Busca avançada



Criar

História

É do que eu gosto

História de: Marcos Donizete Mazieiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/11/2014

Sinopse

Marcos nasceu em São josé do Rio Pardo, SP, num sítio da família. Estudou e quis dar continuidade ao trabalho do pai, que é produtor rural. Hoje é pai e pretende garantir os estudos da filha.

Tags

História completa

Meu nome é Marcos Donizete Mazieiro, São José do Rio Pardo, 18 de junho de 1974. Meu pai chama Atílio Mazieiro e minha mãe Laura Marcelina de Sousa Mazieiro. O pai do meu pai, minha avó e meu avô são italianos. O meu pai é descendente de italiano. A minha mãe… Eu não sei a origem da minha mãe não. Eu sei que eles vieram do Nordeste, meu avô era nordestino.

Tanto o meu pai quanto a minha mãe vieram de família bem humilde, mas bem humilde mesmo. Que nem, eu sempre tiro sarro dele, né, quando a gente está brincando, eu falo assim: “Olha pai, o senhor nasceu debaixo de uma mangueira, o que o senhor está falando?”. Aí, foi, juntou lá com mais quatro tios, compraram um pedacinho de terra de dois alqueires, trabalhando de empregado, capinando café para os outros, cortando cana na Taiquara. Foi onde eles compraram lá, os irmãos, pra poder sair do que é dos outros. Meu pai continuou trabalhando em Taiquara e os meus tios foram começar a limpar a terra, que era só eucalipto, não tinha casa, não tinha nada. Aí, construíram umas casinhas lá, muito simples, muito simples mesmo. Mas já era deles, né? Aí, foram trabalhando, meus primos foram crescendo, nós fomos crescendo. Nós moramos no mesmo no sítio, mas eu tenho a minha casa e eles têm a deles.

Desde menino eu gostava era de ficar na lavoura mesmo; de mexer com criação que a gente tem no sítio. Oportunidade de estudar, até o pai já tinha condições de dar estudo para a gente. O único que não foi, fui eu. Fiz até a oitava só, os outros já fizeram colégio, tudo. Mas eu gostava de ficar ali pro meio do mato mesmo, dar uma voltinha a cavalo. Hoje a gente mexe com lavoura de salsa, aipo, alho-poró, cenoura, umas verdurinhas. É do que eu gosto. Não deu muito tempo pra brincar, não. Eu comecei a trabalhar com sete anos. Já fui pra roça. O sítio era pequeno e a gente tinha, por causa dos irmãos, tinha mais gente – meus primos – e aí então a gente trabalhava no sítio e tocava a meia pros outros, em outro sítio, porque a gente planta e o que colhe é metade cada um, né? Então, brincava ou era de domingo, sábado, depois das quatro horas, jogava uma bola, brincava de pique naquela época, bolinha de gude a gente jogava, eram essas brincadeiras. Mas no sábado depois das quatro e domingo depois do meio-dia também, que tinha que trabalhar.

Acho que eu já tinha uns 17 pros 18 anos quando saí sozinho pela primeira vez. Quando deu umas dez e meia, minha mãe mandou me buscar. Imagina bem, nos dias de hoje, estão de saindo de casa umas 11 horas, né? De preocupação, por causa que a estrada eu vinha a pé. A estrada é até mais longe que isso aqui, de tudo mato, né, terra. Aí minha mãe mandou me buscar, eu lembro até hoje. Aí ela chamou um primo meu, pegaram o carro e foram atrás de mim, mas eu já estava indo pra casa. De vez em quando fazia alguma festinha em casa, mas não tinha muito tempo, não tinha força pra sair muito assim, passear. Se ia, na segunda-feira eu queria acordar mais tarde e já dava problema em casa. Eu tinha que dormir mesmo. De falar, assim mesmo, o cantor que eu mais gosto de ouvir, que eu gosto de escutar mesmo é Tião Carreiro, eu gosto, como é raiz. Mas hoje em dia, que que eu vou te falar? Eu gosto de Sérgio Reis hoje.

No sítio sempre tem umas meninas, então dava pra dar um jeito de dar umas namoradinhas, umas paqueradas, isso assim dava. Certa feita eu ia indo pra casa, eu já estava, vamos dizer, a uns três quarteirões de casa e encontrei um amigo: “Vamos pro baile de novo?” “Vamos, ué”. E eu já estava noivo (riso), olha só.  Aí, eu falei: “Vamos”. Aí, chegou lá eu vi uma moça que era amiga de um amigo. Eu fiquei conversando com ela e falei assim: “Nossa, será que dá pra eu sair com essa menina uma hora escondido?”. Acabamos casando. Olha aí, foi um rolo, nossa senhora! Como que eu fiz? Tomei uns goles, né, e liguei pra outra: “Ó, não estou indo mais aí não”. Deu uma briga! Hoje temos uma filha, Maria Laura Aguiar Mazieiro. Foi aí que eu comecei a dar valor à vida, que antes não tinha muita importância não. Quando eu tive a minha filha, eu vi o trabalho que eu dei pro meu pai e pra minha mãe. Hoje eu vejo, nossa mãe! Hoje eu vejo como é bom ser pai. Minha filha é o mais importante pra mim hoje. Meu sonho é “estudar ela”, e dar uma vida melhor da que eu tenho pra ela. Esse é um sonho que eu quero realizar, “estudar ela”. Não que eu não tive condições de estudar, não estudei porque eu não quis, mas aí eu vou tentar. Se ela for pensar que nem eu, aí eu vou tentar explicar pra ela que no mundo de hoje é necessário, não é que nem a quarenta anos atrás, né? Eu vou falar pra ela que no mundo de hoje é. Eu quero “estudar ela” e dar uma condição de vida muito boa pra ela.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+