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História

É do lixo que eu sustento a minha filha

História de: Vanessa Meneses dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/04/2016

Sinopse

A baiana Vanessa Meneses dos Santos relembra sua infância na roça e sua mudança para São Paulo. Ela conta em seu depoimento como era viver em Pirituba, onde pedia dinheiro no farol, brincava com os amigos e ia, contra a sua vontade, à escola. Hoje é casada com Luciano, é mãe de Beatriz e trabalha na Cooper Viva Bem, onde garante o sustento da família.

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História completa

Eu nasci na Bahia, em Itajubá. Meu pai é Valdeci Pereira dos Santos. Ele nasceu em Itajubá. Minha mãe é Miralva Maria Vieira de Meneses. Eu acho que nasceu na Bahia também. Em Itajubá era uma vida meio complicadinha, porque não tinha muito trabalho, aí nós tinha que capinar, às vezes não tinha o que comer. Tenho três irmãos, uma chama Valdeilda, outro se chama Vademilson e outro se chama Vadeildo. Minha mãe já não está mais aqui, ela morreu. Mas o meu pai é bem tranquilo. Nós todos trabalhávamos com capinar roça. A gente plantava mandioca, pepino, feijão, tudo.

Saí de Itajubá com seis, sete anos. Porque meu pai veio pra cá arrumar serviço, aí ele arrumou e em seguida minha mãe foi buscar nós. Ele comprou uma casa em São Paulo e nós viemos. Meu pai trabalhava em obra e minha mãe em casa de família. Nós morava ali em Pirituba. Lá nós pedia no farol, nós pedia nos carros, ia pra escola, era legal. A gente brincava de pega-pega, esconde-esconde, bambolê. A gente morava num barraco, tinha cama, tinha tudo. Fui estudar no Silvio Portugal, eu acho que era o nome da escola. Acho que foi até a segunda série, que eu ficava repetindo. Eu faltava mais do que estudava, pra ir pro farol, ficar na casa dos outros, não queria ir pra escola, ia pra casa dos amigos, nós brincava, aí acabava perdendo a hora de ir pra escola. Aí no outro dia eu nem aparecia em casa senão a minha mãe ia me bater, né, aí ficava por lá mesmo. Depois fui estudar no Euclides, eu fiquei pouco, preferi sair. Eu não gostava de estudar. Com 17, 18 anos, meu sonho era ser mãe. Aí Deus me abençoou com uma filha, a Beatriz, em 2013, quando eu tinha 20 anos. Tenho minha casa, tenho meu marido, o Luciano.

Eu conheci meu marido onde eu moro hoje. Porque minha irmã morava lá, aí eu fui morar com a minha irmã. A minha irmã vendeu a casa, aí eu fui e comprei uma, lá mesmo. Juntei um dinheiro, a minha mãe tinha me dado mais um pouco, aí eu fui e comprei uma, ali perto da Marginal, tem uma favelinha ali perto. Eu trabalhei em casa de família uns três anos pra juntar dinheiro. Meu marido morava lá em Guaianases, aí ele veio pra ver a irmã dele. Teve um forró lá mesmo, eu fui, ele estava lá e nós se conhecemo. Eu sempre gostei de dançar. Eu poderia ser uma boa bailarina (risos). No bairro que eu moro tem muito baile nos bares. O Luciano trabalha até hoje na mesma empresa, em Guaianazes, ele faz massa de pão.

Quando a Beatriz estava com dois meses eu fui trabalhar na TNT, numa firma de limpeza, depois fui pra Cooper Viva Bem. Eu já trabalhava em cooperativa. Eu saí, aí arrumei outro serviço, depois eu voltei. A primeira vez que eu trabalhei foi estranho. Eu não conhecia os materiais. Depois eu fui acostumando, é legal. Eu acho um trabalho interessante, tem gente que joga fora, mas eles não sabem o bem que faz, né? Porque entra, nós que recicla, separa os materiais tudinho. Porque eu vi na televisão que um cigarro demora não sei quanto tempo só pra dissolver.

Aqui você trabalha por produção, e nos outros lugares você não trabalhava por salário fixo. Eu gosto de trabalhar aqui. A questão da reciclagem é uma coisa muito importante pra sociedade, deixar tudo limpinho. Agora tem mais gente procurando reciclagem pra trabalhar. Antigamente os outros falavam: “Eu, trabalhar em lixo? Sai fora”. Eu falava assim: “É, mas é do lixo que eu sustento a minha filha, compro minhas coisas, compro as coisas da minha filha”. E não troco cooperativa por firma nenhuma, viu? Porque o que você ganha aqui você não ganha numa firma. Ainda mais pessoas que não sabem ler, não sabem escrever. Eu chego aqui, aí vou tomar café, arrumo meus bags. Aí espera dar a hora de ligar a esteira, todo mundo fica na sua casinha. Eu pego o material, daí na hora de ir embora aí nós vai embora. Cada dia a gente coleta um material diferente. Às vezes na casinha que eu tô, eu tô pegando tetra, que é a caixinha de leite, a outra pessoa já não pode pegar tetra, aí vai indo. Cada um faz uma coisa. Nós da esteira separa os material, os da prensa, prensa. De lá de fora faz a carga e organiza. Tem o escritório. Cada um tem uma função. Estou aqui vai fazer dois anos.

Meu sonho é construir minha casa, pagar todas minhas dívidas que são muitas (risos), e que isso aqui vai mais pra frente.

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