sua coluna recebe, isso é lei da física. Aí a gente tinha espaço, então eu falo que eu fui criada na fazenda da dança porque, imagina, a capela do Colégio Arnaldo é grande, aquela sala inteira era a sala de dança, então, assim, a gente começou a ficar exagerado nos braços, no movimento e ali ela muda o nome para Transforma Centro de Dança Contemporânea. Eu começo a dar aula lá menina ainda, os Perdeneiras em 1974, se reúnem e se descolam do Transforma, formando o Grupo Corpo, como primeiro trabalho deles, que arrebentou a boca do balão. Eles começaram do alto e jamais desceram, entendeu? A Nena sempre fez questão de ser um grupo experimental de dança, muitas pessoas olharam essa palavra “experimental”, mas a gente experimentou demais! Porque a gente não tinha exemplo, nem exemplo de sucesso, nem sei se ela se preocupava com sucesso, mas ela se preocupava nessa dignidade de construção de dança, e eu era uma menina.

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